O fim do envelhecimento

Aubrey de Grey · Capítulo 15 de 18

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O fim do envelhecimento

14. Abrindo nosso caminho rumo a um futuro sem envelhecimento

14

 

Abrindo nosso caminho rumo a um

futuro sem envelhecimento

 

Tenho uma confissão a fazer. Do Capítulo 5 até o Capítulo 12, onde expliquei os detalhes das SENS, omiti um fato bastante importante — um fato que os biólogos entre meus leitores muito provavelmente terão detectado. Vou abordar essa questão neste capítulo, aprofundando uma linha de raciocínio que introduzi em um contexto aparentemente muito específico no final do Capítulo 9.

É o seguinte: as terapias a serem desenvolvidas em cerca de uma década em ratos, e aquelas que podem vir a surgir somente uma ou duas décadas depois para humanos, não serão perfeitas. Permanecendo as outras coisas da mesma forma, haverá um acúmulo residual de danos em nosso corpo, independentemente de quão completa e frequentemente usarmos essas terapias, e vamos acabar em algum momento sofrendo deterioração e morte relacionadas ao envelhecimento da mesma forma que hoje em dia, só que em uma idade mais avançada. Esta, aliás, provavelmente nem será tão mais avançada assim — somente de 30 a 50 anos a mais do que hoje em dia, possivelmente.

Porém, as outras coisas não permanecerão da mesma forma. Neste capítulo, vou explicar por que não — e por que, como já podem saber por outras fontes, prevejo que muitas pessoas vivas atualmente permanecerão vivas até os 1000 anos de idade e evitarão os problemas de saúde relacionados ao envelhecimento mesmo nesta idade.

Começarei descrevendo por que não é realista esperar que essas terapias sejam perfeitas.

A evolução não deixou instruções

Enfatizei no Capítulo 3 que o corpo é uma máquina, e que esse é o motivo tanto para ele envelhecer como para em princípio poder receber manutenção. Fiz uma comparação com carros antigos, que são mantidos completamente funcionais mesmo 100 anos depois de terem sido construídos, usando-se as mesmas tecnologias de manutenção que os mantinham funcionando 50 anos atrás, quando já eram muito mais velhos do que foram projetados para ser. Máquinas mais complexas também podem ser mantidas funcionando indefinidamente, embora os gastos e conhecimentos necessários possam fazer com que isso nunca aconteça na prática, porque substituir a máquina é uma alternativa razoável. Isso soa bastante como um motivo para se supor que as terapias a serem desenvolvidas para evitar o envelhecimento por algumas décadas de fato serão suficientes para evitá-lo indefinidamente.

Porém, na verdade isso é algo demasiadamente otimista. Tudo o que podemos inferir confiavelmente a partir de uma comparação com máquinas construídas pela humanidade é que um conjunto verdadeiramente completo de terapias, que realmente repare tudo o que funcionar mal em nós como resultado do envelhecimento, é possível de existir em princípio — o que não significa que isso possa ser antevisto para ocorrer em um futuro minimamente próximo. E de fato, ao analisarmos as terapias que descrevi neste livro, percebemos que na verdade um aspecto delas é algo muito diferente do que ocorre na manutenção de máquinas construídas pela humanidade: essas terapias esforçam-se para alterar o mínimo possível o metabolismo em si, e têm como alvo somente os efeitos colaterais inicialmente inertes do metabolismo, enquanto que a manutenção de uma máquina pode envolver adicionar componentes extras ao próprio maquinário (ao combustível ou ao óleo de um carro, por exemplo). Podemos ter bons resultados com este tipo de manutenção invasiva de máquinas construídas pela humanidade porque sabemos (ou pelo menos alguns de nós sabem) como elas funcionam nos mínimos detalhes, de forma que podemos estar suficientemente certos de que nossa intervenção não terá efeitos colaterais imprevistos. Em relação ao corpo — até mesmo o corpo de um camundongo — ainda somos profundamente ignorantes quanto aos detalhes, de modo que temos que nos proteger de nossa ignorância interferindo o mínimo possível.

