O Iluminado

Stephen King · Capítulo 5 de 9 · parte 4/6

Páginas do PDF

O Iluminado

Quinta parte: Questões de vida e morte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Danny gemeu. Wendy percebeu que o filho iria desmaiar a qualquer momento.

— Venha, velhinho — disse ela, surpresa com a calma de sua própria voz.

— Não é seu pai, lembre-se disso. É o hotel.

— Voltem aqui e me soltem AGORA! — gritou Jack. Houve arranhões quando Jack atacou a porta com a unhas.

— É o hotel — repetiu Danny. — É o hotel. Eu me lembro. — Mas olhou por cima dos ombros com o rosto perplexo e apavorado.

47

DANNY

Eram três horas da tarde de um dia muito longo.

Estavam sentados na cama de casal, no quarto. Danny girava compulsivamente o fusca violeta e seu monstro que saía pelo teto solar.

Eles escutaram papai batendo na porta do outro lado do saguão, escutaram as batidas e a voz rouca e petulantemente irritada como a de um rei derrotado, vomitando promessas de castigo, vomitando palavrões, prometendo aos dois que passariam o resto da vida arrependidos por o terem traído depois de toda uma vida de sacrifícios por eles.

Danny pensou que não conseguiriam ouvir aquilo do andar de cima, mas os gritos raivosos passavam pelo pequeno elevador de comida que ligava o quarto à cozinha. O rosto da mãe estava pálido, e havia terríveis hematomas em seu pescoço, onde o pai tentara…

Virava o carro, vezes seguidas, em suas mãos. O prêmio que o pai lhe dera por ter avançado nas leituras.

( … onde o pai tentara abraçá-la muito apertado. ) A mãe pôs uma música para tocar no pequeno toca-discos, cheia de arranhões, flautas e cornetas. Sorriu para ele cansada. O garoto tentou sorrir de volta e fracassou. Mesmo com a música alta, achou que ainda ouvia o pai gritando e esmurrando a porta como um animal numa jaula do jardim zoológico. E se papai quisesse ir ao banheiro? Como seria?

Danny começou a chorar.

Wendy baixou todo o volume do toca-discos de uma vez, segurou o filho e o balançou no colo.

— Danny, meu amor, tudo vai terminar bem. Vai sim. Se o sr. Hallorann não ouviu sua mensagem, alguma outra pessoa ouvirá. Assim que a tempestade parar. Nevando do jeito que está, ninguém vai conseguir subir até aqui. O sr. Hallorann ou qualquer outra pessoa. Mas, quando a tempestade passar, tudo vai ficar bem. E nós vamos embora. E sabe o que faremos na primavera? Nós três?

Danny balançou a cabeça encostada no peito da mãe. Não sabia. Parecia que nunca mais haveria primavera.

— Vamos pescar. Vamos alugar um barco e vamos pescar, como fizemos o ano passado em Chatterton Lake. Você, eu e papai. E talvez você pegue um robalo para o jantar. Ou talvez a gente não pegue nada, mas com certeza vamos nos divertir.

— Eu te amo, mamãe — disse Danny, abraçando-a.

— Ah, Danny, eu também te amo.

Lá fora, o vento assobiava e uivava.

Por volta das quatro e meia, quando o dia começava a morrer, os gritos cessaram.

Os dois cochilaram inquietos; Wendy, ainda segurando Danny nos braços, não acordou. Mas Danny, sim. Por algum motivo, o silêncio era pior, mais agourento do que os gritos e socos contra a forte porta da despensa. Estaria o pai dormindo? Ou morto? Ou o quê?

( Teria saído? )

Quinze minutos mais tarde, o silêncio foi quebrado por um ruído metálico.

Houve um rangido forte e, em seguida, um zumbido mecânico. Wendy acordou com um grito.

O elevador funcionava novamente.

Ficaram escutando, com os olhos arregalados, abraçados um ao outro.

Passava por cada andar, a grade chocalhando, a porta de aço se abrindo.

Risos, gritos bêbados, berros esporádicos e batidas.

O Overlook renascia em volta deles.

48

JACK

Ele sentou no chão da despensa com as pernas esticadas para a frente, um pacote de bolacha cream-cracker entre elas, olhando para a porta. Comia as bolachas uma por uma, sem sentir o sabor, só por comer. Quando saísse dali,

iria precisar de muita força. Toda a força.

Neste exato momento, pensou que nunca havia se sentido tão miserável em toda a sua vida. A mente e o corpo juntos formavam uma enorme escritura de dor. A cabeça doía terrivelmente, com o latejar nauseante de uma ressaca. Os sintomas secundários estavam ali também: a boca tinha um gosto como se um ancinho de estrume tivesse passado por ela, os ouvidos zumbiam, os ombros doíam por ter se jogado contra a porta, e a garganta estava inflamada por causa dos gritos inúteis. Cortara a mão direita no trinco.

Mas, quando saísse dali, iria botar pra quebrar.

Mastigava as bolachas, uma por uma, resistindo a se render à vontade de vomitar. Pensou nos Excedrins no bolso e resolveu esperar até que o estômago se acalmasse um pouco. Não fazia sentido engolir um analgésico, se logo depois fosse vomitá-lo. É preciso usar a cabeça. A admirável cabeça de Jack Torrance. Não é você o cara que ia viver de suas habilidades intelectuais? Jack Torrance, o autor best-seller. Jack Torrance, o aclamado escritor de peças de teatro e ganhador do Prêmio do Círculo de Críticos de Nova York. Jack Torrance, homem letrado, respeitado pensador, ganhador do prêmio Pulitzer aos setenta, por seu fabuloso livro de memórias, Minha vida no século XX. A lição dessa merda toda era aprender a ser esperto.

Ser esperto é saber sempre onde estão as vespas.

Enfiou outra bolacha na boca e mastigou.

A coisa toda se resumia, ele supôs, no fato de eles não confiarem nele. O

fato de não acreditarem que ele sabia o que era melhor para eles e como conseguir isso. A mulher havia tentado usurpá-lo, primeiro por meios justos, (ou quase)

depois injustos. Quando as pequenas insinuações e objeções chorosas dela foram derrubadas pelos argumentos sensatos de Jack, ela instigou o menino contra ele. Tentou matá-lo com uma garrafa e, em seguida, o trancou na merda da despensa, dentre todos os lugares.

