O fim do envelhecimento
2. Acordem: o envelhecimento mata!
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Acordem: o envelhecimento mata!
Quantas vidas vocês acham que podem salvar ao longo da vida?
Esta pergunta não é uma pegadinha, mas para torná-la mais precisa, vou modificá-la um pouco. Quando falo em "salvar vidas", é no sentido de dar àqueles favorecidos por esta ação a chance de viverem por mais tempo do que teriam vivido sem ela. Porém, quando se questiona com mais profundidade sobre a importância de se salvar uma vida, pode-se não se considerar todas as vidas igualmente. Por exemplo, salvar uma pessoa de oitenta anos de se afogar pode dar a ela somente alguns anos a mais de vida antes dela provavelmente morrer de outra coisa, enquanto que salvar uma criança de se afogar provavelmente dará a ela setenta anos ou mais de vida. Pode-se também levar em conta a qualidade de vida das pessoas cujas vidas seriam salvas — em especial sua saúde. Então aqui vai a pergunta modificada:
Quantos anos de saúde e juventude no total vocês acham que poderiam
adicionar às vidas das pessoas ao longo da vida?
O objetivo final deste livro é mostrar que vocês podem adicionar muito mais anos do que pensam atualmente. Tantos, na verdade, que agora é a hora de decidirem se querem ou não. Vocês podem fazer isso ajudando a acelerar o fim do envelhecimento. Os detalhes sobre como podem ajudar — doando dinheiro ou tempo para o fundo do Prêmio Camundongo (Mprize) da Fundação Matusalém ou para seu programa de financiamento de
pesquisa SENS* — serão o tópico do Capítulo 15; no presente capítulo, vou me restringir a falar sobre a magnitude que estes esforços podem alcançar em termos humanitários.
Vou começar com alguns números. Cerca de 150.000 pessoas morrem por dia no mundo (isso é cerca de duas por segundo) e destas, cerca de dois terços morrem devido ao envelhecimento. Isso mesmo: 100.000 pessoas. Isso equivale a cerca de 30 atentados ao World Trade Center ou 60 furacões Katrina todos os dias. Nos países desenvolvidos, a proporção de mortes que são atribuídas ao envelhecimento é de cerca de 90%. Isso significa que para cada pessoa que morre de todas as outras causas que não sejam o envelhecimento — seja por homicídio, acidentes de carro, AIDS ou
qualquer outra coisa — cerca de dez pessoas morrem de envelhecimento.1
E é ainda pior que isso. Leiam novamente minha pergunta modificada e vão notar as palavras “saúde” e “juventude”. Muitas pessoas, quando pensam sobre a ideia de adicionar anos de vida, cometem o “erro de Titono”, ou seja, assumem que quando falamos em combater o envelhecimento, estamos falando somente em prolongar os sombrios anos de debilitação e doença que existem atualmente no final da vida da maior parte das
pessoas.2 Na verdade, a realidade é o oposto: vencer o envelhecimento levará à eliminação deste período, ao adiá-lo para idades indefinidamente maiores de forma que as pessoas nunca cheguem a ele. Simplesmente não haverá na população, como há hoje em dia, uma parte frágil e enferma como resultado de sua idade. Então não vou falar neste livro somente sobre prolongar vidas, mas também sobre a eliminação da quase incalculável quantidade de sofrimento que o envelhecimento atualmente nos causa, vivida não somente pelos mais velhos em si, é claro, mas também pelos seus entes queridos e por quem cuida deles. Ah, e tem também o pequeno detalhe sobre a economia de gastos que a eliminação do envelhecimento traria à sociedade: é um fato bem estabelecido que uma pessoa média no mundo desenvolvido consome mais recursos de serviços de saúde no seu último ano de vida do que na sua vida inteira até aquele momento, independentemente da idade da pessoa ao morrer. Trata-se, portanto, de uma economia de trilhões de dólares por ano.
