O Iluminado
Quinta parte: Questões de vida e morte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
As duas figuras se afastaram para as extremidades opostas de um eixo de aço. De algum lugar, ouviam-se os acordes de uma valsa de Strauss. Um jingle comercial louco passou pela sua cabeça: Compre comida de cachorro, au-au, au-au, compre comida de cachorro…
O taco de aço nas mãos da figura do homem caiu sobre a cabeça do menino, que desabou para a frente. O taco subia e descia, subia e descia. As mãos do menino, estendidas em defesa, começaram a vacilar. O menino passou de agachado para deitado. E o taco ainda assim subia e descia no ar ao som da melodia de Strauss, e parecia que Jack podia ver o rosto do homem, fazendo esforço, se contraindo, se contorcendo. Podia ver a boca da figura do pai abrindo e fechando, enquanto ralhava com a figura inconsciente e espancada do filho.
Uma mancha vermelha voou para o lado de dentro da redoma de vidro…
Mais outra. Mais duas.
Agora, o líquido vermelho espirrava como um temporal obsceno, atingindo as laterais do vidro da redoma e escorrendo, escondendo o que havia em seu interior. Em meio à mancha vermelha, havia pequenos fragmentos de tecido, osso e cérebro. E o taco continuava subindo e descendo enquanto o relógio continuava a funcionar, enquanto as rodas continuavam a encaixar os mecanismos e dentes desta engrenagem habilmente fabricada.
— Retirem as máscaras! Retirem as máscaras! — gritava Derwent atrás dele. Em algum outro lugar, um cachorro uivava com voz humana.
( Mas engrenagem de relógio não sangra, engrenagem de relógio não sangra)
A redoma inteira estava manchada de sangue. Era possível ver pedaços de cabelo, mas nada mais graças a Deus, nada mais, e ainda assim Jack achava que iria vomitar, porque ouvia as pancadas, ouvia através do vidro assim como ouvia o “Danúbio Azul”. Mas os sons não eram mais os tique-taques mecânicos de um taco mecânico atingindo uma cabeça igualmente mecânica, e sim os sons surdos de um taco verdadeiro, dilacerando e golpeando destroços úmidos e esponjosos. Destroços que já tinham sido…
— RETIREM AS MÁSCARAS!
(… a Morte Rubra dominava tudo! )
Com um grito crescente e miserável, ele deu as costas para o relógio, tropeçando nos próprios pés como se fossem blocos de madeira, as mãos estendidas implorando que parassem, que levassem Danny, Wendy e ele, que levassem o mundo todo se quisessem, mas que parassem e que deixassem nele um pouco de sanidade, só um pouquinho.
O salão estava vazio.
As cadeiras de espaldar alto estavam sobre as mesas, com as pernas viradas para cima. As mesas, cobertas com uma capa de plástico. O tapete vermelho, com os bordados dourados estendidos sobre o soalho, protegendo a superfície de madeira encerada. No palco, havia somente um pé de microfone e um violão sem cordas, empoeirado, encostado na parede. A luz fria da manhã, luz de inverno, entrava pelas janelas altas.
Sua cabeça ainda girava e ele ainda se sentia bêbado, mas, quando se virou para a lareira, o drinque havia sumido. Havia apenas os elefantes de marfim… e o relógio.
Aos tropeços, atravessou o frio e sombrio saguão e o restaurante, topou no pé de uma mesa e caiu, derrubando-a e fazendo barulho. Bateu o nariz com força no chão e começou a sangrar. Levantou-se, fungando e limpando o
sangue do nariz com a mão. Atravessou o Salão Colorado e empurrou a porta de vaivém, fazendo-a bater contra as paredes.
O lugar estava vazio… mas o bar estava com o estoque completo. Deus seja louvado. Vidros e rótulos prateados cintilavam na escuridão.
Certa vez, lembrava-se, há muito tempo, ele ficara aborrecido porque o bar não tinha um fundo de espelho. Agora estava contente. Olhando através dele veria outro bêbado que abandonara o vagão dos abstêmios: o nariz sujo de sangue, a camisa para fora das calças, os cabelos despenteados, a barba por fazer.
( Isto é que é enfiar a mão toda no ninho. )
A solidão recaiu sobre ele repentina e totalmente. Gritou de infelicidade e desejou honestamente que estivesse morto. A esposa e o filho estavam lá em cima com a porta trancada. Os outros haviam todos partido. A festa chegara ao fim.
Cambaleou para a frente mais uma vez e chegou ao bar.
— Lloyd, porra, cadê você? — gritou.
Não houve resposta. Neste cômodo
( cela)
muito bem revestido, suas palavras sequer ecoavam para dar a ilusão de companhia.
— Grady!
Nenhuma resposta. Somente as garrafas, imóveis e atentas.
( Role. Finja-se de morto. Vá buscar. Finja-se de morto. Sente. Finja-se de morto. )
— Não importa, eu mesmo preparo, merda.
Na metade do caminho rumo ao balcão, perdeu o equilíbrio e caiu, batendo a cabeça no chão. Ele então tentou se levantar, pondo-se de quatro, os olhos virando de um lado para outro, sons indistintos saindo da boca. Em seguida, perdeu os sentidos, o rosto virado de lado, roncando.
Lá fora, o vento assobiava mais alto, trazendo a neve espessa. Eram oito e meia da manhã.
45
AEROPORTO DE STAPLETON, DENVER
Às 8h31 da manhã, horário da montanha, uma passageira no voo 196 da TWA começou a chorar e emitir, aos gritos, sua opinião — que talvez fosse compartilhada pelos outros passageiros (ou mesmo pela tripulação) — de que o avião ia cair.
A mulher de fisionomia angulosa ao lado de Hallorann levantou os olhos do livro e ofereceu uma breve análise de caráter:
— Que idiota. — E voltou a ler. Ela havia ingerido duas vodcas durante a viagem, mas parecia não sentir nenhum efeito da bebida.
— Vai cair! — gritou a mulher estridente. — Eu simplesmente sei que vai!
Uma aeromoça correu até sua poltrona e se agachou a seu lado. Hallorann pensou com seus botões que somente aeromoças e jovens donas de casa conseguiam se agachar com graciosidade; era um talento raro e maravilhoso.