O que isso significa em relação à eficácia de terapias é que, à medida que consertemos cada vez mais aspectos do envelhecimento, vocês podem apostar que a existência de novos aspectos será revelada. Esses novos aspectos — o oitavo e os subsequentes itens a serem adicionados às "sete coisas mortais" listadas neste livro — não serão fatais em uma idade atualmente considerada normal, porque se fossem, já os conheceríamos. Porém, serão fatais em algum momento, a menos que encontremos uma maneira de consertá-los também.

E também não é só com as potenciais "oitavas coisas" que temos que nos preocupar. Dentro de cada uma das sete categorias existentes, há algumas subcategorias que serão mais fáceis de consertar do que outras. Por exemplo, há muitos tipos quimicamente diferentes de ligações cruzadas responsáveis pelo endurecimento de nossas artérias; alguns deles podem ser quebrados com o alagebrium e moléculas relacionadas, mas outros certamente precisarão de agentes mais sofisticados que ainda não foram desenvolvidos. Outro exemplo: tornar o DNA mitocondrial desnecessário colocando-se cópias modificadas dele dentro dos cromossomos das células requer o uso da terapia genética, e até o momento não temos nenhum sistema de entrega de terapia genética ("vetor") que possa entrar em todas as células de forma segura; assim, no futuro próximo provavelmente só seremos capazes de proteger um determinado grupo de células das mutações no DNA mitocondrial. Para alcançar todas as células, serão necessários vetores muito melhores.

Portanto, na prática, terapias que rejuvenesçam pessoas com 60 anos de idade em 20 anos (ou seja, que "tirem" 20 anos delas) não funcionarão tão bem na segunda vez em que forem usadas. Quando as terapias forem aplicadas pela primeira vez, as pessoas que as estiverem recebendo terão 60 anos de danos "fáceis" (os tipos de danos que as terapias podem remover) e também 60 anos de danos "difíceis". Mas quando os beneficiários dessas terapias estiverem novamente com 60 anos biológicos (o que podemos presumir que acontecerá quando estiverem cronologicamente com cerca de 80 anos), os danos que o corpo conterá consistirão em 20 anos de danos "fáceis" e 80 anos de danos "difíceis". Dessa forma, as terapias somente os rejuvenescerão em uma proporção muito menor, como por exemplo 10 anos. Assim, terão que voltar mais cedo para o terceiro tratamento, mas seu benefício será ainda menor, e muito rapidamente, assim como no paradoxo de Zenão sobre Aquiles tentando alcançar a tartaruga, o envelhecimento os vencerá. Vejam a Figura 1.

 

Figura 1. O declínio dos benefícios causados por repetidas

aplicações de um conjunto de terapias de rejuvenescimento.

Lá atrás, nos Capítulos 3 e 4, expliquei que, contrariamente ao que se poderia intuir, o rejuvenescimento pode de fato ser algo mais fácil de se alcançar que o retardamento do envelhecimento. Agora é a hora de apresentar um fato ainda mais contraintuitivo: embora seja muito mais difícil dobrar o tempo de vida restante de um humano de meia-idade do que o de um rato de meia-idade, multiplicar esse tempo de vida restante por fatores muito maiores — 10 ou 30 vezes, por exemplo — será muito mais fácil em humanos do que em ratos.

 

O ritmo em duas velocidades da tecnologia

Agora vou mudar o foco brevemente da ciência para a história da ciência, ou mais precisamente para a história da tecnologia.

Muito antes de haver registros históricos escritos, as pessoas já se interessavam pela possibilidade de voar: na verdade, isso pode ser um desejo quase tão antigo quanto o de viver para sempre. Ainda assim, com a notável mas infelizmente não reprodutível exceção de Dédalo e Ícaro, nenhum sucesso nesta área foi alcançado até cerca de um século atrás (se contarmos os balões, teremos que dobrar esse tempo, mas na verdade somente dirigíveis — balões que podem controlar sua direção de viagem razoavelmente bem — devem ser contados, e eles somente surgiram mais ou menos na mesma época do avião). Ao longo dos séculos anteriores, a partir da época de Leonardo da Vinci, engenheiros elaboraram formas de alcançar o voo motorizado controlado, e devemos presumir que acreditavam que seus projetos estavam a somente algumas décadas (no máximo) de se tornarem realidade. Mas estavam errados.