Neste livro explicarei as bases científicas e tecnológicas para minha visão de que provavelmente poderemos eliminar o envelhecimento como uma causa de morte ainda neste século — e possivelmente dentro de apenas algumas décadas, cedo o bastante para beneficiar a maior parte das pessoas atualmente vivas. Mas primeiro preciso que vocês se interessem, e não somente no sentido de entretenimento — como se estivessem lendo uma boa história — mas no sentido de perceber que esta eliminação seria uma coisa boa quando se tornasse possível. E estou neste ramo há tempo suficiente para saber que descrever o nível de sofrimento que seria evitado e o número de vidas que seriam salvas não convence, por si só, a maior parte das pessoas de que vencer o envelhecimento seria uma coisa boa. Então, espero que vocês me perdoem se eu for franco e incisivo demais neste capítulo, antes de eu prosseguir para a ciência e a tecnologia que vão de fato realizar este trabalho.
Por que escrevi este livro?
Sou um cientista e um tecnólogo, e em um mundo ideal eu usaria praticamente todo o meu tempo trabalhando nos detalhes científicos e tecnológicos do objetivo da minha vida: vencer o envelhecimento. Eu não gastaria muito tempo dando entrevistas ou palestras — nem escrevendo livros. Mas há algo na atitude das pessoas em relação ao envelhecimento que, no momento, muda minhas prioridades. Eu chamo esse algo de "transe pró-envelhecimento". Vou começar minha discussão sobre o transe pró-envelhecimento com uma comparação.
Aqui no Reino Unido, assim como em todo o mundo ocidental, há uma
campanha de crescente ferocidade contra o fumo**. Todos os pacotes de cigarros vêm com advertências sobre a saúde. E não são advertências minúsculas e discretas em linguagem cuidadosa e científica; são advertências de natureza bastante contundente e confrontante. A mais simples e curta delas consiste em só duas palavras, geralmente impressas em preto sobre um contrastante fundo branco:
Fumar mata
E de forma lenta, mas segura, fumar está se tornando menos popular. Assim como aconteceu com dirigir bêbado, fumar está se tornando socialmente mal visto. Entretanto, este é um processo longo e árduo, não só porque a nicotina é viciante, mas porque os jovens ainda adotam o hábito de fumar apesar da visão social cada vez mais negativa ligada a isto.
É este último ponto — o contínuo fluxo de novos jovens viciados — que é meu foco aqui. Não usei o ato de fumar como a minha analogia para condenar os fumantes que existirem entre os leitores — de jeito nenhum. Não, meu foco aqui é um aspecto menos controverso da questão, porque a batalha para proteger a juventude de começar a fumar é apoiada por quase todos os adultos, fumantes ou não. Meu motivo para mencionar isso aqui é a questão temporal: esta batalha referente ao fumo ainda está sendo travada, e então podemos examinar de perto as contradições em nossas atitudes tanto como indivíduos quanto como sociedade, que fazem com que esta batalha seja tão difícil de ganhar. Com doenças específicas não há contra-argumento: quanto mais fizermos para vencê-las, melhor. Mas com o fumo a história é diferente, pois apesar dele causar exatamente as mesmas doenças, de alguma forma a sociedade está sujeita a um vício que tira sua racionalidade em relação aos novos jovens viciados. Todo dia vemos uma desconexão brutal entre permitir-se que os cigarros sejam anunciados em propagandas e amplamente vendidos, e ver o quanto eles arruínam e reduzem o tempo de vida daqueles que caem em seu feitiço. E acontece a mesma coisa, afirmo, com o envelhecimento.
Há duas possíveis razões que explicam por que a popularidade e a aceitação pública do fumo estão diminuindo. Uma é que muitas pessoas não acham isso atraente — elas não gostam do cheiro (ou, em contextos mais íntimos, do gosto). Mas é difícil acreditar que este possa ser o principal gatilho para a recente mudança no sentimento contra o fumo, porque hoje o tabaco certamente não é menos atraente que o tabaco de um ou dois séculos atrás. Portanto, acredito que está claro que a principal razão para que tantas pessoas desaprovem o fumo é sua outra desvantagem, a qual não era reconhecida nem meio século atrás: fumar faz muito mal para vocês e para todas as pessoas a sua volta. Mais do que tudo, aumenta muito as chances de se desenvolver câncer de pulmão fatal, que não só encurta a vida, mas também faz com que os anos de declínio sejam terríveis.
