O fim do envelhecimento

Aubrey de Grey · Capítulo 2 de 18

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O fim do envelhecimento

1. O momento "eureca"

Parte 1

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1

 

O momento "eureca"

 

Hotel Marriott, cidade de Manhattan Beach (Califórnia - EUA).

25 de junho de 2000.

4 horas.

Da madrugada.

 

Eram 4 horas da madrugada na Califórnia, mas meu corpo insistia em me lembrar que era meio-dia em Cambridge. Eu estava exausto por causa do voo intercontinental e de um dia gasto em debates com algumas das personalidades mais influentes da biogerontologia, em uma reunião fechada de discussão para gerar ideias para combater o envelhecimento. O biólogo evolutivo Michael Rose estava lá, assim como os pesquisadores de restrição calórica Richard Weindruch e George Roth, o nanotecnólogo Robert Freitas e muitos outros. Mas eu não conseguia dormir: além da incompatibilidade entre o relógio biológico e o geográfico, eu estava frustrado com o que eu considerava ter sido um dia inteiro de fracasso em fazer qualquer progresso real para a criação de um plano antienvelhecimento concreto e realista. Enquanto eu estava adormecendo e refletindo, uma questão sobre a natureza do metabolismo e do envelhecimento se esgueirou para dentro da minha mente e não queria ir embora.

Na minha exausta irritação, sentei na cama, passei as mãos pela minha barba e comecei a caminhar pelo quarto, revirando o dilema na minha mente. O metabolismo "normal" era simplesmente muito bagunçado, e os intensos debates na literatura da biogerontologia mostravam o quão difícil era determinar o que causa o quê: quais fatores metabólicos eram a causa do envelhecimento e quais efeitos (ou causas secundárias) simplesmente desapareceriam se as causas primárias e estruturais fossem tratadas. Como fazer uma intervenção benéfica em um sistema tão complexo e pouco compreendido? Como impedir que qualquer mudança concreta feita no metabolismo seja como uma borboleta batendo suas asas, tendo o potencial de causar grandes e indesejadas tempestades mais adiante?

Foi então que uma segunda linha de pensamento começou a se formar na minha mente, preguiçosamente, de início, apenas como uma noção. O problema real, certamente, não era saber quais processos metabólicos causam os danos do envelhecimento no corpo, mas os danos em si. Pessoas de 40 anos de idade têm pela frente menos anos com boa saúde que pessoas de 20 anos devido a diferenças nas suas composições moleculares e celulares. Se eu fizesse um resumo, focando nos danos moleculares em si, quantas seriam as possíveis causas do envelhecimento?

Bom — pensei — não custa fazer uma lista...

Temos as mutações nos nossos cromossomos, é claro, que causam o câncer; a glicação (a alteração da estrutura das proteínas causada pela glicose); e os vários tipos de lixo que se acumulam fora das células (os “agregados extracelulares”: beta amiloides, a menos conhecida transtirretina e possivelmente outras substâncias do mesmo tipo geral). Também temos a gosma nociva que se acumula dentro das células (os “agregados intracelulares”, como a lipofuscina); a senescência celular (o “envelhecimento” de células individualmente que as coloca em um estado de paralisia de crescimento e faz com que produzam sinais químicos perigosos para suas vizinhas); e temos a diminuição das reservas de células-tronco, que são essenciais para a regeneração e manutenção de tecidos.

E claro, temos as mutações mitocondriais, que parecem deteriorar a bioquímica celular ao aumentar o estresse oxidativo. Eu estava otimista já há alguns anos quanto à capacidade dos cientistas de resolverem esse problema, copiando o DNA mitocondrial de seu local vulnerável na "zona de conflito" na mitocôndria geradora de radicais livres, para dentro do "abrigo antiaéreo" do núcleo da célula, onde danos ao DNA são muito mais raros.

Então, se tivéssemos soluções para todos esses danos  — refleti — poderíamos deixar de lado o problema do “efeito borboleta” quanto a interferir em processos metabólicos básicos, e somente acabar com os danos EM SI.

Bom — pensei — por que não?

