O estranho

Camilla Läckberg · Capítulo 5 de 10 · parte 3/3

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O estranho

Capítulo 5

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

– Havia as m esm as evidências físicas? – Hanna perguntou, com a testa franzida. – Hem atom as ao redor da boca, resíduo de fita adesiva etc.?

Nesse ponto, Patrik, um tanto frustrado, coçou a cabeça.

– Infelizm ente, essa inform ação não consta. Esse caso, em que a vítim a era um hom em de trinta e um anos cham ado Rasm us Olsson, foi considerado à época com o um suicídio, em que prim eiro Olsson ingeriu bebida alcoólica e depois teria se atirado de um a ponte. Então a investigação foi baseada nessa hipótese. E eles não foram tão exigentes com as provas quanto deveriam ter sido. Mas há fotos da autópsia e eu fui autorizado a vê-las. Do ponto de vista de um leigo, parecia haver traços de hem atom as em torno dos punhos e da boca, m as eu enviei as fotos para serem avaliadas por Pedersen. E então passei a noite em claro estudando o m aterial que m e foi dado e para m im não há dúvida de que existe algum tipo de conexão.

– Então, o que está dizendo – disse Gösta, em tom cético – é que alguém prim eiro m atou esse cara em Borås alguns anos atrás e agora decidiu m atar Marit Kaspersen aqui em Tanum shede. Parece m eio forçado, se querem m inha opinião. Que tipo de conexão existe entre as vítim as? – Patrik com preendeu o ceticism o de Gösta, m as ainda assim ficou furioso. Um a sensação que ia até a boca de seu estôm ago o convencia de que havia um a conexão. Eles teriam que encontrar a ligação entre os dois casos.

– É isso que nós tem os que encontrar – disse Patrik. – Pensei em com eçarm os escrevendo o pouco que sabem os, então talvez j untos possam os encontrar um cam inho para seguir – ele tirou a tam pa de um a caneta e desenhou um a linha vertical bem no m eio do papel no flip chart. No topo de um a das colunas, escreveu “Marit” e na outra escreveu “Rasm us”.

– Pois bem . O que sabem os sobre as vítim as? Ou m elhor, o que sabem os sobre Marit? Eu vou preencher as inform ações sobre a m orte de Rasm us Olsson, porque sou o único que teve acesso aos detalhes daquela investigação. Mas distribuirei cópias de tudo m ais tarde.

– Quarenta e três anos – disse Martin. – Morava com sua com panheira Kerstin, tinha um a filha de quinze anos, possuía um a loj a.

Patrik anotou tudo que Martin m encionou e então virou-se com a caneta na m ão, esperando por m ais.

– Abstêm ia – disse Gösta, parecendo verdadeiram ente alerta por um m om ento. Patrik apontou para ele enfaticam ente e escreveu “ABSTÊMIA” no papel. Então escreveu rapidam ente a inform ação correspondente na coluna de Rasm us: trinta e um anos, solteiro, sem filhos, trabalhava num pet shop. Abstêm io.

– Interessante – disse Mellberg, balançando a cabeça, de braços cruzados.

– Mais algum a coisa?

– Nascida na Noruega, divorciada, tinha um relacionam ento ruim com o ex-m arido, m eticulosa... – Hanna atirou os braços para cim a quando não conseguiu pensar em m ais nada. Patrik anotou todos esses pontos. A coluna de Marit estava ficando m uito m aior que a de Rasm us. Patrik acrescentou “m eticuloso” à coluna dele tam bém ; descobrira isso durante as entrevistas com os parentes do hom em . Depois de pensar por um m om ento, escreveu “acidente?” na coluna de Marit e “suicídio” na de Rasm us.

O silêncio dos dem ais confirm ou que não havia m uito m ais a acrescentar no m om ento.

– Tem os dois indivíduos aparentem ente m uito diferentes que foram assassinados da m esm a form a anorm al. Tinham idade diferente, gêneros opostos, em pregos diferentes, situação dom éstica diferente; eles não parecem ter nada em com um exceto o fato de que eram abstêm ios.

– Abstêm ios – disse Annika. – A m im isso parece ter um som quase religioso. Pelo que sei, Marit não era particularm ente envolvida com nenhum tipo de religião form al. Ela sim plesm ente não bebia álcool.