Meu objetivo neste livro, assim como em todo o meu trabalho de alcançar novas audiências, é ajudar a impulsionar uma mudança de opinião pública similar sobre o envelhecimento. Estou ciente há muitos anos de que as pessoas não veem o envelhecimento da mesma forma que elas veem o câncer, a diabetes ou as doenças cardíacas. Elas são muito favoráveis à completa eliminação dessas doenças o mais rápido possível, mas a ideia da eliminação do envelhecimento — mantendo-se as funções físicas e mentais verdadeira e indefinidamente jovens — evoca uma avalanche de medos e ressalvas. Ainda assim, no sentido que mais importa, o envelhecimento é igual ao fumo: é muito ruim para vocês. Ele encurta a vida (vejam o Capítulo 14 para saber quanto), geralmente torna os últimos anos da vida bastante desagradáveis e também faz com que estes anos sejam muito difíceis para os entes queridos.
Então vamos olhar um pouco mais de perto o motivo pelo qual o envelhecimento é tão defendido.
A razão do transe pró-envelhecimento
Primeiramente, quero deixar claro que percebi que há um abismo imenso entre a atitude das pessoas em relação a uma modesta postergação do envelhecimento e sua atitude em relação ao assunto deste livro, que é uma genuína eliminação do envelhecimento como causa de enfermidades e morte. A indústria antienvelhecimento é enorme — apesar de haver (vamos dizer assim) uma habilidade altamente variável quanto aos produtos fazerem o que eles dizem que fazem — e isso só pode ser porque as pessoas não estão muito felizes em se ver fisicamente cada vez mais deterioradas, ou que outros as vejam desta maneira. Ainda assim, a perspectiva de que em algum momento seja possível combater o envelhecimento tão bem quanto se combate a maioria das doenças infecciosas (em outras palavras, essencialmente eliminar o envelhecimento como uma causa de morte) causa terror na maioria das pessoas: sua reação imediata (e devo dizer, geralmente em voz estridente) é levantar o espectro da superpopulação descontrolada ou dos ditadores vivendo para sempre ou de somente uma elite rica se beneficiar disso ou dezenas de outras questões.
Bom, mas eu certamente não estou dizendo que essas objeções são bobas, de forma alguma. Devemos de fato considerá-las como possíveis perigos que teríamos que evitar com um planejamento prévio, cuidadoso e apropriado. O que me choca não são estas questões serem levantadas, mas a forma como são levantadas. Pessoas que são totalmente racionais e abertas para discutir qualquer outro assunto têm uma resistência irracional a debater o assunto de vencer o envelhecimento. É inacreditável a determinação das pessoas para mudar de assunto, para rebaixar a conversa a uma troca de comentários irônicos ou simplesmente para fazer com que quem se opõe ao envelhecimento seja visto como um palerma delirante.
Talvez vocês estejam se perguntando se esqueci que estou falando sobre vocês aqui. Mas entendam que não estou de jeito nenhum repreendendo-os, pois meus argumentos até agora só lidaram com a lógica de por que o envelhecimento deve ser combatido, e a vida não é lógica. Há uma razão bem simples pela qual tantas pessoas defendem tanto o envelhecimento — uma razão que agora é inválida, mas que até pouco tempo atrás era completamente razoável. Até há pouco tempo, ninguém havia tido uma ideia coerente sobre como vencer o envelhecimento e, portanto, ele era de fato inevitável. E quando alguém se vê em presença de um destino tão horrível quanto o envelhecimento e sobre o qual ninguém pode fazer nada para evitá-lo, tanto em si mesmo quanto nos outros, faz muito mais sentido psicologicamente tirar isso dos pensamentos — ou "fazer as pazes com o assunto", pode-se dizer — do que gastar sua miseravelmente curta vida preocupando-se com isso. O fato de que para manter este estado de espírito deve-se abandonar toda aparência de racionalidade nesse assunto — e, inevitavelmente, usar táticas de conversa embaraçosamente irracionais para apoiar esta irracionalidade — é um pequeno preço a pagar.
