O fim do envelhecimento
11. Trocando células velhas por novas
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Trocando células velhas por novas
Ao longo de nossas vidas, gradualmente perdemos células vitais para a
manutenção contínua da nossa saúde. Muitas doenças fatais do
envelhecimento — como o mal de Parkinson — são causadas pela perda de
populações de células responsáveis por alguma função crucial no corpo.
Felizmente, as terapias baseadas nas pesquisas sobre células-tronco
oferecem a possibilidade de recriar nossas células em falta, sendo estas
novas células tão boas quanto as originais; quanto a esse tema, os
obstáculos políticos são tão relevantes quanto as dificuldades científicas
ainda existentes.
Após o esforço enorme que tinha sido realizado para organizar a conferência, foi um momento incrivelmente gratificante ver o homem que estava revolucionando a biologia na área de células-tronco subir ao palco na frente de uma plateia cheia de colegas.
Era a segunda conferência que eu realizava em Cambridge focada no progresso científico rumo à reversão do envelhecimento humano, de forma que eu estava sob pressão para superar o sucesso da primeira. Faço parte da diretoria da Associação Internacional de Gerontologia Biomédica (IABG) — uma das poucas sociedades biogerontológicas do mundo com um objetivo explícito de buscar o desenvolvimento de soluções biomédicas para o envelhecimento — e alguns anos antes eu tinha me voluntariado para encabeçar sua décima conferência. Eu sabia na época no que estava me metendo. A sociedade iria prover muito pouca assistência logística além da facilidade para se entrar em contato com as pessoas relevantes, de forma que eu teria pouca ajuda além do suporte (moral e de outros tipos) de minha querida esposa Adelaide, e isso era perfeitamente adequado para mim. Com a autoridade formal de uma sociedade que já estava na ala progressista da comunidade da biogerontologia, eu queria fazer os limites avançarem um pouco mais, e ser deixado somente com meus próprios recursos significava que eu não teria que discutir minhas prioridades com um comitê.
Apesar dos objetivos da sociedade, as conferências anteriores da IABG haviam tido a tendência de ser dominadas pelo mesmo tipo de apresentação que eu via em todas as conferências de biogerontologia às quais eu havia ido (e tento ir à maioria delas): ciência básica, medicina geriátrica, e trabalhos com modelos animais que os pesquisadores esperam que possam algum dia ser transformados em uma pílula que desacelere o envelhecimento em humanos. Eu assumi o trabalho imenso e exaustivo de realizar esta conferência porque me daria a oportunidade de dar destaque a trabalhos que poderiam contribuir para um conjunto de intervenções projetadas para reverter o envelhecimento.
O IABG 10 — o congresso que seria, em retrospecto, o primeiro de uma série de conferências SENS — foi um sucesso enorme. Sei que sou suspeito para dizer isso, mas não estou exagerando: o entusiasmo com o qual meus colegas me agradeceram por minha dedicação ao final da semana foi geral e inequivocamente genuíno. Os participantes ficaram surpresos e animados com o que tinham ouvido, não só pelo próprio mérito das pesquisas apresentadas, mas porque eram algo completamente novo para eles. Isso era esperado: enquanto que uma típica conferência biogerontológica convida um quadro de palestrantes quase inteiramente provindos da comunidade biogerontológica, eu tinha introduzido um forte elemento interdisciplinar, trazendo pesquisadores que trabalhavam com câncer, diabetes, células-tronco e muitas outras áreas, cujo trabalho eu pensava ser essencial para o desenvolvimento de uma biomedicina antienvelhecimento eficaz, mas que eram quase completamente desconhecidos dos pesquisadores propensos a se prender dentro da seção "biogerontologia".
Ao mesmo tempo, esses palestrantes tiveram a oportunidade de se misturar com pesquisadores em cujos laboratórios os processos degenerativos do envelhecimento estavam, se não sendo revertidos, certamente sendo dramaticamente atrasados em ratos e outros organismos modelo. Esse era o tipo de trabalho que em geral dificilmente impressionaria os biogerontologistas, que estavam imersos em um campo no qual isso tinha estado ocorrendo desde os primeiros experimentos com restrição calórica quase sete décadas antes, mas ele deslumbrou os oncologistas experimentais e os engenheiros de tecidos que eu tinha trazido para mostrar aos biogerontologistas o que tinham estado perdendo.
O IABG 10 foi tão bem-sucedido quanto ao alcance de minhas metas acadêmicas, e os pedidos dos meus colegas para que eu realizasse uma segunda conferência foram tão obviamente sinceros, que me senti confiante de que poderia aproveitar seu impulso para torná-lo na prática o congresso inaugural de uma série contínua de conferências acadêmicas sobre as questões científicas das SENS em Cambridge. Desse ponto em diante, porém, eu sabia que os esforços teriam que ser inteiramente meus: eu não poderia contar com o apoio (nem permitir a interferência, por menor que tivesse sido) da IABG nem de nenhuma outra sociedade. Embora o trabalho de organizar este tipo de evento fosse desafiador, eu sabia que valeria a pena.
Por outro lado, eu também sabia que tinha estabelecido um padrão bastante alto na primeira conferência, e que alguns dos meus colegas ficariam menos inclinados a comparecer a uma conferência que não fosse organizada sob a tutela de uma sociedade biogerontológica reconhecida. Isso tinha um peso ainda maior porque era eu o organizador, já que uma campanha silenciosa contra minhas credenciais como cientista tinha sido iniciada logo após a primeira conferência por alguns de meus rivais gerontológicos genuinamente bem-intencionados mas conservadores. Então, se eu quisesse que as pessoas fossem à SENS2, e que a série tivesse continuidade, a qualidade da "escalação" da conferência teria que ser de primeira, independentemente da oposição. Eu teria que alcançar um nível ambiciosamente alto — e eu queria superá-lo.
As células-mestras: não aceite substitutos
Eu sabia que novamente iria querer dedicar uma sessão inteira às células-tronco embrionárias — as "células-mestras" primordiais a partir das quais nossas células maduras se originam, e que desempenham um papel fundamental em nosso desenvolvimento rumo a tornar-nos organismos complexos multicelulares a partir da simples bola de células que é o embrião inicial. Graças à trágica confusão da ciência das células-tronco embrionárias com as disputas éticas, legais e religiosas sobre o status do embrião no debate sobre o aborto, as células-tronco embrionárias são o único ponto da plataforma das SENS com o qual vocês com certeza estão familiarizados. Certamente já ouviram que, com o tipo certo de estímulo bioquímico, as células-tronco embrionárias podem ser levadas a se tornar qualquer tipo de célula do corpo: nervosa, muscular, cardíaca, renal ou qualquer outra.
Essas células resultantes "diferenciadas" podem então ser usadas para reparar ou substituir células e tecidos que foram perdidos em diversas doenças debilitadoras e frequentemente quase impossíveis de se tratar (com essa perda sendo uma característica patológica central dessas doenças), incluindo muitos dos piores flagelos do envelhecimento. As células-tronco embrionárias serão necessárias para desenvolver curas completas para o mal de Parkinson, lesões na medula espinhal, diabetes juvenil, esclerose lateral amiotrófica ("doença de Lou Gehrig"), danos causados por ataques cardíacos, alguns cânceres e outras enfermidades devastadoras — incluindo o próprio envelhecimento. De fato, pela definição de envelhecimento puramente pragmática de engenharia, que esclarece muito quanto ao que precisa ser feito para manter nosso corpo indefinidamente jovem, a perda efetiva de células é em si um tipo de dano do envelhecimento. Isso a torna um alvo central das SENS.
Entretanto, como a cobertura da mídia sobre o assunto foca-se nos intensos debates políticos em vez do aspecto médico real e promissor do enorme potencial das células-tronco embrionárias quanto a aplicações na medicina, vocês podem ainda não ter clareza sobre as principais diferenças, quanto à biologia básica e ao potencial terapêutico, entre as células-tronco embrionárias e as células-tronco adultas. Há também importantes diferenças entre células-tronco embrionárias derivadas de embriões que foram estocados em clínicas de fertilidade e aquelas que podem ser feitas sob medida para cada paciente a partir de suas próprias células maduras através da fusão dessas células com óvulos (uma técnica chamada transferência nuclear de células somáticas, TNCS, à qual retornaremos). Por esta razão, gastarei um pouco de tempo esclarecendo essas questões.
Células-tronco embrionárias verdadeiras são encontradas somente em embriões em um estágio muito inicial chamados blastocistos, que são as bolas de células muito primitivas que se formam dentro de somente alguns dias depois do esperma encontrar-se com o óvulo. O embrião só permanece por muito pouco tempo neste estágio de desenvolvimento; ele já está muito mais desenvolvido quando é implantado no útero. É a partir do blastocisto que cada célula no organismo maduro se forma, mas o blastocisto em si não tem nenhuma dessas células diferenciadas: nenhum neurônio, nenhuma célula cardíaca, nenhuma célula beta que produz insulina e por aí vai. Assim, para o embrião se transformar em um organismo com a estrutura complexa de um ser humano, suas células precisam ter a capacidade de se transformar em cada uma dessas células maduras — uma habilidade chamada pluripotência.
Células-tronco adultas, por outro lado, têm habilidades muito mais limitadas, e há um motivo razoável para isso. Essas células surgem nos estágios finais do desenvolvimento, e são mantidas em tecidos específicos durante a vida como reservatórios para reabastecer o suprimento de células. Portanto, elas possuem somente o repertório limitado de destinos possíveis que são relevantes para seu papel nesse tecido específico. Assim, células-tronco do sangue podem se tornar hemácias transportadoras de oxigênio ou qualquer uma das muitas células do sistema imunológico carregadas pelo sangue, mas (apesar do que já foi dito — veja mais à frente neste capítulo) elas não conseguem formar neurônios ou células do músculo cardíaco: se assim requisitada, uma célula-tronco do sangue sem dúvida responderia indignadamente: "este não é o meu trabalho". Elas estão lá para cumprir um papel específico no corpo, e cumpri-lo adequadamente, mas não para ser uma reserva para curar todos os danos em todos os lugares. Esta capacidade mais limitada de flexibilidade (ou "plasticidade") de desenvolvimento é
chamada de multipotência.1
Na verdade, há muitas áreas do corpo para as quais não há células-tronco adultas destinadas para uso em reparos — e, como podem imaginar, elas incluem as áreas que sofrem mais com a perda de células durante o envelhecimento. Esta é a situação, por exemplo, de grande parte do cérebro. Por muitos anos, acreditou-se que o cérebro inteiro perdia células durante o curso do envelhecimento normal e que não havia uma maneira do corpo repor essas perdas. Esse dogma foi derrubado alguns anos atrás, em grande parte devido ao trabalho de Fred Gage e seus colegas do Instituto Salk (EUA), que demonstraram que o cérebro de fato tem células-tronco capazes de renovar algumas partes de si mesmo. Isso levou a uma guinada, no imaginário popular, rumo à impressão de que o cérebro inteiro tem a capacidade inata — através de suas células-tronco adultas — de manter todo o cérebro jovem e funcional.
Entretanto, na realidade, esta impressão também está incorreta. Somente um pequeno número de áreas do cérebro produz células-tronco capazes de se desenvolver para formar novos neurônios: uma subseção do hipocampo chamada zona subgranular do giro dentado, e uma parte da zona subventricular, onde neurônios são criados para suprir o bulbo olfatório (a área do cérebro que processa o sentido do olfato). Há evidências de que algumas dessas células de fato tentam reparar áreas do cérebro danificadas por doenças relacionadas ao envelhecimento, mas há poucas evidências de que sejam de muita ajuda. Após um derrame, por exemplo, algumas das células-tronco formadas na zona subgranular mudam seus hábitos normais e migram para o local danificado, mas mais de 80% delas morre no espaço de algumas semanas, e as células restantes substituem somente cerca de 0,2%
das células destruídas no incidente.2
Por que mantemos a capacidade de substituir neurônios em algumas áreas do cérebro e não em outras, como no córtex cerebral, onde nossas memórias de longo prazo são armazenadas, ou no lóbulo frontal, onde está concentrada nossa capacidade de fazer planos para o futuro e segui-los? Muito provavelmente, porque o bulbo olfatório e o giro dentado são os únicos lugares onde a evolução encontrou a necessidade de um fluxo regular de novas células dentro do "período de garantia biológica" do cérebro. Essas duas áreas têm funções de curto prazo que requerem a renovação regular de suas populações de células. Não há uma população incorporada de células-tronco adultas para se lidar com a perda de células induzida pela devastação do envelhecimento e das doenças neurológicas relacionadas ao envelhecimento como o mal de Alzheimer e o mal de Parkinson. Como já terão percebido se ainda se lembrarem do Capítulo 3, isso ocorre porque, ainda que essas doenças tenham sua origem em danos moleculares que ocorrem ao longo da vida, esses danos não alcançam um patamar no qual o funcionamento é prejudicado suficientemente para afetar a adaptação darwiniana em uma duração de vida humana curta de ordem paleolítica.
