O Círculo

Dave Eggers · Apêndice

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O Círculo

O Círculo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

Obrigado mais uma vez por ter vindo encontrar-se comigo e com Alistair.

Acho que isso foi muito produtivo e proveitoso. O RH está a par da situação e,

para encerrar, eles sempre gostam de ter uma declaração conjunta. Portanto

digitei isto. Se achar bom, é só assinar no computador e enviar de volta.

Falha número 5616ARN/MRH/RK2

Dia: Segunda-feira, 11 de junho

Participantes: Mae Holland, Alistair Knight

Relato: Alistair do Renascimento, equipe Nove, promoveu um brunch para

todos os funcionários que demonstraram algum interesse por Portugal. Mandou

três mensagens sobre o evento e Mae, do Renascimento, Equipe Seis, não

respondeu nenhuma delas. Alistair ficou preocupado por não ter recebido

nenhum RSVP ou nenhuma comunicação de nenhum tipo da parte de Mae.

Quando o brunch ocorreu, Mae de fato não foi e Alistair compreensivelmente

ficou aflito com o motivo pelo qual ela não respondeu aos repetidos convites e

depois não compareceu ao evento. Trata-se de não participação no sentido

clássico. Hoje houve uma reunião entre Dan, Alistair e Mae, na qual Mae

explicou que não tinha certeza de ser bem-vinda num evento dessa natureza, pois

era algo promovido por um membro de uma equipe diferente e ela estava apenas

em sua segunda semana de vida na empresa. Mae sente-se muito mal por ter causado preocupação e desgaste emocional a Alistair — sem falar na ameaça à

sutil ecologia do Renascimento. Agora está tudo resolvido e Alistair e Mae são

grandes amigos e sentem-se rejuvenescidos. Todos concordam que um recomeço

em novas bases é justificado e bem-vindo.

Havia uma linha embaixo da declaração onde Mae devia pôr sua assinatura, e

ela usou a unha do dedo para assinar seu nome na tela. Enviou-a e

imediatamente recebeu um muito obrigado de Dan.

Isso foi ótimo, escreveu Dan. Alistair é obviamente um pouco sensível, mas

isso só acontece porque ele é um membro do Círculo ferrenhamente

comprometido. Assim como você, não é? Obrigado por ser tão cooperativa.

Você foi ótima. Vamos em frente!

 

* * *

 

Mae estava atrasada e torcia para que Annie ainda estivesse esperando. Era

um dia claro e quente e Mae encontrou Annie no gramado, digitando no seu

tablet com uma barra de granola dançando entre os lábios. Olhou para Mae com

os olhos entrecerrados. “Ei, você está atrasadinha.”

“Desculpe.”

“Como é que vai?”

Mae fez uma careta.

“Já sei, já sei. Acompanhei a história toda”, disse Annie, mascando de forma

extravagante.

“Pare de comer desse jeito. Feche a boca. Acompanhou mesmo?”

“Eu estava ouvindo enquanto trabalhava. Pediram para eu ouvir. E já ouvi

coisa muito pior. Todo mundo passa por algo assim no início. Aliás, coma

depressa. Quero lhe mostrar uma coisa.”

Em rápida sucessão, duas ondas atravessaram Mae. Primeiro, profundo mal-

estar por Annie ter ouvido a conversa sem que ela soubesse, seguida por uma

onda de alívio, ao saber que a amiga estava a seu lado, ainda que de forma

remota, e podia confirmar que Mae ia sobreviver.

“Você já foi?”, perguntou.

“Já fui o quê?”

“Alguma vez, você já foi repreendida desse jeito? Estou tremendo até agora.”

“Claro. Uma vez por mês, talvez. Ainda acontece. Mastigue depressa.”

Mae comeu o mais depressa que pôde, enquanto via um jogo de croquet no

gramado. Os jogadores pareciam ter criado regras próprias. Mae terminou o

almoço.

“Muito bem, levante-se”, disse Annie, e seguiram rumo à Cidade do Amanhã.

“O que foi? Seu rosto continua com um ponto de interrogação.”

“E você foi ao tal do brunch de Portugal?”

Annie fez cara de deboche. “Eu? Não, por quê? Nem fui convidada.”

“Mas por que eu fui? Não me candidatei a nada. Não tenho nada a ver com

Portugal.”

“Está no seu perfil, certo? Você já foi lá uma vez, não foi?”

“Claro, mas nunca mencionei isso no meu perfil. Estive em Lisboa, mas foi só

isso. E foi há cinco anos.”

Aproximaram-se do prédio da Cidade do Amanhã, que dava de frente para um

muro de ferro trabalhado, com um aspecto vagamente turco. Annie agitou seu

cartão sobre o leitor instalado na parede e a porta abriu.

“Você tirou fotografias?”, perguntou Annie.

“Em Lisboa? Claro.”

“E elas estavam no seu laptop?”

Mae teve de parar para pensar um pouco. “Acho que sim.”

“Então deve ter sido isso. Se estavam em seu laptop, agora estão na nuvem, e

a nuvem é vasculhada à procura de informações como essa. Você não precisa

sair por aí se inscrevendo em grupos de interesse por Portugal nem nada.

Quando Alistair quis promover seu brunch, na certa ele apenas pediu uma busca

por todo mundo no campus que tivesse visitado, tirado fotos ou mencionado

Portugal num e-mail ou qualquer coisa assim. Então, automaticamente, ele

obteve uma lista e despachou seu convite para essas pessoas. Isso economiza

umas mil horas de um trabalho absurdo. Por aqui.”

Pararam na frente de um corredor comprido. Os olhos de Annie estavam

brilhando travessos. “Tá legal. Quer ver uma coisa surreal?”

“Ainda estou abismada.”

“Não fique assim. Entre aqui.”

Annie abriu uma porta que dava para uma linda sala, uma mistura de bufê,

museu e exposição de novos produtos.

“Que loucura é essa?”

A sala parecia vagamente familiar. Mae tinha visto algo parecido na televisão.

“É que nem um desses lugares que montam cestas de presente para

celebridades, né?”

Mae deu uma olhada na sala. Havia produtos espalhados em dúzias de mesas e

plataformas. Mas aqui, em vez de joias e escarpins, havia tênis e escovas de

dentes e uma grande variedade de batatinhas fritas, bebidas e barrinhas

energéticas.

Mae riu. “Quer dizer que tudo isso é de graça?”

“Para você, para pessoas muito importantes, como você e eu, sim.”

“Meu Deus. Tudo isso?”

“É, esta é uma sala de amostras grátis. Está sempre cheia e esses produtos têm

de ser usados, de um jeito ou de outro. Convidamos grupos rotativos, às vezes

programadores, às vezes pessoal de EC, que nem você. Um grupo diferente cada

dia.”