Um comentário sobre o ceticismo
em relação às SENS
Este livro é uma descrição das SENS (sigla em inglês de "Estratégias para a Construção de um Envelhecimento Negligenciável"), que é meu plano para vencer o envelhecimento. Suponho que este será o primeiro encontro de muitos leitores com as SENS, mas alguns já terão se deparado com elas antes. Especialmente se vocês já têm interesse há algum tempo no assunto do prolongamento do tempo de vida, há uma boa chance de que já tenham visto algo sobre as SENS na mídia convencional. Se for este o caso, vocês já sabem que enquanto muitos gerontologistas muito qualificados elogiaram as SENS, outros as receberam com fortes críticas — e até desdém. Até o momento, neste capítulo falei somente sobre os erros nos raciocínios sobre por que a derrota do envelhecimento pode não ser desejável. Porém, para garantir que vocês leiam este livro com bastante atenção, e que além disso também façam algo para ajudar os esforços antienvelhecimento, também preciso que entendam que vencer o envelhecimento é possível. Assim, incluo aqui uma breve menção sobre a situação atual dos debates sobre as chances de sucesso das SENS.
Primeiro preciso garantir que vocês entendam que é comum que conceitos novos e radicais que recebem muita atenção causem uma acentuada divisão de opiniões entre os especialistas que os comentam. Em muitos casos, os detratores, ao defenderem as ideias já estabelecidas, estão completamente corretos, e a pretensiosa nova ideia está errada. Mas muito frequentemente, os detratores não entenderam — ou até mesmo evitaram entender — detalhadamente o que estão criticando, e foram motivados mais por interesses pessoais do que por argumentos científicos. Se vocês não forem cientistas, podem achar que esta possibilidade é descabida, mas o fato é que os cientistas veteranos fazem um investimento intelectual e emocional nas suas crenças que pode ser um oponente poderoso à objetividade: todos os cientistas reconhecem privadamente esse problema, e às vezes até publicamente. Este assunto foi memoravelmente exposto por muitos dos cientistas mais relevantes do mundo através dos anos. Por exemplo, o físico Max Planck fez uma observação há mais de oitenta anos em que dizia que "a ciência avança de funeral em funeral", e o biólogo J. B. S. Haldane disse que "há quatro estágios na aceitação: (I) isso é um absurdo inútil; (II) isso é um ponto de vista interessante, mas errado; (III) isso é verdade, mas é pouco importante; (IV) eu sempre disse isso."
Como trabalho com o objetivo de agilizar o fim do envelhecimento, e não para ficar rico e famoso, estou extremamente atento a identificar quaisquer grandes falhas nas SENS, para que, se estas existirem, eu possa voltar para a prancheta de projeto rapidamente. Por isso, converso o tempo todo sobre as SENS com meus críticos biogerontologistas mais proeminentes. Acabo percebendo invariavelmente que eles de fato reagem à minha conclusão (de que as SENS podem vencer o envelhecimento totalmente) sem terem estudado o raciocínio no qual esta conclusão se baseia — mas sei, é claro, que também posso não conseguir ser objetivo em relação a esse assunto. Por causa disso — e também porque a rapidez da implementação das SENS depende muito da aceitação, tanto do público quanto da academia, de que elas podem de fato funcionar — trabalhei duro nos últimos anos para gerar evidências imparciais sobre se as SENS são uma bobagem ou não. Em 2006, consegui isso de forma decisiva com a ajuda da relevante revista MIT Technology Review, também conhecida como TR. Depois de publicar uma visão negativa das SENS em 2005, a TR descobriu que os gerontologistas tradicionais em cujas opiniões o artigo tinha sido baseado estavam relutantes em embasar suas opiniões em qualquer dado científico. A TR então, admiravelmente e correndo um risco considerável de perder prestígio, organizou um desafio com um correspondente prêmio para
resolver o assunto.3
Para vencer o Desafio SENS, um biólogo qualificado ou um grupo de biólogos qualificados teria que escrever uma argumentação demolidora das SENS que fosse impossível de ser rebatida satisfatoriamente por mim, de acordo com a opinião de uma banca de juízes especialistas. A banca de juízes teria que ser claramente imparcial, é claro, sem ter conexão alguma comigo ou com meus críticos, mas ainda assim ter grande conhecimento em biotecnologia. A revista conseguiu escolher uma excelente banca de cinco pessoas, incluindo o respeitado especialista em biotecnologia Craig Venter. A TR contribuiu com US$ 10.000 para o prêmio, sendo que a Fundação Matusalém colocou a mesma quantia. Um grupo de nove biogerontologistas altamente qualificados prestativamente apresentou um trabalho em coautoria, assim como, de forma independente, outros dois cientistas. A banca considerou, de forma unânime e enfática, que os três trabalhos eram absolutamente insuficientes para demonstrar que não valia a pena tentar implementar as SENS.