– Sim , isso é algo que tem os que descobrir sobre Rasm us. Já que esse é o único denom inador com um que conseguim os encontrar, é um com eço tão bom quanto outro qualquer. Acho que Martin e eu deveríam os ir até Borås conversar com a m ãe de Rasm us. Então você, Gösta, pode pegar Hanna e conversar tanto com a com panheira de Marit quanto com seu ex-m arido. Descubram tudo o que for possível sobre o aspecto de sua vida relacionado à sobriedade. Havia algum a razão particular para isso? Ela fazia parte de algum tipo de organização? Qualquer coisa que possa nos dar um a pista de que tipo de conexão ela poderia ter com um hom em solteiro em Borås. Onde ela m orava antes, por exem plo. Ela algum a vez j á m orou na área de Borås?

Gösta olhou para Hanna, fatigado.

– Claro, creio que podem os fazer isso agora pela m anhã.

– Sem problem as – disse Hanna, m as ela não parecia nada feliz com essa tarefa.

– Há algo errado? – disse Patrik de m odo im pertinente a Hanna, m as se arrependendo logo depois. Ele estava tão exausto.

– De m aneira nenhum a – disse Hanna, soando irritada. – Só acho um pouco vago. Eu gostaria que tivéssem os um pouco m ais para com eçar, para não acabarm os num beco sem saída. Digo, podem os m esm o concluir que existe um a conexão? Talvez sej a apenas um a coincidência que os dois tenham m orrido da m esm a form a. Com o não há conexão óbvia entre as vítim as, a coisa toda parece m eio nebulosa. Mas isso é só a m inha opinião – ela atirou as m ãos para cim a de form a a indicar que achava que todos deveriam concordar com ela.

Patrik replicou de form a seca e com um tom frio na voz, o qual soava deslocado até m esm o para ele:

– Então eu acho que você deve guardar essa sua opinião para si m esm a por ora e fazer o trabalho para o qual foi designada.

Ele sentiu o olhar atônito dos outros sobre si enquanto saía do escritório de Mellberg. E ele sabia que estavam certos em se surpreender. Ele raram ente perdia a razão. Mas Hanna colocara o dedo na ferida. E se seus instintos os estivessem guiando para o lado errado? Ainda assim , algo lhe dizia que tinha que haver um a conexão entre os dois casos. Agora ele só precisava saber o que era.

– Sim ? – perguntou Kristina, bebendo seu chá com um a careta. Para enorm e surpresa de Erica, ela tinha declarado não beber m ais café por causa de seu “estôm ago delicado”, dando um a batidinha em sua barriga com um suspiro lam entoso. Desde que Erica a conhecia, Kristina sem pre fora um a grande consum idora de café, então ia ser interessante ver até quanto ia durar essa decisão. Erica ouviu um a longa explanação sobre com o o estôm ago de sua sogra não m ais tolerava café, por isso revirou os olhos para Anna quando Kristina deu-lhe as costas para brincar com Maj a. Erica e Patrik nunca tinham ouvido nada sobre ela ter “estôm ago sensível”, m as Kristina havia acabado de ler um artigo sobre esse m esm o assunto num a revista e rapidam ente atribuíra os sintom as a si m esm a.

– É você a queridinha da vovó? Sim , é você a queridinha da vovó, o m eu docinho... – Kristina falava com voz de criança. Maj a encarava Kristina com adm iração. Às vezes, Erica achava que sua filha j á parecia m ais inteligente que sua sogra, m as ainda estava conseguindo se segurar e não expor essa teoria a Patrik. Com o se Kristina pudesse ouvir seus pensam entos, virou-se para nora e perfurou-a com o olhar.

– E então? Com o vão as coisas com esse... casam ento? – ela perguntou sem traço nenhum de tatibitate. Para dizer a palavra “casam ento”, usou o m esm o tom que teria usado se estivesse dizendo “cocô de cachorro”. Pelo m enos, ela não esperava se envolver no planej am ento.

– Estão indo esplendidam ente. Obrigada por perguntar – disse Erica, abrindo seu sorriso m ais am ável. Por dentro, estava disparando os piores xingam entos que conhecia. Um m arinheiro teria ficado orgulhoso daquele riquíssim o vocabulário.

– Estou vendo – disse Kristina, contrariada. Erica sentia que ela havia feito a pergunta na esperança de captar um lam pej o que fosse de um desastre im inente.