“E é só a gente pegar o que quiser?”

“Bem, você tem de registrar seu crachá de identificação e tudo o que levar,

para que eles saibam quem levou o quê. De outro modo algum idiota podia levar

a sala inteira para casa.”

“Quer dizer que eu não vi nenhum desses produtos antes?”

“Em lojas? Não, nada disso chegou às lojas. São protótipos e exemplares de

teste.”

“Isto aqui são calças Levi’s de verdade?”

Mae estava segurando um lindo par de jeans e tinha certeza de que aquilo

ainda não existia no mundo.

“Talvez ainda passem alguns meses antes de chegarem ao mercado, talvez um

ano. Quer essa calça? Pode pedir um tamanho diferente.”

“E posso usar?”

“E o que mais poderia fazer? Limpar a bunda com ela? Sim, eles querem que

você use a calça. Você é uma pessoa influente que trabalha no Círculo! É uma

líder de estilo, uma usuária de vanguarda e tudo o mais.”

“Estas aqui são do meu tamanho, na verdade.”

“Ótimo. Leve duas. Tem uma sacola?”

Annie arranjou uma sacola de pano com o logotipo do Círculo estampado e

deu para Mae, que estava rondando um expositor de novas capas de telefone

celular e outros acessórios. Pegou uma linda capa de celular que era dura feito

pedra, mas com a superfície acamurçada.

“Droga”, disse Mae. “Não trouxe meu celular.”

“O quê? Onde ele está?”, perguntou Annie, espantada.

“Acho que ficou na minha mesa.”

“Mae, você é incrível. Sempre tão focada e controlada, mas de repente tem

esses lapsos bizarros de desorientação. Quer dizer que você foi almoçar sem seu

celular?”

“Desculpe.”

“Não. É isso que eu adoro em você. Você é assim, parte humana, parte arco-

íris. O que foi? Não fique aborrecida.”

“É que estou assimilando uma grande quantidade de informações hoje.”

“Ainda está preocupada?”

“Você acha que está tudo bem quanto àquela reunião com o Alistair e o Dan?”

“Tudo está perfeitamente bem.”

“Ele é mesmo tão sensível assim?”

Annie revirou os olhos. “Alistair? Um absurdo. Mas escreve códigos

fantásticos. O cara é uma máquina. A gente ia demorar um ano para encontrar e

treinar outra pessoa para fazer o que ele faz. Portanto a gente teve de aprender a

lidar com o doido. Aliás, por aqui há um punhado de malucos. Malucos carentes.

E existem aqueles, como o Dan, que dão corda para os malucos. Mas não se

preocupe. Não acho que você vai ter muitos problemas... pelo menos não com o

Alistair.” Annie olhou que horas eram. Tinha de ir embora.

“Não saia até essa sacola ficar cheia”, disse. “Vejo você mais tarde.”

Mae ficou e encheu sua sacola com jeans, comida, sapatos e mais algumas

capas de celular e um top esportivo. Ela saiu da sala sentindo-se como uma ladra

de lojas, mas não encontrou ninguém na saída. Quando voltou para sua mesa de

trabalho, havia onze mensagens de Annie.

Leu a primeira: Ei, Mae, saquei que eu não devia ter detonado o Alistair e o

Dan daquele jeito. Não foi lá muito gentil. Nada próprio do espírito do Círculo.

Finja que não falei nada.

A segunda: Recebeu minha última msg?

A terceira: Estou começando a ficar meio ansiosa. Por que não respondeu

minha msg?

Quarta: Acabei de mandar uma msg para seu cel, liguei para vc. O que foi?

Morreu? Merda. Esqueci que vc esqueceu seu cel. Sua besta.

Quinta: Se ficou ofendida com o que falei sobre o Dan, não precisa me dar um

gelo. Já pedi desculpas. Responda.

Sexta: Está recebendo minhas msgs? É muito importante. Ligue pra mim!

Sétima: Se está contando para o Dan o que eu falei, vc é uma vaca. Desde

quando a gente se dedura?

Oitava: Entendi que vc deve estar numa reunião. Certo?

Nona: Já passaram vinte e cinco minutos. O que HOUVE?

Décima: Acabei de checar e vi que vc voltou para sua mesa. Me ligue neste

instante ou não quero mais saber de vc. Pensei que nós éramos amigas.

Décima primeira: Alô?

Mae ligou para Annie.

“O que é isso, sua louca?”

“Onde você se meteu?”

“Estive com você vinte minutos atrás. Terminei de pegar umas coisas na sala

de amostras, fui ao banheiro e agora estou aqui.”

“Você me dedurou?”

“Fiz o quê?”

“Você me dedurou?”

“Annie, que história é essa?”

“Me responda.”

“Não, eu não dedurei você. Para quem?”

“O que falou para ele?”

“Para quem?”

“Para o Dan”

“Eu nem falei com ele.”

“Você mandou uma mensagem para ele?”

“Não. Porra, Annie.”

“Jura?”

“Juro.”

Annie suspirou. “Tá legal. Foda-se. Desculpe. Mandei uma mensagem para

ele e liguei para ele e ele não respondeu. E depois não tive nenhuma resposta de

você, e meu cérebro simplesmente misturou tudo isso de um jeito doido.”

“Porra, Annie.”

“Desculpe.”

“Acho que você está estressada.”

“Não, estou bem.”

“Vamos tomar uns drinques juntas esta noite.”

“Não, obrigada.”

“Por favor.”

“Não posso. A gente está com muita coisa rolando aqui esta semana. Tenho de

tentar dar um jeito nessa supermerda que deu em Washington.”

“Washington? O que houve lá?”

“É uma história muito comprida. Na verdade, não posso contar.”

“Mas é você que tem de resolver o assunto? Tudo lá de Washington?”

“Eles passam para mim uma parte do material das discussões com o governo

porque, sei lá, porque acham que minhas covinhas ajudam. Talvez seja isso. Sei

lá. Bem que eu gostaria que houvesse cinco de mim.”

“Você parece estar muito mal, Annie. Tire uma noite de folga.”

“Não, não. Vou ficar bem. Só que tenho de responder as pesquisas de uma

subcomissão. Vou ficar bem, pode deixar. Mas é melhor desligar. Adoro você.”

E desligou o telefone.

Mae ligou para Francis. “Annie não quer sair comigo. Você quer? Hoje à

noite?”

“Sair sair? Tem uma banda que vai tocar aqui hoje. Conhece os Creamers?

Vão tocar na Colônia. É um show beneficente.”

Mae disse que sim, parecia boa ideia, mas quando chegou a hora ela viu que

não queria ver uma banda chamada Creamers que tocava na Colônia. Mae convenceu Francis a entrar no carro dela e foram para San Francisco.

“Você sabe para onde estamos indo?”, perguntou Francis.

