O estranho
Capítulo 1
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O toque do telefone tirou-o de seus pensam entos. Alcançou o aparelho ao lado da cam a de Malin.
– Aqui é o Dan. Oh, olá, Erica. Estou m eio pra baixo. As m eninas foram em bora ontem à noite. Sim , eu sei, elas voltam logo. Só que esse m eio-tem po parece m uito longo. Então, no que está pensando?
Ouviu com atenção. A ruga de preocupação que m arcava seu rosto antes de atender ao telefone ficou m ais pronunciada.
– As coisas estão assim tão ruins? Se houver algo que eu possa fazer, é só dizer.
Ouviu de novo, enquanto Erica falava.
– Bem , eu posso fazer isso, sim . Certam ente. Se você acha que vai aj udar – m ais um a pausa. – Ok, estou indo para aí.
Dan desligou e ficou sentando por um m om ento, pensando. Não sabia se poderia m esm o aj udar, m as, com o era Erica quem estava pedindo, ele não hesitaria em tentar.
Um dia, m uito tem po atrás, eles haviam sido um casal, m as nos anos seguintes tornaram -se am igos íntim os. Ela o aj udou quando estava se divorciando de Pernilla, e ele faria qualquer coisa por ela. Patrik tam bém havia se tornado um grande am igo e Dan era um convidado frequente na casa deles.
Ele vestiu o casaco e saiu com o carro. Levou poucos m inutos para chegar à casa de Erica. Ela abriu a porta na prim eira batida.
– Oi. Entre – ela disse, dando-lhe um abraço.
– Oi. Onde está Maj a? – ele procurou ansiosam ente pela garotinha que estava rapidam ente se tornando seu bebê preferido. Ele queria pensar que Maj a tam bém gostava dele.
– Ela está dorm indo. Sinto m uito – Erica riu. Sabia que sua encantadora filhinha j á havia roubado para ela o prim eiro lugar no afeto de Dan.
– Bem , acho que terei que tentar ficar sem ela, m as vou sentir falta de cheirar seu pescocinho.
– Não se preocupe, ela vai acordar em um m inuto. Por que não entra? Anna está lá em cim a dorm indo – Erica apontou para o teto.
– Acha que é um a boa ideia? – disse Dan preocupado. – Talvez ela não estej a com vontade. Talvez até fique zangada.
– Não m e diga que um cara grande e forte com o você tem m edo da am eaça de ver um a m ulher com raiva – Erica zom bou dele, levantando os olhos para observar Dan, que era bastante im ponente. – E o fato de eu ter dito isso um a vez não quer dizer que quero ouvir de novo sobre Maria ter te achado parecido com Dolph Lundgren. Considerando que ela está certa sobre a m aioria das coisas, eu não a citaria voluntariam ente se fosse você.
– Mas eu pareço m esm o com ele, não? – Dan fez um a pose, m as riu. – Não, você deve estar certa. E m eus dias de galã j á ficaram para trás. Eu só tinha que pôr isso tudo pra fora.
– É, Patrik e eu não vem os a hora de você encontrar um a nam orada com quem se possa conversar.
– Você diz em com paração com o alto nível intelectual desta casa? A propósito, com o anda Paradise Hotel? Os seus favoritos ainda estão no program a? Quem vai para a final? Você é um a telespectadora tão fiel. Tenho certeza de que você pode m e atualizar sobre o que acontece nesse program a tão cultural, que desafia seu cérebro, com tanta sede de conhecim ento. E Patrik, ele pode m e falar um pouco sobre a classificação de todos os tim es do cam peonato sueco, não? Isso é m atem ática de alto nível.
– Ha ha ha. Já entendi – Erica deu-lhe um soco no braço. – Agora suba lá e sej a útil.
– Tem certeza de que Patrik sabe no que está se m etendo? Eu acho que vou ter um a conversa com ele sobre se é um a boa ideia subir ao altar com você. – Dan j á estava na m etade da escada.
– Ótim a ideia! Agora suba!
A risada de Dan calou-se em sua garganta assim que subiu os últim os degraus. Ele m al via Anna nesse tem po em que ela e as crianças estavam com Erica e Patrik. Com o a Suécia inteira, ele soube de toda a tragédia pelos j ornais, m as, em todas as vezes que visitou Erica, Anna não apareceu. Pelo que Erica dizia, ela passava a m aior parte do tem po no quarto.
Ele bateu com cuidado na porta. Nada. Bateu novam ente.