Ainda assim, uma pequena voz interior o importunava.

( Sim, mas de onde veio a bebida? Esse não é, na verdade, o xis da questão? Você sabe o que acontece quando bebe, você sabe por experiências amargas. Quando bebe, perde a razão. )

Jack atirou para o outro lado do pequeno cômodo o pacote de bolachas, que bateu numa prateleira de enlatados e caiu no chão. Ele olhou para o pacote, esfregou os lábios com a mão e, em seguida, olhou para o relógio.

Eram quase seis e meia. Fazia horas que estava ali. A mulher o trancara ali, e estava ali havia horas, porra.

Começava a compreender melhor seu próprio pai.

Jack agora se dava conta de que nunca havia se perguntado o motivo que levara o pai a começar a beber. E realmente… quando se chegava ao “q” da questão, como seus antigos alunos gostavam de dizer… não seria por um acaso a mulher com quem se casara? Uma mulher covarde, sempre se arrastando em silêncio pela casa, com uma expressão de mártir no rosto? Não seria ela uma bola e uma corrente no tornozelo de papai? Não, não era bola nem corrente. Na realidade, sua mãe nunca tentara fazer de papai um prisioneiro, como Wendy estava fazendo com ele. O destino do pai de Jack deve ter sido semelhante ao de McTeague, o dentista, no fim do grande romance de Frank Norris: algemado a um homem morto no deserto. Sim, a imagem era melhor. Mental e espiritualmente morta, a mãe estivera algemada ao pai pelo matrimônio. Ainda assim, o pai tentara agir direito, enquanto se arrastava com o cadáver apodrecido daquela mulher. Tentou educar os quatro filhos, ensinando a diferença entre o certo e o errado, a entender os princípios de disciplina e, acima de tudo, a respeitar o pai.

Bem, eram uns ingratos, todos, inclusive ele mesmo. E agora pagava o preço: seu próprio filho também havia se tornado um ingrato.

Mas havia esperança. De alguma forma ele sairia dali. Puniria os dois,

severamente. Daria um exemplo a Danny de tal forma que, quando o filho crescesse, saberia fazer melhor o que ele próprio havia feito.

Lembrava-se daquele jantar de domingo, quando, à mesa, o pai batera na mãe com a bengala… como ele e os irmãos ficaram horrorizados. Agora podia ver como aquilo tinha sido necessário, como seu pai apenas dissimulava sua embriaguez e como sua lucidez estivera sempre aguçada e viva por trás, o tempo inteiro, atento ao menor sinal de desrespeito.

Jack engatinhou atrás das bolachas e voltou a comê-las, sentado junto à porta que foi tão traiçoeiramente trancada por Wendy. Imaginou exatamente o que o pai vira e como descobrira o fingimento da esposa. Ela estaria fazendo caretas por trás da mão? Pondo a língua para fora? Fazendo gestos obscenos com o dedo? Ou simplesmente olhava para ele de maneira insolente e arrogante, convencida de que ele estava muito bêbado para ver? De qualquer maneira, ele a pegou e a puniu severamente. E agora, vinte anos depois, Jack podia finalmente contemplar a sabedoria do pai.

Claro que você irá dizer que o pai tinha sido tolo por se casar com uma mulher assim, por em primeiro lugar ter se deixado algemar a um cadáver… e um cadáver desrespeitoso. Mas, quando os jovens se casam precipitadamente, só lhes resta o arrependimento, e talvez o avô de Jack tivesse se casado com o mesmo tipo de mulher com quem o filho e o neto inconscientemente se casaram. Mas Wendy, sua mulher, em vez de se sentir satisfeita com o fato de já ter arruinado uma carreira e mutilado outra, optara pela tarefa ativa e venenosa de tentar destruir sua última e melhor oportunidade: a de se tornar um membro do staff do Overlook, e possivelmente subir… até a posição de gerente. Colocara Danny contra ele, e Danny era seu bilhete de entrada. Isso era tolice, naturalmente — por que iriam querer o filho, quando podiam ter o pai? —, mas patrões sempre têm ideias tolas, e essa era a condição.

Agora ele percebia que não seria possível explicar isso a ela. Havia tentado, no Salão Colorado, mas ela se recusara a ouvir e o acertara na cabeça com uma garrafa, como recompensa por seu esforço. Haveria outra oportunidade, e em breve. Ele sairia dali.

De repente, prendeu a respiração e levantou a cabeça. Um piano tocava boogie-woogie em algum lugar, e as pessoas riam e batiam palmas. O som era amortecido pela porta de madeira, mas mesmo assim podia ouvir. A música era “There’ll Be a Hot Time in the Old Town Tonight” .

Cerrou os punhos; precisava se conter para não arrebentar a porta. A festa havia recomeçado. A bebida rolaria de graça. Em algum lugar, dançando com

outra pessoa, estaria a moça que sentira tão provocantemente nua sob o vestido branco de cetim.

— Vocês vão pagar por isso! — berrou. — Malditos sejam vocês dois, vão pagar! Tomarão seu maldito remédio por isto, juro! Vocês…

— Calma, calma, agora — uma voz branda falou por detrás da porta. —

Não precisa gritar, amigo. Estou ouvindo bem.

Jack ficou de pé.

— Grady? É você?

— Sim, senhor. Sou eu mesmo. Parece que o senhor está trancado.

— Me deixa sair, Grady. Rápido.

— Vejo que não conseguiu cuidar do assunto que conversamos, senhor. O

castigo para sua mulher e seu filho.

— Foram eles que me trancaram aqui. Puxe o ferrolho, pelo amor de Deus!

— Deixou que eles o trancassem aqui? — A voz de Grady denotava surpresa educada. — Ah, meu caro. Uma mulher com metade do seu tamanho e um menininho? Isso dificilmente o qualifica como um funcionário de primeira qualidade para a gerência, não é?

O sangue começou a ferver nas veias de Jack.

— Me deixa sair, Grady. Vou cuidar deles.

