O estranho
Capítulo 8
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Com o se esperasse a deixa, o telefone da m esa de Patrik tocou.
– Patrik Hedström – ele disse acenando para Gösta ficar na sala quando ouviu quem estava do outro lado da linha.
– Um acidente, 1969. Sim … Sim … Não… Sim .
Gösta transferia o peso de um pé para o outro, im paciente. Pela expressão de Patrik, notou que ele havia escutado algo crucial. O que acabou se confirm ando.
Quando Patrik desligou, disse vitorioso:
– Era de Uddevalla. Eles encontraram as inform ações sobre Elsa Forsell. Ela estava guiando em um a colisão frontal com outro carro, em 1969. Estava bêbada. E adivinhe o nom e da pessoa que m orreu?
– Sigrid Jansson – Gösta sussurrou.
Patrik confirm ou.
– Você vem com igo para Uddevalla?
Gösta apenas bufou. É claro que ia.
– Para onde foram Patrik e Gösta? – perguntou Martin saindo do escritório vazio de Patrik.
– Foram para Uddevalla – disse Annika, olhando por sobre os aros dos óculos. Ela tinha um carinho especial por Martin. Havia algo nele que a fazia pensar em um filhote de cachorro, algo puro, que trazia à tona seus instintos m aternais. Antes de conhecer Pia, ele passara horas e horas no escritório dela discutindo suas desilusões am orosas. Apesar de Annika estar feliz por ele agora estar em um relacionam ento estável, às vezes sentia saudade daqueles tem pos.
– Sente-se – ela disse e Martin obedeceu. Não obedecer Annika era im possível para qualquer um na delegacia. Nem m esm o Mellberg ousava não o fazer.
– Com o você está? Está tudo bem ? Vocês dois gostam de sua casa? Fale – ela lançou-lhe um olhar inflexível. Para sua surpresa, viu um sorriso enorm e se abrir no rosto de Martin e ele m al podia perm anecer sentado.
– Eu vou ser pai – ele disse e seu sorriso se abriu ainda m ais. Annika sentiu seus olhos se encherem de lágrim as. Não de invej a ou tristeza por ela m esm a não ter tido essa experiência, m as por pura e genuína alegria por Martin.
– O que está dizendo? – ela disse, rindo, enquanto enxugava um a lágrim a que rolava por sua face. – Meu Deus, que boba que eu sou, chorando aqui – ela falou envergonhada, m as viu que Martin tam bém estava em ocionado. – Para quando é o bebê?
– Para o fim de novem bro – disse Martin, com outro enorm e sorriso.
Seu coração se aquecia por ver Martin tão feliz.
– Fim de novem bro – ela disse. – Sim , devo dizer... Bem , não fique sentado aí, m e dê um abraço! – ela abriu os braços e Martin veio até ela e deu-lhe um abraço apertado. Eles falaram por m ais um tem po sobre o feliz evento que se aproxim ava, m as então Martin ficou sério e seu sorriso se esvaiu.
– Acha que vam os chegar ao fundo disso tudo?
– Os assassinatos, você diz? – Annika sacudiu a cabeça. – Não sei. Tem o que sej a um fardo grande dem ais para Patrik dessa vez. É m uito... com plicado.
Martin concordou.
– Eu pensei a m esm a coisa. O que eles foram fazer em Uddevalla, a propósito?
– Não sei. Patrik só disse que ligaram de lá a respeito de Elsa Forsell e que ele e Gösta estavam a cam inho para descobrir m ais. Um a coisa é certa. Os dois estavam m uito sérios.
A curiosidade de Martin definitivam ente cresceu.
– Devem ter encontrado algo im portante sobre ela. Só m e pergunto o quê...
– Vam os descobrir hoj e à tarde – disse Annika, m as não podia evitar especular sobre o que teria feito Patrik e Gösta saírem com tanta pressa.
– É, acho que vam os – disse Martin, levantando-se para voltar a seu escritório. De repente, ele queria m uito que novem bro chegasse.
* * *
Levou quatro horas para Gösta e Patrik voltarem para a delegacia. Assim que entraram , Annika pôde ver que tinham notícias im portantes.
– Reunião na sala de descanso – Patrik disse sem rodeios e foi pendurar o paletó. Cinco m inutos depois, todos estavam presentes.
– Duas coisas decisivas aconteceram hoj e – disse Patrik, olhando para Gösta. – Prim eiro, Gösta descobriu que era possível ler um nom e na página de Elsa Forsell. O nom e era Sigrid Jansson. E nós recebem os um telefonem a de Uddevalla, então fom os lá para saber de todos os detalhes. E tudo se encaixa.
