O estranho

Camilla Läckberg · Capítulo 8 de 10 · parte 2/3

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O estranho

Capítulo 8

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

– Por que não soubem os disso antes? – perguntou Martin. – Isso foi antes de ela se m udar para cá?

– Não. Ela e Ola tinham vinte anos e viviam aqui há um ano quando isso ocorreu. Mas faz m uito tem po, as pessoas se esquecem e devia haver um pouco de com paixão por Marit tam bém . Seu nível de álcool estava ligeiram ente acim a do lim ite. Ela pegou o carro após um j antar na casa de um am igo, quando tinha bebido um pouco de vinho. Sei disso porque encontrei os docum entos sobre o acidente. Nós os tínham os nos arquivos.

– Tínham os isso em arquivo o tem po todo? – disse Gösta incrédulo.

Patrik assentiu.

– Sim , eu sei, m as não é tão absurdo não term os encontrado. Isso aconteceu há tanto tem po que nem estava nos registros digitais e não havia razão para ver os docum entos lá em baixo um por um . E definitivam ente não havia m otivo para procurar por sentenças por em briaguez em todas as caixas arquivadas.

– E m esm o assim ... – Gösta resm ungou, parecendo derrotado.

– Eu verifiquei em Lund, Ny köping e Borås. Rasm us Olsson tornou-se inválido quando bateu o carro em um a árvore e seu passageiro, um am igo da m esm a idade, m orreu. Rasm us estava bêbado quando o acidente ocorreu. Börj e Knudsen tem um a ficha policial m ais longa que m eu braço. Um dos itens é o relatório de um acidente ocorrido quinze anos atrás, quando causou um a colisão frontal na qual um a m enina de quinze anos m orreu. Então esse é o denom inador com um de três dos quatro casos; todos dirigiram em briagados e m ataram alguém por conta disso.

– E Elsa Forsell? – perguntou Hanna, olhando para Patrik. Ele j ogou as m ãos para o alto.

– Esse é o único caso para o qual ainda não consegui encontrar confirm ação. Não há registros de sentenças contra Elsa em Ny köping, m as o padre de sua congregação falou m uito sobre a “culpa” de Elsa. Acho que há algum a coisa aí, m as ainda não a encontram os. Vou telefonar para o padre Silvio depois de nossa reunião e ver se consigo tirar m ais algum a coisa dele.

– Bom trabalho, Hedström – disse Mellberg inesperadam ente de seu lugar à m esa da cozinha. Todos se viraram a fim de olhar para ele.

– Obrigado – disse Patrik, espantado. Um elogio de Mellberg era com o... não, ele nem conseguia pensar em algo para com parar. Sim plesm ente ninguém recebia elogios de Mellberg. Jam ais. Ligeiram ente desconcertado pelo com entário inesperado, Patrik prosseguiu: – O que tem os que fazer agora é com eçar a trabalhar com essa nova prem issa. Encontrar tudo o que puderm os sobre os acidentes. Gösta, você pega o caso de Marit; Martin, você pega Borås; Hanna, você pega Lund, e eu vou tentar descobrir m ais sobre Elsa Forsell em Ny köping. Algum a pergunta?

Ninguém disse nada, então Patrik encerrou a reunião. E foi direto telefonar para Ny köping. Havia um frenesi, um a tensa energia pairando no ar na delegacia. Era tão palpável que Patrik sentia que a podia tocar. Ele parou no corredor, respirou profundam ente e então foi fazer suas ligações.

Sem pre que padre Silvio viaj ava para casa a fim de visitar a fam ília e os am igos na Itália, ouvia a m esm a pergunta. Com o ele aguentava viver lá no frio do Norte? Os suecos não eram m uito esquisitos? Pelo que ouviam , os suecos sem pre ficavam em casa e m al falavam uns com os outros. E eles não sabiam beber, em absoluto. Bebiam com o esponj as e sem pre abusavam . Por que ele iria querer viver ali?

Silvio norm alm ente bebia um a taça de um bom tinto, olhava os cam pos de oliveiras de seu irm ão e respondia:

– Os suecos precisam de m im – E era assim que se sentia. Parecia um a aventura quando ele se m udou para a Suécia, quase trinta anos atrás. A oferta de um posto tem porário na Congregação Católica de Estocolm o apresentou-se com o a oportunidade que ele sem pre quis, um a chance de se m udar para o país que sem pre lhe pareceu tão m ítico e estranho. Talvez não fosse tão estranho. E ele quase m orreu congelado naquele prim eiro inverno até aprender que três cam adas de roupa eram obrigatórias se quisesse sair de casa em j aneiro. Mas ainda assim , foi am or à prim eira vista. Ele am ava a luz, a com ida, a aparente frieza dos suecos, m as seu interior brilhante. Aprendeu a apreciar e com preender os pequenos gestos, os com entários discretos, a am abilidade oculta que encontrou nos nortistas de cabelos claros. Se bem que o estereótipo não era verdadeiro. Ele ficara m aravilhado quando aterrissou em solo sueco e viu que nem todos os suecos eram loiros de olhos azuis.