Pensava nisso enquanto a aeromoça conversava calmamente e baixinho com a mulher, fazendo aos poucos com que ela se tranquilizasse.
Hallorann não sabia o que as outras pessoas no 196 sentiam, mas ele, particularmente, estava tão apavorado que era capaz até de se borrar todo.
Não se conseguia ver nada nas janelas, exceto uma fustigada e agitada cortina branca. O avião balançava de forma nauseante com os ventos, que pareciam vir de todos os lados. Os pilotos aumentaram a potência dos motores para oferecer uma compensação parcial, e, como consequência, o piso vibrava sob seus pés. Várias pessoas gemiam na classe econômica atrás dele. Uma aeromoça distribuiu uma porção de sacos para enjoo, e um homem, três poltronas à frente de Hallorann, vomitou sobre o seu National Observer.
Depois, sorrindo, pedia desculpas à aeromoça que veio ajudá-lo.
— Sem problemas — a moça o consolou —; é assim que me sinto com relação a Seleções.
Hallorann já havia feito viagens de avião o suficiente para poder imaginar o que acontecera. A maior parte do trajeto tinha sido feita contra o vento, o tempo em Denver piorara repentina e inesperadamente, e era um pouco tarde para desviar a rota para qualquer outro lugar onde o tempo estivesse melhor.
Antes tarde do que nunca.
( Meu caro que merda de carga de cavalaria. ) Parecia que a aeromoça tinha sido bem-sucedida em conter a histeria da mulher. A passageira ainda fungava e assoava o nariz num lenço, mas ao menos deixara de emitir suas opiniões sobre o possível fim do voo para todos. A aeromoça fez um último afago no seu braço e se levantou exatamente quando o 747 sofreu a pior turbulência. Ela cambaleou e caiu sentada no colo do homem que vomitara no jornal, exibindo um belo pedaço de coxa coberta de meia-calça. O homem piscou e, em seguida, deu um tapinha gentil no ombro. Ela sorriu, mas Hallorann viu estampado o esforço em sua expressão. Era um voo tremendamente difícil.
Houve um pequeno murmúrio, quando a luz do NÃO FUME acendeu novamente.
“Aqui é o comandante falando”, informou uma voz macia, com sotaque de sulista. “Estamos prontos para pousar no Aeroporto Internacional de Stapleton. Tivemos um voo difícil, pelo qual peço desculpas. A aterrissagem poderá ser também um pouco complicada, mas não antecipamos nenhuma dificuldade iminente. Por favor, observem os avisos de APERTAR OS CINTOS e NÃO FUMAR, e esperamos que apreciem sua estada em Denver. Desejamos também…”
Outro solavanco sacudiu o avião e o fez descer com um vácuo nauseante.
O estômago de Hallorann embrulhou. Muitas pessoas — não apenas mulheres — gritaram.
“… vê-los novamente em outro voo da TWA muito em breve.”
— Sem chance — comentou alguém atrás de Hallorann.
— Que bobagem — observou a mulher de fisionomia angulosa ao lado de Hallorann, marcando o livro com um palito de fósforo e fechando-o enquanto o avião começava a descer. — Quando uma pessoa já presenciou os horrores de uma guerrinha suja… como o senhor já viu… Ou quando já sentiu a imoralidade degradante da intervenção da CIA na diplomacia do dólar… como eu já senti… uma aterrissagem difícil se torna insignificante. Estou certa, sr.
Hallorann?
— E como, senhora — respondeu, olhando para a neve que caía forte.
— Como é que sua placa de aço está reagindo a isso tudo, se me permite a pergunta?
— Ah, minha cabeça está bem — falou Hallorann. — Só o estômago está um pouco enjoado.
— Que pena. — E abriu o livro novamente.
Enquanto baixavam pelas impenetráveis nuvens de neve, Hallorann pensou num acidente que ocorrera alguns anos antes no aeroporto de Boston. As condições eram semelhantes, só que, em vez de neve, havia um nevoeiro que reduzia a visibilidade a zero. O trem de pouso prendeu em um muro perto da cabeceira da pista, e o que restara das oitenta e nove pessoas a bordo não foi muito diferente de um churrasco.
Não se importaria muito se acontecesse com ele. Estava sozinho no mundo agora, e as presenças em seu funeral se restringiriam basicamente às pessoas com quem trabalhara e àquele velho renegado Masterton, que, pelo menos, brindaria em sua homenagem. Mas o menino… O menino dependia dele.
Hallorann representava talvez toda a ajuda que aquela criança esperava, e ele não gostava do jeito como o último chamado tinha sido interrompido. Ficava pensando na forma como os arbustos de animais pareciam se mexer…
Uma mão leve e branca surgiu sobre a sua.
A mulher de fisionomia impenetrável havia tirado os óculos. Sem eles sua expressão era muito mais suave.
— Vai ficar tudo bem — disse ela.
Hallorann sorriu e meneou a cabeça.
Conforme anunciado, o avião fez uma aterrissagem dura, encostando na pista com força suficiente para derrubar a maioria das malas no bagageiro e lançar as bandejas da cozinha como se fossem cartas de baralho gigantes.
Ninguém gritou, mas Hallorann ouviu vários dentes trincando como castanholas de cigana.
Então as turbinas uivaram, freando o avião. Enquanto o ruído diminuía, a suave voz sulista do piloto, talvez ainda não completamente segura, veio ao sistema de som.
“Senhoras e senhores, sejam bem-vindos ao aeroporto de Stapleton. Por favor, permaneçam sentados até que a aeronave esteja completamente parada junto ao terminal. Obrigado.”
A mulher ao lado de Hallorann fechou o livro e deu um longo suspiro.
— Vamos viver para lutar mais um dia, sr. Hallorann.
— Senhora, o dia de hoje ainda não terminou.
— Verdade. Pura verdade. Gostaria de tomar um drinque comigo?
— Gostaria, mas tenho um compromisso.
— Urgente?
— Muito urgente — respondeu Hallorann sério.
— Algo que contribuirá, de alguma forma, para a melhoria da situação geral, espero.
— Eu também espero — confirmou Hallorann com um sorriso. Ela sorriu de volta e pareceu ter rejuvenescido dez anos ao fazê-lo.
