O estranho

Camilla Läckberg · Capítulo 1 de 10 · parte 2/3

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O estranho

Capítulo 1

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

– Meu nom e é Rose-Marie – ela disse, estendendo a m ão.

– Bertil – respondeu Mellberg.

No instante em que sua m ão encontrou a dela, a vida dele m udou. Durante sessenta e três anos, ele havia experim entado desej o, tesão e um a com pulsão por possuir algum a m ulher que conhecia. Mas nunca antes havia se apaixonado. Por isso a coisa o atingiu com m ais força ainda. Ele a observou com adm iração. A personalidade obj etiva de Mellberg registrou um a m ulher por volta dos sessenta anos de idade, um m etro e cinquenta e dois, ligeiram ente cheinha, com cabelos curtos tingidos em um tom ruivo vivo e um sorriso feliz. Mas seu eu subj etivo viu som ente seus olhos. Eram azuis e olhavam para ele com curiosidade e intensidade. Ele sentiu-se m ergulhando naqueles olhos, com o poderia ser descrito naqueles rom ances baratos que são vendidos em bancas de j ornal.

Depois disso, a noite passou rápido dem ais. Eles dançaram e conversaram . Ele lhe pagou bebidas e puxou a cadeira para ela. Um com portam ento que certam ente não fazia parte de seu repertório. Mas nada fora norm al naquela noite.

Quando se despediram , ele se sentiu ao m esm o tem po estranho e vazio. Sim plesm ente tinha que vê-la de novo. Agora estava ali, sentado no escritório num a m anhã de segunda-feira, sentindo-se com o um adolescente. Diante dele, sobre a m esa, j azia um pedaço de papel com o nom e e o telefone de Rose-Marie.

Ele olhou para o pedaço de papel, respirou fundo e discou o núm ero.

Haviam brigado novam ente. Pela enésim a vez. Por várias vezes, as discussões se transform aram em lutas verbais de boxe entre as duas. Com o de costum e, cada um a defendia sua posição. Kerstin queria que as duas saíssem do arm ário. Marit ainda queria m anter tudo em segredo.

– Tem vergonha de m im , de nós? – Kerstin gritara. E Marit, com o tantas vezes antes, virara o rosto e se recusara a olhá-la nos olhos. Porque era j ustam ente aí que estava o problem a. Elas se am avam , e Marit tinha vergonha disso.

No início, Kerstin tinha se convencido de que isso não im portava. O m ais im portante era que tinham se encontrado. Que as duas, após serem m eticulosam ente espancadas pela vida e por pessoas que lhes m agoaram até a alm a, haviam m esm o se encontrado. O que im porta o sexo de um parceiro? Quem se incom oda com o que os outros dizem ou pensam ? Mas Marit não via assim . Ela não estava pronta para se suj eitar às opiniões e ao preconceito das pessoas à sua volta e queria que tudo perm anecesse com o havia sido nos últim os quatro anos. Elas continuariam a m orar j untas com o am antes, m as aparentem ente fingiriam ser apenas duas am igas que, por questões financeiras e por conveniência, dividiam o m esm o apartam ento.

– Por que se im porta tanto com o que os outros dizem ? – Kerstin perguntara quando brigaram na noite anterior. Marit chorou com o sem pre fazia quando elas tinham um a discussão. E com o sem pre, aquilo havia deixado Kerstin com m ais raiva do que nunca. As lágrim as eram com o um com bustível para a raiva que se acum ulava por trás do m uro criado por seu segredo. Ela odiava fazer Marit chorar. Odiava que as circunstâncias e as outras pessoas a fizessem m agoar aquela que ela am ava m ais que tudo.

– Im agine com o seria para Sofie se isso se espalhasse.

– Sofie é m uito m ais forte do que você pensa. Não a use com o desculpa para sua própria covardia.

– Quanto você acha que alguém tem que ser forte quando se tem quinze anos e as outras crianças pegam no seu pé porque sua m ãe é sapatão? Tem ideia de quanta m erda ela teria que aguentar na escola? Eu não posso fazer isso com ela! – as lágrim as de Marit distorciam seu rosto, com o um a m áscara feia.

– Você acha de verdade que Sofie não descobriu tudo a essa altura? Acha m esm o que a enganam os quando ela vem nos visitar e você se m uda para o quarto de hóspedes, quando e nós ficam os fazendo esse teatrinho em casa? Olhe, Sofie j á percebeu há m uito tem po. E se eu fosse ela, teria m ais vergonha de um a m ãe que espera viver a vida toda num a porra de m entira para que “os outros” não com entem . Disso sim , eu teria vergonha!