Bom, mas não estou dizendo que isso prova que as SENS vão de fato chegar a derrotar o envelhecimento: só há uma maneira de saber isso, que é implementá-las e ver o que acontece. Mas meus críticos tinham feito a forte declaração de que as SENS eram tão implausíveis que não existia nem a necessidade de tentar implementá-las. Essa afirmação foi refutada indubitavelmente no processo do Desafio SENS. Então, se vocês encontrarem alguém ainda ávido por lhes dizer que as SENS são uma fantasia — especialmente alguém que afirma ter conhecimento especializado nessa área — vocês saberão, assim como a TR agora sabe, que perguntar para tal pessoa o que ela pensa sobre as SENS é muito menos confiável do que perguntar a ela o que ela sabe sobre as SENS. E, depois de vocês lerem este livro — especialmente a Parte 2 — estarão equipados para chegar às suas próprias conclusões.
Construindo uma argumentação, de
capítulo em capítulo
Sou um lutador de coração; eu nunca "faria as pazes" com o envelhecimento, independentemente de quão perdida parecesse a batalha. Mas esta não é a vida que todo mundo quer, e respeito isso. Portanto, eu provavelmente não teria escrito este livro se pensasse que ainda estamos muito longe de vencer o envelhecimento a ponto de não haver qualquer chance real de sucesso dentro da expectativa de vida de qualquer pessoa viva hoje. No próximo capítulo, explicarei por que o envelhecimento é, a princípio, tão passível de alteração e até de eliminação quanto doenças específicas, e como o fato de ver o envelhecimento de uma forma incorreta faz com que a maioria dos gerontologistas favoreça determinadas abordagens terapêuticas cujo sucesso considero improvável. Depois, o capítulo 4 mostrará uma visão geral do meu esquema para vencer o envelhecimento daqui a (se tudo der certo) apenas algumas décadas. Isso conclui a Parte 1 do livro. Na Parte 2, os Capítulos 5 a 12 detalham os componentes individuais deste esquema. O livro termina na Parte 3, um trio de capítulos em que abordo como prevejo que será a resposta da sociedade aos sucessos iniciais em laboratório em aproximadamente uma década a partir de agora; como os avanços de algumas poucas décadas à frente serão progressivamente aperfeiçoados e o envelhecimento será permanentemente mantido à distância; e de que forma vocês já podem ajudar a acelerar essa cruzada.