Como sua única bagagem era a bolsa de viagem que levava nas mãos, Hallorann foi o primeiro passageiro a chegar ao balcão da Hertz. Pelas janelas embaçadas, podia ver a neve caindo. As pessoas que andavam no estacionamento lutavam contra o vento, que levantava nuvens de flocos brancos. Hallorann sentiu pena de um homem que observava seu chapéu ser levado de sua cabeça, voando alto e imponente.
( Ah, cara, pode esquecer. Esse chapéu só vai baixar no Arizona. ) E a propósito do pensamento:
( Se está assim em Denver, como estará a oeste de Boulder? )
Talvez seja melhor não pensar nisso.
— Posso ajudar, senhor? — perguntou a moça de amarelo do balcão da Hertz.
— Se você tiver um carro, então poderá me ajudar — respondeu com um sorriso largo.
Por um preço mais pesado que o normal, conseguiu um carro mais pesado que o normal. Um Buick Electra preto e prateado. A escolha foi feita pensando nas estradas sinuosas, não no modelo. E ele ainda teria que parar em algum lugar no caminho para colocar correntes nos pneus. Sem elas, não iria muito longe.
— O tempo anda muito feio? — perguntou, enquanto a funcionária lhe entregava o contrato para assinar.
— Dizem que esta é a pior nevasca desde 1969 — respondeu a moça, animada. — O senhor precisa ir muito longe?
— Mais longe do que gostaria.
— Se o senhor quiser, posso telefonar para o posto da Texaco no entroncamento da rota 270. Eles colocarão as correntes para o senhor.
— Isso seria formidável, querida.
Ela pegou o telefone e fez a ligação.
— Estarão à sua espera.
— Muito obrigado.
Ao deixar o balcão, viu a mulher de fisionomia angulosa parada numa das filas em frente à esteira de bagagem. Ainda estava lendo o livro. Hallorann, ao passar, lhe dirigiu uma piscadela. Ela levantou o rosto, sorriu e fez com os dedos um sinal de paz.
( iluminação)
Ele levantou a gola do casaco, sorrindo, e passou a sacola leve para a outra mão. Muito pouco, mas ela o fez se sentir melhor. Lamentava ter contado aquela mentira sobre a placa de aço na cabeça. Em sua mente, desejou o bem a ela e, enquanto saía no vento e na neve, pensou que ela também lhe desejava o mesmo.
A taxa para colocação de correntes no posto de serviço era pequena, mas Hallorann ofereceu ao funcionário da garagem mais dez dólares para ser passado na frente na lista de espera. Faltavam ainda quinze minutos para as dez horas quando ele realmente entrou na estrada, os limpadores de para-brisa estalando, e as correntes tilintando monotonamente nas rodas grandes do Buick.
A autoestrada estava uma desgraça. Mesmo com as correntes, não conseguia andar a mais de cinquenta. Alguns carros saíam da pista em ângulos loucos, e em muitos dos aclives o tráfego avançava com dificuldade, os pneus de verão rodando impotentes na neve. Era a primeira nevasca de inverno aqui nas planícies (se é que 1600 metros acima do nível do mar poderiam ser chamados de “planícies”), e não estava fácil. Muitos dos motoristas estavam desprevenidos, o que era bastante normal, mas Hallorann mesmo assim se viu xingando ao passar por eles, espreitando no retrovisor externo sujo de neve para se certificar que nada estava ( Disparando pela neve…)
subindo pela esquerda para bater no traseiro de lataria preta.
Mais azar esperava por ele na rampa de subida da rota 36. Esta rodovia, que liga Denver a Boulder, também segue para oeste, para Estes Park, onde se junta com a rota 7. Esta estrada, também conhecida como a estrada das Terras Altas, passa por Sidewinder, pelo Hotel Overlook e, finalmente, desce a encosta oeste até Utah.
O início da subida estava bloqueado por um caminhão virado.
Sinalizadores luminosos estavam espalhados em volta como velas de aniversário em um bolo idiota de criança.
Hallorann parou e baixou a janela. Um guarda, com um chapéu de pele tipo cossaco, gritava e apontava para o fluxo do tráfego, que se movia em direção norte na I-25.
— Não pode subir por aqui! — berrou para Hallorann no vento. — Desça mais duas entradas, entre na 91, e vire na 36 em Broomfield!
— Acho que consigo contornar o caminhão pela esquerda! — Hallorann gritou de volta. — Isso aí que você inventou serão mais trinta quilômetros no meu caminho!
— Vou inventar uma porrada na sua cabeça! — respondeu o guarda. —
Esta rampa está bloqueada!
Hallorann engatou a ré, esperou uma oportunidade e prosseguiu a caminho da rota 25. As placas informavam que estava apenas a cento e sessenta quilômetros de Cheyenne, Wyoming. Se não prestasse atenção na entrada certa, acabaria lá.
Aumentou a velocidade para cinquenta e cinco, mas não se atreveria a ir além disso; a neve já ameaçava emperrar o limpador de para-brisa, e o trânsito estava decididamente louco. Foram trinta e dois quilômetros de desvio. Ele praguejou, e a sensação de que o tempo estava cada vez mais
curto para o menino aumentou novamente, quase o sufocando com a urgência. Ao mesmo tempo teve a certeza fatalista de que não voltaria desta viagem.
Ligou o rádio, girou o botão de sintonia ignorando os anúncios de Natal até localizar uma previsão meteorológica.
“… já quinze centímetros, e mais trinta são esperados na região metropolitana de Denver ao anoitecer. As polícias local e estadual recomendam que vocês não tirem seus carros da garagem, a menos que seja absolutamente necessário, e advertem que a maioria dos desfiladeiros nas montanhas já foi fechada. Portanto, permaneçam em casa, encerem seus esquis e continuem ligados na…”
— Obrigado, mamãe. — Hallorann agradeceu e, furioso, desligou o rádio.
46
WENDY
Por volta do meio-dia, Wendy pegou a faca enrolada no pano de prato que estava debaixo do travesseiro, guardou-a no bolso do roupão e foi à porta do banheiro, onde estava Danny.
— Filho?
— Que foi?
— Vou descer para fazer o almoço para nós. Está tudo bem?
— Tá. Quer que eu desça?
