O Iluminado

Stephen King · Capítulo 5 de 9 · parte 6/6

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O Iluminado

Quinta parte: Questões de vida e morte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Trancado. O terror tomou conta dele.

Atrás, a coisa se aproximava, desajeitada e cambaleante em frente à Suíte Presidencial, o taco assobiando no ar.

Danny recuou, encostando-se na última porta trancada, à espera.

55

O QUE FOI ESQUECIDO

Wendy voltou a si, recobrando a consciência, a dor tomando seu lugar: as costas, a perna, o quadril… não achava que fosse possível se mexer. Até os dedos doíam, e a princípio não sabia por quê.

( A lâmina de gilete, era por isso. )

O cabelo louro, molhado e emaranhado, caía em seus olhos. Ela o afastou, gemendo ao sentir as costelas espetarem lá dentro. Agora via um pedaço de colchão azul e branco, sujo de sangue. O sangue dela ou talvez o de Jack. De qualquer forma, ainda estava fresco. Não havia ficado muito tempo desacordada. E isto era importante porque…

( Por quê? )

Porque…

Foi do zumbido de inseto do motor que ela se lembrou primeiro. Por um momento, ela se concentrou estupidamente na memória, e, então, num

mergulho vertiginoso e enjoativo, sua mente parecia faiscar de volta, mostrando a ela tudo de uma vez.

Hallorann. Deve ter sido Hallorann. Por qual outro motivo Jack sairia tão de repente, sem acabar… sem acabar com ela?

Porque estava perturbado. Ele tinha que encontrar Danny rapidamente e…

e fazer o que devia antes que Hallorann o impedisse.

Ou será que já tinha feito?

Podia ouvir o zumbido do elevador, subindo pelo poço.

( Não Deus por favor não o sangue o sangue ainda está fresco não deixe que já tenha acontecido. )

De algum modo, conseguiu ficar de pé e cambalear pelo quarto e pelas ruínas da sala até a porta quebrada, que abriu e passou para o corredor.

— Danny! — gritou, estremecendo com a dor no peito. — Sr. Hallorann!

Há alguém aí? Alguém?

O elevador estava funcionando novamente e agora parou. Ouviu o ruído metálico da grade sendo aberta e, logo em seguida, uma voz falando. Pode ter sido imaginação. O vento estava muito alto para poder realmente saber.

Encostada na parede, conseguiu chegar ao corredor principal. Estava quase virando quando o grito a paralisou, pairando na escada e no poço do elevador:

— Danny! Venha aqui, seu fedelho! Venha aqui e enfrente como um homem!

Jack. No segundo ou terceiro andar. Procurando por Danny.

Dobrou o corredor, tropeçou, quase caiu. Sem fôlego. Havia alguma coisa (alguém?)

encostada na parede, alguns passos depois da escada. Andou mais depressa, estremecendo toda vez que seu peso caía sobre a perna machucada.

Era um homem, ela viu, e ao se aproximar entendeu o significado do zumbido do motor.

Era o sr. Hallorann. Ele tinha vindo, afinal.

Ela se ajoelhou ao lado dele, rezando incoerentemente para que não estivesse morto. O nariz de Hallorann sangrava, e uma terrível placa de sangue saíra de sua boca. O lado do rosto era um hematoma inchado. Mas respirava, graças a Deus. A respiração vinha em inspirações longas e duras, que faziam seu corpo sacudir.

Ao chegar mais perto, os olhos de Wendy se arregalaram. Uma das mangas do casaco que ele usava estava preta e chamuscada. Um dos lados estava

rasgado. Havia sangue no cabelo e um arranhão superficial, mas feio, na nuca.

( Meu Deus, o que aconteceu com ele? )

— Danny! — a voz rouca e petulante berrava acima deles. — Venha aqui, desgraçado!

Não havia tempo para reflexões. Começou a sacudi-lo, o rosto contraído com a dor nas costelas. Sentia um de seus lados inchado e quente.

( E se estiverem perfurando meu pulmão quando me mexo? ) Não tinha jeito. Se Jack encontrasse Danny, iria matá-lo, bateria nele com aquele taco até que o menino morresse, como havia tentado fazer com ela.

Sacudiu Hallorann e começou a dar tapas no lado do rosto que não estava machucado.

— Acorde — disse. — Sr. Hallorann, precisa acordar. Por favor… por favor…

Lá de cima, ouvia as incansáveis batidas do taco, enquanto Jack procurava o filho.

Danny ficou encostado na porta, olhando o ângulo onde os corredores se encontravam. As batidas constantes e irregulares do taco contra as paredes se tornaram mais altas. A coisa gritava, uivava e xingava. Sonho e realidade se encontraram sem distinção.

A coisa dobrou o corredor.

De certa forma, o que Danny sentiu foi alívio. Não era seu pai. A máscara do rosto e do corpo fora arrancada e partida, transformada numa brincadeira de mau gosto. Não era seu pai, não este Show de Horror de Sábado à Noite com os olhos virados, ombros curvados e pesados e camisa ensopada de sangue. Não era seu pai.

— Ora, por Deus — suspirou. Enxugou os lábios com a mão trêmula. —

Agora você vai saber quem manda aqui. Vai ver. Não é você que eles querem. Sou eu. Eu! Eu!

Bateu o taco arrebentado, disforme e estilhaçado pelos inúmeros impactos.

Acertou a parede, afundando um círculo no papel de parede de seda, espalhando poeira de gesso. A coisa começou a sorrir.

— Vamos ver se você faz aqueles seus truques agora — murmurou. —

Não nasci ontem, sabe. Não fui encontrado na porta da igreja, por Deus. Vou cumprir meu dever de pai, garoto.

— Você não é meu pai — respondeu Danny.

A coisa parou. Por um momento, ficou, na verdade, incerta, como se não

estivesse segura de quem ou o que era. Depois, começou a andar novamente.

O taco, assobiando, bateu numa porta e provocou um estrondo surdo.

— Seu mentiroso! — gritou. — Quem mais eu poderia ser? Tenho duas marcas registradas, o umbigo pra fora e o pau, meu rapaz. Pergunte a sua mãe.

— Você é uma máscara — retrucou Danny. — Só um rosto falso. O hotel só está usando você porque você não está tão morto quanto os outros. Mas, quando ele não tiver mais nada para fazer com você, você será absolutamente nada. Você não me assusta.

— Vou assustar você! — berrou a coisa. O taco bateu com força no chão, entre os pés de Danny. O menino não se mexeu. — Você inventou mentiras sobre mim. Você conspirou com ela! Vocês tramaram contra mim! Você foi desonesto! Colou no exame final! — Os olhos se iluminaram debaixo das sobrancelhas espessas. Havia neles uma expressão demente. — Vou descobrir. Está lá embaixo no porão. Vou encontrar. Eles me prometeram que eu poderia olhar tudo o que eu quisesse. — Ergueu o taco mais uma vez.

— Sim, prometeram — retrucou Danny. — Mas eles mentem.

O taco hesitou no ar.

Hallorann estava começando a voltar a si, e Wendy parou de dar tapinhas em seu rosto. Alguns momentos atrás, as palavras Você foi desonesto! Colou no exame final! flutuaram pelo poço do elevador, distantes, quase inaudíveis na ventania. De algum lugar no fundo da ala oeste. Estava praticamente convencida de que estavam no terceiro andar, e que Jack — ou a coisa que tinha possuído Jack — encontrara Danny. Não havia nada que ela ou Hallorann pudessem fazer agora.

— Ah, velhinho — murmurou Wendy. Seus olhos se encheram de lágrimas.

— Filho da puta, quebrou meu maxilar — resmungou Hallorann, com a voz rouca. — E minha cabeça… — Tentou se sentar. O olho esquerdo escurecia rapidamente e inchava. Ainda assim, viu Wendy.

— Sra. Torrance…

— Shhhh — fez ela.

— Onde está o menino, sra. Torrance?

— No terceiro andar — respondeu Wendy. — Com o pai.

* * *

— Eles mentem — repetiu Danny. Algo passara por sua cabeça, claro como um meteoro, muito rápido, muito claro para poder ser segurado. Só o rabo do pensamento sobrou.

( está lá embaixo no porão em algum lugar)

( vai se lembrar daquilo que seu pai esqueceu)

— Você… você não devia falar assim com seu pai — respondeu a coisa, com a voz áspera. O taco tremeu e baixou. — Só está piorando a situação para você mesmo. Seu… seu castigo. Pior. — Cambaleou como um bêbado e olhou para Danny fixamente com uma autocompaixão que começou a se transformar em ódio. O taco começou a se erguer novamente.

— Você não é meu pai! — gritou Danny mais uma vez. — Se existe algum resto de meu pai dentro de você, esse resto saberá que eles estão mentindo.

Tudo é mentira e trapaça. Como os dados que meu pai escondeu na meia do Papai Noel no ano passado, como os embrulhos de presentes que ficam nas vitrines, e que meu pai diz que não tem nada dentro, nenhum presente, são só caixas vazias. Só para enfeitar, meu pai diz. Você é uma coisa, não meu pai.

Você é o hotel. E, quando conseguir o que quer, não vai dar nada a meu pai, porque você é egoísta. E meu pai sabe disso. Você teve que fazer ele beber a Coisa Feia. Só assim conseguiu que ele fizesse as coisas que você queria, sua careta mentirosa.

— Mentiroso! Mentiroso! — As palavras saíam em gritos fortes. O taco balançou no ar.

— Bate, bate. Nunca vai conseguir de mim o que você quer.

O rosto, na frente dele, se modificou. Era difícil dizer como; não houve mudança de traços fisionômicos. O corpo tremeu um pouco, e então as mãos ensanguentadas se abriram como garras quebradas. O taco caiu e bateu no tapete. Foi só. Mas, de repente, seu pai estava ali, olhando para ele em agonia mortal, e com uma tristeza tão grande que o coração de Danny ardeu dentro do peito. A boca arqueou trêmula.

— Velhinho — disse Jack Torrance. — Fuja daqui. Rápido. E não se esqueça do quanto eu amo você.

— Não — falou Danny.

— Ah, Danny, pelo amor de Deus…

— Não — repetiu Danny. Segurou uma das mãos ensanguentadas do pai e a beijou. — Está quase terminado.

Hallorann se levantou, apoiando as costas na parede e se impulsionando para cima. Ele e Wendy se entreolharam como sobreviventes de um hospital

bombardeado.

— Precisamos ir lá em cima — ele afirmou. — Precisamos ajudar Danny.

Os olhos assombrados no rosto pálido de Wendy se fixaram nos dele.

— Já é tarde demais — respondeu Wendy. — Agora, só ele pode se ajudar.

Um minuto se passou, depois dois. Três. E então ouviram a coisa gritando, não de raiva ou triunfo agora, mas de um terror mortal.

— Santo Deus — sussurrou Hallorann. — O que está acontecendo?

— Não sei — respondeu ela.

— Será que ele matou Danny?

— Não sei.

O elevador voltou a funcionar e começou a descer com a coisa raivosa engaiolada no interior.

Danny ficou imóvel. Não havia um lugar para onde ele pudesse correr onde o Overlook não estivesse. Compreendeu isso de repente, total e claramente.

Pela primeira vez na vida, tivera um pensamento adulto, um sentimento adulto, a essência de sua experiência neste lugar ruim… uma triste experiência:

( Mamãe e papai não podem me ajudar, e estou sozinho. )

— Vá embora — o menino falou ao estranho ensanguentado à sua frente.

— Vá. Saia daqui.

A coisa se inclinou, exibindo o cabo da faca enfiado nas costas. Suas mãos se fecharam novamente em volta do taco, mas, ao invés de apontar para Danny, apontaram o lado duro do taco para seu próprio rosto.

Danny compreendeu rapidamente.

Então, o taco começou a subir e descer, destruindo o resto da imagem de Jack Torrance. A coisa no corredor dançava uma estranha e confusa polca, o ritmo marcado pelo hediondo taco batendo vezes seguidas. Sangue espirrou no papel de parede. Pedaços de ossos saltaram no ar como teclas de piano quebradas. Era impossível dizer quanto tempo havia se passado. Mas, quando a coisa voltou sua atenção para Danny, seu pai desaparecera para sempre. O

que sobrou do rosto era uma estranha composição, muitos rostos misturados em um. Danny viu a mulher do 217; o homem-cachorro; o menino faminto que estava no anel de concreto.

— Máscaras retiradas, então — murmurou a coisa. — Nada mais de interrupções.

O taco foi erguido uma última vez. Um tique-taque encheu os ouvidos de Danny.

— Algo mais a dizer? — perguntou a coisa. — Tem certeza de que não quer correr? Brincar de pique, talvez? Tudo o que temos é tempo, você sabe.

Uma eternidade de tempo. Ou devemos ficar por aqui? Tanto faz. Afinal de contas, estamos perdendo a festa.

Sorriu com um dente quebrado.

E então Danny lembrou. O que o pai tinha esquecido.

Um triunfo repentino encheu seu rosto; a coisa viu e hesitou confusa.

— A caldeira! — gritou Danny. — Não é regulada desde hoje de manhã!

Está subindo! Vai explodir!

Uma expressão grotesca de terror e de consciência tomou conta da coisa semidestruída diante dele. O taco caiu de suas mãos e ricocheteou inofensivamente no tapete preto e azul.

— A caldeira! — gritou a coisa. — Ah, não! Isso não pode ser! Claro que não! Não! Seu fedelho desgraçado! Claro que não! Ah, ah, ah…

— Sim! — gritou Danny, com força. Começou a saltitar diante da coisa arruinada. — A qualquer momento! Eu sei! A caldeira, papai esqueceu a caldeira! E você esqueceu também!

— Não, ah não, não pode, não pode, seu menino sujo, farei você tomar o remédio, farei você tomar até a última gota, ah não, ah não…

De repente, a coisa se virou de costas e começou a se afastar. Por um momento, sua sombra balançou na parede, crescendo e minguando. Deixava gritos como rastros, como serpentinas desenroladas.

Momentos depois, o elevador funcionava.

De repente, a iluminação estava sobre Danny

( mamãe sr. hallorann dick os meus amigos juntos vivos estão vivos precisam sair vai explodir vai explodir até o céu) como o nascer de um sol brilhante e forte, e ele correu. Um pé chutou o taco de roque ensanguentado e deformado para o lado. Não percebeu.

Chorando, desceu as escadas.

Precisavam sair.

56

A EXPLOSÃO

Hallorann nunca teve muita certeza de como as coisas aconteceram depois daquilo. Lembrava que o elevador havia descido passando por eles, sem parar, e que alguma coisa estava lá dentro. Mas não fez nenhum esforço para tentar ver através da pequena janela, pois o que estava lá não parecia humano.

Minutos depois, ouviu pés correndo na escada. Wendy Torrance, a princípio,

tentou se refugiar com ele, mas depois começou a cambalear pelo corredor principal o mais depressa que conseguia em direção às escadas.

— Danny! Danny! Graças a Deus! Graças a Deus!

Acolheu o filho num abraço, gemendo de alegria e de dor.

( Danny. )

Danny olhou para ele por cima dos ombros da mãe, e Hallorann notou como o menino havia mudado. O rosto estava pálido e aflito, os olhos escuros e insondáveis. Parecia mais magro. Olhando os dois juntos, Hallorann achou que era a mãe quem parecia mais nova, apesar da surra terrível que levara.

( Dick — precisamos ir — correndo — o lugar — vai) Imagem do Overlook, chamas saltando do telhado. Tijolos caindo na neve.

Alarme de incêndio… não que algum caminhão do Corpo de Bombeiros pudesse chegar aqui muito antes do fim de março. O que mais vinha do pensamento de Danny era um sentido de urgência imediata, uma sensação de que iria acontecer a qualquer momento.

— Muito bem — falou Hallorann. Caminhou em direção aos dois e, no começo, foi como nadar no fundo d’água. Seu senso de equilíbrio estava prejudicado, e o olho direito fora de foco. O maxilar lançava ondas de uma dor latejante até as têmporas e o pescoço, e a bochecha parecia tão grande quanto um repolho. Mas se sentiu contagiado pelo senso de urgência do menino, e isso tornava a movimentação mais fácil.

— Muito bem? — perguntou Wendy. Olhou Hallorann e o filho e, de volta, Hallorann. — O que quer dizer com muito bem?

— Precisamos sair — respondeu Hallorann.

— Não estou vestida… minhas roupas…

Danny se soltou de seus braços e correu pelo corredor. Ela o acompanhou com os olhos e, quando ele desapareceu no encontro dos dois corredores, voltou os olhos para Hallorann.

— E se ele voltar?

— Seu marido?

— Ele não é Jack — murmurou Wendy. — Jack está morto. Este lugar o matou. Este maldito lugar. — Bateu com as mãos na parede e gritou quando seus dedos cortados doeram. — É a caldeira, não é?

— É, sim, senhora. Danny diz que vai explodir.

— Ótimo. — A palavra saiu carregada de ódio. — Não sei se posso descer esta escada novamente. Minhas costelas… ele quebrou minhas costelas. E

alguma coisa em minhas costas está doendo.

— Você vai conseguir — afirmou Hallorann. — Vamos todos conseguir.

— Mas, de repente, se lembrou dos animais de arbustos e imaginou o que fariam se estivessem guardando a saída.

Danny voltava. Trazia as botas de Wendy, casaco e luvas e também seu próprio casaco e suas luvas.

— Danny. Suas botas — observou a mãe.

— Tarde demais — respondeu. Danny encarava os dois com uma espécie de loucura desesperada. Olhou para Dick e, de repente, a mente de Hallorann se fixou na imagem de um relógio sob uma redoma de vidro, o relógio do salão de baile que havia sido doado por um diplomata suíço em 1949. Os ponteiros do relógio marcavam um minuto para a meia-noite.

— Ai, meu Deus — exclamou Hallorann. — Ai, meu Santo Deus.

Passou um braço em volta de Wendy e a levantou. Passou o outro braço em volta de Danny. Correu para a escada.

Wendy gritou de dor quando ele apertou suas costelas quebradas, como se alguma coisa estivesse sendo triturada, mas Hallorann não diminuiu o passo.

Jogou-se pela escada com os dois nos braços. Um olho arregalado e desesperado, o outro inchado e miúdo como uma fresta. Parecia um pirata de um olho só, raptando reféns para serem resgatados depois.

De repente, a iluminação tomou conta dele, e entendeu o que Danny quis dizer com “tarde demais”. Podia sentir a explosão pronta para ribombar no porão e rasgar as entranhas deste lugar horroroso.

Correu o mais depressa que pôde, disparando pelo saguão até as portas duplas.

A coisa correu pelo porão e entrou no brilho amarelo pálido da sala da fornalha. Babava de medo. Tinha chegado tão perto, tão perto de arrebatar o menino com seu poder terrível. Não poderia perder agora. Não podia acontecer. Vazaria a pressão da caldeira e depois castigaria o menino severamente.

— Não pode acontecer — gritou. — Não, não pode acontecer!

Cambaleava em direção à caldeira, que emanava um brilho vermelho na metade de seu corpo tubular. Ela soprava, chacoalhava e assobiava vapores em centenas de direções, como um monstruoso órgão a vapor. O ponteiro do manômetro já estava no extremo final do marcador.

— Não, não vou permitir! — gritou o gerente/zelador.

Colocou as mãos de Jack Torrance na válvula, ignorando o cheiro de queimado que se espalhava enquanto a roda incandescente afundava e

derretia sua pele, como que num sulco de lama.

A roda cedeu e, com um grito triunfante, a coisa a girou com força. Como uma dúzia de dragões assobiando em concerto, um gigante sopro saiu da caldeira. Mas, antes de o vapor obscurecer totalmente a agulha do manômetro, o ponteiro começou a balançar.

— EU VENCI! — gritou. Saltava de contentamento na névoa quente que se erguia, sacudindo as mãos queimadas sobre a cabeça. — NÃO É TARDE

DEMAIS! VENCI! NÃO É TARDE DEMAIS! NÃO…

As palavras se transformaram em um grito de triunfo, e o grito foi engolido no estrondo da explosão da caldeira do Overlook.

Hallorann correu pelas portas duplas, carregando os dois pela trincheira que cortava a neve da varanda, e viu claramente os animais, mais claro do que nunca. Quando percebeu que seu medo fazia sentido, pois os animais estavam entre a varanda e o snowmobile, o hotel explodiu. Pareceu que tudo aconteceu de uma vez, apesar de depois perceber que não poderia ter sido assim.

Ouviu uma explosão, um som que parecia existir em uma nota baixa, difusa

(vummmmmmmm …)

e, em seguida, sentiu um sopro de vento quente em suas costas, que parecia empurrá-los gentilmente. Os três foram atirados da varanda, e um pensamento confuso

( é assim que o super-homem deve se sentir)

passou pela mente de Hallorann, enquanto eles voavam no ar. O cozinheiro soltou os dois e, em seguida, aterrissou suavemente na neve, que entrou por debaixo de sua camisa e no nariz. Hallorann estava vagamente consciente de como era agradável aquele contato gelado em seu rosto ferido.

Depois lutou para subir no monte de neve, não pensando, nesse momento, nos animais de arbustos, nem em Wendy Torrance ou sequer em Danny. Em vez disso, rolou, ficando de costas na neve para ver o hotel morrendo.

As janelas do Overlook se estilhaçaram. No salão de baile, a redoma do relógio se partiu e caiu no chão. O relógio parou de funcionar: suas peças ficaram imóveis. Houve um barulho sussurrante de suspiro e uma grande onda de poeira. No 217, a banheira de repente se partiu ao meio, liberando uma pequena inundação de água esverdeada e fétida. Na Suíte Presidencial, o papel de parede de repente explodiu em chamas. As dobradiças da porta de

vaivém do Salão Colorado subitamente se soltaram, e a porta caiu no chão no restaurante. Além do arco do porão, as grandes pilhas e pacotes de papel velho se incendiaram e foram consumidas com um assobio de maçarico.

Água quente rolou sobre as chamas sem apagá-las. Como folhas de outono queimadas debaixo de um ninho de vespas, os papéis giravam e se enegreciam. A fornalha explodiu, estilhaçando os caibros do teto do porão, derrubando-os como ossos de um dinossauro. O jato de gás que alimentara a fornalha, agora livre, se erguia num mastro escandaloso de fogo pelo soalho rachado do saguão. O tapete nos degraus foi tomado pelas labaredas que subiam ao primeiro andar rapidamente, como se quisessem dar as espantosas notícias. Uma fuzilaria de explosões rasgou o ar. O lustre no restaurante, uma bomba de cristal de cem quilos, caiu numa explosão de estilhaços, derrubando mesas para todos os lados. Línguas de fogo eram vomitadas pelas cinco chaminés do Overlook em direção às nuvens.

( Não! Não pode! Não pode! NÃO PODE! )

A coisa berrava; gritava, mas agora estava sem voz e só gritava pânico, danação e desgraça em seu próprio ouvido, se dissolvendo, perdendo o pensamento e a força. A trama se desintegrava, buscando sem encontrar caminho, saindo, saindo, voando, saindo para o vazio, o nada, se esfarelando.

A festa acabou.

57

A SAÍDA

O rugido sacudiu toda a fachada do hotel. Vomitou vidro na neve, onde os estilhaços brilhavam como diamantes. O cachorro de arbusto, que estava se aproximando de Danny e sua mãe, recuou, as orelhas de sombras caídas, o rabo entre as pernas, as ancas desarmadas. Em sua mente, Hallorann ouviu o cão ganir de medo e, misturado a isso, o miado medroso e confuso dos leões.

Ele fez força para se levantar e ir ajudar os outros dois. Ao fazer isso, viu algo mais apavorante do que o resto: o coelho, ainda coberto de neve, se debatia contra a cerca do fundo do parquinho, e a rede de arame tilintava uma música horrenda, como uma cítara fantasmagórica. Mesmo de longe conseguia escutar os sons dos galhos, que formavam o corpo do animal, estalarem como ossos quebrados.

— Dick! Dick! — gritou Danny. Tentava sustentar e ajudar a mãe a chegar ao snowmobile. As roupas que carregara para os dois estavam espalhadas pelo chão. Hallorann de repente percebeu que a mulher estava de camisola, e Danny sem casaco, numa temperatura de vinte e cinco graus abaixo de zero.

( meu deus ela está descalça) Caminhou com dificuldade pela neve, apanhando o casaco, as botas de Wendy, o casaco e as luvas de Danny. Em seguida, correu para eles, afundando as pernas na neve, de vez em quando tendo que se debater para sair.

Wendy estava terrivelmente pálida, com o lado do pescoço coberto de sangue, sangue que agora estava congelado.

— Não posso — murmurou ela. Estava semiconsciente. — Não, eu… não posso. Desculpa.

Danny olhou para Hallorann, suplicante.

— Ela vai melhorar — Hallorann afirmou e a carregou novamente. —

Vamos.

Os três conseguiram chegar onde o snowmobile havia rodopiado e atolado.

Hallorann instalou a mulher no banco do carona e vestiu nela o casaco.

Levantou seus pés descalços — estavam frios, mas ainda não congelados — e os esfregou com o casaco de Danny antes de calçar as botas. O rosto de Wendy estava pálido como mármore, os olhos semicerrados e esgazeados.

Ela começou a tremer, e Hallorann achou que era um bom sinal.

Atrás deles, uma série de três explosões levou o hotel pelos ares. Chamas alaranjadas iluminavam a neve.

Danny se aproximou do ouvido de Hallorann e gritou alguma coisa.

— O quê?

— Perguntei se precisava disso. — O menino apontava para a lata vermelha de gasolina tombada na neve.

— Acho que precisamos.

Pegou a lata do chão e se atrapalhou várias vezes até conseguir prendê-la na traseira do snowmobile, pois os dedos estavam ficando dormentes. Não sabia dizer quanta gasolina ainda havia ali. Pela primeira vez, percebeu que tinha perdido as luvas de Howard Cottrell.

( quando me livrar disso, vou pedir a minha irmã para tricotar uma dúzia pra você, howie)

— Suba! — gritou Hallorann para o menino.

— Vamos congelar! — Danny respondeu.

— Temos que dar a volta para chegar no galpão! Tem algumas coisas por lá… cobertores… coisas assim. Fique atrás de sua mãe!

Danny subiu, e Hallorann virou a cabeça para poder gritar no rosto de Wendy.

— Sra. Torrance! Se segure em mim! Está me entendendo? Se segure!

Ela pôs os braços em volta dele e descansou o rosto em suas costas.

Hallorann ligou o snowmobile e apertou o acelerador com delicadeza, para que não sacudisse. A mulher se segurava nele, sem forças e, se ela tombasse para trás, seu peso derrubaria tanto ela quanto o menino.

Começaram a se pôr em movimento. Ele fez um círculo com o snowmobile , indo para oeste, paralelos ao hotel. Hallorann se aproximou do hotel para fazer o contorno e chegar ao galpão de equipamentos.

Tiveram uma vista momentaneamente livre do saguão do Overlook. A chama saindo pelo chão rachado como uma gigante vela de um bolo de aniversário, amarela no interior e azul nas bordas. Naquele momento, parecia estar apenas iluminado, não destruído. Viam o balcão da recepção com a campainha prateada, os decalques de cartões de crédito, a caixa registradora antiga, os pequenos tapetes, as cadeiras de espaldar alto, as almofadas de crina. Danny via o pequeno sofá junto à lareira onde as três freiras sentaram no dia em que chegaram… dia de encerramento. Mas este era o verdadeiro dia de encerramento.

Depois, o monte de neve na varanda bloqueou a vista. Minutos após, estavam contornando o lado oeste do hotel. Ainda havia luz suficiente para enxergar sem o farol do snowmobile . Os dois andares superiores estavam agora em chamas, e flâmulas se agitando nas janelas. A tinta branca começara a escurecer e derreter. As cortinas que cobriam as janelas da Suíte Presidencial — cortinas que Jack cuidadosamente fechara, de acordo com instruções recebidas em meados de outubro — eram agora chamas que expunham a ampla escuridão por trás, como uma boca desdentada bocejando num último e silencioso estertor de morte.

Wendy encostou com força o rosto nas costas de Hallorann para se proteger do vento, Danny também apertou o rosto nas costas da mãe.

Portanto, foi apenas Hallorann que viu o desfecho, e ele nunca tocou no assunto. Viu algo imenso e escuro saindo da janela da Suíte Presidencial e encobrindo o campo de neve que ficara para trás. Por um momento, a coisa assumiu a forma de uma arraia imensa e obscena, e depois pareceu ter sido apanhada pelo vento, que a rasgou e picou como papel velho. Fragmentada, entrou em um redemoinho de fumaça e minutos depois desapareceu como se nunca tivesse existido. Mas, naqueles poucos segundos em que rodopiara, escura, dançando como grãos de sombras, Hallorann se lembrou de um fato em sua infância… há cinquenta anos ou mais. Ele e o irmão descobriram um

imenso ninho de vespas ao norte da fazenda onde moravam. O ninho estava enfiado no espaço entre a terra e uma árvore velha partida por um raio. Seu irmão levava uma bombinha na aba do chapéu, guardada desde o Quatro de Julho, e então ele a acendeu e a jogou no ninho. Com um som alto e um zumbido — quase um grito surdo —, uma chama explodiu e se ergueu do ninho destruído. Ambos correram como se demônios estivessem em seu encalço. De certo modo, Hallorann supôs que eram demônios. E, olhando para trás, como fazia agora, naquele dia vira uma nuvem escura de vespas se erguendo no ar quente, rodopiando, se desintegrando, procurando pelo inimigo que fizera isso com sua casa para — numa única inteligência coletiva

— picarem-no até a morte.

Depois, a coisa desapareceu no céu. Pode ser até que tenham sido apenas fumaça e um pedaço de papel de parede. Agora havia somente o Overlook, uma pira ardente na boca da noite.

Carregava uma chave do galpão em seu chaveiro, mas Hallorann viu que não haveria necessidade de usá-la. A porta estava destrancada, o cadeado pendurado, aberto.

— Não posso entrar lá — sussurrou Danny.

— Tudo bem. Fique com sua mãe. — Havia ali uma pilha de cobertores velhos. Provavelmente comidos pelas traças, mas era melhor do que morrer de frio. — Sra. Torrance, tudo certo?

— Não sei — respondeu uma voz fraca. — Acho que sim.

— Ótimo. Volto já.

— Volte o mais rápido que puder — pediu Danny. — Por favor.

Hallorann assentiu com a cabeça. Dirigira o farol para a porta e agora andava desajeitadamente pela neve, formando uma sombra comprida à sua frente. Abriu a porta do galpão e entrou. Os cobertores ainda estavam no canto, junto ao jogo de roque . Pegou quatro — cheiravam a mofo e a coisa velha, e as traças certamente estavam se banqueteando — e então parou.

Um dos tacos de roque não estava ali.

( Foi com isso que ele me agrediu? )

Bem, não importava com o que tinha sido agredido, importava? Mas seus dedos passearam pela face e começaram a explorar a inchação. Seiscentos dólares de tratamento dentário jogados fora numa única pancada. E afinal de contas

( talvez ele não me tenha agredido com um desses. Talvez um esteja perdido. Ou tenha sido roubado. Ou levado como lembrança. Afinal de

contas)

não importava. Ninguém iria jogar roque aqui no próximo verão. Ou em qualquer verão num futuro previsto.

Não, na realidade não importava, mas olhar para o porta-tacos com um membro ausente causava uma espécie de fascinação. Pensou no tac! da cabeça do taco ao atingir a bola de madeira. Um som gostoso de verão.

Observá-lo roçando pelo

( osso. sangue)

cascalho. Imagens de

( osso. sangue)

chá gelado, cadeiras de balanço na varanda, senhoras com chapéus de palha brancos, o zunido de mosquitos e

( meninos levados que não obedecem às ordens. ) tudo isso. Claro. Jogo legal. Fora de moda agora, mas… legal.

— Dick? — A voz era fina, desvairada e, em sua opinião, desagradável. —

Você está bem, Dick? Venha, agora. Por favor!

( Saia agora seu preto seu senhor está chamando. ) Apertou a mão num dos cabos de taco, gostando da sensação.

( Sem pancada, não se educa uma criança. )

Seus olhos ficaram parados na escuridão. Realmente, estaria prestando aos dois um favor. Ela estava se acabando… de dor… e a maior parte ( tudo)

foi culpa daquele menino desgraçado. Claro. Deixara seu próprio pai lá queimando. Quando se pensava nisso, podia ver que era quase um maldito assassinato. Isso se chama parricídio. Coisa desgraçadamente sórdida.

— Sr. Hallorann? — A voz dela era baixa, fraca, queixosa. Ele não gostava muito do som.

— Dick! — O menino agora soluçava de pavor.

Hallorann tirou o taco do cavalete e se virou para a luz do farol do snowmobile. Os pés arranhavam as tábuas do galpão, como os pés de um boneco de corda posto em movimento.

De repente parou, olhando perdido para o taco em sua mão e se perguntando, com crescente terror, o que estivera pensando em fazer.

Assassinato? Pensara em assassinato?

Por um momento, toda a sua mente foi tomada por uma voz zangada, um pouco insolente:

( Faça isso! Faça isso, seu negro castrado! Mate eles! MATE OS DOIS! )

Então, jogou o taco para trás com um grito baixo e horrorizado. O taco bateu no canto, uma das cabeças voltadas para ele, num convite mudo.

Ele fugiu.

Danny estava sobre o assento do snowmobile , e Wendy se segurava nele, sem força. O rosto estava banhado de lágrimas, e o menino tremia como se estivesse com febre. Entre os dentes trincados, disse:

— Onde o senhor estava? Nós ficamos com medo.

— É um bom lugar para ter medo — respondeu Hallorann devagar. —

Mesmo que isso aqui queime até os alicerces, nunca vão conseguir me trazer a menos de duzentos quilômetros daqui de novo. Tome, sra. Torrance, use estes cobertores. Vou ajudar. Você também, Danny. Vista como se fosse uma roupa de árabe.

Enrolou dois cobertores em Wendy, formando um capuz para cobrir sua cabeça e ajudou Danny a amarrar o seu para não cair.

— Agora, fé em Deus e pé na tábua — disse. — Temos muito chão pela frente, mas o pior já passou.

Deu a volta no galpão e dirigiu o snowmobile para sua trilha. O Overlook era uma tocha apontada para o céu. Buracos grandes foram abertos dos lados, e havia um inferno lá dentro. A neve derretida corria como quedas-d’água.

Deslizaram pelo caminho iluminado. As dunas de neve estavam vermelhas.

— Olha! — gritou Danny, quando Hallorann diminuiu a velocidade no portão da frente. O menino apontava para o parquinho .

As criaturas de arbustos estavam todas em suas posições originais, mas estavam esqueléticas, pretas, chamuscadas. Seus galhos mortos formavam uma perfeita rede entrelaçada à luz do fogo, suas folhas pequeninas espalhadas em volta dos pés como pétalas caídas.

— Estão mortos! — exclamou Danny, com um triunfo histérico na voz. —

Mortos! Eles estão mortos!

— Shhhh — fez Wendy. — Tudo bem, meu amor. Está tudo bem.

— Ei, velhinho — disse Hallorann. — Vamos para um lugar quentinho.

Está pronto?

— Estou — murmurou Danny. — Já faz tanto tempo que estou…

Hallorann se enfiou pela abertura do portão. Um momento depois, estavam na estrada, em direção a Sidewinder. O ruído do motor do snowmobile diminuiu até se perder no incessante rugir do vento, que chacoalhava pelos galhos desnudos dos animais de arbustos num som baixo e desolador. O fogo oscilava. Algum tempo depois de o ruído do snowmobile desaparecer, o

telhado do Overlook desabou — primeiro o da ala oeste, depois o da leste e, segundos depois, o telhado central. Uma imensa espiral de fagulhas e chamas subia na noite de inverno.

Um feixe de telhas em chamas e pedaços quentes de manta foram arrastados pelo vento, entrando no galpão aberto.

Depois de algum tempo, o galpão também começou a queimar.

Ainda estavam a trinta e cinco quilômetros de Sidewinder, quando Hallorann parou para colocar o resto da gasolina no tanque do snowmobile . