O Iluminado

Stephen King · Capítulo 5 de 9 · parte 2/6

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O Iluminado

Quinta parte: Questões de vida e morte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Mas não achava que fosse explodir agora. A pressão estava a cento e sessenta.

(… foi encontrado nos escombros com a mão na válvula, escaldado até a morte pelo vapor.)

Resfolegando e tremendo, ele se afastou da caldeira. Olhou para as mãos e notou que brotavam bolhas nas palmas. Pro inferno com as bolhas, pensou, e deu uma gargalhada. Quase tinha morrido com a mão na válvula, como Casey, o maquinista, em “The Wreck of the Old 97”. Pior ainda, teria matado o Overlook. O fracasso final. Fracassara como professor, como escritor, como marido e como pai. Fracassara até como bêbado. Mas não poderia, na lista dos fracassos, fazer nada melhor do que explodir o edifício de que deveria estar cuidando. E este não era um edifício qualquer. Em hipótese alguma.

Deus, ele precisava de um gole.

A pressão caíra para oitenta. Com cuidado, tremendo um pouco com dor nas mãos, fechou a válvula novamente. Mas daqui para a frente a caldeira teria que ser observada com mais atenção do que de costume. Ela pode ter sido seriamente afetada. Não arriscaria deixar a pressão subir mais do que cem libras por polegada quadrada durante o resto do inverno. E, se sentissem um pouco de frio, paciência, teriam simplesmente que sorrir e aguentar.

Furara duas bolhas. As mãos latejavam como dentes podres.

Um drinque. Um drinque o reanimaria, mas não havia nada além de xerez naquela maldita casa. A esta altura, um drinque seria medicinal. Só isso, por Deus. Um anestésico. Cumprira com sua obrigação e agora poderia usar um pouco de anestésico… algo mais forte do que Excedrin. Mas não havia nada.

Então se lembrou das garrafas reluzindo nas sombras.

Havia acabado de salvar o hotel. O hotel gostaria de lhe dar uma recompensa. Tinha certeza disso. Tirou o lenço do bolso e o esfregou na boca. Foi até a escada. Só um drinque. Um só. Para aliviar a dor.

Servira o Overlook, e agora o Overlook o serviria. Tinha certeza. Seus pés nos degraus eram rápidos e ávidos, os passos apressados como os de um

homem que acabava de chegar em casa após uma guerra longa e amarga.

Eram 5h25 da manhã, horário da montanha.

41

DIA

Danny acordou ofegante de um pesadelo terrível. O Overlook estava em chamas. Tinha havido uma explosão. Um incêndio. Ele e a mãe assistiam ao desastre do jardim da frente.

A mãe dizia:

— Olha, Danny, olha os arbustos.

Ele olhava, e os arbustos estavam todos mortos. Suas folhas tinham ficado com uma cor marrom esmaecido. Os galhos, muito juntos, pareciam esqueletos de cadáveres semiesquartejados. E então o pai surgira pelas enormes portas do Overlook, ardendo como uma tocha. Suas roupas estavam em chamas, a pele adquirira um bronzeado sinistro que escurecia cada vez mais, o cabelo era um matagal em brasa.

Foi aí que Danny acordou, a garganta sufocada de medo, as mãos agarradas ao lençol e cobertores. Será que tinha gritado? Olhou para a mãe.

Wendy estava deitada de lado, enrolada nas cobertas, o cabelo cor de palha caindo no rosto. Parecia uma criança. Não, ele não tinha gritado.

Deitado na cama e olhando para cima, o pesadelo começou a se desvanecer. Tinha uma sensação curiosa de que uma grande tragédia (incêndio? explosão?)

tinha sido evitada por pouco. Deixou sua mente passear, à procura do pai, e o encontrou em algum lugar lá embaixo. No saguão. Danny se esforçou mais um pouco, tentando invadir o pai. Não era bom. O pai pensava sobre a Coisa Feia. Pensava em como ( um ou dois drinques seriam bons não me importo o sol está se pondo em alguma parte do mundo lembra como costumávamos dizer isso, Al? gim e tônica bourbon com uma gota de uísque com soda rum e coca-cola tweedledum tweedledee um gole para mim e um gole para ti os marcianos pousaram em algum lugar do mundo princeton ou houston , stokely on carmichael ou alguma merda de lugar afinal de contas é época de ser feliz e nenhum de nós está)

(SAIA DA CABEÇA DELE, SEU MERDINHA!)

Recuou apavorado com aquela voz na cabeça, os olhos arregalados, as

mãos segurando a colcha com força. Não era a voz do pai, mas uma imitação perfeita. Uma voz familiar. Rouca, bruta e ainda assim delineada com uma espécie de humor.

Aquilo estava tão próximo então?

Afastou os cobertores e se sentou. Com os pés, puxou os chinelos debaixo da cama e os calçou. Foi até a porta e correu para fora, os chinelos sussurrando no pelo do tapete. Dobrou o corredor.

Um homem engatinhava na metade do corredor, entre o menino e a escada.

Danny ficou imóvel.

O homem olhava para ele. Os olhos eram pequenos e vermelhos. Estava vestido com uma espécie de fantasia, bordada de lantejoulas prateadas. Uma fantasia de cachorro, imaginou Danny. Brotando do traseiro desta estranha criatura, uma cauda comprida e molenga pendia com um pompom na ponta.

Um zíper ia até o pescoço na parte de trás da fantasia. Ao seu lado esquerdo, estava a cabeça do cachorro ou lobo, os olhos mortiços acima do focinho, a boca aberta rosnando sem sentido e mostrando um pedaço preto e azul do carpete entre as presas, que pareciam ser de papel machê.

A boca, o queixo e as faces do homem estavam sujos de sangue.

Ele começou a rosnar para Danny. Sorria, mas o rosnar era verdadeiro.

Saía do fundo da garganta como um som primitivo. Em seguida, começou a latir. Os dentes também estavam manchados de sangue. Começou a engatinhar em direção a Danny, mexendo o rabo. A cabeça de cachorro da fantasia repousava, esquecida sobre o tapete, com o olhar perdido, voltado para o ombro de Danny.

— Me deixa passar — pediu Danny.

— Vou comer você, menininho — respondeu o homem-cachorro, e de repente uma chuva de latidos saiu de sua boca risonha. Eram imitações humanas, mas a ferocidade dos latidos era verdadeira. O cabelo do homem era preto, empapado com o suor provocado pela fantasia sufocante. Seu hálito era uma mistura de uísque e champanhe.