Um outro exemplo de um tecido no qual as células morrem mas não são naturalmente repostas é o timo, um órgão central do sistema imunológico que age no sentido de "amadurecer" células precursoras para que virem células T. Sua regeneração usando-se células-tronco está em um estágio inicial de desenvolvimento, de forma que ainda não há muito para lhes contar, mas existe uma prova de conceito em uma doença congênita rara mas muito severa — vejam o quadro "Reconstruindo o timo". Descrevi o sistema imunológico de forma geral, e as células T em particular, com algum detalhamento no Capítulo 10, de forma que vocês podem querer consultar este capítulo ao lerem o quadro.
RECONSTRUINDO O TIMO
Pode-se perceber o quão promissor é o uso de células-tronco para tratar a involução do timo ao observar-se avanços recentes no tratamento de bebês com a síndrome de DiGeorge — uma doença genética cujas vítimas nascem com uma variedade de defeitos, incluindo ter a glândula do timo subdesenvolvida ou, em alguns casos, completamente ausente, neste caso sendo chamada de "síndrome de DiGeorge completa". Até recentemente, a síndrome de DiGeorge completa era em geral uma sentença de morte de muito curto prazo: sem a capacidade de produzir células T, esses bebês morreriam de infecções que são triviais para o resto de nós dentro de alguns meses após deixarem o ventre da mãe.
A forma óbvia de se resolver o problema de um timo ausente é o transplante, mas isso é algo bastante complexo: para realizar-se este procedimento, o tecido necessita um suprimento muito bom de sangue e alta saturação de oxigênio, o que é difícil de se alcançar sem a penetração natural de minúsculos vasos sanguíneos. Há muito tempo também existem problemas quanto à rejeição e à doença do enxerto contra o hospedeiro: como que perversamente, às vezes algumas das células da medula óssea da criança se transformam "espontaneamente" em células T desreguladas que não reconhecem os antígenos da própria criança nem os do doador do tecido de timo. Isso leva a um ataque feroz aos dois alvos, geralmente matando a criança; além disso, frequentemente as células T do doador se voltam contra os tecidos estrangeiros do receptor do transplante em um ataque recíproco igualmente mortal.
Recentemente, cirurgiões e imunologistas da Universidade Duke (EUA) desenvolveram um protocolo usando fatias bem finas de tecido que garantem a máxima transferência de oxigênio e que são enxertadas na coxa da criança para lhe dar um suprimento de sangue generoso e de fácil acesso, junto com um novo fármaco imunossupressor que tem como alvo específico as células T. Esta intervenção ainda é experimental, mas está se tornando progressivamente melhor através da introdução de mais inovações e agora parece ser relativamente bem-sucedida. Em um relatório de 2004, a equipe de Duke constatou que cinco dos seis pacientes que receberam a nova terapia ainda estavam vivos de 15 a 30 meses depois, o que significava uma grande melhora na taxa de sobrevivência.
Se em vez de usar transplantes de tecido estrangeiro, pudéssemos pegar as próprias células-tronco da criança, estimulá-las a se tornarem células do timo e enxertá-las, eliminaríamos a necessidade da arriscada supressão imunológica. Depois, se pudéssemos encorajar essas células a crescerem em uma armação na qual pudéssemos construir uma estrutura complexa de órgão, incluindo um suprimento adequado de sangue, poderíamos abandonar a substituição altamente insatisfatória de um órgão por uma fatia extremamente fina de tecido, e em seu lugar realizaríamos um "transplante" verdadeiro de órgão. Podemos nunca ser realmente capazes de fazer isso quanto à síndrome de DiGeorge, pela simples razão de que não temos tempo o suficiente, mas se um implante de tecido estrangeiro pode gerar células T viáveis e prolongar a sobrevivência de bebês que nasceram sem o timo, só posso ver como sendo promissor implantar células da própria pessoa — ensinando-as a se tornar células T e, se necessário, estimulando-as e estruturando-as para que se tornem um tecido mais complexo — em um órgão existente mas atrofiado, de forma a restaurá-lo para que volte a ter seu funcionamento jovial.
Similarmente, no coração existem células que alguns pesquisadores chamaram de "células cardíacas progenitoras" (ou usaram algum nome similar); porém, embora essas células possam in vitro ser estimuladas a exibir algumas características moleculares típicas de células-tronco, ainda não foi demonstrado que podem formar células cardíacas no corpo. De fato, algumas células-tronco muito parecidas encontradas em outro lugar do corpo (células-tronco mesenquimatosas) têm essas mesmas características mas com certeza não conseguem se tornar células cardíacas. Independentemente do que no fim das contas seja a realidade quanto ao assunto, o que sabemos de fato é que nem essas nem quaisquer outras células do corpo se voluntariam para curar os danos enormes causados no músculo cardíaco pela privação de oxigênio ocorrida durante um ataque cardíaco — como qualquer cardiologista ou sobrevivente de ataque cardíaco pode tristemente atestar. Novamente, a razão para isto reside nas análises estatísticas impessoais realizadas pela seleção natural após gerações de aleatoriedade genética em um ambiente ancestral: ataques cardíacos não matam pessoas entre os 20 e os 29 anos de idade, de forma que pelos cálculos da evolução, não vale a pena investir em um sistema de reparo que quase nunca será usado antes de seu dono ser morto por alguma outra coisa.
Nos primeiros dias do debate político sobre células-tronco embrionárias, alguns laboratórios muito respeitados emitiram relatórios sobre uma flexibilidade semelhante à de células-tronco embrionárias em células-tronco adultas (descrevendo células formadoras de sangue transformando-se espontaneamente em células hepáticas e cerebrais, e talvez mais promissoramente, relatando que essas células foram injetadas no coração de ratos nos quais se provocaram ataques cardíacos artificiais, tendo como resultado a formação de novos tecidos de músculo cardíaco e a restauração da funcionalidade do órgão). Esses relatórios foram encarados tão seriamente que diversos grupos começaram testes clínicos iniciais em humanos, nos quais células-tronco derivadas da medula óssea de vítimas de ataque cardíaco foram injetadas em seu tecido cardíaco devastado.
Entretanto, laboratórios independentes não foram capazes de confirmar estas alegações. Em vez disso, o que pode estar ocorrendo é que as células estão de fato sendo incorporadas aos tecidos em questão, mas estão fazendo
isso fundindo-se com as células existentes.3,4,5,6,7,8,9,10 Pode haver algum benefício limitado nesse processo: a fusão pode dar apoio às células sobreviventes nos tecidos danificados, seja pela secreção de fatores de crescimento necessários durante o reparo, seja pelo auxílio ao crescimento
de novos vasos sanguíneos no tecido.11 Porém, embora esses efeitos possam ajudar a manter um coração em desintegração batendo por um pouquinho mais de tempo, eles não podem substituir a real reconstrução do tecido cardíaco, seja em vítimas de ataques cardíacos, seja em humanos idosos cujos corações queremos rejuvenescer.
Na verdade, recentemente o New England Journal of Medicine publicou os resultados dos primeiros testes clínicos de células-tronco de medula óssea, como um tratamento para vítimas humanas de ataques cardíacos, que foram amplos o suficiente para fornecer informações significativas sobre resultados clínicos reais nos pacientes (em vez de simplesmente coletar dados de segurança e relatórios iniciais sobre a experiência de médicos e
pacientes). Um dos testes12 não encontrou benefício algum, e os outros
dois13,14 relataram o que o editorial de resumo do Journal descreveu como "uma melhora pequena, [estatisticamente] significativa, mas clinicamente
incerta"15 nos pacientes tratados, em comparação com os que receberam injeções de placebo. Eles não reportaram nenhuma evidência quanto ao assunto das células de fato estarem se transformando em células de músculo cardíaco, mas os estudos em animais mencionados acima já frustraram as esperanças anteriores de um efeito desse tipo.
Contrastemos esses efeitos fracos com os resultados de um estudo com animais usando células-tronco embrionárias para tratar um ataque cardíaco induzido. Dezoito ovelhas foram objeto de tal ataque, e então foram deixadas definhando por duas semanas. Durante este período, os cientistas colheram células-tronco embrionárias e estimularam-nas a começar a fazer a transição para se tornarem células-tronco de músculo cardíaco. Antes de que as células-tronco embrionárias tivessem completado sua jornada de desenvolvimento, os pesquisadores implantaram estas células no coração de metade do grupo, enquanto que, para fins comparativos, os nove animais restantes foram deixados para deslizarem ainda mais rumo à deterioração.
Onde os benefícios das células-tronco adultas tinham sido duvidosos, a influência em termos de cura das células-tronco embrionárias foi inegável (vejam a Figura 1). As células estabilizaram-se nos corações danificados e demonstrou-se que se transformaram em células cardíacas maduras, com os animais se recuperando drasticamente. Duas semanas após seus parceiros comparativos terem recebido o tratamento com células-tronco embrionárias, os corações do grupo controle tinham perdido mais um décimo de sua capacidade de bombeamento de sangue. Contrastantemente, os animais que tinham recebido as células-tronco destinadas a se tornarem cardíacas tiveram uma melhora de 6,6% em sua capacidade de bombeamento.
Figura 1. Restauração da capacidade de bombeamento do coração
por células-tronco embrionárias. Controle vs receptores de células-
tronco embrionárias. Redesenhado.16
E se vocês se aprofundarem nos detalhes do estudo, encontrarão ainda mais razões para estarem otimistas quanto ao potencial das células-tronco embrionárias como uma terapia para o coração. Em primeiro lugar, os cientistas deste estudo esperaram até que passassem duas semanas após os animais terem sofrido seus ataques cardíacos para fazer algo em relação ao dano em seus corações, e foi durante este período que ocorreu a maior parte da deterioração da capacidade de bombeamento cardíaco dos animais. Uma intervenção mais antecipada, com células-tronco ou até mesmo com uma assistência mais tradicional, poderia ter evitado muito deste declínio, potencialmente levando a resultados muito melhores após o tratamento com células-tronco embrionárias.
Em segundo lugar, as células-tronco embrionárias que foram usadas neste estudo nem eram derivadas de ovelhas, mas de ratos — um ponto importante ao qual retornaremos depois. Embora as células claramente tenham feito seu papel — amadurecendo até se tornarem células cardíacas, unindo-se ao tecido nativo e restaurando significativamente a funcionalidade do coração dos animais — ainda assim parece razoável pensar que o uso de células que fossem de fato da mesma espécie teria levado a uma melhor adequação metabólica e funcional, e portanto, a melhores resultados.
E, em terceiro lugar, a melhora média no grupo tratado com células-tronco embrionárias na verdade esconde uma variação muito positiva na resposta a este tratamento dentro do grupo. Como havia a possibilidade de seu sistema imunológico rejeitar as células-tronco embrionárias derivadas de ratos e isso estragar o experimento, cinco dos nove animais tratados receberam fármacos imunossupressores. Os fármacos acabaram revelando-se desnecessários: os pesquisadores retiraram fatias do coração de todos os animais após o estudo terminar, e não havia evidências de inflamação ou ataque de células imunológicas no coração dos animais que receberam células-tronco embrionárias, independentemente de terem ou não sido administrados a eles fármacos imunossupressores.