Anna, que estava sentada ali por perto, observando com prazer a interação de sua irm ã com a sogra, agora j ogava um a tábua de salvação a Erica:

– Está tudo sob controle. Estam os até adiantadas, não é, Erica?

Erica assentiu com orgulho óbvio. Mas agora todos os apelidinhos que tinha em m ente eram substituídos por interrogações. Do que Anna estava falando, adiantadas? Sua irm ã estava sendo otim ista dem ais. Mas Erica não deixou transparecer sua confusão. Havia aprendido a pensar na sogra com o um tubarão. Se Kristina sentisse o m enor vestígio de sangue, m ais cedo ou m ais tarde alguém iria perder um braço. Ou um a perna.

– E quanto à m úsica? – disse Kristina em desespero, fazendo um a nova tentativa de beber seu chá. Erica tom ou um belo gole de seu café preto com o carvão e agitou um pouco a xícara para que o arom a se espalhasse para o lado de Kristina.

– Contratam os um a banda de Fj ällbacka. Eles se cham am Garage e são m uito bons.

– Estou vendo – disse Kristina com m au hum or indisfarçado. – Então vam os ter um pouco dessa m úsica pop que vocês j ovens ouvem . Nós, que som os um pouco m ais velhos, provavelm ente terem os de ir em bora m ais cedo.

Erica sentiu Anna chutar-lhe a canela. Ela não ousou olhar para a irm ã, por m edo de cair na gargalhada, m esm o não achando a situação lá m uito engraçada.

– Bem , espero que pelo m enos estej a pensando na lista de convidados. Eu j am ais poderei com parecer se tia Göta e tia Ruth não forem convidadas tam bém .

– Verdade? – Anna perguntou, inocente. – Patrik deve ser m uito ligado a elas. Ele passava m uito tem po com as tias quando era pequeno?

Kristina não im aginava que esse assunto prom overia um ataque tão traiçoeiro. Perm aneceu em silêncio por alguns segundos, enquanto reunia suas tropas para criar a estratégia de defesa.

– Bem , não, na verdade, não posso dizer que...

Anna a interrom peu, falando com a m esm a voz inocente:

– E quando foi a últim a vez que Patrik as viu? Não m e lem bro dele j am ais ter m encionado essas tias.

Com um a careta austera, Kristina foi forçada a recuar.

– Eu acho que j á faz um tem po. Patrik devia ter uns... dez anos, se bem m e lem bro.

– Então talvez devêssem os guardar esses lugares na lista para alguém que Patrik tenha visto nos últim os vinte e sete anos – disse Erica, lutando contra o desej o de estender a m ão para a irm ã bater.

– Eu acho que você vai fazer o que quiser, de qualquer form a – disse Kristina, irritada. Ela percebeu que esse tópico em seus planos podia ser considerado perdido. Mas quem não arrisca não petisca. Depois de tom ar m ais um gole de seu terrível chá, ela desferiu seu últim o golpe, com os olhos fixos em Erica:

– Espero que pelo m enos Lotta sej a a sua m adrinha!

Erica lançou a Anna um olhar desesperado. Esse era um ataque furtivo que ela não previu. Nem havia considerado pedir à irm ã de Patrik para ser sua m adrinha; é claro que queria que Anna assum isse esse papel. Erica sentou-se em silêncio por um m om ento, pensando em com o iria responder à últim a m anobra de Kristina. E então decidiu sim plesm ente pôr as cartas na m esa.

– Anna vai ser m inha m adrinha – ela disse, calm am ente. – E quanto aos outros detalhes da cerim ônia, eu quero que sej am um a surpresa. Você vai ter que esperar até o dia do casam ento.

Com um a expressão insultada no rosto, Kristina abriu a boca para protestar, m as viu o brilho do olhar duro com o aço nos olhos de Erica e se deteve. Em vez disso, ela se contentou em resm ungar:

– Bem , eu só estava tentando aj udar. Só isso. Mas se você não quer m inha aj uda, então...

Erica não disse um a palavra. Sim plesm ente sorriu e bebeu m ais um gole de café.