— Não, vou trazer aqui para cima. O que acha de uma omelete de queijo e sopa?
— Tá bom.
Ela hesitou do lado de fora da porta fechada por mais um momento.
— Danny, tem certeza de que você está bem?
— Tenho — respondeu. — Tome cuidado.
— Onde está seu pai? Você sabe?
Ele respondeu, curiosamente sem emoção:
— Não. Mas tá tudo bem.
Ela sufocou um desejo imenso de continuar fazendo perguntas, de continuar bisbilhotando pelas frestas. A coisa estava ali, sabiam o que era, e bisbilhotar só aumentaria o medo de Danny… e dela também.
Jack havia enlouquecido. Por volta de oito da manhã, quando a tempestade começava a ficar mais forte, os dois se sentaram na cama de dobrar de Danny e o ouviram, lá embaixo, berrando e caindo por cima das coisas. A maior parte dos ruídos parecia vir do salão de baile. Jack cantava desafinado trechos
de canções, discutia com algum interlocutor imaginário, às vezes gritava alto, e os dois se entreolhavam com rostos paralisados. Finalmente, ouviram Jack tropeçando de volta ao saguão, e Wendy pensou ter ouvido uma pancada alta, como se ele tivesse caído ou aberto uma porta com violência. Desde oito e meia — fazia agora três horas e meia — só havia silêncio.
Ela passou pelo corredor curto, dobrou para o principal do primeiro andar e seguiu até as escadas. Parou entre um lance e outro, olhando para o saguão.
Parecia deserto, mas o dia cinzento de neve deixara quase todo o longo saguão às escuras. Danny poderia estar errado. Jack poderia estar atrás de uma cadeira ou sofá… talvez atrás do balcão de recepção… esperando que ela descesse…
Molhou os lábios.
— Jack?
Nenhuma resposta.
Sua mão segurou o cabo da faca, e ela começou a descer. Wendy tinha visualizado o fim de seu casamento várias vezes, no divórcio, na morte de Jack em um acidente de carro provocado pela bebida (uma visão constante na escuridão das madrugadas de Stovington). Às vezes, em devaneios acordada, via-se sendo descoberta por outro homem, um cavaleiro de novela que levaria ela e Danny para longe em seu cavalo branco. Mas nunca tinha se imaginado rondando corredores e escadas como uma criminosa nervosa, segurando uma faca para se defender de Jack.
O pensamento a fez ser tomada por uma onda de desespero, e ela precisou parar na metade da escada, segurando o corrimão, temendo que as pernas lhe faltassem.
( Admita. Não é só Jack, ele é apenas a única coisa sólida de tudo isso, e através dele você pode encostar nas outras coisas, aquelas em que você não acredita mas está sendo forçada a acreditar, aquilo tudo sobre os arbustos, os resquícios da festa no elevador, a máscara. ) Tentou impedir o pensamento, mas era muito tarde. ( e as vozes. )
Porque, de tempos em tempos, não tinha parecido que um homem louco solitário se encontrava abaixo deles, gritando e mantendo diálogos com fantasmas em sua mente doentia. De tempos em tempos, como um sinal de rádio que oscila, ela ouvira — ou imaginara ter ouvido — outras vozes, música e risos. Em certos momentos, ouvia Jack conversando com um homem chamado Grady (o nome era familiar, mas não sugeria nenhuma
ligação concreta), fazendo afirmações e perguntas no silêncio, falando alto, como se para se fazer ouvir em meio a um vozerio de uma festa. E então, misteriosamente, havia outros ruídos, parecendo escapar do lugar: uma orquestra de baile, aplausos, um homem de voz alegre, mas ao mesmo tempo autoritária, que parecia tentar persuadir alguém a fazer um discurso. Durante trinta a sessenta segundos ouvira isso, tempo suficiente para aumentar o pavor. E então tudo se extinguiu novamente, e ela só ouvia Jack, falando de modo imponente, mas ainda um pouco enrolado, como falava quando estava bêbado. Mas não havia nenhuma bebida no hotel, além do xerez na cozinha.
Não era? Sim, mas, se ela podia imaginar que o hotel estava cheio de vozes e música, Jack não poderia se imaginar bêbado?
Não gostava desse pensamento. Nem um pouco.
Wendy chegou ao saguão e olhou ao redor. A corda de veludo que isolava a porta do salão de baile havia sido baixada; a pequena coluna de aço em que a corda estivera presa havia sido derrubada, como se alguém tivesse descuidadamente esbarrado ao passar. Uma luz suave entrava pela porta aberta, batendo no tapete do saguão, vinda das janelas altas e estreitas do salão de baile. Com o coração batendo forte, foi às portas abertas do salão e olhou. Estava vazio e silencioso. O único som era o eco baixo e curioso que parece permanecer em todos os lugares grandes, da catedral mais imponente ao mais simples salão de bingo de uma cidadezinha.
Voltou ao balcão de recepção e ficou ali, indecisa por um momento, ouvindo o vento uivar lá fora. Aquela era a pior tempestade que tinham enfrentado até agora, e ainda continuava aumentando em intensidade. Em algum lugar na ala oeste, o trinco de uma veneziana quebrara, fazendo a cortina bater com estalos regulares, como um estande de tiro ao alvo com um único freguês.
( Jack, você realmente devia cuidar disso. Antes que alguma coisa entre. ) O que faria se ele a atacasse agora?, pensou. Se ele pulasse de detrás do escuro e envernizado balcão de recepção, com seus formulários e campainha prateada, como um palhaço assassino salta da caixa surpresa, grotesco e sorridente com um cutelo de açougueiro na mão e olhos desvairados? Ficaria paralisada de pavor ou haveria nela uma leoa capaz de lutar pelo filho até a morte? Não sabia. O mero pensamento já a deixava enjoada… fazia sentir que sua vida inteira tinha sido um sonho longo e tranquilo que acabara em um verdadeiro pesadelo. Ela era fraca. Quando os problemas apareciam, dormia. Seu passado não era digno de nota. Nunca fora exposta a uma prova
de fogo. Agora, a prova se encontrava diante dela, não de fogo, mas de gelo, e não seria permitido dormir numa situação dessas. O filho esperava lá em cima.