— Vai mesmo, senhor? Não sei. — A surpresa educada transformou-se em pesar educado. — Lamento dizer que duvido muito. Eu… e os outros…

realmente chegamos à conclusão de que seu coração não está aqui, senhor.

Que o senhor não tem… estômago para trabalhar aqui.

— Eu tenho — gritou Jack. — Juro.

— Traria seu filho para nós?

— Sim! Sim!

— Sua mulher vai se opor veementemente, sr. Torrance. E ela aparenta ser… de alguma forma mais forte do que imaginávamos. De alguma forma, mais qualificada. Com toda a certeza, parece ter levado a melhor sobre o senhor.

Grady riu nervosamente.

— Talvez, sr. Torrance, devêssemos ter tratado tudo com ela.

— Eu vou trazer o menino, juro — assegurou Jack. O rosto estava colado à porta agora. Suava. — Ela não vai se opor. Juro que não. Não poderá.

— Temo que seja preciso matá-la — Grady afirmou friamente.

— Farei o que for preciso. Simplesmente me deixa sair.

— Dá a sua palavra, senhor? — insistiu Grady.

— Minha palavra, meu compromisso, minha promessa solene, o que você quiser. Se você…

Houve um estalo surdo do ferrolho sendo puxado. A porta abriu meio centímetro. A respiração e as palavras de Jack cessaram. Por um momento, sentiu que a morte estava ali, do lado de fora daquela porta.

A sensação passou.

— Obrigado, Grady — murmurou. — Juro que não irá se arrepender. Juro que não.

Não houve resposta. Percebeu que todos os ruídos haviam cessado, a não ser o do vento que uivava lá fora.

Abriu a porta da despensa; as dobradiças rangeram um pouco.

A cozinha estava vazia. Grady desaparecera. Tudo estava parado e congelado sob o brilho das lâmpadas fluorescentes. Seus olhos bateram na mesa onde os três costumavam fazer as refeições.

Ali em cima, havia um copo de martíni, uma dose de gim e um prato plástico com azeitonas.

Encostado nele, estava um dos tacos de roque do galpão.

Jack ficou olhando para o objeto durante um longo momento.

Então, uma voz, mais grave e muito mais poderosa do que a de Grady, falou de algum lugar… de todo lugar… de dentro dele.

( Cumpra com a promessa, sr. Torrance. )

— Cumprirei — respondeu. Sentiu a bajulação e a subserviência na própria voz, mas não conseguia controlá-la. — Cumprirei.

Caminhou até o balcão e segurou o cabo do taco.

Levantou-o.

Sacudiu-o.

O taco assobiou maliciosamente no ar.

Jack Torrance começou a sorrir.

49

HALLORANN SOBE A MONTANHA

Faltavam quinze minutos para as duas da tarde e, de acordo com o hodômetro do Buick, da Hertz, ele estava a menos de cinco quilômetros de Estes Park, quando finalmente saiu da estrada.

Nas colinas, a neve caía mais rápida e mais furiosa do que Hallorann jamais tinha visto (o que talvez não fosse grande coisa, pois ele sempre se esforçava para ver o menos possível de neve em sua vida). O vento soprava forte e caprichoso, ora do oeste, ora do norte, trazendo nuvens de neve a seu

campo visual, fazendo Hallorann perceber que se errasse uma curva poderia despencar sessenta metros para fora da estrada, fazendo o Electra rolar pela ribanceira. Para piorar ainda mais a situação, havia o fato de não ter experiência em dirigir na neve. Ficava apavorado em pensar que a faixa amarela central estava enterrada sob a neve e aterrorizado quando as rajadas de vento vinham livres pelos desfiladeiros e faziam o pesado carro derrapar; horrorizado ao ver que as placas da estrada estavam quase mascaradas de neve, e que era mais útil jogar cara ou coroa para saber se a estrada dobraria para a esquerda ou para a direita naquela tela branca de cinema por onde dirigia. Sentia medo, mesmo. Suava frio desde o início da subida de Boulder e Lyons, manobrando o acelerador e o freio como se fossem porcelana chinesa. Entre músicas de rock‘n’roll no rádio, o locutor constantemente implorava que os motoristas se mantivessem afastados das estradas principais e em hipótese alguma subissem as serras, pois muitas estradas estavam intransponíveis e todas eram perigosas. Um grande número de pequenos acidentes foi noticiado e dois graves: um grupo de esquiadores num micro-ônibus e uma família que seguia para Albuquerque pelas montanhas de Sangue de Cristo. O resultado dos dois acidentes eram: quatro mortos e cinco feridos. “Portanto, fiquem longe das estradas e ouçam a boa música na sua KTLK”, concluiu alegre o locutor, aumentando então a tristeza de Hallorann quando tocou “Seasons in the Sun”: “Tivemos alegria, nos divertimos, tivemos…”. Terry Jacks tagarelava feliz, e Hallorann desligou o rádio com raiva, sabendo que o ligaria novamente em cinco minutos. Não importava se a música fosse ruim, de qualquer forma era melhor do que dirigir sozinho por este manicômio branco.

( Admita. O negão está apavorado… dos pés à cabeça! ) Não era nada engraçado. Teria voltado antes de chegar a Boulder, se não fosse pela convicção de que o menino estava passando por um terrível problema. Mesmo agora, uma vozinha no fundo do crânio — vinda da razão, mais do que da covardia — dizia que pernoitasse no hotel de Estes Park e esperasse pelas máquinas de limpeza de neve para, pelo menos, poder ver as faixas novamente. Aquela voz o lembrava sobre a aterrissagem em Stapleton, da sensação profunda de que o avião iria cair de nariz no chão, entregando os passageiros nos portões do inferno e não no Portão 39, Terminal B. Mas a razão não iria derrotar a compulsão. Tinha que ser hoje. A tempestade era falta de sorte. Teria que passar por ela. Temia que, se não aguentasse, lutaria contra algo bem pior em seus sonhos.

O vento soprava novamente, desta vez vindo de nordeste, e mais uma vez ele não conseguia distinguir as colinas, nem mesmo as barreiras de cada lado da estrada. Dirigia através do nada.