Em todo caso, ele ficou. Após dez anos com o assistente na congregação de Estocolm o, agarrou a oportunidade de ser o titular de sua própria igrej a em Ny köping. Com o passar dos anos, um certo sotaque de Sörm land surgiu em seu sueco-italiano e ele se deleitava com a diversão que essa m istura inusitada causava. Se havia um a coisa que os suecos faziam raram ente, era rir. As pessoas em geral não associavam o catolicism o à alegria e ao riso, m as para ele a religião era exatam ente isso. Se o am or por Deus não era algo brilhante e prazeroso, o que m ais poderia ser?

Aquilo havia surpreendido Elsa de início. Ela o procurara talvez na esperança de encontrar um a m aldição e um cilício. Em vez disso encontrou um aperto de m ão e um olhar am istoso. Eles haviam conversado m uito sobre isso. Da culpa dela, de sua necessidade de ser punida. Ao longo dos anos, ele a guiou gentilm ente por todos os diferentes conceitos de culpa e de perdão. A parte m ais im portante do perdão era o rem orso. Rem orso verdadeiro. E isso era algo que Elsa tinha em abundância. Por m ais de trinta e cinco anos, ela vinha sentindo rem orso a cada segundo de cada dia. Era tem po dem ais para carregar um fardo tão grande. Alegrava-o saber que fora capaz de am enizar um pouco a carga que ela levava, para que Elsa pudesse respirar de m aneira m ais livre, pelo m enos por alguns anos. Até ela m orrer.

O padre Silvio fechou o sem blante. Vinha pensando m uito na vida de Elsa – e em sua m orte – desde que a polícia batera à sua porta. Pensara m uito nela antes tam bém . Mas as perguntas dos policiais libertaram um fluxo de em oções e m em órias. Mesm o assim o sacram ento da confissão era santo. A confiança entre um padre e o paroquiano não podia ser quebrada. Ele sabia disso. Ainda assim , os pensam entos rem oíam em sua cabeça, fazendo-o querer quebrar a prom essa que Deus o m andara cum prir. Mas sabia que era im possível.

Quando o telefone tocou em sua m esa, ele sabia instintivam ente o que era. Atendeu parte ansioso, parte tem eroso:

– Padre Silvio Mancini.

Ele sorriu quando ouviu o detetive de Tanum shede se identificar. Ouviu por um tem po o que Patrik Hedström tinha a dizer e balançou a cabeça.

– Infelizm ente, eu não posso falar sobre o que Elsa m e confidenciou.

– Não, isso está incluído no voto de confidencialidade.

Seu coração batia forte. Por um m om ento, pensou ter visto Elsa sentada na cadeira diante dele. Elsa com sua postura ereta, os cabelos curtos brancos e o corpo m agro. Ele tentara engordá-la com m acarrão e doces, m as nada parecia dar j eito. Ela dirigiu-lhe um olhar bondoso.

– Eu sinto m uito, m as eu sim plesm ente não posso. Você terá que encontrar outro m eio de...

Elsa fez um gesto de cabeça cheio de urgência do lugar onde estava sentada e padre Silvio tentou entender o que ela queria dizer. Será que Elsa queria que ele falasse? Mas isso não adiantava, m esm o assim ele não poderia. Elsa continuou olhando para padre Silvio e ele teve um a ideia. Disse suavem ente:

– Eu não posso revelar o que Elsa m e disse. Mas posso lhe dizer coisas que todos sabiam . Elsa era de sua região do país. Ela era de Uddevalla.

De seu lugar, de frente para ele, Elsa sorriu. E se foi. Padre Silvio sabia que não fora real, que ela era apenas fruto de sua im aginação. Mas m esm o assim tinha sido m aravilhoso vê-la outra vez.

Quando desligou, ele sentiu paz. Não tinha traído Deus nem Elsa. Agora o resto era com a polícia.

Erica viu que algo tinha acontecido assim que Patrik passou pela porta. Havia um a leveza em seus passos e ele parecia relaxado com o havia m uito tem po não estava.