Danny recuou, mas não correu.

— Me deixa passar.

— Só se for sobre meu cadáver — afirmou o homem-cachorro. Seus pequenos olhos vermelhos estavam atentamente fixados no rosto de Danny.

Continuava sorrindo. — Vou comer você, menininho. E acho que vou começar pelo seu pintinho roliço.

Começou a se empinar para a frente, dando pequenos saltos e rosnando.

Danny não aguentou. Voou de volta para o curto corredor que levava ao quarto, olhando para trás. Ouviu uma série de uivos, latidos e rosnados quebrados por murmúrios inarticulados e risadinhas.

Danny ficou parado no corredor, tremendo.

— Levanta essa pica! — gritava o homem-cachorro bêbado, dobrando o corredor. Sua voz era ao mesmo tempo violenta e aflita. — Levanta ela, Harry, sua bicha filha da puta! Não me importa quantos cassinos e companhias aéreas e cinematográficas você tem! Sei bem do que você gosta quando está no aconchego do seu lar! Levanta! Vou soprar… vou bufar… até Harry Derwent cair! — concluiu, dando um uivo longo que parecia se tornar um grito de raiva e dor antes de desaparecer.

Danny se virou, apreensivo, em direção ao quarto no fundo do corredor e caminhou silenciosamente para lá. Abriu a porta e enfiou a cabeça pela fresta.

A mãe dormia na mesma posição. Ninguém ouvia isto, só ele.

Fechou a porta com cuidado e voltou à esquina do seu corredor com o principal, esperando que o homem-cachorro tivesse desaparecido, da mesma forma que o sangue nas paredes da Suíte Presidencial desaparecera. Espreitou com cuidado.

O homem com a fantasia de cachorro continuava lá. Havia colocado de volta a cabeça da fantasia e estava agora sobre as quatro patas junto à escadaria, querendo agarrar o rabo. De vez em quando dava um salto no tapete e voltava grunhindo.

— Au! Au! Au! Grrrrr!

Estes sons saíam de dentro da boca estilizada da fantasia, e entre eles havia o que podiam ser soluços ou risos.

Danny voltou ao quarto e se sentou na cama de dobrar, tapando os olhos com as mãos. O hotel mandava agora. Talvez, no início, as coisas que aconteceram tivessem sido apenas acidentes. Talvez, no início, as coisas que ele tinha visto fossem mesmo como gravuras de terror que não podiam machucá-lo. Mas agora o hotel mandava nessas coisas e elas podiam machucá-lo. O Overlook não queria que ele fosse atrás do pai. Isso poderia estragar a festa. Por isso, havia posto o homem-cachorro em seu caminho, assim como fizera com os arbustos de animais entre eles e a estrada.

Mas seu pai podia ir até ele. E, mais cedo ou mais tarde, ele iria.

Começou a chorar, as lágrimas rolando silenciosamente pelo rosto. Era tarde demais. Iam morrer, os três e, quando o Overlook abrisse no próximo final de primavera, estariam bem aqui para saudar os hóspedes, junto com o

resto dos fantasmas. A mulher na banheira. O homem-cachorro. A coisa sombria horrorosa que estava no tubo de concreto. Estariam…

( Pare! Pare com isso! )

Enxugou furiosamente as lágrimas. Ele se esforçaria para que isso não acontecesse. Nem com ele nem com o pai e a mãe. Ele se esforçaria.

Fechou os olhos e dirigiu a mente para fora num possante raio cristalino.

(DICK POR FAVOR VENHA RÁPIDO ESTAMOS EM APUROS

DICK PRECISAMOS)

E, de repente, na escuridão dos olhos fechados, aquela coisa que o perseguia pelos corredores escuros do Overlook em sonhos estava ali, ali mesmo. Uma criatura enorme vestida de branco, o taco pré-histórico erguido sobre a cabeça:

— Vou fazer você parar! Seu fedelho maldito! Vou fazer você parar porque sou seu PAI!

— Não! — Voltou à realidade do quarto, os olhos bem abertos e arregalados, gritos vibrando inutilmente na boca enquanto a mãe acordava, agarrando o lençol junto ao peito.

— Não, papai, não não não…

E os dois ouviram o sacudir do taco invisível, cortando o ar em algum lugar muito próximo, depois desaparecendo no silêncio, enquanto ele corria para junto da mãe e a abraçava, tremendo como um coelho numa armadilha.

O Overlook não deixaria que ele chamasse Dick. Isso também poderia estragar a festa.

Estavam sozinhos.

Lá fora, a neve caía mais forte, formando uma cortina que os separava do resto do mundo.

42

NO AR

O voo de Dick Hallorann foi chamado às 6h45 da manhã, horário do Leste. O

comissário de embarque o deteve junto ao Portão 31, onde ele ficou, passando a mala de uma das mãos para a outra, nervoso, até a última chamada, às 6h55. Aguardavam um homem chamado Carlton Vecker, o único passageiro do voo TWA 196 de Miami para Denver que ainda não havia comparecido.

— Muito bem — disse o comissário, entregando a Hallorann um cartão de

embarque da primeira classe. — Você é o felizardo. Pode embarcar.

Hallorann correu apressado na rampa de embarque coberta e deixou a aeromoça de sorriso mecânico rasgar o bilhete e lhe dar o canhoto.

— Serviremos café da manhã a bordo — informou a aeromoça. — Se preferir…

— Só café, benzinho — ele respondeu e desceu o corredor em direção a uma poltrona na ala dos fumantes. Ficou na expectativa de que o desaparecido Carlton Vecker desse o ar de sua graça no último segundo, como uma caixa de surpresa. A mulher na poltrona da janela lia Você pode ser seu melhor amigo com uma expressão azeda e descrente no rosto.

Hallorann apertou o cinto, colocou as grandes mãos negras sobre os braços da poltrona e jurou ao ausente Carlton Vecker que seriam necessários cinco comissários fortes da TWA para arrancá-lo dali. Olhou o relógio. Os minutos para as sete horas, hora da decolagem, se arrastavam com uma lentidão imensa.

Às 7h05 a aeromoça informou que haveria um ligeiro atraso, enquanto o pessoal da manutenção verificava mais uma vez um dos trincos da porta de cargas.

— Merda — murmurou Dick Hallorann.