“Não. O que você está fazendo?”

Ele estava digitando freneticamente no seu celular. “Estou só dizendo para

todo mundo que não vou mais.”

“Terminou?”

“Terminei.” Largou o celular.

“Ótimo. Vamos beber primeiro.”

Estacionaram o carro no centro da cidade e acharam um restaurante que

parecia tão horrível, com fotos desbotadas e nada apetitosas da comida coladas

desajeitadamente nas janelas, que acharam que devia ser barato. Tinham razão, e

comeram curry e beberam Singha, sentaram em cadeiras de bambu que rangiam

e mal conseguiam se manter de pé. Em algum ponto no fim da primeira cerveja,

Mae resolveu que ia tomar mais uma, rapidamente, e que pouco depois do jantar

ia dar um beijo em Francis na rua.

Terminaram de jantar e ela fez aquilo.

“Obrigado”, disse ele.

“Vai só me agradecer?”

“Você me salvou de um enorme tumulto interior. Nunca dei o primeiro passo

em toda minha vida. Mas em geral as mulheres levam semanas para entender

que elas é que vão ter de tomar a iniciativa.”

Mais uma vez, Mae teve a sensação de ser atordoada por informações que

complicavam seus sentimentos a respeito de Francis, que num momento parecia

tão meigo e no outro, muito estranho e sem filtros.

No entanto, porque Mae estava se deleitando com uma Singha, levou-o pela

mão de volta ao seu carro, onde se beijaram mais, estacionados num cruzamento

muito movimentado. Um morador de rua estava olhando para eles da calçada,

como um antropólogo, enquanto fingia que tomava notas.

“Vamos embora”, disse ela, e saíram do carro e andaram a esmo pela cidade.

Acharam uma loja de suvenires japoneses aberta e, perto dela, também aberta,

uma galeria cheia de pinturas de quadris humanos no estilo fotorrealista.

“Fotos grandes de bundas grandes”, comentou Francis, quando encontraram

um banco num beco transformado em praça, onde as lâmpadas dos postes, no

alto, criavam uma luminosidade parecida com o luar. “Aquilo era arte de

verdade. Não consigo acreditar que ainda não venderam nada.”

Mae lhe deu outro beijo. Ela estava a fim de beijar e, sabendo que Francis não

faria nada de agressivo, sentia-se à vontade, beijou-o mais, sabendo que a noite

seria só de beijos. Ela se empenhou nos beijos, fez deles uma volúpia maldosa, e

uma amizade, e a possibilidade do amor, e beijou Francis pensando no seu rosto, imaginando se seus olhos estariam abertos, se ele se importava com o pedestre

que passou e estalou os lábios ou com outro, que assoviou e seguiu seu caminho.

 

Nos dias seguintes, Mae entendeu que aquilo podia ser verdade, que o sol

podia ser seu halo, que as folhas podiam existir para se encantar com cada passo

que ela dava, para incentivá-la a ir em frente, para parabenizá-la pelo tal Francis,

pelo que os dois tinham feito. Eles tinham celebrado seu brilho, sua juventude,

sua liberdade, suas bocas molhadas, e tinham feito aquilo em público,

municiados pelo conhecimento de que, quaisquer que fossem as agruras que

tivessem enfrentado ou fossem enfrentar, estavam trabalhando no centro do

mundo e tentavam fervorosamente torná-lo melhor. Tinham motivos para se

sentir bem. Mae se perguntou se não estaria apaixonada. Não, ela sabia que não

estava apaixonada, mas estava, sentia isso, pelo menos em parte. Naquela

semana, ela e Francis almoçaram juntos muitas vezes, ainda que rapidamente, e

depois de comerem, achavam um lugar para se encostar um no outro e se beijar.

Numa vez, foi embaixo de uma saída de incêndio, embaixo do Paleozoico. Outra

vez, foi no Império Romano, atrás da quadra de tênis. Ela adorava o gosto de

Francis, sempre limpo, simples feito limonada, e a maneira como ele tirava os

óculos, tinha um ar meio perdido, depois fechava os olhos e ficava com um

aspecto quase lindo, o rosto liso e descomplicado como o de uma criança. Ter

Francis por perto trazia uma nova agitação aos seus dias. Tudo era

surpreendente. Comer era surpreendente, sob o sol forte, o calor da camisa dele,

as mãos de Francis no tornozelo de Mae. Andar era surpreendente. Sentar no

Iluminismo era surpreendente, como estavam fazendo agora, à espera da Sexta

dos Sonhos no Salão Principal.

“Preste atenção”, disse Francis. “Eu acho que você vai gostar muito disso.”

Francis não ia contar para Mae qual era o assunto da palestra de inovação de

sexta-feira. O orador, Gus Khazeni, parecia ter feito parte do projeto de

segurança infantil de Francis, antes de ter caído fora, quatro meses atrás, para

comandar uma unidade nova. Hoje seria a primeira apresentação de suas

descobertas e de seu novo plano.

Mae e Francis sentaram perto do palco, a pedido de Gus. Ele queria ver alguns

rostos amigos enquanto falava pela primeira vez no Salão Principal, disse

Francis. Mae virou-se para dar uma geral na plateia, viu Dan algumas fileiras

atrás, e Renata e Sabine sentadas juntas, concentradas num tablet pousado entre

as duas.

Eamon Bailey subiu ao palco para puxar os aplausos.

“Bem, hoje temos uma atração de verdade para vocês”, disse ele. “A maioria

aqui conhece nossa prata da casa e pau para toda obra, Gus Khazeni. E a maioria de vocês sabe que ele teve uma inspiração há pouco tempo e que nós o

incentivamos a levar sua ideia adiante. Hoje ele vai fazer uma pequena

apresentação e acho que vocês vão gostar muito.” Com isso, Eamon Bailey

cedeu o palco para Gus, que tinha a estranha combinação de uma beleza

sobrenatural com uma atitude tímida de um camundongo. Ou pelo menos era o

que parecia, quando caminhou bem de leve pelo palco, como se quisesse andar

na ponta dos pés.

“Muito bem, se vocês são iguais a mim, vocês são solteiros, patéticos e uma

eterna decepção para sua família persa — mãe, pai e avós —, que os veem como

um fracasso por não terem esposa e filhos a essa altura da vida, porque vocês são

patéticos.”

Risos na plateia.

“Será que usei a palavra patético duas vezes?” Mais risos. “Se minha família

estivesse aqui, usaria muitas vezes mais.”

“Muito bem”, prosseguiu Gus, “mas vamos dizer que você quer agradar à sua

família, e talvez a você mesmo também, encontrando um par. Há alguém aqui

interessado em encontrar um par?”

Algumas poucas mãos se levantaram.