– Anna? Olá? É o Dan. Posso entrar? – nenhum a resposta ainda. Perm aneceu ali, aturdido. Não se sentia lá m uito confortável com a situação, m as prom eteu a Erica que tentaria aj udar, então faria o m elhor possível. Respirou fundo e abriu a porta. Anna estava deitada na cam a e ele viu que estava acordada. Olhava para o teto, com as m ãos entrelaçadas sobre o estôm ago. Ela nem olhou em sua direção quando ele entrou.
Ele sentou-se na beirada da cam a. Nenhum a reação.
– Com o vão as coisas? Com o se sente?
– Com o parece que estou m e sentindo? – Anna disse, sem tirar os olhos do teto.
– Erica está preocupada com você.
– Erica está sem pre preocupada com igo.
Dan sorriu.
– Nisso você tem razão. Ela é m eio m ãezona, não é?
– Com certeza – disse Anna, olhando para Dan.
– Mas é com boa intenção. Ela deve estar um pouco m ais preocupada que o norm al nesse m om ento.
– É, eu sei – Anna suspirou. Um suspiro longo e profundo, que pareceu liberar m uito m ais que ar de seu corpo. – Eu só não sei com o sair dessa. É com o se toda a m inha energia tivesse sum ido. E eu não sinto nada. Absolutam ente nada. Eu não tenho rem orso nem estou feliz. Não sinto nada.
– Já conversou com alguém sobre isso?
– Um psicólogo ou alguém do tipo, você diz? Erica fica pegando no m eu pé sobre isso. Mas eu não consigo fazer isso. Não consigo m e im aginar sentada lá e falando com um com pleto estranho. Sobre Lucas. Sobre m im . Não consigo encarar tudo isso.
– Você poderia... – Dan hesitou, rem exendo-se na beirada da cam a. – Conseguiria se im aginar falando com igo? Nós não nos conhecem os m uito bem , m as pelo m enos eu não sou um com pleto estranho – ele fez um a pausa e aguardou sua resposta, tenso. Esperava que ela dissesse sim . Sentiu de repente um instinto de proteção por ela quando viu que estava m agra dem ais e tinha um a expressão de assom bro em seus olhos. Ela era tão parecida com Erica e, ao m esm o tem po, nem tanto. Um a versão m ais am edrontada e frágil de Erica.
– Eu... eu não sei – ela disse. – Não sei o que dizer. Por onde com eçar.
– Podem os com eçar saindo para um passeio. E se você quiser conversar, a gente conversa. Se não quiser, então... a gente só anda um pouco. Que tal? – podia-se ouvir quão ansioso estava.
Anna sentou-se cuidadosam ente. Acom odou-se de costas para ele por um instante e então levantou-se da cam a.
– Está bem . Vam os dar um passeio. Mas só um passeio.
– Está bem – disse Dan, concordando. Indicou o cam inho para as escadas e olhou para a cozinha, onde ouviu os passos de Erica.
– Vam os dar um a volta – gritou para ela e, pelo canto dos olhos, pôde ver Erica tentando fingir que isso era um a coisa norm al.
– Está um pouco frio lá fora, então é m elhor pôr um a j aqueta – ele disse a Anna, que seguiu seu conselho e vestiu um a parca bege e enrolou um grande cachecol branco em torno do pescoço.
– Está pronta? – ele perguntou, ciente dos m últiplos sentidos da pergunta.
– Sim , acho que estou – disse Anna baixinho e seguiu-o para o sol de prim avera.
* * *
– Acha que alguém se acostum a com isso? – perguntou Martin no carro, a cam inho de Fj ällbacka.
– Não – Patrik disse. – Pelo m enos, espero que não. Senão, eu teria que trocar de profissão. Ele fez um a curva rápido dem ais e Martin teve que se segurar na alça acim a da porta, com o sem pre. Pensou consigo m esm o que deveria avisar a nova oficial sobre sair de carro com Patrik. Se bem que talvez fosse tarde dem ais. Ela j á fora com ele ver o acidente naquela m anhã, então j á devia ter passado por sua prim eira experiência de quase-m orte.
– Que tal ela? – Martin perguntou.
– Quem ? – Patrik parecia m ais distraído que o norm al.
– A nova funcionária, Hanna Kruse.
– Parece legal – disse Patrik.
– Mas?
– Que quer dizer com “m as”? – Patrik virou-se para olhar seu colega, o que fez Martin segurar a alça com m ais força.
– Meu Deus, você pode olhar para frente, por favor? Eu só quis dizer que parecia que você queria dizer algo m ais.