A mulher de rosto angular virou sua expressão azeda e descrente para ele, e em seguida, baixou os olhos de volta ao livro.

Ele havia passado a noite no aeroporto, indo de balcão em balcão —

United, American, TWA, Continental, Braniff —, incomodando os operadores de vendas. Por volta da meia-noite, enquanto bebia a oitava ou nona xícara de café na lanchonete, chegou à conclusão de que era um imbecil por ter arcado com o peso da coisa toda. Havia autoridades que podiam se encarregar dessa responsabilidade. Então ele se dirigiu aos telefones e, depois de falar com três telefonistas diferentes, conseguiu o número de emergência do Parque Nacional das Montanhas Rochosas.

O homem que atendeu o telefone parecia profundamente cansado.

Hallorann omitiu seu nome completo, informando que havia problemas no Hotel Overlook, a oeste de Sidewinder. Problemas sérios.

Pediram que ele aguardasse na linha.

O guarda-florestal (Hallorann presumiu que fosse um guarda-florestal) voltou em cerca de cinco minutos.

— Eles têm um radiotransmissor — informou o guarda.

— Claro que têm um radiotransmissor.

— Ainda não recebemos nenhum chamado de socorro deles.

— Cara, isso não importa. Eles…

— Exatamente por qual tipo de problema eles estão passando, sr. Hall?

— Bem, tem uma família. O zelador e sua família. Acho que ele talvez tenha ficado louco, entende? Acho que talvez possa machucar a mulher e o filhinho.

— Posso saber como o senhor obteve esta informação, senhor?

Hallorann fechou os olhos.

— Como se chama, rapaz?

— Tom Staunton, senhor.

— Bem, Tom, eu sei. Agora, serei tão direto com você quanto puder.

Problemas sérios estão acontecendo lá em cima. Talvez sérios como um assassinato, tá me sacando?

— Sr. Hall, eu realmente preciso saber como o senhor…

— Olha — interrompeu Hallorann. — Estou lhe dizendo que sei. Há alguns anos um sujeito chamado Grady matou a mulher e as duas filhas e depois se matou lá. Estou dizendo a você que vai acontecer de novo, se vocês não levantarem a bunda daí e forem até lá impedir!

— Sr. Hall, não está ligando do Colorado.

— Não. Mas que diferença…

— Se o senhor não está no Colorado, está fora do alcance do radiotransmissor do Hotel Overlook. Se está fora do alcance do radiotransmissor, não pode nunca ter estado em contato com a… — Ruído distante de papéis sendo remexidos. — Família Torrance. Enquanto o senhor esperava na linha, tentei telefonar. Não está funcionando, o que não é de estranhar. Há ainda quarenta quilômetros de linhas telefônicas aéreas entre o hotel e Sidewinder. Minha conclusão é que o senhor deve ser algum tipo de louco.

— Ah, cara, você é um pobre… — Mas seu desespero era muito grande para encontrar um substantivo que combinasse com o adjetivo. De repente, uma ideia luminosa. — Ligue pra eles! — gritou.

— Senhor?

— Você tem rádio, eles têm rádio. Ligue pra eles então! Ligue para eles e pergunte o que há!

Houve uma pausa breve e o ruído dos fios interurbanos.

— Você também tentou isso, não foi? — perguntou Hallorann. — Foi por isso que me fez esperar tanto tempo na linha. Tentou o telefone e depois o rádio, e não conseguiu nada, mas ainda assim acha que não há nada de errado… O que vocês estão fazendo aí? Estão com a bunda sentada num banco, jogando baralho?

— Não, não estamos — respondeu Staunton, com raiva. Hallorann ficou aliviado ao ouvir aquele tom de raiva na voz dele. Pela primeira vez, sentiu que estava falando com um homem e não com uma gravação. — Sou o único homem aqui, senhor. Todos os outros guardas do parque, mais os guarda-caças, mais voluntários estão lá em cima em Hasty Notch, arriscando suas vidas porque três imbecis com seis meses de experiência resolveram tentar escalar a face norte de King’s Ram. Estão presos no meio do caminho lá em cima. Talvez desçam, talvez não. Dois helicópteros foram para lá, e os pilotos também estão arriscando suas vidas, porque já anoiteceu aqui e está começando a nevar. Por isso, se o senhor ainda tem dificuldade de juntar os fatos, vou ajudá-lo. Número um, não tenho ninguém aqui para mandar ao Overlook. Número dois, o Overlook não tem prioridade aqui… O que acontece no parque, sim, tem prioridade. Número três, mais tarde, nenhum dos helicópteros poderá voar porque vai nevar pra burro, de acordo com o Serviço de Meteorologia. O senhor entende a situação?

— Sim — confirmou Hallorann, baixinho. — Entendo.

— Agora, minha opinião sobre não ter conseguido comunicação com eles pelo rádio é muito simples. Não sei que horas são onde o senhor está, mas aqui são nove e meia. Acho que devem ter desligado o aparelho e ido para a cama. Agora, se o senhor…

— Boa sorte com seus alpinistas, cara — interrompeu Hallorann. — Mas quero que saiba que eles não são os únicos que estão presos lá por cima, por não saberem onde estavam se metendo.

Desligou o telefone.

Às 7h20 da manhã o 747 da TWA saiu pesadamente de sua porta de embarque, taxiou e foi em direção à cabeceira da pista.

Hallorann deu um suspiro profundo e silencioso. Carlton Vecker, onde quer que você esteja, morra de inveja.

O avião levantou voo às 7h28, e às 7h31, depois de ganhar altitude, a cabeça de Dick Hallorann foi atingida, mais uma vez, pelo tiro de pensamento. Os ombros se contraíram numa inútil tentativa de se proteger do cheiro de laranjas e daí entraram em espasmo. A testa franziu, a boca arqueou numa careta de dor.

(DICK POR FAVOR VENHA RÁPIDO ESTAMOS EM APUROS

DICK PRECISAMOS)

E foi só isso. De repente, acabou. Nada de sumir lentamente desta vez. A comunicação foi interrompida, como se tivesse sido cortada com uma faca.

Ele sentiu medo. As mãos, ainda apertadas nos braços da poltrona, estavam quase brancas. A boca seca. Alguma coisa acontecera com o menino. Tinha certeza. Se alguém tivesse machucado aquela criança…

— Sempre reage com tanta violência às decolagens?