Patrik dorm iu o cam inho todo até Borås. Estava exaurido depois de tudo o que acontecera nas últim as sem anas e depois de ter passado a noite acordado lendo os docum entos de Gradenius. Quando acordou, j á nos arredores de Borås, sentiu torcicolo por dorm ir com a cabeça apoiada na j anela. Com um a careta, m assageou o local dolorido enquanto piscava para se acostum ar à luz.

– Estarem os lá em cinco m inutos – disse Martin. – Conversei com Eva Olsson e peguei instruções de com o chegar à casa dela. Acho que estam os perto.

– Que bom – disse Patrik, tentando organizar os pensam entos antes da entrevista. A m ãe de Rasm us Olsson havia soado tão im paciente quando eles telefonaram para ela. Ela os convidou para ir à casa dela ter um a conversa.

– Finalm ente – ela disse. – Finalm ente, alguém vai m e ouvir.

Patrik sinceram ente esperava que eles não tivessem que decepcionar a m ulher. As instruções que ela dera a Martin foram excelentes e não dem orou m uito até encontrarem o quarteirão do prédio onde ela vivia. Apertaram o botão para seu apartam ento e ouviram o som do portão eletrônico se abrindo. Dois andares acim a e a porta se abriu assim que chegaram ao andar. Um a m ulher baixa, de cabelos escuros, estava esperando por eles. Cum prim entaram -se e ela os levou à sala de estar. Tinha posto a m esa para o café com um a toalha de renda, lindas xícaras, guardanapos elegantes e garfos para bolo. Havia leite em um bulezinho fino e açúcar em um açucareiro com pinças de prata. Tudo era tão delicado e refinado que a m esa parecia ter sido posta para um chá de bonecas. Cinco tipos de docinhos tam bém estavam dispostos em um prato de porcelana decorado no m esm o padrão que as xícaras.

– Por favor, sentem -se – ela disse, apontando para o sofá com encosto floral. O apartam ento era tom ado por luz. A j anela tripla m antinha lá fora o ruído do tráfego na rua; o único som era o tique-taque de um antigo relógio na parede. Patrik reconheceu o elaborado desenho em ouro e a form a do relógio. Sua avó tinha um igualzinho.

– Vocês bebem café? Senão, eu tenho chá – ela dirigiu-lhes um olhar ansioso. Queria tanto agradá-los que isso cortou o coração de Patrik. Ele teve a im pressão de que ela não recebia m uitas visitas.

– Adoraríam os um café – ele disse e sorriu. Enquanto ela os servia com cuidado, ele pensou que ela parecia tão pequena e delicada quanto as xícaras. Devia ter entre cinquenta e sessenta anos, ele supôs, m as era difícil dizer, porque ela tinha um ar de eterna tristeza. Com o se o tem po tivesse parado. Estranho com o ela parecia saber o que ele estava pensando.

– Faz quase três anos e m eio que Rasm us m orreu – ela disse. Olhou para as fotografias que estavam distribuídas em um a escrivaninha, a um dos lados da sala. Patrik olhou tam bém e reconheceu o hom em das fotos da pasta que Gradenius lhe dera. Mas as circunstâncias daquelas im agens guardavam pouca sem elhança com os retratos naquela sala.

– Posso pegar um docinho? – Martin perguntou.

Eva Olsson assentiu, tirando os olhos das fotos de seu filho.

– Sim , por favor. Fique à vontade.

Martin pegou um doce e colocou-o no pratinho à sua frente. Olhou para Patrik, que respirou profundam ente antes de falar.

– Com o eu lhe disse ao telefone, estam os investigando novam ente a m orte de Rasm us.

– Sim , com preendo – disse Eva, cuj os olhos m ostravam um a centelha de interesse além da tristeza – O que m e intriga é por que a polícia de... Tanum shede, é isso?... é que está investigando. Não deveria ser a polícia aqui de Borås?

– Sim , tecnicam ente deveria. Mas a investigação aqui foi encerrada e nós acham os que pode haver um a conexão com um caso que tem os em nosso distrito.

– Um caso diferente? – disse Eva, surpresa, parando com a xícara a m eio cam inho dos lábios.

– Sim . Eu não posso dar detalhes no m om ento – disse Patrik –, m as nos aj udaria m uito se pudesse nos contar tudo o que aconteceu quando Rasm us m orreu.