Esta notícia é positiva por si só, mas há outras notícias ainda melhores. A recuperação reportada de 6,6% da capacidade de bombeamento do coração em animais tratados com células-tronco embrionárias foi um resultado global, incluindo os animais que receberam e os que não receberam fármacos imunossupressores. Quando os pesquisadores analisaram os resultados levando em conta quais animais tinham recebido esses fármacos e quais não, descobriram que os animais imunossuprimidos haviam tido, na verdade, uma resposta mais fraca ao tratamento com células-tronco embrionárias do que os que ficaram com seu sistema imunológico inalterado. As ovelhas no grupo tratado somente com células-tronco embrionárias tiveram 25% mais tecido de cicatriz de seus ataques cardíacos originais curado do que os animais tratados com os fármacos, e seu coração recuperou mais do dobro de capacidade de bombeamento: um ganho de cerca de 9% contra só 4% (comparados esses ganhos, é bom notar novamente, com uma perda adicional de 9,9% de funcionalidade nos animais que não receberam as células-tronco embrionárias — vejam a Figura 2). Assim, ao avaliar-se as perspectivas para o uso em humanos de células-tronco embrionárias, devemos observar os resultados mais intensos disponíveis da abordagem com uso somente de células-tronco embrionárias, em vez dos resultados mais fracos obtidos ao juntar-se esses animais com os que receberam imunossupressores.
Figura 2. Restauração da capacidade de bombeamento do coração
por células-tronco embrionárias. Controles, células-tronco
embrionárias mais fármacos imunossupressores, e apenas células-
tronco embrionárias. Redesenhado.16
Após este estudo ser publicado, foi reportada a primeira comparação direta entre terapias com células-tronco embrionárias e terapias com células-tronco adultas para danos cardíacos similares aos que ocorrem durante um ataque cardíaco; os resultados mostraram uma clara superioridade do tratamento com células-tronco embrionárias, que se transformaram em células de músculo cardíaco, alcançaram uma incorporação de longo prazo no tecido cardíaco dos animais, e melhoraram a função cardíaca desses animais, enquanto que as células-tronco da medula óssea não tiveram
nenhum efeito significativo.17
E este é só o início das perspectivas biomédicas promissoras dessas células incrivelmente versáteis. Células-tronco embrionárias têm sido usadas para curar modelos animais de algumas das doenças mais temíveis que os seres
humanos podem sofrer, como a diabetes juvenil,18 lesões na medula
espinhal,19,20 esclerose múltipla,21 paralisia cerebral,22 derrame,23,24 mal de
Parkinson,25 uma forma de paralisia causada por um vírus que induz um
modelo animal padrão da esclerose lateral amiotrófica,26 e — muito recentemente — a degeneração macular (a forma de cegueira causada pela
perda de células sensíveis à luz no centro da retina).27 Todas essas são doenças em que o suprimento de células-tronco nativas adultas de uma pessoa nem consegue começar a repor a perda celular causada pela doença em questão.
Evidentemente, nenhuma dessas terapias chegou até a clínica médica — ainda. Porém, há todas as razões para se pensar que levarão a melhorias drásticas em nossa capacidade de tratar esses pacientes. O saldo de evidências preliminares de testes em humanos usando-se células fetais ou células derivadas de tumores de células-tronco (que não são células-tronco embrionárias verdadeiras) no tratamento do mal de Parkinson e de vítimas de derrame, por exemplo, já mostra muitos resultados promissores, de modo que só se pode esperar que melhorem com o uso de células-tronco verdadeiras. Além disso, recentemente um estudo usando células-tronco embrionárias em um modelo de Parkinson em macacos confirmou a capacidade dessas células de transformar-se nos tipos de neurônios necessários, de enxertar-se na área correta do cérebro e de aliviar muitos
dos sintomas da doença.28 Essas são notícias muito animadoras.
Por que precisamos delas
Como as perspectivas para o destino final das células-tronco embrionárias como tipos celulares diferenciados são extremamente abertas, e por sua capacidade de se proliferar indefinidamente (diferentemente das células-tronco adultas, cuja capacidade de replicação tende a ser mais limitada), o consenso científico reconhece o maior potencial terapêutico das células-tronco embrionárias em comparação com o das células-tronco adultas. Há certamente usos terapêuticos para as células-tronco adultas; na verdade, as únicas terapias baseadas em células-tronco atualmente sendo praticadas na clínica médica são procedimentos como transplantes de medula óssea, que usam células-tronco adultas vindas de um doador ou do corpo do próprio paciente. Porém, as declarações frequentemente repetidas por grupos lobistas de conservadores sociais de que as células-tronco adultas podem tratar efetivamente "70 doenças" ou "mais de 65 doenças" foram corretamente qualificadas como "claramente falsas" e a informação no sítio de internet de um proeminente grupo desse tipo foi chamada de "pura baboseira" no editorial que mencionei anteriormente do normalmente diplomático New England Journal of Medicine.
No presente momento, somente células-tronco embrionárias têm o potencial — tanto em termos da gama de células necessárias quanto em termos diretamente da quantidade de células necessárias para criar grandes enxertos de tecido e em alguns casos até órgãos inteiros — que será necessário para criar corpos jovens a partir dos corpos velhos. E precisaremos delas. Além das células perdidas em ataques cardíacos e doenças neurodegenerativas, a verdade é que estamos perdendo células — e a funcionalidade que essas células fornecem — de nossos tecidos continuamente. O mal de Parkinson, por exemplo, é o resultado da perda de neurônios no cérebro que produzem dopamina, um mensageiro químico envolvido no controle preciso dos músculos. Recebe-se um diagnóstico clínico quando já se perdeu metade desses neurônios, afetando o controle suficientemente para que partes do corpo comecem a tremer ritmicamente de forma involuntária e o rosto se torne uma máscara com uma expressão fixa neutra ou até hostil. Mas todos nós estamos perdendo neurônios produtores de dopamina todos os dias devido ao envelhecimento; as pessoas com o mal de Parkinson só perdem esses neurônios mais rapidamente, chegando antes ao patamar clínico. Sem a capacidade de repor essas células, todos nós acabaremos desenvolvendo a doença (se, como diz o bordão, alguma outra coisa não nos matar antes).
E isto está ocorrendo por todo o corpo, e não somente pelos tipos de razões metabólicas intrínsecas que são mais precisamente chamadas de "envelhecimento". Estamos permanentemente perdendo células por causa de danos moleculares causados por produtos secundários reativos do metabolismo normal, e mesmo depois de que desfizermos esses danos usando as biotecnologias que já podem ser antevistas da plataforma SENS, ainda assim precisaríamos reverter essas perdas para poder criar humanos indefinidamente jovens. Além disso, também perdemos células por outros motivos. Regularmente, todos destruímos algumas células naturalmente insubstituíveis devido a leves batidas na cabeça, a momentos de privação de oxigênio e à apoptose ("morte celular programada") imposta às células pelo corpo quando ele sente que estão causando mais danos do que benefícios.
A questão de se estas últimas perdas mencionadas são parte do "envelhecimento" é algo discutível, mas felizmente essa não é uma questão que precisemos resolver para dar continuidade à restauração de corpos velhos e disfuncionais para que tenham a saúde e a funcionalidade completas da juventude. Repor essas células faltantes vai desempenhar um papel essencial na biomedicina antienvelhecimento, independentemente das causas de seu desgaste ou da sua relação com o "envelhecimento" em termos abstratos. A perda progressiva de células representa um distanciamento do ideal saudável da juventude e, portanto, um engenheiro antienvelhecimento deve trabalhar com o intuito de resolver este problema, assim como qualquer engenheiro trabalharia para restaurar um maquinário de forma a que voltasse ao estado no qual funciona melhor.
Jogando fora a chave do armário de
remédios
Humanos adultos têm células-tronco adultas, não embrionárias: novamente é bom lembrar que células-tronco embrionárias verdadeiras só existem em blastocistos. Assim, obter um suprimento de células-tronco embrionárias para ser usado como medicina celular envolve adquirir de alguma forma essas células a partir de embriões em estágio inicial. Felizmente, há um suprimento bastante generoso — e até agora quase inexplorado — dessas células que já está sendo produzido por uma indústria existente: a fertilização in vitro em clínicas de fertilidade.
A probabilidade de qualquer embrião de fertilização in vitro ser implantado com sucesso e se manter por uma gravidez completa como resultado do procedimento é ainda relativamente baixa, de modo que as clínicas de fertilidade rotineiramente criam vários embriões a partir do esperma e dos óvulos fornecidos por pais em potencial ou doadores. Desta forma, eles têm um suprimento de embriões disponível para diversas tentativas, sem requerer-se que as mulheres passem por diversas rodadas do tratamento hormonal caro, muito desconfortável e moderadamente perigoso necessário para se extrair os óvulos. Tipicamente, oito desses embriões são deixados para trás depois de cada rodada de fertilização in vitro, o que leva ao resultado de 400.000 embriões extras congelados em armazenamento nas clínicas de fertilidade dos Estados Unidos contando somente a partir de 2002. Pelo menos 16.000 desses não são reivindicados por nenhum doador,
outros 45.000 têm um status similarmente obscuro,29 e praticamente nenhum dos restantes irá em algum momento de fato ser usado em procedimentos de fertilização. Esses embriões são por fim descartados, ou ficam suficientemente deteriorados a ponto de deixarem de ter qualquer chance de formar um bebê.
Isso é o que torna o debate sobre o uso de embriões de clínicas de fertilidade tão frustrante para médicos e cientistas. Esses embriões estão destinados a ser destruídos independentemente do que fizermos com eles: não há nenhuma chance de que a vasta maioria deles seja implantada em um ventre e passe pelo desenvolvimento necessário para virar um bebê. Os oponentes da pesquisa e da terapia com células-tronco embrionárias propuseram evitar seu descarte através de sua implantação em voluntárias que levariam adiante a gravidez para posterior adoção, mas mesmo neste cenário não há uma perspectiva realista nem de que 1% desses embriões deixe de ser encaminhado ao lixo. Depois de criados, o destino desses blastocistos que não são de fato implantados em uma mulher está selado; a única questão é se aos cientistas será permitido usar suas células para pesquisa e tratamentos curativos.
Na verdade, a inserção dessas células no meio do debate sobre o aborto é ainda mais artificial do que parece. Os blastocistos estão em um estágio tão primitivo do desenvolvimento embrionário que ainda não tomaram a "decisão" bioquímica de se tornar um ser humano distinto. Isso é parte da razão pela qual eles ainda têm total flexibilidade para se tornar qualquer tipo de célula do corpo humano — e também da razão pela qual a confusão da tecnologia de células-tronco com o debate sobre o aborto é tão eticamente insensata. Neste estágio inicial, por exemplo, um embrião ainda poderia se dividir em duas populações de células separadas, cada uma podendo se tornar uma pessoa separada e única. Inclusive, isso é exatamente o que acontece quando gêmeos idênticos se formam. Como essa bola de células ainda pode se tornar uma, duas, ou até mais pessoas diferentes, claramente a massa de células unificada que precede essa separação não têm a identidade, a essência ou a alma própria de um único ser humano individual. E embora ainda possamos ter um temor justificado pela(s) vida(s) em potencial presa(s) nestas células, isso não deve nublar nossa visão ética em relação a enxergar este potencial do ponto de vista moral no mesmo patamar que as vidas reais de pacientes que necessitam essas células como um tratamento médico, especialmente quando estas células são como células de pele em placas de petri.
A solução de Nicodemos
Embora as células-tronco embrionárias derivadas de embriões deixados para trás pela fertilização in vitro sejam algo poderoso, elas têm uma desvantagem em potencial que paira sobre seu uso médico. Células derivadas desses embriões serão, por definição, imunologicamente estranhas para as próprias células do paciente, o que as torna um alvo para ataque do sistema imunológico. Assim, os mesmos tipos de problemas que atualmente existem no transplante convencional de órgãos — os horrores da rejeição, a doença enxerto contra hospedeiro, e os perigos de viver com um sistema imunológico desativado artificialmente com fármacos para preservar o transplante — podem também estar presentes em transplantes de células-tronco embrionárias.
Até o momento, as evidências sugerem que seremos capazes de lidar satisfatoriamente com essa questão com pouco esforço em muitos casos. Muito de nossa segurança em relação a isso deriva-se de experiências recentes no uso real de células-tronco embrionárias em tratamentos experimentais para diversas doenças. A maioria desses estudos simplesmente assumiu que a rejeição seria um problema, levando a medidas preventivas para evitá-la (o uso de animais com sistemas imunológicos defeituosos ou a administração de fármacos imunossupressores). Porém, mais recentemente, alguns estudos foram realizados usando células-tronco embrionárias sem tomar-se essas medidas, e os resultados sugerem que talvez não haja nada para se preocupar em pelo menos alguns casos. No estudo de ovelhas com ataques cardíacos que mencionei anteriormente e em
diversos estudos com roedores,30,31 células-tronco embrionárias tiradas até mesmo de outras espécies incorporaram-se aos tecidos nativos dos "pacientes" e proporcionaram benefícios regenerativos substanciais sem problemas de rejeição.
