O Iluminado

Stephen King · Capítulo 5 de 9 · parte 5/6

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O Iluminado

Quinta parte: Questões de vida e morte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

51

A CHEGADA DE HALLORANN

Larry Durkin era um homem alto e magro, com um rosto melancólico coroado por uma exuberante cabeleira ruiva. Hallorann o encontrou exatamente quando saía do posto Conoco, com seu rosto triste enterrado fundo no capuz de uma parca militar. O homem estava relutando em fazer mais negócios naquele dia de tempestade, sem se importar com o tanto que Hallorann tinha viajado, e ainda mais resistente em alugar um de seus snowmobiles a esse negro que insistia em subir até o velho Overlook. Entre os habitantes de Sidewinder, o Overlook tinha uma reputação duvidosa.

Sabiam que crimes haviam sido cometidos por lá, que o hotel já fora dirigido por um bando de gângsteres durante algum tempo e por homens do tipo que fazem qualquer negócio também. Algumas coisas que aconteceram no velho Overlook nunca chegaram aos jornais, pois o dinheiro falava mais alto. No entanto, os habitantes de Sidewinder tinham uma boa noção a respeito. A maioria das camareiras era de lá, e camareiras veem muita coisa.

Mas, quando Hallorann mencionou o nome de Howard Cottrell e mostrou a Durkin a etiqueta dentro das luvas azuis, o dono do posto de gasolina mudou de atitude.

— Ele mandou você aqui, foi? — perguntou Durkin, abrindo uma das garagens e levando Hallorann para dentro. — É bom saber que o velho ainda tem juízo. Pensei que não tivesse mais. — Acendeu as lâmpadas fluorescentes, velhas e muito sujas. — Agora, me diga, que diabos você quer naquele lugar lá em cima, cara?

Hallorann começou a perder a calma. Os últimos quilômetros para Sidewinder tinham sido muito difíceis. Uma lufada de vento, que não devia estar a menos de noventa quilômetros por hora, fez o carro dar uma derrapada de 360 graus. Havia ainda alguns quilômetros a percorrer, e só Deus sabia o que esperava por ele. Estava aterrorizado pelo menino. Já eram quase dez para as sete da noite e ainda ia ter que desfiar o rosário novamente.

— Alguém está em dificuldade lá em cima — respondeu, com muito cuidado. — O filho do zelador.

— Quem? O filho dos Torrance? Que tipo de dificuldade?

— Não sei — resmungou Hallorann. Sentia-se adoecendo com o tempo que isto tomava. Estava conversando com um homem do interior e sabia que todos os homens do interior sentem uma necessidade semelhante de abordar os negócios de maneira oblíqua, de farejar bem as informações antes de

mergulhar de cabeça. Mas não tinha tempo, pois agora ele era um crioulo apavorado e, como o homem continuava naquele papo, Hallorann teria que ser curto e grosso. — Olhe — completou. — Por favor. Preciso ir até lá em cima e preciso de um snowmobile para chegar lá. Pago seu preço, mas, pelo amor de Deus, me deixe resolver os meus problemas!

— Muito bem — comentou Durkin, imperturbável. — Se Howard o mandou, basta. Leve este ArcticCat. Vou colocar vinte e cinco litros de gasolina na lata de reserva. O tanque está cheio. Acho que dá para subir e descer.

— Obrigado — disse Hallorann, ainda inquieto.

— São vinte dólares. Isso inclui a gasolina.

Hallorann tirou uma nota de vinte da carteira e lhe entregou. Durkin a enfiou em um dos bolsos da camisa, sem nem olhar.

— Acho melhor a gente trocar de casaco também — disse Durkin, tirando a parca. — O seu não vai servir de nada esta noite. Você me devolve quando trouxer o snowmobile.

— Que é isto, eu não posso…

— Deixa de besteira — interrompeu Durkin, ainda com calma. — Não quero que fique congelado. Só tenho que andar dois quarteirões e estou em casa. Deixa disso.

Um pouco espantado, Hallorann trocou seu casaco pelo de Durkin com forro de pele e capuz. As lâmpadas fluorescentes zumbiam, lembrando a cozinha do Overlook.

— O filho dos Torrance é um menino bonitinho, não é? — comentou Durkin, meneando a cabeça. — Ele e o pai costumavam vir até aqui antes de a neve começar a cair no duro. Quase sempre no caminhão do hotel. Eles pareciam tão apegados. Aquilo sim é um menininho que gosta do pai. Espero que ele esteja bem.

— Eu também. — Hallorann levantou o zíper e fechou o capuz.

— Deixe eu te ajudar a levar isso lá para fora — ofereceu Durkin.

Empurraram o snowmobile pelo chão de concreto, cheio de manchas de óleo.

— Já dirigiu um antes?

— Não.

— Bem, não é nada de mais. As instruções estão pregadas ali no painel, mas o negócio é basicamente frear e andar. O acelerador tá aqui, é que nem acelerador de moto. O freio é do outro lado. Se incline com ele nas curvas.

Esta gracinha aqui faz cento e dez quilômetros em neve dura, mas nesse chão

fofo vai conseguir no máximo oitenta, e já vai ser muito.

Estavam agora na área da frente do posto de gasolina, cheia de neve, e Durkin falava alto para se fazer ouvir na ventania.

— Fique na estrada! — gritou no ouvido de Hallorann. — Fique de olho nos mourões do guardrail e nas placas, e acho que você vai ficar bem. Se sair da estrada, morre. Entendeu?

Hallorann fez que sim com a cabeça.

— Espere um minuto! — pediu Durkin, e correu à garagem.

Enquanto o outro não voltava, Hallorann ligou a chave e apertou um pouco o acelerador. O snowmobile encheu-se de vida.

Durkin voltou com uma máscara de esqui vermelha e preta.

— Ponha isto embaixo do capuz! — gritou.

Hallorann pegou a máscara. Era apertada, mas cortava o vento que batia nas faces, testa e queixo.

Durkin se inclinou para falar.

— Acho que você deve ficar sabendo dessas coisas do mesmo jeito que Howie sabe às vezes— disse. — Isso não importa, mas aquele lugar tem uma péssima reputação por aqui. Posso lhe dar um rifle, se quiser.