Ele fez um a pausa, bebeu um copo d’água e encostou-se na pia. Todos olhavam para ele, ansiosos para saber o que ele diria depois.
– Elsa Forsell era a m otorista num acidente fatal ocorrido em 1969. Com o as outras vítim as, ela estava dirigindo bêbada e foi sentenciada à prisão por um ano. O carro contra o qual ela se chocou era guiado por um a m ulher na casa dos trinta anos, que tinha duas crianças consigo no carro. A m ulher m orreu na hora, m as as crianças sobreviveram m ilagrosam ente sem um arranhão – ali ele fez outra pausa de efeito e então disse: – O nom e da m ulher era Sigrid Jansson.
Os outros tiveram um sobressalto. Gösta balançou a cabeça, satisfeito. Fazia tem po que ele não se sentia tão bem a respeito de sua contribuição em um caso.
Martin ergueu a m ão para dizer algo, m as Patrik o interrom peu.
– Não, esperem , tem m ais. De início, a polícia pensou que obviam ente as crianças no carro fossem de Sigrid. Mas o problem a é que ela não tinha filhos. Ela era um a reclusa que m orava no cam po, perto de Uddevalla, na casa onde vivera desde criança, que havia herdado depois da m orte dos pais. Ela trabalhava com o atendente em um a elegante butique de roupas no centro da cidade e era sem pre educada e agradável com os clientes. Mas quando a polícia entrevistou seus colegas, eles disseram que ela era m uito fechada. Até onde sabiam , ela não tinha parentes ou am igos. E definitivam ente não tinha filhos.
– Então... de quem eles eram ? – disse Mellberg, coçando a testa.
– Ninguém sabe. Não havia denúncias de crianças desaparecidas naquela idade. Ninguém ligou para reclam á-los. Quando a polícia foi até a casa de Sigrid averiguar, era possível ver que as duas crianças viviam m esm o com ela. Nós conversam os com um dos oficiais que estavam lá quando o acidente aconteceu. Ele nos disse que as crianças dividiam um quarto que estava cheio de brinquedos e coisas de criança. Mas Sigrid nunca tivera um parto, com o m ostrou a autópsia. Tam bém colheram am ostras de sangue para determ inar se havia um a ligação entre ela e as crianças, m as o tipo sanguíneo delas não batia com o de Sigrid.
– Então Elsa Forsell foi a causa de tudo – disse Martin.
– Sim , é o que parece – disse Patrik. – É com o se seu acidente pusesse em m ovim ento toda um a cadeia de hom icídios. Aparentem ente, o assassino com eçou por ela.
– Onde estão as crianças agora? – Hanna perguntou, dando voz ao que todos estavam pensando.
– Estam os trabalhando nisso – disse Gösta. – Nossos colegas em Uddevalla estão tentando conseguir os docum entos da assistência social, m as isso pode dem orar um pouco.
– Tem os que continuar trabalhando na investigação com base na inform ação que tem os – Patrik disse. – Mas a chave do caso é Elsa Forsell, então vam os nos concentrar nela.
Todos saíram da sala de descanso, m as Patrik cham ou Hanna de volta.
– Sim – ela disse. Quando Patrik viu com o Hanna estava pálida, ficou m ais determ inado ainda a conversar com ela.
– Sente-se – ele disse, tam bém acom odando-se em um a das cadeiras. – Com o está indo? – ele disse, estudando-a com atenção.
– Mais ou m enos, para ser sincera – ela disse, baixando os olhos. – Tenho m e sentido péssim a há dias e acho que estou ficando com febre.
– Sim , eu notei que está fora do seu norm al ultim am ente. Acho que é m elhor ir para casa e descansar. Não vai aj udar nada brincar de m ulher de aço e continuar trabalhando se está doente. Você precisa pegar leve, para poder voltar com as forças renovadas.
– Mas a investigação...
Patrik se levantou.
– É um a ordem . Vá para casa e descanse – ele disse, forj ando um tom de voz m al-hum orado.
– Sim , chefe – Hanna disse e sorriu enquanto batia continência de brincadeira. – Eu só tenho que term inar um as coisas antes. Elas não podem esperar até m ais tarde.
– Está bem , é com você. Mas depois vá direto para casa, inspetora!
Hanna deu um sorriso sem vontade e foi em bora. Patrik a observou, preocupado. Ela não parecia bem m esm o.