– As coisas correram bem hoj e? – ela perguntou com cuidado, segurando Maj a quando foi ao seu encontro. Sorrindo de felicidade, Maj a estendeu os braços para o pai e ele a pegou no colo.

– As coisas foram fantásticas! – ele disse, fazendo alguns passos de dança com a filha. Ela riu tanto que quase engasgou. Papai era hilário. Ela obviam ente j á tinha decidido isso.

– Conte m ais – disse Erica, indo para a cozinha a fim de term inar de preparar o j antar. Patrik e Maj a a seguiram . Anna, Em m a e Adrian estavam assistindo a um desenho e acenaram distraídos para Patrik quando ele entrou. A TV dem andava toda a atenção deles.

– Encontram os a conexão – ele disse, pondo Maj a no chão. Ela ficou lá por uns instantes, dividida entre o papai de um lado e Bj örne do outro, m as finalm ente escolheu o m ais peludo dos dois e engatinhou para a TV.

– Sem pre rej eitado, sem pre o núm ero dois – Patrik suspirou, olhando Maj a ir em bora.

– Hum m , m as para m im você é sem pre o núm ero um – disse Erica e deu-lhe um abraço forte antes de voltar a cozinhar. Patrik sentou-se para observá-la.

Erica pigarreou e olhou para os vegetais na pia.

Patrik prontam ente pulou da cadeira e com eçou a cortar pepinos para a salada.

– Se você disser “pule”, eu pergunto “a que altura?” – ele disse rindo, dando um passo para o lado a fim de escapar do chute de brincadeira que tinha sua canela com o alvo.

– Espere só, depois de sábado eu vou m anej ar o chicote com vigor renovado – disse Erica, tentando parecer séria. Ela estava feliz por ele nem estar pensando no casam ento.

– Eu acho que você j á faz um ótim o trabalho com ele – Patrik disse, inclinando-se para beij á-la.

– Peguem leve aí! – Anna gritou da sala. – Dá pra ouvir vocês se beij ando. Há crianças no recinto – ela riu.

– Hum m , talvez sej a m elhor guardarm os isso para m ais tarde – disse Erica piscando para Patrik. – Agora m e conte m ais sobre o que aconteceu.

Patrik deu-lhe um breve resum o do que tinham encontrado, e o sorriso desapareceu do rosto de Erica. Era tanta tragédia, tantas m ortes m isturadas no caso e, apesar do fato de a investigação ter dado um enorm e passo adiante, ela com preendia que as coisas ainda seriam difíceis no futuro.

– Então a vítim a de Ny köping tam bém tinha m atado alguém em um acidente?

– Sim – Patrik disse, cortando tom ates. – Não em Ny köping, m as em Uddevalla.

– Quem foi m orto? – disse Erica, m exendo seu cozido de carne de porco.

– Não sabem os os detalhes ainda. O acidente foi m uito anterior aos outros, então deve levar um tem po para encontrarm os m ais inform ações. Mas conversei com nossos colegas em Uddevalla hoj e e eles vão m andar todo o m aterial assim que conseguirem reunir tudo. Algum coitado vai ter que se arrastar entre caixas em poeiradas por algum tem po.

– Então alguém está assassinando m otoristas em briagados que m ataram alguém . E o prim eiro acidente aconteceu trinta e cinco anos atrás, enquanto o últim o foi... Quando foi o últim o?

– Há dezessete anos. Rasm us Olsson.

– E os locais estão espalhados por toda a Suécia – disse Erica enquanto m exia a com ida. – De Lund até aqui. Quando o prim eiro assassinato aconteceu?

– Dez anos atrás – Patrik respondeu, obedientem ente, observando sua futura esposa. Erica estava acostum ada a lidar com fatos e analisá-los, e ele considerava bem -vinda a aj uda de sua m ente afiada.

– Então o assassino se m ovim enta em um a área geográfica grande, deu um bom tem po entre os crim es e a única coisa que as vítim as têm em com um é que foram m ortas por causa de um acidente fatal que causaram por dirigir bêbadas.

– É, isso m esm o – disse Patrik suspirando. A situação soava tão sem solução quando Erica a resum ia. Ele despej ou os vegetais em um a tigela grande, m isturou-os e colocou a salada na m esa da cozinha. – Não se esqueça de que é provável que estej a faltando um a vítim a – ele disse baixinho enquanto se sentava. – Ao que parece, a vítim a que não encontram os ainda é a núm ero dois. Mas tenho certeza de que há outra. Alguém que deixam os passar.