Olhou para o lado. Era a mulher de óculos de chifre.

— Não é isso — respondeu Hallorann. — Tenho uma placa de aço na cabeça. Por causa da Coreia. De vez em quando me dá uma pontada. Vibra, sabe? Mistura os sinais.

— É mesmo?

— Sim, senhora.

— É o soldado de linha de frente que acaba pagando o preço pelas intervenções estrangeiras — falou, inflexível, a mulher de fisionomia angulosa.

— É mesmo?

— Sim. Este país deve renunciar a essas guerrinhas sujas. A CIA tem sido a raiz de cada guerrinha suja em que os Estados Unidos participaram neste século. A CIA e a diplomacia do dólar.

Ela abriu o livro e voltou a ler. O sinal de NÃO FUME apagou. Hallorann viu a cidade sumindo de vista e se perguntou se o menino estaria bem.

Desenvolvera um sentimento de afeição por ele, apesar de seus familiares não terem parecido grande coisa.

Pedia a Deus que eles estivessem tomando conta de Danny.

43

BEBIDA POR CONTA DA CASA

Jack estava no restaurante, junto à porta de vaivém que dava para o Salão Colorado. Com a cabeça levantada, ele escutava. Sorria.

Em volta dele, ouvia o Hotel Overlook renascer.

Era difícil dizer como ele podia saber disso, mas imaginava que não devia ser muito diferente da percepção que Danny tinha de vez em quando… tal pai, tal filho. Não era esse o ditado popular?

Não era uma percepção de visão e audição, apesar de estar muito próximo disso; tratava-se de uma sensação separada desses sentidos pela mais tênue

cortina perceptiva. Era como se outro Overlook estivesse agora a poucos centímetros deste, separado do mundo real (se é que existe essa coisa de

“mundo real”, pensou Jack), mas aos poucos se harmonizando com ele. Ele se lembrou dos filmes em terceira dimensão a que assistira quando era criança. Se você olhava para a tela sem os óculos especiais, via uma imagem dupla — justamente o que sentia agora. Mas, depois de colocar os óculos, tudo fazia sentido.

Todas as eras do hotel estavam juntas agora, faltando apenas a atual, a Era dos Torrance. E estaria junto com o resto muito em breve. Isso era bom. Isso era muito bom.

Podia quase ouvir o pretensioso ding! ding! da campainha prateada sobre o balcão de recepção, intimando os carregadores a se apressarem. Enquanto isso, homens com elegantes calças de flanela da moda de 1920 entravam, e homens com elegantes paletós transpassados da moda de 1940 saíam. Três freiras sentadas diante da lareira esperavam a fila de check-out diminuir.

Atrás delas, elegantemente vestidos, com prendedores de brilhante em suas gravatas azul-vermelho-e-brancas, Charles Grondin e Vito Gienelli discutiam lucros e perdas, vida e morte. Havia uma dúzia de caminhões na área de carregamento, nos fundos, uns sobrepostos aos outros, como fotografias de longa exposição malfeitas. No salão da ala leste, dezenas de diferentes convenções sobre negócios aconteciam ao mesmo tempo a poucos

“centímetros temporais” umas das outras. Um baile a fantasia estava acontecendo. Havia saraus, recepções de casamento, festas de aniversário e comemorações. Homens conversando sobre Neville Chamberlain e o arquiduque da Áustria. Música. Alegria. Embriaguez. Histeria. Não havia muito amor, não aqui, mas uma constantemente disfarçada tendência à sensualidade. Jack quase podia ouvir todos juntos, flutuando pelo hotel e criando uma graciosa cacofonia. No restaurante onde estava, os cafés da manhã, almoços e jantares dos últimos setenta anos estavam todos sendo servidos simultaneamente atrás dele. Podia quase… não, elimine o quase.

Podia ouvi-los, ainda suaves, porém claros… da mesma forma que alguém ouve um trovão a quilômetros num dia quente de verão. Podia ouvir todos, os belos estranhos. Jack havia se tornado consciente deles, assim como eles devem ter se tornado conscientes de Jack desde o início.

Todos os apartamentos do Overlook estavam ocupados esta manhã. Casa cheia.

E, além das portas de vaivém, um murmúrio baixo de conversa pairava e

girava no ar, sinuoso como fumaça preguiçosa de cigarro. Mais sofisticado, mais confidencial. Risadas femininas graves e guturais, do tipo que parecem vibrar num círculo mágico entre as vísceras e a genitália. O ruído de máquina registradora, seu guichê suavemente iluminado na penumbra, registrando o preço dos drinques, um gin rickey, um manhattan, um depression bomber, um sloe gin fizz, um zombie. A máquina de jukebox servindo as melodias, cada uma se sobrepondo às outras.

Jack abriu as portas com um empurrão e entrou.

— Olá, rapazes — disse, suavemente. — Estive fora por algum tempo, mas estou de volta.

— Boa noite, sr. Torrance — falou Lloyd, com prazer. — Que bom ver o senhor.

— É bom estar de volta, Lloyd — afirmou ele, grave, jogando a perna num banco entre um homem com um terno azul e uma mulher de aspecto cansado e de vestido preto, que examinava o fundo do copo.

— O que vai ser hoje, sr. Torrance?

— Martíni — respondeu, com muita satisfação. Olhou para o fundo do bar com suas fileiras de garrafas cintilantes, tampadas com sifões de prata. Jim Beam. Wild Turkey. Gilby’s. Sharrod’s Private Label. Toro. Seagram’s. Em casa, outra vez. — Um marciano duplo, por favor — complementou. — Eles aterrissaram em algum lugar do planeta, Lloyd. — Tirou a carteira e, com cuidado, colocou uma nota de vinte sobre o bar.

Enquanto Lloyd preparava o drinque, Jack olhou para trás. Todas as mesas estavam ocupadas. Alguns dos ocupantes estavam fantasiados… uma mulher de calça de odalisca e sutiã coberto de pedrarias, um homem com uma cabeça de raposa se erguendo astutamente de seu traje de gala, um homem com uma fantasia prateada de cachorro com um pompom na ponta da cauda longa, que fazia cócegas no nariz de uma mulher de sarongue, para divertimento de todos.

— O senhor não paga, sr. Torrance — informou Lloyd, colocando o copo sobre a nota de vinte. — Seu dinheiro não vale aqui. Ordens do gerente.

— Gerente?