Virou-se para olhar pela j anela e se perm itiu sentar por um m om ento. Havia acontecido tanta coisa nesses últim os dias, tanta coisa fora descoberta. Mas parecia que a últim a grande batalha ainda estava por vir. Patrik tinha a nítida sensação de que as crianças precisavam ser encontradas logo. Aquelas crianças que pareciam ter surgido do nada. O im portante agora era descobrir o que aconteceu com elas.
– Serviu perfeitam ente! – Anna sorriu e Erica tinha que concordar. O vestido precisava ser aj ustado aqui e ali, m as um a vez que as alterações fossem feitas, ele cairia com o um sonho. Um pouco do peso extra da gravidez que tão teim osam ente se agarrava a ela tinha sum ido e Erica se sentia m ais m agra e m ais anim ada com o resultado da m udança na dieta.
– Você vai ficar tão bonita! – Anna disse enquanto elas voltavam da prova do vestido.
Erica sorriu para a irm ã, que estava quase tão entusiasm ada com o casam ento no sábado quanto ela m esm a. Olhou para Maj a, que estava dorm indo na cadeirinha.
– Estou preocupada com Patrik – disse Erica e seu sorriso esm oreceu. – Ele anda tão tenso. Acha que ele vai conseguir curtir o casam ento?
Anna olhou para ela por um m om ento e pareceu estar em dúvida se dizia algo. Finalm ente se decidiu:
– Isso era para ser um a surpresa – ela disse. – Mas conversam os com a turm a e todos concordaram em deixar de lado am bas as despedidas de solteiro de vocês. Não parecia certo se entregar a esse tipo de distração boba. Em vez disso, nós reservam os um quarto com direito a j antar num hotel, na sexta-feira à noite. Assim vocês podem relaxar em paz com sossego antes do sábado. Espero que goste.
– Meu Deus, que lindo! E é um a ótim a ideia. Eu não acho que Patrik aceitaria um a despedida de solteiro nesse m om ento. Vai ser m aravilhoso ter um a noite sossegada na sexta-feira. Acredito que não vai haver nenhum m om ento de tranquilidade no sábado.
– Não, eu tam bém acho que não – Anna disse, rindo, aliviada que a irm ã tenha aprovado a ideia.
Erica m udou de assunto:
– Anna, eu decidi fazer um a investigação. Sobre m am ãe.
– Investigação? O que quer dizer?
– Bem , traçar um a árvore genealógica. Descobrir de onde ela veio e coisas assim . Talvez encontrar algum as respostas.
– Acha que vai fazer algum bem ? – disse Anna, cética. – Claro, você deve fazer o que achar m elhor, m as m am ãe não era particularm ente sentim ental por natureza. É provavelm ente por isso que ela não tenha guardado nada do passado ou nos contado nada sobre sua infância. Você sabe com o ela não tinha o m enor interesse em docum entar a nossa.
A risada de Anna tinha um pouco de am argura que surpreendeu Erica. Sua irm ã sem pre fingira não se incom odar com a frieza da m ãe.
– Mas você não tem a m enor curiosidade? – Erica perguntou, olhando de lado a irm ã.
Anna olhou pela j anela do lado do passageiro.
– Não – ela disse depois de um breve, m as significativo, m om ento de hesitação.
– Eu não acredito. Mas de qualquer form a, vou com eçar a investigar. Se você quiser ouvir o que eu encontrar, é só m e avisar. Mas a decisão é sua.
– E se você não encontrar resposta nenhum a? – disse, Anna, voltando-se para Erica. – E se você descobrir que ela teve um a infância com um , um a adolescência com um . E que não há outra explicação exceto o fato de que ela sim plesm ente não tinha o m enor interesse em nós. O que vai fazer?
– Conviver com isso – Erica disse, em voz baixa. – Com o eu sem pre fiz.
Elas perm aneceram em silêncio até o fim da viagem para casa. Am bas m ergulhadas em seus próprios pensam entos.
Patrik repassou a lista pela terceira vez, enquanto tentava não ficar encarando o telefone. A cada vez que tocava, ele torcia para ser Uddevalla com m ais inform ações sobre as crianças. Mas se decepcionava todas as vezes.