Esses resultados podem significar que o estado de desenvolvimento das células-tronco embrionárias é tão inicial e preliminar que elas podem nem se distinguir o suficiente com antígenos para criar um problema quanto à barreira entre as espécies — e menos ainda quanto à barreira entre indivíduos humanos. Além disso, estudos recentes indicam que as células-tronco embrionárias produzem suas próprias moléculas imunossupressoras de sinalização muito localizadas que seletivamente as protegem de ataques imunológicos, e até mesmo induzem qualquer célula T assassina que estiver
atacando a se autodestruir (apoptose).32 Como esses mecanismos envolvem contato direto entre as células, ou a secreção e o uso de fatores de forma muito próxima às células em si, este sistema de proteção imunológica local não tem os efeitos colaterais sistêmicos verificados no uso de fármacos imunossupressores.
Além disso, em algumas aplicações específicas o risco de rejeição será baixo estruturalmente, porque os tecidos onde serão entregues as células serão substancialmente protegidos do sistema imunológico. Grande parte do sistema nervoso, por exemplo, é amplamente inacessível a um ataque imunológico (que é o motivo pelo qual o vírus que causa a hérpes zoster pode se esconder ali por anos depois de ter sido eliminado do resto do corpo).
Também podemos diminuir o risco de rejeição fornecendo aos pacientes células-tronco embrionárias de isolados ("linhagens") que sejam compatíveis com todos os principais antígenos envolvidos, que é algo que poderemos prontamente fazer em muitos casos se pudermos escolher nossas linhagens de células-tronco dentre os embriões que atualmente estão marcados para destruição. Calculou-se que um conjunto com apenas 150 embriões para doação aleatoriamente selecionados a partir do estoque existente poderia fazer isso perfeitamente para um a cada cinco pacientes, além de conter uma compatibilidade provavelmente utilizável para quase dois a cada cinco pacientes e uma compatibilidade pequena para quase 85% dos pacientes em potencial — e se formos capazes de escolher combinações imunológicas específicas a partir do excedente em vez de escolher embriões aleatoriamente, apenas dez embriões para doação proporcionariam compatibilidade grau A para quase 40% dos pacientes e boa
compatibilidade para mais de dois terços deles.33
Porém, não podemos ainda descartar a possibilidade de que a rejeição possa representar um obstáculo para o uso efetivo de células-tronco embrionárias na medicina em humanos em relação ao envelhecimento e a doenças. Assim sendo, a boa notícia é que já existe tecnologia para nos permitir gerar células-tronco embrionárias que são perfeitamente compatíveis
imunologicamente com animais tão complexos quanto vacas e macacos, e diversas equipes científicas afirmam estar à beira de ser capazes de fazer o mesmo para humanos. Já mencionei essa tecnologia: a transferência nuclear de células somáticas (TNCS). Na TNCS, os médicos primeiramente pegam uma célula madura do corpo do paciente (uma "célula somática") coletada por exemplo da parte de dentro da bochecha, e então revertem seu relógio interno, libertando-a das restrições de uma complexidade madura e diferenciada e transformando-a em uma célula-tronco embrionária específica para o paciente.
Este milagre biológico é realizado através de uma técnica incrivelmente simples. A metamorfose ocorre em um óvulo, fornecido por uma doadora. O núcleo desta célula é removido para dar lugar àquele da célula do paciente. Com um impulso bioquímico ou um choque elétrico, ambos se unem, e o óvulo começa a se dividir como se tivesse sido fertilizado, iniciando a produção de células-tronco embrionárias criadas a partir das instruções genéticas do próprio paciente, levando a uma compatibilidade imunológica perfeita (vejam a Figura 3). As células podem então ser usadas com objetivos médicos da mesma forma que qualquer célula-tronco embrionária seria, mas sem qualquer medo de rejeição.
Figura 3. Como a TNCS ("clonagem terapêutica") funciona.
Na verdade, vocês podem já ter ouvido falar desta pesquisa biomédica avançada sob um nome mais popular para a mídia: clonagem terapêutica. Embora este termo seja perfeitamente correto cientificamente, ele tem gerado uma quantidade enorme de confusão sobre a natureza e o propósito da TNCS, jogando gasolina política no fogo das discussões nas câmaras legislativas e na internet sobre as células-tronco. Deixem-me tentar extinguir essas chamas.
Para um cientista, a palavra "clone" significa simplesmente um grupo de genes, células ou organismos que são idênticos uns aos outros em termos de DNA porque são derivados de um único ancestral. Nós usamos esta palavra no sentido estritamente científico na "expansão clonal" de células T, e nos "anticorpos monoclonais" que são atualmente usados para tratar alguns cânceres e provavelmente serão usados como parte de nosso conjunto de soluções de engenharia para o envelhecimento. Usos similares da palavra ocorrem quando cientistas falam de "clones" de bactérias comuns que têm um gene que as transforma em minúsculas fábricas biológicas de produção de insulina para diabéticos, ou inclusive quando jardineiros falam sobre um "clone" de pés de morango.
Entretanto, usar a palavra "clones" em conversas inclusive com pessoas com alto nível educacional que não trabalham em alguma das disciplinas ligadas à biologia e à biomedicina evoca a imagem de um mar de seres-robôs indistinguíveis e parecidos com zumbis, escravizados por tecnocratas ou criados para outros propósitos sinistros. O fato desta confusão estar corrompendo o debate sobre esta técnica potencialmente essencial para salvar vidas pode ser observado claramente em um discurso feito no parlamento canadense em 27 de fevereiro de 2003 durante os debates sobre a legislação canadense para regular as pesquisas com células-tronco. O Sr. James Lunney, um parlamentar do Partido Conservador pelo distrito de Nanaimo-Alberni da Ilha de Vancouver, começou dizendo que "se pegássemos uma célula [do presidente do parlamento], extraíssemos o núcleo e o colocássemos em um óvulo, poderia-se estimulá-lo eletricamente e deixá-lo crescer". Até aí, tudo bem. Mas então o Sr. Lunney enveredou por um discurso desinformado grotesco mas bastante comum: "O chamado clone terapêutico consistiria em pegar o modelo imaturo do Sr. Presidente [do parlamento] e extrair um órgão, se ele precisasse de um, matando o clone no processo. Essa é a chamada transferência celular nuclear somática ou clonagem terapêutica." Confusões similarmente absurdas foram perpetradas no parlamento dos EUA e em outros lugares durante os debates sobre células-tronco.
A TNCS não envolve de jeito nenhum fazer clones de pessoas. Ela envolve fazer blastocistos — bolas de células que, como vimos, ainda nem implementaram as medidas necessárias para decidir se irão se tornar uma, duas ou mais pessoas. É verdade que esses blastocistos poderiam em princípio ser usados para fazer bebês se fossem implantados em uma mulher da mesma maneira que se faz com blastocistos produzidos através de fertilização in vitro, mas isso é uma possibilidade, não um fato. Quando blastocistos são criados pela TNCS para propósitos terapêuticos, nenhum óvulo é fertilizado por esperma; nenhuma identidade de DNA nova e única é criada; nenhum embrião é implantado em um útero; nenhuma gravidez ocorre. A TNCS biomédica cria vida celular, mas não vida humana: células renovadas, não novas pessoas. Com certeza elas não têm órgãos que possamos usar — incluindo, o que é bastante importante, nenhum cérebro, nem mesmo a fase inicial de células nervosas. "Mata-se" tanto um blastocisto produzido pela TNCS quando usamos suas células-tronco quanto "matam-se" células de pele que estão se replicando quando jogamos fora a cuba em que estão ao final de um experimento. Fundamentalmente, a TNCS seria a base de terapias para curar as pessoas com suas próprias células, cujo potencial de seus primeiros momentos de existência teria sido restaurado através do poder do óvulo humano estimulado.
Como derivam do DNA do próprio paciente, as células da TNCS são exatamente equivalentes, geneticamente, às células de seu próprio corpo, e são tratadas como "parte do corpo" pelo sistema
imunológico.34 Independentemente do que surgir da pesquisa mais avançada com células-tronco embrionárias derivadas do excedente de embriões deixados para trás pela fertilização in vitro, as células da TNCS oferecem praticamente uma garantia de se libertar da ameaça da rejeição, da doença do enxerto contra o hospedeiro, e do uso por toda a vida de fármacos imunossupressores tóxicos.
Em pesquisas preliminares pré-clínicas, os novos poderes regenerativos de células derivadas da TNCS já se mostraram promissores. Em modelos animais, tratamentos com o uso da TNCS já foram utilizados para curar muitas das doenças devastadoras para as quais ainda precisa-se encontrar
tratamentos para humanos, como o mal de Parkinson,35 danos causados por
ataques cardíacos,36 e o equivalente animal da síndrome do "bebê bolha" (síndrome da deficiência imunológica combinada severa, SCID) — recuperando não só os recém-desmamados, mas organismos adultos plenamente desenvolvidos que haviam sofrido com a doença por toda a
vida.37 Como vimos, as células-tronco embrionárias obtidas a partir de blastocistos mais convencionalmente gerados alcançaram alguns resultados igualmente maravilhosos — mas alguns desses estudos sugerem que, mesmo quando a rejeição não ocorre, a TNCS pode ainda assim ter algumas vantagens. E de fato, os resultados tendem a minimizar o potencial terapêutico da TNCS, porque nestes estudos os cientistas na verdade não derivaram as células de cada animal individualmente de forma a conseguir uma compatibilidade perfeita (como seria feito com pacientes humanos), mas usaram uma linhagem celular para tratar uma colônia inteira de parentes próximos.
No estudo sobre o mal de Parkinson, por exemplo, os pesquisadores induziram células derivadas da TNCS a produzir neurônios que são adequados para uso em diversas áreas do sistema nervoso central (prosencéfalo, mesencéfalo, rombencéfalo e medula espinhal) e que são responsáveis por uma ampla variedade de funções. Alguns deles eram do tipo que produz o neurotransmissor dopamina, que está envolvido no controle motor preciso; como mencionei, é a perda dessas células que causa o mal de Parkinson. Outros eram células cujas funções centrais envolvem outro neurotransmissor chamado colina, e cuja perda é característica do mal de Alzheimer. Eles também foram capazes de derivar células que secretam outros neurotransmissores no cérebro (serotonina e GABA), que conduzem sinais de controle de movimento da medula espinhal até os músculos (e cuja degeneração é um fator central nas doenças dos neurônios motores), e que agem como células de "suporte" para neurônios adequadamente nutrindo-os e protegendo-os. Isso representou uma gama muito mais ampla de células maduras em comparação com o que tinha sido derivado de forma bem-sucedida em protocolos anteriores usando-se células-tronco embrionárias convencionais.
A equipe então testou estas células em roedores com Parkinson (cujas células produtoras de dopamina tinham sido reduzidas a menos de um terço de sua quantidade saudável por uma toxina), comparando seus efeitos com células-tronco embrionárias derivadas pelo caminho convencional. Neurônios produtores de dopamina derivados de ambos os protocolos formaram enxertos sólidos e estáveis e melhoraram o comportamento de seus receptores, e não houve sinal de rejeição em nenhum dos tipos de células-tronco embrionárias. Porém, embora as células derivadas da TNCS viessem de parentes do animal receptor em vez do seu próprio corpo individual, essas células tiveram um melhor desempenho que as células-tronco embrionárias convencionais, formando enxertos maiores em seu cérebro, com o dobro da quantidade de células nervosas transplantadas sobrevivendo por oito semanas após o transplante, e com os locais de enxerto finais contendo cerca de 50% mais neurônios produtores de dopamina.