Entretanto, a partir do voo dos irmãos Wright em Kitty Hawk (EUA), os acontecimentos se comportaram de forma curiosamente diferente. Após terem dominado o básico, os engenheiros de aviação parecem ter progredido para alturas cada vez maiores (literalmente e metaforicamente!) em um ritmo quase serenamente uniforme. Uma seleção representativa da sequência de acontecimentos importantes é a seguinte: Lindbergh sobrevoou o Oceano Atlântico 24 anos após o primeiro voo motorizado ocorrer, o primeiro avião comercial a jato (o Comet) estreou 22 anos depois disso, e o primeiro avião comercial supersônico (Concorde) apareceu depois de outros 20 anos.

O acentuado contraste entre avanços fundamentais e refinamentos graduais desses avanços é, acredito, típico da história das áreas tecnológicas. Além disso, não penso que isso seja algo inesperado: tanto psicológica quanto cientificamente, a dificuldade de avanços maiores é mais difícil de estimar.

Estou mencionando tudo isso, é claro, por causa do que nos diz sobre o provável progresso futuro das terapias de prolongamento do tempo de vida. Assim como as pessoas estiveram erradas por séculos sobre quão difícil era voar mas acabaram conseguindo-o, temos estado errados desde tempos imemoriais sobre quão difícil é combater o envelhecimento mas vamos acabar conseguindo-o também. E assim como as pessoas tiveram uma opinião bastante confiavelmente correta sobre como fazer aeronaves cada vez melhores depois de terem feito a primeira, podemos esperar que nossa opinião estará bastante confiavelmente correta sobre como reparar os danos do envelhecimento cada vez mais amplamente assim que pudermos fazê-lo pelo menos um pouco.

Entretanto, isso não quer dizer que será fácil. Demorará algum tempo, assim como demorou para chegarmos do Wright Flyer (o primeiro avião dos irmãos Wright) até o Concorde. E esse é o motivo pelo qual, se quiserem chegar aos 1000 anos de idade, vocês podem se considerar sortudos de serem humanos e não ratos. Deixem-me descrever esse cenário, passo a passo.

Vamos supor que desenvolvamos o Rejuvenescimento Robusto de Camundongos em 2016, e peguemos algumas dúzias de camundongos de dois anos de idade e tripliquemos seu tempo de vida restante de um ano. Isso significará que, em vez de morrerem em 2017, como aconteceria sem o tratamento, eles morrerão em 2019. Bem, talvez isso não ocorra, especialmente se pudermos desenvolver terapias melhores até 2018 que tripliquem novamente seu tempo de vida restante (que agora seria novamente de um ano). Mas lembrem-se de que será mais difícil repará-los da segunda vez: o nível total de danos pode até ser o mesmo que antes de receberem as primeiras terapias, mas uma maior proporção desses danos será de tipos que essas primeiras terapias não podem consertar. Portanto, só seremos capazes de alcançar a nova triplicação se as terapias que tivermos disponíveis em 2018 forem consideravelmente mais poderosas que aquelas que teremos aplicado em 2016. E para ser honesto, a chance de termos melhorado tanto assim essas terapias em somente dois anos é realmente muito pequena. Na verdade, a provável quantidade de progresso em somente dois anos é tão pequena que diretamente pode ser considerada zero. Assim, nossos heroicos camundongos de fato morrerão em 2019 (ou 2020, na melhor das hipóteses), apesar de nossos grandes esforços.

Mas agora, vamos supor que desenvolvamos o Rejuvenescimento Robusto de Humanos em 2031, e peguemos algumas dúzias de humanos de 60 anos de idade e dobremos seu tempo de vida restante de 30 anos. Quando eles voltarem, por exemplo em 2051, novamente com 60 anos biologicamente, mas com 80 anos cronologicamente, precisarão de terapias melhores, assim como os ratos precisariam em 2018. Mas felizmente para eles, terão passado não dois, mas 20 anos, ou seja, um tempo muito maior para que possamos ter melhorado as terapias. E 20 anos é um período de tempo muito respeitável tratando-se de tecnologia — longo o suficiente, na verdade, para que com muito alta probabilidade tenhamos conseguido desenvolver melhorias suficientes nas terapias de 2031 para que essas pessoas de 80 anos de idade possam de fato ser restauradas de biologicamente 60 anos para biologicamente 40 anos, ou até mesmo para uma idade biológica um pouco mais jovem ainda, mesmo com seu maior acúmulo (relativo a 2031) dos tipos de danos mais difíceis de reparar. Dessa forma, diferentemente dos ratos, esses humanos terão exatamente a mesma quantidade de anos de juventude (20 anos ou mais) que — até precisarem de tratamentos de terceira geração — tiveram até precisarem de tratamentos de segunda geração.