Tam bém se decepcionou com a lista de criadores de cães e seus endereços. Eles estavam espalhados por toda a Suécia e não havia nenhum nas im ediações de Tanum shede. Ele sem pre soube que seria um tiro no escuro, m as ainda assim tinha algum a esperança. Só para ter certeza, ele lentam ente verificou a lista um a quarta vez. Cento e cinquenta e nove nom es. Cento e cinquenta e nove endereços, m as o m ais próxim o era em Trollhättan. Patrik suspirou. Boa parte de seu trabalho consistia em tarefas entediantes e em perda de tem po, m as, depois dos eventos das últim as sem anas, ele quase se esquecera disso. Girou a cadeira e olhou para o m apa da Suécia na parede. Os percevej os pareciam olhar para ele, desafiando-o a encontrar um padrão, decifrar o código que representavam . Cinco percevej os, cinco locais diferentes, espalhados pela m etade sul daquele país com prido que era a Suécia. O que fez o assassino se m udar de um lugar para o outro? Teria sido o trabalho? Teria sido a passeio? Seria um a tática planej ada para confundir? O assassino teria residência fixa em algum outro lugar? Patrik não acreditava na últim a opção. Algo lhe dizia que a resposta estava no padrão geográfico, que o assassino, por algum a razão, havia seguido. Tam bém achava que o crim inoso estava ali na área. Era m ais um a intuição e era tão forte que ele se pegava exam inando m inuciosam ente todas as pessoas que via na rua. Aquele seria o assassino? Ou aquele outro? Quem estaria se escondendo por trás do disfarce de cidadão com um ?
Patrik suspirou e ergueu os olhos quando Gösta entrou após bater discretam ente.
– Bem – Gösta disse, sentando-se –, é isto: algo aqui em cim a vem fazendo hora extra – ele tocou a têm pora – desde que soubem os das crianças, ontem . Provavelm ente não é nada. E pode soar um pouco forçado.
Ele com eçou a gaguej ar e Patrik teve que reprim ir o desej o de sacudir Gösta para fazê-lo parar de resm ungar.
– Bem , eu estava pensando no caso que aconteceu em 1967. Em Fj ällbacka. Eu era um novato aqui na época.
Patrik olhava para ele com crescente irritação. Isso era o que se poderia cham ar de enrolação!
E então Gösta pegou ritm o, quando continuou:
– Com o eu disse, eu não tinha m uito tem po de serviço aqui quando recebem os um a ligação a respeito de duas crianças que tinham se afogado. Gêm eos. Três anos de idade. Viviam com a m ãe na ilha de Kalvö. O pai se afogara alguns m eses antes, quando caiu e atravessou um a fina cam ada de gelo, e a m ãe aparentem ente com eçara a beber m uito. E nesse dia, foi em m arço, se m e lem bro bem , ela levou o barco da fam ília a Fj ällbacka e dirigiu até Uddevalla para resolver alguns assuntos. Quando voltavam à ilha, caiu um a tem pestade. De acordo com a m ãe, o barco virara um pouco antes de chegarem à ilha e am bas as crianças se afogaram . Ela havia nadado até a praia e pedido socorro pelo rádio.
– Tudo bem – disse Patrik. – Mas por que você pensou que isso tem ligação com o nosso caso? As crianças se afogaram afinal de contas, então elas não poderiam estar com Sigrid Jansson no carro dois anos depois.
Gösta hesitou.
– Mas havia um a testem unha... – fez um a pausa, então prosseguiu. – Um a testem unha que dizia que a m ãe, Hedda Kj ellander, não estava com as crianças no barco quando saiu.
Patrik ficou em silêncio por um bom tem po.
– Por que ninguém investigou isso?
Gösta pareceu deprim ido.
– A testem unha era um a senhora. Um pouco excêntrica, pelo que diziam . Ela ficava o dia todo na j anela, olhando tudo com seus binóculos e de vez em quando dizia ver coisas... Monstros do m ar e coisas assim – disse Gösta, m as ainda parecia deprim ido.
Ele disse que às vezes pensava nesse caso. Sobre os gêm eos, cuj os corpos j am ais apareceram em lugar nenhum . Mas ele sem pre reprim ia o pensam ento e se convencia de que fora um trágico acidente. Nada além disso.
– Depois de conhecer a m ãe, Hedda, eu tam bém não consegui acreditar que ela estivesse m entindo. Ela estava tão desesperada. Tão arrasada. Não havia razão para acreditar… – as palavras m orreram e ele não ousou olhar para Patrik.
– O que aconteceu com ela? Com a m ãe?
– Nada. Ela ainda vive na ilha. Raram ente aparece na cidade. Ela recebe com ida e bebida em dom icílio. Se bem que é na bebida que ela está m ais interessada.
Patrik ouviu a ficha cair.
– É da “Hedda de Kalvö” que você está falando? – ele não acreditava. Mas nunca soubera que Hedda havia tido dois filhos. Toda a fofoca que ouvira é que ela havia sofrido duas tragédias e que desde então se dedicava a beber até cair.
– Então você acha...
Gösta deu de om bros.
