O estranho
Capítulo 5
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
– Sinto que nem sem pre tenha boas notícias para te dar.
– Não, m as são sem pre im portantes – disse Patrik.
Pedersen sorriu. Era alto e forte, m as tinha um a natureza gentil que contrastava com a brutalidade que via em sua profissão. Seus óculos estavam constantem ente caindo para a ponta do nariz, e seus cabelos ligeiram ente grisalhos estavam sem pre despenteados. Sua aparência poderia enganar um observador e fazê-lo acreditar que Pedersen era distraído e descuidado. Mas isso não poderia estar m ais longe da verdade. Os papéis em sua m esa ficavam em pilhas organizadas, e as pastas e fichários estavam cuidadosam ente etiquetados nas prateleiras. Pedersen era m eticuloso com detalhes. Agora ele pegava um bloco de papéis e os estudava, antes de olhar para Patrik e falar:
– A garota foi estrangulada, sem dúvida. Há fraturas no osso hioide, assim com o no grande corno da cartilagem tiroidal. Mas ela não tinha m arcas de corda, apenas os hem atom as dos dois lados do pescoço, que correspondem a estrangulam ento m anual – ele colocou um a grande fotografia diante de Patrik e apontou os hem atom as aos quais se referia.
– Então, está dizendo que alguém a estrangulou com as m ãos.
– Sim – disse Pedersen. Ele sem pre tinha com paixão pelas vítim as que iam parar em sua m esa de autópsia, m as raram ente dem onstrava em seu tom de voz. – Um a evidência adicional de estrangulam ento é que ela teve petéquias, ou pontos de sangue na conj untiva dos olhos e na pele em torno deles.
– É necessária m uita força para estrangular alguém dessa form a? – Patrik não conseguia desviar os olhos das fotografias de Lillem or, sua face pálida e ligeiram ente azulada.
– Mais do que se im agina. Dem ora um bom tem po para estrangular alguém , e a pessoa tem que m anter pressão forte e constante na garganta. Mas nesse caso – ele tossiu e virou-se por um m om ento, antes de continuar –, nesse caso o perpetrador facilitou o próprio trabalho.
– Com o? – Patrik se inclinou para a frente, com interesse. Pedersen procurou nas páginas até encontrar o trecho que procurava.
– Aqui. Encontram os traços de sedativo em seu sistem a. Aparentem ente ela adorm eceu prim eiro e depois foi estrangulada.
– Oh, m erda – disse Patrik, novam ente olhando para as fotos de Lillem or.
– Foi possível descobrir com o o sedativo foi adm inistrado? Se foi m isturado a algum a coisa, eu quero dizer.
Pedersen balançou a cabeça.
– O estôm ago dela era um verdadeiro coquetel do dem ônio. Não tem os ideia do que ela bebeu, m as o odor de álcool era im pressionante. A garota estava extrem am ente bêbada na hora de sua m orte.
– Sim , soubem os que a festa estava boa naquela noite. Acha que ela recebeu o sedativo em um de seus drinques?
Pedersen atirou as m ãos para cim a.
– Im possível dizer.
– Ok, então ela dorm iu e foi estrangulada. Disso nós j á sabem os. Há m ais pistas?
Pedersen passou os olhos pelos papéis outra vez.
– Sim , há m ais ferim entos. Ela parece ter tom ado alguns golpes pelo corpo, e um a das faces tinha um a hem orragia tanto subcutânea quanto na m usculatura, com o se tivesse levado um a bofetada com força.
– Isso corresponde ao que sabem os sobre aquela noite – disse Patrik, sinistro.
– Ela tam bém tinha cortes profundos nos punhos. Devem ter sangrado bastante.
– Cortes – disse Patrik. Ele não havia notado isso quando a viu no cam inhão de lixo. Por outro lado, ele não tinha dado um a boa olhada nela. Tinha visto o corpo e logo desviado o olhar. Essa inform ação era inegavelm ente im portante.
– O que pode m e dizer sobre os cortes?
– Não m uito – Pedersen eriçou os cabelos e Patrik teve um a sensação de déjà-vu, pensando na im agem de si m esm o, que via no espelho nos últim os dias – Os ferim entos estão localizados de tal form a que eu não acredito que foram autoinfligidos. Se bem que isso está se tornando m oda hoj e em dia, particularm ente entre as m eninas m ais j ovens, de se cortar.
Patrik viu a im agem de Jonna na sala de entrevistas, com seus braços com pletam ente lacerados dos punhos até os cotovelos. Um a ideia com eçava a se form ar. Mas teria que esperar até m ais tarde.
