O fim do envelhecimento

Aubrey de Grey · Capítulo 14 de 18

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O fim do envelhecimento

13. Indo daqui até lá: a guerra contra o envelhecimento

Parte 3

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13

 

Indo daqui até lá: a guerra contra o

envelhecimento

 

Este livro apresentou, nos termos mais simples possíveis, os detalhes biológicos sobre o que é o envelhecimento humano e como podemos realisticamente começar a derrotá-lo. Entretanto, levando-se em conta o que apresentei até o momento, seria inteiramente justificável concluir que o que fiz foi só defender a ideia de um possível desenvolvimento de terapias que poderiam modestamente atrasar o envelhecimento. Vocês podem achar que um prazo realista para se obter resultados encorajadores em ratos poderia ser de cerca de uma década, mas provavelmente já estão pensando sobre os

problemas que existiriam ao lidar-se com obstáculos da FDA** e outros do tipo ao adaptar-se essas terapias a humanos. E podem estar chegando à conclusão de que o tipo de prazo que estou estimando para o surgimento de terapias amplamente disponíveis — de algumas décadas, com 50% de probabilidade — é curto demais, sendo na verdade pelo menos três vezes maior. Provavelmente estejam também bastante céticos quanto ao grau de prolongamento de vida que as técnicas descritas nos últimos sete capítulos poderiam alcançar em termos práticos, mesmo nesse prazo estimado mais prolongado: é claro que elas poderiam chegar a ser realmente abrangentes se funcionassem de forma absolutamente perfeita, eliminando cada resquício do tipo de dano que constitui seu respectivo alvo, mas todos sabemos que nenhuma terapia é assim tão perfeita, especialmente em suas versões iniciais. Assim, provavelmente estejam pensando que não consegui nem de longe justificar minha bem divulgada afirmação de que muitas pessoas atualmente vivas podem muito bem chegar aos 1000 anos de idade — e nesse caso estariam completamente corretos. Dessa forma, neste capítulo e no próximo vou deixar de lado os detalhes científicos e tratar diretamente dessas duas preocupações importantes e legítimas. Começarei com o prazo para a ampla disponibilidade do conjunto de terapias que descrevi neste livro.

Uso a expressão "a guerra contra o envelhecimento" para descrever uma fase específica do processo rumo à derrota do envelhecimento. Defino-a como o período que começa com a destruição do transe pró-envelhecimento e termina com a disponibilização ampla de terapias que possam proporcionar mais algumas décadas de vida a pessoas que já estejam na meia-idade. Primeiramente, vou me aprofundar mais nesta definição, depois explicarei por que a chamo de guerra contra o envelhecimento, e finalmente direi por que há boas chances de que dure somente de 15 a 20 anos.

O transe pró-envelhecimento — a "racionalidade irracional" em relação ao envelhecimento que descrevi e critiquei no Capítulo 2 — terminará somente quando suas alegações supostamente racionais se tornarem incapazes de se sustentar até mesmo frente a argumentos simples, do tipo que a maioria das pessoas consegue entender. Acredito que isso efetivamente ocorrerá somente quando cientistas obtiverem resultados em laboratório — principalmente com ratos, imagino — que sejam tão impressionantes que façam com que a maioria dos biogerontologistas profissionais finalmente possa afirmar publicamente ser só uma questão de tempo até que possamos adiar o envelhecimento por pelo menos algumas décadas em humanos. A ciência é, em um sentido muito concreto, como a religião: o que um cientista individualmente diz pode ser colocado em dúvida, mas o consenso científico público é sagrado. O resultado que acredito ser necessário é algo que chamei de "rejuvenescimento robusto de camundongos" ou RRC.

O RRC é um resultado de prolongamento do tempo de vida de camundongos, e é definido de forma bastante precisa. Isto é necessário se quisermos que os cientistas deixem de lado sua paranoia quanto a fazer previsões sobre o que pode acontecer no futuro — precisamos fechar todas as principais brechas. De acordo com minha definição, o RRC será alcançado quando:

 

pelo menos 20 camundongos da espécie Mus musculus, 

de uma linhagem cujo tempo de vida médio natural seja de pelo menos

três anos,

 

receberem tratamentos que comecem somente quando já tiverem pelo

menos dois anos,

 

e vivam até uma idade média de cinco anos, sendo saudáveis durante

todo o tempo extra.