— Não acho que vai ser preciso — gritou Hallorann.

— Você manda. Mas, se você pegar o garoto, traga ele pra rua Peach, 16.

A patroa vai deixar uma sopinha preparada.

— Certo. Obrigado por tudo.

— Cuidado! — gritou Durkin. — Fique na estrada!

Hallorann assentiu com a cabeça e acelerou devagar. O snowmobile foi para a frente, o farol cortando com um cone claro de luz a neve que caía forte.

Viu a mão levantada de Durkin pelo espelho retrovisor e levantou a sua.

Virou o guidom para a esquerda e tomou a rua principal, fazendo o snowmobile andar suave pela luz dos postes da rua. O velocímetro marcava cinquenta. Eram sete e dez. No Overlook, Wendy e Danny dormiam, e Jack Torrance discutia sobre questões de vida e morte com o antigo zelador.

Cinco quarteirões depois, os postes de luz acabaram. Durante oitocentos metros ainda foi possível avistar pequenas casas, todas muito bem fechadas contra a tempestade, e depois somente a escuridão e o assobio do vento.

Novamente na escuridão, sem nenhuma luz além do fino facho do farol do snowmobile , ele foi envolvido por um pavor, um medo infantil, sinistro e desalentador. Nunca se sentira tão só. Por vários minutos, enquanto as luzes de Sidewinder desapareciam no retrovisor, a vontade de voltar era quase

incontrolável. Refletiu que, mesmo com toda a boa vontade e preocupação com o filho de Jack Torrance, Durkin não se oferecera para pegar outro snowmobile e subir junto com ele.

( Aquele lugar tem uma péssima reputação por aqui. ) Trincando os dentes, apertou o acelerador e viu o ponteiro do velocímetro passar pelos sessenta e parar nos setenta. Parecia estar indo incrivelmente rápido e, ao mesmo tempo, temia que não fosse rápido o suficiente. A esta velocidade, levaria quase uma hora para chegar ao Overlook. Mas, se fosse a uma velocidade maior, corria o risco de não chegar a lugar algum.

Mantinha os olhos fixos no guardrail e nos refletores, pequenos como uma moeda, instalados sobre cada um dos alicerces no que, em outras épocas, seria o acostamento. Muitos deles estavam escondidos sob a neve. Por duas vezes, viu placas com sinais de curva tarde demais e sentiu o snowmobile subindo os montes que disfarçavam a ribanceira, antes de voltar para o que no verão seria o leito da estrada. O hodômetro contava a quilometragem com uma lentidão enlouquecedora — oito, dezesseis e finalmente vinte e quatro.

Mesmo sob a máscara de esqui, seu rosto começava a ficar paralisado, e as pernas dormentes.

( Acho que eu daria cem dólares por um par de calças de esqui. ) A cada quilômetro avançado, seu medo aumentava… como se o lugar tivesse uma atmosfera de veneno que se tornava cada vez mais densa, à medida que se aproximava. Era assim antes? Nunca gostara muito do Overlook, e havia outros que compartilhavam desse sentimento, mas nunca tinha sido desse jeito.

A voz que quase o destruíra antes de Sidewinder ainda queria entrar, passar por suas defesas para chegar até a carne macia. Se ela foi forte quarenta quilômetros atrás, como seria agora? Não podia afastá-la inteiramente. Um pouco dela estava se infiltrando, enchendo seu cérebro com imagens sinistras.

Trazia cada vez mais a imagem de uma mulher ferida dentro do banheiro com as mãos levantadas querendo se proteger. Sentiu cada vez mais que aquela mulher devia ser…

( Deus, cuidado! )

A barreira se aproximava como se fosse um trem de carga. Pensando nessas coisas, não viu a placa. Jogou o guidom para a direita, e o snowmobile deu meia-volta, se inclinando. Do lado de baixo, veio o som de metal sobre pedra. Pensou que fosse capotar, mas conseguiu se equilibrar antes de deslizar até uma superfície mais ou menos nivelada da estrada. Depois, viu a

ribanceira à sua frente, o farol mostrando o fim da neve e a escuridão adiante.

Virou o guidom mais uma vez, com o coração na garganta.

( Fique na estrada, Dick, velho camarada. )

Hallorann se obrigou a girar o acelerador mais um pouco. O ponteiro do velocímetro estava agora quase nos oitenta. O vento uivava. O farol rasgava a escuridão.

Algum tempo depois, numa curva, viu uma luz brilhando adiante. Apenas um vislumbre que, em seguida, foi encoberto por uma elevação. A luz foi tão breve que ele chegou a desejar outra curva, para que a visse novamente por mais alguns segundos. Desta vez não questionou se era real; já tinha visto aquela luz deste ângulo diversas vezes antes. Era o Overlook. Parecia que vinha do primeiro andar e do saguão.

Parte de seu pavor — o medo de sair da estrada ou arrebentar o snowmobile numa curva inesperada — desapareceu por completo. O

snowmobile cobria com estabilidade a primeira metade de uma curva em S, da qual agora ele se lembrava palmo a palmo, quando o farol focalizou algo ( ó Santo Deus o que é aquilo)

na estrada, mais à frente. Pintado em severos pretos e brancos, Hallorann a princípio pensou que fosse algum lobo imenso que descera com a tempestade. Em seguida, ao se aproximar, reconheceu o que era, e o pavor bloqueou sua garganta.

Não um lobo, mas um leão. Um leão de arbusto.

Suas feições eram uma máscara de sombra e neve, as ancas rijas, prontas para um salto. E realmente saltou, espalhando neve em volta das patas traseiras numa explosão silenciosa de cristais.

Hallorann gritou e virou o guidom para a direita com força, baixando o corpo ao mesmo tempo. A dor de um profundo arranhão tomou conta do rosto, pescoço e ombros. A parte de trás da máscara de esqui foi rasgada. Ele foi atirado para fora do snowmobile. Bateu na neve, abriu uma trilha nela e rolou.

Sentia o leão vindo em sua direção. No focinho, havia um cheiro amargo de folhas verdes e azevinho. Uma pata imensa de folhas atingiu suas costas, Hallorann voou a três metros de altura e caiu estirado no chão como um capacho. Viu o snowmobile, sem motorista, se chocar contra a barreira, a traseira levantada, o farol apontando para o céu. O veículo caiu com um estrondo e parou.