“Ora, vamos lá, seus mentirosos. Por acaso eu sei que sessenta e sete por

cento do pessoal dessa empresa é solteiro. Portanto estou falando com vocês. Os

outros trinta e três por cento podem ir para o inferno.”

Mae riu bem alto. A dicção de Gus era perfeita. Ela se inclinou para Francis:

“Adorei esse cara.”

Ele prosseguiu: “Talvez vocês já tenham experimentado outros sites de

relacionamento. Digamos que você arranjou um par e que está tudo bem e que

você vai sair para um encontro. Tudo certo, a família está contente, eles

alimentam brevemente a ideia de que você não representa um uso inútil de seu

DNA compartilhado.

“Pois bem, no instante em que você chama alguém para sair, você está

ferrado, certo? Na verdade, você não está ferrado. Você está no celibato, mas

quer mudar isso. Então passa o resto da semana queimando os neurônios,

pensando aonde levar a pessoa — comida, concerto, museu de cera? Algum tipo

de inferninho? Você não tem a menor ideia. Uma escolha errada e você vai fazer

papel de idiota. Você sabe que tem uma grande variedade de gostos, de coisas

que você curte, e a pessoa também, provavelmente, mas aquela primeira escolha

é importante. Você precisa ajudar a passar a mensagem correta — a mensagem

de que você é sensível, intuitivo, decidido, tem bom gosto e que você é perfeito.”

A multidão estava dando risadas; não tinha parado de rir. A tela por trás de

Gus agora mostrava uma grade de ícones, com uma clara lista de informações abaixo de cada um deles. Mae conseguiu distinguir o que pareciam ser símbolos

de restaurantes, cinema, música, compras, atividades ao ar livre, praias.

“Muito bem”, prosseguiu Gus. “Portanto, verifiquem bem isso e lembrem-se

de que se trata de uma versão beta. É chamado LuvLuv. Tá legal, talvez esse

nome seja babaca. Na verdade, sei que é mesmo babaca e estamos trabalhando

nessa questão. Mas é assim que a coisa funciona. Quando você encontrou

alguém e sabe o nome da pessoa, você fez contato, planejou um encontro, é

nessa hora que entra o LuvLuv. Talvez vocês já tenham memorizado a página do

site de relacionamento que a pessoa usa, sua página pessoal, todos seus feeds.

Mas o LuvLuv fornece um conjunto de informações totalmente distinto. A gente

dá o nome do nosso par. Esse é o início. Então LuvLuv varre a internet e utiliza

um mecanismo de busca poderoso e muito cirúrgico com o objetivo de garantir

que a gente não faça um tremendo papel de bobo, que a gente possa encontrar

amor e produzir netos para nossas mães, que acham que a gente é estéril.”

“Você é incrível, Gus!”, bradou uma voz feminina na plateia.

“Obrigado! Quer sair comigo?”, disse ele. “Estão vendo? É por isso que eu

preciso de ajuda. Agora, para testar o programa, acho que precisamos de uma

pessoa de verdade que queira descobrir mais coisas a respeito de um potencial

interesse romântico. Temos algum voluntário?”

Gus olhou para a plateia, procurando em redor de forma teatral, com a mão

fazendo sombra nos olhos.

“Ninguém? Ah, espere. Estou vendo uma mão erguida.”

Para horror de Mae, Gus estava olhando na direção dela. Mais

especificamente, olhava para Francis, cuja mão estava levantada. E antes que ela

pudesse lhe dizer qualquer coisa, Francis tinha se erguido da cadeira e

caminhava na direção do palco.

“Vamos dar uma salva de palmas para esse corajoso voluntário!”, disse Gus, e

Francis subiu a escadinha aos saltos e foi envolvido na luz quente do refletor, ao

lado de Gus. Não tinha olhado para Mae desde o instante em que deixara o

assento a seu lado.

“Então, qual seu nome, senhor?”

“Francis Garaventa.”

Mae achou que ia vomitar. O que estava acontecendo? Isso não é real, disse

para si mesma. Será que ele ia realmente falar sobre ela no palco? Não,

tranquilizou-se Mae. Ele está só querendo ajudar um amigo e eles farão uma

demonstração usando nomes fictícios.

“Muito bem, Francis”, prosseguiu Gus, “suponho que você tenha alguém que

gostaria de namorar, não é?”

“Sim, Gus, é isso mesmo.”

Mae, entontecida e aterrorizada, no entanto, não pôde deixar de perceber que,

no palco, Francis havia se transformado, assim como ocorrera com Gus. Ele

estava representando um papel, pondo as manguinhas de fora, fingindo-se de

tímido, mas fazia aquilo com enorme confiança.

“E essa pessoa é uma pessoa real?”, perguntou Gus.

“Claro”, respondeu Francis. “Não quero mais namorar pessoas imaginárias.”

A plateia riu animada e o estômago de Mae afundou para dentro dos sapatos.

Ah, merda, pensou ela. Ah, merda.

“E qual o nome dela?”

“Ela se chama Mae Holland”, respondeu Francis, e pela primeira vez olhou na

direção dela. O rosto de Mae estava coberto por suas mãos, os olhos espiavam

entre os dedos trêmulos. Com uma quase imperceptível inclinação da cabeça,

Francis pareceu notar que Mae não estava totalmente confortável com o

desenrolar da situação até ali, porém assim que Francis se deu conta disso,

voltou-se para Gus, rindo como um apresentador de programa de televisão.

“Muito bem”, disse Gus, digitando o nome dela no tablet. “Mae Holland.” Na

caixa de busca, o nome dela apareceu em letras de um metro na tela ao fundo.

“Então o Francis quer sair com Mae e não quer fazer papel de bobo. Qual é

uma das primeiras coisas que ele precisa saber? Alguém tem um palpite?”

“Alergias?”, berrou alguém.

“Muito bem, alergias. Posso fazer uma busca.”

Deu um clique num ícone que representava um gato espirrando e

imediatamente apareceu uma estrofe, abaixo.

Provável alergia a glúten.

Sem dúvida alergia a cavalo.

A mãe tem alergia a nozes.

Nenhuma outra alergia provável.

“Muito bem. Posso clicar em qualquer desses itens e descobrir mais coisas.

Vamos experimentar o do glúten.” Gus clicou na primeira linha e revelou uma

lista mais complexa e mais densa de links e de caixas de texto. “Agora, como

podem ver, LuvLuv buscou tudo que Mae já postou. Combinou essas

informações e analisou sua relevância. Talvez Mae tenha mencionado o glúten.

Talvez tenha comprado ou comentado sobre produtos sem glúten. Isso indicaria

que provavelmente é alérgica a glúten.”

Mae queria ir embora do auditório, mas sabia que aquilo chamaria mais

atenção do que se ficasse.