A essa altura, Kerstin gritava tanto que podia se perceber ficando rouca. Marit a olhava com aquele olhar ferido que, ao longo dos anos, Kerstin tinha aprendido a odiar e tam bém sabia por experiência o que viria depois. Dito e feito, Marit levantara-se da m esa e com eçara a vestir a j aqueta, soluçando.

– Vá em frente, fuj a. É o que você sem pre faz. Vá! E dessa vez não se incom ode em voltar!

Quando a porta bateu atrás de Marit, Kerstin sentou-se à m esa da cozinha. Respirava com dificuldade, com o se estivesse correndo. E de certa form a, estava m esm o. Correndo atrás da vida que queria para as duas, m as que o m edo de Marit as im pedia de ter. E pela prim eira vez, suas palavras tinham intenção. Algo dentro de si dizia que logo ela não conseguiria m ais suportar aquilo.

Mas agora, na m anhã seguinte, a sensação tinha sido substituída por um a preocupação profunda, que a consum ia. Havia passado a noite toda acordada.

Esperando a porta se abrir, esperando ouvir os passos fam iliares nos tacos do assoalho, esperando abraçar Marit e consolá-la e im plorar por seu perdão. Mas ela não havia voltado para casa. E as chaves do carro haviam sum ido. Kerstin verificara durante a noite. Onde diabos ela estaria? Será que tinha acontecido algum a coisa? Ela teria ido para a casa de seu ex-m arido, o pai de Sofie? Ou teria fugido para a casa da m ãe em Oslo?

Com dedos trêm ulos, Kerstin pegou o telefone para com eçar a ligar.

– O que acha que isso vai significar para o turism o em Tanum ? – o repórter aguardava de pé com bloco e caneta, pronto para anotar sua resposta.

– Muito. Vai se tornar im enso. Dentro de cinco sem anas, haverá um program a de m eia hora transm itido de Tanum shede todos os dias na TV. Essa área nunca teve um a oportunidade de m arketing tão gigante – Erling sorria. Um a m ultidão havia se j untado do lado de fora do centro com unitário, esperando pelo ônibus com os participantes. A m aioria eram adolescentes que se aglom eravam e m al podiam ficar parados de tanta ansiedade para finalm ente ver seus ídolos ao vivo.

– Mas não pode acontecer o efeito oposto? Digo, em tem poradas passadas o show term inou tendo que lidar com bate-bocas, sexo, em briaguez, e isso não deve ser a m ensagem que querem os passar para os turistas, não é?

Erling olhou irritado para o repórter. Por que as pessoas tinham que ser tão negativas? Ele j á tinha enfrentado o bastante com a própria Câm ara Municipal e agora a im prensa com eçava a bater na m esm a tecla.

– Claro, m as você provavelm ente j á ouviu a frase “Não existe divulgação ruim ”, não ouviu? E, para ser sincero, Tanum shede tem um a im agem bem invisível; nacionalm ente, digo. Agora isso tudo vai m udar com Sodding Tanum.

– Obviam ente – o repórter com eçou a dizer, m as foi interrom pido por Erling, que perdia a paciência.

– Infelizm ente, não tenho tem po para tecer m ais com entários no m om ento. Estou aqui no com itê de boas-vindas – ele se virou e saiu andando a passos largos na direção do ônibus, que acabava de estacionar. Os j ovens se aglom eraram diante da porta do ônibus, ansiosos, aguardando com expressão excitada a abertura da porta. A visão da m ultidão de j ovens era o suficiente para confirm ar a opinião de Erling de que era disso que a cidade precisava. Agora Tanum shede entraria no m apa.

Quando as portas do ônibus se abriram com um som de ar sendo liberado, foi um hom em de uns quarenta e poucos anos que saiu prim eiro. Murm úrios decepcionados dos adolescentes indicavam que ele não fazia parte do elenco. Erling não havia assistido a nenhum dos vários reality shows j á transm itidos, então não fazia ideia do que esperar.

– Erling W. Larson – disse ele, estendendo a m ão e ligando seu sorriso vitorioso. As câm eras clicavam .

– Fredrik Rehn – disse o hom em , apertando a m ão oferecida a ele. – Nós conversam os por telefone. Sou o produtor desse circo – e am bos sorriam .

– Bem , deixe-m e dar-lhe as boas-vindas a Tanum shede. Em nom e da com unidade, gostaria de dizer que estam os extrem am ente felizes e orgulhosos de tê-los aqui e esperam os que sej a um a tem porada m uito excitante.