– E a hora? – Patrik perguntou. – Pode dizer a que horas ela m orreu?
– Com o você sabe, nós não estam os lidando com um a ciência exata nesse caso, m as a tem peratura de seu corpo quando ela foi encontrada indica que ela m orreu após a m eia-noite. Em torno de três ou quatro da m anhã, é m eu palpite com o profissional.
– Está bem – disse Patrik, pensativo. Não se incom odou em fazer anotações. Ele sabia que receberia um a cópia do relatório da autópsia antes de sair.
– Mais algum a coisa? – podia ouvir com o soava esperançoso. Esteve tateando no escuro na sem ana anterior, sem pistas definidas para avançar a investigação. Estava pronto a se agarrar a qualquer m igalha.
– Bem , nós conseguim os tirar uns pelos interessantes de sua m ão. Estou im aginando que o perpetrador a despiu para rem over possíveis provas, m as não percebeu o fato de que ela se agarrou algo, presum ivelm ente quando estava m orrendo.
– Então eles podem não ter vindo do cam inhão de lixo?
– Não. Não, considerando a form a com o estavam presos em sua m ão fechada.
– É? – Patrik sentiu a im paciência crescer com o um calor em seu corpo. Viu, pela atitude de Pedersen, que isso era bom , que finalm ente encontraram algo útil. – Que tipo de pelos?
– Pelos de cachorro. De um galgo espanhol de pelo duro, para ser m ais exato. Isso de acordo com o Laboratório Nacional de Crim inalística. Colocou o papel com o relatório do LNC diante de Patrik. O docum ento m isericordiosam ente cobriu a foto de Lillem or.
– É possível fazer um a correspondência entre o pelo e um cão específico?
– Sim e não – respondeu Pedersen, sacudindo a cabeça de leve, com pesar. – O DNA canino é tão específico e identificável quanto o DNA hum ano. Mas, assim com o em gente, o folículo tem que estar ligado ao corpo para ser possível extrair DNA. E quando um cão perde o pelo, norm alm ente o folículo não está incluído. Nesse caso, não havia folículos. Por outro lado, um a vantagem é que o galgo espanhol é um a raça m uito incom um . Só há por volta de duzentos em toda a Suécia.
Patrik olhou para ele im pressionado, com os olhos arregalados.
– Você sabe tudo isso de m em ória? Seu conhecim ento é bem am plo, não?
Pedersen riu.
– Desde que a série CSI estreou na TV, nossa reputação aum entou m uito. Todos pensam que sabem os tudo sobre tudo! Mas, infelizm ente, eu terei que te decepcionar. Acontece que m eu sogro é um a das duzentas pessoas que criam um galgo espanhol. E toda vez que nos encontram os, eu tenho que ouvir tudo sobre o m aldito cachorro.
– Sei com o é isso. Tive um a experiência parecida. Não com a fam ília de m inha noiva; os pais dela infelizm ente m orreram em um acidente de carro há poucos anos. Mas o pai de m inha ex-m ulher. No caso, o assunto eram carros que tinham que ser vendidos.
– Sim , sogros e sogras podem ser bastante obcecados por algum as coisas, m as acho que todos nós podem os – Pedersen riu, m as logo ficou sério. – Se tiver quaisquer perguntas sobre os pelos de cachorro que foram encontrados, terá que perguntar diretam ente ao LNC. Tudo o que sei é o que passaram nesse relatório, do qual eu te darei um a cópia.
– Ótim o – disse Patrik. – Só tenho m ais um a pergunta. Não há então sinal algum de violência sexual ligada à m orte de Lillem or? Nenhum sinal de estupro ou coisa assim ?
Pedersen sacudiu a cabeça.
– Não há indício disso. O que não significa que o assassinato não tenha relação com sexo, m as não há prova que aponte para estupro.
– Obrigado por sua aj uda – Patrik disse, levantando-se de sua cadeira.
– Com o vai seu outro caso? – Pedersen perguntou de repente e Patrik caiu sentado na cadeira novam ente. Seu rosto dem onstrava culpa.
– Aquilo... aquilo infelizm ente foi negligenciado – disse, triste. – Tem sido um caos tão grande com a TV e os j ornais e os chefes ligando a cada cinco m inutos, perguntando se chegam os a algum lugar com o caso de Lillem or, que o outro foi m eio que colocado em banho-m aria. Mas isso vai m udar. Vou com eçar agora a reverter essa situação.