Pensei sobre esta definição com bastante cuidado antes de divulgá-la, e ela parece estar resistindo ao teste do tempo: ninguém apontou nenhuma maneira pela qual esses resultados poderiam ser alcançados de formas "desinteressantes", ou seja, de formas que não convenceriam os cientistas versados de que um avanço gigantesco, que provavelmente seria relevante para humanos, teria sido realizado. O requisito de usar pelo menos 20 camundongos existe para garantirmos que a idade não seja uma variação aleatória ou um erro de registro de dados. O requisito de usar Mus musculus existe porque outras espécies de camundongos já têm um tempo de vida maior do que a Mus musculus mas são menos bem caracterizadas pelos cientistas. O requisito de usar-se uma linhagem desta espécie que viva naturalmente até os três anos, que é uma duração de vida incomumente longa para esta espécie, existe para evitar qualquer possibilidade de que os camundongos tenham algum problema congênito específico, algo que em geral os mate bastante jovens, e que o tratamento meramente aplaque este defeito em vez de afetar amplamente o envelhecimento. E, evidentemente, o requisito de que o tratamento comece somente quando os camundongos já tiverem chegado a dois terços de seu tempo de vida normal existe para garantir que haja potencial relevância para pessoas que já estejam vivas, leiam os jornais, paguem impostos e votem.

A razão para eu chamar o período que começa com a conquista deste marco de "guerra contra o envelhecimento" vem da reação inicial essencialmente imediata que suponho que a sociedade terá em relação a esta conquista. Para descrever esta reação, devo primeiro descrever um efeito colateral do transe pró-envelhecimento que ocasiona a atual relutância da sociedade em levar a sério o envelhecimento. Tenho um nome para isso também: é o impasse triangular. Vejam a Figura 1.

 

Figura 1. O impasse triangular que impede o financiamento — e

como a filantropia pode resolvê-lo.

A biologia experimental, assim como qualquer outra área da ciência, custa dinheiro — e realmente bastante dinheiro. A maior parte da biologia não é nem de perto tão cara quanto a física de altas energias ou a astronomia, mas é o suficientemente cara para que professores tenham que passar muito tempo levantando fundos. A esmagadora maioria dos recursos financeiros que sustentam a biologia experimental vem dos fundos públicos.

A biogerontologia é bastante típica em relação ao que se descreve acima, mas é extremamente incomum em um aspecto: o público é absolutamente fascinado por ela, de forma que os biogerontologistas aparecem na televisão o tempo todo. É isso mesmo: o tempo todo. Esta diferença entre a biogerontologia e outras áreas biológicas — mesmo áreas da medicina muito importantes — não está sendo exagerada aqui: até biogerontologistas bem pouco experientes atraem mais atenção da mídia do que cientistas que são líderes mundiais de outras áreas. E evidentemente, quando têm a oportunidade, os biogerontologistas estão tão dispostos quanto qualquer outro cientista a falar sobre sua própria pesquisa — que, necessariamente, é a pesquisa para a qual conseguiram obter financiamento.

Imaginem, por um momento, o que mais um biogerontologista poderia escolher falar na mídia. Em especial, imaginem a possibilidade dele falar sobre abordagens científicas que o público considere distintamente suspeitas: derrotar o envelhecimento, por exemplo. Quais são os atrativos de se discutir estes tópicos? Bom, o nome do cientista pode ficar bastante conhecido do público geral, e ele pode receber mais exposição midiática. Mas esperem um momento: para que serve a exposição midiática? Os cientistas estão intensamente preocupados, como acabei de mencionar, em realizar o infeliz trabalho de manter um fluxo de financiamento para seus laboratórios. Como, exatamente, uma grande exposição midiática os ajudaria a alcançar isso — ou, de forma inversa, dificultaria sua tarefa?

Para explicar a resposta a este questionamento, preciso garantir que vocês estejam cientes de uma característica chave da forma pela qual o financiamento público para a ciência é alocado. Quando os cientistas querem fazer uma série específica de experimentos, eles escrevem uma descrição detalhada do que querem fazer — informando também quanto tempo pensam que irá demorar o procedimento e quanto ele irá custar — e a enviam à agência governamental apropriada. Porém, a agência do governo não decide simplesmente sozinha se o cientista receberá o dinheiro. Apesar dessas agências empregarem ex-cientistas muito experientes para administrarem os fundos de financiamento, esses ex-cientistas estão muito longe de ter um conhecimento de amplitude suficiente para conseguir diferenciar uma ideia boa de uma ideia ruim em toda a gama de disciplinas científicas pelas quais são responsáveis. Assim, eles procuram aconselhamento especializado de outros cientistas. Isso é chamado de "avaliação por colegas" e é um componente absolutamente universal do processo de avaliação de solicitações de financiamento governamental para se fazer ciência.