– Obrigado, obrigado. Sim , nossas expectativas são grandes. Depois de duas tem poradas de sucesso, estam os m uito otim istas. Sabem os que é um form ato de sucesso e não vem os a hora de trabalhar com vocês. Mas não vam os deixar os fãs esperando – disse Fredrik com um sorriso largo, fazendo reluzir os dentes incrivelm ente brancos diante da m ultidão ansiosa.

– Aí vêm eles! O elenco de Sodding Tanum: Barbie, do Big Brother, Jonna, do Big Brother, Calle, do Survivor, Tina, do The Bar, Uffe, do Survivor e, por últim o, m as não m enos im portante, Mehm et, do The Farm!

Um a um , os participantes saíam do ônibus, e a histeria se alastrou. As pessoas gritavam e apontavam e lançavam -se à frente para tocar os participantes ou pedir autógrafos. Os operadores de câm era j á estavam posicionados e film avam tudo. Satisfeito, m as espantado, Erling assistia à reação frenética causada pela chegada do elenco. Não conseguia deixar de se perguntar por que a j uventude de hoj e ficava tão excitada com isso. Por que esse grupo de crianças arrogantes gerava tanta histeria? Bem , ele não precisava entender – o principal era explorar ao m áxim o a atenção que o program a traria a Tanum shede. Mais tarde, se isso o fizesse parecer o grande benfeitor da cidade, quando o sucesso se tornasse um fato, então, sim , seria naturalm ente um benefício adicional.

– Vej am , precisarem os dispersá-los. Vocês terão m uitas oportunidades para conhecer o elenco. Afinal, eles viverão aqui por cinco sem anas – Fredrik espantava os fãs, que ainda cercavam o ônibus. – Nesse m om ento, o elenco precisa se acom odar e descansar um pouco. Mas vocês vão ligar a TV sem ana que vem , certo? Estreia segunda-feira, às sete! – fez sinais de positivo com as duas m ãos e disparou m ais um sorriso falso.

A j ovem m ultidão recuou relutantem ente, a m aioria se dirigindo à escola, m as um grupo pequeno parecia considerar essa um a excelente oportunidade para m atar as aulas de hoj e e seguia direto para o Hedem y r.

– Inegavelm ente, um início m uito prom issor – disse Fredrik, abraçando Barbie e Jonna. – O que m e dizem , m eninas, estão prontas para ir?

– Sem dúvida! – disse Barbie, com olhos brilhantes. Com o sem pre, toda a com oção lhe provara um a descarga extra de adrenalina e ela pulava de felicidade.

– E quanto a você, Jonna? Com o se sente?

– Bem – ela m urm urou –, m as seria bom ter chance de desfazer as m alas e m e acom odar.

– Vam os cuidar disso, gata – disse Fredrik, apertando um pouco m ais seus om bros. – O principal é que vocês estej am se sentindo bem , você sabe disso – e foi em direção a Erling. – Está tudo pronto com as acom odações?

– Claro – Erling apontou na direção de um a casa verm elha em estilo antigo, que ficava a apenas cinquenta m etros de distância. – Eles vão m orar no centro com unitário. Colocam os cam as e outros m óveis e acho que ficou bastante confortável.

– Tanto faz! Enquanto tiver goró, eu posso dorm ir em qualquer lugar – foi Mehm et do The Farm que falou, seguido por risinhos e m anifestações de concordância por parte dos dem ais. Bebida grátis era um pré-requisito para participarem . Isso e todas as oportunidades de fazer sexo que advinham do status de celebridade.

– Calm a, Mehm et – disse Fredrik, sorrindo. – Vai haver um bar com tudo o que você possa querer. Vários engradados de cervej a tam bém , e m ais ainda quando tudo term inar. Vam os cuidar bem de vocês – tentava colocar os braços em volta de Mehm et e Uffe, m as os dois escaparam habilm ente. Já no início eles o tacharam de bicha louca e não tinham o m enor interesse em ficar se agarrando com um m ordedor de fronha. Deixaram aquilo bem claro. Apesar de andarem na corda bam ba: eles tinham que se dar bem com o produtor, com o o elenco da tem porada anterior os aconselhara. O produtor decidia quem ficava m ais tem po no ar e quem ficava m enos, e ficar por m ais tem po diante das câm eras era a única coisa que im portava. Mais tarde, se você vom itasse ou m ij asse no chão ou agisse com o um babaca o tem po todo, não significaria nada.

Erling não tinha a m enor ideia disso. Nunca tinha ouvido falar em bartenders que tivessem se tornado celebridades ou no esforço im oral necessário para se m anter sob os holofotes com o um a estrela de reality show. Não, ele só estava interessado na visibilidade que Tanum shede conseguiria com o program a. E seu lugar de destaque com o o hom em que tornou isso tudo possível.

Erica j á havia alm oçado quando Anna desceu as escadas, vindo de seu quarto. Mas m esm o j á sendo m ais de um a hora da tarde, ela parecia não ter dorm ido nada. Anna sem pre foi m agra, m as agora estava tão enxuta que Erica às vezes tinha que controlar o im pulso de dem onstrar susto ao vê-la.

– Que horas são? – Anna perguntou, com voz trêm ula. Sentou-se à m esa e pegou a xícara de café que Erica lhe oferecia.

– Um a e quinze.

– Dá, dá – disse Maj a, acenando prazerosam ente para Anna, num a tentativa de cham ar sua atenção. Anna nem notou.

– Merda, eu dorm i até depois da um a da tarde. Por que você não m e acordou? – perguntou Anna, dando um gole em seu café quente.

– Bem , eu não sabia o que queria que eu fizesse. Você parecia precisar dorm ir – Erica disse cautelosam ente, sentando-se à m esa da cozinha.

Sua relação com Anna andava de tal form a que j á havia algum tem po tinha que tom ar cuidado com o que dizia, e as coisas não haviam m elhorado depois de tudo o que acontecera com Lucas. O m ero fato de ela e Anna estarem m orando sob o m esm o teto novam ente as fez cair nos antigos padrões de que am bas lutaram tanto para escapar. Erica autom aticam ente retom ou seu papel m aternal com relação à irm ã, enquanto Anna parecia vacilar entre o desej o de ser cuidada e um a necessidade de se rebelar. Nos últim os m eses, a casa tinha um a atm osfera sufocante, com várias questões não ditas flutuando pelo ar, esperando o m om ento certo de ser ventiladas. Mas Anna ainda estava em estado de choque e não parecia capaz de sair dessa sozinha. Então Erica pisava em ovos em torno dela, m orrendo de m edo de dizer algo errado.

– E as crianças? Deram trabalho para ir para a creche?

– Não, correu tudo bem – disse Erica, decidindo não m encionar a birrinha de Adrian. Anna tinha tão pouca paciência com as crianças ultim am ente. A m aioria das questões práticas recaía sobre Erica e sem pre que as crianças com eçavam a brigar, Anna desaparecia e deixava Erica lidar com o problem a. Ela era com o um trapo torcido: cam baleava indiferente pela casa, com o se tentasse descobrir o que um dia a m anteve de pé. Erica estava m uito preocupada.

– Anna, não se aborreça, m as não acha que deveria conversar com alguém ? Conseguim os o nom e de um psicólogo que dizem ser excelente e eu acho que poderia...

Anna a interrom peu bruscam ente.

– Já disse que não. Eu tenho que sair dessa sozinha. É m inha culpa. Eu m atei um ser hum ano. Não posso m e sentar e reclam ar com um com pleto estranho. Eu tenho que resolver isso sozinha – a m ão que segurava a xícara de café apertou a asa com tanta força que as articulações em branqueceram .

– Anna, sei que j á conversam os sobre isso m il vezes, m as vou dizer de novo. Você não assassinou Lucas, você o m atou em legítim a defesa. E estava defendendo não apenas a si m esm a com o às crianças tam bém . Ninguém duvida disso, e você foi totalm ente absolvida. Ele teria te m atado, Anna. Era você ou Lucas.

O rosto de Anna se contorceu levem ente enquanto Erica falava e Maj a, sentindo a tensão no ar, com eçou a choram ingar no cadeirão.

– Eu... não… consigo… falar… sobre… isso – disse Anna, com os dentes cerrados. – Vou voltar para a cam a. Pode pegar as crianças? – ela se levantou e deixou Erica sozinha na cozinha.

– Sim , eu vou buscá-las – disse Erica, sentindo os olhos m arej ados. Logo ela não seria m ais capaz de suportar isso. Alguém tinha que fazer algum a coisa.

Então teve um a ideia. Pegou o telefone e discou um núm ero que tinha na m em ória. Não custava tentar.

* * *

Hanna foi diretam ente para seu escritório e com eçou a se instalar. Patrik seguiu para o cubículo de Martin Molin e bateu cautelosam ente na porta.

– Entre.

Patrik entrou na sala e sentou-se diante da m esa de Martin. Eles quase sem pre trabalhavam j untos e passavam m uitas horas ocupando a cadeira de visitas um do outro.

– Soube que saiu para investigar um acidente de autom óvel. Vítim as?