– Bem , quem quer que sej a o culpado deve ser preso o m ais rapidam ente possível. Nunca vi nada com o aquilo. Que m aneira m ais fria de m atar um a pessoa.
– Sim , eu concordo. – disse Patrik, apático. Estava pensando na voz de Kerstin ao telefone algum as horas antes. Com o havia soado desanim ada e desesperada. Ele não podia se perdoar por negligenciar a investigação da m orte de Marit. – Mas, com o eu disse, m inhas prioridades vão m udar a partir de agora. Espero conseguir algum as respostas hoj e m esm o – levantou-se, pegou a pilha de papéis que Pedersen havia lhe dado e agradeceu-o com um aperto de m ão.
De volta a seu carro, dirigiu-se ao local onde esperava encontrar m ais algum as respostas. Ou pelo m enos novas perguntas.
* * *
– Conseguiu algo de bom com Pedersen? – Martin escutava ao telefone e tom ava notas enquanto Patrik lhe dava um apanhado geral do que Pedersen havia dito. – A parte dos pelos de cachorro foi bem interessante. Nos dá um ponto de partida bem específico – continuou ouvindo – Cortes? Sim , entendo aonde quer chegar. Um a pessoa parece de particular interesse. Outro interrogatório? Claro. Posso pegar Hanna e levá-la com igo. Sem problem as.
Depois de um breve “tchau”, Martin desligou o telefone e perm aneceu em silêncio por um instante. E então se levantou e foi encontrar Hanna.
Exatam ente m eia hora depois, estavam sentados na sala de interrogatório, diante de Jonna. Não precisaram ir m uito longe para encontrá-la. Estava em seu local de trabalho, no Hedem y r, do outro lado da rua a partir da delegacia.
– Então, Jonna. Da últim a vez, nós falam os com você sobre a noite de sexta-feira. Há algum a coisa que gostaria de acrescentar? Pelo canto do olho, Martin viu Hanna observar Jonna com o um falcão. Tinha um olhar tão inflexível que até ele se sentia com pelido a desem buchar todos os seus pecados. Ele esperava que ela tivesse o m esm o efeito sobre a garota à sua frente. Mas Jonna evitou os olhos dela, olhou para a m esa e sim plesm ente resm ungou um a resposta.
– O que disse, Jonna? Você precisa falar m ais alto, porque nós não conseguim os ouvir o que está dizendo! – disse Hanna, insistentem ente. Martin viu com o a aspereza de sua voz forçava Jonna a olhar para ela. Era im possível não obedecer às ordens de Hanna.
Em voz baixa, m as clara, Jonna disse:
– Eu j á falei tudo o que sei sobre sexta-feira.
– Acredito que não disse – a voz de Hanna cortou o ar com o um a das lâm inas que Jonna usava em seus braços. – Eu acho que não disse nem m etade do que sabe!
– Não sei do que está falando – nervosa, Jonna puxou as m angas com pulsivam ente. Martin viu as cicatrizes sob sua blusa e estrem eceu. Ele não com preendia nada daquilo. Com o alguém podia voluntariam ente se ferir daquele j eito?
– Pare de m entir para nós! – Hanna elevou a voz e Martin tam bém teve um sobressalto. Cara, ela era durona.
Hanna prosseguiu, agora em voz insidiosam ente baixa.
– Sabem os que está m entindo, Jonna. Tem os provas de que está m entindo. Agora é a sua chance de nos dizer exatam ente o que aconteceu.
Um a som bra de incerteza passou pelo rosto de Jonna. Agora ela cutucava incessantem ente sua blusa de tricô grande dem ais. Depois de um m om ento de hesitação, ela disse:
– Não sei do que está falando.
A m ão de Hanna bateu com força no tam po da m esa.
– Pare de falar besteira! Nós sabem os que você a cortou.
Os olhos de Jonna encontraram os de Martin, angustiados, e ele disse em tom de voz m ais calm o:
– Jonna, se sabe de m ais algum a coisa, nós precisam os ouvir. Mais cedo ou m ais tarde, a verdade vai aparecer e seria m uito m elhor se você pudesse nos explicar.
– Mas... – ela olhou nervosam ente para Martin, m as deixou o corpo cair para a frente, derrotada. – Sim , eu a cortei com um a lâm ina – disse em voz baixa. – Quando estávam os brigando, antes de ela fugir.
– Por que fez isso? – perguntou Martin calm am ente, instigando-a com o olhar.