Em seguida, o leão estava em cima de Hallorann. Havia um crepitar e

farfalhar de folhas. Algo destruindo e rasgando o capuz. Pareciam galhos duros, mas Hallorann sabia que eram garras.

— Você não existe! — gritou Hallorann para o leão que rosnava. — Você não existe de jeito nenhum! — Lutou para ficar de pé e conseguiu chegar à metade do caminho do snowmobile , quando o leão deu um bote, atingindo sua cabeça com uma pata de garras afiadas. Hallorann viu luzes explodindo silenciosas.

— Não existe — repetiu, mas as palavras saíram apenas como um murmúrio. Os joelhos enfraqueceram, e ele caiu na neve. Arrastou-se em direção ao snowmobile, o lado direito do rosto era um cachecol de sangue. O

leão o atacou mais uma vez, virando-o de barriga para cima como uma tartaruga. Rosnava jocosamente.

Hallorann lutou para alcançar o snowmobile . O que necessitava estava lá.

E, então, o leão se jogou sobre ele novamente, rasgando e ferindo.

52

WENDY E JACK

Wendy arriscou outra olhadela para trás. Jack estava no sexto degrau, arrastando-se com a ajuda do corrimão, da mesma maneira que ela fazia. Ele ainda sorria maliciosamente, e sangue escuro vazava lentamente pelo sorriso e pela linha do maxilar inferior. Mostrava os dentes para ela.

— Vou esmagar seus miolos. Esmagar a porra deles. — Subiu com dificuldade mais um degrau.

O pânico a impulsionou, e a dor no flanco diminuiu um pouco. Ela se arrastou o mais depressa que pôde, apesar da dor, puxando convulsivamente o corrimão. Chegou ao topo e olhou para trás.

Ele parecia ganhar força ao invés de perder. Estava a quatro degraus do topo, medindo a distância com o taco de roque na mão esquerda, enquanto se impulsionava com a direita.

— Bem atrás de você — falou, arquejando, através do sorriso de sangue, como se estivesse lendo a mente de Wendy. — Bem atrás de você agora, sua puta. Com seu remédio.

Ela correu cambaleando pelo corredor principal, as mãos pressionadas nas costelas. A porta de um dos quartos abriu, e um homem com uma máscara verde de zumbi apareceu. “Que festa incrível, não é? ”, gritou no rosto de Wendy, soprando uma língua de sogra. Ela ouviu um ruído estridente e, subitamente, se viu enrolada em serpentinas de crepe. O homem de máscara deu uma gargalhada e voltou para o quarto. Wendy caiu no tapete. Seu lado

direito parecia explodir em dor, e ela lutava desesperadamente contra a perda da consciência. Podia ouvir vagamente o elevador funcionando de novo e, sob os dedos das mãos, podia ver que o desenho do tapete parecia estar se mexendo sinuosamente.

O taco bateu no chão atrás dela e Wendy se impulsionou para a frente, soluçando. Ao olhar para trás, viu Jack cambaleando, perdendo o equilíbrio e golpeando com o taco pouco antes de cair, expelindo sangue no tapete.

A cabeça do taco atingiu Wendy exatamente entre as omoplatas e, por um momento, a agonia foi tão grande que ela conseguiu apenas se contorcer, com as mãos abrindo e fechando. Alguma coisa dentro dela tinha se partido…

Ouviu perfeitamente e, por uns poucos momentos, soube disso apenas de maneira limitada e abafada, como se estivesse simplesmente observando a cena através de um invólucro nebuloso de gaze.

Em seguida, recobrou a consciência, o pavor e a dor.

Jack tentava se levantar para concluir o trabalho.

Wendy também tentava se pôr de pé, mas viu que era impossível. O

esforço parecia provocar uma corrente elétrica em suas costas. Começou a se arrastar. Jack se arrastava atrás, usando o taco de roque como uma muleta.

Ela chegou ao corredor curto e dobrou, se impulsionando no ângulo da parede. Seu pavor aumentou… não achava que fosse possível, mas era. Não poder vê-lo ou não saber o quanto ele tinha se aproximado era cem vezes pior. Arrancava pelos do tapete ao se arrastar e estava na metade do pequeno corredor quando viu que a porta de seu quarto estava aberta.

( Danny! Ai Deus)

Fez força para se pôr de joelhos e arranhou o papel de parede de seda na tentativa de ficar de pé. As unhas se soltaram um pouco. Ela ignorou a dor e, andando sem firmeza, passou pela porta, enquanto Jack dobrava o corredor e começava a vir em direção à porta aberta, apoiado no taco de roque.

Ela se apoiou na penteadeira e agarrou o umbral.

— Não fecha essa porta! — gritava o marido. — Maldita, não se atreva a fechar a porta!

Ela fechou e trancou a porta. A mão esquerda tateou o tampo da penteadeira, derrubando moedas que rolaram em todas as direções. A mão buscava o chaveiro, ao mesmo tempo em que o taco batia sobre a porta, fazendo-a tremer. Enfiou a chave na fechadura na segunda tentativa e a girou para a direita. Ao escutar o ruído da fechadura travando, Jack gritou. O taco batia na porta numa série de estrondos que a faziam recuar. Como ele

conseguia fazer isso com uma faca enfiada nas costas?

Onde encontrava força? Ela quis gritar Por que não morre? , para a porta trancada.

Em vez disso, virou-se de costas. Ela e Danny teriam que se trancar no banheiro, no caso de Jack arrebentar a porta. A ideia de fugir pelo elevador de comida passou insanamente pela cabeça, mas ela a rejeitou, pois Danny era pequeno e poderia entrar, mas ela não conseguiria controlar a corda. Ele despencaria até o fundo.

Teria que ser no banheiro. E se Jack entrasse ali…

Mas Wendy não se permitiu pensar nisso.

— Danny, meu bem, vai ter que acordar ag…

Mas a cama estava vazia.

Quando o filho havia caído num sono mais profundo, ela jogou os cobertores e o edredom em cima dele. Agora, estavam jogados para trás.