Apertando o cabo da faca com mais força, espreitou por cima do balcão.
Nada ali.
Ela deixou o ar escapar aliviado num longo suspiro.
Levantou a tampa do balcão e prosseguiu, parando para dar uma olhada no escritório antes de entrar de vez. Tateou na porta seguinte, à procura dos interruptores das lâmpadas da cozinha, esperando friamente que uma mão pousasse sobre a sua a qualquer momento. Em seguida, as lâmpadas fluorescentes acenderam com minúsculos cliques e zumbidos, e ela pôde ver a cozinha do sr. Hallorann — agora sua cozinha — com azulejos verdes, fórmica brilhante, porcelana limpíssima e utensílios cintilantes. Prometera que manteria a cozinha limpa e cumprira a promessa. Sentia que era um dos lugares seguros para Danny. A presença de Dick Hallorann parecia envolvê-la e consolá-la. Danny havia chamado pelo sr. Hallorann e, lá em cima, sentada ao lado do filho amedrontado, enquanto o marido gritava e se enfurecia embaixo, aquilo parecia ser a mais remota esperança. Mas aqui, no lugar do sr. Hallorann, parecia quase possível. Talvez ele estivesse a caminho agora, querendo chegar até eles, independentemente da tempestade. Talvez fosse assim.
Foi à despensa, abriu a porta e entrou. Pegou uma lata de sopa de tomate, fechou a porta novamente e a trancou. A porta era bem rente ao chão. Se fosse mantida trancada, não era preciso se preocupar com excrementos de rato ou camundongo no arroz, na farinha ou no açúcar.
Abriu a lata e colocou o conteúdo gosmento numa panela — plop. Foi à geladeira, tirou leite e ovos para a omelete. Em seguida, pegou queijo no frigorífico. Todas essas ações, tão comuns e tão parte de sua vida antes do Overlook, ajudavam Wendy a se acalmar.
Derreteu a manteiga na frigideira, diluiu a sopa com leite e então acrescentou os ovos batidos.
Teve uma repentina sensação de que havia alguém atrás dela, a ponto de agarrar sua garganta.
Virou-se para trás, segurando a faca. Ninguém.
( Recomponha-se, garota! )
Cortou um pedaço de queijo e o jogou na omelete, agitando a frigideira.
Baixou o fogo. A sopa estava quente. Colocou a panela numa bandeja grande, com os talheres, dois pratos fundos, dois rasos, o sal e a pimenta. Quando a omelete ficou pronta, transferiu-a para um dos pratos e a cobriu.
( Agora volte por onde veio. Apague as luzes da cozinha. Passe pelo escritório. Pelo portão da recepção, receba duzentos dólares. ) Parou no saguão junto ao balcão de recepção e descansou a bandeja ao lado da campainha prateada. A irrealidade tinha limites; tudo isso era como um jogo surrealista de esconde-esconde.
Parou no saguão sombrio, franzindo a testa pensativa.
( Não fuja dos fatos desta vez, garota. Algumas coisas são reais, por mais louca que a situação possa parecer. Uma delas é que você pode ser a única pessoa responsável que restou neste prédio grotesco. Você tem um filho com quase seis anos para cuidar. E seu marido, não importa o que tenha acontecido nem quão perigoso ele possa ser… talvez seja parte de sua responsabilidade também. E mesmo que não seja, considere o seguinte: hoje é dia 2 de dezembro. Pode ser que fique presa aqui por mais quatro meses se um guarda-florestal não aparecer. Mesmo que comecem a se perguntar por que não têm ouvido vocês pelo radiotransmissor, ninguém virá hoje… Ou amanhã… talvez nem durante semanas. Vai passar um mês se esgueirando para pegar comida com uma faca no bolso e se assustando com cada sombra? Você realmente acha que pode evitar Jack durante um mês? Acha que pode proibir a entrada de Jack em seu quarto? Ele tem a chave mestra e um chute mais forte pode arrebentar o trinco. ) Deixando a bandeja no balcão, caminhou devagar para o restaurante e olhou para dentro. Estava deserto. Havia uma mesa com as cadeiras arrumadas em volta, a mesa em que haviam tentado comer até que o vazio do restaurante começou a apavorá-los.
— Jack? — ela chamou hesitante.
Naquele momento, o vento soprou forte, fazendo a neve bater nas venezianas, mas parecia haver mais alguma coisa. Um grunhido abafado.
— Jack?
Nenhuma resposta. Mas seus olhos bateram em algo sob as portas de vaivém do Salão Colorado, algo que cintilava de leve, na luz suave. O
isqueiro de Jack.
Criando coragem, foi até a porta de vaivém e a abriu. O cheiro de gim era tão forte que precisou prender a respiração. Se é que se podia chamar aquilo de cheiro; era definitivamente um fedor. Mas as prateleiras estavam vazias.
Onde, em nome de Deus, ele teria encontrado bebida? Uma garrafa escondida
atrás de um dos armários? Onde?
Ouviu outro grunhido baixo, ligeiramente embriagado, mas perfeitamente audível desta vez. Wendy caminhou devagar para o bar.
— Jack?
Nenhuma resposta.
Olhou por sobre o balcão do bar e lá estava ele, estendido no chão, em estupor. Pelo cheiro, estava bêbado como um gambá. Deve ter tentado pular por cima do bar e perdeu o equilíbrio. Um milagre não ter quebrado o pescoço. Ela logo se lembrou de um ditado: “Deus protege as crianças e os bêbados”. Amém.
Ainda assim, não sentia raiva dele; olhando para o marido, pensou que parecia um menininho terrivelmente cansado, que depois de muita atividade adormecera no meio da sala. Jack havia deixado de beber, e não foi ele quem tomou a decisão de voltar ao vício; não havia bebida para ele voltar… então de onde viera?
Garrafas de vinho embrulhadas em palha, com os gargalos tampados com velas, ornavam o balcão em forma de ferradura do bar, a cada dois metros.
Davam uma aparência boêmia, achava ela, que sacudiu uma, esperando ouvir o barulho de líquido,
( vinho novo em garrafas velhas)
mas não havia nada. Colocou-a de volta no lugar.