– Eu... eu... não sei bem . Eu estava tão furiosa. Ela tinha falado um m onte de coisas sobre m im , porque eu, tipo, m e corto, e eu só queria que ela soubesse com o é – ela olhou de Martin para Hanna. – Eu não entendo o porquê... Quero dizer, eu norm alm ente não fico furiosa daquele j eito, m as eu tinha bebido um pouco e... – ela parou de falar e olhou para a m esa.
Sua postura era tão retraída e triste. Martin teve que refrear o desej o de abraçá-la. Mas lem brou-se de que ela estava sendo interrogada em um a investigação de assassinato. Olhou para Hanna. O rosto dela estava rígido, sua expressão era rem ota e ela não parecia ter a m enor com paixão pela garota.
– E o que aconteceu depois disso? – ela disse bruscam ente.
Jonna fixou os olhos na m esa e respondeu.
– Foi nessa hora que vocês apareceram . Conversaram com os outros e com Barbie tam bém . Ela ergueu os olhos e olhou para Hanna. Martin virou-se para sua colega.
– Você notou que ela estava sangrando?
Hanna pareceu parar para pensar, m as então sacudiu a cabeça lentam ente.
– Não, devo adm itir que não notei. Estava escuro e ela m antinha os braços cruzados, então era difícil enxergar. E então ela saiu correndo.
– Há m ais algum a coisa que não tenha nos contado? – o tom de Martin era gentil e Jonna respondeu dando-lhe um olhar agradecido.
– Não, nada. Eu j uro – ela sacudiu a cabeça vigorosam ente e seus longos cabelos caíram sobre seu rosto. Quando ela os colocou para trás, eles viram toda a teia de cortes em seu antebraço, e Martin não conseguiu evitar um soluço de espanto. Jesus Cristo, aquilo deve ter lhe causado m uita dor. Ele não conseguia nem tirar um curativo e só de pensar em lacerar sua própria carne, não, ele nunca conseguiria fazer isso.
Depois de um a olhada interrogativa para Hanna, que ela respondeu com um aceno de cabeça, ele j untou seus papéis.
– Nós vam os voltar a falar com você, Jonna. Eu não preciso dizer que não fica bem para você guardar inform ações em um a investigação de assassinato. Confio que vá nos notificar voluntariam ente caso se lem bre ou ouça qualquer coisa.
Ela assentiu de leve.
– Posso ir agora?
– Sim , pode ir – disse Martin. Eu levo você até a porta.
Quando ela saiu da sala de interrogatório, virou-se a fim de olhar para Hanna, que estava sentada, rebobinando a fita no gravador. Tinha um a expressão lúgubre.
* * *
Dem orou um pouco até Patrik se encontrar nas ruas de Borås. Havia recebido instruções de com o chegar à delegacia, m as, um a vez lá, nada m ais parecia fazer sentido. Contudo, após algum as indicações dos m oradores locais, conseguiu encontrar a delegacia e estacionar o carro. Não precisou esperar m ais que poucos m inutos na recepção até o inspetor Jan Gradenius aparecer e levá-lo até seu escritório. Depois de um sim agradecido para um a xícara de café, Patrik sentou-se em um a das cadeiras para convidados. O inspetor sentou-se à sua escrivaninha e lançou-lhe um olhar curioso.
– Bem – disse Patrik, bebendo um gole do café, que estava m uito bom . – Tem os um caso bastante estranho em nossas m ãos, em Tanum shede.
– Refere-se ao assassinato da garota do reality show?
– Não – disse Patrik. – Recebem os um a cham ada sobre um acidente de carro na sem ana anterior ao assassinato de Lillem or Persson. Um a m ulher havia perdido o controle do carro e saído da estrada, caindo num a vala e colidindo com um a árvore. A princípio parecia se tratar de um acidente com apenas um carro e um a vítim a fatal, o que foi revisto por conta do fato de que a m ulher estava extrem am ente em briagada antes de m orrer.
– Mas não foi isso o que aconteceu? – o inspetor Gradenius inclinou-se para a frente, interessado. Tinha m ais de sessenta anos, Patrik supunha, alto e atlético e com um a farta cabeleira grisalha, m as que provavelm ente havia sido loura. Patrik não conseguiu evitar a invej a quando com parou sua calvície à abundância de cabelos de Gradenius. Percebeu que, da m aneira com o as coisas andavam , ele estaria m ais parecido com Mellberg que com Gradenius quando chegasse à idade dos dois. Patrik suspirou, bebeu m ais um gole de café e então respondeu à pergunta do inspetor.