E aparentemente também podem ter sido um pouco mais efetivas quanto à restauração de funcionamento. Como todos os danos tinham sido infligidos em um dos lados do cérebro, estimular quimicamente as células produtoras de dopamina restantes no cérebro causou um desequilíbrio motor, com o maior número de células intactas de um lado do cérebro enviando sinais mais fortes para as pernas que elas controlavam do que as células do lado mais danificado. O resultado foi que os animais começaram a guinar para um lado, de forma semelhante ao que ocorre quando se empurra um carrinho de supermercado que tem uma roda quebrada em um dos lados. Esse "comportamento rotacional" é um teste crucial do funcionamento da parte danificada do cérebro. Tratar estes animais com células produtoras de dopamina derivadas de células-tronco embrionárias convencionais ou criadas por TNCS reduziu essa movimentação anômala em mais de 70%, com indícios de que as células derivadas da TNCS foram mais efetivas (vejam a Figura 4).
Figura 4. Células-tronco embrionárias, e em especial células
derivadas da TNCS, restauraram a movimentação normal em um
modelo do mal de Parkinson.
Como a variedade de neurônios e células de suporte produzida por estes protocolos foi muito ampla, os pesquisadores que realizaram o estudo acreditam que sua técnica poderia também ser usada para tratar a esclerose múltipla e outras doenças desmielinizantes (nas quais a bainha de mielina, que é essencial para o funcionamento dos neurônios, é danificada ou destruída), a doença de Huntington, a esclerose lateral amiotrófica (doença de Lou Gehrig), e outras doenças do neurônio motor.
Ainda há obstáculos técnicos que precisam ser vencidos no desenvolvimento da TNCS, mas as objeções teóricas contra seu uso final na medicina humana estão sendo superadas. Houve preocupação quanto às mitocôndrias dessas células, pelo seguinte motivo: a TNCS é realizada substituindo-se o DNA de um óvulo pelo DNA de um paciente, mas isso ainda deixa as usinas de energia do próprio óvulo fornecendo o ímpeto para se manter as coisas em funcionamento. Muitos pesquisadores, portanto, preocuparam-se com a possibilidade das células resultantes serem disfuncionais devido à falta de compatibilidade entre essas mitocôndrias (criadas originalmente a partir do DNA nuclear e mitocondrial do óvulo da doadora) e a célula final, ou de que o corpo do paciente rejeitasse as células por causa dos componentes imunossensíveis das mitocôndrias transplantadas. Entretanto, até o momento não parece provável que esta incompatibilidade mitocondrial seja um problema. Além do fato de que essas células têm sido incorporadas com sucesso no corpo de animais sem nenhum sinal de rejeição nos estudos realizados até o momento, um estudo muito cuidadoso analisou essa questão da rejeição detalhadamente, incluindo proteínas específicas que são usadas para monitorar "estrangeirismos" mitocondriais, e constatou que as células foram aceitas como completamente nativas de acordo com todos os sistemas de medição atualmente disponíveis.
Similarmente, há preocupação quanto à "epigenética" das células derivadas da TNCS (a "estrutura" em volta dos genes no código de DNA, a qual regula a expressão desses genes) ser anormal, levando ao câncer e a disfunções. Entretanto, novamente, embora isso tenha sido um problema ao usar-se embriões criados com a técnica de transferência nuclear para fazer-se animais clonados, essa questão ainda não pareceu evitar que células-tronco derivadas da TNCS funcionem corretamente quando transplantadas como um tratamento em animais. E de fato, no começo de 2006, cientistas do Instituto Whitehead de Pesquisa Bioquímica em Cambridge, Massachusetts (EUA), reportaram que as células-tronco derivadas da TNCS têm padrões idênticos de transcrição e produção de proteínas que as células-tronco embrionárias criadas por fertilização semelhante à fertilização in vitro convencional, sendo que quaisquer diferenças são atribuíveis às diferenças genéticas entre os animais que doaram as células, e não ao tipo
de célula envolvida.38 Além disso, parece que o próprio processo de gerar células-tronco a partir de blastocistos de TNCS necessariamente impõe um tipo de processo de "sobrevivência dos mais aptos" próprio, com as células inadequadas do ponto de vista epigenético colapsando devido a sua própria disfuncionalidade; isto pode explicar em grande parte por que tem sido tão difícil conseguir uma produtividade alta para estas células a partir de um determinado bastocisto. Isso pode levar a problemas para alguém cujo objetivo seja na verdade realizar a transferência nuclear para clonar uma pessoa (um ponto que em si deveria acalmar as pessoas preocupadas com esse uso da técnica), mas aparentemente os problemas epigenéticos somente tornarão mais difícil o uso da TNCS na medicina, não impossibilitando seu uso seguro e efetivo.
Uma outra questão em aberto é onde vamos conseguir todos os óvulos de que precisaremos para usar a TNCS amplamente como uma terapia antienvelhecimento. O suprimento é limitado pelo número de mulheres dispostas a doar seus óvulos, e os tratamentos hormonais e a cirurgia moderadamente invasiva necessários provavelmente continuarão a manter baixa por algum tempo a quantidade de mulheres doadoras. Muitas pessoas também levantaram preocupações éticas quanto a oferecer dinheiro ou outros benefícios para conseguir mais doadoras, especialmente em relação a um procedimento que não está isento de riscos.
Mesmo isto, entretanto, pode na verdade ser superado por meios técnicos em vez de sociopolíticos. Uma opção seria obter os óvulos de outras espécies. Uma abordagem do tipo enfrentaria dificuldades técnicas: em especial, o fato de que as mitocôndrias presentes nesses óvulos não seriam simplesmente de uma pessoa diferente, mas de uma espécie diferente, o que poderia tornar as células incapazes de criar e manter o fornecimento de energia. Com a minha base em biologia mitocondrial, recentemente propus
uma solução para este problema caso ele surja.39 Minha solução faz com que as mitocôndrias das células-tronco embrionárias sejam derivadas da pessoa receptora das células, da mesma forma que ocorre com o núcleo, o que também acaba por evitar o problema mitocondrial "intraespécie" que mencionei anteriormente.
Uma outra alternativa poderia ser a produção em massa de óvulos criados por bioengenharia a partir de tipos de células mais comuns, como células da
pele. Pesquisadores canadenses recentemente reportaram40 o uso de células de pele de fetos de porcos para produzir células que, de acordo com padrões de expressão gênica, estrutura celular e algumas capacidades funcionais, parecem-se muito com óvulos. Ainda precisa ser avaliado se essas células têm ou não a gama completa de funções de um óvulo, mas elas (ou uma versão mais desenvolvida delas) poderiam ter a mesma capacidade de reverter o relógio de células somáticas maduras que os óvulos convencionais têm. Isso significaria ser possível criar através da bioengenharia uma fonte de óvulos quase ilimitada: tecidos de pele de fetos humanos, que contêm 19 bilhões dessas células por polegada quadrada. Quantidades tão grandes nos permitiriam evitar o aprisionamento nos campos de batalha das guerras culturais, se pudermos simplesmente chegar a um acordo quanto ao uso de tecidos de bebês natimortos em vez de abortados.
Embriões congelados, ciência congelada
Isso me traz de volta à minha segunda conferência científica SENS. Naquela época, ainda podia-se sentir o cheiro de ozônio no ar do segundo de um par de raios científicos vindos de um grupo anteriormente desconhecido de pesquisadores coreanos da Universidade Nacional de Seul, liderado pelo veterinário Hwang Woo-Suk. Alguns anos depois da ovelha Dolly, Hwang havia afirmado ter clonado uma vaca, e mais recentemente um cachorro, mas ficou famoso quando anunciou, no inverno de 2004, que tinha alcançado a primeira derivação do mundo de células-tronco embrionárias humanas completamente desenvolvidas usando a TNCS. Este anúncio impulsionou-o à fama internacional, mas era só o começo: pouco mais de um ano depois, nos meses anteriores à SENS2, ele reportou uma melhora drástica da técnica. Em seu primeiro relatório, Hwang só tinha sido capaz de derivar uma única linhagem celular de células-tronco a partir de 242 óvulos que tinham sido doados — e esta linhagem tinha sido obtida a partir de um óvulo fundido com o DNA tirado da própria doadora do óvulo, o que tinha um uso biomédico muito limitado. Agora, Hwang estava dizendo que tinha criado 11 linhagens humanas usando apenas 185 óvulos, e isso usando DNA tirado de pessoas completamente diferentes, incluindo pacientes em potencial dos dois sexos e de diversas idades.
Todo mundo do campo, assim como a imprensa popular, aclamou este resultado como um avanço fenomenal, e eu estava longe de ser o único que via seu potencial para tratar não só doenças relacionadas ao envelhecimento, mas também danos do envelhecimento no sentido mais amplo. Com certeza eu tentaria trazer alguém para apresentar não só os resultados de Hwang — com os quais a maioria dos participantes estaria pelo menos um pouco familiarizada devido à enorme cobertura da imprensa — mas também o significado que teriam para os cientistas que trabalhavam na área.
O resultado de Hwang claramente teria um enorme efeito estimulador na pesquisa com células-tronco. Por causa do clima político no qual tinha ocorrido, o impacto do anúncio foi muito maior do que poderia ser explicado simplesmente pelo avanço técnico (mesmo que fosse muito relevante) de tornar realmente possível fazer-se células-tronco customizadas para pacientes em recuperação. A pesquisa com células-tronco tinha sido obstruída por anos pela polêmica decisão do presidente George W. Bush (EUA), no verão de 2001, de limitar o financiamento governamental para a pesquisa com células-tronco somente a trabalhos realizados com o uso de linhagens criadas antes da manhã em que ele anunciou esta política.
Esta decisão reverteu uma política aceita no governo Clinton, mas que ainda não tinha sido implementada, que teria usado os fundos dos NIH (Institutos Nacionais de Saúde dos EUA) na pesquisa com células-tronco embrionárias usando linhagens derivadas de clínicas de fertilização in vitro ou de trabalhos originalmente realizados com financiamento privado. Esta decisão não veio da ciência, mas do turbilhão político do debate sobre o aborto, e da posição antiaborto do presidente Bush e de parte essencial de seu eleitorado constituída pela direita cristã. E embora não seja correto chamar este decreto executivo de um "banimento" da pesquisa com células-tronco embrionárias, ele representou um enorme banho de água fria no campo inteiro — e não só por causa dos efeitos diretos de cortar o financiamento para pesquisas realizadas com quase todas as linhagens de células-tronco embrionárias disponíveis.
O problema mais óbvio foi a barreira colocada para o financiamento direto do governo federal dos EUA para os trabalhos com células-tronco embrionárias. O governo controla o dinheiro relativo a uma parte impressionantemente grande da pesquisa básica em ciência dos EUA e até mesmo do mundo, com US$ 20 bilhões de financiamento relacionado a pesquisa vindo somente dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA todo ano. Bush e seus aliados políticos argumentariam que sua política fornece aos cientistas muitas oportunidades de trabalhar com células-tronco por causa da disponibilidade das linhagens aprovadas, mas esta alegação ignora o estado real das linhagens em questão.
A Casa Branca originalmente anunciou que sua política permitiria aos cientistas trabalhar com 78 linhagens robustas de células-tronco, mas quando os senadores colocaram a questão para o diretor dos NIH, Elias Zerhouni, ele admitiu que somente 19 dessas linhagens eram de fato viáveis, estando na prática disponíveis (ou seja, não estando presas por restrições de propriedade intelectual e outras limitações similares), e prontas para uso em trabalhos com células-tronco. Em 2004, este número ainda não era maior do que 21. Em pesquisas preliminares apresentadas na Academia Nacional de Ciência dos EUA em 12 de outubro de 2004, constatou-se que 14 dessas linhagens testadas por Carol Ware da Universidade de Washington (EUA) não cresciam mais adequadamente e eram difíceis de separar por causa da forma antiquada pela qual as linhagens de células-tronco embrionárias eram derivadas e cultivadas na época. Uma linhagem do tipo foi inclusive retirada do uso científico por
causa desta conclusão.41
Um estoque de só duas dezenas de linhagens também tem o problema de não representar adequadamente a diversidade genética da humanidade, de forma que é difícil verificar se uma determinada descoberta é algo específico daquela linhagem ou, por exemplo, de pessoas de uma determinada etnia. Um estoque de centenas de linhagens de células-tronco embrionárias viáveis é provavelmente o mínimo necessário para um progresso saudável neste campo da ciência. Na verdade, a situação atual é ainda pior: por causa de sua idade, essas linhagens estão acumulando mutações que poderiam distorcer os resultados da pesquisa realizada com elas porque nem representam mais as células-tronco dos doadores originais. Isso também significa que não podemos estudar as células-tronco de pessoas com doenças específicas, ou como fármacos experimentais afetam os processos das doenças — estudos estes que deveriam ser feitos com TNCS, o que nos permitiria retirar as células de pessoas que já se saberia sofrerem de uma determinada doença e reverter seus relógios para o primeiro momento de suas existências primitivas como blastocistos. Os pesquisadores poderiam então observar as células à medida que se diferenciassem nas células mais afetadas pela doença e depois as alterações tardias que ocorressem quando seu metabolismo anormal cruzasse com os processos do envelhecimento que ocorrem mesmo nas células de pessoas saudáveis.