Voltei para minha lista. Glicação de proteínas? Uma empresa startup de biotecnologia já estava fazendo testes clínicos usando um fármaco que se mostrou eficaz para quebrar ligações disfuncionais de proteínas causadas por este processo. Agregados extracelulares? Novamente, estudos em animais mostraram que se pode remover somente os danos, nesse caso usando vacinação contra as placas amiloides e deixando o sistema imunológico cuidar do resto. Pelo menos teoricamente havia várias formas de lidar com a senescência celular, apesar de eu não saber ao certo quais destas realmente dariam resultado. Qualquer um que costumasse ler a seção de ciência dos jornais saberia que os cientistas estavam intensamente procurando uma forma de lidar com a perda de células. A solução? Células-tronco, cultivadas em laboratório e usadas como uma terapia celular de rejuvenescimento. Lipofuscina? Foi nesse momento da minha pesquisa que comecei a sentir que eu devia estar de fato no caminho certo, porque justo no ano anterior eu tinha descoberto um modo de eliminar a lipofuscina, que, apesar de ser extremamente novo e original, já tinha garantido um interesse entusiástico de alguns dos principais cientistas da área. Sobre o câncer, eu não tinha nenhuma ideia nova e radical para tirar da cartola; seria preciso se basear (pelo menos por enquanto) nas ideias de outras pessoas. Mas tudo bem, pois já existia um esforço enorme em curso para se lidar com isso. E quanto aos outros problemas que surgem das mutações nucleares, eu tinha recentemente chegado à conclusão conscientemente contraintuitiva de que eles não eram de fato uma grande causa de disfunção celular relacionada à idade.

Olhei minha lista repetidas vezes, e ao fazer isso fiquei cada vez mais convencido de que não havia uma exceção clara. A junção da minha própria ideia para eliminar lixo intracelular como a lipofuscina, com a ideia que eu estava defendendo há alguns anos para tornar as mutações mitocondriais inofensivas e com as várias outras terapias que estavam sendo estudadas por outras pessoas em todo o mundo para lidar com a glicação, a acumulação de amiloide, a perda de células, as células senescentes e o câncer, parecia formar de fato uma lista adequadamente completa. Não necessariamente totalmente completa — com certeza pode haver outras coisas funcionando mal no corpo — mas possivelmente completa o suficiente para dar algumas décadas extras de vida a pessoas que já estiverem na meia-idade ao começarmos os tratamentos. E isso era certamente um primeiro passo muito mais promissor do que qualquer coisa que tivesse sido sugerida no dia anterior, ou nos numerosos congressos aos quais eu tinha ido e artigos que eu tinha devorado nos últimos anos.

Durante décadas, eu e meus colegas tínhamos estudado o envelhecimento da mesma forma que historiadores poderiam estudar a Primeira Guerra Mundial: como uma tragédia histórica extremamente complexa sobre a qual todos podem teorizar e argumentar, apesar de nada poder ser fundamentalmente feito. Talvez inibidos pela crença profundamente enraizada de que o envelhecimento é "natural" e "inevitável", os biogerontologistas tinham se separado do resto da comunidade biomédica ao se permitirem intimidar pela complexidade do fenômeno que estavam observando.

Naquela noite, me desfiz de toda essa complexidade, revelando uma nova simplicidade em uma completa redefinição do problema. Para intervir no envelhecimento, percebi, não era necessário um completo entendimento de todos os inúmeros processos interligados que contribuem para os danos do envelhecimento. Para criar terapias, tudo que seria necessário entender são os danos em si do envelhecimento: as lesões moleculares e celulares que prejudicam a estrutura e o funcionamento dos tecidos do corpo. Quando percebi esta simples verdade, ficou claro que estamos muito mais próximos do que pode parecer de soluções reais para tratar o envelhecimento como um problema biomédico, passível de ser tratado e curado.

Peguei um caderno e escrevi as mudanças moleculares e celulares que eu podia listar com certeza como sendo alvos importantes para uma nova classe de terapias antienvelhecimento que eu iria em breve chamar de SENS, as Estratégias para a Construção de um Envelhecimento Negligenciável. Cada uma dessas mudanças se acumula no corpo com a idade ao longo da vida e contribui para seu declínio patológico em idades mais avançadas. De acordo com meu conhecimento, minha lista era completa, mas eu ainda iria apresentá-la aos meus colegas e ver se eles poderiam adicionar algo a ela. Assim, corri para baixo antes do café da manhã para transcrever meu rascunho para uma lousa na sala de reuniões. Eu estava animado para apresentar meu novo raciocínio a meus estimados colegas. Mas para falar a verdade, eu já sabia que era muito provável que logo após me ouvirem, seus olhares fossem de perplexidade. A mudança de paradigma era grande demais.

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