– Ah, sei lá... – para o alívio de Martin, agora Patrik m antinha os olhos na estrada. – Só não estou acostum ado com pessoas tão... am biciosas.
– O que quer dizer com isso? – Martin disse, rindo, incapaz de esconder o fato de que se sentia um tanto ofendido.
– Ei! Não m e entenda m al. Eu não quis dizer que você não tem am bição, m as Hanna, ela é... com o posso dizer? “Superam biciosa.”
– “Superam biciosa” – Martin repetiu cético. – Você tem ressalvas contra ela porque é superam biciosa? Pode ser m ais específico? E o que há de errado com m ulheres superam biciosas? Você não é daqueles que acham que m ulheres não deviam estar na polícia, é?
Nesse m om ento, Patrik tirou os olhos da estrada novam ente e lançou a Martin um olhar incrédulo.
– Você não m e conhece bem ? Acha que sou algum tipo de porco chauvinista? Um porco chauvinista cuj a noiva ganha o dobro, no caso. Eu só quis dizer… ah, dane-se, você vai ter que ver por si m esm o.
Martin ficou em silêncio por um m om ento e então disse:
– Está falando sério? Erica ganha duas vezes m ais que você?
Patrik riu.
– Eu sabia que isso iria calar a sua boca. Apesar de que, para ser bem sincero, isso sem contar os im postos. A m aior parte vai para o governo. O que é um a sorte. Ser rico seria deprim ente.
Martin riu tam bém .
– É, que destino cruel. Não é um fardo que eu gostaria de carregar.
– Tam bém acho – Patrik sorriu, m as de repente ficou sério. Haviam chegado a Kullen, onde os quarteirões de edifícios eram m ais próxim os uns dos outros, e ele estacionou. Ficaram ali sentados antes de sair.
– Aqui vam os nós de novo.
– É – disse Martin. O nó em seu estôm ago crescia a cada m inuto. Mas não havia volta. O m elhor era acabar com tudo de um a vez.
– Lars? – Hanna colocou a bolsa ao lado da porta, pendurou a j aqueta e colocou os sapatos na sapateira. Ninguém respondeu. – Olá? Lars? Está em casa? – a angústia se fazia notar em sua voz. – Lars? – foi entrando na casa. Tudo estava em silêncio. Montículos de poeira se espalhavam quando ela passava, claram ente visíveis ao sol da prim avera que brilhava através das j anelas. O proprietário não havia feito um bom trabalho de lim peza antes de alugar o local. Mas ela poderia fazer isso agora. Seu m al-estar tirava tudo do cam inho.
– LARS! – agora ela gritava, m as só ouvia a própria voz ecoando pelas paredes.
Hanna continuou procurando pela casa. Não havia ninguém no andar de baixo, então ela correu para o de cim a. A porta do quarto estava fechada. Ela a abriu com cuidado.
– Lars? – ela disse, suavem ente. Ele estava deitado de lado na cam a, de costas para ela. Estava por cim a das cobertas totalm ente vestido, e ela via, por sua respiração calm a, que ele estava dorm indo. Ela deitou-se ao lado dele, seus corpos com o duas colheres encaixadas. Ouviu sua respiração e sentiu o ritm o com passado em balando-a gentilm ente. O sono afastou sua preocupação.
* * *
– Que porra de pardieiro! – disse Uffe, atirando-se em um as das cam as j á arrum adas no quarto grande.
– Eu acho que vai ser divertido – disse Barbie, pulando na cam a.
– E eu disse que não ia ser? – disse Uffe, rindo. – Só falei que era um pardieiro. Mas a gente vai agitar, não vai? Dá um a olhada nos suprim entos – sentou-se, apontando para o bar bem abastecido. – O que m e dizem ? Vam os com eçar a festa?
– Sim ! – todos gritaram , exceto Jonna. Ninguém olhou para as câm eras zunindo em torno deles. Estavam acostum ados dem ais a elas para com eter esse erro am ador.
– Então, saúde, porra! – disse Uffe, pegando a prim eira cervej a.
– Saúde! – disseram todos os outros, erguendo as garrafas. Todos, exceto Jonna. Ela estava sentada em sua cam a, olhando para os outros cinco, im óvel.
– Que m erda há de errado com você? – Uffe vociferou na direção dela. –
Não vai tom ar um a cervej a com a gente? Não som os bons o bastante pra você beber com a gente, é isso? – todos olharam para Jonna, na expectativa. Estavam todos bem cientes de que conflitos davam audiência e, se havia algo que todos ali queriam , é que Sodding Tanum desse audiência.