– Não. O prim eiro sinal de que algo ali não fazia sentido é que todos os que conheciam a vítim a j uraram que ela j am ais tocara em um a gota de álcool – viu as sobrancelhas de Gradenius elevarem -se, m as seguiu fazendo seu relato. No tem po certo, o inspetor chegaria às próprias conclusões.– Isso foi inegavelm ente um sinal de alerta, e quando a autópsia indicou algum as circunstâncias estranhas, então... bem , nós finalm ente concluím os que a vítim a fora assassinada – Patrik pôde ouvir com o o j argão policial soava seco e im pessoal quando tinha que explicar o que na verdade era um a tragédia. Mas era a linguagem que am bos conheciam e cuj as nuances com preendiam .
– E o que a autópsia m ostrou? – disse Gradenius, seus olhos fixos em Patrik. Ele parecia j á saber a resposta.
– A vítim a apresentava níveis etílicos de 0,61, m as boa parte do álcool foi encontrada em seus pulm ões. Tam bém havia ferim entos e hem atom as em torno de sua boca e em sua garganta e sinais de fita adesiva ao redor dos lábios. Tam bém havia m arcas nos tornozelos e nos punhos, o que indica que a vítim a foi confinada de algum a form a.
– Eu reconheço tudo o que está m e dizendo – disse Gradenius, pegando um a pasta que estava em sua m esa –, m as com o m e encontrou?
Patrik riu.
– Docum entação exagerada, de acordo com um de m eus colegas. Nós dois estivem os na conferência em Halm stad alguns anos atrás. Um dos trabalhos era que cada grupo teria que apresentar um a conclusão para um caso não solucionado. Algo com que estávam os intrigados, m as não sabíam os com o proceder. Você apresentou um caso que m e lem brou esse nosso caso atual. Eu tinha guardado as m inhas anotações, então antes de ligar para você pude verificar se m inha m em ória não falhara.
– Nada m au, devo dizer. Estou im pressionado que tenha se lem brado. É um a sorte para nós dois. Aquele caso m e incom odou por anos, m as a investigação chegou a um beco sem saída. Ficarei feliz em te dar toda a inform ação que tem os e quem sabe você possa nos dar as suas tam bém .
Patrik concordou e pegou os papéis que Gradenius lhe oferecia.
– Posso levá-los com igo?
– Certam ente, são apenas cópias. Gostaria de repassar as inform ações com igo?
– Eu prefiro dar um a olhada sozinho antes. Posso telefonar para você depois disso; tenho certeza de que terei várias perguntas. E eu te m andarei sem falta um a cópia de nosso m aterial, o m ais rápido possível. Vou providenciar que lhe sej a enviado am anhã.
– Parece ótim o – disse Gradenius, levantando-se. – Seria m uito bom resolver esse assunto. A m ãe da vítim a está estarrecida e ainda sofre com isso. De vez em quando, ela liga para m im . Seria m aravilhoso poder ter algo a dizer a ela.
– Vam os fazer o m elhor possível – disse Patrik, apertando a m ão de seu colega. Segurando a pasta contra o peito, dirigiu-se à saída. Não via a hora de voltar e ler o arquivo. Tinha a sensação de que isso seria um a reviravolta. Tinha que ser.
Lars se atirou no sofá e colocou as pernas na m esa de centro. Estava tão cansado ultim am ente. Aquela exaustão constante e paralisante que o assolava e se recusava a deixá-lo. Suas dores de cabeça tam bém eram m ais frequentes; era com o se um a gerasse a seguinte. A exaustão e as dores de cabeça form avam um a espiral sem fim que o arrastava cada vez m ais para baixo. Massageou as têm poras, aliviando um pouco a dor. Quando sentiu a pressão dos dedos de Hanna nos seus, colocou as m ãos no colo, inclinou-se para trás e fechou os olhos. Os dedos dela continuaram a m assagear e pressionar. Ela sabia exatam ente onde friccionar. Tinha adquirido m uita prática ultim am ente.
– Com o se sente? – ela disse de m aneira suave, enquanto m ovia os dedos gentilm ente para frente e para trás.
– Bem – disse Lars, notando com o a preocupação na voz dela o invadia e se instalava com o um a irritação indesej ada. Ele não queria que ela se preocupasse. Ele detestava quando ela se preocupava.
– Você não parece bem – ela disse, acariciando-lhe a testa. A carícia era deliciosa, m as ele não conseguia relaxar por conta de todas as questões não ditas dela. Irritado, ele afastou as m ãos dela e endireitou-se na cadeira.