– Não é possível tirar m ais inform ações das páginas do livro? – Erica perguntou, colocando a panela do cozido num descanso sobre a m esa.

– Acho que não. Agora estou apostando m inhas esperanças em poderm os desenvolver algo que possa nos levar adiante a partir dos detalhes do acidente de Elsa Forsell. Ela foi a prim eira vítim a e algo m e diz que é a m ais im portante.

– Hum m , você pode estar certo – disse Erica, e em seguida cham ou Anna e as crianças para j antar. Depois eles poderiam conversar m ais.

Dois dias se passaram desde que eles haviam descoberto o que as vítim as do serial killer tinham em com um . A euforia inicial havia dim inuído e o desânim o tom ava o seu lugar. Eles ainda não entendiam por que o território geográfico era tão grande. Será que o assassino viaj ava em sua caçada por vítim as ou ele realm ente havia m orado em todas essas cidades? Havia perguntas dem ais. Haviam olhado atentam ente todo o m aterial disponível sobre os acidentes envolvendo as vítim as, m as não encontraram em lugar nenhum algo que os conectasse. Patrik estava cada vez m ais inclinado a acreditar na ideia de que não havia ligação pessoal entre as vítim as, m as que o assassino era um a pessoa cheia de ódio que escolhia seus alvos baseado nos atos destes. Nesse caso, parecia que o crim inoso não se im portava com o fato de que vários deles haviam dem onstrado arrependim ento real após os eventos. Elsa lutava com a culpa e buscou redenção na religião; Marit nunca m ais tocou em álcool; o m esm o aconteceu com Rasm us, m as ele não podia beber de qualquer form a, por razões fisiológicas, por conta dos ferim entos que sofreu no acidente. Börj e era a exceção. Continuara a beber e a dirigir em briagado e não parecia se preocupar com a m enina cuj a m orte estava em sua consciência.

Mas era im possível chegar a qualquer conclusão enquanto faltasse um a vítim a para com pletar o quadro. Quando o telefone tocou às nove horas da m anhã de quarta-feira, Patrik não tinha ideia de que aquela ligação o levaria à últim a peça do quebra-cabeça.

– Patrik Hedström – ele atendeu, colocando a m ão no bocal para que a pessoa não o ouvisse bocej ar. Consequentem ente, ele não entendeu o nom e do interlocutor.

– Me desculpe, com o é seu nom e?

– Meu nom e é Vilgot Runberg, e eu sou o superintendente da delegacia de Ortboda.

– Ortboda? – disse Patrik, vasculhando com fervor sua m em ória geográfica.

– Próxim o a Eskilstuna – disse o superintendente Runberg, im paciente. – Mas é um a delegacia pequena, som os apenas três trabalhando aqui – ele tossiu, afastando-se do bocal, m as depois continuou. – É o seguinte, eu acabei de voltar de duas sem anas de férias na Tailândia.

– Verdade? – disse Patrik, perguntando-se aonde aquilo ia chegar.

– Sim , por isso eu não tinha visto a notificação que você enviou. Até agora.

– Entendi – disse Patrik, com m uito m ais interesse. Sentiu seus dedos com eçarem a form igar de expectativa com o que estava por vir.

– Sim , m eus colegas m ais j ovens são relativam ente novos na área, então eles não sabiam nada sobre isso. Mas eu reconheço o caso. Sem dúvida, fui eu quem o investigou há oito anos.

– Que caso? – disse Patrik, sua respiração foi ficando m ais curta e acelerada. Ele pressionou o fone contra a orelha, com m edo de perder qualquer palavra.

– Tivem os um hom em aqui há oito anos que... bem , eu achava que havia algum a coisa estranha sobre aquilo tudo. Mas ele tinha um histórico de abuso de álcool e... – Runberg fez um a pausa constrangida, aparentem ente relutante em adm itir o erro que com etera. – Bem , nós só pensam os que ele teve um a recaída e bebeu até a m orte. Mas os ferim entos que você m enciona, eu tenho que adm itir que, relem brando, tive dúvidas sobre o que eram – a linha ficou silenciosa e Patrik com preendeu quanto deveria estar custando ao superintendente ter aquela conversa.

– Qual era o nom e do hom em ? – disse Patrik, para quebrar o silêncio.

– Jan-Olov Persson – disse o superintendente Runberg. – Ele tinha quarenta e dois, trabalhava com o m arceneiro. Viúvo.

– E ele era alcoólatra?