– Só não estou com vontade agora – disse Jonna. Ela evitou o olhar de Uffe.
– “Só não estou com vontade” – Uffe im itou sua voz um falsete estridente. Olhou em volta para verificar se alguém o apoiava e, quando viu ansiedade nos olhos deles, prosseguiu. – Que porra é essa? Você é algum tipo de abstêm ia? Achei que estivéssem os aqui pra FAR-RE-AR! – ergueu sua garrafa e tom ou um belo gole.
– Ela não é abstêm ia – Barbie arriscou dizer. Um olhar duro de Uffe a calou.
– Me deixe em paz – disse Jonna, irritada, se levantando da cam a. – Vou sair um pouco – ela disse, vestindo sua enorm e j aqueta m ilitar disform e, que estava pendurada em um a cadeira.
– Vá em frente! – Uffe gritou para ela. – Vá se foder, perdedora! – ele riu alto e abriu outra cervej a. Então olhou em volta novam ente. – Por que ainda estão sentados? É FESTA! Saúde!
Após alguns segundos de incôm odo silêncio, um riso nervoso com eçou a se espalhar. Então os dem ais ergueram as garrafas e caíram na farra. As câm eras continuaram zunindo, incitando o entusiasm o de todos. Era m uito bom estar na TV novam ente.
– Pai, a cam painha está tocando! – Sofie gritou antes de voltar a falar ao telefone. Suspirou.– Papai é tão lerdo. Eu não aguento ficar só aqui, sentada. Estou contando os dias até poder voltar a ficar com m am ãe e Kerstin. Típico, eu tenho que ficar em casa quando com eçarem a gravar Sodding Tanum hoj e. Todo m undo vai descer pra assistir e eu vou perder tudo. Tão típico – ela lam entou.– Pai, você precisa atender, tem alguém na porta! – gritou.– Eu j á tenho idade pra parar de ser j ogada de lá pra cá entre esses dois, com o se eu fosse filha de um lar desfeito. Mas com o eles ainda não conseguem se dar bem , nenhum dos dois m e ouve. Eles agem com o dois bebês.
A cam painha soou alta pelo apartam ento novam ente e Sofie pulou:
– Está bem , eu m esm a abro! – gritou e, ao voltar ao telefone, falou baixinho. – Olha, eu vou ter que te ligar depois, o velho deve estar ouvindo aquela banda noj enta com os fones de ouvido. Beij o, querida – Sofie suspirou e dirigiu-se à porta.– Tá bem , tá bem , estou indo! – ela escancarou a porta, m as ficou chocada ao ver dois estranhos em uniform es policiais parados ali.
– Olá.
– Você é Sofie?
– Sim , o que foi? – Sofie buscou fervorosam ente na m em ória por algo que pudesse ter feito para atrair a polícia até sua porta. Não conseguiu pensar em nada. Claro, ela levou um as garrafas de licor de m alte ao últim o baile da escola e j á tinha andado na garupa da m obilete turbinada de Olle algum as vezes, m as achava difícil a polícia se im portar com infrações tão insignificantes.
– Seu pai está em casa? – perguntou o policial m ais velho.
– Tá – disse Sofie agora com os pensam entos fervilhando m esm o. Que m erda papai poderia ter feito?
– Gostaríam os de conversar com vocês dois. Juntos – disse o policial ruivo, ligeiram ente m ais novo. Sofie não conseguiu deixar de pensar que ele não era nada feio. Nem o outro, para falar a verdade. Mas ele era tão velho. Devia ter pelo m enos trinta e cinco anos.
– Entrem – ela deu um passo atrás para deixá-los passar. Enquanto tiravam os sapatos, ela entrou na sala. De fato, papai estava sentado lá com os enorm es fones de ouvido grudados nas orelhas. Sem dúvida estava ouvindo algo horrível, com o m úsica eletrônica. Ela fez um gesto para ele tirar os fones dos ouvidos. Ele apenas ergueu os fones e olhou para ela com um olhar ridículo.
– Pai, tem dois tiras aqui que querem falar com a gente.
– Polícia? O quê? Quem ? – Sofie podia ver as engrenagens de sua m ente trabalhando enquanto ele buscava o que ela poderia ter feito para atrair a polícia para um a visita. Ela se antecipou a ele.
– Eu não fiz nada. Sério. Juro.
Ele a olhou desconfiado, m as tirou os fones de ouvido, levantou-se e foi ver o que estava acontecendo. Sofie o seguiu.