E assim por diante... Vejam a Figura 2.

 

Figura 2. De que forma o declínio dos benefícios mostrados na

Figura 1 é evitado pela repetida aplicação de um conjunto de

terapias de rejuvenescimento que a cada aplicação é

suficientemente mais efetivo do que na aplicação anterior.

 

Velocidade de escape de longevidade A conclusão chave da lógica que descrevi acima é que há um patamar de velocidade do progresso biológico cuja superação nos permitirá evitar o envelhecimento indefinidamente, e que superar esta velocidade é implausível para ratos mas completamente plausível para humanos. Se pudermos fazer com que as terapias de rejuvenescimento funcionem bem o suficiente para nos dar tempo para fazê-las funcionar melhor, isso nos dará tempo extra suficiente para fazê-las funcionar melhor ainda, e assim por diante. Isso nos permitirá escapar indefinidamente da deterioração relacionada ao envelhecimento, independentemente de quão velhos nos tornemos em termos puramente cronológicos. Acredito que o termo

"velocidade de escape de longevidade" (VEL) resume isso muito bem.1

Uma característica da VEL que vale a pena destacar é que podemos acumular tempo de liderança nesta corrida. O que quero dizer é que se tivermos um período no qual consigamos melhorar as terapias mais rapidamente do que o necessário, isso nos permitirá ter um período subsequente no qual não precisaremos melhorá-las tão rapidamente. É somente a taxa média de avanço, começando com o surgimento das primeiras terapias que nos deem somente 20 ou 30 anos extras, que precisa ficar acima do limiar da VEL.

Caso estejam com dificuldade para entender isso, deixem-me fazer uma descrição em termos do estado físico do corpo. Ao longo deste livro, estive descrevendo o envelhecimento como o acúmulo de "danos" moleculares e celulares de diversos tipos, e destaquei o fato de que uma quantidade modesta de danos não é problema nenhum — o metabolismo consegue funcionar apesar deles, da mesma forma que numa casa só se precisa pôr o lixo para fora uma vez por semana, e não uma vez por hora. Nesses termos, alcançar e manter a velocidade de escape de longevidade simplesmente significa que nossas melhores terapias devem ser aperfeiçoadas rápido o suficiente para superar em velocidade a alteração progressiva na composição de nossos danos do envelhecimento rumo a formas mais difíceis de reparar, à medida que as formas mais fáceis de reparar forem sendo progressivamente eliminadas por nossas terapias. Se pudermos fazer isso, a quantidade total de danos em cada categoria pode ser mantida permanentemente abaixo do nível que inicia um declínio funcional.

Uma outra forma, talvez mais simples, de analisar esse assunto é levar em conta a analogia com a velocidade de escape literal, ou seja, a superação da gravidade. Vamos supor que uma pessoa está no topo de um penhasco e pula. Sua expectativa de vida restante é pequena — e fica cada vez menor à medida que se aproxima das pedras abaixo. Exatamente o mesmo ocorre com o envelhecimento: quanto mais velho se é, menor é o tempo restante que pode-se esperar viver. A situação com a chegada periódica de terapias de rejuvenescimento cada vez melhores é então um pouco como pular de um penhasco com um propulsor a jato preso nas costas. Inicialmente o propulsor está desligado, mas ao cair-se, ele é ativado e fornece um impulso, desacelerando a queda. Ao continuar caindo-se, aumenta-se a potência do propulsor a jato e em algum momento para-se de cair e até começa-se a subir. E quanto mais se sobe, mais fácil é subir ainda mais.