Um certo desconforto tomou conta de Jack; no entanto, ele pegou o copo de martíni e o agitou, observando a azeitona balançar de leve nas profundezas gélidas da bebida.

— É claro. O gerente. — Lloyd deu um sorriso largo, mas seus olhos estavam cercados de sombras, e seu rosto estava terrivelmente pálido, como o

de um cadáver. — Mais tarde ele espera cuidar pessoalmente do seu filho.

Ele está muito interessado no bem-estar do seu filho. Danny é um menino talentoso.

O cheiro de gim era agradavelmente inebriante, mas também parecia estar desfocando sua razão. Danny? O que isso tudo tinha a ver com Danny? E o que estava fazendo dentro de um bar, com um copo na mão?

Ele tinha FEITO O JURAMENTO. Ele tinha SUBIDO NO VAGÃO. Ele tinha RENUNCIADO.

O que eles poderiam querer com o filho dele? O que poderiam querer com Danny? Wendy e Danny não estavam envolvidos nisso. Tentou ver os olhos sombreados de Lloyd, mas eles eram muito escuros, muito escuros, era como tentar ver emoção nas órbitas vazias de um crânio.

( É a mim que eles querem… não é? Sou eu. Nem Danny nem Wendy.

Quem gosta daqui sou eu. Eles queriam ir embora. Fui eu que dei um jeito no snowmobile… vasculhei a papelada velha… baixei a pressão da caldeira…

menti… praticamente vendi minha alma… O que poderiam querer com ele? )

— Cadê o gerente? — tentou perguntar casualmente, mas as palavras pareciam chegar aos lábios já entorpecidas pelo primeiro drinque, como palavras de um pesadelo, ao invés de um sonho doce.

Lloyd apenas sorriu.

— O que vocês querem com meu filho? Danny não está nisto… está? —

Sentiu o apelo desesperado em sua própria voz.

O rosto de Lloyd parecia estar fugindo, mudando, transformando-se em algo nojento. A pele branca ficou hepaticamente amarela, rachando. Chagas vermelhas brotavam na pele, expelindo um líquido malcheiroso. Gotas de sangue começaram a sair da testa de Lloyd como suor, e em algum lugar um carrilhão de prata batia um quarto de hora.

( Retirem as máscaras, retirem as máscaras! )

— Beba seu drinque, sr. Torrance — aconselhou Lloyd, com calma. —

Esse assunto não lhe diz respeito. Não nesse ponto.

Jack pegou o copo novamente, levou-o à boca, mas hesitou. Ouviu o estalo duro e horrível do braço quebrado de Danny. Viu a bicicleta voando sobre a capota do carro de Al, estilhaçando o para-brisa. Viu a única roda sobre a estrada, com os raios torcidos apontando para o céu como pedaços de uma corda de piano.

Percebeu que a conversa no Salão havia cessado.

Jack olhou para trás por cima do ombro. Estavam todos olhando para ele com expectativa, em silêncio. O homem ao lado da mulher de sarongue tinha

retirado a máscara de raposa, e Jack viu que era Horace Derwent, o cabelo louro claro caindo na testa. Todos no bar também olhavam. A mulher ao lado o observava de perto, como se tentasse focalizá-lo. A alça do vestido pendia de um ombro e, olhando para baixo, ele via um mamilo enrugado sobre o seio flácido. Voltando o olhar para seu rosto, começou a pensar que essa devia ser a mulher do 217, a que tentara estrangular Danny. Por sua vez, o homem de terno azul tirava do bolso do paletó um pequeno revólver com cabo de pérola, calibre .32, e o girava aleatoriamente sobre o balcão do bar, como um homem com roletas-russas em mente.

( Quero…)

Descobriu que as palavras não passavam pelas cordas vocais congeladas.

Tentou mais uma vez.

— Quero ver o gerente. Eu… Eu acho que ele não entende. Meu filho não faz parte disso. Ele…

— Sr. Torrance — interrompeu Lloyd, a voz saindo com terrível gentileza de dentro do rosto vermelho de chagas. — O senhor se encontrará com o gerente no momento certo. Aliás, ele resolveu fazer de você o agente dele neste assunto. Agora, beba seu drinque.

— Beba seu drinque — todos repetiram.

Jack pegou o copo com a mão trêmula. Era gim puro. Olhou para dentro, e olhar era como se afogar.

A mulher a seu lado começou a cantar numa voz morta e monótona:

“Role… role… O barril… e nós teremos… um barril… de alegria…”

Lloyd acompanhou. Em seguida, o homem de terno azul também. O

homem-cachorro juntou-se a eles, batendo uma pata na mesa.

“Está na hora de rolar o barril…”

Derwent juntou sua voz à do resto, com um cigarro elegantemente preso ao canto da boca. O braço direito em volta dos ombros da mulher de sarongue e a mão distraidamente acariciando o seio dela. Ele olhava para o homem-cachorro com desprezo divertido, enquanto cantava.

“… porque a turma está… toda… aqui!”

Jack levou o copo à boca e bebeu o gim em três goles, que desceram livres pela garganta, como um furgão que atravessava um túnel, explodindo, ricocheteando no cérebro, onde era tomado por uma crise convulsiva de tremores.

Quando terminou de beber, sentiu-se bem.

— Mais um, por favor — pediu, empurrando o copo vazio para Lloyd.

— Pois não, senhor — respondeu Lloyd, apanhando o copo. Lloyd parecia perfeitamente normal de novo. O homem de terno azul guardara o .32. A mulher à sua direita olhava fixamente para o copo, um seio agora inteiramente exposto, recostada no couro que revestia o bar. Um murmúrio vago saiu de sua boca flácida. A conversa voltou, um assunto emendando no outro.

O novo drinque apareceu diante dele.

— Muchas gracias, Lloyd — agradeceu ele enquanto pegava o copo.

— É sempre um prazer servi-lo, sr. Torrance. — Lloyd sorriu.

— Você sempre foi o melhor, Lloyd.

— Obrigado, senhor.

Bebeu devagar desta vez, deixando o gim descer lentamente pela garganta e comendo alguns amendoins.

Mal a bebida acabava, ele já pedia mais uma. Sr. Presidente, conheci os marcianos e tenho o prazer de informar que eles são muito simpáticos.

Enquanto Lloyd preparava outro drinque, Jack começou a revistar os bolsos à procura de uma moeda para pôr no jukebox. Pensou mais uma vez em Danny, mas o rosto do filho estava agradavelmente distante e indefinível agora.