– Sim , teve problem as sérios por um tem po. Quando sua esposa m orreu, ele, bem , ficou despedaçado. Foi um a história bem triste. Um a noite, ele pegou o carro depois de beber e atropelou um j ovem casal que estava cam inhando. O hom em m orreu e Jan-Olov passou um tem po na cadeia. Mas depois que ele saiu, nunca m ais tocou em álcool. Ele tom ou j eito, trabalhou, cuidou de sua filha.

– E de repente foi encontrado m orto por envenenam ento por álcool?

– Sim – Runberg suspirou. – Com o eu disse, nós pensam os que ele havia tido um a recaída e as coisas tinham fugido ao controle. A filha de dez anos o encontrou. Ela disse que havia encontrado um estanho, um hom em , na porta, m as nós não acreditam os nela. Acham os que tinha sido o choque ou que ela queria apenas proteger seu pai... – sua voz m orreu, e a vergonha pesou em seu silêncio.

– Havia um a página de livro ao lado dele? De um livro infantil?

– Eu tentei m e lem brar disso quando vi sua notificação. Mas não consegui m e lem brar de nada. Se havia um a página de livro, nós não dem os m uita im portância. Provavelm ente suspeitam os que pertencesse à m enina.

– Então não há m ais nada relacionado a isso? – Patrik pôde ouvir com o soava decepcionado.

– Não, não tem os m uito m ais sobre a investigação. Com o eu disse, nós pensam os que o cara havia m orrido de tanto beber. Mas posso te enviar o pouco que tem os.

– Você tem um aparelho de fax? Pode m e m andar por fax? Seria bom ter essas inform ações o m ais rápido possível.

– Claro – disse Runberg e então acrescentou. – Pobre m enina. Que vida. Prim eiro a m ãe m orreu quando ela era pequena e o pai foi para a cadeia. Depois ele m orreu e a deixou com pletam ente só. E agora eu leio nos j ornais que a garota foi assassinada na sua cidade. Eu acho que ela estava em um reality show. Eu nunca a teria reconhecido pelas fotos. Lillem or não parecia m ais a m esm a. Aos dez anos ela era m orena, m agra e agora… bem , m uita coisa aconteceu com o passar dos anos.

Patrik sentiu as paredes ruindo à sua volta. De início, ele não conseguiu processar a inform ação. Então de repente se deu conta do que Vilgot Runberg estava dizendo. Lillem or, Barbie, era a filha da segunda vítim a. E oito anos antes, ela tinha visto o assassino.

* * *

Quando Mellberg entrou no banco, havia m uitos, m uitos anos não se sentia m ais feliz e seguro. Ele, que detestava gastar dinheiro, agora ia gastar duzentos m il – e sem a m enor hesitação. Estava com prando um futuro, um futuro com Rose-Marie. Sem pre que fechava os olhos, o que acontecia com frequência durante o expediente, podia sentir o perfum e dos hibiscos, do sol, da água salgada e de Rose-Marie. Ele m al podia acreditar em sua sorte e com o sua vida havia m udado em poucas sem anas. Em j unho eles iriam até lá para ver a casa pela prim eira vez e ficar lá por quatro sem anas. Ele j á estava contando os dias.

– Eu gostaria de transferir duzentas m il coroas – ele disse, deslizando pelo balcão o papel com o núm ero de sua conta para a atendente. Sentiu orgulho. Poucos eram os que conseguiam econom izar tanto com um salário de policial, m as cada centavo aj udara e agora ele tinha um belo pé-de-m eia. Sim , pouco m ais que duzentas m il coroas. Rose-Marie ia depositar a m esm a quantia e eles fariam um em préstim o para com pletar o restante, ela disse. Contudo, quando ela ligou ontem , disse que era im portante que fechassem o negócio rapidam ente, porque outro casal tam bém havia m anifestado interesse pelo im óvel.

Ele saboreou as palavras. “Outro casal.” Im agine só, em idade avançada ele ter se tornado parte de um “casal”. Ele riu sozinho. Sim , além disso, ele e Rose-Marie, eram páreo para m uito casal j ovem na cam a. Ela era sim plesm ente m aravilhosa. Em todos os sentidos.

Estava prestes a sair, após realizar sua operação, quando de repente teve um a brilhante ideia.

– Quanto eu tenho sobrando na conta? – perguntou para a atendente, ansioso.

– Dezesseis m il e quatrocentos – ela disse. Mellberg hesitou por um m ilésim o de segundo antes de tom ar um a decisão.

– Eu gostaria de retirar tudo. Em dinheiro.