– Eu disse que estou bem . Só um pouco cansado. Deve ser febre da prim avera.
– Febre da prim avera? – disse Hanna com um a risada que era tanto am arga quanto irônica. – Vai culpar a prim avera, agora? – ela continuava de pé atrás do sofá.
– Sim , em que diabos você quer colocar a culpa? Talvez no fato de que eu venho trabalhando com o um louco ultim am ente. Tanto no livro quanto tentando m anter na linha aquela m olecada idiota do centro com unitário.
– Que m aneira respeitosa de falar sobre seus clientes, ou m elhor, pacientes. Você fala pra eles que os considera uns idiotas? É um bom m eio de facilitar a terapia, eu pensaria.
Sua voz era ferina e ela tinha a clara intenção de que ele sentisse a alfinetada. Ele não entendia por que ela fazia isso. Por que não podia sim plesm ente deixá-lo em paz? Lars esticou-se para pegar o controle rem oto e sentou-se no sofá, dando as costas a Hanna. Depois de zapear pelos canais por um tem po, parou em um quiz e testou seus conhecim entos contra os participantes. Ele sabia todas as respostas corretas.
– Você tem m esm o que trabalhar tanto? E naquele program a? – ela acrescentou. Tudo que ela dizia deixava o ar entre eles carregado.
– Eu tenho que trabalhar de algum a form a – respondeu Lars, desej ando que ela se calasse. Às vezes se perguntava se ela o entendia m esm o. Se com preendia tudo o que ele fazia por ela. Ele virou-se e olhou para ela.
– Eu estou fazendo o que tenho que fazer, Hanna. Com o sem pre. Você sabe disso.
Seus olhos se encontraram por um segundo. E então Hanna se virou e saiu da sala. Logo depois, ele pôde ouvir a porta da frente se fechar.
Na TV, o quiz ainda cuspia desafios.
– O que é O velho e o mar? – ele perguntou. Elas eram todas fáceis dem ais.
– Bem , o que acham do program a até agora? – Uffe abriu um a cervej a para cada um a das garotas, que deram risinhos quando as pegaram .
– Ótim o! – disse a loira.
– Muito legal! – disse a m orena.
Calle não estava com a m enor vontade de fazer isso essa noite. Uffe tinha arrastado para dentro duas garotas que ficavam do lado de fora do centro com unitário, e agora ele estava no m eio de um a azaração pesada. Até onde fosse possível, pelo m enos. Cantadas não eram seu forte.
– De quem vocês gostam m ais? – Uffe passou o braço sobre os om bros da loira e chegou m ais perto. – De m im , não é? – cutucou a m enina na altura das costelas e riu, recebendo um a risadinha encantada com o resposta. Ganhando coragem , continuou:– Bem , não é exatam ente um a com petição. Só eu sou hom em de verdade aqui dentro – bebeu um gole da cervej a diretam ente na garrafa e então apontou-a para Calle. – Esse cara, por exem plo. Um daqueles típicos m auricinhos de Stureplan, não é tipo para garotas legais com o vocês duas. Tudo que eles sabem fazer é estourar o cartão de crédito do papai – as m eninas riram e ele prosseguiu. – Mehm et, por outro lado – apontou para Mehm et, que estava deitado em sua cam a, lendo um livro –, ele é o extrem o oposto de um m auricinho que vocês possam im aginar. É um genuíno wog da classe operária. Sabe com o subir na vida, m as não consegue escapar à realidade de que o sangue sueco é o m elhor – esticou os braços e tentou enfiar a m ão debaixo da blusa da loira. Ela percebeu na hora o que ele queria fazer e, depois de um olhar ansioso para a câm era apontada para eles, tirou a m ão dele discretam ente. Uffe pareceu insatisfeito por um m om ento, m as se recuperou rapidam ente de sua derrota. Levaria um tem po para as m eninas se esquecerem da presença da câm era. Mas, depois disso, elas estavam no papo. Seu obj etivo nas poucas sem anas do program a era conseguir transar um pouquinho – ou bastante, j á que estava no assunto – debaixo das cobertas. Porra, ele poderia virar um a lenda por isso. Chegara bem perto na ilha, se pelo m enos aquela garota de Jokkm okk estivesse um pouquinho m ais bêbada. Isso ainda o em putecia e o deixava louco por vingança.
– Droga, Uffe, vam os pegar leve, está bem ? – Calle estava ficando cada vez m ais irritado.