– O que há? – perguntou Ola Kaspersen, parecendo um tanto tem eroso em escutar um a notícia ruim com o resposta. Sua entonação revelava sua origem norueguesa, m as era tão suave que Patrik supôs que ele deixara sua terra natal m uitos anos atrás.
– Podem os nos sentar? Meu nom e é Patrik Hedström , a propósito, e esse é m eu colega Martin Molin.
– Claro, por favor – diz Ola, apertando a m ão dos dois. Ainda parecia intrigado. – Venham com igo – encam inhou Martin e Patrik para a cozinha, com o nove entre dez pessoas teriam feito. Por algum a razão, a cozinha sem pre parecia ser o lugar m ais seguro quando a polícia aparecia.
– Então, com o podem os aj udá-los? – Ola sentou perto de Sofie, enquanto os dois oficiais de polícia acom odavam -se diante deles. Ola na m esm a hora com eçou a arrum ar a franj a da toalha de m esa. Sofie olhou-o irritada. Será que ele não conseguia parar com essa inquietação nem agora?
– Nós… – aquele que se apresentou com o Patrik Hedström soou hesitante e Sofie passou a ter um a sensação estranha no estôm ago. Sentiu um a urgência de tapar os ouvidos e fazer “lá lá lá lá lá”, da form a com o fazia quando era pequena e m am ãe e papai estavam brigando, m as sabia que não podia. Não era m ais tão criança.– Sinto trazer m ás notícias. Marit Kaspersen faleceu em um acidente de carro ontem à noite. Sentim os m uito – Hedström pigarreou novam ente, m as não desviou o olhar. A sensação no estôm ago de Sofie piorou e ela lutou para evitar absorver o que acabava de ouvir. Não podia ser verdade! Tinha que haver algum erro. Mam ãe não podia estar m orta. Não era possível. Elas iam fazer com pras em Uddevalla no fim de sem ana. Já estava m arcado. Só as duas. Um daqueles passeios de m ãe e filha que m am ãe vinha cobrando dela havia tem pos e que Sofie sem pre fingia detestar, m as na verdade adorava. Im aginar que m am ãe nunca soube disso. Que ela gostava de seus passeios para fazer com pras. A cabeça de Sofie rodava e, ao lado dela, pôde ouvir seu pai respirando com dificuldade.
– Deve haver algum engano – as palavras de Ola pareciam ecoar os pensam entos de Sofie. – Marit não pode estar m orta! – ele arfava com o se tivesse corrido.
– Infelizm ente, não há dúvida – Patrik fez um a pausa e então disse: – Eu m esm o a identifiquei. Eu a reconheci da loj a.
– Mas... m as... – Ola buscou o que dizer, m as as palavras fugiam . Sofie fitou-o surpresa. Desde sem pre, seus pais viviam querendo se m atar. Ela j am ais poderia im aginar que algum a parte de seu pai ainda se im portava.– O que... o que aconteceu? – Ola gaguej ou.
– Um acidente com apenas um carro, ao norte de Sannäs.
– Apenas um carro? O que isso quer dizer? – Sofie perguntou. Suas m ãos se agarravam à beira da m esa. Nesse m om ento, parecia que essa era a única coisa que a ancorava à realidade.– Ela guinou para desviar de um cervo ou coisa assim ? Mam ãe só dirigia um as duas vezes por ano. Por que ela estava dirigindo ontem à noite? – ela olhava para os policiais sentados diante dela e sentia seu coração pular. A form a com o olhavam para a m esa revelava claram ente que havia algo que eles não estavam dizendo. O que poderia ser? Ela esperou em silêncio por um a resposta.
– Acham os que houve consum o de álcool. Ela poderia estar dirigindo em briagada. Mas não sabem os com certeza; os resultados da investigação vão nos dizer com m ais precisão – Hedström olhava diretam ente para Sofie. Ela não acreditava nos próprios ouvidos. Ela olhou para o pai e de volta para Patrik.
– Está brincando com igo? Tem que haver algum erro. Mam ãe nunca bebeu um a gota de álcool. Nem um a gota. Eu nunca a vi nem m esm o com um a taça de vinho. Ela era totalm ente contra álcool. Diga a eles! – Sofie sentiu um a esperança feroz crescer dentro de si. – Não pode ser a m am ãe! – ela lançou a seu pai um olhar cheio de esperança. Ele pigarreou.
– É, isso é verdade. Marit nunca bebeu. Nem na época em que éram os casados, nem depois, que eu saiba.