Machucara Danny uma vez, mas isso tinha sido antes de ter aprendido a conviver com a bebida. Esses dias eram passado agora. Nunca machucaria Danny novamente.

Por nada no mundo.

44

CONVERSAS NA FESTA

Estava dançando com uma bela mulher.

Não tinha ideia de que horas seriam, de quanto tempo havia ficado no Salão Colorado ou há quanto tempo estava aqui no salão de baile. O tempo deixara de ser importante.

Tinha vagas lembranças: de escutar um ex-comediante de sucesso no rádio e atual astro de televisão contando uma piada muito longa e engraçada sobre incesto entre gêmeos siameses; de ver a mulher de calça de odalisca e sutiã coberto de lantejoulas fazendo um striptease lento e sensual ao som da música insinuante do jukebox (parecia o tema que David Rose compôs para A stripper); de atravessar o saguão com mais dois homens que vestiam roupas dos anos 1920, todos cantando paródias sobre Rosie O’Grady. Parecia se lembrar de ver, pelas grandes portas duplas, lanternas japonesas enfileiradas graciosamente nos arcos que ornavam o estacionamento — brilhavam como

joias, em suaves tons pastel. O grande globo de vidro no teto da varanda estava aceso, e os insetos noturnos batiam e voavam em volta. Uma parte de Jack, talvez o último pequeno traço de sobriedade, tentou avisar que eram seis horas de uma manhã de dezembro. Mas o tempo havia sido abolido.

( Os argumentos contra a loucura caem por terra com um leve farfalhar, camada sobre camada…)

De quem era isso? De algum poeta que lera na faculdade? De algum poeta universitário que agora vendia máquinas de lavar roupa em Wausau ou apólices de seguro em Indianápolis? Talvez um pensamento original? Não importava.

( A noite está escura/ as estrelas estão no alto/ um creme sem corpo/ flutua no céu…)

Não conseguiu conter uma risada.

— Qual é a graça, querido?

E aqui estava ele novamente, no salão de baile. O lustre estava aceso, e os casais dançavam, alguns fantasiados, outros não, aos acordes suaves de uma orquestra do pós-guerra — mas que guerra? Tem como saber?

Não, claro que não. Tinha certeza somente de uma coisa: estava dançando com uma bela mulher.

Ela era alta, de cabelos castanho-avermelhados, usava um vestido colante de cetim branco e dançava com os seios leve e docemente apertados contra o peito dele. As mãos entrelaçadas. Usava uma máscara de gato, e o cabelo tinha sido penteado para um lado, numa suave e brilhante cascata que parecia mergulhar no vale formado entre os ombros dos dois, que se tocavam. O

vestido era longo, mas era possível sentir as coxas dela roçando em suas pernas de vez em quando, tendo cada vez mais certeza de que ela estava completamente nua sob o vestido

( para melhor sentir sua ereção, meu querido) e de que ele estava excitado. Se isso a ofendia, dissimulava bem; ela chegava cada vez mais perto dele.

— Graça nenhuma, querida — respondeu ele, rindo novamente.

— Gosto de você — sussurrou ela, e Jack achou que seu perfume era como o lírio escondido secretamente por entre fendas cobertas de musgo… lugares onde a luz do sol é pouca, e as sombras são muitas.

— Gosto de você também.

— Podemos subir, se quiser. Eu deveria estar com Harry, mas ele nunca vai perceber. Está preocupado em zombar do coitado do Roger.

A música terminou. Houve aplausos e, em seguida, a orquestra começou a tocar “Mood Indigo” quase imediatamente.

Jack olhou por cima dos ombros nus da mulher e viu Derwent, de pé, junto à mesa de bebidas. A garota de sarongue estava com ele. Havia garrafas de champanhe em baldes de gelo enfileirados ao longo da toalha branca de mesa, e Derwent segurava uma garrafa. Um grupo de pessoas se juntou a eles, rindo. Diante de Derwent e da garota de sarongue, Roger, de quatro, pulava grotescamente, sacudindo o rabo e latindo.

— Fale, rapaz, fale! — gritou Harry Derwent.

— Au! Au! — respondeu Roger. Todos bateram palmas; alguns homens assobiaram.

— Agora, sente. Sente, cachorrinho!

Roger sentou sobre as patas traseiras. O focinho da máscara estava congelado no seu eterno rosnar. Dentro das órbitas, os olhos de Roger reviravam comicamente. Estendeu os braços, balançando as patas.

— Au! Au!

Derwent entornou a garrafa de champanhe, derramando uma espécie de Niágara de espuma sobre a máscara virada para cima. Roger lambeu, e todos aplaudiram novamente. Algumas das mulheres gritaram de tanto rir.

— Harry não é uma peça? — perguntou sua parceira, chegando mais perto novamente. — Todo mundo acha. Ele é bissexual, sabia? Pobre Roger, ele não, é só homossexual. Certa vez, eles passaram um fim de semana juntos, em Cuba… Ah, há muitos meses. Agora ele corre atrás de Harry o tempo inteiro, abanando o rabinho.

Ela riu. O aroma tímido de lírio subiu.

— Mas Harry nunca trepa mais de uma vez com o mesmo cara… e Roger é insaciável. Harry falou que, se ele viesse ao baile fantasiado de cachorrinho, um cachorrinho bonitinho, poderia reconsiderar, e Roger é tão ingênuo que…

A música terminou. Houve mais aplausos. Os músicos desceram para descansar.

— Com licença, doçura — disse ela. — Há alguém com quem eu realmente preciso… Darla! Darla, menina querida, por onde tem andado?

Ela se enfiou em meio à multidão que comia e bebia, e ele a acompanhou de longe como um bobo, perguntando a si mesmo como, em primeiro lugar, teriam dançado juntos. Não se lembrava. Incidentes pareciam acontecer sem nenhuma conexão. Primeiro aqui, depois ali, depois em toda a parte. A cabeça girava. Sentia o cheiro de lírio e cedro. Junto à mesa de salgados,

Derwent segurava um pequeno sanduíche triangular sobre a cabeça de Roger, insistindo que o homem-cachorro, para alegria geral dos observadores, desse um salto mortal. A máscara estava voltada para cima. As laterais prateadas da fantasia se mexiam para dentro e para fora. Roger, de repente, deu um salto, baixando a cabeça para fazer impulso, e tentou virar uma cambalhota no ar.