– Em dinheiro? – disse a atendente e ele confirm ou. Um plano tom ava form a em sua m ente e, quanto m ais ele pensava nisso, m ais certo tudo parecia. Cuidadosam ente, guardou o dinheiro na carteira e voltou para a delegacia. Nunca pensou que gastar dinheiro o faria se sentir tão bem . Ele j am ais poderia im aginar.

– Martin – Patrik arfava quando correu para o escritório do colega e Martin se perguntou o que estava acontecendo – Martin – Patrik repetiu, m as sentou-se para recobrar o fôlego.

– Foi exercício dem ais correr de sua sala até aqui? – Martin disse sorrindo. – Você deveria tentar entrar em form a.

Patrik fez um gesto de desdém e dessa vez não aproveitou a chance para devolver a provocação.

– Elas estão ligadas – ele disse, proj etando-se para a frente.

– Quem está ligada? – Martin perguntou, tentando descobrir o que dera em Patrik. Ele estava agindo com o um louco.

– Nossas investigações – disse Patrik, triunfante.

Martin ficou ainda m ais confuso.

– Bem , estão sim – ele disse, intrigado. – Nós j á confirm am os que em briaguez ao volante é o denom inador com um – ele fechou a cara e tentou entender o delírio de Patrik.

– Não, não aquelas investigações. Nossas investigações distintas. O assassinato de Lillem or... está conectado com os outros. É o m esm o crim inoso.

Agora Martin tinha certeza de que Patrik devia ter enlouquecido. Perguntou-se se teria a ver com o estresse. Todo aquele trabalho ultim am ente com binado ao estresse da proxim idade do casam ento. Até a pessoa m ais calm a poderia...

Patrik pareceu saber o que Martin estava pensando e o interrom peu irritado:

– Eles têm ligação, estou te dizendo. Ouça aqui.

Contou brevem ente o que Runberg dissera e, quanto m ais ele falava, m ais atônito Martin ficava. Ele m al podia acreditar. Aquilo soava tão im provável. Olhou para Patrik e tentou absorver todos os fatos.

– Então, o que você está dizendo é que a vítim a núm ero dois é Jan-Olov Persson, que era pai de Lillem or Persson. E Lillem or viu o assassino quando tinha dez anos de idade.

– Sim – disse Patrik, aliviado por Martin finalm ente ter com preendido. – É verdade! Pense no que ela escreveu em seu diário. Que ela reconhecia alguém , m as não conseguia se lem brar de onde. Um breve encontro oito anos atrás, quando tinha apenas dez anos; não deve ter sido um a lem brança m uito clara, dadas as circunstâncias.

– Mas o assassino sabia quem ela era e estava com m edo de que Lillem or pudesse ligá-lo ao ocorrido.

– E por isso ele tinha que m atar a garota antes que ela o identificasse, ligando-o, desse m odo, à m orte de Marit.

– E, por conseguinte, aos outros assassinatos – Martin acrescentou, agora m uito excitado.

– Tudo se encaixa, não acha? – disse Patrik, com a m esm a excitação na voz.

– Então, se pegarm os a pessoa que m atou Lillem or Persson, tam bém solucionarem os os outros assassinatos – Martin disse, num fio de voz.

– Sim . Ou vice-versa. Se solucionarm os os outros casos, encontrarem os a pessoa que m atou Lillem or.

– Certo – am bos ficaram em silêncio por um m om ento. Patrik queria gritar “Eureka!”, m as percebeu que não era lá m uito apropriado.

– O que tem os no m om ento para prosseguir com a investigação de Lillem or? – Patrik perguntou retoricam ente. – Tem os os pelos de cachorro e a fita da noite da m orte. Você assistiu à gravação novam ente na segunda-feira. Viu m ais algum a coisa que possa interessar?

Algo se rem exeu no subconsciente de Martin, m as recusou-se a vir à tona, então ele sacudiu a cabeça.

– Não, não vi nada de novo. Só o que Hanna e eu colocam os no relatório daquela noite.

– Então tem os que com eçar a verificar a lista dos criadores de cães. Annika m e entregou outro dia – ele se levantou. – Eu vou dar a notícia aos outros.

– Faça isso – disse Martin, distraído. Ainda estava tentando se lem brar do que havia escapado de seu pensam ento. Que diabos tinha visto no vídeo, m esm o? Ou não tinha visto? Quanto m ais tentava localizar com precisão, m as a coisa lhe fugia. Ele suspirou. Era m elhor esquecer por enquanto.