– Eu não sei o que pensar. Mas é um a coincidência notável. E as idades batem – ele disse baixinho e deixou Patrik considerar o que acabava de dizer.
– Eu acho que tem os que ir conversar com ela.
Gösta concordou.
– Podem os pegar nosso barco – disse Patrik, levantando-se. Gösta ainda parecia deprim ido quando Patrik virou-se para ele. – Foi há m uito tem po, Gösta. E eu não posso dizer que teria feito algo diferente. Eu provavelm ente chegaria à m esm a conclusão. E além disso, você não estava no com ando.
Gösta não tinha tanta certeza de que Patrik largaria o caso tão facilm ente. E ele teria pressionado m ais seu chefe. Mas o que estava feito está feito. Não adiantava ficar rem oendo nisso.
– Você está doente? – preocupado, Lars sentou-se na beira da cam a e colocou a m ão fresca na testa de Hanna. – Você está queim ando em febre – ele disse, puxando as cobertas até o queixo dela. Ela trem ia de frio e tinha a sensação de estar congelando, m esm o suando tanto.
– Eu só quero ficar sozinha – ela disse, virando-se de lado.
– Eu estava apenas tentando aj udar – disse Lars, m agoado, retirando a m ão que estava sobre as cobertas.
– Você j á m e aj udou bastante – disse Hanna, am arga, com os dentes batendo.
– Você ligou avisando que estava doente? – ele se sentou de costas para ela e olhou pela porta do terraço. Havia um a distância tão grande entre eles que seria o m esm o que estarem em continentes diferentes. O coração de Lars estava apertado. Parecia m edo, m as um m edo tão profundo, tão penetrante que ele não conseguia se lem brar da últim a vez que sentira algo assim . Respirou fundo.
– Se eu m udar de opinião sobre ter filhos, isso transform aria tudo?
O bater de dentes parou por um segundo. Hanna sentou-se, aj eitando-se nos travesseiros, m as m anteve as cobertas até a altura do queixo. Ela trem ia tanto que sentia a cam a trem er tam bém . A ansiedade era tão forte que Lars quase podia esticar a m ão e tocá-la. Ele sem pre se sentia assim quando Hanna ficava doente. Não o perturbava ficar doente ele próprio. Mas quando Hanna passava m al, ele sentia com o se estivesse com os m esm os sintom as.
– Isso m udaria tudo – Hanna disse, encarando-o com olhos brilhantes devido à febre. – Isso m udaria tudo – ela repetiu, m as, após um m om ento, acrescentou. – Mudaria m esm o?
Ele deu-lhe as costas e olhou o telhado da casa vizinha.
– Provavelm ente sim – ele disse sem m uita certeza de estar falando a verdade. – Mudaria.
Ele se virou. Hanna havia caído no sono. Ele olhou para ela por um bom tem po. Depois saiu do quarto na ponta dos pés.
– Acha que pode encontrá-la? – Patrik virou-se para Gösta quando saíram do pórtico com o barco, em Badholm en.
Gösta assentiu.
– Claro que posso.
Passaram a viagem a cam inho da ilha de Kalvö em silêncio. Quando atracaram no píer velho e gotej ante, o rosto de Gösta ficou cinzento. Ele estivera ali várias vezes desde aquele dia, trinta e sete anos atrás, m as era sem pre aquela prim eira visita que vinha à sua m em ória.
Cam inharam lentam ente até o chalé, que ficava no ponto m ais alto da ilha. Era óbvio que nenhum reparo era feito ali havia m uito tem po, e o m ato havia crescido em torno do cam inho de gram a ao redor da casa. Fora isso, só havia granito até onde os olhos podiam alcançar, apesar de que um exam e m ais apurado revelava que havia sinais de plantas que esperavam que o calor da prim avera chegasse e as despertasse. A casa era branca e a tinta estava descascando em pedaços grandes, que expunham a m adeira que ficava por baixo, cinza e surrada pelo vento. As telhas estavam quebradas e faltavam algum as aqui e ali, com o um a boca sem alguns dos dentes.
Gösta tom ou a frente e bateu com cuidado na porta. Não houve resposta. Bateu m ais forte.
– Hedda? – ele bateu o punho com ainda m ais força na porta de m adeira e então testou para ver se abriria. A porta não estava trancada e abriu-se.
Quando eles entraram , autom aticam ente tiveram que cobrir o nariz com o braço por causa do fedor. Era com o entrar em um chiqueiro. Por todos os lados havia lixo, restos de com ida, j ornais velhos e, acim a de tudo, garrafas vazias.