— Vou pegar você! — vociferou Jack. — Vou pegar vocês dois! — Cada palavra era pontuada por um baque do taco de roque , mas Wendy ignorava as duas coisas. Toda sua atenção estava voltada para aquela cama vazia.

— Sai daí! Abra a porra da porta!

— Danny? — sussurrou ela.

Claro… Ele certamente tinha captado o momento em que Jack a atacou, como sempre acontecia com as emoções violentas. Talvez ele tivesse visto tudo num pesadelo. Estava escondido.

Ela se ajoelhou desajeitadamente, sentindo dor na perna inchada e ensanguentada, e olhou debaixo da cama. Nada ali, somente poeira e os chinelos do marido.

Jack gritou seu nome e, desta vez, quando golpeou com o taco, uma lasca comprida de madeira pulou da porta e estalou no soalho. A outra pancada teve o som de uma rachadura, o ruído de madeira velha sob uma machadinha.

A cabeça do taco suja de sangue abrira um buraco na porta, subindo e descendo, espalhando pedaços de madeira por todo o quarto.

Wendy se apoiou no pé da cama para levantar e, mancando, atravessou o quarto até o armário de roupas. As costelas quebradas a espetavam, e ela gemia de dor.

— Danny?

Wendy afastou freneticamente para o lado as roupas penduradas, aflita; algumas escorregavam dos cabides e caíam no chão. Danny não estava no armário.

Caminhou, mancando, em direção ao banheiro e, chegando à porta, olhou para trás. O taco continuava a bater, alargando o buraco, e então uma mão apareceu, tateando à procura do trinco. Viu, apavorada, que havia deixado o chaveiro de Jack balançando na fechadura.

A mão arrancou o ferrolho e esbarrou no chaveiro. As chaves balançavam, e a mão as puxou vitoriosa.

Com um soluço, ela se arrastou para dentro do banheiro e bateu a porta, no mesmo instante em que a porta do quarto abriu e Jack entrou berrando.

Wendy trancou a porta, olhando desesperada ao redor. O banheiro estava vazio. Danny também não estava lá. Ao se olhar no espelho do armário de remédio, viu o próprio rosto coberto de sangue e ficou contente. Nunca foi a favor de que as crianças presenciassem pequenas discussões dos pais. E, talvez, aquela coisa que estava agora delirando pelo quarto, quebrando os objetos, finalmente desmoronasse antes que pudesse ir atrás do filho dela.

Pensou que talvez fosse possível provocar mais danos ainda àquela coisa…

matá-la, talvez.

Seus olhos passaram pelas superfícies de porcelana do banheiro, procurando por algo que pudesse servir de arma. Encontrou um sabonete, mas, mesmo enrolado numa toalha, ela não achava que pudesse ser letal.

Todo o resto estava pregado no chão ou na parede. Deus, não haveria nada que pudesse fazer?

Por trás da porta, os ruídos animalescos de destruição continuavam, seguidos por gritos de que eles “tomariam seu remédio” e “pagariam pelo que tinham feito com ele”. Ele “lhes mostraria quem mandava ali”. Eles “não valiam nada”.

Houve um estrondo quando o toca-discos foi virado, um estampido surdo quando o tubo de imagem do televisor de segunda mão foi atingido, o tilintar de vidro de janela, seguido de uma corrente de ar frio por baixo da porta do banheiro. Uma pancada surda quando os colchões foram arrancados das camas onde dormiram juntos, lado a lado. Estrondos, quando Jack atacava as paredes indiscriminadamente com o taco.

Não havia nada do verdadeiro Jack naquela voz petulante, que berrava e xingava. Alternava tons baixos de autopiedade com gritos altos; Wendy se lembrava dos gritos deprimentes que ela escutava na ala de geriatria do hospital onde trabalhara durante as férias de verão, quando era ainda estudante do secundário. Demência senil. Não era Jack que estava lá fora. Era a voz irada e lunática do próprio Overlook.

O taco atingiu a porta do banheiro, derrubando um enorme pedaço do compensado fino. Metade de um rosto louco e determinado a encarou. A boca, as bochechas e a garganta estavam cobertas de sangue, o único olho que ela conseguia ver estava miúdo e brilhante.

— Não tem para onde correr, sua vagabunda — disse ele ofegante, por entre o sorriso. O taco baixou novamente, derrubando lascas de madeira para dentro da banheira e contra a superfície espelhada do armário de remédios…

( O armário de remédios!!! )

Ela deixou escapar um lamento desesperado enquanto se virou, a dor momentaneamente esquecida, e abriu o armário. Começou a vasculhar. Atrás dela, a voz rouca berrava:

— Estou chegando! Estou chegando, sua porca! — Demolia a porta num frenesi mecânico.

Vidros caíam diante de seus dedos loucos — xarope, vaselina, xampu, água oxigenada, benzocaína — e quebravam na pia.

Suas mãos se fecharam sobre o estojo de giletes no mesmo instante em que ouviu a mão mais uma vez buscando o ferrolho e abrindo o trinco.

Toda atrapalhada, ela tirou uma das lâminas, respirando com dificuldade.

A lâmina tinha feito um corte na ponta do dedão. Wendy girou o corpo e golpeou a mão que abrira o trinco e tateava à procura do ferrolho.

Jack gritou, largando a porta.

Ofegante, segurando a gilete com o polegar e o indicador, ela esperou que Jack tentasse novamente. Tentou, e ela o cortou. Mais uma vez ele gritou, procurando agarrar Wendy, e ela o cortou de novo. A lâmina girou em sua mão, cortando-a mais uma vez, e caiu no ladrilho junto à privada.

Wendy tirou mais uma lâmina do estojo e esperou.

Movimento no outro cômodo…

( indo embora?? )

Um ruído entrou pela janela do quarto. Um motor. Um zumbido alto parecido com um inseto.

Jack deu um berro raivoso, e então — sim, sim, tinha certeza — começou a sair do apartamento do zelador, passando pelos escombros e indo para o corredor.

( Alguém chegando um guarda-florestal Dick Hallorann?? )

— Ai, Deus — murmurou ela, com a boca que parecia cheia de serragem e pedaços de madeira. — Deus, por favor.

Tinha que sair agora, encontrar o filho, para juntos enfrentarem o resto

deste pesadelo. Tentou sair e procurou o ferrolho.