E então as fortes lâmpadas de sódio da máquina de limpar neve apareceram em meio à garoa, de repente. E, para seu pavor, ele notou que, em vez de estar ao lado, a frente do Buick estava voltada diretamente para aquelas lâmpadas. O motorista da máquina não estava se importando muito em se manter em sua faixa, e Hallorann tinha deixado o Buick vagar para o lado errado.

O ronco do motor diesel da máquina penetrava pelo assobio do vento, e depois se misturou ao barulho forte, longo e quase ensurdecedor da buzina.

Os testículos de Hallorann se tornaram dois pequenos sacos amassados, cheios de gelo raspado. Suas entranhas pareciam ter se transformado em massa de modelar.

Viu a cor laranja se materializar no meio do branco da neve. Viu a cabine alta, a figura do motorista gesticulando por trás do limpador de para-brisa.

Viu as lâminas limpadoras formando uma asa em V, cuspindo mais neve para a barreira à esquerda da estrada com um cano de descarga branco e esfumaçado.

FOMMMMMMM!, gritou a buzina, indignada.

Hallorann pisou fundo no acelerador, e o Buick fugiu para a direita. Não havia barreira aqui. A máquina jogava a neve pela ribanceira.

( A ribanceira, ah sim, a ribanceira…)

As lâminas à esquerda de Hallorann, a mais de um metro acima do teto do Electra, cortejaram o carro num espaço entre os dois de apenas quatro ou cinco centímetros. Hallorann achou, a princípio, que um acidente fosse inevitável. Uma oração, quase um pedido de desculpas inarticulado ao menino, passou rapidamente por sua cabeça como um pano rasgado.

E então a máquina já estava para trás, com suas lâmpadas giratórias cintilando e piscando no retrovisor de Hallorann.

Ele jogou o volante do Buick de volta para a esquerda, mas nada aconteceu. Os pneus derraparam, e o Buick flutuou de maneira sonhadora na direção da ribanceira, espirrando neve pelos para-lamas.

Girou o volante para o outro lado, na direção do deslizamento, fazendo a dianteira e a traseira do carro inverterem as posições. Apavorado, agora, pisou no freio com força e sentiu então uma batida forte. Diante dele, a estrada havia desaparecido… À sua frente, havia apenas um abismo de neve e

pinheiros verde-acinzentados lá embaixo, bem longe.

( Minha Nossa Senhora, vou despencar! )

E foi então que o carro parou, inclinando para a frente num ângulo de trinta graus, o para-choque esquerdo enfiado no guardrail, as rodas de trás quase para fora da estrada. Hallorann tentou a ré, as rodas giravam sem sair do lugar. O coração batia forte.

Saiu do carro — com muito cuidado — e caminhou até a traseira do Buick.

Estava ali parado, olhando as rodas traseiras, quando uma voz alegre disse por trás dele:

— Oi, cara. Você deve ter ficado maluco.

Ele se virou e viu a máquina a quarenta metros de distância, na estrada, escondida na neve que soprava, deixando aparecer somente a linha escura do cano de descarga e as luzes giratórias no topo. O motorista estava de pé logo atrás dele, vestido com um casacão comprido de pele de carneiro e uma capa impermeável por cima. Tinha um capacete azul de engenheiro enfiado na cabeça, e Hallorann quase não acreditava que o capacete pudesse estar firme com todo este vento.

( Visão. Só pode ser visão, meu Deus. )

— Oi — respondeu. — Pode me puxar de volta à estrada?

— Acho que sim — respondeu o motorista da máquina de limpar neve. —

Que diabos o senhor está fazendo aqui em cima? É uma boa forma de se matar.

— Negócio urgente.

— Nada é tão urgente — afirmou o motorista devagar e gentil, como se estivesse falando com um retardado mental. — Se se tivesse jogado por cima daquele poste, com um pouco mais de força, só iriam encontrar o senhor no dia 10 de abril. Não é daqui, é?

— Não. E não estaria aqui, se o negócio não fosse tão urgente, como eu disse.

— É mesmo? — O motorista mudou de posição, como se os dois estivessem batendo um papo no quintal de casa, em vez de estarem parados, em meio a uma tempestade, entre a cruz e a espada com o carro de Hallorann equilibrado a cem metros acima das árvores lá embaixo.

— Para onde vai? Para Estes?

— Não, vou para um lugar chamado Hotel Overlook — respondeu Hallorann. — Um pouco mais acima de Sidewinder.

O motorista balançou a cabeça com tristeza.

— Acho que sei bem onde é. O senhor nunca vai conseguir chegar até o Overlook. As estradas entre Estes Park e Sidewinder estão um inferno. Mal tiro a neve, cai mais. Passei agorinha mesmo por uns montes que tinham quase dois metros. E, se conseguir chegar a Sidewinder, a estrada está fechada de lá até Buckland, Utah. Não. — Meneou a cabeça. — Nunca vai conseguir, senhor. Nunca.

— Preciso tentar — disse Hallorann, recorrendo às últimas reservas de paciência para manter a voz calma. — Há um menino lá em cima…

— Menino? Não. O Overlook fecha no fim de setembro. Não pode ficar mais tempo aberto. Há muita tempestade como esta.

— Ele é o filho do zelador. Está com problemas.

— Como sabe?

Sua paciência acabou.

— Pelo amor de Deus, vai ficar aí parado de conversa fiada o dia todo? Eu sei, apenas isso, eu sei! Vai me ajudar a empurrar ou não?

— Nervosinho você, hein? — o motorista falou sem se chatear. — Claro, entre. Tenho uma corrente atrás do banco.

Hallorann voltou ao volante, começando a tremer intensamente. Suas mãos estavam dormentes. Não havia se lembrado de trazer luvas.

A máquina foi posta atrás do Buick, e ele viu o motorista sair com uma corrente comprida. Hallorann abriu a porta e gritou:

— O que posso fazer para ajudar?

— Fique fora do caminho, só isso. Faço isto num piscar de olhos.

O que era verdade. O Buick sacudiu quando a corrente o arrastou e, um segundo depois, estava na estrada, mais ou menos voltado para Estes Park. O

motorista foi até a janela e bateu no vidro. Hallorann a abriu.