Seu salto no entanto foi muito baixo e fraco, e ele caiu desajeitado sobre o dorso, batendo a cabeça nos ladrilhos. Um grunhido surdo saiu da máscara de cachorro.

Derwent deu início aos aplausos.

— Tente mais uma vez, cachorrinho! Tente mais uma vez!

Os observadores prosseguiram em coro — mais um, mais um —, e Jack saiu de perto cambaleando, um pouco enjoado.

Quase caiu sobre o carrinho de bebidas, que era empurrado por um homem com sobrancelhas cerradas e de paletó branco. Seu pé tropeçou na prateleira inferior do carrinho; as garrafas e os sifões na prateleira de cima tilintaram musicalmente.

— Perdão — disse Jack, rouco. De repente, sentia-se confinado e sufocado; queria sair. Queria que o Overlook voltasse a ser o que era, livre destes hóspedes indesejáveis. Ele não tinha um lugar de honra como verdadeiro abre-alas; era apenas mais um dos dez mil outros, um cachorrinho cumprindo ordens.

— Sem problema — respondeu o garçom de paletó branco. O inglês educado e abreviado que saiu daquele rosto de criminoso era surreal. — Um drinque?

— Martíni.

Atrás deles, outra gargalhada irrompeu; Roger uivava uma música caipira.

Alguém acompanhava ao piano.

— Aqui está.

O copo gelado foi colocado em sua mão. Jack bebeu agradecido, sentindo o gim atingir e derrubar os primeiros sinais de sobriedade.

— Está bom, senhor?

— Está.

— Obrigado, senhor. — O carrinho começou o deslizar novamente.

Jack estendeu a mão e tocou o ombro do garçom.

— Sim, senhor.

— Desculpe, mas… como se chama?

O outro demonstrou surpresa.

— Grady, senhor. Delbert Grady.

— Mas você… quero dizer…

O garçom olhava para ele com cortesia. Jack tentou falar novamente, apesar de a boca estar dormente pelo gim e pela irrealidade; sentia cada palavra tão pesada quanto um cubo de gelo.

— Você já não foi o zelador daqui? Quando você… quando… — Mas não podia concluir. Não conseguiu dizer.

— Não, senhor. Acho que não.

— Mas sua mulher… suas filhas…

— Minha mulher está ajudando na cozinha, senhor. As meninas, naturalmente, estão dormindo. Já é tarde.

— Você era o zelador. Você… — Vamos, diga! — Você as matou.

A expressão de Grady continuou atenciosa.

— Não tenho a menor lembrança disso, senhor. — O copo estava vazio.

Grady o retirou dos dedos sem resistência de Jack e começou a preparar outro drinque. Havia um pequeno balde de plástico, no carrinho, que estava cheio de azeitonas. De alguma forma pareciam cabeças degoladas. Grady espetou uma, com habilidade, jogou-a no copo e o entregou a Jack.

— Mas você…

— O senhor é o zelador, senhor — Grady completou suavemente. —

Sempre foi o zelador. Eu sei, senhor. Sempre trabalhei aqui. O mesmo gerente nos admitiu ao mesmo tempo. Correto, senhor?

Jack engoliu a bebida rapidamente. Sua cabeça girava.

— O sr. Ullman…

— Não conheço ninguém com esse nome, senhor.

— Mas ele…

— O gerente — explicou Grady. — O hotel, senhor. É claro que o senhor sabe quem o admitiu, senhor.

— Não — negou Jack, com voz embargada. — Não, eu…

— Creio que deva consultar seu filho, sr. Torrance. Ele sabe de tudo, apesar de o senhor não ter explicado. Bastante rebelde da parte dele, se me permite ser tão ousado, senhor. Na realidade, ele o traiu várias vezes, não é verdade? E nem fez seis anos ainda.

— Sim — concordou Jack. — Você tem razão. — Houve mais uma onda de risadas por trás deles.

— Ele precisa ser punido, se não se importa que eu diga. Ele precisa de uma boa bronca e talvez de algo mais. Minhas meninas mesmo, senhor, não

davam muita importância ao Overlook no princípio. Uma delas chegou até a roubar uma caixa de fósforos e tentou atear fogo ao hotel. Eu as puni.

Severamente. E, quando minha mulher tentou me impedir de cumprir meu dever, eu também a puni. — Deu um sorriso afável e sem significado. —

Acho triste, porém verdadeiro, o fato de as mulheres dificilmente entenderem a responsabilidade de um pai de família para com os filhos. Maridos e pais têm certas responsabilidades, não têm, senhor?

— Sim.

— Não gostavam do Overlook tanto quanto eu — continuou Grady, começando a preparar outro drinque. Bolhas prateadas brotavam na garrafa de gim virada. — Da mesma forma que sua mulher e seu filho não gostam…

não no momento, por enquanto. Mas virão a gostar. O senhor deve mostrar a eles o erro que estão cometendo, sr. Torrance. Concorda?

— Sim, concordo.

Percebia. Tinha sido muito frouxo com Wendy e Danny. Maridos e pais tinham suas responsabilidades. Papai Sabe-Tudo. E eles não entendiam. Não havia nenhum crime nisso, mas eles teimosamente não entendiam. Ele não estava sendo o que podia ser chamado de um homem severo. Mas acreditava em castigo. E, se seu filho e sua mulher, teimosamente, se colocaram contra sua vontade, contra as coisas que ele sabia serem melhores para todos, não teria ele um certo dever…?

— Uma criança ingrata é pior do que um dente de serpente — falou Grady, entregando o drinque a Jack. — Realmente acho que o gerente poderia pôr seu filho na linha. E sua mulher o seguiria pouco depois. Concorda, senhor?

De repente, ficou indeciso.

— Eu… mas… se eles pudessem simplesmente ir embora… quero dizer, afinal de contas, sou eu que o gerente quer, não é? Deve ser. Porque… —

Porque o quê? Deveria saber, mas subitamente compreendeu que não sabia.

Ah, seu pobre cérebro flutuava.

— Cachorro feio! — Derwent dizia alto, seguido por uma explosão de risadas. — Cachorro feio que faz pipi no chão.