Jack estava começando a se mexer. Ela rodeou o bar, encontrou a portinhola e foi até onde ele estava deitado, parando apenas para olhar as torneiras cintilantes. Estavam secas, mas ao passar por elas sentiu o cheiro de cerveja fresca.
Ao se aproximar de Jack, ele se virou, abriu os olhos e olhou para ela. Seu olhar, vazio, foi aos poucos ganhando expressão.
— Wendy? — perguntou. — É você?
— Sim — respondeu ela. — Acha que aguenta subir? Consegue se apoiar em mim? Jack, onde foi que você…
As mãos dele apertaram brutalmente os tornozelos da mulher.
— Jack! O que você está…
— Peguei você — falou, e começou a sorrir maliciosamente. Um cheiro azedo de gim e azeitonas pairava em volta dele e parecia despertar um velho terror em Wendy, um terror pior do que qualquer hotel poderia causar por si só. Uma parte distante dela pensou que o pior era ver tudo retornando ao mesmo ponto: ela e o marido bêbado.
— Jack, quero ajudar.
— Ah, sim. Você e Danny querem apenas ajudar. — A força em volta do tornozelo aumentava agora. Ainda segurando, Jack se pôs de joelhos, tremendo. — Vocês queriam nos ajudar, bem longe daqui. Mas agora… eu…
peguei você!
— Jack, você está machucando meu tornozelo…
— Vou machucar muito mais do que o tornozelo, sua vaca.
A palavra a atordoou de tal forma que, quando ele soltou seu tornozelo e cambaleou para ficar em pé, ela não fez o menor esforço para fugir.
— Você nunca me amou — disse ele. — Queria que a gente fosse embora porque sabia que seria o meu fim. Já parou para pensar nas minhas re… res…
respons’bilidades? Não, aposto que não. Tudo que você pensa são maneiras de acabar comigo. É exatamente como minha mãe, sua vaca covarde!
— Pare com isso — ela pediu, chorando. — Você não sabe o que está dizendo. Está bêbado. Não sei como, mas está bêbado.
— Ah, eu sei. Eu sei agora. Você e ele. Aquele fedelho lá em cima. Vocês dois, fazendo planos. Não é isso?
— Não, não! Nunca fizemos planos. O que você…
— Mentirosa! — gritou. — Sei como fazem! Acho que sei! Quando eu digo “Nós vamos ficar aqui, e eu vou fazer meu trabalho”, você diz “Sim, querido”, e ele diz “Sim, papai”, e então fazem as suas armações. Planejaram usar o snowmobile. Vocês planejaram isso. Mas eu sabia. Deduzi. Achou que eu não fosse deduzir? Pensou que eu fosse um idiota?
Ela o olhava fixamente, sem poder falar. Ele iria matá-la e depois mataria Danny. Então talvez o hotel ficasse satisfeito e deixaria que ele se matasse.
Exatamente como o antigo zelador. Exatamente como
( Grady. )
Quase desmaiando de terror, deduziu finalmente com quem Jack estivera conversando no salão de baile.
— Você instigou meu filho contra mim. Isso foi o pior. — Seu rosto cedeu à autopiedade. — Meu filhinho. Agora ele me odeia também. Você cuidou para que isso acontecesse. Sempre foi seu plano, não foi? Sempre teve ciúme, não teve? Exatamente como sua mãe. Não ficaria satisfeita enquanto não comesse o bolo inteiro, não é? Não é?
Ela não conseguia falar.
— Bem, vou dar um jeito em você — ele falou enquanto tentava pôr as mãos em volta do pescoço da esposa.
Wendy deu um passo atrás, em seguida outro, e ele cambaleou contra ela.
Wendy se lembrou da faca no bolso do roupão e tateou procurando, mas agora o braço esquerdo do marido passou em volta dela, prendendo o braço contra o corpo. Ela sentiu o cheiro forte de gim e o azedo do suor.
— Tem que ser castigada — resmungou ele. — Punida. Punida…
severamente.
A mão direita de Jack encontrou a garganta de Wendy.
Ao se sentir asfixiada, o pânico tomou conta dela. A mão esquerda de Jack se juntou à direita, e agora ela estava com os braços livres para poder agarrar a faca, mas se esqueceu desse detalhe. Ergueu as duas e começou a empurrar inutilmente as mãos grandes e fortes do marido.
— Mamãe! — gritou Danny de algum lugar. — Papai, pare! Você está machucando a mamãe! — ele gritava em voz alta e aguda, e Wendy ouviu o som cristalino ao longe.
Clarões vermelhos de luz saltavam diante de seus olhos como bailarinos. O
lugar escureceu. Viu o filho pulando em cima do bar e se jogando sobre os ombros de Jack. De repente, uma das mãos que apertavam sua garganta se afastou quando Jack estapeou Danny com um rosnado. O menino se chocou contra as prateleiras vazias e caiu no chão, tonto. A mão voltou à garganta.
Os clarões vermelhos começaram a se tornar pretos.
Danny chorava baixinho. O peito de Wendy ardia. Jack gritava em seu rosto:
— Vou dar um jeito em você! Sua piranha, vou mostrar quem é que manda aqui! Vou lhe mostrar…
Mas todos os sons se apagaram em um longo corredor escuro. Ela começou a perder as forças. Uma das mãos soltou a de Jack e se ergueu lentamente até que o braço estivesse esticado, formando um ângulo reto com o corpo, a mão balançando como a de uma mulher afogada.
A mão esbarrou numa garrafa — uma das garrafas de vinho embrulhadas em palha que serviam de castiçais decorativos.
Sem enxergar, usando de suas últimas forças, tateou à procura da garrafa e a encontrou, sentindo as sebosas pérolas de parafina nas mãos.
( Deus, e se escorregar? )
Levantou a garrafa e em seguida a baixou, rezando para acertá-lo e sabendo que, se atingisse apenas o ombro ou o braço dele, estaria liquidada.
Mas a garrafa acertou em cheio na cabeça de Jack, fazendo o vidro se despedaçar por dentro da palha. A base era grossa e pesada, e fez um ruído ao
atingir o crânio do marido como se fosse uma bola de boliche que cai sobre o chão de madeira. Jack cambaleou, virando os olhos nas órbitas. A pressão na garganta diminuiu e desapareceu por completo. Ele tirou as mãos de cima dela, como que para se equilibrar e, em seguida, caiu de costas.