Ser selecionado para avaliar as ideias de seus colegas para experimentos é uma responsabilidade e um privilégio imensos. Não é algo que cientistas em início de carreira têm a chance de fazer com muita frequência; geralmente os cientistas mais experientes são os que mais o fazem.

Já conseguem ver o problema?

Fazer ciência envolve testar e refinar hipóteses e teorias. Em princípio, a qualidade mais importante em um cientista deveria ser sua capacidade de aceitar, com uma mente aberta, evidências que desafiem as teorias nas quais tenha acreditado por muitos anos. Mas cientistas são seres humanos, e além disso sabem que os cientistas que apresentam novas evidências também são seres humanos. Em especial, sabem que quando se publica um resultado que contradiz o pensamento convencional estabelecido, frequentemente descobre-se posteriormente que as novas evidências foram o resultado de um erro experimental. Assim, geralmente é muito difícil fazer com que cientistas veteranos mudem de ideia, mesmo a evidência sendo muito forte. É muito conhecido o comentário feito nos anos 1920 pelo lendário físico Max Planck de que "a ciência avança de funeral em funeral", e isso está bem perto de não ser um exagero: pode muito bem levar mais do que uma década para que mudanças realmente fundamentais na compreensão de aspectos da ciência sejam aceitas de forma generalizada. Um exemplo notório na biologia é o mecanismo de ação das mitocôndrias, componentes

celulares que analisamos bastante neste livro.1 E inevitavelmente, esta resistência a ideias novas pesa bastante em como cientistas veteranos avaliam solicitações de financiamento.

Nenhum grande problema até aqui. Afinal de contas, uma resistência moderada a ideias novas que podem ainda não ser compreendidas completamente é uma coisa boa em alguns aspectos — também não iríamos querer que o consenso científico mudasse de uma ideia nova para outra muito facilmente, porque (como acabei de mencionar) ideias novas frequentemente estão erradas. Porém, a inércia existente no pensamento científico é geralmente maior do que este possível ponto de equilíbrio. E infelizmente, não é somente uma inércia de ideias; é uma inércia de reputações. Os cientistas veteranos escolhidos pelo governo para avaliar as solicitações de financiamento de seus colegas são, essencialmente por definição, membros do sistema em vigor. Se eles receberem duas solicitações de igual mérito científico, mas tiverem recursos para financiar somente uma delas, e uma for de um cientista que tem um histórico de ideias radicais sobre o que a ciência pode em breve alcançar, enquanto a outra for de um cientista que nunca disse nada escandaloso em sua vida, podem apostar que é este último que receberá o dinheiro.

E isso não é tudo. Os revisores de solicitações de financiamento recebem, evidentemente, instruções indicando-lhes quais aspectos do mérito ou demérito científico das solicitações devem ser considerados particularmente importantes. Um aspecto que é invariavelmente bastante relevante nesta lista, se não for o mais importante dela, é a exequibilidade: a aparente probabilidade de que o cientista completará o programa experimental proposto dentro do prazo e do orçamento pedidos e obterá resultados que merecerão ser publicados em um periódico científico de boa reputação. Isso parece ser bastante coerente, não? Porém, na verdade, esta política é um enorme problema para a ciência, porque (na prática) não é ponderada a importância científica. Ou seja: uma proposta para um estudo que quase certamente nos esclarecerá algo, independentemente de seu resultado final, se sairá bem melhor em uma avaliação por colegas do que um estudo que pode muito bem não nos esclarecer nada, mesmo se o que este segundo estudo puder nos esclarecer for muito mais importante do que o que qualquer resultado do primeiro estudo nos esclareceria. Esta parcialidade que favorece as pesquisas de baixos riscos e poucos ganhos à custa das pesquisas de altos riscos e grandes ganhos permeia toda a ciência e é extremamente forte na biogerontologia.

Gastei bastante tempo neste capítulo descrevendo o teimoso comportamento "mente fechada" dos cientistas veteranos, mas espero que tenham notado que nos últimos parágrafos expliquei que isso não é inteiramente culpa deles: na verdade, a culpa é daqueles que lhes pagam, as agências de financiamento, ou seja, o governo. Revisores de financiamento científico também recebem esse tipo de financiamento de modo geral (embora, evidentemente, não avaliem suas próprias solicitações). Assim, se a agência de financiamento deixar claro — explicitamente através de diretrizes escritas ou implicitamente através de suas ações e observações extraoficiais — que preferiria financiar pessoas medianas para fazer trabalhos confiáveis do que financiar encrenqueiros para fazer trabalhos controversos, os revisores dificilmente vão discordar. Seria muito bom se mais destes cientistas resistissem a este tipo de instrução, mas realisticamente isso é querer demais.