– Bem – ela com eçou a dizer, m as hesitou. Patrik percebeu que não im portava quanto ela estivesse feliz por investigarem a m orte de seu filho, ela se sentia aterrorizada por desenterrar antigas m em órias. Ele deu-lhe tem po para organizar os pensam entos. Depois de alguns m om entos, ela continuou, com um ligeiro trem or na voz.– Era dia 2 de outubro, três anos atrás, hoj e quase três anos e m eio. Rasm us... estava m orando aqui com igo. Ele não conseguia arrum ar um lugar para si. Então eu o deixei viver com igo. Ele ia para o trabalho todo dia, saía às oito horas. Tinha aquele em prego havia oito anos e se dava bem com todos. Eles eram m uito bons para ele– ela sorriu à lem brança. – Ele sem pre costum ava vir para casa às três. Nunca se atrasava m ais de dez m inutos. Nunca. E então… – as palavras pararam em sua garganta, m as ela prosseguiu. – E então eram três e quinze, depois três e m eia e finalm ente quatro. A essa altura, eu j á sabia que havia algo errado. Sabia que algo tinha acontecido. E liguei para a polícia na hora, m as eles não m e deram atenção. Me disseram que ele provavelm ente logo estaria em casa, que ele era um adulto e que não podiam colocar um aviso de pessoa desaparecida ainda, não com m otivos tão escassos. De m inha parte, eu não acho que há m otivo m ais forte que a intuição de um a m ãe, m as quem sou eu para saber? – ela deu-lhe um sorriso abatido.

– Com o... – Martin não conseguia encontrar a m aneira correta de dizer – de quanta aj uda Rasm us necessitava diariam ente?

– Você quer dizer “o quão retardado ele era”? – Eva disse prontam ente e Martin concordou, relutante.

– A princípio, nenhum a. Rasm us tinha as m elhores notas em quase todas as m atérias e aj udava m uito em casa tam bém . Éram os só nós dois desde o com eço – ela sorriu novam ente, um sorriso tão cheio de am or e sofrim ento que Patrik teve que desviar o olhar. – Foi só depois que se envolveu em um acidente de carro, quando tinha dezoito anos, que ele... m udou. Sofreu um traum a na cabeça e nunca m ais foi o m esm o. Não podia cuidar de si m esm o, fazer planos para a vida ou m udar-se da casa da m ãe, com o a m aioria dos rapazes na idade dele. Ele ficou aqui com igo. E nós construím os um a vida j untos. Um a vida boa; eu acho que tanto Rasm us quanto eu a víam os assim . Era o m elhor que podíam os fazer dadas as circunstâncias, pelo m enos. É claro que ele tinha seus m om entos ruins, m as nós os enfrentávam os j untos.

– Esses m om entos ruins foram a razão para a polícia não investigar a m orte dele com o assassinato, estou certo?

– Sim . Rasm us tentou se m atar um a vez. Dois anos após o acidente. Quando ele finalm ente se deu conta de quanto havia m udado e de que nada m ais seria igual. Mas eu o encontrei a tem po. E ele m e prom eteu que j am ais tentaria de novo. Eu sei que ele cum priu sua prom essa – ela olhou prim eiro para Patrik e depois para Martin.

– O que aconteceu então? O que aconteceu no dia em que ele m orreu? – Patrik perguntou com cautela. Pegou um a tortinha de avelãs e am êndoas. Seu estôm ago estava roncando, dizendo a ele que j á passava da hora do alm oço, m as ele poderia enganar a fom e por algum tem po se com esse um pouco de açúcar.

– Eles tocaram a cam painha. Pouco antes das oito. Eu soube assim que os vi – a sra. Olsson pegou seu guardanapo e com cuidado enxugou um a lágrim a que descia por seu rosto. – Eles m e disseram que haviam encontrado Rasm us. Que ele tinha pulado de um a ponte. Isso… isso… era tão absurdo. Ele j am ais faria isso. E eles disseram que parecia que ele tinha bebido m uito álcool antes disso. Mas isso não fazia sentido nenhum . Rasm us nunca tocou em álcool. Não o faria, depois do acidente. Não, estava tudo errado e eu disse isso para eles. Mas ninguém acreditou em m im – ela baixou os olhos e enxugou m ais um a lágrim a. – Eles encerraram o caso depois de um tem po, determ inando a causa da m orte com o suicídio. Mas eu telefonava para o inspetor Gradenius de vez em quando, só para ele não esquecer. Eu acho de verdade que ele acreditava em m im . Pelo m enos em parte. E agora vocês aparecem .

– Sim – disse Patrik, parecendo pensativo. – Agora a gente aparece.

Ele sabia m uito bem com o era difícil para os fam iliares aceitarem a ideia de suicídio. Com o eles buscavam qualquer razão para explicar por que a pessoa que tanto am avam escolheria deixá-los voluntariam ente e causar-lhes tanta dor. Não raro, eles sabiam , lá no fundo, que realm ente fora suicídio. Mas nesse caso, Patrik estava inclinado a acreditar nas afirm ações da m ãe. O relato dela levantava tantas perguntas quanto os relatos sobre a m orte de Marit, e sua intuição de que existia um a conexão se intensificou ainda m ais.

– Você ainda tem as coisas dele em seu quarto? – ele disse im pulsivam ente.

– Sim , claro – disse Eva, levantando-se. Pareceu grata pela interrupção. – Deixei seu quarto intocado todo esse tem po. Pode parecer sentim ental, m as é tudo o que eu tenho de Rasm us. Às vezes eu entro lá e m e sento na beirada da cam a e converso com ele. Conto com o está m eu dia, com o está o tem po lá fora, o que está acontecendo no m undo. Sou um a velha louca, não? – ela disse com um a risada que ilum inou seu rosto todo.

Patrik pôde ver que ela devia ter sido m uito bonita quando j ovem . Não linda, m as bonita. Passaram por um a foto no corredor que confirm ou isso. Um a j ovem Eva segurando um bebê nos braços. Seu rosto brilhava de felicidade, m esm o sabendo que seria difícil criar um bebê sozinha. Especialm ente naquela época.

– Aqui está – disse Eva, m ostrando a eles um côm odo no fim do corredor. O quarto de Rasm us era tão elegante e organizado quanto o restante do apartam ento, m as tinha sua própria atm osfera. Era óbvio que ele m esm o o havia decorado.

– Ele gostava de anim ais – Eva disse com orgulho, sentando-se na cam a.

– Sim , dá para ver – disse Patrik, rindo. Havia im agens de bichos em todos os lugares. Ele tinha travesseiros e um a colcha de anim ais e um grande tapete com m otivo de tigre no chão.

– Seu sonho era trabalhar com o tratador no zoológico. Todos os outros m eninos queriam ser bom beiros e astronautas, m as Rasm us queria ser um tratador de zoológico. Achei que essa fase passaria, m as ele estava m uito determ inado. Pelo m enos até... – a voz dela m urchou. Ela pigarreou e passou a m ão com cuidado sobre a colcha. – Depois do acidente, ele ainda m anteve um interesse grande por anim ais. Foi... um m ilagre o deixarem trabalhar na pet shop. Ele am ava seu trabalho e era bom no que fazia. Ele era responsável por alim entar os anim ais e lim par as j aulas e os aquários. E ele fazia um ótim o trabalho.

– Podem os dar um a olhada?

Eva levantou-se.

– Levem o tem po que quiserem , perguntem o que quiserem para poderem fazer o seu m elhor e dar paz a m im e a Rasm us.

Ela saiu do quarto e Patrik trocou um olhar com Martin. Eles não precisavam dizer nada. Am bos sentiram a responsabilidade que pesava em seus om bros. Eles são queriam acabar com a esperança da m ãe de Rasm us, m as era im possível prom eter que a investigação levaria a algum lugar. Mesm o assim , eles tinham a intenção de fazer tudo o que estivesse ao seu alcance.

– Eu olho as gavetas e você pode verificar os arm ários – disse Patrik, puxando a prim eira gaveta da escrivaninha.

– Certo – disse Martin, dirigindo-se à parede que continha arm ários brancos sim ples. – Há algo em particular que estam os procurando?

– Não faço ideia, para ser sincero – disse Patrik. – Qualquer coisa que possa nos dar um a pista de que tipo de conexão pode haver entre Rasm us e Marit.

– Ok – Martin suspirou. Já era difícil encontrar algo quando sabiam o que procurar; buscar algo desconhecido e indeterm inável era um a tarefa virtualm ente im possível.