Gösta avançou para dentro da sala e cham ou:
– Hedda?
Nenhum a resposta.
– Vou procurar por ela – Gösta disse e Patrik só pôde concordar com a cabeça. Estava além de sua com preensão com o alguém conseguiria viver daquele j eito.
Depois de alguns m inutos, Gösta voltou e acenou para Patrik acom panhá-lo.
– Ela está deitada na cam a. Derrubada. Terem os que tentar trazê-la de volta. Pode fazer um café?
Patrik olhou a cozinha, perdido. Finalm ente, encontrou um a em balagem de café instantâneo e um bule vazio. Parecia ser usado principalm ente para ferver água, j á que estava relativam ente lim po com parado ao restante dos utensílios.
– Está bem , vam os lá – Gösta entrou na cozinha arrastando um arrem edo de m ulher. Apenas um m urm úrio atordoado saiu dos lábios de Hedda, m as ela até conseguiu pôr um pé diante do outro e chegar à cadeira na cozinha que era o obj etivo de Gösta para ela. Ela caiu no assento, apoiou a cabeça nos braços e com eçou a roncar.
– Hedda, não durm a novam ente. Você precisa ficar acordada.
Gösta sacudiu seu om bro gentilm ente, m as não recebeu resposta. Fez um sinal para o bule no fogão, onde a água fervia.
– Café – ele disse e Patrik se apressou em servir um pouco na xícara que parecia m enos im unda. Ele m esm o não tinha a m enor vontade de beber café.
– Hedda, precisam os conversar um pouco com você – houve apenas um balbucio em resposta. Mas depois ela endireitou-se, contorcendo-se na cadeira, e tentou fixar o olhar.
– Som os da polícia de Tanum shede. Patrik Hedström e Gösta Fly gare. Você e eu j á nos encontram os várias vezes.
Gösta falava de m aneira bem clara, esperando que pelo m enos algum as palavras fossem com preendidas. Fez sinal para Patrik se sentar e am bos se posicionaram de frente para Hedda à m esa da cozinha. A toalha um dia havia sido branca com pequenas rosas, m as agora estava coberta por tantos restos de com ida e gordura que m al se via a estam pa. Era igualm ente im possível saber com o Hedda fora um dia. O álcool destruíra sua pele, que parecia feita de couro e estava extrem am ente enrugada. Havia um a grossa cam ada de gordura em todo o seu corpo. Seus cabelos deviam ter sido loiros um dia, m as agora eram grisalhos e estavam presos em um rabo de cavalo m alfeito. Pela aparência, não eram lavados havia m uito tem po. Ela usava um cardigã cheio de furos, que obviam ente fora com prado havia anos, quando ela era bem m enor. Estava apertado nos om bros e nos seios.
– Que diabos... – as palavras m orreram e foram substituídas por um resm ungo arrastado enquanto ela se sacudia para a frente e para trás na cadeira.
– Beba um pouco de café – disse Gösta, soando surpreendentem ente gentil. Em purrou a xícara na direção dela, de m odo que ela entrasse em seu cam po de visão.
Hedda obedeceu, dócil, pegando a pequena xícara de porcelana com as m ãos trêm ulas. Bebeu cada gota do café. Depois largou a xícara de lado e Patrik a pegou antes que caísse pela borda da m esa.
– Querem os falar sobre o acidente – disse Gösta.
Hedda ergueu a cabeça com enorm e esforço e estreitou os olhos na direção dele. Patrik decidiu ficar quieto e deixar Gösta conduzir a conversa.
– O acidente? – disse Hedda. Seu corpo parecia um pouco m ais estável na cadeira.
– Quando as crianças m orreram – Gösta m anteve o olhar fixo nela.
– Eu não quero falar sobre isso – m urm urou Hedda, agitando a m ão.
– Nós tem os que falar sobre isso – Gösta insistiu, m as no m esm o tom suave.
– Elas se afogaram . Todo m undo se afoga. Você sabe – ela ergueu um dedo no ar –, você sabe, prim eiro Gottfrid se afogou. Ele estava saindo para pescar cavalinhas e não o encontraram por um a sem ana. Eu esperei por ele um a sem ana, m as, ao pôr do sol do dia em que ele saiu, eu j á sabia que ele não voltaria para m im e para as crianças – ela soluçou e parecia estar anos atrás no tem po.
– Quantos anos tinham as crianças na época? – Patrik perguntou.
Hedda virou-se para ele pela prim eira vez.
– Crianças, que crianças? – ela parecia confusa.