— Obrigado — ele falou. — Desculpe ter gritado com você.

— Já gritaram comigo antes — respondeu o motorista, sorrindo. — Acho que está um pouco nervoso. Tome. — Um par de luvas azuis, grandes, caiu no colo de Hallorann. — Acho que vai precisar delas quando sair da estrada novamente. Está frio. Use as luvas, a não ser que queira passar o resto da vida desentupindo o nariz com uma agulha de crochê. E devolva depois. Foi minha mulher que fez, e tenho um carinho especial por elas. O nome e o endereço estão costurados no forro. Por falar nisso, sou Howard Cottrell.

Devolva quando não precisar mais delas. E com frete pago, se não se importar.

— Está bem — confirmou Hallorann. — Obrigado. Obrigado mesmo.

— Tome cuidado. Eu levaria você lá, mas estou mais enrolado do que linha em carretel.

— Não faz mal. Obrigado mais uma vez.

Começou a fechar a janela, mas Cottrell o impediu.

— Quando chegar a Sidewinder, se chegar, vá ao Durkin’s Conosco. Fica do lado da biblioteca. Bem à vista. Pergunte por Larry Durkin. Diga que Howie Cottrell o mandou e diga que quer alugar um snowmobile . Diga meu nome e mostre as luvas, vai ter um desconto no preço.

— Mais uma vez, obrigado — repetiu Hallorann.

Cottrell meneou a cabeça.

— Engraçado. Não sei como conseguiu saber que alguém está encrencado lá em cima no Overlook… O telefone não funciona, tenho certeza absoluta.

Mas acredito em você. Às vezes eu tenho pressentimentos.

Hallorann balançou a cabeça.

— Eu também.

— Sim, eu sei que tem. Mas tome cuidado.

— Fique tranquilo.

Cottrell desapareceu na névoa com um aceno de despedida, o capacete ainda enfiado na cabeça. Hallorann prosseguiu viagem, as correntes açoitando a neve na estrada, finalmente conseguindo a tração suficiente para que o Buick começasse a andar. Atrás dele, Howard Cottrell buzinou, fazendo um sinal de boa sorte, apesar de totalmente desnecessário; Hallorann podia sentir que o homem desejava boa sorte.

Dois iluminados num mesmo dia, pensou, isso só pode ser uma espécie de presságio. Mas não acreditava em presságios, fossem bons ou maus. E o fato de encontrar dois iluminados no mesmo dia (quando geralmente não se deparava com mais de quatro ou cinco ao longo de um ano) talvez não significasse nada. Uma sensação de finalidade, uma sensação ( como se as coisas estivessem encerradas)

que não podia definir muito bem, ainda o acompanhava. Era…

O Buick quis derrapar numa curva fechada, e Hallorann manobrou com cuidado, sem se atrever a respirar. Ligou o rádio novamente, e ali estava Aretha, e, sendo Aretha, as coisas estavam bem. Ele dividiria o banco de trás desse Buick da Hertz com ela qualquer dia que ela quisesse.

Outra lufada de vento atingiu o carro, que balançou e derrapou. Hallorann o controlou e chegou mais perto do volante. Aretha terminou a música, e o locutor entrou no ar novamente, dizendo que dirigir hoje era uma boa

maneira de se matar.

Hallorann desligou o rádio.

Depois de ter ficado quatro horas e meia na estrada depois de Estes Park, conseguiu chegar a Sidewinder. Quando chegou à estrada de subida da serra, já estava escuro, mas a tempestade de neve não apresentava sinais de folga.

Por duas vezes precisou parar diante de montes que eram tão altos quanto o carro e esperar as máquinas passarem para derrubá-los. Perto de um dos montes, a máquina aparecera na contramão e, mais uma vez, quase-quase. O

motorista simplesmente deu uma guinada, sem sair para bater papo, fazendo um gesto com o dedo que todos os americanos com mais de dez anos conhecem, e que não era o sinal de paz.

Parecia que, quanto mais se aproximava do Overlook, maior era a compulsão de correr. Olhava o relógio de pulso quase constantemente. Os ponteiros pareciam estar voando.

Dez minutos depois de ter começado a subida, passou por duas placas. O

vento limpara a neve das duas, e ele pôde então ler o que estava escrito nelas.

SIDEWINDER 16 KM, dizia a primeira. A segunda: ESTRADA FECHADA 20 KM ADIANTE DURANTE OS MESES DE INVERNO.

— Larry Durkin — murmurou Hallorann consigo mesmo. Seu rosto estava cansado e tenso sob o brilho verde dos mostradores do painel. Eram seis e dez. — Conoco, ao lado da biblioteca. Larry…

E foi quando o cheiro de laranja o atingiu com força total, com ira assassina:

(SAIA DAQUI SEU CRIOULO SUJO NÃO SE META SEU CRIOULO VOLTE VOLTE OU MATAREMOS VOCÊ ENFORCAREMOS VOCÊ NUMA ÁRVORE SEU MALDITO

CRIOULO E DEPOIS QUE IMAREMOS SEU CORPO É ISSO QUE FAZEMOS COM CRIOULOS POR ISSO VOLTE IMEDIATAMENTE) Hallorann gritou no espaço confinado do carro. A mensagem não lhe chegou em palavras, mas numa série de desenhos que formavam palavras, atirados contra sua cabeça com uma força terrível. Tirou as mãos do volante para afastar as imagens.

Em seguida, o carro bateu em uma barreira, derrapou e parou. As rodas traseiras giravam.

Hallorann deixou o carro em ponto morto e cobriu o rosto com as mãos.

Na realidade, não chorou; só deixou escapar alguns poucos soluços. O peito ofegava. Sabia que, se aquele raio de pensamento o tivesse atingido no meio de um trecho sem barreiras, estaria morto agora. Talvez fosse esse o intuito. E

poderia atingi-lo de novo, a qualquer momento. Teria que se proteger contra isso. Estava cercado por uma força vermelha de grande poder que talvez fosse memória. Ele se afogava em instinto.

Tirou as mãos do rosto e abriu os olhos com cuidado. Nada. Se havia mais alguma coisa que tentava amedrontá-lo, não estava conseguindo. Ele estava fechado.