– Sim , a m otorista. Apenas um carro envolvido. E eu a reconheci. Era Marit, a m ulher da loj a em Affärsvägen.

– Que m erda – disse Martin, com um suspiro. – Tão desnecessário. Tentou desviar de um cervo ou coisa assim ?

Patrik hesitou.

– Os peritos estavam lá, então o relatório e a necropsia provavelm ente vão nos dar um a resposta definitiva. Mas o carro fedia à bebida.

– Que m erda – disse Martin pela segunda vez. – Dirigindo em briagada, em outras palavras. Se bem que não creio que ela algum a vez j á tenha sido parada por isso. Pode ter sido a prim eira vez que fez isso ou pelo m enos ela nunca foi detida por isso.

– Sim – Patrik falou pausadam ente. – Pode ser isso.

– Mas? – Martin cutucou, j untando as m ãos atrás da cabeça. Seus cabelos ruivos brilharam contra as palm as brancas. – Posso sentir que algo o incom oda. Já te conheço bem o bastante e sei dizer quando há algo errado.

– Bem , eu não sei – disse Patrik. – Não é nada específico. Algum a coisa parece... errada, algo que não consigo apontar com certeza.

– Seus instintos norm alm ente estão certos – disse Martin preocupado, balançando a cadeira para frente e para trás. – Mas nesse m om ento talvez sej a m elhor esperar e ouvir o que os especialistas têm a dizer. Assim que os peritos e o patologista tiverem olhado tudo, saberem os m ais. Talvez eles apareçam com um a explicação para algo parecer estranho.

– Sim , você está certo – disse Patrik, coçando a cabeça. – Mas... não, você tem razão, não faz sentido especular antes de saberm os m ais. Agora precisam os nos concentrar no que podem os fazer. E infelizm ente isso significa notificar a fam ília de Marit. Sabe se ela tem parentes aqui?

Martin franziu as sobrancelhas.

– Ela tem um a filha adolescente, que eu saiba, e divide um apartam ento com um a am iga. Houve boatos sobre esse acordo entre elas, m as não sei...

Patrik suspirou.

– Tem os que ir até a casa dela e então ver o que é m elhor fazer.

Alguns m inutos depois, eles estavam batendo à porta do apartam ento de Marit. Procuraram na lista e descobriram que ela m orava num arranha-céu a poucos m etros da delegacia. Tanto Patrik quanto Martin arfavam . Essa era a pior tarefa de um policial. Só quando ouviram passos do lado de dentro é que se deram conta de que não tinham certeza de que alguém estaria em casa àquela hora da tarde.

A m ulher que abriu a porta soube na hora por que eles tinham vindo. Martin e Patrik podiam ver o m odo com o seu rosto em palideceu e seus om bros caíram , em sinal de resignação.

– É a respeito de Marit, não é? Aconteceu algum a coisa? – a voz dela era trêm ula, m as ela recuou para deixá-los entrar.

– Sim , infelizm ente tem os m ás notícias. Marit Kaspersen envolveu-se num acidente de carro. Ela... faleceu – disse Patrik, em voz baixa. A m ulher diante deles ficou com pletam ente im óvel. Com o se tivesse congelado naquela posição e não pudesse enviar sinais do cérebro para os m úsculos. Em vez disso, sua m ente se ocupava de processar a inform ação que acabava de escutar.

– Gostariam de um café? – ela disse finalm ente, dirigindo-se, com m ovim entos robóticos, para a cozinha, sem esperar pela resposta deles.

– Há alguém para quem devem os ligar? – perguntou Martin. A m ulher parecia estar em choque. Seus cabelos castanhos tinham um corte estilo tigelinha e ela não parava de colocá-los atrás das orelhas. Era m uito m agra, vestia j eans e um suéter tricotado em estilo típico norueguês com um lindo e intricado padrão e grandes e elegantes fechos prateados.

Kerstin balançou a cabeça.

– Não, eu não tenho ninguém . Ninguém exceto... Marit. E Sofie, é claro. Mas ela está com o pai dela.

– Sofie... é a filha de Marit? – Patrik perguntou, balançando a cabeça quando Kerstin estendeu um a caixa de leite depois de servir café em três xícaras.

– Sim , ela tem quinze anos. É a sem ana de Ola. A cada duas sem anas ela fica com igo e Marit e nas outras com Ola em Fj ällbacka.

– Vocês eram am igas íntim as, você e Marit? – Patrik se sentiu desconfortável com a form a com o fez a pergunta, m as não sabia de que outra m aneira abordar o assunto. Tom ou um gole do café enquanto aguardava a resposta. Estava delicioso. Forte, com o ele gostava.