“Agora, vamos examinar a questão do cavalo”, disse Gus e clicou no item

seguinte. “Aqui podemos fazer uma afirmação mais categórica, pois foram

encontrados três exemplos de mensagens postadas que dizem de forma direta, por exemplo, eu sou alérgica a cavalos.”

“Então isso ajuda você?”, perguntou Gus.

“Ajuda”, respondeu Francis. “Eu estava pensando em levá-la a algumas

cocheiras para comer pão fermentado.” Ele fez uma careta para a plateia. “Agora

eu sei!”

A plateia riu e Gus fez que sim com a cabeça, como se dissesse: Não somos

uma dupla incrível? “Muito bem”, prosseguiu Gus, “agora notem que as

menções à alergia a cavalo remontam a 2010, e provêm justamente do Facebook.

Pensem melhor, todos vocês que acharam que foi bobagem nossa pagar o que

pagamos pelos arquivos do Facebook! Muito bem, sem alergias. Mas vamos

conferir mais de perto. O que eu tinha em mente era isto: comida. Você achou

que devia levá-la para jantar, Francis?”

Francis respondeu corajosamente. “Sim, achei, Gus.” Mae não estava

reconhecendo aquele homem no palco. Para onde tinha ido o Francis? Ela queria

matar aquela versão do Francis.

“Muito bem, é nesse ponto que em geral as coisas ficam feias e tolas. Não há

nada pior do que o vaivém. ‘Onde você quer comer?’ ‘Ah, qualquer lugar está

bom.’ ‘Não, falando sério, qual é a sua preferência?’ ‘Para mim não importa.

Qual é a sua?’ Chega desse papo furado. LuvLuv elimina esse problema para

vocês. Toda vez que ela postou que gostou ou não gostou de um restaurante,

toda vez que ela mencionou comida, tudo é classificado e selecionado e termina

na forma de uma lista como esta.”

Clicou no ícone da comida, que revelou uma porção de listas secundárias, com

categorias de tipos de comida, nomes de restaurantes, restaurantes por cidade e

por bairros. As listas eram precárias em termos de exatidão. O programa chegava

a ponto de indicar o lugar onde ela e Francis tinham comido dias antes, naquela

mesma semana.

“Agora eu clico no lugar de que gosto e, se ela pagou pelo TruYou, vou saber

o que ela pediu na última vez em que comeu lá. Clique aqui e veja os pratos

especiais desse restaurante na sexta-feira, quando vai acontecer o nosso

encontro. Aqui está o tempo médio de espera de uma mesa nesse dia. A incerteza

está eliminada.”

Gus foi adiante e prosseguiu sua apresentação, sobre a preferência de filmes

de Mae, de locais ao ar livre para caminhar e correr, esportes prediletos,

paisagens prediletas. O resultado era exato, na maior parte, e enquanto Gus e

Francis representavam seus papéis com exagero no palco e a plateia se mostrava

cada vez mais impressionada com o programa, Mae primeiro se escondeu atrás

das mãos, depois afundou o mais que pôde na poltrona e por fim, quando sentiu

que a qualquer momento pediriam que ela subisse ao palco para confirmar o incrível poder daquela nova ferramenta, esgueirou-se de seu assento, percorreu o

corredor entre as fileiras de poltronas, cruzou a porta lateral do auditório e foi

para a luz branca e sem brilho de uma tarde nublada.

 

“Desculpe.”

Mae não conseguia olhar para ele.

“Mae. Desculpe. Não entendo por que ficou tão zangada.”

Ela não queria saber dele por perto. Mae tinha voltado para sua mesa e Francis

tinha ido atrás dela, estava parado a seu lado, feito uma ave que se alimenta de

carniça. Mae nem olhava para ele, porque, além de ter nojo e achar seu rosto

fraco e seus olhos desonestos, além de ter certeza de que jamais precisaria ver de

novo aquele rosto desgraçado, Mae tinha de trabalhar. As comportas da represa

da tarde tinham sido abertas e a enxurrada era enorme. “Podemos conversar mais

tarde”, disse ela, mas não tinha a menor intenção de falar com ele outra vez, nem

naquele dia nem em nenhum outro. Havia alívio naquela certeza.

Por fim Francis foi embora, pelo menos o eu corpóreo dele foi embora, pois

dali a minutos ele apareceu na terceira tela de Mae pedindo perdão. Disse a ela

que sabia que não devia ter envolvido Mae sem avisá-la, mas Gus havia insistido

que devia ser uma surpresa. Francis mandou quarenta ou cinquenta mensagens

no decorrer da tarde, pedindo desculpas, dizendo que Mae tinha feito um

tremendo sucesso, que como seria melhor se ela tivesse subido ao palco, porque

as pessoas bateram palmas pedindo sua presença. Francis garantiu que tudo o

que tinha sido exibido no palco era acessível publicamente, não havia nada de

constrangedor, tudo havia sido recolhido de coisas que ela mesma havia postado,

afinal.

E Mae sabia que tudo aquilo era verdade. Não tinha ficado aborrecida com as

revelações de suas alergias. Ou com suas comidas prediletas. Ela havia oferecido

abertamente aquelas informações por muitos anos e tinha a sensação de que

mostrar suas preferências e ler sobre as dos outros era uma das coisas que ela

gostava em sua vida na internet.

Portanto o que a havia humilhado tanto durante a apresentação de Gus? Mae

não conseguia identificar o motivo. Teria sido apenas a surpresa? Teria sido a

exatidão minuciosa dos algoritmos? Talvez. Mas, novamente, o resultado não

tinha sido tão exato assim, portanto qual era o problema? Ter uma matriz de

preferências que tinha sido apresentada como se fosse sua essência, o todo de

sua pessoa? Talvez fosse aquilo. Era uma espécie de espelho, mas era

incompleto, distorcido. E se Francis queria algumas ou todas aquelas

informações, por que não podia simplesmente perguntar para ela? A terceira tela

de Mae, no entanto, passou a tarde inteira repleta de mensagens de congratulações.

Você é incrível, Mae.

Bom trabalho, novata.

Nada de andar a cavalo com você. Quem sabe uma lhama?

Ela foi tocando em frente sua tarde e nem percebeu a luz piscando no telefone,

senão depois das cinco horas. Tinha perdido três mensagens de sua mãe. Quando

ouviu os recados, todos diziam a mesma coisa: “Venha para casa”.

 

Enquanto dirigia o carro por cima das montanhas e através do túnel, rumo ao

leste, ligou para a mãe e obteve os detalhes. O pai tivera um ataque, tinha ido ao

hospital, pediram para que ficasse lá à noite, em observação. A mãe disse para

Mae ir direto para lá, mas quando chegou, o pai tinha ido embora. Mae telefonou

para a mãe.

“Onde ele está?”