Será que isso aconteceu com o menino? Santo Deus, isso aconteceu com o menininho?

E, de todas as imagens, a que mais o incomodava era o som de um impacto forte, como um martelo batendo num pedaço grosso de queijo. O que isso significaria?

( Jesus, aquele menininho não. Jesus, por favor. ) Engatou o carro e acelerou um pouco. As rodas giravam, prendiam, giravam e prendiam novamente. O Buick começou a se mover, os faróis cortando muito fracamente a neve. Olhou o relógio. Quase seis e meia. E

começava a sentir que já era tarde demais.

50

REDRUM

Wendy Torrance estava parada indecisa no meio do quarto, olhando o filho que adormecera.

Fazia meia hora que o barulho cessara. Todos os barulhos de uma vez. O

elevador, a festa, as portas que abriam e fechavam. Ao invés de acalmar, o silêncio aumentava a tensão que crescia dentro dela; era como uma calmaria maléfica antes do ataque final e mais brutal da tempestade. Mas Danny tinha adormecido quase imediatamente; a princípio um sono leve, agitado, e, finalmente, dez minutos depois, um sono mais pesado. Mesmo olhando fixamente para ele, era difícil de perceber o movimento do tórax estreito.

Imaginou qual teria sido a última vez que ele dormira a noite inteira, sem pesadelos ou longos períodos de insônia, ouvindo barulhos de festas, que só tinham se tornado audíveis — e visíveis — para ela nos últimos dias, quando o cerco do Overlook em torno dos três apertou.

( Verdadeiros fenômenos psíquicos ou hipnose coletiva? ) Ela não sabia e não achava que fosse importante. O que estava acontecendo era igualmente mortal das duas formas. Olhou para Danny e pensou

( Que Deus o proteja)

que, não sendo perturbado, poderia dormir o resto da noite. Qualquer que fosse seu dom, ele ainda era um menino pequeno e precisava descansar.

Era com Jack que começava a se preocupar.

Fez uma careta de dor, tirou a mão da boca e viu que quebrara uma unha.

Suas unhas eram uma coisa que ela sempre tentava manter bonitas. Não eram tão longas para serem chamadas de garras, mas tinham um belo formato, e ( e por que está se preocupando com as unhas? ) riu um pouco, mas o riso era um ruído trêmulo, sem alegria.

Primeiro Jack parara de vociferar e bater na porta. Depois a festa recomeçara,

( será que tinha mesmo parado em algum momento? será que às vezes eles apenas deslizavam para um ângulo diferente de tempo, no qual não poderiam ser ouvidos? )

acompanhada dos ruídos do elevador. Depois, tudo acabara novamente.

Nesse novo silêncio, enquanto Danny dormia, ela imaginou ouvir vozes baixas, em tom de conspiração, vindas da cozinha, quase que exatamente embaixo do quarto. A princípio, afastara o pensamento, imaginando que fosse o vento, que era capaz de imitar muitos sons da voz humana, desde um sussurro moribundo em volta das portas e janelas até um grito na beira dos telhados… O som de uma mulher fugindo de um assassino num melodrama barato. Ainda assim, sentada imóvel ao lado de Danny, a ideia de que eram realmente vozes tornou-se cada vez mais forte.

Jack e mais alguém, discutindo sua fuga da despensa.

Discutindo o assassinato da mulher e do filho.

Não seria nenhuma novidade dentro destas paredes; assassinatos já tiveram lugar aqui antes.

Ela foi até o aquecedor e encostou o ouvido ali, mas naquele exato momento a fornalha começara a funcionar, e os ruídos se perderam no ar quente que subia do porão. Quando a fornalha havia desligado, cinco minutos antes, o lugar estava totalmente em silêncio, e só o vento soprava, fazendo a neve bater no prédio e uma tábua ranger.

Olhou para a unha quebrada. Pequenas gotas de sangue brotavam por baixo.

( Jack escapou. )

( Não diga besteira. )

( Sim, ele saiu. Está com uma faca de cozinha ou talvez um cutelo de açougueiro. Está subindo para cá agora, pisando próximo ao corrimão para os degraus não estalarem. )

( Você está louca! )

Seus lábios tremiam e, por um momento, pensou que tivesse falado em voz alta. Mas o silêncio continuava.

Sentiu que estava sendo observada.

Virou-se de costas e olhou para a janela, e um rosto branco horrendo, com círculos escuros no lugar de olhos, a observava, o rosto de um monstro lunático que se escondera nestas paredes durante todo o tempo…

Era só uma figura de gelo do lado de fora do vidro.

Respirou fundo com medo e pareceu ouvir, muito nitidamente desta vez, risadinhas alegres vindas de algum lugar.

( Está com medo até de sua sombra. Já é ruim o bastante sem isso. Amanhã de manhã, estará pronta para o manicômio. )

Havia só um modo de acalmar esses medos, e ela sabia qual era.

Teria que descer e se certificar de que Jack ainda estava na despensa.

Muito simples. Descer. Verificar. Voltar. Ah, sim, no caminho, parar e pegar a bandeja sobre o balcão da recepção. A omelete provavelmente já havia estragado, mas a sopa poderia ser requentada no fogareiro junto à máquina de escrever de Jack.

( Ah, sim, e não morrer se ele estiver lá embaixo com uma faca. ) Foi à penteadeira, tentando sacudir o manto de medo que a cobria.

Espalhados sobre o móvel estavam uma pilha de moedas, uma de cupons de gasolina para o caminhão do hotel, dois cachimbos que Jack levava com ele para toda parte, mas que raramente fumava… e o chaveiro dele.

Ela pegou o chaveiro, o segurou por um momento e depois o colocou de volta na penteadeira. Pensou em trancar a porta do quarto, mas a ideia simplesmente não a deixou confortável. Danny dormia. Vagos pensamentos passaram por sua mente, e algo batia mais forte, mas ela deixou passar.

Wendy atravessou o quarto, parou, indecisa, junto à porta por um momento, pegou a faca do bolso do roupão e segurou o cabo de madeira.

Abriu a porta.

O corredor curto estava vazio. As tochas elétricas todas brilhavam, mostrando o fundo azul e sinuoso dos desenhos.