O braço parecia se esticar por quilômetros, quando finalmente conseguiu destravá-lo.

Abriu a porta, hesitou e foi de repente tomada pela terrível certeza de que Jack fingira ir embora, que estava esperando por ela.

Wendy olhou em volta. O quarto estava vazio, a sala também.

Objetos revirados e quebrados por toda parte.

O armário? Vazio.

Depois, sombras suaves começaram a descer, e ela caiu semiconsciente sobre o colchão que Jack puxara da cama.

53

HALLORANN DERRUBADO

Hallorann conseguiu alcançar o snowmobile virado exatamente no momento em que, a dois quilômetros dali, Wendy se arrastava no curto corredor que levava ao apartamento do zelador.

Não era o snowmobile que ele queria, mas a lata de gasolina que estava presa na traseira por duas tiras elásticas. As mãos, ainda metidas nas luvas azuis de Howard Cottrell, puxaram a tira superior e a soltaram, enquanto o leão rugia atrás… o som parecia estar mais dentro de sua cabeça do que fora.

Sentiu um forte golpe de galhos na perna esquerda, que doeu quando a articulação foi forçada para um lado completamente improvável. Um gemido escapou pelos dentes trincados de Hallorann. O leão poderia matá-lo a qualquer momento, cansado das brincadeiras.

Hallorann se atrapalhou com a segunda tira. O sangue grudento escorria sobre os olhos.

( Rugido! Golpe! )

Foi atingido nas nádegas, quase voando para longe do snowmobile novamente. Ele se agarrou, sem exagero… à própria a vida.

Conseguiu então soltar a segunda tira. Segurou firme a lata de gasolina, quando o leão atacou outra vez, fazendo-o rolar até ficar de costas. O homem viu o leão, apenas uma sombra na escuridão e na neve, tão pavoroso quanto uma carranca. Hallorann desrosqueou a tampa da lata, enquanto a sombra móvel o espreitava, soltando pequenas lufadas brancas. Abriu a lata, libertando um cheiro forte de gasolina.

Hallorann ficou de joelhos e, quando o leão se aproximou, abaixado e incrivelmente rápido, atirou-lhe gasolina.

Houve um chiado, um resfolegar, e o leão recuou.

— Gasolina! — gritou Hallorann, com a voz ainda trêmula. — Vai queimar você, meu bem! Curta isso!

O leão se aproximou novamente, ainda resfolegando feroz. Hallorann atirou mais gasolina, mas desta vez o leão não se acovardou. Avançou.

Apesar de não ter enxergado direito, Hallorann sentiu a cabeça batendo contra seu rosto, e então se jogou para trás, tentando se esquivar. Ainda assim, o leão atingiu seu peito, e uma chama de dor se acendeu ali. A gasolina entornou da lata que ainda segurava e molhou seu braço e sua mão, gelada como a morte.

Estava agora caído na neve, cerca de três metros à direita do snowmobile .

O leão era uma presença enorme à esquerda, e se aproximava mais. Hallorann achou que via a cauda sacudindo.

Com os dentes, arrancou a luva de Cottrell da mão, sentindo o gosto da gasolina ensopada na lã. Levantou a bainha do casaco e enfiou a mão no bolso das calças. Lá no fundo, junto com suas chaves e algum trocado, havia um isqueiro Zippo antigo. Ele o comprou na Alemanha em 1954. Certa vez a molinha quebrou, ele o devolveu à fábrica Zippo, e eles o consertaram sem cobrar nada, exatamente como anunciado.

Uma inundação de pesadelos tomou conta de sua mente por um segundo.

( Caro Zippo meu isqueiro foi engolido por um crocodilo caiu de um avião perdido numa trincheira do Pacífico salvou-me de uma bala alemã na última guerra caro Zippo se esta porra não funcionar esse leão vai me arrancar a cabeça)

Pegou o isqueiro. Abriu a tampa. O leão avançando para ele, um rosnado, o dedo de Hallorann girando a roda do acendedor, uma fagulha, a chama, ( minha mão)

sua mão encharcada de gasolina subitamente em chamas, o fogo subindo pela manga da parca, sem dor, sem dor por enquanto, o leão, assustado com a tocha que, de repente, se acendeu na sua frente, uma horrenda escultura vegetal com olhos e boca, fugindo, tarde demais.

Tremendo de dor, Hallorann encostou o braço em chamas nos galhos da criatura.

Em poucos minutos toda ela estava em chamas, uma fogueira saltando e se contorcendo na neve. O leão berrava de raiva e dor, parecendo querer agarrar o rabo em chamas, enquanto ziguezagueava para longe de Hallorann.

Este enfiou o braço bem fundo na neve, apagando o fogo, sem tirar os olhos nem por um momento do leão agonizante. Então, ficou de pé. A manga

do casaco de Durkin estava chamuscada, mas não queimada, assim como sua mão. Vinte metros abaixo, o leão de folhas transformara-se numa bola de fogo. Faíscas voavam para o céu, sendo despedaçadas pelo vento. As costelas e o crânio foram marcados por uma chama alaranjada e, em seguida, pareceram cair, desintegrar e se soltar em pilhas separadas.

( Não se incomode. Vá em frente. )

Pegou a lata de gasolina e a guardou com dificuldade no snowmobile. A consciência dele parecia ir e vir, oferecendo cenas familiares, lampejos apenas. Em uma delas, Hallorann puxava o snowmobile para seu caminho e se sentava nele, sem fôlego e sem poder se mover durante alguns momentos.

Em outra, ele estava prendendo novamente a lata de gasolina, que ainda estava pela metade. A cabeça latejava terrivelmente, por causa do cheiro da gasolina (e em consequência da luta com o leão, supunha), e ele viu, na neve, que havia vomitado, mas não se lembrava quando.

O snowmobile, com o motor ainda quente, ligou imediatamente. Apertou o acelerador, e o movimento inicial foi uma série de solavancos, o que fez a cabeça doer com ainda mais força.

A princípio, o snowmobile ziguezagueou, mas o fato de metade do rosto de Hallorann ficar acima do para-brisa e exposto ao vento forte eliminou um pouco sua letargia. Apertou mais o acelerador.