Escondido discretamente neste último parágrafo está algo que quero ter certeza de que vocês entendam corretamente: uma tentativa de estabelecer algum tipo de prazo. Sim, acredito que com financiamento suficiente, temos uma chance de 50% de desenvolver, em cerca de vinte e cinco a trinta anos a partir de agora, uma tecnologia que, levando em conta hipóteses razoáveis quanto à taxa de subsequentes melhorias nessa tecnologia, permitirá que impeçamos as pessoas de morrerem de envelhecimento em qualquer idade — algo equivalente ao efeito dos antirretrovirais contra o HIV hoje em dia. Porém, há três grandes ressalvas nessa afirmação. A primeira é justamente que há somente uma chance de 50%. Qualquer previsão tecnológica tão longínqua no futuro, como para vinte e cinco a trinta anos, é necessariamente muito especulativa, e se vocês me perguntarem qual é o prazo mais curto para considerar que temos 90% de chance de vencer o envelhecimento, eu não estaria disposto a apostar nem em cem anos. Mas acho que uma chance de 50% é boa o suficiente para tentarmos, vocês não acham? A segunda ressalva é que o envelhecimento não será completamente vencido nas versões iniciais dessa tecnologia; teríamos que continuar a melhorá-la a uma taxa razoável para manter o envelhecimento permanentemente à distância. Vou explicar todos os detalhes sobre isso no Capítulo 14.
Mas a terceira ressalva é talvez a mais importante: a adequação do financiamento à pesquisa. Fui cofundador da Fundação Matusalém com o objetivo de abordar esse problema: atualmente, a velocidade da maioria dos caminhos de pesquisa que temos que percorrer para combater adequadamente o envelhecimento é limitada pela questão do financiamento. Se vocês podem ajudar a mudar isso — seja dando dinheiro vocês mesmos, influenciando seus amigos ou divulgando ou escrevendo sobre esse assunto — vocês estarão aumentando a velocidade com que o envelhecimento é vencido tanto quanto se estivessem fazendo a parte científica em si.
Há um aspecto crítico sobre o financiamento que devo enfatizar aqui: o papel crucial de quantias de dinheiro relativamente pequenas neste estágio inicial da cruzada. Reclamei bastante neste capítulo sobre a relutância das pessoas em tratar o envelhecimento como a desgraça que é, e espero estar ajudando a mudar essa atitude com minhas atividades de comunicação com novos públicos, mas realisticamente sei que a maioria das pessoas vai manter seu transe pró-envelhecimento ainda durante algum tempo, e isso vai limitar muito a disponibilidade de financiamento, tanto público quanto comercial, para pesquisa sobre prolongamento do tempo de vida. O momento em que isso realmente vai mudar — quando o transe global pró-envelhecimento vai colapsar como um castelo de cartas — ocorrerá, no meu ponto de vista, quando camundongos de meia-idade forem rejuvenescidos de forma completa o suficiente para prolongar suas vidas saudáveis em uma grande proporção. Esse é um marco que denominei “rejuvenescimento robusto de camundongos”, ou RRC. A quantidade de dinheiro necessária para alcançar isso é minúscula comparada a quanto, a partir de então, precisaríamos gastar para ter os mesmos resultados em humanos; mas quando a humanidade como um todo estiver apoiando esses esforços, com disposição para pagar por isso com impostos, haverá amplos fundos disponíveis. É hoje em dia, quando a doação privada é a única grande fonte de financiamento para tal trabalho, que a magnitude desta doação é tão crucial. Vou explicar isso melhor no Capítulo 13.
Discuti nesse capítulo por que o envelhecimento é defendido, mas não disse muito sobre como ele é defendido, ou seja, sobre as objeções habituais à perspectiva de prolongamento indefinido do tempo de vida. Em muitos dos
meus textos e apresentações públicas, e no meu site,4 respondo a muitas dessas questões que surgem sobre como a sociedade seria diferente em um mundo pós-envelhecimento, e especialmente como lidaríamos com a transição para este mundo. Este livro não responde a essas questões detalhadamente; decidi lidar aqui somente com a parte prática do radical prolongamento do tempo de vida. Espero que vocês terminem este livro com um bom entendimento de que a derrota genuína do envelhecimento é uma meta possível. Se é uma meta desejável, é uma questão que vocês serão então capazes de considerar mais seriamente — e até, me atrevo a dizer, mais consciente e responsavelmente — do que seriam capazes se ainda pensassem se tratar de ficção científica.
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