Sofie buscou seus olhos para se certificar de que ele agora sentia a m esm a esperança que ela, m as ele evitou olhar para ela. Ele disse o que ela sabia que ele tinha de dizer, o que a seus olhos confirm ava que a coisa toda havia sido um erro, ainda assim algo parecia... errado. Ela então ignorou essa sensação e virou-se para Patrik e Martin.
– Ouviram isso? Vocês devem ter com etido um erro. Não pode ser a m am ãe! Verificaram com Kerstin? Ela está em casa?
Os policiais trocaram olhares. Era o ruivo quem falava agora.
– Nós j á fom os à casa de Kerstin. Ela e Marit aparentem ente tiveram algum tipo de discussão ontem à noite. Sua m ãe saiu depressa e pegou as chaves do carro. Ninguém viu Marit desde então. E... – Martin olhou para seu colega.
– E eu tenho certeza de que é Marit – Patrik disse. – Eu j á a vi várias vezes na loj a e a reconheci na hora. Entretanto, nós não sabem os ao certo se ela bebeu algo. Só ficam os com essa im pressão porque sentim os cheiro de álcool no banco do m otorista. Mas não tem os certeza. Então é possível que haj a outra explicação e que vocês estej am certos. Mas não há dúvida de que era sua m ãe. Eu sinto m uito.
A sensação desagradável no estôm ago de Sofie voltou. Ficou tão forte que fez bílis subir até sua garganta. Agora as lágrim as vinham tam bém . Sentiu a m ão de seu pai em seu om bro, m as o sacudiu para tirá-la de lá. Todos esses anos de brigas entre os dois. Todas as discussões, tanto antes quanto depois do divórcio dos pais, toda as m entiras, tudo o que foi dito pelas costas, todo o ódio. Tudo aquilo agora se solidificava num nó duro no m eio de sua dor. Ela não conseguia m ais ouvir. Com três pares de olhos acom panhando-a, ela saiu correndo porta afora.
* * *
Do lado de fora da j anela da cozinha, Erica ouvia duas vozes alegres. Risadas aqui e ali eram abafadas pela porta, até que ela se abriu e o som se espalhou pela casa. Erica não acreditava no que via. Anna estava sorrindo, não do m odo forçado e cheio de obrigação que ela fazia diante das crianças quando tentava acalm á-las, m as um sorriso genuíno que ia de orelha a orelha. Ela e Dan conversavam entre si anim adam ente, e suas bochechas estavam rosadas de um a boa cam inhada no clim a adorável da prim avera.
– Oi! Divertiu-se? – Erica perguntou com cautela, colocando a j arra na cafeteira.
– Sim , estava lindo lá fora – disse Anna, sorrindo para Dan. – Foi ótim o esticar m inhas pernas um pouco. Fom os até Bräcke e voltam os. O tem po está tão aberto e ensolarado que algum as árvores j á estão soltando botões e... – ela teve que parar e tom ar fôlego depois da cam inhada.
– E nós sim plesm ente nos divertim os dem ais – Dan com pletou, tirando a j aqueta. – E então? Vai sair um café ou você está guardando para outros convidados?
– Não sej a bobo, achei que nós três podíam os tom ar um a xícara. Se estiver com vontade – disse Erica, olhando para Anna. Ela ainda sentia com o se estivesse andando sobre um a fina cam ada de gelo quando falava com a irm ã, com m edo de estourar a bolha de alegria que envolvia Anna.
– Claro. Eu não m e sinto revigorada assim há m uito tem po – Anna disse, sentando-se à m esa da cozinha. Pegou a xícara que Erica lhe oferecia, colocou um pouco de leite e aqueceu as m ãos no calor que em anava dela. As rosas verm elhas em suas bochechas faziam seu rosto se ilum inar. O coração de Erica parou por um instante ao ver Anna sorrindo. Fazia tanto tem po que não a via assim . Há tanto tem po Anna não tinha qualquer expressão além daquele olhar baixo e lúgubre. Olhou para Dan com gratidão. Ela não sabia se estava agindo corretam ente quando pediu para Dan ir até lá e falar com Anna, m as tinha a sensação de que, se alguém podia chegar até ela, seria ele. Erica tentava havia m eses, m as finalm ente percebeu que ela não era a pessoa certa para tirar sua irm ã daquele estado funesto.
– Dan perguntou com o iam os preparativos para o casam ento, m as tive que adm itir que não tenho a m enor ideia. Você provavelm ente m e contou, m as eu não tenho estado m uito receptiva ultim am ente. O que j á fez? Já está tudo agendado e pronto? – Anna tom ou um gole de café e olhou para Erica, em dúvida.