Um sorriso torto m ostrou que Kerstin sabia o que ele estava perguntando. Seus olhos se encheram de lágrim as quando ela disse:

– Nós éram os am igas durante as sem anas em que Sofie ficava aqui, m as am antes quando ela estava com Ola. Era isso o que nós... – sua voz falhou e lágrim as com eçaram a escorrer por sua face. Ela chorou por algum tem po. Então fez um esforço para controlar a voz novam ente e prosseguiu: – Era isso o que nós estávam os discutindo ontem à noite. Pela centésim a vez. Marit queria continuar no arm ário e eu a estava sufocando e queria assum ir tudo. Ela usou Sofie com o desculpa, m as era só um a desculpa m esm o. Marit era quem não estava preparada para se suj eitar a fofocas e olhares tortos. Eu tentei explicar para ela que não conseguiríam os escapar de qualquer j eito. Já havia fofoca e olhares o bastante. E m esm o que no início as pessoas falassem de nós se tornássem os público nosso relacionam ento, eu estava convencida de que viraria notícia velha em pouco tem po. Mas Marit se recusava a m e ouvir. Ela levou um a vidinha típica de classe m édia por tantos anos, com um m arido e um a filha e um a casa e feriados acam pando num trailer e tudo aquilo. A ideia de que pudesse ter sentim entos por um a m ulher era algo que ela escondia a sete chaves. Mas quando nos conhecem os, foi com o se as peças se encaixassem de repente. Pelo m enos era assim que ela descrevia para m im . Ela aceitou as consequências, deixou Ola e veio m orar com igo. Mas ainda não ousava adm itir isso em público. E foi sobre isso que discutim os noite passada – Kerstin pegou um guardanapo de papel e assoou o nariz.

– A que horas ela saiu? – perguntou Patrik.

– Um as oito. Oito e quinze, acho. Eu im aginei que algo pudesse ter acontecido. Ela nunca teria passado a noite fora de propósito. Mas hesitei em ligar para a polícia. Pensei que ela teria ido para a casa de um am igo ou que tivesse passado a noite andando ou... não, eu não sei o que pensei, na verdade. Quando vocês chegaram , eu estava pensando em ligar para os hospitais e se eu não a encontrasse lá, ligaria para vocês.

As lágrim as com eçaram a cair novam ente e ela teve que assoar o nariz m ais um a vez. Patrik pôde ver com o sofrim ento, dor e autoculpabilização giravam com o um turbilhão dentro dela e desej ou que houvesse algo que pudesse dizer para pelo m enos am ainar a culpa. Mas, em vez disso, foi forçado a piorar as coisas.

– Nós... – hesitou, pigarreou e prosseguiu – suspeitam os que ela estava sob efeito de álcool quando o acidente ocorreu. É algo com que ela... tinha problem as?

Ele tom ou m ais um gole do café e desej ou por um segundo estar em qualquer outro lugar, bem longe. Não ali, não naquela cozinha, com aquelas perguntas e aquele pesar. Kerstin o olhou, surpresa.

– Marit nunca bebeu álcool. Pelo m enos não desde que eu a conheci, e isso faz m ais de quatro anos. Ela dizia que não gostava do sabor de bebida alcoólica. Ela nunca bebeu nem sequer sidra.

Patrik olhou de form a significativa para Martin. Mais um detalhe estranho para adicionar à sensação elusiva que o acom etia desde que vira o acidente algum as horas antes.

– E você tem certeza disso? – parecia um a pergunta estúpida. Ela j á havia respondido, m as não podia haver am biguidades.

– Sim , absoluta! Eu nunca a vi beber álcool, nem vinho ou cervej a ou qualquer coisa do tipo. Só de pensar que ela bebeu e dirigiu... não, isso soa absurdam ente errado. Eu não entendo – Kerstin olhou para Patrik e para Martin com espanto. O que eles diziam não fazia o m enor sentido. Marit não bebia, sim ples assim .

– Com o podem os encontrar a filha dela? Você tem o endereço do ex-m arido de Marit? – Martin perguntou, pegando um bloco de notas e um a caneta.

– Ele m ora na área de Kullen, em Fj ällbacka. Tenho o endereço bem aqui – pegou um pedaço de papel do quadro de avisos e deu a Martin. Ainda parecia confusa, m as a notícia inexplicável a fez parar de chorar por ora.

– Então não quer que liguem os para ninguém em seu nom e? – perguntou Patrik, enquanto se levantava da m esa.

– Não. Eu... Eu acho que gostaria de ficar sozinha por enquanto.