E essas células não são somente de uso muito limitado para a pesquisa básica: todos que trabalham na área reconhecem que essas células também nunca serão utilizáveis em terapias reais. Todas as linhagens que estão aprovadas e disponíveis são inúteis para propósitos clínicos porque sua cultura foi originalmente criada usando-se células alimentadoras vindas de ratos (elas são células de suporte necessárias para secretar fatores e prover suporte estrutural que é essencial para manter o estado inicial e não especializado das células-tronco embrionárias). O contato com essas células de ratos afetou de forma problemática as células-tronco embrionárias de
diversas formas: um estudo42 descobriu que sua superfície celular continha um açúcar que o sistema imunológico do corpo reconhece como externo e ataca, e é amplamente esperado (embora ainda não esteja comprovado) que também possam conter proteínas celulares de ratos e até vírus.
Foi somente nos últimos anos que os cientistas desenvolveram novas técnicas que primeiro permitiram que linhagens de células-tronco embrionárias humanas fossem propagadas a partir de células alimentadoras humanas, e mais recentemente que células-tronco embrionárias fossem
geradas sem uso nenhum de células alimentadoras.43 E, novamente, é possível, para dizer o mínimo, que somente células-tronco embrionárias feitas sob medida, produzidas especialmente para o paciente através da TNCS, venham a resolver completamente o problema potencial da rejeição. Assim, somente linhagens de células-tronco embrionárias derivadas muito depois do limite estabelecido de 2001 podem ser de fato usadas como tratamentos para doenças e para a reparação completa de danos do envelhecimento no futuro.
Os efeitos desta política também vão muito mais além dos laboratórios onde há pessoas que estão de fato trabalhando com as linhagens aprovadas. Para começar, a restrição para fornecer dinheiro para o trabalho não aprovado com células-tronco é tão agressivamente implementada que os NIH têm que tirar dinheiro disponibilizado para bolsas e projetos até de pesquisas completamente desvinculadas de células-tronco embrionárias, caso este dinheiro seja usado em instalações e equipamentos também utilizados para trabalhos com as linhagens de células-tronco embrionárias "banidas". Vocês poderiam, por exemplo, estar testando um fármaco contra câncer em ratos e ter seu financiamento cancelado se alguma outra pessoa do campus estivesse compartilhando com você o uso do equipamento de arranjo de expressão gênica e estivesse usando-o para trabalhos com células-tronco embrionárias que usam linhagens não aprovadas pela decisão de agosto de 2001. Isto torna extremamente difícil para qualquer pessoa realizar trabalhos com células-tronco embrionárias sem ser com as linhagens autorizadas na maioria dos campi universitários, ou basicamente em todos os centros de pesquisa governamentais. Laboratórios nos quais o trabalho autorizado ocorre devem dispendiosamente duplicar e rastrear os equipamentos, até mesmo colando adesivos coloridos em placas de petri e outras vidrarias, e precisam em geral trabalhar de maneiras que prejudicam a efetividade.
A medida também cria enormes obstáculos até para pesquisas financiadas pelo setor privado — pesquisas que, teoricamente, não são o alvo da política de Bush. Os cientistas das empresas privadas são anteriormente treinados nas universidades, e quando essas universidades não podem realizar trabalhos com células-tronco embrionárias, por causa de uma junção de falta de dinheiro federal com repressão a trabalhos que não envolvem células-tronco embrionárias mas usam equipamentos compartilhados com trabalhos em linhagens "proibidas", os jovens pesquisadores não são treinados nas técnicas de trabalho das células-tronco e não têm nem de longe a oportunidade de realizar pesquisas originais que ajudariam a desenvolver o campo. Isto, evidentemente, significa que esses pesquisadores não têm condições de serem contratados por firmas privadas mesmo se estas tiverem os recursos para contratá-los.
E naturalmente, a incerteza política em torno do trabalho com células-tronco faz com que os investidores em potencial fiquem relutantes em colocar dinheiro em empresas focadas no desenvolvimento de curas baseadas em células-tronco embrionárias. Naquela época, parecia até possível que os Estados Unidos seguissem o modelo de outros países ao não só tornar aspectos desta pesquisa — como a TNCS — inadequados para financiamento governamental, mas também considerá-los de fato atos criminosos. Investidores aguentam a maioria dos riscos, mas não o risco político, e, portanto, eles abandonaram por vários anos as pesquisas com células-tronco embrionárias financiadas pelo setor privado.
Por um curto espaço de tempo pareceu provável que essa política do governo Bush fosse ser rapidamente derrubada por pressão política. Mesmo uma seleção bastante conservadora de pesquisas de opinião mostra que a maioria das pessoas dos Estados Unidos e de outros lugares é a favor de uma política bastante aberta quanto ao acesso científico a células-tronco embrionárias. Mesmo em pesquisas de opinião nas quais a pergunta é feita de forma direta sem mencionar-se os benefícios em potencial para os humanos, a maioria das pessoas diz que apoia a derivação de células-tronco do excedente de embriões das clínicas de fertilidade para pesquisas
científicas.44 Quando a pergunta menciona o potencial para tratamento em humanos, esta proporção sobe para cerca de 70%. E a maioria das pessoas apoia até mesmo as pesquisas com TNCS — um fato que me enche de otimismo sobre a aceitação futura de outras terapias antienvelhecimento.
Portanto, naquele calor do mês de agosto, com a controvérsia se espalhando e a popularidade do presidente Bush balançando em solo movediço, parecia possível que a opinião pública se mobilizasse contra a medida restritiva e, dentro de um prazo razoavelmente curto, os cientistas fossem liberados para trabalhar com células-tronco embrionárias de uma ampla variedade de fontes.
Então, os aviões atingiram o World Trade Center.
Em um mês, tudo mudou. A pesquisa com células-tronco embrionárias, que estava no centro das discussões nacionais em agosto, desapareceu da mente de quase todas as pessoas nos meses finais de 2001, sendo substituída pelo medo imediato do terrorismo. Com a pressão e a atenção do público geral dissipadas, aqueles cujas organizações, recursos e investimento ideológico eram fortes o suficiente para continuar a impulsionar sua posição sobre o assunto mesmo na sombra das ruínas das Torres Gêmeas repentinamente se tornaram as únicas vozes que pressionavam os legisladores — e, neste caso, por causa da fusão da ciência com o debate sobre o aborto, isso significava em sua quase totalidade forças contrárias à pesquisa com células-tronco embrionárias. Grupos antiaborto, que são bem organizados e financiados, pressionaram os políticos em Washington mais fortemente do que nunca, sem haver a tradicional força oposta do público em geral ou de seus oponentes usuais, pois os grupos pró-escolha e a favor das liberdades civis não estavam particularmente interessados na ciência das células-tronco, e além disso os militantes pelas liberdades civis já estavam ocupados demais defendendo a preservação de direitos constitucionais em face à ameaça do terrorismo. E embora grupos de defesa de pacientes tenham se oposto aos bloqueios nas pesquisas, esses grupos estavam ainda nascendo na época, e careciam do apoio de empresas farmacêuticas que frequentemente os mantém, pois neste caso as empresas não tinham nenhum interesse específico ligado à promoção da causa desses grupos.
Sentindo-se especialmente reverente em relação a um presidente em tempos de guerra subitamente popular, recebendo muita desinformação desequilibrada dos ativistas antiaborto da direita religiosa que compunham a base de apoio do presidente (e que tinham desempenhado um papel significativo em sua própria conquista do poder), e tendo sua liderança dominada por deputados com uma visão de mundo já de por si social-conservadora, o parlamento controlado pelo Partido Republicano aumentou substancialmente o nível de ameaça contra a ciência de células-tronco. Projetos de lei introduzidos paralelamente por Sam Brownback no Senado (S 245) e Dave Weldon e Bart Stupak na Câmara dos Deputados (HR 234) tinham como objetivo banir todas as formas de "clonagem humana" — incluindo a TNCS realizada inteiramente para propósitos científicos ou médicos.
Essas medidas não só impediriam o financiamento federal para a criação de blastocistos usando a TNCS, mas criminalizariam essa criação — impondo de fato penas de prisão para os cientistas que realizassem o trabalho. Elas também mandariam para a prisão os cientistas que fizessem qualquer pesquisa científica usando linhagens de células-tronco embrionárias derivadas da TNCS; nos textos originais desses projetos de lei, chegava-se a ameaçar com prisão tanto médicos quanto pacientes se administrassem ou aceitassem tratamentos curativos que usassem células-tronco derivadas da TNCS. A linguagem utilizada até sugeria que pessoas que saíssem do país para receber tratamentos com células-tronco provindas da TNCS poderiam ser penalizadas por isso ao retornarem aos Estados Unidos.
Porém, nos meses seguintes, à medida que o público lentamente começou a voltar a prestar atenção ao que estava acontecendo a sua volta, as forças ativistas a favor da pesquisa científica e dos pacientes começaram uma contraofensiva. Elas foram auxiliadas em muito pela voz de pacientes famosos que sofriam (ou tinham pessoas próximas sofrendo) de doenças cujo tratamento provavelmente se beneficiaria da TNCS, incluindo Michael J. Fox (mal de Parkinson), Kevin Kline (cujo filho tem diabetes juvenil), Christopher Reeve (lesão na medula espinhal), e, a mais poderosa dessas vozes, Nancy Reagan (cujo marido, o ex-presidente, morreu de mal de Alzheimer). Uma coalizão bipartidária que apoiava um maior acesso a células-tronco embrionárias — e em muitos casos a legalização completa da TNCS biomédica — começou a se formar, incluindo republicanos com uma posição proeminentemente antiaborto como Orrin Hatch, Strom Thurmond, Arlen Specter, John McCain, e por fim o então líder da maioria no Senado Bill Frist, além de aparentemente até o próprio secretário de Saúde e Serviços Humanos de Bush, Tommy Thompson. Enquanto isso, organizações científicas importantes (incluindo a Academia Nacional de Ciências, a Associação Médica Estadunidense, a Associação de Faculdades de Medicina Estadunidenses e até os próprios Institutos Nacionais de Saúde), assim como diversas instituições de caridade relativas a doenças específicas (como a Fundação de Pesquisa da Diabetes Juvenil, a Associação Estadunidense para Pesquisa de Câncer, a Fundação Lance Armstrong e a Associação Estadunidense de Diabetes) manifestaram apoio à pesquisa usando novas linhagens de células-tronco embrionárias e ao avanço do trabalho com a TNCS.
A coalizão de Hatch propôs uma legislação que legalizava a TNCS para pesquisas científicas e médicas, ao mesmo tempo que bania o uso da técnica como uma forma de clonar pessoas. Ela também propôs uma legislação para permitir o acesso ao excedente de embriões de clínicas de fertilidade como uma fonte de células-tronco. Lentamente, cada vez mais legisladores de ambos os lados do espectro político apoiaram o lado do debate a favor da pesquisa. Pelos vários anos seguintes, as duas forças lutaram até chegar a um impasse, com os dois projetos de lei sendo repetidamente propostos e derrotados. Isso criou um limbo legal e científico que em última instância favorecia a posição do campo contra a pesquisa: os poucos cientistas que trabalhavam com a TNCS não foram presos mas permaneceram sem acesso a financiamento, investidores privados em potencial continuaram a esperar que se resolvesse a questão da incerteza política e as restrições do presidente à pesquisa com células-tronco embrionárias continuaram a existir.