Wendy respirou fundo. Ela mesma quase caiu. Apoiou-se no bar, tentando se equilibrar. Ainda não estava totalmente consciente. Ouvia Danny chorando, mas não tinha ideia de onde ele estava. Parecia um choro dentro de uma câmara de eco. Viu, vagamente, gotas de sangue pingando sobre a superfície escura do bar… caindo do nariz, pensou. Limpou a garganta e cuspiu no chão. Sentiu uma agonia, que aos poucos se transformava em dor… mas suportável.
Aos poucos, foi recuperando os sentidos.
Ela se afastou do bar, virou e viu Jack caído, a garrafa quebrada ao lado.
Parecia um gigante derrubado. Danny estava agachado debaixo do balcão da caixa registradora do bar, com as mãos na boca, olhos fixos no pai inconsciente.
Wendy foi até ele sem muito equilíbrio e tocou seus ombros. Danny se esquivou.
— Danny, ouça…
— Não, não — resmungou ele, com a voz rouca de um velho. — Papai machucou você… você machucou papai… Papai machucou você… Quero ir dormir. Danny quer dormir.
— Danny…
— Dormir, dormir. Boa noite.
— Não!
A garganta doía novamente. Wendy tremeu. Mas Danny abriu os olhos, que estavam atentos dentro das órbitas cercadas de olheiras.
Wendy se esforçou para falar com calma, olhando o filho nos olhos. Sua voz era baixa e rouca, quase um sussurro. Era difícil falar. Doía.
— Ouça, Danny. Não foi seu pai que tentou me machucar. E eu não quis machucar ele. O hotel dominou ele, Danny. O Overlook dominou seu pai.
Você me entende?
Uma espécie de compreensão brotou aos poucos nos olhos de Danny.
— A Coisa Feia — murmurou o garoto. — Não tinha nada por aqui antes, né?
— Não. Foi o hotel que colocou aqui. O… — parou com uma crise de tosse e cuspiu mais sangue. Já sentia a garganta inchada, muito inchada. — O
hotel fez com que ele bebesse. Você ouviu aquelas pessoas com quem ele conversava hoje de manhã?
— Ouvi… as pessoas do hotel…
— Eu também ouvi. E isso significa que o hotel está ficando mais forte.
Quer machucar todos nós. Mas eu acho… espero… que faça isso somente através de seu pai. Ele era o único que o hotel poderia pegar. Está me entendendo, Danny? É muito importante que você entenda.
— O hotel pegou papai. — O garoto olhava para Jack e gemia.
— Sei que você ama seu pai. Eu também amo. Temos que nos lembrar que o hotel está tentando machucar ele tanto quanto quer nos machucar também.
— E ela estava convencida de que era verdade. E mais, achava que Danny era a pessoa que o hotel realmente queria, a razão por estar indo tão longe…
talvez a razão pela qual pudesse ir tão longe. Poderia ser até que, de alguma forma desconhecida, a iluminação de Danny transmitisse força ao hotel, do mesmo modo que uma bateria gera força à parte elétrica de um carro… e faz o carro ligar. Se saíssem daqui, o Overlook poderia voltar ao seu estado semiconsciente anterior, capaz de fazer pouco mais do que apresentar pequenos episódios de terror barato aos hóspedes psiquicamente mais sensíveis. Sem Danny, o hotel não seria mais do que uma casa mal-assombrada de um parque de diversões, onde um ou dois hóspedes ouviriam ruídos ou sons fantasmagóricos de um baile de máscaras, ou ocasionalmente veriam alguma coisa estranha. Mas se o hotel absorvesse Danny… Ou sua iluminação, sua força vital ou seu espírito… enfim… como seria?
O pensamento a deixou gelada.
— Eu queria que papai estivesse bom — disse Danny, e as lágrimas voltaram a rolar.
— Eu também — ela respondeu e abraçou Danny apertado. — E, meu bem, é por isso que você precisa me ajudar a pôr seu pai em algum lugar. Um lugar onde o hotel não permita que ele machuque a gente, e onde ele também não possa se machucar. Então… se seu amigo Dick vier, ou um guarda-florestal, poderemos sair daqui com ele. E eu acho que ele vai ficar bom novamente. Acho que ainda existe uma possibilidade, se formos fortes e corajosos, como você foi quando pulou nas costas dele. Você entende? —
olhou suplicante para o filho e pensou em como isso tudo era estranho; nunca o tinha visto tão parecido com Jack.
— Sim — concordou Danny, balançando a cabeça. — Acho… que se a gente puder ir embora daqui… tudo vai ser como era antes. Onde a gente
pode colocar o papai?
— Na despensa. Lá tem comida e um ferrolho forte na porta. É quentinho.
E nós podemos usar a comida que está no congelador e na geladeira. Teremos comida suficiente para nós, até alguém chegar para nos ajudar.
— A gente vai fazer isso agora?
— Sim, agora mesmo. Antes que ele acorde.
Danny levantava a porta do balcão do bar enquanto ela dobrava as mãos de Jack sobre o peito e ouvia sua respiração. Era lenta, mas regular. Pelo cheiro, pensou ela, devia ter bebido muito… e havia perdido o hábito. Provavelmente a bebida e a pancada na cabeça ajudaram a derrubá-lo.
Pegou as pernas de Jack e começou a arrastá-lo pelo chão. Estava casada há quase sete anos, ele deitara por cima dela inúmeras vezes… centenas…
mas nunca imaginou que fosse tão pesado. Wendy assobiava ao respirar e sentia dor na garganta ferida. No entanto, sentia-se bem, como há dias não se sentia. Estava viva. Tendo chegado tão próximo da morte, isso era precioso.
E Jack também estava vivo. Por mera sorte, encontraram talvez o único modo de se salvarem.
Ofegante, parou por um momento, segurando os pés erguidos de Jack junto aos quadris. O cenário a fez se lembrar do livro A Ilha do Tesouro, quando o velho pirata recebe o papel com a mancha negra e grita: Ainda vamos acabar com eles!
E, em seguida, inquieta, lembrou que o velho marujo morre segundos depois.
— Você está bem, mamãe? Ele é… ele é muito pesado?