“Em casa. Desculpe. Acabamos de chegar. Não imaginei que você fosse

chegar tão depressa. Ele está bem.”

Então foi para casa e, quando chegou, ofegante, zangada e assustada, viu a

picape Toyota de Mercer estacionada na frente da casa e aquilo deixou Mae num

emaranhado mental. Não queria o Mercer ali. Apenas iria complicar uma cena

em si já difícil.

Mae abriu a porta e não viu nem o pai nem a mãe, mas o vulto gigante e

disforme de Mercer. Estava de pé no vestíbulo. Toda vez que via Mercer de

novo, depois de um intervalo de tempo, Mae ficava chocada ao ver como era

grande, protuberante. Agora tinha o cabelo mais comprido, o que aumentava sua

massa. A cabeça bloqueava toda luz.

“Ouvi seu carro”, disse ele. Tinha uma pera na mão.

“Por que você está aqui?”, perguntou Mae.

“Me chamaram para ajudar”, respondeu.

“Papai!” Ela passou por Mercer e entrou na sala. Ali, o pai estava repousando,

estirado no sofá, vendo um jogo de beisebol na televisão.

Ele não virou a cabeça, mas olhou na direção de Mae. “Oi, meu anjo. Ouvi

seu carro lá fora.”

Mae sentou-se na mesinha de centro e segurou a mão do pai. “Está bem?”

“Estou. Foi só um susto, na verdade. Começou forte, mas passou.” De modo

quase imperceptível, ele moveu a cabeça para a frente a fim de ver por trás de

Mae.

“Está tentando ver o jogo?”

“É a nona entrada”, respondeu.

Mae saiu da frente. A mãe entrou na sala. “Chamamos o Mercer para ajudar a pôr seu pai no carro.”

“Eu não queria ir de ambulância”, disse o pai, ainda vendo o jogo.

“E foi mesmo um ataque?”, perguntou Mae.

“Eles não têm certeza”, respondeu Mercer, da cozinha.

“Será que posso ouvir a resposta de meus próprios pais?”, retrucou Mae.

“Mercer foi nosso salva-vidas”, disse o pai.

“Por que não telefonou para mim para avisar que não era tão grave?”,

perguntou Mae.

“Mas era grave”, disse a mãe. “Era grave na hora em que telefonei.”

“Mas agora ele está assistindo beisebol na televisão.”

“Agora não é grave”, explicou a mãe, “mas por um tempo a gente não sabia

direito o que estava acontecendo. Então ligamos para o Mercer.”

“Ele salvou minha vida.”

“Não acho que o Mercer salvou sua vida, pai.”

“Não quero dizer que eu estava morrendo. Mas você sabe como eu detesto

todo aquele circo dos socorristas e da sirene tocando e os vizinhos de olho. A

gente ligou para o Mercer, ele chegou em cinco minutos, me ajudou a entrar no

carro, a entrar no hospital e foi isso. Ajudou muito.”

Mae bufou de raiva. Tinha dirigido o carro durante duas horas dominada pelo

pânico para no final encontrar o pai relaxado no sofá, vendo um jogo de

beisebol. Tinha dirigido o carro duas horas para encontrar seu ex-namorado na

casa dos pais, alçado ao posto de herói da família. E o que ela era? De certo

modo, era negligente. Era supérflua. Aquilo trazia à sua memória muitas coisas

de que não gostava no Mercer. Ele gostava de ser considerado uma pessoa

gentil, mas se empenhava para que todo mundo soubesse disso, e era aquilo que

deixava Mae furiosa, ter sempre de ouvir falar da gentileza do Mercer, sua

honestidade, sua confiabilidade, sua empatia sem fim. Mas com ela, Mercer

tinha sido hesitante, mal-humorado e inacessível em muitas vezes que ela

precisou dele.

“Quer um pouco de frango? O Mercer trouxe”, disse a mãe, e Mae decidiu que

aquilo era uma deixa para ir ao banheiro por alguns minutos, ou dez minutos.

“Vou me lavar”, disse, e subiu a escada.

 

Mais tarde, depois que todos tinham comido e recontado seu dia, explicando

como a visão do pai havia diminuído até um grau alarmante e o torpor das mãos

tinha piorado muito — sintomas que os médicos diziam ser normais e tratáveis,

ou pelo menos contornáveis — e depois que seus pais tinham ido dormir, Mae e

Mercer ficaram sentados no quintal, o calor ainda exalava da grama, das árvores,

das cercas cinzentas que os rodeava, lavadas pela chuva.

“Obrigado por ter ajudado”, disse Mae.

“Foi fácil. Vinnie está mais leve do que antigamente.”

Mae não gostou de ouvir aquilo. Não queria que seu pai ficasse mais leve, que

fosse fácil de carregar. Ela mudou de assunto.

“Como vão os negócios?”

“Ótimos. Ótimos mesmo. Na verdade tive de contratar um aprendiz na semana

passada. Não é legal? Eu tenho um aprendiz. E seu trabalho? É bacana?”

Mae ficou surpresa. Raramente Mercer se mostrava tão empolgado.

“É bacana sim”, respondeu.

“Ótimo. É bom saber disso. Eu estava torcendo para dar certo. Então você está

fazendo o quê? Programação ou algo assim?”

“Trabalho em EC. Experiência do Cliente. Agora estou tratando com os

anunciantes. Espere. Vi alguma coisa sobre seu trabalho um dia desses. Dei uma

busca no seu nome e achei um comentário sobre alguém que recebeu uma

mercadoria danificada, não é? Estavam pês da vida. Imagino que tenha visto

isso.”

Mercer deu um suspiro teatral. “Não vi.” Seu rosto ficou azedo.

“Não se preocupe”, disse Mae. “Foi só mais um desses pirados.”

“E agora isso vai ficar na minha cabeça.”

“Não ponha a culpa em mim. Eu só...”

“Você simplesmente me deixou ciente de que há algum palhaço por aí que me

odeia e quer prejudicar meu negócio.”

“Havia outros comentários também, e a maioria era favorável. Na verdade só

tinha um que era mesmo engraçado.” Ela começou a procurar no celular.

“Mae. Por favor. Estou pedindo para não ler.”

“Aqui está: ‘Todas aquelas galhadas de veados mortos só para fazer essa

merda?’.”

“Mae, pedi para não ler isso para mim.”

“Por quê? É engraçado!”

“Como é que posso lhe pedir para não fazer uma coisa de um jeito que você

respeite minha vontade?”

Era esse o Mercer de que Mae se lembrava e que ela não conseguia suportar

— irritado, mal-humorado, autoritário.

“Do que você está falando?”