De repente ela pareceu tão j ovem , tão livre e despreocupada. Do j eito que era antes de conhecer Lucas. Erica forçou sua m ente a sair do assunto. Não tinha o m enor desej o de arruinar aquele m om ento pensando naquele canalha.
– Bem , estam os em dia com as coisas que precisam ser agendadas e encom endadas. A igrej a está reservada, j á fizem os a reserva no hotel e, bem , isso é tudo o que j á está feito.
– Mas Erica, o casam ento é daqui a seis sem anas! Que tipo de vestido você quer? O que as crianças vão vestir? Que tipo de buquê você quer? Já conversou com o bufê sobre o cardápio? Já reservou quartos para os convidados? A disposição dos convidados nas m esas j á está definida?
Erica ergueu a m ão, rindo. Maj a os observava feliz de seu cadeirão, alheia ao m otivo de toda aquela alegria.
– Calm a. Se você continuar assim , eu vou m e arrepender de Dan ter conseguido te tirar da cam a – ela sorriu e piscou para m ostrar que estava brincando.
– Está bem , está bem – disse Anna. – Não vou dizer m ais um a palavra. Não, tem m ais um a coisa: você j á providenciou a m úsica?
– Não, não e não de novo é provavelm ente a resposta para todas as suas perguntas, infelizm ente – Erica suspirou. – Eu ainda não consegui.
Anna ficou séria de repente.
– Você não conseguiu porque tem cuidado de três crianças. Me desculpe, Erica, as coisas não devem ter sido fáceis para você nos últim os m eses. Queria que eu... – sua voz falhou, e Erica viu lágrim as surgindo nos olhos da irm ã.
– Acalm e-se, está tudo bem . Adrian e Em m a estão sendo anj os e ficam na creche o dia todo, então não tem sido um fardo tão grande. Mas eles sentem saudade da m ãe.
Anna deu-lhe um sorriso triste. Dan estava brincando com Maj a e tentando ficar fora da conversa. Isso era entre Erica e Anna.
– Oh, m eu Deus, a creche! – Erica pulou da cadeira e olhou para o grande relógio na parede. – Estou superatrasada. Tenho que ir buscá-los. Ewa vai ficar louca se eu não correr.
– Eu vou buscá-los hoj e – disse Anna, levantando-se. – Me dê a chave do carro.
– Tem certeza?
– Sim , tenho certeza. Você vai buscá-los todos os dias, então hoj e é m inha vez.
– Eles vão adorar – disse Erica, voltando a sentar-se à m esa.
– Sim , vão m esm o – disse Anna com um sorriso ao pegar a chave do carro da bancada. Na saída, ela se virou.
– Dan... obrigada. Eu precisava disso. Foi m uito bom ter a chance de botar tudo pra fora.
– Ei, sem problem as. Eu gostei. Podem os cam inhar am anhã, se o tem po ainda estiver bom . Eu trabalho até às quinze para as três, então o que m e diz de um passeio de um a hora antes de pegar as crianças am anhã?
– Parece ótim o. Mas agora eu tenho que correr ou Ewa vai ficar furiosa ou o que quer que você tenha dito – m ais um sorriso, e ela desapareceu pela porta da frente.
Erica virou-se para Dan.
– Que diabos vocês fizeram nesse passeio? Fum aram haxixe j untos?
Dan riu.
– Não, nada disso. Anna só precisava de alguém com quem conversar e parecia que um a barreira havia estourado dentro dela, de algum a form a. Quando ela finalm ente com eçou a falar, foi im possível im pedir.
– Tenho tentado falar com ela há m eses – disse Erica. Não conseguiu evitar a m ágoa que sentia.
– Você sabe com o são as coisas entre vocês, Erica – Dan disse calm am ente. – Tem m uita história entre as duas. Talvez não sej a fácil para Anna falar com você. São próxim as dem ais, para o bem ou para o m al. Mas quando estávam os fora, ela m e disse que é im ensam ente grata por você e Patrik terem estado tão dispostos a aj udar e, acim a de tudo, que você tem sido fantástica com as crianças.
– Ela disse isso? – Erica percebeu quão ansiosa soava por reconhecim ento. Estava tão acostum ada a cuidar de Anna, e o fazia com prazer, m as não im portava quanto isso soasse egoísta, ela queria que Anna reconhecesse a aj uda que havia recebido.
– Foi o que ela disse – Dan falou e cobriu a m ão dela com a sua. Um a sensação fam iliar e gostosa.