Um falso amanhecer
Então repentinamente, em 2005, veio o anúncio de Hwang sobre técnicas com relativamente alta produtividade para criar células-tronco embrionárias sob medida individualmente. A notícia agiu como uma jamanta, destruindo barreiras políticas e científicas. Do ponto de vista técnico, a capacidade de se fazer células-tronco embrionárias viáveis e customizadas sob medida para cada paciente era um avanço científico gigantesco. Politicamente, essa notícia não só reenergizou as forças a favor da pesquisa, mas também gerou uma nova fonte de pressão nos políticos. Os defensores das células-tronco há muito argumentavam que se o governo continuasse restringindo a pesquisa com células-tronco embrionárias, a ciência seria feita em outros lugares: os Estados Unidos simplesmente sofreriam de fuga de cérebros, à medida que cientistas estadunidenses se mudassem para ambientes mais hospitaleiros para a realização de seu trabalho vital e estudantes de pós-graduação estrangeiros (já irritados com as novas restrições de segurança) recusassem convites de universidades estadunidenses. Agora, a profecia começava a se cumprir. O governo coreano estava pronto para apoiar o trabalho de sua nova estrela científica com recursos significativos, países tão distantes uns dos outros como o Reino Unido, Israel, Suécia e Cingapura começavam a se estabelecer como polos bem financiados para a pesquisa com células-tronco embrionárias, e relatos de cientistas importantes fazendo as malas para ir embora dos EUA começavam a aparecer na mídia.
As forças da competição começaram a fazer sua mágica habitual. Estados dos EUA, com medo de ficarem para trás, começaram individualmente a fazer projetos de lei para financiar a pesquisa com células-tronco dentro de suas próprias fronteiras. Políticos da esfera federal que não estavam tão fortemente comprometidos ideologicamente com a posição contrária às células-tronco embrionárias — incluindo muitos republicanos orientados ao livre mercado — tornaram-se cada vez mais dispostos a se opor à posição dos ideólogos antipesquisa. Alguns anos antes, 58 senadores — a maioria deles democratas, mas com um apoio substancial de republicanos importantes — tinham assinado uma carta pedindo a Bush que revogasse sua política; pouco depois de um mês do anúncio de Hwang, 206 deputados juntaram-se à ação.
Eu sabia que destacar esses avanços, e as oportunidades que proporcionavam aos pesquisadores, seria uma ótima maneira de realizar de forma mais aprofundada a missão da minha conferência no sentido de promover a pesquisa biomédica antienvelhecimento. Tirando o próprio Hwang, a melhor pessoa para apresentar essas oportunidades era Gerald Schatten, um pesquisador de células-tronco da Universidade de Pittsburgh (EUA) que tinha estado trabalhando com Hwang pelos últimos dois anos, tinha usado suas técnicas veterinárias para clonar um macaco, e havia participado do artigo científico que anunciou as novas linhagens por TNCS na Science. Pedi a ele que apresentasse seus resultados e explicasse como se poderia ter acesso a células-tronco embrionárias específicas para pacientes através da equipe de Hwang na Universidade Nacional de Seul (Coreia do Sul): seria criado um "polo mundial de células-tronco" que geraria células pela TNCS sob demanda usando as instalações estabelecidas por Hwang e seus técnicos experientes.
Fiquei muito feliz quando Schatten aceitou meu convite — mas fiquei certamente extasiado quando, não muito depois, ele escreveu um outro e-mail dizendo que gostaria de trazer um amigo com ele. O próprio Hwang tinha expressado interesse em fazer uma apresentação na SENS2, segundo Schatten; ele sabia que era em cima da hora, mas perguntava se eu deixaria que Hwang compartilhasse a meia hora que lhe era destinada na conferência. Evidentemente, em vez disso ofereci reservar a Hwang sua própria apresentação de meia hora como um expositor especial na sessão de células-tronco e medicina regenerativa. Eu estava disposto a fazer isso mesmo se para tanto fosse necessário jogar fora minha programação original e começar do zero, pedindo perdão aos palestrantes ao mudar seus horários tão tardiamente no planejamento de uma programação de conferência muito cheia; porém, felizmente não tive que fazer isso, já que um outro palestrante recentemente tinha sido forçado a deixar de participar. Com quase nenhuma alteração, Hwang foi confirmado.
Então foi assim que, com grande prazer da minha parte e uma aguçada atenção de centenas de meus colegas, Hwang subiu à plataforma para dar sua palestra no Fitzpatrick Lecture Hall de Cambridge.
Evidentemente, como sabem muito bem, a menos que tenham passado grande parte do inverno de 2005 para 2006 em uma caverna no meio do nada, foi tudo uma farsa. Alguns meses depois de eletrificar minha audiência científica em setembro, Hwang revelou-se uma fraude.
Magos maus e homens maus
Primeiro houve questionamentos éticos sobre a fonte dos óvulos de Hwang; depois, questionamentos sobre a viabilidade de quatro das sete linhagens de células-tronco embrionárias que ele tinha submetido à Science. E então, repórteres que estavam analisando as fotografias apresentadas com os dados de Hwang começaram a notar similaridades suspeitas entre linhagens celulares supostamente distintas. Hwang não deu importância a esses questionamentos dizendo serem o resultado de uma confusão da equipe de produção da Science sobre quais das numerosas fotos que ele tinha enviado deveriam ser usadas como figuras no artigo.
Os indícios contra Hwang rapidamente se avolumaram. Cientistas que revisaram os dados do artigo notaram similaridades suspeitas nos perfis genéticos das células de várias linhagens. Em seguida, Schatten pediu que seu nome fosse retroativamente removido da autoria do artigo por causa de "alegações vindas de alguém envolvido nos experimentos de que certos elementos do relatório podem ter sido inventados". E em 15 de dezembro, esse colaborador veio a público com a declaração categórica de que nove das onze linhagens de Hwang eram falsas, compartilhando DNA idêntico umas com as outras, e afirmou que o próprio Hwang tinha reconhecido a fraude.
Quando surgia cada um dos questionamentos, Hwang protestava alegando inocência, dependendo do caso culpando erros, contaminação e a incompetência de outras pessoas — chegando até a afirmar que um antigo colaborador tinha "trocado" algumas de suas linhagens. Entretanto, oito dias após seu antigo colaborador denunciar a fraude, ele pediu sua demissão da Universidade Nacional de Seul — que não foi aceita com a justificativa dele ser naquele momento alvo de uma investigação interna. Ele foi suspenso em fevereiro, demitido em março e indiciado em maio por fraude, desvio de dinheiro e violação da legislação bioética.
As consequências dessa revelação foram sentidas em muitos níveis. Houve, é claro, uma indignação enorme com a fraude, e um grande desapontamento pelo fato dos avanços científicos de Hwang terem se revelado uma farsa. E foi um fiasco político, explorado pelos militantes contra células-tronco embrionárias no sentido de difamar-se todo o campo.
Além disso, a fraude de Hwang também atrasou o progresso do campo inteiro por pelo menos um ano — que é uma eternidade em termos científicos. As restrições de Bush para a pesquisa de células-tronco embrionárias, amplificadas pela ameaça que pairava de criminalização da TNCS pelo parlamento estadunidense, tinham impedido quase todas as equipes de pesquisa de aperfeiçoar a transferência nuclear para pacientes humanos. As declarações de Hwang tinham reduzido ainda mais o incentivo para alocar-se recursos para atingir esta meta: ninguém queria reinventar a roda que já estava girando na Coreia, e as empresas privadas não teriam mais uma vantagem competitiva por terem sido as primeiras a criar células-tronco embrionárias personalizadas para pacientes, usando métodos próprios que poderiam ser mantidos exclusivos como segredos industriais ou através do processo de patenteamento.
Uma empresa privada, a Advanced Cell Technology (ACT), tinha corajosamente continuado com o trabalho, gerando muitos resultados científicos de alta qualidade com células-tronco embrionárias e TNCS (embora seja preciso admitir que muito disso foi exagerado pela mídia) — e isso apesar de passar constantemente de uma crise financeira a outra por causa da inquietação dos investidores com o ambiente legal da pesquisa. No final de 2001, ela fez o famoso anúncio do primeiro blastocisto humano
"clonado",45 embora o DNA que fora transferido para dentro do óvulo tivesse vindo do próprio corpo da doadora (na verdade, de células que normalmente encobrem o próprio óvulo) e o blastocisto resultante não tenha conseguido se desenvolver mais além de uma bola de seis células. Ela passou grande parte dos dois anos seguintes aperfeiçoando esta técnica, fazendo muitas publicações (a maioria das quais em pesquisas realizadas com vacas) que traçavam seu progresso em direção a descobrir as razões para a baixa produção de blastocistos viáveis nas técnicas de TNCS, e trabalhando continuamente para aperfeiçoar a técnica para o uso biomédico humano.
No final de 2003, afirma o diretor científico da ACT, Robert Lanza, a empresa estava muito próxima de resolver os problemas ainda restantes de sua técnica, e poderia em pouco tempo ter gerado a primeira célula-tronco viável personalizada para pacientes ou para pesquisas sobre doenças específicas. Com o anúncio das 11 linhagens celulares de Hwang, entretanto, os investidores começaram a deixar de apostar no que parecia ser um "cavalo perdedor" na corrida — um golpe que virou um nocaute por simultaneamente a ACT ter tido o contratempo de perder sua maior fonte de óvulos humanos. As células foram congeladas, e o trabalho da ACT com TNCS humana, desativado.
Igualmente enfurecedor é o caso da Professora Alison Murdoch e do Dr. Miodrag Stojkovic, do Newcastle Centre for Life, uma clínica de fertilidade e centro de pesquisa em Newcastle-upon-Tyne no Reino Unido. Esses pesquisadores conseguiram criar os primeiros blastocistos humanos por TNCS usando o DNA tirado de células de uma pessoa que não era a
doadora do óvulo.46 Assim como as células da ACT, estes blastocistos não eram completamente viáveis, mas no ambiente mais favorável a pesquisas do Reino Unido, o grupo tinha recebido a aprovação formal dos órgãos reguladores para seguir com seu trabalho usando células-tronco derivadas da TNCS, o que possibilitava ao grupo aperfeiçoar a técnica. Mas sua publicação veio logo após a de Hwang, e comparada com seu sucesso explosivo, a criação de somente três células fundidas que de fato começavam a se dividir, e não linhagens de células-tronco reais, parecia não ter relevância para o progresso do campo. Eles também desativaram prontamente sua pesquisa na técnica — uma decisão que Murdoch diz que lhes custou pelo menos um ano.
Foi a mesma história em todos os lugares. Equipes de pesquisa de TNCS na Suécia, e também em três universidades estadunidenses que tinham conseguido fundos privados ou estatais suficientes para criar centros de pesquisa de células-tronco com elaboradas barreiras de blindagem financeira que os separavam de pesquisas financiadas pelo governo federal em outros lugares dos mesmos campi, desistiram completamente de seus projetos ou paralisaram-nos enquanto esperavam para ver se os planos da equipe coreana tornariam seus esforços redundantes.
Mas se o tiro de Hwang, ouvido por todo o mundo, acabou sendo no máximo um tiro que saiu pela culatra, ainda assim ele serviu para acordar muitas pessoas. Por todo o mundo, e especialmente nos Estados Unidos, os pesquisadores começaram novamente a pensar seriamente sobre o que poderiam fazer assim que tivessem acesso ao conhecimento da equipe coreana. A perspectiva era de ter células-tronco com a flexibilidade milagrosa do blastocisto, mas perfeitamente compatíveis com pacientes sofrendo dos piores pesadelos do envelhecimento: mal de Parkinson, derrame, coração enfraquecido e com cicatrizes, olhos cegados pela morte de células sensíveis à luz asfixiadas por seus próprios resíduos, membros atrofiando-se devido aos impulsos elétricos pararem de fluir por suas células nervosas, ou células musculares quebrando-se uma a uma sob a força de sua própria deterioração molecular. Os laboratórios começaram a considerar propostas de financiamento. Jovens estudantes de ciência voltaram-se para a pesquisa de células-tronco como uma perspectiva de carreira animadora. O amanhecer era falso — mas mesmo assim seus raios de luz acordaram as forças adormecidas da ciência.