– Ok. Mas ligue para nós se houver algo que possam os fazer – Patrik deu-lhe seu cartão. Virou-se pouco antes de fechar a porta atrás de si e de Martin. Kerstin ainda estava sentada à m esa. Estava totalm ente im óvel.

– Annika! A m enina nova j á apareceu? – Mellberg gritou a pergunta corredor adentro.

– Sim ! – Annika gritou de volta, sem se incom odar em sair da recepção.

– Então onde está ela? – Mellberg continuou, ainda gritando.

– Bem aqui – disse um a voz fem inina e, um segundo depois, Hanna apareceu no corredor.

– Ah, sim , m uito bem , se você não estiver m uito ocupada, talvez gostaria de entrar e se apresentar – ele disse, ácido. – É costum eiro um a pessoa dizer olá para seu novo chefe. Norm alm ente, é a prim eira coisa que se faz num novo em prego.

– Perdão – disse Hanna, solene, aproxim ando-se de Mellberg com a m ão estendida. – Assim que cheguei, Patrik Hedström m e levou para atender a um a cham ada e acabam os de voltar. Eu estava a cam inho de vir conhecê-lo, naturalm ente. Em prim eiro lugar, perm ita-m e dizer quanto ouvi falar sobre o ótim o trabalho que todos fazem aqui. Certam ente o crédito é seu, pela form a com o vem lidando com as investigações de hom icídios nos últim os anos. E fala-se m uito tam bém sobre a esplêndida liderança que você exerce aqui para possibilitar que um a delegacia tão pequena resolva casos de form a tão exem plar.

Ela apertou sua m ão com firm eza, enquanto Mellberg a olhou desconfiado, tentando descobrir se havia ironia no que ela acabava de dizer. Mas seu olhar não apresentava o m enor sinal de escárnio e ele rapidam ente decidiu aceitar a lisonj a. Talvez não fosse tão ruim ter um a m ulher de farda, afinal de contas. Ela era bonita, tam bém . Um pouco m agra para seu gosto, m as nada m al, nada m al m esm o. Se bem que, depois da conversa que tivera de m anhã, com resultado tão favorável, ele tinha que adm itir que não sentia m ais o m esm o frio no estôm ago à vista daquela m ulher tão atraente. Para sua surpresa, seus pensam entos se voltaram à voz cálida de Rose-Marie e à alegria com que aceitara seu convite para j antar.

– Bem , não vam os ficar aqui no corredor – ele disse, após afastar relutantem ente a lem brança do agradável telefonem a. – Vam os nos sentar no m eu escritório e conversar um pouco.

Hanna seguiu-o à sua sala e sentou-se diante de sua m esa.

– Então, vej o que j á arrum ou um a form a de m olhar os pés.

– Sim , o inspetor Hedström m e levou para investigar um acidente de autom óvel. Apenas um carro. Com um a vítim a, infelizm ente.

– Sim , isso acontece de tem pos em tem pos.

– Nossa prim eira avaliação indica que tam bém houve envolvim ento de álcool. A m otorista cheirava à bebida.

– Droga. Patrik disse se era alguém que ele j á havia detido por dirigir em briagado antes?

– Não, aparentem ente não. Ele inclusive reconheceu a vítim a. Um a m ulher que tinha um a loj a em Affärsvägen. Marit, acho que foi o que ele disse.

– Que estranho – disse Mellberg, coçando seus cabelos cacheados no topo da cabeça, contem plativam ente. – Marit? Eu j am ais acreditaria – pigarreou. – Espero que não tenha tido que notificar a fam ília em seu prim eiro dia aqui.

– Não – disse Hanna. – Patrik e um policial m ais j ovem e m ais baixo, de cabelos ruivos, foram fazer isso.

– Aquele é Martin Molin – disse Mellberg. – Patrik não apresentou vocês dois?

– Não, ele provavelm ente esqueceu. Desconfio que ele estivesse pensando no que teria que fazer.

– Hum m – disse Mellberg. Houve um longo silêncio. E então ele pigarreou.

– Muito bem . Bem -vinda à delegacia de Tanum shede. Espero que goste daqui. Encontrou um lugar para m orar?

– Estam os alugando um a casa, isto é, m eu m arido e eu, perto da igrej a. Na verdade, nós nos m udam os há um a sem ana e passam os esse tem po nos instalando. A casa está m obiliada, m as querem os torná-la o m ais aconchegante possível.

– E seu m arido? O que ele faz? Tam bém encontrou um trabalho aqui?

– Ainda não – Hanna disse, baixando os olhos novam ente. Suas m ãos se m oviam incansavelm ente em seu colo.