( Onde estão os outros animais de arbustos? ) Não sabia, mas pelo menos não seria pego desprevenido novamente.

O Overlook apareceu diante dele, as janelas do primeiro andar iluminadas, lançando retângulos amarelos sobre a neve. O portão da entrada estava trancado. Ele desceu do snowmobile depois de olhar cuidadosamente em volta, rezando para que não tivesse perdido as chaves quando tirou o isqueiro do bolso… mas estavam lá. Com a ajuda da luz do farol do snowmobile, pegou a chave certa e abriu o cadeado, deixando-o cair na neve. A princípio, não achou que fosse conseguir abrir o portão. Afastou, aflito, a neve em volta dele, sem pensar na dor de cabeça e no medo que sentia de que outros leões estivessem espreitando. Conseguiu abri-lo cerca de cinquenta centímetros, esgueirou-se pela abertura e empurrou. Abriu mais uns sessenta centímetros, espaço suficiente para passar com o snowmobile , e atravessou.

Percebeu um movimento adiante na escuridão. Os animais de arbustos, todos eles, estavam agrupados junto aos degraus do Overlook, guardando a entrada e a saída. Os leões espreitavam. O cachorro estava com as patas dianteiras no primeiro degrau.

Hallorann apertou o acelerador, o snowmobile foi à frente, levantando neve atrás. No apartamento do zelador, Jack Torrance virou-se repentinamente ao escutar o zumbido alto do motor, como o de uma vespa que se aproximava. E, de repente, ele começou a se dirigir com dificuldade para o corredor. A vaca agora não era tão importante. A vaca podia esperar.

Agora era a vez do crioulo sujo. Esse crioulo sujo e intrometido se metendo onde não havia sido chamado. Primeiro ele, depois o filho. Mostraria a eles.

Mostraria bem que… que ele… que ele era funcionário de primeira qualidade para a gerência!

Lá fora, o snowmobile voava como um foguete. O hotel parecia se lançar sobre ele. A neve batia no rosto de Hallorann. O farol iluminou a cara do cão pastor, com seus olhos inexpressivos e ocos.

Em seguida o cão recuou, deixando um espaço. Hallorann girou o guidom com toda a força que lhe restava, e o snowmobile fez um semicírculo fechado, arremessando nuvens de neve, ameaçando derrubá-lo. A traseira bateu nos pés da escada da varanda e ricocheteou. Num piscar de olhos, Hallorann estava de pé, subindo as escadas. Cambaleou, caiu, levantou. O

cachorro rosnava — novamente em sua cabeça — junto dele. Sentiu algo arranhar o ombro do casaco e, em seguida, ele estava a salvo na varanda, no estreito corredor que Jack abrira no meio da neve. Os animais eram muito grandes para caberem ali.

Chegou às grandes portas duplas do saguão e mais uma vez procurou as chaves. Enquanto as buscava, experimentou girar a maçaneta, e a porta abriu.

Entrou.

— Danny! — gritou rouco. — Danny, onde está?

Silêncio novamente.

Seus olhos percorreram o saguão até os pés da escada interior, e um suspiro lhe escapou. O tapete estava sujo de sangue. Havia um pedaço de tecido cor-de-rosa. As pegadas de sangue levavam à escada. O corrimão também estava sujo.

— Ai, Jesus — murmurou e levantou a voz novamente. — Danny!

DANNY!

O silêncio do hotel parecia zombar dele com os ecos.

( Danny? Quem é Danny? Alguém aqui conhece um tal de Danny? Danny, Danny, quem está com Danny? Alguém quer jogar com Danny? Brincar com Danny? Saia daqui, negrinho. Ninguém nunca viu esse Danny. ) Jesus, teria ele passado por tudo aquilo e chegado tarde demais? O mal já

estava feito?

Subiu as escadas correndo, de dois em dois degraus, e parou no primeiro andar. O sangue ia até o apartamento do zelador. O horror cresceu em suas veias e na cabeça, enquanto começava a andar pelo corredor curto. Enfrentar os animais de arbusto tinha sido ruim, mas isto era pior. No fundo, tinha certeza do que iria encontrar quando chegasse. Não tinha pressa em ver.

Quando Hallorann subiu as escadas, Jack estava escondido no elevador.

Com um sorriso nos lábios, ele seguiu o homem de casaco coberto de neve, como um fantasma ensanguentado.

O taco de roque estava levantado tão alto quanto a dor dilacerante que ( a vaca me espetou não me lembro?? )

sentia nas costas.

— Negrinho — murmurou. — Vou ensinar você a não meter o nariz onde não foi chamado.

Hallorann ouviu o assobio e começou a se virar, a se abaixar, e o taco de roque desceu zunindo em cima dele. O capuz do casaco amorteceu a pancada, mas não o bastante. Um foguete explodiu em sua cabeça, e ele viu estrelas…

e depois nada.

Cambaleou contra o papel de parede de seda, e Jack o acertou novamente, o taco desta vez sendo golpeado de lado, quebrando o osso da face de Hallorann e a maior parte dos dentes do lado esquerdo. Ele tombou flacidamente.

— Agora — sussurrou Jack. — Agora, por Deus. — Onde estava Danny?

Tinha negócios a acertar com o filho desobediente.

Três minutos depois, a porta do elevador chegava no terceiro andar escuro.

Jack Torrance estava ali sozinho. O carro havia parado abaixo do piso e foi preciso que ele desse um impulso para sair para o corredor, contorcendo-se de dor como um aleijado. Arrastava o taco lascado. No telhado, o vento assobiava e uivava. Jack virou os olhos. Havia sangue e confete em seu cabelo.

O filho estava em algum lugar ali em cima. Podia sentir. Deixado sozinho, faria qualquer coisa: riscar o elegante papel de parede de seda com os lápis de cor, estragar os móveis, quebrar as janelas. Era um mentiroso e um trapaceiro e teria que ser castigado… severamente.

Jack Torrance fez esforço para ficar de pé.

— Danny? — chamou. — Danny, venha aqui um minuto, por favor. Fez uma coisa errada, e quero que você venha aqui tomar seu remédio como um

homem. Danny? Danny!