– O que quer dizer com pegar leve? – Uffe tentou enfiar a m ão de novo, m as tam bém sem nenhum sucesso. – Não estam os aqui pra pegar leve. E eu pensando que você era o m aior festeiro daqui! Ou você é bom dem ais pra curtir em qualquer outro lugar que não Stureplan? – Uffe soou m alicioso.
Calle buscou apoio em Mehm et, m as este parecia totalm ente concentrado em seu livro de literatura fantástica. Calle sentiu m ais um a vez quanto estava cansado daquela bosta toda. Nem sabia por que tinha feito o teste, para com eçar. Survivor fora outra coisa, m as isso! Trancado aqui com esses idiotas. Fez um gesto exagerado para m ostrar que estava colocando os fones de ouvido e deitou-se, ouvindo m úsica em seu iPod. O volum e alto m isericordiosam ente calou o falatório de Uffe e ele deixou seus pensam entos correrem soltos. Foi inexoravelm ente levado ao passado. Prim eiro para as m em órias m ais antigas. Im agens de sua infância, granuladas e trem idas, com o se film adas em Super 8. Ele correndo para os braços de sua m ãe. O cheiro de seus cabelos, que era um a m istura do perfum e de gram a e verão. A sensação de segurança dos braços dela em torno de si. Ele tam bém viu seu pai rindo e olhando para eles com am or nos olhos, m as ele sem pre estava partindo, sem pre a cam inho de outro lugar. Nunca havia tem po de parar e com partilhar do abraço. Nunca havia tem po para cheirar os cabelos de m am ãe. O perfum e do xam pu do qual ele se lem brava perfeitam ente. Então o film e avançava até parar em um a im agem que era m uito m ais distinta. Totalm ente em foco. A im agem dos pés dela quando ele abriu a porta de seu quarto. Ele tinha treze anos. Fazia m uitos anos desde a época em que corria para os braços da m ãe. Havia acontecido tanta coisa. Tanta coisa havia m udado. Lem brava-se de ter cham ado um pouco irritado. Perguntava por que ela não havia respondido. Mas quando em purrou a porta, sentiu o silêncio opressivo e a prim eira sensação gélida em seu estôm ago de que algo estava errado. Aproxim ou-se lentam ente dela. Ela parecia estar dorm indo. Deitada de costas, os cabelos que eram longos quando ele era pequeno agora estavam curtos. Rugas de cansaço e am argura m arcavam seu rosto. Por um segundo, ele pensou que ela estivesse m esm o dorm indo. Dorm indo profundam ente. Então ele reparou no frasco de rem édios vazio derrubado no chão, ao lado da cam a. Havia caído das m ãos dela quando as pílulas com eçaram a fazer efeito e ela finalm ente conseguiu se libertar da vida com a qual não podia m ais lidar.
Desde então, ele e seu pai viviam lado a lado, em um a hostilidade silenciosa. Nada j am ais fora dito sobre o ocorrido. Nada fora m encionado sobre a nova m ulher de seu pai ter se m udando para lá um a sem ana após o funeral de sua m ãe. Ninguém j am ais havia confrontado a verdade sobre as palavras duras que levaram ao ato final de sua m ãe. Ninguém falava sobre com o sua m ãe fora deixada de lado, descartada com um a facilidade que não era fingida, e sim genuína. Com o um casaco velho sendo substituído por um novo.
Em vez disso, o dinheiro havia tom ado conta. Com o passar dos anos, havia se tornado um a im ensa dívida, um a dívida de consciência que parecia não ter fim . Calle aceitava o dinheiro em silêncio; nunca tinha exigido nada, m as não m encionava o que am bos sabiam ser a razão para todos os subornos. Naquele dia em que o silêncio havia ecoado pela casa. Quando ele pediu aj uda, m as não houve resposta.
O film e estava sendo rebobinado novam ente. Ele o sugava, cada vez m ais rapidam ente, até que as im agens granuladas e trem idas fossem outra vez o que via em sua m ente. Em sua m em ória, ele corria na direção dos braços abertos de sua m ãe.
– Gostaria de m arcar um a reunião às nove horas. Pode verificar com os dem ais se eles podem com parecer? No escritório de Mellberg.
– Você parece cansando. Foi para a farra ontem à noite? – Annika olhou para ele por cim a dos óculos que usava para ler. Patrik sorriu, m as seu sorriso não chegava aos olhos cansados.