Mas na verdade... a culpa também não é do governo. O real culpado são vocês, o público.

Isso não deveria ser uma surpresa para vocês. Não é segredo nenhum que os governos em todas as democracias agem em última instância para alcançar algo que está acima de todas as outras coisas: sua própria reeleição. Esta não ficará mais próxima se o governo gastar, e for visto gastando, consideráveis quantias do dinheiro dos contribuintes naquilo que o público considera serem sonhos impossíveis: pesquisas que provavelmente não levarão a nada. Se o público fosse cientificamente maduro o suficiente para entender que, a longo prazo, a velocidade do progresso científico fica reduzida por esta abordagem cuidadosa demais, seus representantes eleitos poderiam agir segundo essa compreensão e instruir os revisores de financiamento científico para agirem de acordo. Porém, o público não entende adequadamente como a ciência funciona, de forma que isto não ocorre (um problema no mesmo sentido, mas ainda pior, existe na medicina; falarei mais sobre este tópico mais à frente neste capítulo). Isso se dá basicamente porque formar uma opinião sobre quão provável é a veracidade de uma hipótese, ou qual é a probabilidade de um resultado experimental levar a um aprofundamento do conhecimento, é na verdade um dos aspectos de se fazer ciência mais sofisticados e difíceis de se ensinar.

Entretanto, na biogerontologia há uma potencial maneira de se escapar disso, o que me traz de volta, completando o círculo (ou triângulo!), para aquilo que distingue a biogerontologia de todos os outros campos da ciência em termos de sua interação com o público: simplesmente a extensão desta interação. Embora não seja factível esperar que o público seja transformado em um conjunto de cientistas suficientemente sofisticados para entender os méritos de experimentos muito ambiciosos, há grandes chances de simplesmente dizer-lhe que vale a pena explorar determinadas abordagens experimentais. Provavelmente não haja chances suficientes de se fazer isso na maioria dos campos da ciência, mas no caso da biogerontologia isso é abundantemente possível. Sendo assim, por que os biogerontologistas não fazem exatamente isso quando estão diante de uma câmera? Eu já lhes disse o porquê: eles não querem ganhar a reputação, entre seus colegas, de serem irresponsáveis, porque isso afetaria negativamente as chances de seus trabalhos, mesmo os pouco ambiciosos, serem financiados.

Então aí está o impasse triangular. Os biogerontologistas são cautelosos quando se comunicam com o público para proteger seu financiamento, fornecido pelo governo, que é cuidadoso em relação ao que e quem financia para proteger seus votos, provistos pelo público, que é fatalista quanto ao que nem vale a pena se tentar alcançar porque vê os biogerontologistas dizendo somente coisas cautelosas na TV.

Para derrotarmos o envelhecimento em um futuro minimamente próximo, acredito que um primeiro passo essencial deve ser acabar com este impasse. Como isto pode ser feito?

Desde que entrei na biogerontologia, venho desgastando principalmente um dos "cantos" do triângulo: o "canto" referente aos meus colegas biogerontologistas, especialmente os veteranos. Os cientistas estão muito atentos à política, como descrevi anteriormente, mas também são pessoas honestas e sinceras. Além disso — e isso é um ponto fundamental — quase nenhum biogerontologista sofre do transe pró-envelhecimento. Eles sabem muito bem quão horrível o envelhecimento é, e com muito poucas exceções querem que ele seja eliminado tanto quanto eu. Outro ponto importante é que não há muitos deles, de forma que o contato pessoal é fácil: conheço basicamente todo mundo do campo pessoalmente já há alguns anos. E por fim, eles são todos o suficientemente inteligentes para terem conseguido chegar a ser doutores. Levando isso tudo em conta, se eu tiver bons argumentos para defender a ideia de que podemos estar muito mais perto de consertar o problema do envelhecimento do que as pessoas até o momento perceberam que estamos, eu não deveria ser capaz de convencê-los — e até mesmo convencê-los a dizer isso publicamente?