 

A importância política e social de falar

sobre a VEL

Tive bastante dificuldade em convencer meus colegas da biogerontologia sobre a exequibilidade de vários componentes das SENS, mas em geral acabei tendo sucesso quando foi-me dado tempo o suficiente para explicar os detalhes. Em relação à VEL, diferentemente, uma incompreensão estática é a melhor descrição da recepção a minhas propostas. Isso não é muito surpreendente, pensando retrospectivamente, porque o conceito de VEL está ainda mais distante do tipo de pensamento científico ao qual meus colegas estão acostumados do que minhas outras ideias: não é somente uma área da ciência que está longe da gerontologia convencional, e a rigor não é nem ciência, mas história da tecnologia. Entretanto, para mim isso não é desculpa. O fato é que a história da tecnologia é uma evidência, assim como qualquer outra evidência, e os cientistas não têm o direito de ignorá-la.

Um outro forte motivo para a resistência de meus colegas ao conceito de VEL é, evidentemente, que aceitar que eu esteja certo em dizer que a VEL poderia ser alcançada em um futuro relativamente próximo significaria que eles não poderiam mais dizer que estão trabalhando em atrasar o envelhecimento por uma ou duas décadas mas não mais do que isso. Como esboçei no Capítulo 13, há um medo intenso dentro da comunidade de gerontologistas veteranos de serem vistos como relacionados de alguma forma com o prolongamento radical do tempo de vida, por todas as incertezas que isso certamente fará emergir. Eles não querem participar desse tipo de conversa.

Vocês podem estar pensando que minha reação a isso seria focar-me no curto prazo: evitar antagonizar meus colegas com o conceito de VEL e suas implicações de tempo de vida de quatro dígitos, e aumentar a ênfase no detalhamento preciso sobre como fazer as categorias das SENS funcionarem em um formato de primeira geração. Mas isso não é uma opção para mim, por um motivo muito simples e claro: estou nisso para salvar vidas. De forma a maximizar o número de vidas salvas — anos de vida saudáveis adicionados à vida das pessoas, se preferirem uma medida mais precisa — preciso levar em conta o panorama completo. E isso significa garantir que vocês, caros leitores — o público geral — percebam suficientemente a importância deste trabalho a ponto de se sentirem motivados a ajudar em seu financiamento.

Agora, seu primeiro pensamento pode ser o seguinte: "mas se o prolongamento indefinido do tempo de vida é algo tão difícil de se aceitar, o financiamento não seria atraído mais facilmente não falando-se sobre isso?". Bem, não — e por uma razão bastante boa.

O homem mais rico do mundo, Bill Gates, criou uma fundação alguns anos atrás cuja missão principal é combater problemas de saúde no mundo em

desenvolvimento.2 Esse é um esforço humanitário enormemente valioso, que eu apoio de todo coração, mesmo não ajudando diretamente as SENS em nada. Também não sou a única pessoa que o apoia: em 2006, o segundo homem mais rico do mundo, Warren Buffett, comprometeu-se a doar uma grande proporção de sua fortuna, em incrementos anuais, à Fundação

Gates.3

A vontade de indivíduos extremamente ricos de contribuir para a saúde do mundo é, em termos mais gerais, um enorme impulso para as SENS. Isso ocorre principalmente porque uma maré crescente levanta todos os barcos: uma vez que se tornar aceitável (e mesmo meritório) nessa comunidade ser visto como um filântropo de saúde em larga escala, aqueles com "somente" um ou dois bilhões em seu nome estarão mais propensos a se juntar a essa tendência do que se isso for visto como uma forma maluca de se gastar seu dinheiro arduamente ganho.

Mas há um porém. Essa lógica só funciona se o status moral das SENS for considerado comparável ao dos esforços que estão atualmente sendo tão bem financiados. E é aí que a VEL faz toda a diferença.

As terapias das SENS serão caras de desenvolver e caras de administrar, pelo menos no início. Pensemos em como a perspectiva de se gastar todo esse dinheiro poderia ser recebida se o benefício final fosse somente adicionar algumas décadas à vida de pessoas que já estão vivendo mais que a maioria das que estão no mundo em desenvolvimento, sendo que depois disso elas passariam pelo mesmo período de declínio funcional pelo qual passam atualmente.

Não é exatamente a ação mais moralmente necessária do mundo, certo?