– Mas a coisa toda do casam ento m e pareceu preocupante – Dan prosseguiu. – Acha que consegue dar conta de tudo em seis sem anas? Basta pedir, se precisar de m inha aj uda – ele fazia caretas para Maj a, que gritava de tanto rir.
– O que você pode fazer pra aj udar? – Erica bufou, servindo m ais café. – Escolher um vestido de noiva pra m im ?
Dan riu.
– Ah, sim . Isso seria um sucesso. Não, m as eu poderia oferecer lugar para dorm ir a alguns de seus convidados, por exem plo. Se precisar, eu tenho bastante espaço – ele ficou sério, e Erica sabia perfeitam ente do que Dan estava falando.
– Sabe, tudo vai se resolver. Tudo vai m elhorar.
– Acha m esm o? – ele disse, m elancólico, tom ando um gole do café. – Só Deus sabe. Eu tenho tanta saudade delas. Às vezes parece que vou m e partir em pedaços.
– É das crianças ou de Pernilla e das crianças que você sente saudade?
– Eu não sei. Am bas, eu acho. Se bem que eu j á aceitei que Pernilla j á m e esqueceu. Mas m e sinto m orrendo por dentro por não poder ver as m eninas todos os dias. Não estar lá quando elas acordam , quando vão para a escola, não poder j antar com elas e saber com o foi seu dia. Tudo isso. Em vez disso, eu fico sozinho sem ana sim , sem ana não naquela m aldita casa. É tão vazia que faz eco. Eu quis m anter o local para que elas não perdessem o lar da infância tam bém , m as agora não sei se consigo sustentar a casa por m uito m ais tem po. Talvez eu tenha que vendê-la nos próxim os seis m eses.
– Acredite, eu j á passei por isso – disse Erica, referindo-se a quão perto chegaram de ver Lucas colocar sua casa à venda; aquela em que m oravam hoj e e onde Anna e ela cresceram .
– Eu sim plesm ente não sei o que fazer da m inha vida – disse Dan, passando as m ãos pelos curtos cabelos louros.
– Quem são essas pessoas anim adas na cozinha? – a voz de Patrik, vinda da entrada, interrom peu os dois.
– Estam os só falando sobre o que Dan deveria fazer com sua casa – Erica respondeu, levantando-se para beij ar seu futuro esposo. Maj a tam bém percebeu que o hom em de sua vida entrava pela porta e agora agitava os bracinhos freneticam ente para ser pega no colo.
Dan olhou para ela e abriu os braços de m odo côm ico.
– Com o assim ? Achei que estivesse rolando um clim a aqui entre nós. E então você m e j oga fora pelo prim eiro cara que entra por essa porta. As crianças de hoj e em dia, eu j uro... Não conhecem um produto de qualidade quando o veem .
– Oi, Dan – disse Patrik, dando-lhe um tapinha no om bro, rindo. E então pegou Maj a. – É, o papai está no topo da lista para essa m enininha aqui – ele disse, dando um beij o em Maj a e roçando a barba por fazer no pescoço dela, o que a fez gritar de alegria.
– A propósito, Erica, você não tem que pegar as crianças na creche?
Erica fez um a pausa de efeito. E então disse com um enorm e sorriso:
– Anna foi buscá-las.
– O que disse? Anna foi buscá-las? – Patrik parecia atônito, m as tam bém contente.
– Sim , esse herói aqui levou Anna para um passeio e aí eles fum aram haxixe e...
– Fum am os nada, pare com isso! – Dan falou rindo, virando-se para Patrik. – Foi assim : Erica m e ligou e perguntou se eu podia tentar persuadir Anna a sair com igo, para fazer um pouco de exercício. E Anna concordou e acabam os dando um a cam inhada longa e m uito boa. Parece ter lhe feito m uito bem sair de casa.
– Pra dizer o m ínim o – disse Erica, desarrum ando os cabelos de Dan. – O que acha de se aproveitar de nossa gratidão por m ais um tem po e ficar para o j antar?
– Depende. O que vão com er?
– Você é m esm o m uito m im ado – disse Erica, rindo. – Mas vam os com er ensopado de frango com abacate e arroz tailandês.
– Está bem , eu topo.
– Bom saber que agradam os seus altos padrões, sr. Gourm et.
– Vam os ver depois que eu provar.
– Pare com isso! – disse Erica e levantou-se para com eçar a fazer o j antar.
Sentiu-se bem . Havia sido um bom dia. Um ótim o dia. Virou-se para perguntar a Patrik com o fora o dele.