— Eu consigo. — Voltou a arrastá-lo. Danny estava ao lado de Jack. Uma das mãos caíra de cima do peito, e Danny com muito carinho a ajeitou de volta.
— Tem certeza, mamãe?
— Sim. É o melhor, Danny.
— É como botar papai na cadeia.
— Só por pouco tempo.
— Então está bem. Tem certeza que aguenta?
— Tenho.
Mas quase não conseguiu. Danny estava segurando a cabeça do pai quando passaram pela soleira da porta, mas suas mãos escorregaram no cabelo oleoso de Jack quando entraram na cozinha. A cabeça bateu no ladrilho, e Jack começou a resmungar e a se agitar.
— Tem que usar fumaça — murmurou Jack rapidamente. — Agora corra e vá buscar a lata de gasolina.
Wendy e Danny se entreolharam com medo.
— Me ajude — ela pediu baixinho.
Por um momento, Danny estancou, como que paralisado pelo rosto do pai e, em seguida, passou desajeitado para o lado dela para ajudá-la a segurar a perna esquerda. Arrastaram Jack pela cozinha, numa espécie de câmara lenta de um pesadelo; o único ruído era o zumbido das lâmpadas fluorescentes e da respiração esforçada dos dois.
Quando chegaram à despensa, Wendy baixou os pés de Jack e se virou para mexer no ferrolho. Danny olhou para o pai, que se acalmara novamente.
A camisa estava para fora das calças, e Danny imaginou se o pai, mesmo tão bêbado, não sentiria frio. Parecia errado trancar uma pessoa na despensa como um animal selvagem, mas tinha visto o que ele tentou fazer com a mãe.
Mesmo quando estava lá em cima, sabia que o pai iria fazer isso. Ouvira, em sua cabeça, os dois discutindo.
( Se pelo menos pudéssemos todos sair daqui. Ou se fosse um sonho que eu estivesse sonhando em Stovington. Se pelo menos…) O ferrolho estava preso.
Wendy puxava com toda a força, mas o ferrolho não saía do lugar. Não conseguia deslizar o miserável ferrolho. Isso não fazia sentido… ela o abrira sem problema, quando foi pegar a lata de sopa. Agora não saía do lugar. O
que faria? Não podiam prender Jack na geladeira; ele morreria de frio. Mas, se o deixassem do lado de fora e ele acordasse…
Jack se mexeu de novo no chão.
— Eu vou cuidar disso — resmungou. — Compreendo.
— Ele está acordando, mamãe! — avisou Danny.
Soluçando, ela puxava o ferrolho com as duas mãos.
— Danny? — Sentia algo suavemente ameaçador, porém ainda um pouco embaçado, na voz de Jack. — É você, velhinho?
— Durma, papai — disse Danny nervoso. — Já é hora de dormir, sabe.
Olhou para a mãe, que ainda fazia força com o ferrolho, e notou imediatamente o que estava errado. Ela havia se esquecido de girar o ferrolho antes de puxá-lo. A pequena lingueta estava presa na tranca.
— Aqui — ele mostrou, baixinho, afastando as mãos trêmulas da mãe; suas próprias mãos tremiam quase que com a mesma intensidade. Soltou a tranca e a lingueta deslizou. — Rápido! — Ele olhou para baixo. Jack abrira
os olhos e desta vez olhava diretamente para o filho, com o olhar estranhamente vago e indagador.
— Você colou — disse o pai. — Sei que colou. Mas está por aqui em algum lugar. E eu vou encontrar. Juro. Vou encontrar… — Suas palavras não faziam sentido mais uma vez.
Wendy abriu a porta da despensa com o joelho, sem sentir o cheiro forte de fruta seca que pairava no ar. Segurou novamente os pés de Jack e o arrastou para dentro. Ela respirava com muita dificuldade agora, as forças esgotadas.
Enquanto puxava a corrente para acender a luz, os olhos de Jack se abriram novamente.
— O que está fazendo? Wendy, o que está fazendo?
Ela passou por cima dele.
Ele foi rápido; incrivelmente rápido. Uma das mãos se lançou contra ela, que precisou dar um passo para o lado, quase caindo pela porta aberta, para evitar que ele a agarrasse. Ainda assim, ele conseguiu puxar um pedaço do roupão, fazendo o pano se rasgar num ruído alto. Ele estava agora apoiado nos joelhos e nas mãos, o cabelo caído sobre os olhos, como um animal pesado. Um cachorro grande… Ou um leão.
— Malditos sejam vocês dois. Eu sei o que vocês querem. Mas não vão conseguir. Este hotel… é meu. Sou eu que eles querem. Eu! Eu!
— A porta, Danny! — gritou Wendy. — Feche a porta!
Ele bateu a porta pesada de madeira, exatamente quando Jack pulou. A porta trancou, e Jack a esmurrou inutilmente.
As mãozinhas de Danny buscaram o ferrolho. Wendy estava muito longe para alcançá-lo a tempo; a questão se ficaria preso ou solto seria decidida em dois segundos. Danny soltou o ferrolho, o pegou novamente e o fechou. Jack jogou o ombro contra a porta, e eles ouviram uma série de murros. O
ferrolho, com um centímetro de diâmetro, não foi abalado. Wendy suspirou profundamente.
— Me deixem sair daqui! — gritava Jack. — Me deixem sair! Danny, diabos, sou seu pai e quero sair! Faça o que estou mandando!
A mão de Danny se moveu automaticamente em direção ao ferrolho, mas Wendy a segurou e a apertou contra o peito.
— Obedeça ao seu pai, Danny! Faça o que estou dizendo! Faça ou vou lhe dar uma surra, que nunca mais vai esquecer. Abra esta porra ou eu esmago seus miolos!
Danny olhou para a mãe, pálido como uma parede.
Ouviam a respiração de Jack por detrás dos dois centímetros e meio de carvalho da porta.
— Wendy, me deixa sair! Me deixa sair agora! Sua puta barata frígida do caralho! Me deixa sair! Tô falando sério! Me deixa sair e eu esqueço tudo! Se não me soltar, acabo com você! Tô falando sério! Vou te ferrar tanto que nem sua mãe vai te reconhecer no meio da rua! Agora, abra esta porta!