– Os gêm eos – disse Gösta e a fez voltar a olhar para eles. – Quantos anos tinham os gêm eos?
– Tinham dois, quase três anos. Duas crianças levadas. Eu só conseguia cuidar deles com a aj uda de Gottfrid. Quando ele...
Sua voz m orreu novam ente e Hedda olhou em volta pela cozinha, com o se procurasse algum a coisa. Seus olhos pararam em um dos arm ários. Ela se levantou com esforço e se arrastou até ele, abriu a porta e pegou um a garrafa.
– Querem um gole? – Hedda estendeu a garrafa para ele e, quando am bos sacudiram a cabeça negativam ente, ela riu. – Que bom , porque eu não ia dar m esm o. – Sua risada parecia m ais um cacarej o, e ela trouxe a garrafa para a m esa e sentou-se outra vez. Nem se incom odou em pegar um copo, levou a garrafa aos lábios e bebeu. Patrik sentiu a própria garganta arder só de olhar para ela.
– Quantos anos tinham os gêm eos quando se afogaram ? – Gösta perguntou.
Hedda não pareceu ouvi-lo. Ela olhava para o nada.
– Ela era tão elegante – balbuciou. – Um colar de pérolas e um casaco e tudo. Ela era um a boa m ulher.
– Quem era? – disse Patrik, sentindo um a ponta de interesse. – Que m oça? – m as Hedda j á tinha perdido a linha de pensam ento.
– Quantos anos tinham as crianças quando se afogaram ? – Gösta repetiu, com ainda m ais clareza.
Hedda virou-se para ele com a garrafa parada no ar e a m eio cam inho de seus lábios.
– As crianças não se afogaram , não é?
Ela bebeu m ais um gole.
Gösta olhou significativam ente para Patrik e se inclinou para a frente.
– As crianças não m orreram afogadas? Para onde elas foram ?
– O que quer dizer com “elas não m orreram afogadas”? – Hedda de repente tinha um olhar am edrontado. – É claro que m orreram , claro, m orreram sim ... – bebeu m ais um pouco e seus olhos ficaram ainda m ais vidrados.
– O que aconteceu, Hedda? Elas m orreram ou não? – Gösta notava o desespero na própria voz, m as isso só pareceu guiar Hedda m ais para dentro da névoa. Agora ela j á não respondia, apenas sacudia a cabeça.
– Acho que não vam os conseguir tirar m ais nada dela – Gösta disse para Patrik com voz lam entosa.
– Não, tam bém acho que não. Vam os ter que tentar descobrir algo de outro j eito. Talvez devêssem os vasculhar o local um pouco.
Gösta concordou e virou-se para Hedda, cuj a cabeça j á ia de encontro à m esa novam ente.
– Hedda, podem os exam inar as suas coisas?
– Uhum – ela respondeu e caiu no sono.
Gösta colocou sua cadeira ao lado da dela, para que ela não rolasse para o chão e então com eçou a vasculhar a casa com Patrik.
Um a hora m ais tarde e não tinham encontrado nada. Não havia nada exceto lixo e m ais lixo. Patrik desej ou ter trazido luvas consigo e tinha a im pressão de estar com o corpo todo coçando. Mas não havia sinal de que crianças um dia j á haviam m orado naquela casa. Hedda devia ter j ogado fora tudo o que pertencia a elas.
As palavras de Hedda sobre um a “senhora elegante” ecoavam em sua cabeça. Ele não conseguia se livrar delas, m as sentou-se ao lado de Hedda e tentou gentilm ente trazê-la de volta m ais um a vez. Relutantem ente ela se endireitou, m as sua cabeça caiu para trás antes que conseguisse estabilizá-la na posição correta.
– Hedda, você tem que m e responder. A senhora elegante, ela está com seus filhos?
– Eles m e davam tanto trabalho. E eu só tinha que fazer um as coisas em Uddevalla. Tinha que com prar m ais bebida tam bém , porque eu estava sem – ela m urm urou e olhou pela j anela, para a água que brilhava ao sol de prim avera. – Mas eles continuavam fazendo tanta bagunça. Ela era tão boazinha. Ela podia ficar com eles, m e disse. Então ela ficou.
Hedda virou os olhos para Patrik e ele viu, pela prim eira vez, um a em oção genuína em seus olhos. Bem lá no fundo, havia tam anha dor e culpa que apenas o álcool poderia afogar.
– Mas eu m e arrependi – ela disse, com lágrim as enevoando seus olhos. – Mas eu j á não conseguia m ais encontrá-las. E eu procurei tanto. Mas elas sum iram . E a m oça elegante tam bém . Aquela que usava colar de pérolas – Hedda pôs a m ão no pescoço, onde havia visto o colar e disse: – Ela foi em bora.