Hoje em dia, após o colapso do castelo de cartas de Hwang, e desafiando a obstinação politicamente impulsionada e moralmente mal orientada do governo Bush, o campo está passando por um renascimento. Murdoch e a ACT reiniciaram seus programas. Equipes ao redor de todo o mundo estão intensamente buscando desenvolver técnicas de TNCS bem-sucedidas e as pesquisas e curas que elas permitirão. Trabalho de ponta está sendo realizado no Centro de Medicina Regenerativa da Universidade de Edimburgo, na Escócia (assumindo pesquisas clínicas do trabalho veterinário que criou a ovelha Dolly); no Instituto Karolinska, na Suécia; na Segunda Universidade Médica de Xangai, na China; e em diversos centros financiados pelo setor privado nos Estados Unidos, incluindo o Instituto de Células-Tronco de Harvard, a Universidade da Califórnia em São Francisco, e o Instituto de Biologia e Medicina de Células-Tronco da UCLA.
O clima em termos de legislação também está mudando. Além de China, Reino Unido e Suécia, a TNCS já é explicitamente legal em Cingapura, Bélgica, Japão, Espanha e Israel. E continua legal nos Estados Unidos, apesar dos esforços do senador Brownback e de seus aliados: o projeto de lei Brownback-Weldon fracassou duas vezes em ser aprovado pelo parlamento, embora tenha sido reintroduzido em tramitação em 2005 como S 658/HR1357, a Lei de Proibição de Clonagem Humana de 2005. E o que é mais animador: a Lei de Aprimoramento da Pesquisa de Células-Tronco bipartidária de Orrin Hatch, que teria permitido a pesquisa com células-tronco embrionárias usando linhagens celulares derivadas do excedente de embriões da fertilização in vitro, foi aprovada em ambas as câmaras do parlamento, e só não entrou em vigor devido a um veto presidencial — o primeiro dos (até então) seis anos de governo do Sr. Bush. O projeto de lei a favor da TNCS de Hatch também está de volta ao jogo no parlamento, embora nenhuma votação sobre ele pareça estar a ponto de ocorrer.
Enquanto isso, estados dos EUA estão individualmente se mobilizando, fazendo o possível para driblar os vácuos de financiamento e regulação a nível federal. A pesquisa com TNCS foi legalizada na Califórnia, Connecticut, Nova Jersey, Rhode Island, Illinois e Massachusetts, e embora diversos outros estados também tenham especificamente proibido todo o trabalho com TNCS, muitos mais estão permitindo o trabalho realizado com o excedente de blastocistos da fertilização in vitro. Um plebiscito em Missouri que propunha proteger constitucionalmente a possibilidade dos cientistas conduzirem pesquisas com células-tronco embrionárias e TNCS, e a possibilidade dos pacientes terem acesso a curas baseadas nessas técnicas disponíveis em outros lugares da nação, foi aprovado por pequena margem em novembro de 2006.
Os estados também estão conseguindo os fundos necessários para que o trabalho ocorra em seus próprios setores de biotecnologia. A mais famosa dessas iniciativas é a Proposta 71 da Califórnia, um plebiscito que criou o Instituto de Medicina Regenerativa da Califórnia e deu-lhe um orçamento financiado por títulos de US$ 3 bilhões para financiar trabalhos com células-tronco embrionárias incluindo a pesquisa com TNCS (mas não se limitando a ela). O desembolso real desses fundos tem sido até agora atravancado por ações legais contra a pesquisa e algumas questões legítimas sobre supervisão e ética, mas as decisões judiciais têm sido quase uniformemente favoráveis, e o governador Arnold Schwarzenegger recentemente interveio com um empréstimo-ponte para que os dólares destinados à instituição começassem a fluir rumo ao desenvolvimento de curas baseadas em TNCS e em outras células-tronco embrionárias.
E se a Califórnia é o caso mais famoso, está longe de ser o único — ou mesmo o primeiro. Esta honra é de Nova Jersey, que no começo de 2004 tornou-se o primeiro estado a separar fundos estatais para a pesquisa de células-tronco embrionárias. Desde dezembro de 2005, Nova Jersey já proporcionou um total de US$ 5 milhões em subvenções dadas a 17 instituições de pesquisa para a pesquisa de células-tronco de embriões e de outras fontes, e criou o Instituto de Células-Tronco de Nova Jersey que custou US$ 23 milhões. Iniciativas similares estão começando a surgir em Connecticut, Illinois, Maryland, Massachusetts (apesar de uma tentativa fracassada de veto do governador) e no estado de Washington.
Enquanto isso, trabalhos têm sido realizados no setor privado, apesar da falta de apoio, da regulamentação adversa e de um clima de incerteza que manda todos os investidores embora, com exceção dos mais resistentes, em busca de outras oportunidades. A ACT é um exemplo destacado; outro é a Geron Corporation, uma empresa de biotecnologia mais famosa por seu trabalho na "enzima da juventude", a telomerase (a qual está agora tentando manipular para desativar cânceres desligando as fontes de telomerase — vejam o Capítulo 12 para ver muito mais detalhes sobre isso). A Geron aperfeiçoou métodos para fazer crescer células-tronco embrionárias humanas sem células alimentadoras, e está testando seis diferentes linhagens em animais; gerando grande expectativa, ela espera estar pronta para começar os primeiros estágios dos testes em humanos usando células-tronco neuronais para lesões na medula espinhal na primavera de 2007.
Alguns cientistas também estão buscando maneiras puramente técnicas de libertar a ciência do falso dilema moral em torno do uso de blastocistos para a pesquisa e a cura de doenças humanas. Há diversos métodos propostos para se criar células-tronco embrionárias de blastocistos sem eliminar-se o potencial dessas bolas de células de se tornarem vidas humanas em algum momento. Um é a partenogênese, um nome provindo do termo técnico para um "nascimento virgem". Nesta técnica, os genes em um óvulo (que naturalmente contém somente metade de um conjunto total, já que são conformados para ser completados por aqueles no espermatozoide na fertilização) são duplicados, gerando assim um conjunto completo de instruções de DNA; isto permite que o óvulo se comporte o suficiente como um blastocisto para produzir células-tronco embrionárias para a doadora do óvulo, sem que o óvulo seja de fato fertilizado. Uma outra abordagem é pegar células-tronco de embriões de clínicas de fertilização in vitro que têm defeitos que impedem que cheguem a formar um feto, ou de fato induzir esses defeitos no DNA de um paciente antes de fazer um blastocisto com ele usando a TNCS, de forma a eliminar até mesmo seu potencial de formar uma vida humana. Recentemente, a ACT introduziu mais uma opção: usar células-tronco derivadas de uma única célula tirada do blastocisto, deixando-se o resto delas do jeito que estavam, representando um embrião potencialmente viável (como às vezes já é feito para testes genéticos de
embriões de fertilização in vitro antes da implantação).47 Também há uma quarta opção, que é estimular células-tronco adultas a que se comportem mais como células-tronco embrionárias, usando fatores de crescimento e outros mensageiros químicos, em vez de usar o inerente poder de renovação
do óvulo para fazer a mesma coisa.48
Não tenho dúvidas de que este trabalho seja valioso — mas principalmente porque nos dará mais informações sobre a biologia das células-tronco. As lições aprendidas nos permitirão manipular células-tronco embrionárias e TNCSs mais habilmente quando o ambiente legal finalmente liberar os "cavalos de corrida" científicos, impacientes para viabilizar a concretização do potencial dessas células. As técnicas específicas envolvidas provavelmente não serão (e certamente não deveriam ser) necessárias para criar tratamentos curativos para pacientes com doenças "oficiais" ou para regenerar corpos humanos privados pelo processo do envelhecimento de sua capacidade de curar a si mesmos. Sua aparente necessidade é puramente uma construção política, sem relação com a realidade científica ou com a necessidade humanitária subjacente. A necessidade real é libertar os cientistas de interferências equivocadas na missão de transformar o enorme potencial das células-tronco embrionárias — incluindo células específicas para pacientes, criadas pela fusão das células de um paciente com um óvulo — em terapias para os doentes e os velhos.
Felizmente, esta é uma área onde quase todos os meus colegas basicamente já concordam comigo — e não só da biogerontologia, mas de todo o mundo da ciência biológica básica e médica. Os cientistas que avaliam o uso de recursos nos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA ficariam muito felizes em desembolsar fundos para pesquisas promissoras com células-tronco embrionárias e TNCS por todo o país, se não estivessem impedidos pelas ordens executivas de seu presidente. Todos que não estão cegados por um sentimento descolocado de responsabilidade moral em relação a uma bola de células reconhecem a necessidade de se fazer pesquisas com células-tronco embrionárias guiadas por uma ética e uma regulamentação responsáveis, e não de se criar restrições artificiais a partir da confusão, do medo e do aproveitamento da oportunidade política.
Certamente há obstáculos científicos que devem ser superados antes das células-tronco embrionárias poderem ser usadas diretamente como tratamentos médicos. Temos que desenvolver técnicas muito mais confiáveis para obter células-tronco, para transformá-las nos tipos de células de que precisamos, e para fazê-las desempenhar a mesma ampla gama de papéis que desempenham as células correspondentes que crescem sob a orientação de programas sofisticados de desenvolvimento dentro de nosso corpo. O campo nascente da medicina regenerativa já está fazendo progressos surpreendentes mesmo usando células e tecidos criados a partir das células adultas de pacientes: engenheiros de tecidos estão avançando de células a órgãos, semeando células em uma estrutura biodegradável que as orienta para formar um tecido projetado estruturalmente apropriado, que
então se desfaz, deixando pronto o tecido funcional.49 Pacientes humanos receberam uretras funcionais que duraram sete anos, feitas a partir de um tecido estrutural sem células tirado de cadáveres e semeado com as células do paciente. Bexigas funcionais foram criadas e transplantadas em cachorros da raça beagle, e coelhos receberam, e usaram com sucesso, tecido erétil peniano criado em laboratório. E no trabalho mais ambicioso até o momento, vacas receberam rins simples criados através da TNCS, com DNA tirado de sua orelha. As células rejuvenescidas foram cultivadas, e cresceram até encher todos os espaços de uma complexa estrutura biodegradável de rim, sendo que o órgão resultante foi implantado. Os rins artificiais foram funcionais, filtrando o sangue e produzindo um fluido muito similar quimicamente à urina normal.
Mas o impedimento fundamental para o sonho de que novas células reconstituam corpos desgastados pelos anos ou por doenças é político — de forma que sua solução também deve sê-lo.
Agindo agora pela ciência e a medicina
Quase todas as pessoas que supostamente estarão lendo este livro são cidadãos de países democráticos. Alguns vivem em países que já deram aos seus cientistas o sinal verde para buscarem tratamentos curativos com células-tronco embrionárias dentro de cuidadosos quadros éticos e regulatórios. Se este é o caso, parabéns. Vocês podem ajudar a aumentar a velocidade da corrida rumo a curas influenciando seus políticos no sentido de que aumentem o financiamento para esta pesquisa.
Porém, provavelmente a maior porcentagem individual de leitores do livro estará nos Estados Unidos — o país que ainda faz as maiores contribuições para o progresso científico mundial, onde jovens cientistas ainda se aglomeram para buscar o avanço da capacidade humana, e onde o financiamento do governo e do setor privado poderia, se liberado das barreiras, ter o maior impacto no campo. É preciso tirar os freios da capacidade de financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde, e permitir-lhes que pisem no acelerador — com força.
A voz dos leitores deste livro pode ajudar o progresso científico de uma forma que nem os próprios cientistas podem igualar. Escrevam cartas, participem de grupos de lobby, informem-se sobre os problemas locais e sobre os posicionamentos de seus representantes no parlamento; e então votem em políticos que apoiem a pesquisa científica e que sejam favoráveis à realização de plebiscitos para permitir a pesquisa com células-tronco. Informações básicas excelentes e ferramentas para ajudá-los a apoiar a implementação de legislação favorável estão disponíveis no site da Coalizão para o Avanço da Pesquisa Médica (CAMR) em http://www.CAMRadvocacy.org. Vocês podem fazer com que chegue mais rápido o dia em que os estudos com animais se tornem curas clínicas, e o dia em que, por fim, os velhos se tornem jovens, com seus corpos renovados por suas próprias células e tecidos rejuvenescidos. Os cientistas precisam de sua ajuda agora para levar os tratamentos médicos do laboratório para dentro das vidas dos pacientes que estão sofrendo. Quando vocês e seus entes queridos precisarem da ajuda deles, vocês ficarão felizes em saber que fizeram tudo o que podiam para apoiar seu trabalho de salvar vidas.
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