Por um a hora, eles vasculharam tudo no quarto de Rasm us. Não encontraram nada que cham asse sua atenção. Absolutam ente nada. Desanim ados, voltaram até onde estava Eva, que lim pava a cozinha. Ela veio ao encontro dos dois na porta.

– Obrigado por nos deixar olhar o quarto de Rasm us.

– De nada – ela disse, olhando para eles com um a expressão de esperança. – Encontraram algo? – o silêncio dos dois foi a resposta, e a esperança foi substituída por tristeza.

– Estávam os procurando um a conexão com um a vítim a em nosso distrito. Um a m ulher cham ada Marit Kaspersen. Soa fam iliar? Talvez Rasm us a tenha conhecido em algum lugar.

Eva pensou, m as lentam ente sacudiu a cabeça.

– Não, acho que não. Eu não reconheço o nom e.

– A única conexão aparente que encontram os é que Marit tam bém não bebia álcool, m as tam bém tinha um a grande quantidade de álcool no sangue quando m orreu. Rasm us não era m em bro de algum a sociedade de aj uda a alcoólicos, era? – perguntou Martin.

Novam ente, Eva sacudiu a cabeça.

– Não, nada disso – ela hesitou por um m om ento e então disse. – Não, ele não pertencia a nenhum grupo desse tipo.

– Está bem – disse Patrik. – Obrigado por sua aj uda, nós m anterem os contato. Tenho certeza de que terem os m ais perguntas.

– Pode m e ligar à noite se quiserem . Eu estou sem pre aqui.

Patrik teve que resistir à vontade de cam inhar alguns passos e dar um abraço forte naquela m ulher de olhos castanhos tão tristes.

Quando eles estavam prestes a sair pela porta, ela os deteve.

– Esperem . Há m ais um a coisa que pode ser do seu interesse – virou-se e foi ao seu quarto. Voltou depois de uns instantes. – Esta é a m ochila de Rasm us. Ele sem pre andava com ela. Ele estava com ela quando… – sua voz falhou. – Eu não consegui tirá-la da sacola em que veio quando voltei da polícia. Eva deu a Patrik a sacola transparente contendo a m ochila.

– Leve-a com você. Pode ter algo interessante.

Quando a porta se fechou atrás deles, Patrik ficou com a sacola nas m ãos. Olhou para a m ochila. Ele a reconheceu das fotos tiradas na cena do suposto suicídio de Rasm us. O que não era visível nas fotos, que foram tiradas à noite, era que estava coberta de m anchas escuras. Patrik viu que era sangue seco. O sangue de Rasm us.

Ela folheava im pacientem ente o diário enquanto falava ao telefone.

– Sim , eu o tenho aqui.

– Mas quanto está disposto a pagar?

– Só isso? – ela fez um a careta de decepção.

– Mas é coisa boa. Você poderia fazer um a série inteira.

– Não, então vou ligar para Hänt.

– Está bem , dez m il servem . Posso m andar entregar am anhã. Mas o dinheiro tem que estar na m inha conta até lá, senão eu desfaço o negócio.

Satisfeita, Tina fechou o celular. Saiu do centro com unitário e sentou-se em um a pedra para ler. Ela nunca chegou a conhecer Barbie. Nem quis, para falar a verdade. Mas era estranho entrar na cabeça dela depois do ocorrido. Ela virava as páginas do diário dela, lendo vorazm ente. Já podia im aginar com o alguns trechos ficariam nos j ornais sensacionalistas, com as m elhores partes sublinhadas. O que m ais a desalentava sobre o diário é que Barbie não era estúpida com o Tina im aginara. Seus pensam entos e suas observações eram bem form ulados e ocasionalm ente até bem espirituosos. Mas Tina franziu a testa quando chegou à parte que a fez decidir vender a coisa aos j ornais sensacionalistas. Ela ia arrancar essa página antes, claro. Dizia:

Ouvi hoj e quando Tina apresentou sua m úsica. Ela vai cantar à noite no

centro com unitário. Pobre Tina. Não faz ideia de com o é terrível. Me

pergunto com o é isso; com o algo que soa tão ruim do lado de fora pode

soar tão bem do lado de dentro da pessoa que está cantando? Porque é

nisso que se baseia todo o conceito do Idol, então não devia ser tão

com plicado. Claram ente foi a m ãe que colocou essa ideia na cabeça dela,

de que ela poderia ser cantora. A m ãe de Tina deve ser surda. É a única

explicação em que consigo pensar. Mas com que cara vou dizer isso para

Tina? Então eu finj o, m esm o sabendo que basicam ente eu estou lhe

fazendo um desserviço. Eu converso com ela sobre sua carreira na

m úsica, todo o sucesso que ela vai fazer, todos os shows, todas as turnês.