( Está vendo? Por aqui, nenhum fantasma. )

( Não, claro que não. Querem eliminar você. Querem que você faça alguma coisa idiota de mulherzinha, e é exatamente isso o que você está fazendo. )

Hesitou mais uma vez, miseravelmente confusa, sem querer deixar Danny e a segurança do quarto, e ao mesmo tempo precisando desesperadamente se certificar de que Jack ainda estava… seguramente isolado.

( Claro que está. )

( Mas as vozes)

( Não havia vozes. Foi sua imaginação. Foi o vento. )

— Não foi o vento.

O som de sua própria voz a assustou. Mas sua convicção mortal fez com que prosseguisse. A faca balançava, refletindo luz no papel de parede de seda. Os chinelos sussurravam no pelo do tapete. Os nervos à flor da pele.

Chegou à esquina com o corredor principal e espiou, a mente preparada para qualquer coisa que pudesse ver ali.

Não havia nada para ver.

Depois de um momento de hesitação, começou a caminhar pelo corredor principal. Cada passo à frente, em direção à escada cheia de sombras, aumentava seu pavor e a fazia consciente de que estava deixando o filho adormecido para trás, sozinho e desprotegido. O ruído dos chinelos no tapete parecia cada vez mais alto em seus ouvidos. Por duas vezes ela olhou para trás para se convencer de que ninguém a seguia.

Chegou à escada e pôs a mão no pilar frio, no topo do corrimão. Eram dezenove degraus largos até o saguão. Já os contara tantas vezes que sabia de cor. Dezenove degraus acarpetados e ninguém à espreita. Claro que não. Jack estava trancado na despensa, por trás de um ferrolho forte de aço e uma grossa porta de madeira.

Mas o saguão estava escuro e cheio de sombras.

O coração batia forte na garganta.

Adiante, um pouco para a esquerda, o elevador aberto, zombeteiro, a convidava para entrar e fazer o passeio mais maravilhoso de sua vida.

( Não, obrigada)

O interior tinha sido revestido de serpentina de crepe rosa e branca.

Confetes saíam das línguas de sogra. No canto direito, ao fundo, havia uma garrafa de champanhe vazia.

Sentiu um movimento atrás e se virou para olhar para cima dos dezenove degraus que levavam ao segundo andar, mas não viu nada. Ainda assim, tinha uma estranha sensação de canto de olho de que coisas ( coisas)

haviam saltado para trás, na mais profunda escuridão do corredor lá em cima, antes que seus olhos pudessem registrá-las.

Olhou os degraus novamente.

Sua mão direita suava no cabo de madeira da faca; passou a faca para a mão esquerda, enxugou a palma direita no robe de veludo cor-de-rosa e voltou a segurá-la com a direita. Quase sem perceber que era sua mente que comandava o corpo, impulsionando-o para a frente, Wendy começou a descer, a mão vazia se apoiando no corrimão.

( Onde é a festa? Não se assustem comigo, bando de lençóis mofados! Não temam uma mulher apavorada com uma faca! Vamos ouvir um pouco de música! Um pouco de ânimo! )

Dez degraus, doze, treze.

A luz do corredor do primeiro andar era muito fraca aqui, e ela lembrou que precisaria acender as luzes do saguão, ao lado da entrada do restaurante ou dentro do escritório da gerência.

Mas uma luz vinha de algum outro lugar, branca e silenciosa.

As lâmpadas fluorescentes, claro. Na cozinha.

Parou no décimo terceiro degrau, tentando se lembrar se havia apagado ou as deixado acesas quando ela e Danny saíram. Simplesmente não se lembrava.

Abaixo dela, no saguão, as cadeiras de espaldar alto estavam ocupadas pelas sombras. O vidro nas portas do saguão estava branco, coberto por uma uniforme cortina de neve. Tachas de metal, nos sofás, brilhavam como olhos de gato. Havia uma centena de esconderijos.

Suas pernas estavam duras de medo, e ela continuou a descer.

Dezessete, dezoito, dezenove.

( Térreo, madame. Cuidado ao sair. )

As portas do salão de baile estavam abertas, e só escuridão saía de lá. De dentro, vinha um tique-taque constante, como o de uma bomba. Ela ficou imóvel; depois se lembrou do relógio sobre a lareira, sob a redoma de vidro.

Jack ou Danny devem ter dado corda nele… Ou talvez ele mesmo se deu corda, como tudo no Overlook.

Virou-se para o balcão de recepção, com o intuito de passar pelo portãozinho, ir à gerência e chegar à cozinha. Avistou a bandeja de prata com o lanche, brilhando melancolicamente.

Então, o relógio começou a bater, tinindo pequenas notas musicais.

Wendy ficou imóvel, a língua levantada no céu da boca. Em seguida, relaxou. Eram oito horas, só. Oito horas

… cinco, seis, sete…

Contava as batidas. De repente, pareceu que seria errado se ela se mexesse antes de o relógio parar.

… oito… nove…

( Nove?? )

… dez… onze…

De repente, voltou a si. Virou-se desajeitadamente para a escada, já sabendo que era tarde demais. Mas como poderia ter sabido antes?

Doze.

As luzes do salão de baile acenderam. Houve um imenso floreio do naipe de metais. Wendy deu um grito alto, insignificante diante do clangor dos metais.

— Retirem as máscaras! — ecoou o grito. — Retirem as máscaras!

Retirem as máscaras!

Em seguida sumiram, como se tivessem entrado por um longo túnel do tempo, deixando Wendy mais uma vez sozinha.

Não, sozinha não.

Ao se virar, viu que ele caminhava em sua direção.

Era Jack, e ao mesmo tempo não era Jack. Seus olhos refletiam um brilho vago e assassino; a boca familiar esboçava um sorriso trêmulo e triste.

Trazia o taco de roque em uma das mãos.

— Pensou que tivesse me trancado? Foi isso que pensou?

O taco assobiou no ar. Ela deu um passo atrás, tropeçou e caiu no tapete do saguão.

— Jack…

— Sua puta — murmurou ele. — Eu sei o que você é.