A notícia caiu com o um a bom ba na delegacia. A princípio, todos reagiram com a m esm a incredulidade de Martin, m as, quando Patrik apresentou os fatos do caso, todos aceitaram a notícia com m uito entusiasm o. Assim que estavam todos inform ados, Patrik voltou à sua m esa e tentou form ular um a estratégia de com o deveriam proceder.

– É um a notícia chocante, essa que você descobriu – disse Gösta, da porta. Patrik apenas assentiu.

– Venha cá, sente-se – ele disse e Gösta sentou-se na cadeira do visitante. – O único problem a é que eu não sei com o j untar tudo – disse Patrik. – Pensei em checar a lista de criadores que você com pilou e exam inar os docum entos que vieram de Ortboda – apontou para o fax em sua m esa. Havia chegado dez m inutos antes.

– Sim , há m uito o que checar – Gösta suspirou, olhando para todas as coisas penduradas nas paredes. – É com o um a teia gigantesca, m as sem nenhum a pista de onde a aranha foi parar.

Patrik riu.

– É um a ótim a analogia. Eu não sabia que tinha um a veia poética tão desenvolvida, Gösta.

Gösta só resm ungou um a resposta. Em seguida, levantou-se e andou lentam ente pela sala, seu rosto a apenas centím etros de distância das fotografias e dos docum entos pendurados.

– Tem de haver algo, um detalhe que perdem os – ele disse.

– Bem , se você encontrar algo, eu ficarei m ais que agradecido. Eu devo ter olhado para tudo isso até ficar cego – Patrik fez um gesto que abarcava todo o pequeno escritório.

– Pessoalm ente, eu não entendo com o você consegue trabalhar com essas fotos à sua volta – Gösta apontou para os retratos dos corpos, que estavam dispostos na ordem em que tinham sido m ortos. Elsa m ais perto da j anela e Marit perto da porta.

– Você ainda não pendurou Jan-Olov – Gösta disse secam ente, apontando para o espaço à direita de Elsa Forsell.

– Não. Ainda não tive tem po – disse Patrik, olhando para seu colega. Às vezes o hom em tinha um a vontade repentina de trabalhar, o bom Gösta Fly gare, e esse claram ente era um desses m om entos.

– Quer que eu saia do seu cam inho? – disse Patrik quando Gösta tentou se esprem er atrás de sua poltrona.

– Sim , isso aj udaria m uito – disse Gösta, afastando-se para deixar o colega passar. Patrik encostou-se na parede oposta e cruzou os braços. Era provavelm ente um a boa ideia que outra pessoa desse um a olhada.

– Você j á pegou de volta todas as páginas que estavam com o LNC, pelo que vej o – Gösta virou-se a fim de olhar para Patrik.

– Elas chegaram ontem . A única página que não tenho é a de Jan-Olov. Mas a polícia não a possuía.

– Isso é um a pena – disse Gösta, ainda voltando no tem po em direção a Elsa Forsell. – Eu m e pergunto por que João e Maria especificam ente – ele disse, pensativo. – É aleatório ou tem algum significado?

– Eu adoraria saber. Há m uito m ais que eu gostaria de saber tam bém .

– Hum m – disse Gösta, agora parado diante das fotos e dos docum entos que tratavam de Elsa.

– Eu telefonei para Uddevalla – disse Patrik, antecipando-se à pergunta de Gösta. – Eles ainda não encontraram os arquivos do acidente dela. Mas vão m andá-los por fax assim que os localizarem .

Gösta não respondeu. Ficou lá em silêncio por um m om ento, olhando o que estava exposto na parede. O sol de prim avera entrava pela j anela, ilum inando alguns dos papéis com sua luz brilhante. Ele franziu a testa. Deu m eio passo atrás. Depois se aproxim ou novam ente, dessa vez tão perto que quase colou a orelha na parede. Patrik o observou, adm irado. O que ele estava fazendo?

Gösta pareceu estar estudando a folha do livro pela lateral. A página de Elsa era a prim eira do conto de fadas, e a história de João e Maria com eçava ali. Com um a expressão triunfante, Gösta virou-se para Patrik.

– Venha cá onde eu estou – disse Gösta, dando um passo para o lado.

Patrik correu para assum ir a m esm a posição, alinhou a cabeça à parede, com o Gösta havia feito. E ali, na contraluz da j anela, ele viu o que seu colega havia descoberto.

* * *

Sofie se sentia congelada por dentro. Olhava o caixão sendo baixado para o túm ulo. Olhava, m as não com preendia. Não conseguia com preender. Com o podia ser sua m ãe deitada no caixão?