— E naturalmente o senhor sabe — continuou Grady, debruçando-se confidencialmente sobre o carro de bebidas. — Seu filho está tentando trazer um estranho para cá. Seu filho tem muito talento, do tipo que o gerente poderia usar para posteriormente melhorar o Overlook, para depois…

enriquecer o hotel, digamos assim. Mas seu filho está disposto a usar este talento contra nós. Ele é teimoso, sr. Torrance. Teimoso.

— Um estranho? — perguntou Jack entorpecido.

Grady assentiu.

— Quem?

— Um preto — informou Grady. — Um cozinheiro crioulo.

— Hallorann?

— Acho que é esse o nome, senhor.

Houve outra explosão de gargalhada atrás deles quando Roger falou algo com uma voz queixosa de protesto.

— Sim! Sim! Sim! — Derwent começou a cantar. Os outros em volta o acompanhavam, mas, antes que Jack conseguisse escutar o que estavam ordenando a Roger, a orquestra começou a tocar novamente… a música era

“Tuxedo Junction”, com muito sax e pouco soul .

( Soul? O Soul ainda não tinha sido inventado. Ou tinha? ) ( Um preto… um cozinheiro crioulo . ) Abriu a boca para falar, sem saber o que iria sair. O que saiu foi:

— Me disseram que você não terminou o secundário. Mas você não fala como um homem sem instrução.

— É verdade, abandonei a escola muito cedo, senhor. Mas o gerente cuida bem dos empregados. Ele acredita que compensa. A instrução sempre compensa, não acha, senhor?

— Sim — concordou Jack, atordoado.

— Por exemplo, o senhor demonstra um grande interesse em aprender mais sobre o Hotel Overlook. Muito inteligente de sua parte, senhor. Muito nobre. Um certo álbum de recortes foi deixado no porão para que o senhor o encontrasse…

— Por quem? — Jack perguntou ansioso.

— Pelo gerente, naturalmente. Outros materiais podem ser colocados à sua disposição, se o senhor desejar…

— Eu quero. Muito. — Tentou controlar a empolgação em sua voz e fracassou redondamente.

— O senhor é um verdadeiro acadêmico — afirmou Grady. — Pesquisa o assunto até o fim. Até se esgotarem todas as fontes. — Baixou sua cabeça de testa pequena, ajeitou a lapela do paletó branco e passou os dedos numa poeirinha invisível aos olhos de Jack. — E o gerente não impõe limites à generosidade — prosseguiu Grady. — De maneira nenhuma. Veja meu caso, por exemplo, abandonei os estudos no primeiro ano do secundário. Imagine o quanto o senhor poderia ir longe na estrutura organizacional do Overlook.

Talvez… com o tempo… até o topo.

— Acha mesmo? — sussurrou Jack.

— Mas isto realmente depende de seu filho, não é? — insistiu Grady, levantando as sobrancelhas espessas e de alguma forma agressivas.

— De Danny? — Jack fechou a cara para Grady. — Não, claro que não.

Não permitiria que meu filho tomasse decisões com relação à minha carreira.

Em hipótese alguma. Quem você pensa que sou?

— Um homem dedicado — respondeu Grady afavelmente. — Talvez tenha me expressado mal. Digamos que seu futuro aqui depende de como o senhor decidirá lidar com os caprichos de seu filho.

— Tomo minhas próprias decisões — murmurou Jack.

— Mas o senhor deve acertar as coisas com ele.

— Vou acertar.

— Com firmeza.

— Sim.

— Um homem que não consegue controlar a própria família goza de muito pouco prestígio junto ao gerente. Um homem que não consegue conter o comportamento de sua mulher e de seu filho dificilmente conseguirá dirigir os próprios rumos, dificilmente conseguirá assumir sozinho uma posição de responsabilidade numa organização desta envergadura. Ele…

— Eu já falei que cuidarei dele! — gritou Jack de repente, enraivecido.

“Tuxedo Junction” terminara, e a outra música ainda não havia começado.

Seu grito caiu exatamente no intervalo, e as conversas de repente cessaram atrás dele. Seu corpo inteiro estava quente. Percebeu que todos os observavam. Já tinham feito o que queriam com Roger, e agora era sua vez.

Role. Sente. Finja-se de morto. Se jogar conosco, jogaremos com você.

Posição de responsabilidade. Queriam que sacrificasse o filho.

( … agora ele corre atrás de Harry o tempo inteiro, abanando o rabinho…) ( Role. Finja-se de morto. Castigue seu filho. )

— Por aqui, senhor — disse Grady. — Algo que pode lhe interessar.

O barulho das conversas voltara, levantando e abaixando em seu próprio ritmo, entrando e saindo pela música da orquestra, que executava agora um arranjo animado de “Ticket to Ride”, de Lennon e McCartney.

( Já ouvi melhores nos alto-falantes de supermercados. ) Deu uma risada estúpida. Olhou para a mão esquerda e viu que o copo estava pela metade e bebeu tudo em um grande gole.

Estava agora parado em frente à prateleira acima da lareira, o calor do fogo

aquecendo suas pernas.

( um fogo?… em agosto?… sim… e não… todos os momentos de uma só vez)

Havia um relógio sob uma redoma de vidro, ladeado por dois elefantes de marfim. Os ponteiros marcavam um minuto para a meia-noite. Jack olhou com intensidade. Era isso que Grady queria que visse? Virou-se para perguntar, mas Grady já havia saído.

No meio de “Ticket to Ride”, a orquestra executou um floreio de metais.

— Está na hora! — proclamou Horace Derwent. — Meia-noite! Retirem as máscaras! Retirem as máscaras!

Tentou se virar novamente para ver quais rostos famosos se escondiam sob o brilho, a pintura e as máscaras, mas ficou paralisado, sem conseguir tirar os olhos do relógio… Os ponteiros haviam se unido, apontando para cima.

— Retirem as máscaras! Retirem as máscaras! — prosseguiu o coro.

O relógio começou a bater delicadamente. Ao longo do trilho abaixo do mostrador, duas figuras avançavam. Jack observava fascinado, esquecendo a retirada das máscaras. O relógio batia. As engrenagens giravam e se encaixavam, os metais brilhavam. A roda de equilíbrio balançava com exatidão de um lado para outro.

Uma das figuras era um homem na ponta dos pés, segurando o que parecia ser um pequeno taco. A outra era um menino com orelhas de asno. As figuras encantavam pela fantástica precisão. Na frente do chapéu do garoto, estava escrito: BOBO.

Continuar: parte 3 de 6