Bom, não exatamente — mas quase. Como em todos os aspectos da vida, o que as pessoas dizem é importante, mas o que não dizem também é importante. Meus colegas aos quais apresentei detalhadamente o conjunto de terapias SENS geralmente concluíram que não é uma fantasia, embora certamente seja algo bastante ambicioso — mas isso não se traduziu em pedidos públicos explícitos para as SENS serem financiadas. O que ocorreu, entretanto, foi uma variedade de demonstrações de apoio tácito. Começou com a coautoria de cinco colegas veteranos no primeiro artigo sobre as SENS, que surgiu de um workshop no ano 2000 (vejam o Capítulo 4); continuou com a recusa de diversos colegas eminentes de serem coautores de uma denúncia das SENS publicada no respeitado periódico EMBO Reports e orquestrada por alguns dos membros da comunidade com a mente

menos aberta;2 e mais recentemente incluiu o fato impressionante de que algumas pessoas que assinaram aquela denúncia tomaram a iniciativa de se

divorciar dela ao publicar respostas construtivas ao plano das SENS,3,4 algo que a crítica da EMBO Reports especificamente aconselhava não fazer. Embora isso possa parecer algo bastante morno visto de fora, posso garantir que é uma reviravolta do tipo mais completo possível na ciência.

Entretanto, isso obviamente não é suficiente. Porém, é tudo o que provavelmente vou conseguir por enquanto com meus colegas veteranos na biogerontologia, ou seja, até eu conseguir financiamento suficiente para impulsionar a pesquisa das SENS substancialmente apesar de sua natureza radical. Assim, nesse meio-tempo (que com sorte será curto!), devo lidar também com os outros cantos do triângulo.

É até possível que o governo possa ser influenciado diretamente. Existem visionários no governo, e só ocasionalmente eles encontram uma forma de transformar seus projetos em realidade. Porém, para se ter qualquer chance

real no Capitólio* ou em seus equivalentes em outros países, é preciso realmente conhecer bem a mente dos principais atores — e isso é algo que não se aprende do dia para a noite. Assim, tenho deixado esta estratégia para outros — e fico muito feliz em dizer que a ideia parece pouco a pouco estar sendo captada, mais notavelmente através da esplêndida iniciativa "Dividendo da Longevidade", um novo esforço encabeçado pelo lobista de longa data Dan Perry da Aliança para a Pesquisa do Envelhecimento em

colaboração com três gerontologistas.5 O quanto de chances de sucesso eles têm é algo ainda a se verificar, mas enfaticamente desejo-lhes sorte.

Entretanto, ao ficar mais conhecido, tornei-me capaz de começar a abordar o terceiro canto do impasse: o público. Vocês podem se lembrar de que comecei este livro com uma reclamação um pouco irritada em relação a que se não fosse pelo transe pró-envelhecimento, eu conseguiria ir adiante com a ciência e a tecnologia concretas para derrotar o envelhecimento. Bem, isso é certamente verdade — mas assim que tive a oportunidade, passei a dedicar tanta energia aos meus esforços de ativismo e divulgação quanto já estava dedicando à ciência. Além do mais, tenho consciência de que o público é uma fonte de financiamento em si mesmo, assim como uma fonte de pressão nos governos para que alterem suas prioridades de financiamento.

O transe pró-envelhecimento domina a natureza da minha interação com a mídia, e através dela, com o público. A imensa maioria do meu tempo em entrevistas é ocupado por discussões quanto à desejabilidade da vitória sobre o envelhecimento, em vez de sua exequibilidade. Mas a boa notícia, que é uma situação com a qual felizmente entro em contato frequentemente, é que geralmente é suficiente só uma leve sondagem para se revelar que a base real da preocupação do meu interlocutor é sua relutância em aceitar a exequibilidade. É isso o que me convence tão completamente de que alcançar o rejuvenescimento robusto de camundongos fará com que o transe pró-envelhecimento seja coisa do passado em um piscar de olhos.

 

A intensidade da guerra contra o

envelhecimento, e sua consequente

duração provável

Para dar-lhes uma noção de como o mundo provavelmente será depois do RRC ser alcançado, vou analisar alguns fatos epidemiológicos e biomédicos básicos sobre três vírus bem conhecidos — o HIV, o CMV e o da gripe aviária — e então examinar um cenário interessante.

O HIV tornou-se um dos maiores assassinos do mundo. Tardiamente, fármacos que podem suprimi-lo e evitar que progressivamente evolua rumo à AIDS plenamente desenvolvida estão gradualmente tornando-se disponíveis no mundo em desenvolvimento — ainda nem de longe nas quantidades necessárias, mas talvez em breve até nessas quantidades. Entretanto, no mundo desenvolvido, o HIV está, em um sentido profundo, sob controle. É possível viver com HIV por décadas sem nenhum tipo de sintoma através da administração regular de fármacos caros mas (no Ocidente) acessíveis. O que ainda não temos, é claro, são duas coisas importantes:

 

um fármaco para eliminar o HIV do corpo;

 

uma vacina para impedi-lo de infectar pessoas.