Mellberg estava zom bando em silêncio. Então, ela era casada com esse tipo de hom em . Um bosta desem pregado que se deixava ser sustentado pela m ulher. Bem , alguns conseguem viver assim a vida toda.

– Lars é psicólogo – disse Hanna, com o se pudesse ouvir o que Mellberg estava pensando. – Ele tem procurado, m as o m ercado para psicólogos não é lá m uito bom por aqui. Então, até que encontre algo, está trabalhando em um livro. Um livro de não ficção. E ele tam bém vai trabalhar por várias horas sem anais com o psicólogo dos participantes de Sodding Tanum.

– Sei – disse Mellberg, em um tom que dem onstrava que j á havia perdido o interesse no que o m arido dela fazia. – Bem , m ais um a vez, bem -vinda à delegacia – levantou-se para indicar que ela podia sair, agora que as form alidades haviam sido concluídas.

– Obrigada – disse Hanna.

– Por favor, feche a porta quando sair – disse Mellberg. Por um breve m om ento, ele pensou ter visto um sorriso divertido em seus lábios. Mas provavelm ente se enganara. Ela parecia ter m uito respeito por ele e seu trabalho. Havia dito isso m ais ou m enos, e dada a sua profunda percepção do com portam ento hum ano, ele sem pre sabia dizer se alguém estava sendo sincero ou não. E Hanna era definitivam ente sincera.

– Com o foi? – sussurrou Annika assim que entrou no escritório de Hanna, segundos depois.

– Bem , por ora – disse Hanna, oferecendo a ela o sorriso divertido que Mellberg im aginou ter visto. – Um a figura, esse cara – ela disse, sacudindo a cabeça.

– Figura. É, acho que pode cham á-lo assim – disse Annika, rindo. – Em todo caso, parece que você consegue lidar bem com Mellberg. Não engula desaforos dele, é m eu conselho. Se ele achar que pode pisar em você, acabou.

– Já encontrei alguns Mellbergs na vida, então sei sim com o lidar com ele – disse Hanna. E Annika não tinha dúvida de que ela sabia do que estava falando. – Elogie um pouco, finj a que está fazendo exatam ente o que ele diz, m as faça o que achar m elhor. Enquanto tudo der certo no final, ele vai fingir que foi tudo ideia dele desde o início, estou certa?

– Exatam ente. É j ustam ente com o se dar bem quando Bertil Mellberg é seu chefe – disse Annika, rindo enquanto retornava à sua m esa, na recepção. Não precisava se preocupar com essa m enina. De opiniões fortes, esperta e durona. Ia ser um prazer vê-la encarar Mellberg.

* * *

Abatido, Dan com eçou a pegar as coisas espalhadas pelo quarto das m eninas. Com o sem pre, elas haviam deixado o lugar com o se um a bom ba tivesse explodido lá. Ele tinha noção de que deveria ser m ais rigoroso em fazê-las arrum ar suas coisas, m as o tem po que passava com elas era tão precioso. A cada dois fins de sem ana, ele ficava com as filhas e queria aproveitar ao m áxim o o tem po que passavam j untos, sem o desperdiçar com críticas e brigas. Ele sabia que estava errado, estava pronto a assum ir sua responsabilidade paterna e não j ogar toda a culpa sobre Pernilla, m as o fim de sem ana acabou tão rápido e os anos tam bém pareciam estar passando com rapidez assustadora. Belinda j á estava com dezesseis anos e era praticam ente adulta. Malin, aos dez, e Lisen, aos sete, estavam crescendo tão rapidam ente que às vezes parecia que ele não conseguia acom panhar.

Três anos após o divórcio e a culpa ainda pesava com o um bloco de pedra sobre seu peito. Se não tivesse com etido esse erro fatídico, agora não estaria recolhendo os brinquedos e as roupas das m eninas em um a casa que fazia eco de tão vazia. Talvez tam bém tivesse sido um erro continuar m orando na casa de Falkeliden. Pernilla havia se m udado para Munkedal a fim de ficar perto de sua fam ília. Mas ele não queria que as m eninas perdessem o lar de que se lem bravam . Então trabalhou, poupou, cortou o que pôde para que as garotas se sentissem em casa a cada dois fins de sem ana, quando vinham visitá-lo. Mas logo não seria m ais possível. O custo para m anter a casa o esm agava. Seria forçado a tom ar um a decisão nos próxim os seis m eses. Sentou-se pesadam ente na cam a de Malin e descansou a cabeça nas m ãos.

Continuar: parte 3 de 3