– Mas por que você disse que elas se afogaram ? – pelo canto do olho, Patrik viu Gösta ouvindo tudo da porta.
– Eu estava com vergonha... e talvez elas tivessem um a vida m elhor com a m ulher. Mas eu estava com vergonha.
Ela olhou para a água outra vez e eles ficaram parados por algum tem po. O cérebro de Patrik trabalhava acelerado para absorver o que acabava de ouvir. Não era difícil constatar que a “m oça elegante” provavelm ente era Sigrid Jansson e que, por algum a razão, ela havia levado os filhos de Hedda. O m otivo, eles provavelm ente j am ais saberiam .
Quando ele lentam ente se levantou e se virou para Gösta, com as pernas bam bas de tanto ouvir m isérias, viu que o parceiro tinha algo nas m ãos.
– Encontrei um a fotografia – ele disse. – Debaixo do colchão. Um a foto dos gêm eos.
Patrik pegou a foto e olhou para ela. Duas crianças pequenas, de m ais ou m enos dois anos, sentadas no colo de seus pais, Gottfrid e Hedda. Pareciam felizes. A foto devia ter sido tirada um pouco antes de Gottfrid m orrer. Antes de tudo ruir. Patrik estudou o rosto das crianças. Onde estavam agora? E seria um deles um assassino? Nenhum dos rostos redondos revelou coisa algum a. Hedda dorm ira novam ente na m esa da cozinha, e Patrik e Gösta saíram e aspiraram profundam ente o ar fresco do oceano para dentro dos pulm ões. Patrik cuidadosam ente guardou na carteira a foto bastante m anuseada. Ele providenciaria que Hedda a tivesse de volta em breve. Mas, nesse m om ento, eles precisavam dela para aj udá-los a encontrar um assassino.
Durante a viagem de volta, eles estavam tão silenciosos quanto na ida. Mas dessa vez o silêncio estava m arcado pelo choque e pelo pesar. Pesar por ver com o, às vezes, os seres hum anos podem ser frágeis e pequenos. Choque pelo escopo dos erros que as pessoas eram capazes de com eter. Em sua m ente, Patrik via Hedda vagando pelas ruas de Uddevalla. Com o ela procurara pelas crianças que, em um ataque de desespero, de exaustão e de necessidade do vício, havia dado a um a com pleta estranha. Ele sentiu o pânico que Hedda deve ter passado quando com preendeu que não conseguiria encontrar os gêm eos. E o desespero que a levou a dizer que m orreram afogados, em vez de adm itir que os entregara a um a estranha.
Eles não falaram até Patrik term inar de am arrar o barco a um dos pórticos no porto em Badholm en.
– Bem , agora pelo m enos sabem os – disse Gösta e seu rosto revelava a culpa que ainda sentia.
Patrik deu batidas leves em seu om bro, enquanto se dirigiam para o carro.
– Você não tinha com o saber – ele disse. Gösta não respondeu e Patrik pensou que nada do que ele dissesse aj udaria. Isso era algo com que Gösta teria que lidar sozinho.
– Precisam os descobrir logo onde essas crianças foram parar – Patrik disse enquanto voltavam a Tanum shede.
– Nada ainda da assistência social em Uddevalla?
– Não. Provavelm ente não deve ser fácil encontrar inform ação tão antiga. Mas eles têm que estar em algum lugar. Duas crianças de cinco anos de idade não desaparecem do nada.
– Que vida m iserável ela viveu.
– Hedda? – disse Patrik, apesar de entender que era dela que Gösta estava falando.
– Sim . Im agine viver com essa culpa. A vida toda.
– Não é de adm irar que ela venha tentando se entorpecer da m elhor m aneira que consegue – disse Patrik.
Gösta não respondeu. Apenas olhou pela j anela. Finalm ente disse:
– O que vai fazer agora?
– Até descobrirm os para onde as crianças foram , terem os que continuar trabalhando com o que j á tem os. Sigrid Jansson, os pelos de cachorro de Lillem or, tentar encontrar um a conexão entre os locais das m ortes.
Entraram no estacionam ento da delegacia e seguiram para a entrada, com expressão pesarosa. Patrik parou na recepção por um m om ento para contar a Annika o que acontecera e depois foi para seu escritório. Ainda não tinha forças para repetir a história para os dem ais.
Tirou cuidadosam ente a fotografia da carteira e a estudou. Os olhos dos gêm eos o encaravam de volta, revelando nada.