O taco caiu assobiando, com enorme velocidade, sobre o estômago macio de Wendy. Ela gritou, subitamente submersa num oceano de dor. Muito vagarosamente viu o taco subir novamente. Wendy compreendeu a realidade entorpecente de que ele pretendia espancá-la até a morte com o taco que segurava nas mãos.

Tentou gritar mais uma vez, implorar que ele parasse pelo amor de Danny, mas não tinha fôlego. Só conseguia esboçar um choramingar fraco, que mal era um som.

— Agora. Agora, por Deus — falou ele sorrindo. Chutou a almofada para fora de seu caminho. — Acho que agora você vai tomar seu remédio.

O taco desceu. Wendy rolou para a esquerda, o roupão enrolado nos joelhos. O taco se soltou das mãos de Jack ao atingir o chão. Enquanto ele se abaixava para apanhá-lo, ela correu para a escada, recuperando finalmente o fôlego. Seu estômago era uma lesão latejante de dor.

— Puta! — ele gritou entre dentes e começou a correr atrás dela. — Sua

puta imunda, acho que você vai receber aquilo que você merece. Acho mesmo.

Ela ouviu o taco cortar o ar, e então uma dor imensa tomou conta do seu lado direito, quando o taco a atingiu abaixo do peito, quebrando duas costelas. Caiu nos degraus, tomada por uma nova agonia, ao cair sobre o lado ferido. Mas o instinto a fez rolar, rolar fugindo do taco que zuniu perto de seu rosto, errando o alvo por um triz. O taco bateu no tapete grosso da escada com uma pancada abafada. Foi quando ela viu a faca que caíra de sua mão com a queda. Estava no quarto degrau, brilhando.

— Puta — repetiu Jack. O taco desceu. Ela deu um impulso para cima, e o taco atingiu bem abaixo da sua rótula. De repente, sua perna ardia como fogo.

Sangue começou a escorrer pela panturrilha. E, em seguida, o taco baixou novamente. Wendy desviou a cabeça, se esquivando, e o taco atingiu o degrau no espaço entre o pescoço e o ombro, esfolando sua orelha.

Ele baixou o taco de novo, e desta vez ela rolou em direção a Jack, escada abaixo, passando pelo arco que o golpe descendente formava. Um berro lhe escapou quando suas costelas se chocaram. Com o peso de seu corpo, ela acertou as pernas de Jack, fazendo-o cair de costas, gritando de raiva e surpresa, os pés dançando ao tentar se manter no degrau. Em seguida, ele bateu no chão, o taco voando de sua mão. Sentou-se, olhando para ela por um momento com os olhos assustados.

— Vou matar você por isso — falou Jack.

Rolou e esticou o braço para pegar o taco. Wendy se obrigou a levantar. A perna lançava relâmpagos de dor que subiam até o quadril. O rosto estava pálido, mas determinado. Pulou por cima das costas de Jack, cujas mãos se fechavam no cabo do taco de roque .

— Santo Deus! — ela gritou para o saguão do Overlook, cheio de sombras, e enterrou a faca de cozinha na parte baixa das costas do marido, até o cabo.

Jack se contraiu, caído embaixo dela, e depois gritou. Ela achou que nunca tinha ouvido um som mais pavoroso em toda a sua vida; era como se todos os quadros, janelas e portas do hotel tivessem gritado. O grito parecia continuar, enquanto ele continuava duro como um pedaço de pau sob o peso dela.

Lembravam um arremedo de cavalo e cavaleiro. A única diferença era que as costas da camisa xadrez vermelha e preta dele ficavam cada vez mais escuras, encharcadas de sangue.

Depois ele tombou, caindo sobre o lado ferido de Wendy e fazendo-a gemer.

Ela se deitou respirando fundo durante algum tempo, sem poder se mover.

Ela era dor dos pés à cabeça. Em cada inspiração, alguma coisa lhe espetava, e o pescoço estava molhado de sangue por causa da orelha esfolada.

Os únicos ruídos eram os de seu esforço para respirar, do vento e do tique-taque do relógio no salão de baile.

Finalmente, fez força para se pôr de pé e caminhou mancando até a escada.

Ao chegar, apoiou-se no corrimão e baixou a cabeça, sentindo-se fraca.

Quando se sentiu melhor, começou a subir, apoiando-se na perna boa e puxando o corpo com os braços no corrimão. Olhou uma vez para cima, esperando ver Danny, mas a escada estava vazia.

( Graças a Deus ele ficou dormindo, graças a Deus, graças a Deus. ) Depois de subir seis degraus, precisou parar para descansar, a cabeça baixa, o cabelo louro caindo sobre o corrimão. O ar saía assobiando dolorosamente pela garganta, como se tivesse criado espinhos. Seu lado direito era uma massa inchada e quente.

( Vamos Wendy vamos moça tranque-se por trás de uma porta e veja os estragos. Só faltam treze não é tão ruim. Quando chegar lá em cima no corredor pode rastejar. Eu lhe dou permissão. ) Inspirou a quantidade de ar que suas costelas quebradas permitiam e, aos poucos, foi subindo.

Quando estava no nono degrau, quase na metade do caminho, a voz de Jack chegou aos seus ouvidos. Ele dizia grave:

— Sua puta. Você me matou.

Um pavor tão negro como a noite tomou conta dela. Olhou para trás e viu Jack se levantando devagar.

As costas dele estavam curvadas para a frente, e ela viu o cabo da faca espetado. Os olhos de Jack pareciam contraídos, quase perdidos, as pálpebras caídas. Segurava sem força o taco na mão esquerda. A ponta estava ensanguentada, com um pedaço do robe de veludo cor-de-rosa grudado.

— Vou lhe dar o seu remédio — murmurou ele e começou a cambalear em direção à escada.

Tremendo de medo, ela voltou a se impulsionar para cima. Dez degraus, doze, treze. Mas o corredor do primeiro andar parecia tão distante quanto o pico de uma montanha inatingível. Arquejava. O cabelo se agitava no rosto.

O suor escorria. O tique-taque do relógio na redoma parecia encher seus os ouvidos, marcando o compasso dos suspiros agonizantes de Jack, enquanto ele começava a subir as escadas.

Continuar: parte 5 de 6