De fato, eu diria até que se controlasse alguns bilhões de dólares, hesitaria muito em gastá-los nessa pequena melhoria na qualidade e quantidade geral de vida daqueles que já estão melhor que a maioria a esse respeito, quando existe a alternativa de se fazer uma melhoria similar ou maior quanto à qualidade e quantidade de vida dos habitantes menos afortunados do mundo.

O conceito de VEL não muda muita coisa a curto prazo quanto a quem se beneficiará dessas terapias, é claro: serão necessariamente aqueles que atualmente morrem de velhice, de forma que em um primeiro momento, serão predominantemente aqueles que vivem em nações ricas. Porém, existe uma opinião muito difundida no mundo industrializado — uma opinião que sinto estender-se aos setores ricos da sociedade — de que o progresso a longo prazo está baseado na existência de metas audaciosas, e em especial de que a necessidade moral de ajudar aqueles que estão lá atrás a alcançar os demais é contrabalançada pela necessidade moral de maximizar a velocidade média de progresso da população como um todo, o que inicialmente significa ajudar aqueles que já estão na frente. O fato de que as SENS provavelmente levarão à VEL significa que desenvolver as SENS proporcionará uma imensa melhora na qualidade e quantidade de vida de quem quer que as receba: tão imensa será a melhora, na verdade, que não há dificuldade em justificá-la em comparação com usos alternativos nos quais uma soma similar de dinheiro poderia ser gasta. O fato do tempo de vida ser prolongado indefinidamente em vez de só em algumas décadas é somente parte da diferença que a VEL faz, evidentemente: pode-se argumentar que uma diferença ainda mais importante em termos dos benefícios que as SENS proporcionam é que toda essa vida será jovial, até o momento em que um beneficiário estimar incorretamente a velocidade de um caminhão vindo em sua direção. A qualidade de vida média, portanto, aumentará muito mais do que se tudo o que estivesse em perspectiva fosse uma mudança de, por exemplo, 7:1 para 9:1 na proporção entre vida saudável e vida debilitada.

 

Quantificando a velocidade de escape de

longevidade mais precisamente

Espero que este capítulo tenha fechado as vias de escape restantes que poderiam ainda ter sobrado para aqueles que ainda estivessem tentando encontrar formas de defender uma rejeição do plano das SENS. Mostrei que as SENS podem ser funcionalmente equivalentes a uma forma de eliminar completamente o envelhecimento, apesar de que em termos terapêuticos reais ela só será capaz de atrasar o envelhecimento em uma quantidade finita de tempo em qualquer momento dado. Também mostrei que isso as torna moralmente tão desejáveis — e até mesmo tão necessárias — quanto os diversos esforços nos quais uma grande quantidade de financiamento filantrópico privado já está sendo aplicada.

Entretanto, não sou presunçoso: sei que as pessoas são bastante engenhosas quando se trata de encontrar maneiras de evitar combater o envelhecimento. Assim, para ficar alguns passos à frente, recentemente iniciei uma colaboração com um estupendo programador e futurista chamado Chris Phoenix, na qual estamos determinando o nível preciso de prolongamento do tempo de vida saudável que se pode esperar de uma determinada velocidade de progresso no melhoramento das terapias SENS. Isto está levando a uma série de publicações que analisam uma variedade de cenários, mas um resumo adequado é que não estamos enganados quanto ao que foi descrito acima: a velocidade de progresso que precisamos alcançar começa aproximadamente com uma duplicação da eficácia das terapias SENS a cada 40 anos e na verdade diminui depois disso. Por "duplicação da eficácia" refiro-me a cortar pela metade a quantidade de danos que ainda não se pode reparar.

Então aí está. Quase certamente vamos levar séculos para alcançar o nível de controle sobre o envelhecimento que temos sobre o envelhecimento de carros antigos (uma manutenção completa e por tempo indefinido do funcionamento total), mas como a velocidade de escape de longevidade não é muito alta, provavelmente alcançaremos algo funcionalmente equivalente dentro de somente algumas décadas a partir de agora, a ponto de termos terapias proporcionando 30 anos extras de vida jovial a pessoas que já tenham chegado à meia-idade.

Penso que podemos chamar isso de fonte da juventude, não acham?

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