54

TONY

( Danny…)

( Dannniii…)

Trevas e corredores. Ele estava vagando pelas trevas e pelos corredores, que eram parecidos com os do hotel, mas diferentes de alguma forma. As paredes forradas de papel de seda eram altas e, mesmo levantando a cabeça, Danny não conseguia ver o teto. Estava perdido no infinito. Todas as portas estavam trancadas, e elas também se perdiam no infinito. Abaixo dos olhos mágicos (nestas portas gigantes eram do tamanho de uma alça de mira), pequenas caveiras e ossos cruzados estavam aparafusados em cada porta, no lugar de números de apartamentos.

E, em algum lugar, Tony o chamava.

( Dannniii…)

Ele escutou um barulho de pancadas, de um tipo que ele conhecia bem, e gritos roucos, ao longe. Não conseguia entender bem palavra por palavra, mas agora entendia o contexto muito bem. Já o ouvira antes, em sonhos e acordado.

Danny, um menino pequeno que parara de usar fraldas menos de três anos antes, estava parado, tentando decifrar onde estava, onde poderia estar. Sentia medo, mas um medo suportável. Nos dois últimos meses, sentira medo todos os dias, num nível que ia de simples inquietação até um terror incrível. Mas ele suportava. Queria saber por que Tony viera, pois a forma como o ouvia chamando seu nome não fazia parte nem do mundo real nem da terra de sonhos onde Tony, às vezes, lhe mostrava coisas. Por que, onde…

— Danny.

Lá embaixo, no corredor gigante, quase tão pequena quanto o próprio Danny, estava uma figura escura. Tony.

— Onde estou? — gritou, suave, para Tony.

— Dormindo — respondeu Tony. — Dormindo no quarto de sua mãe e de seu pai. — Havia tristeza na voz de Tony. — Danny, sua mãe vai ser muito machucada. Talvez seja morta. O sr. Hallorann também.

— Não!

O menino gritou com uma tristeza distante, um terror que parecia estar sendo abafado pelo ambiente de sonho e melancolia. No entanto, imagens de morte apareciam: um sapo morto pregado na estrada como um carimbo

horrível; o relógio quebrado do pai por cima de uma caixa de lixo para ser jogado fora; túmulos com uma pessoa morta em cada um; um pássaro morto junto a um poste telefônico; as sobras que a mãe raspava dos pratos caindo na boca escura da lixeira.

Não conseguia comparar estes simples símbolos com a realidade complexa de sua mãe; ela satisfazia sua definição infantil de eternidade. Ela existira antes de ele existir. Ela continuaria existindo quando ele deixasse novamente de existir. Danny aceitava a possibilidade de sua própria morte, convivia com isso desde o encontro no apartamento 217.

Mas não a dela.

Não a de papai.

Nunca.

Começou a se debater, e as trevas e o corredor começaram a tremular. A forma de Tony tornou-se quimérica, indistinta.

— Não — gritou Tony. — Não faça isso, Danny!

— Ela não vai morrer! Não vai!

— Então, você precisa ajudar ela. Danny… você está num lugar profundo em sua mente. No lugar onde estou. Sou parte de você, Danny.

— Você é Tony. Você não é o meu eu. Quero mamãe… quero mamãe…

— Eu não trouxe você aqui, Danny. Você mesmo se trouxe. Porque sabia.

— Não…

— Sempre soube — prosseguiu Tony, e começou a se aproximar. Pela primeira vez, Tony começou a se aproximar. — Está mergulhado no fundo de você mesmo, num lugar onde nada consegue entrar. Estamos aqui sozinhos, por algum tempo, Danny. Este é um Overlook onde ninguém pode vir, nunca.

Aqui, os relógios não funcionam. Nenhuma chave serve para dar corda neles.

As portas nunca foram abertas, e ninguém nunca ficou nestes apartamentos.

Mas você não pode ficar por muito tempo. Porque está chegando.

— É… — sussurrou Danny, com medo, e, nisso, um ruído irregular de batidas parecia se aproximar, mais alto. O terror frio e distante de poucos momentos atrás se tornou iminente. Agora, as palavras saíam. Roucas, rudes; eram proferidas numa imitação grosseira da voz de seu pai, mas não era seu pai. Sabia disso agora. Sabia.

( Você mesmo se trouxe. Porque sabia. )

— Ah, Tony, é meu pai? — gritou Danny . — É meu pai que está vindo me pegar?

Tony não respondeu. Mas Danny não precisava de resposta. Sabia.

Aconteceu aqui uma festa longa e horrível de máscaras, que continuava durante anos. Aos poucos, uma força se acumulou, tão secreta e silenciosa quanto juros numa conta bancária. Força, presença, forma, eram todas apenas palavras, e nenhuma delas era importante. Usava muitas máscaras, mas eram todas uma coisa só. Agora, em algum lugar, vinha em sua direção. Escondia-se por trás do rosto de papai, imitava a voz de papai, usava as roupas de papai.

Mas não era papai.

Não era seu pai.

— Preciso ajudá-los! — gritou.

E agora Tony estava exatamente na sua frente, e olhar para Tony era como se olhar num espelho mágico e se ver daí a dez anos: os olhos muito grandes e muito escuros, o queixo firme, a boca bem traçada. O cabelo louro como o de sua mãe, mas os traços como os do pai, como se Tony — como o Daniel Anthony Torrance que um dia seria — fosse um híbrido, misto de pai e filho, um fantasma de ambos, uma fusão.

— Precisa tentar ajudar — afirmou Tony. — Mas seu pai… ele está com o hotel agora, Danny. É onde ele quer estar. O hotel quer você também, porque é muito ganancioso.

Tony passou por ele, entrando nas sombras.

— Espere! — gritou Danny. — O que eu posso…

— Ele está perto agora — disse Tony ainda, indo embora. — Tem que correr… se esconder… ficar longe dele. Ficar longe.

— Tony, não posso!

— Mas já começou — respondeu Tony. — Vai se lembrar daquilo que seu pai esqueceu.

Desapareceu.

E, de algum lugar ali perto, vinha a voz de seu pai, aduladora.

— Danny? Pode sair, velhinho. São só umas palmadas. Só isso. Aceite como um homem e pronto. Não precisamos de sua mãe, velhinho. Só eu e você, certo? Quando deixarmos esse pequeno… castigo… para trás, seremos apenas eu e você.