Mercer respirou fundo e Mae entendeu que ele estava à beira de fazer um

longo discurso. Se houvesse um palanque à sua frente, ele subiria e tiraria do

bolso do paletó esporte as folhas de papel. Dois anos de faculdade comunitária e

já achava que era uma espécie de professor universitário. Tinha feito discursos

para Mae sobre carne bovina de origem orgânica, sobre as obras iniciais de King Crimson, e toda vez ele começava com aquela respiração funda, uma respiração

que dizia: Prepare-se, isto vai levar um tempo e deixar você alucinada.

“Mae, tenho de pedir para você...”

“Já sei, quer que eu pare de ler os comentários dos seus clientes. Está certo.”

“Não, não era isso que eu...”

“Você quer que eu leia os comentários para você?”

“Mae, que tal deixar que eu termine minha frase? Aí vai saber o que tenho a

dizer. Você vive querendo adivinhar o final de todas minhas frases e isso não

ajuda em nada, porque você nunca acerta.”

“Mas você fala tão devagar.”

“Falo normal. Você é que está impaciente.”

“Tá legal. Vamos lá.”

“Mas agora você está bufando.”

“Acho que isso me deixa entediada com muita facilidade.”

“Conversar?”

“Conversar em câmera lenta.”

“Agora posso começar? Vou levar três minutos. Pode me dar três minutos,

Mae?”

“Tá legal.”

“Três minutos em que você não sabe o que vou dizer, tá legal? Vai ser uma

surpresa.”

“Tá legal.”

“Muito bem. Mae, temos de mudar a maneira como nos relacionamos. Toda

vez que vejo ou ouço você é por meio de um filtro. Você me manda links, cita

alguém que falou de mim, diz que viu uma foto minha no mural de alguém... É

sempre esse ataque por meio de terceiros. Mesmo quando estou conversando

com você cara a cara, você me diz o que algum estranho pensa a meu respeito. É

como se nunca estivéssemos sozinhos. Toda vez que vejo você, há uma centena

de pessoas na sala. Você está sempre olhando para mim através dos olhos de

outras pessoas.”

“Não seja dramático.”

“Só quero falar com você de forma direta. Sem que você invoque a presença

de qualquer estranho neste mundo que por acaso tenha alguma opinião a meu

respeito.”

“Não faço isso.”

“Faz sim, Mae. Alguns meses atrás, você leu alguma coisa sobre mim,

lembra? Quando nos encontramos, você estava muito esquiva.”

“É porque falaram que você estava usando espécies ameaçadas de extinção

para fazer seu trabalho!”

“Mas eu nunca fiz isso.”

“Pois é, mas como é que eu ia saber?”

“Podia me perguntar! Na verdade, me pergunte. Você sabe que é muito

esquisito o fato de você, minha amiga e ex-namorada, obter informações a meu

respeito com pessoas aleatórias que nunca me viram na vida! E depois tenho de

ficar sentado na sua frente e parece que estamos olhando um para o outro em

meio a uma neblina estranha.”

“Está bem, desculpe.”

“Promete que vai parar de fazer isso?”

“Parar de ler na internet?”

“Não me importa o que você lê. Mas quando eu e você nos comunicamos,

quero fazer isso de forma direta. Você escreve para mim, eu escrevo para você.

Você me faz perguntas e eu respondo. Você para de pegar notícias sobre mim

com terceiros.”

“Mas, Mercer, você é dono de um negócio. Precisa estar on-line. Esses são os

seus clientes e é desse jeito que eles se expressam e é desse jeito que você sabe

como está sendo avaliado.” A mente de Mae fervilhava com uma dúzia de

ferramentas do Círculo que ela sabia que podiam ajudar Mercer em seu negócio,

porém Mercer era devagar. Um cara devagar, mas que de algum modo conseguia

se mostrar muito cheio de si com o que fazia.

“Veja, isso não é verdade, Mae. Não é verdade. Vou saber se tenho sucesso se

vender lustres. Se as pessoas encomendarem, eu fizer e elas pagarem dinheiro

por isso. Se elas têm algo a dizer depois, podem me telefonar ou me escrever.

Quer dizer, toda essa história em que você está metida, tudo isso não passa de

fofoca. Pessoas falando umas das outras pelas costas. É isso o que representa a

grande maioria das mídias sociais, todos esses comentários, todas essas críticas.

Suas ferramentas têm fofocas, boatos e conjecturas de alto nível, erguidos ao

plano da comunicação válida, dominante. No fundo, é tudo pura babaquice.”

Mae bufou pelas narinas.

“Adoro quando você faz assim”, disse Mercer. “Isso significa que você não

tem nenhuma resposta? Escute, vinte anos atrás, era descolado ter um relógio de

pulso com calculadora, certo? E passar o dia inteiro dentro de casa mexendo no

relógio de pulso com calculadora era enviar uma clara mensagem de que a

pessoa não estava se saindo muito bem socialmente. E julgamentos como

‘curtir’, ‘não curtir’, ‘sorriso’ e ‘cara feia’ eram coisa restrita a adolescentes.

Alguém escrevia um bilhete que dizia: ‘Você gosta de unicórnios e adesivos?’, e

a gente respondia: ‘Sim, eu gosto de unicórnios e adesivos! Sorriso!’. Esse tipo

de coisa. Mas agora não são mais os adolescentes que fazem isso, é todo mundo,

e me parece às vezes que entrei numa zona invertida, num mundo de espelhos onde a merda mais idiota do mundo é totalmente dominante. O mundo ficou

idiota.”

“Mercer, para você é importante ser descolado?”

“Dou essa impressão?” Passou a mão sobre a barriga em expansão e sobre a

roupa surrada. “É óbvio que não sou nenhum mestre em matéria de ser

descolado. Mas lembro quando você via o John Wayne ou o Steve McQueen e

dizia: Puxa, esses caras são durões. Andavam a cavalo e de motocicleta e

percorriam o mundo fazendo justiça e lutando contra as coisas ruins.”

Mae não pôde conter o riso. Viu a hora no celular. “Já passaram mais de três

minutos.”

Mercer foi em frente assim mesmo. “Agora os astros do cinema imploram às

pessoas que sigam seus feeds no Zing. Enviam mensagens de apelo pedindo que

todo mundo sorria para eles. E o spam, caralho! Todo mundo despacha lixo pelo

correio. Sabe como eu desperdiço uma hora por dia? Pensando em maneiras de

cancelar minha assinatura de listas de discussão sem magoar as pessoas. Existe

essa nova carência — ela permeia tudo.” Mercer deu um suspiro, como se

tivesse formulado ideias muito importantes. “É um planeta muito diferente.”

“É diferente de um jeito bom”, disse Mae. “Existem mil aspectos em que ele é

melhor e posso até fazer uma lista. Mas não posso fazer nada se você não é

social. Quero dizer, suas necessidades sociais são mínimas...”