Mas m e sinto m uito m al, porque estou m entindo para ela. Pobre Tina.

Com raiva, Tina arrancou aquela página e rasgou em pedacinhos. Aquela puta! Se antes ela guardava algum a pena pela m orte de Barbie, certam ente não sentia m ais. Aquela vagabunda teve o que m ereceu! Ela não sabia do que estava falando. Tina enterrou os pedaços de papel com seu salto.

E então ela chegou a um a parte que a surpreendeu. Em um a das páginas, que fora escrita logo que eles chegaram a Tanum shede, Barbie havia escrito:

Há algo fam iliar nele. Eu não sei o que é. Parece que m eu cérebro

funciona em capacidade m áxim a tentando encontrar algo que está

enterrado ali. Mas eu não sei o que poderia ser. Algo na form a com o ele

se m ovim enta. Algo no m odo com o ele anda. Sei que j á o vi, m as não sei

onde. Tudo que sei é que sinto um desconforto que só piora. É com o se

algo se revirasse no m eu estôm ago e eu não conseguisse im pedir. Não até

agora. Penso tanto em papai ultim am ente. Não sei por quê. Achei que

tivesse bloqueado essas lem branças há m uito tem po. Sim plesm ente dói

dem ais lem brar. Dói dem ais ver seu sorriso, ouvir aquela voz forte e sentir

seus dedos na m inha testa quando ele penteava m eus cabelos para trás

para m e dar um beij o de boa-noite. Todas as noites. Sem pre um beij o na

testa e um na ponta do m eu nariz. Eu m e lem bro disso agora. Pela

prim eira vez em anos, eu consigo m e lem brar. E eu vej o a m im m esm a,

m eio que de fora. Vej o o que fiz com igo m esm a, o que deixei os outros

fazerem com igo. Posso ver os olhos de papai sobre m im agora. Vej o sua

confusão, sua decepção. A Lillem or dele está tão longe agora. Está

escondida atrás de toda essa angústia e água oxigenada e terror e silicone.

Eu vesti um a fantasia de baile de m áscaras em que eu pudesse m e

esconder. Assim os olhos de papai não conseguiriam m e encontrar, não

poderiam olhar para m im . Dói dem ais lem brar da form a com o ele m e

encarava. O j eito com o éram os só eu e ele por tantos anos. Com o era

seguro e caloroso. A única form a de sobreviver ao frio que veio depois era

esquecer o calor. Mas agora eu o sinto novam ente. Eu m e lem bro. Eu

sinto. E algo m e cham a. Papai está tentando m e dizer algo. Se pelo m enos

eu soubesse o quê. Mas tem algo a ver com ele. Disso eu j á sei.

Tina leu aquele trecho várias vezes. De que diabos Barbie estava falando? Ela havia reconhecido alguém aqui em Tanum shede? A curiosidade de Tina estava definitivam ente aguçada. Prendeu seus longos cabelos escuros em um rabo, que deixou cair sobre um dos om bros. Com o diário no colo, ela acendeu um cigarro e deu duas prazerosas tragadas antes de continuar a leitura. Exceto pela parte que acabara de ler, não encontrou m ais nada de interessante. Algum as im pressões do que Barbie achava dos outros participantes, alguns pensam entos sobre o futuro, o m esm o tédio que todos estavam com eçando a sentir com a vida aqui. Por um instante, Tina pensou que a polícia poderia estar interessada no diário. Mas então viu os pedacinhos da página que arrancou e rej eitou a ideia. Ela ia adorar ver os pensam entos íntim os de Barbie em letras garrafais nos j ornais. Bem feito para ela, aquela vaca m entirosa e hipócrita.

Pelo canto do olho, viu Uffe cam inhar em sua direção. Sem dúvida, queria filar um cigarro. Ela apressou-se em esconder o diário dentro da j aqueta e assum ir um a postura inocente. Era sua descoberta, e ela não tinha a m enor intenção de com partilhá-la.