O CMV (citomegalovírus) não é um dos maiores assassinos do mundo. Bom, pelo menos não de forma óbvia. Em pessoas com um sistema imunológico normal, ele é completamente suprimido e não causa nenhum sintoma ("pelo menos não de forma óbvia" porque essa supressão gradualmente desgasta o sistema imunológico à medida que se envelhece, de forma que as pessoas acabam ficando mais suscetíveis a infecções mais agressivas como a pneumonia; neste sentido o CMV é indiretamente mortal — para mais detalhes sobre isso e sobre o que precisamos fazer a respeito, vejam o Capítulo 10). Porém, ele está incrivelmente espalhado: a maioria das pessoas no Ocidente está infectada com este vírus.

A gripe aviária está em todos os noticiários no momento em que escrevo estas palavras (meados de 2007), porque ao longo dos últimos anos fomos sombriamente informados de que ela poderia em breve sofrer mutações que a transformariam em um tipo de gripe que causaria uma pandemia e potencialmente mataria dezenas de milhões ou até centenas de milhões de pessoas. Tudo o que precisa ocorrer é que o vírus da gripe aviária adquira alterações genéticas que lhe permitam ser facilmente passado de um humano a outro, da mesma forma que vírus de gripes mais familiares (e muito menos mortais) podem fazer. Essas mutações são raras, mas não incrivelmente raras, e poderiam acontecer a qualquer momento. Vacinas para a gripe aviária estão em desenvolvimento, mas quão bem elas funcionarão depende de quais mutações o vírus adquirirá no processo de se tornar transmissível de humano para humano, e de qualquer forma as vacinas não funcionam muito bem nos idosos, que correm um maior risco. É daí que se chega às possíveis taxas de mortalidade.

Descrevi a situação desses vírus como o pano de fundo para um cenário que agora quero explorar com algum detalhamento, através de uma analogia com a situação após o RRC ter sido alcançado. Eu precisava expor este pano de fundo para que vocês pudessem entender que o cenário é razoavelmente realista; penso que não terei trabalho nenhum em convencê-los de que é uma analogia válida.

Vamos supor que o HIV sofresse mutações que o tornassem transmissível pelo ar, como a gripe.

É isso. Esta é a situação que quero explorar. Nada mais muda: os fármacos que suprimem o HIV ainda funcionam e ainda são bastante caros, e vacinas para o HIV ainda estão longe de serem desenvolvidas.

Neste cenário, é praticamente certo que quase todas as pessoas do mundo teriam contraído o HIV dentro de alguns anos. Nem todo mundo contrai gripe de forma pandêmica, é claro, mas a diferença é que quando se contrai a gripe, se não ocorre a morte da pessoa, cria-se uma resposta imunológica que de fato funciona, ou seja, que elimina o vírus do corpo. Assim, qualquer indivíduo específico pode contagiar outras pessoas só por um período bastante curto (e depois de ter se recuperado, também não pode ser infectado novamente). No cenário que estamos analisando, uma vez que tivéssemos contraído o vírus, o teríamos para sempre, e poderíamos contagiar pessoas para sempre. Não haveria onde se esconder.

Bastante apocalíptico, não? Só para constar, felizmente, os virologistas consideram que na realidade este cenário é muito mais improvável do que o mesmo tipo de mutação na gripe aviária.

Mas esperem um momento: é tão apocalíptico assim? Temos esses fármacos...

Vamos analisar alguns números redondos. Nos Estados Unidos, cerca de uma pessoa a cada 250 tem HIV, segundo o Escritório de Referência de Populações — isso é cerca de um milhão de pessoas. O tratamento com fármacos para manter o HIV sob controle custa cerca de US$ 30.000 por ano, de forma que a soma total é de cerca de US$ 30 bilhões por ano. Assim, se todo mundo nos Estados Unidos tivesse HIV, estaríamos falando de US$ 9 trilhões por ano. Mas o custo real de produção desses fármacos é muitíssimo menor: formas genéricas estão sendo sintetizadas na Índia e vendidas (ainda com lucro, vejam) por somente US$ 300 por ano, e há preços ainda menores à vista. Portanto, na realidade seriam somente US$ 90 bilhões por ano — cerca de US$ 300 milhões por dia — para manter todo mundo nos Estados Unidos saudável mesmo se todos tivessem HIV.