Danny correu.

Atrás dele, a voz da fúria se rompendo.

— Venha cá, seu merdinha! Agora!

Danny correu por um corredor comprido, ofegando. Dobrou para outro corredor. Subiu um lance de escada. E, enquanto passava, as paredes, que tinham sido tão altas e distantes, começaram a baixar; o tapete, que era apenas um borrão sob seus pés, readquiriu os traços sinuosos do desenho preto e azul; as portas voltaram a ser numeradas, e, por trás delas aconteciam as festas intermináveis, povoadas de gerações de hóspedes. A atmosfera parecia estar sombria à sua volta, e as batidas do taco contra as paredes ecoavam. Ele parecia estar rompendo uma placenta fina do útero do sono para o tapete da Suíte Presidencial no terceiro andar; deitados perto dele, em meio a uma quantidade enorme de sangue, estavam os corpos de dois homens de terno e gravata. Tinham sido assassinados a tiros e agora começavam a se mexer diante dele e a se levantar.

Encheu os pulmões para gritar, mas não conseguiu.

(ROSTOS FALSOS!! NÃO VERDADEIROS !!)

Eles se desvaneceram como fotografias velhas e desapareceram.

Mais abaixo, o som distante do taco contra as paredes continuava, subindo pelo poço do elevador e pelas escadas. Era a força dominadora do Overlook, incorporada em seu pai, andando para lá e para cá no primeiro andar.

Atrás dele, uma porta abriu com um ranger.

Uma mulher em decomposição com um vestido podre de seda apareceu, os dedos amarelados e quebrados, cobertos de anéis cheios de azinhavre. Vespas gordas passeavam sobre seu rosto.

— Venha — ela falou baixinho, sorrindo com os lábios negros. — Venha e dançareeeemos o taaaango…

— Rosto falso!! — gritou Danny. — Não verdadeiro! — Ela se afastou alarmada e foi sumindo, até desaparecer.

— Onde está você? — gritou a coisa, mas a voz estava tão somente em sua cabeça. Podia ainda ouvir a coisa que usava o rosto de Jack no corredor do primeiro andar… e escutou algo mais.

O ruído alto de um motor se aproximando.

Danny ficou sem fôlego. Seria mais uma faceta do hotel, outra ilusão? Ou seria Dick? Queria — queria desesperadamente acreditar — que fosse Dick, mas não se atrevia a arriscar.

Seguiu para o corredor principal e dobrou para um dos pequenos corredores, os pés deslizando no macio do tapete. As portas trancadas franziam o cenho para ele, como faziam em sonhos, em visões; só que agora estava no mundo das coisas reais, onde o jogo era pra valer.

Virou para a direita e parou, o coração batendo forte no peito. Sentiu um calor sendo soprado em seus tornozelos. Do aquecedor, naturalmente. Hoje devia ser o dia de papai esquentar a ala oeste e

( Vai se lembrar daquilo que seu pai esqueceu. ) O que era? Quase sabia. Algo que salvaria a mãe e a ele? Mas Tony disse que ele precisaria fazer sozinho. O que era?

Danny encostou na parede, tentando desesperadamente pensar. Era tão difícil… O hotel ficava tentando entrar em sua cabeça… a imagem daquela forma escura e recurvada, sacudindo o taco de um lado para o outro, arrancando o papel de parede… desprendendo poeira branca do gesso.

— Me ajuda — sussurrou. — Tony, me ajuda.

E de repente percebeu que o hotel estava em um silêncio mortal. O ruído do motor cessara,

( não deve ter sido verdadeiro)

e os sons da festa acabaram, restando apenas o vento, assobiando sem fim.

O elevador zumbiu.

Subia.

E Danny sabia quem — o que — estava lá dentro.

Manteve-se firme, os olhos arregalados. O pânico invadiu seu coração. Por que Tony o mandara para o terceiro andar? Parecia uma ratoeira aqui em cima. Todas as portas estavam trancadas.

O sótão!

Havia um sótão, ele sabia. Tinha vindo aqui com o pai no dia em que ele espalhou as ratoeiras lá em cima. Não deixara Danny subir por causa dos ratos. Temia que o filho fosse mordido. Mas a porta do sótão ficava no teto do último corredorzinho desta ala. Encostada na parede, havia uma vara, com a qual o pai abrira a porta. Houve um ranger de contrapeso, quando a porta abriu, e uma escada baixou. Se conseguisse subir e tirar a escada…

Em algum lugar no labirinto de corredores atrás dele, o elevador parou. A grade foi empurrada, fazendo um ruído metálico. E, em seguida, a voz — não em sua cabeça agora, mas terrivelmente real — chamando.

— Danny? Danny, venha aqui um minuto, por favor. Fez uma coisa errada, e quero que você venha aqui tomar seu remédio como um homem. Danny?

Danny!

A obediência estava tão arraigada nele, que Danny chegou a dar dois passos automaticamente em direção ao som daquela voz, até que parou.

Cerrou as mãos.

( Não é verdadeiro! Rosto falso! Sei o que você é! Retire a máscara! )

— Danny! — berrava. — Venha aqui, seu fedelho! Venha aqui e enfrente como um homem! — Um estrondo surdo e alto quando o taco atingiu a parede. Quando a voz berrou seu nome, ele novamente mudou de lugar.

Aproximava-se.

No mundo real, a caçada começava.

Danny correu. Pés silenciosos no tapete grosso, passava correndo pelas portas dos apartamentos, pelo papel de parede de seda, pelo extintor de incêndio pregado no canto do corredor. Hesitou e, em seguida, mergulhou no último corredor. Nada no final, a não ser uma porta com ferrolho e mais nenhum lugar para onde correr.

Mas a vara ainda estava lá, encostada na parede, onde o pai a deixara.

Danny a pegou. Levantou a cabeça para ver a porta. Havia um gancho na ponta da vara e era preciso enfiá-lo numa argola que havia na porta. Era preciso…

Viu um cadeado novinho balançando, que Jack Torrance colocara no ferrolho depois de ter espalhado as ratoeiras, para o caso de o filho resolver vir explorar o lugar qualquer dia.

Continuar: parte 6 de 6