– Quem m e dera. Não, eu fiquei acordado m etade da noite lendo relatórios e docum entos. E é por isso que preciso convocar um a reunião – cam inhou na direção de seu escritório e olhou o relógio. Oito e dez. Ele estava m uito cansado, e seus olhos pareciam conter areia depois de m uita leitura e pouco sono. Mas tinha cinquenta m inutos para organizar seus pensam entos. Então seria o m om ento de contar a eles o que havia encontrado.
Cinquenta m inutos se passaram rápido dem ais. Quando entrou no escritório de Mellberg, a equipe toda estava reunida. Ele tinha adiantado o assunto para Mellberg pelo telefone no cam inho para a delegacia naquela m anhã, a fim de que o chefe soubesse m ais ou m enos o que Patrik ia dizer. Os outros pareciam m istificados, m as tam bém interessados em ouvir do que se tratava.
– Nos últim os dias, dem os m uita ênfase à investigação do assassinato de Lillem or Persson, em detrim ento de nossa outra investigação, a da m orte de Marit Kaspersen – Patrik posicionou-se ao lado do flip chart, de costas para a m esa de Mellberg e olhou com expressão séria para seus colegas. Não faltava ninguém . Annika trouxera caneta e papel e tom ava notas, com o sem pre. Martin estava sentado ao lado dela, seus cabelos ruivos espetados. Suas sardas brilhavam em sua pele alva com o o inverno, e ele aguardava im pacientem ente pelo que Patrik tinha a dizer. Ao lado dele, estava Hanna, tão serena, calm a e segura quanto todos j á esperavam a j ulgar pelas duas sem anas em que vinha trabalhando com eles. Patrik refletiu brevem ente sobre com o ela tinha se encaixado bem na equipe. Parecia que estava lá havia m uito tem po. Gösta, com o sem pre, estava largado em sua cadeira. Havia pouquíssim o interesse em seus olhos; ele parecia querer estar em qualquer outro lugar. Mas era com o Gösta sem pre aparentava estar quando não se encontrava no cam po de golfe, Patrik pensou, entediado. Mellberg, por outro lado, tinha o corpo inclinado para a frente com o sinal de que estava prestando m uita atenção à apresentação de Patrik. Ele sabia onde Patrik queria chegar com isso; nem m esm o ele poderia ignorar as conexões que Patrik havia descoberto. Agora tudo que restava fazer era dispor os fatos de m aneira concentrada para que pudessem prosseguir com a investigação.
– Com o sabem , a princípio nós tratam os a m orte de Marit com o um acidente. Mas os exam es da m edicina forense e a autópsia m ostraram que esse não foi o caso. Ela foi am arrada, algum tipo de obj eto foi forçado para dentro de sua boca e garganta abaixo. Então alguém despej ou um a grande quantidade de álcool dentro dela, o que a propósito foi a causa de sua m orte. Então o perpetrador, ou os perpetradores, colocou-a de volta em seu carro e tentou fazer a colisão parecer um acidente. Não sabem os m uito m ais que isso. Nem fizem os grandes esforços para ir a fundo desde que nossa investigação m ais... “ligada à m ídia” tom ou toda a nossa energia. Consequentem ente, alocam os os nossos recursos de um a form a que, em retrospectiva, eu considero extrem am ente infeliz. Mas é inútil chorar sobre o leite derram ado. Nós sim plesm ente tem os que nos esforçar m ais e tentar com pensar o tem po perdido.
– Você tinha um a pista inicial... – Martin com eçou a falar.
Patrik interrom peu-o, im paciente.
– Isso m esm o. Eu encontrei um a possível conexão e fui atrás dela ontem – ele virou-se e pegou a resm a que tinha colocado sobre a m esa de Mellberg. – Fui a Borås ontem e m e encontrei com um colega cham ado Jan Gradenius. Nós dois fom os a um a conferência em Halm stad, dois anos atrás. Na época, ele nos contou os detalhes de um caso em que ele esteve envolvido e que suspeitava que a vítim a havia sido assassinada, m as não existiam provas suficientes. Ele m e deu acesso a todas as inform ações a respeito do caso e... – Patrik fez um a pausa de efeito e olhou para o pequeno grupo – acontece que aquele caso tem sim ilaridades notáveis com as circunstâncias que levaram à m orte de Marit Kaspersen. A vítim a tam bém tinha um a quantidade absurda de álcool em seu corpo, inclusive nos pulm ões. E isso apesar do fato de que a vítim a nunca bebia álcool, de acordo com o testem unho de seus parentes próxim os.