O pastor falou, ou pelo m enos seus lábios se m oviam , m as Sofie não ouvia o que era dito por conta do zum bido em seus ouvidos, que em udecia tudo o m ais. Ela olhou para seu pai. Ola parecia solene e retraído, com a cabeça baixa e abraçado à vovó. Os avós m aternos de Sofie haviam chegado da Noruega no dia anterior. Eles estavam diferentes de com o ela se lem brava deles, apesar de tê-los visto no Natal passado. Mas eles pareciam m ais baixos, m ais m agros, de cabelos m ais brancos. Vovó tinha rugas no rosto que não estavam lá antes e Sofie não soube com o abordá-la. Vovô tam bém havia m udado. Estava m ais quieto, m ais aéreo. Ele sem pre fora alegre e exaltado, m as dessa vez ele ficara apenas vagando pela casa, falando som ente quando conversavam com ele.

Pelo canto do olho, Sofie viu algo se m ovendo próxim o ao portão, do outro lado do átrio. Virou o rosto e viu Kerstin ali com seu casaco verm elho, suas m ãos agarradas às grades do portão. Sofie teve que desviar o olhar. Sentiu vergonha. Porque era seu pai quem estava lá e não Kerstin. Vergonha por não ter lutado pelo direito de Kerstin estar lá para dar adeus a Marit. Mas seu pai fora tão agressivo, tão determ inado. E ela sim plesm ente não conseguia m ais brigar com ele. Ele a estava repreendendo desde que descobrira que ela havia dado para a polícia o artigo sobre Marit. Ola disse que ela desgraçara a fam ília toda e que o fazia passar vergonha. E então ele com eçou a falar sobre o funeral, dizendo que seria apenas para parentes próxim os, a fam ília de Marit. Ele esperava que “aquela pessoa” não ousasse aparecer. Por isso Sofie apenas se calou. Sabia que era errado, m as papai estava tão cheio de ódio, tão furioso que ela sabia que tentar protestar iria lhe custar m uito.

No entanto, quando Sofie viu o rosto de Kerstin de longe, sentiu-se arrependida. Ali estava a com panheira de sua m ãe, sozinha, sem chance de dar um últim o adeus. Sofie deveria ter sido m ais coraj osa. Deveria ter sido m ais forte. Kerstin nem sequer fora m encionada no obituário no j ornal. Em vez disso, Ola publicou um a nota de falecim ento em que ele, Sofie e os pais de Marit eram listados com o os parentes m ais próxim os. Mas Kerstin havia m andado um feito por ela própria. Ola ficou lívido quando o viu no j ornal, m as não podia fazer nada quanto a isso. De repente, Sofie estava tão cansada de tudo: de toda a hipocrisia, de toda a inj ustiça. Deu um passo pelo cam inho de brita, hesitou por um segundo e então correu na direção de Kerstin. Por um m om ento, sentiu novam ente a m ão de Marit em seu om bro e sorriu quando se atirou nos braços de Kerstin.

– Sigrid Jansson – disse Patrik estreitando os olhos. – Olhe aqui, não diz Sigrid Jansson?

Ele saiu da frente para que Gösta pudesse dar um a olhada na página e no nom e que estava visível à luz do sol de prim avera.

– É o que parece para m im – disse Gösta, satisfeito consigo m esm o.

– Engraçado o LNC não ter notado isso – disse Patrik, m as então se lem brou de que havia pedido apenas para procurarem im pressões digitais. Mas aparentem ente a dona do livro tinha escrito seu nom e na prim eira página, e a caneta havia m arcado a página seguinte, a prim eira de texto, a que fora encontrada ao lado do corpo de Elsa Forsell.

– O que farem os agora? – disse Gösta, ainda com a m esm a expressão satisfeita no rosto.

– O nom e não é particularm ente incom um , m as vam os ter que com eçar buscando todas as Sigrid Janssons na Suécia e ver o que aparece.

– O livro é velho. A dona pode estar m orta.

– Certo – Patrik pensou por um m om ento antes de responder.

– É por isso que terem os que expandir a busca para incluir as que não estão m ais vivas hoj e. Terem os que incluir, digam os, m ulheres que nasceram no século dezenove.

– Parece um bom plano – disse Gösta. – Acha que significa algum a coisa Elsa ter ficado com a prim eira página? Será que ela tem algum a ligação com a tal Sigrid Jansson?

Patrik encolheu os om bros. Nada m ais o surpreendia nesse caso. Parecia que tudo era possível.

– É algo que terem os de checar. E talvez a gente descubra m ais quando Uddevalla retornar a ligação.

Continuar: parte 3 de 3