“A questão não é que eu não seja social. Sou social o bastante. Mas as

ferramentas que vocês inventam na verdade fabricam de modo artificial

necessidades sociais excessivas. Ninguém precisa do nível de contato que vocês

fornecem. Ele não serve para aprimorar nada. Ele não nutre ninguém. É que nem

esses salgadinhos. Sabe como criam essas comidas? Eles determinam de forma

científica exatamente quanto sal e quanta gordura precisam incluir para fazer a

pessoa continuar comendo. Você não tem fome, não precisa comer, aquilo não

traz nada para você, mas você continua devorando aquelas calorias vazias. É isso

que vocês estão empurrando. A mesma coisa. Infinitas calorias vazias, mas o

equivalente na forma sociodigital. E vocês calibram as doses para que o negócio

fique igualmente viciante.”

“Ah, meu Deus.”

“Você sabe como é quando acaba de comer um saquinho de batatas fritas e

fica com raiva de si mesmo? Você sabe que não fez nada de bom para si. É a

mesma sensação e você sabe que é assim, depois de um porre digital. Você se

sente exaurido, oco e diminuído.”

“Eu nunca me sinto diminuída.” Mae pensou na petição que havia assinado

naquele mesmo dia pedindo mais oportunidades de emprego para imigrantes

residentes nos subúrbios de Paris. Era estimulante e produziria impacto. Mas Mercer não sabia daquilo nem de nada que Mae fazia, de nada que o Círculo

fazia, e ela estava cheia demais dele para explicar aquilo tudo.

“E está eliminada minha capacidade de falar com você.” Ele ainda estava

falando. “Quero dizer, não posso mandar e-mails para você, porque

imediatamente vai reenviá-los para outra pessoa. Não posso lhe mandar uma

foto, porque você vai postá-la em seu perfil. E enquanto isso sua empresa vai

reunindo os dados de todas as suas mensagens para obter informações que eles

possam transformar em dinheiro. Não acha isso uma loucura?”

Mae olhou para o rosto gordo dele. Mercer estava engordando em todos os

lados. Parecia estar criando uma papada. Será que um homem de vinte e cinco

anos já podia ter papada? Não era de admirar que estivesse pensando em

salgadinhos.

“Obrigado por ajudar meu pai”, disse Mae, que entrou em casa e esperou que

ele fosse embora. Mercer levou alguns minutos para fazer isso — fez questão de

beber sua cerveja até o fim —, mas logo depois saiu e Mae apagou as luzes do

térreo, foi para seu antigo quarto e se jogou na cama. Conferiu suas mensagens,

achou algumas dúzias que mereciam sua atenção. Depois, como eram só nove

horas e os pais já tinham ido dormir, ela entrou em sua conta do Círculo e

preencheu algumas pesquisas, sentindo, a cada solicitação atendida, que estava

extirpando o Mercer de si mesma. À meia-noite sentiu-se renascida.

 

No sábado, Mae acordou em sua antiga cama e, depois do café da manhã,

sentou-se ao lado do pai e os dois ficaram vendo uma partida de basquete

feminino profissional, uma coisa que ele tinha começado a fazer com grande

entusiasmo. No resto do dia, jogaram baralho, deram uma volta à toa e

cozinharam uma galinha sauté que seus pais tinham aprendido a fazer numa aula

de culinária a que assistiram na ACM.

No domingo de manhã, a rotina foi a mesma: Mae dormiu até tarde, sentindo-

se pesada, mas com uma sensação boa, e quando acordou foi para a sala de tevê,

onde o pai estava de novo vendo uma partida da liga de basquete feminino.

Dessa vez, ele vestia um roupão grosso e branco que um amigo dele tinha

surrupiado de um hotel em Los Angeles.

A mãe estava do lado de fora, usando fita isolante para consertar uma lata de

lixo de plástico que os guaxinins tinham estragado ao tentar tirar seu conteúdo.

Mae sentia-se lesada, o corpo relutante em fazer qualquer coisa que não deitar.

Ela se deu conta de que tinha permanecido em constante estado de alerta durante

uma semana inteira e que não tinha dormido mais que cinco horas em todas as

noites. Ficar simplesmente sentada na sala da casa dos pais, vendo aquela partida

de basquete na televisão, algo que não significava nada para ela, todos aqueles rabos de cavalo e aquelas tranças pulando, todos aqueles guinchos dos tênis

roçando no piso da quadra, aquilo era algo restaurador e sublime.

“Você acha que pode me ajudar a me levantar, meu anjo?”, perguntou o pai.

Os punhos do pai estavam afundados no sofá, mas ele não conseguia se erguer.

O estofamento era fofo demais.

Mae se levantou e segurou a mão do pai, porém, quando o fez, ouviu um leve

som líquido.

“Sacanagem”, disse ele e começou a sentar de novo. Em seguida corrigiu sua

trajetória e inclinou-se de lado, como se tivesse acabado de lembrar que havia

algo frágil sobre o qual não podia sentar.

“Pode chamar sua mãe?”, pediu ele, com os dentes cerrados, os olhos

fechados.

“O que houve?”, perguntou Mae.

Ele abriu os olhos e havia neles uma raiva incomum. “Por favor, chame sua

mãe para mim.”

“Estou aqui. Deixe que eu ajudo”, disse Mae. Segurou a mão do pai outra vez.

Ele a rechaçou.

“Chame. Sua. Mãe.”

E então o cheiro a atingiu. Ele tinha se sujado.

Ele deu um suspiro bem alto, se recompondo. Agora com uma voz mais

suave, falou: “Por favor, querida. Chame sua mãe”.

Mae correu até a porta da frente. Encontrou a mãe na garagem e lhe contou o

que havia acontecido. A mãe de Mae não foi correndo para dentro de casa. Em

vez disso, segurou as mãos de Mae nas suas.

“Acho que é melhor você voltar agora”, disse. “Ele não vai querer que você

veja isso.”

“Posso ajudar”, disse Mae.

“Por favor, meu anjo. Você tem de garantir a seu pai certa dignidade.”

“Bonnie!” A voz dele explodiu dentro da casa.

A mãe de Mae agarrou a mão da filha. “Mae, querida, pegue suas coisas. A

gente se vê de novo daqui a algumas semanas, está bem?”

 

Mae voltou de carro para o litoral, o corpo tremendo de raiva. Eles não tinham

nenhum direito de fazer aquilo, chamá-la para casa e depois mandá-la embora.

Ela não queria sentir o cheiro do cocô do pai! Ela ia ajudar, toda vez que lhe

pedissem, mas não se a tratassem daquele jeito. E o Mercer! Ele lhe passou um

sermão dentro de sua própria casa. Meu Deus. Os três. Mae tinha viajado duas

horas de carro e agora ia gastar outras duas para voltar, e o que todo aquele

Continuar: parte 6 de 11