Agora, vamos destacar alguns pontos. Em primeiro lugar, vocês podem pensar que "somente US$ 90 bilhões por ano" é um uso muito curioso da palavra "somente". Nesse caso, deveriam pensar novamente no assunto, porque isso é aproximadamente um terço do que os Estados Unidos estão atualmente gastando na guerra do Iraque (não estou analisando aqui os méritos relativos desses gastos — só estou explicitando que já temos um precedente de um gasto inesperado de um tamanho bem maior que não está falindo o país). Em segundo lugar, vocês podem ser contra infringir patentes, de forma que podem objetar a minha redução dos custos por um fator de cem. Mas seu desejo de apoiar o sistema de patentes é mais forte do que seu desejo de impedir que seus vizinhos — ou você, ou sua família — tenham AIDS e morram horrivelmente? Questione-se honestamente: se este cenário de fato se tornasse realidade, e um dos principais partidos fizesse campanha eleitoral com uma plataforma que incluísse aumentar os impostos em US$ 300 por ano para cada cidadão em média e gastar este dinheiro em fármacos genéricos para prevenir a AIDS, e o outro partido fizesse campanha comprometendo-se a aumentar os impostos em US$ 30.000 por ano para cada cidadão em média ou afirmando que não fornecerá fármaco nenhum, quem vocês realmente imaginam que venceria a eleição?

Espero tê-los convencido do que aconteceria no cenário proposto: conseguiríamos os recursos para tratar todo mundo. Provavelmente conseguiríamos os recursos para tratar também todo mundo nos países em desenvolvimento, da mesma forma que hoje em dia estamos nos direcionando rumo a sermos capazes de tratar todas as pessoas que precisam desses fármacos nos países atualmente em desenvolvimento.

Agora, vamos analisar da mesma forma a visão quanto ao envelhecimento de uma sociedade pós-RRC. Suspeito que você esteja percebendo rapidamente as similaridades. Todo mundo tem envelhecimento. As terapias que queremos tornar disponíveis serão terapias de supressão, que terão que ser administradas por todo nosso período de vida (embora com uma frequência muito menor do que aquela com a qual os portadores de HIV precisam tomar seus fármacos). Porém, dentro desta limitação, as terapias vão funcionar: o envelhecimento das pessoas não vai progredir. Mas as terapias serão muito caras (num primeiro momento esse gasto será basicamente para financiar a pesquisa, treinar os profissionais médicos, cujo número terá aumentado muito, construir instalações adicionais de síntese de fármacos e coisas do tipo; o mesmo valor que discuti acima, US$ 300 milhões por dia, é uma boa estimativa).

Então vamos fazer a pergunta oposta: quais são as diferenças entre um mundo pós-RRC e um mundo com HIV universal? Eu diria que na verdade há somente duas:

 

as terapias não existirão ainda quando o RRC for alcançado;

 

nossa aceitação de que o envelhecimento humano pode provavelmente

ser derrotado relativamente rápido será nova, enquanto que a

universalidade do envelhecimento é ancestral: isso é o contrário da

situação com o HIV no cenário proposto anteriormente.

Acredito que nenhuma dessas diferenças tem chances reais de fazer com que a sociedade se comporte de forma minimamente diferente no cenário após a implementação do RRC em comparação com o cenário do HIV universal. A inexistência das terapias não é fundamentalmente diferente da inexistência de fármacos antirretrovirais suficientes, o que certamente seria a situação inicial no cenário que descrevi: trabalharemos para desenvolver essas terapias o mais rápido possível, assim como trabalharíamos para aumentar a produção de antirretrovirais o mais rápido possível. A ideia de que a ordem dos eventos poderia acabar tendo importância parece igualmente inverossímil; se todo mundo tiver um problema de saúde mortal e tivermos a chance de fazer com que ele não seja mais mortal, certamente nos empenharemos em alcançar este objetivo.

Por que chamo de "a guerra contra o

envelhecimento"?

Penso que agora já conseguem entender meus motivos para chamar este período de "a guerra contra o envelhecimento". No começo dos anos 1970, houve uma iniciativa chamada de "a guerra contra o câncer" que envolveu um crescimento brusco e contínuo no financiamento para a pesquisa do câncer impulsionado pela esperança de que ele pudesse ser curado dentro de

apenas cinco anos.6 A guerra não foi um fracasso tão terrível quanto algumas pessoas costumam sugerir — sem aquele financiamento, não teríamos avançado nem de perto com a velocidade que avançamos em nossa compreensão do câncer, de forma que há poucas dúvidas de que esta iniciativa antecipou bastante a futura derrota real do câncer — mas foi nomeada de forma completamente errônea, por uma simples razão: a quantidade de dinheiro envolvida foi na verdade muito pequena, imperceptível para os contribuintes estadunidenses. Como mostrei anteriormente, a guerra contra o envelhecimento será extremamente cara — de jeito nenhum imperceptível. E ainda assim, é evidente que o público aceitará o aumento de impostos necessário: será quase obviamente impossível ser eleito a menos que a plataforma de campanha inclua o compromisso de atacar o envelhecimento com todos os recursos disponíveis. Essa é uma mentalidade que anteriormente só foi vista em um tipo de situação na história de uma nação rica: nos tempos de guerra.

 

Hipócrates e Gelsinger

Para terminar este capítulo, quero abordar um último aspecto da guerra contra o envelhecimento — um que completa minha argumentação quanto a que ela pode muito bem durar somente de 15 a 20 anos.

Em 1999, um adolescente chamado Jesse Gelsinger morreu de choque anafilático em um teste clínico de um procedimento de terapia genética em

um hospital na Filadélfia (EUA).7 Este foi o primeiro incidente do tipo, e acabou causando um "choque anafilático" no próprio mundo da terapia genética. O resultado foi que basicamente todos os testes clínicos de terapia genética em todo o mundo foram suspensos por cerca de um ano. Não sabemos em quanto tempo de atraso isso vai no fim das contas se traduzir em termos do desenvolvimento de terapias genéticas seguras e efetivas, mas as chances são bastante altas de que será em pelo menos algumas semanas, e dada a enorme amplitude de aplicabilidade da terapia genética, isso pode significar milhares de vidas perdidas — talvez até centenas de milhares se isso atrasar a derrota do envelhecimento. Tendo isso em mente, pode-se dizer que a suspensão de testes por tanto tempo foi uma resposta proporcional?

A FDA dos EUA responderia afirmativamente, assim como os organismos equivalentes em todo o mundo. A regulação de fármacos e terapias experimentais, tanto em relação a quais resultados são necessários quanto a como eles são obtidos, está baseada em um princípio fixo que fica acima de todos os outros: minimizar o risco da terapia fazer com que o paciente piore. Especificamente, minimizar os riscos explicitamente conta mais, muito mais, que maximizar os benefícios. Desta forma, a FDA está seguindo um princípio que existe desde os primeiros dias da medicina: o famoso édito de Hipócrates, primum non nocere, ou "primeiramente, não prejudicar" (notem que esta frase não faz parte do Juramento de Hipócrates, o conjunto de princípios que os profissionais médicos juram seguir como parte de seu processo de qualificação).

Sou da opinião, bastante simples, de que Hipócrates já deveria ficar no passado. Evitar prejudicar pacientes era uma estratégia racional a ser adotada durante os primeiros dias da medicina, quando as pessoas muito frequentemente se recuperavam espontaneamente do que seus médicos pensavam ser doenças fatais simplesmente porque não tinham ferramentas de diagnóstico adequadas. Nesse tipo de situação, o efeito psicológico de poder prejudicar, seja no médico, seja nos entes queridos do paciente, legitimamente afeta a análise objetiva de custo-benefício de um determinado tratamento. No mundo moderno, entretanto, recuperações desse tipo são relativamente muito raras. Portanto, acredito que a proporção de (pelo menos) dez para um de vidas perdidas pela lenta aprovação de fármacos seguros em relação a vidas perdidas pela aprovação precipitada de

fármacos inseguros8 não é mais aceitável.

Além disso, acredito que na turbulência da guerra contra o envelhecimento, o público geral também chegará à conclusão de que esta proporção é inaceitável. Isso levará, em questão de meses após o RRC ser alcançado, a uma revisão completa das leis e regulamentos que governam os testes clínicos e a aprovação de fármacos e terapias. Um palpite razoável é que os fármacos serão aprovados para uso universal (com receita) após um nível de teste que seja semelhante à atual fase 2. Pessoas morrerão como resultado; a razão 10:1 mencionada anteriormente provavelmente se reduzirá para 2:1. E as pessoas ficarão satisfeitas com esta mudança, porque saberão que estaremos em tempos de guerra, e a maior prioridade — que até justifica a perda considerável de vidas no curto prazo — é acabar com o massacre o mais rápido humanamente possível. Evidentemente, reconheço que sem essa mudança de prioridades minha previsão de que a guerra contra o envelhecimento pode muito bem durar somente 15 anos seria completamente absurda. Mas com esta mudança, somente a velocidade da pesquisa será um fator limitante.

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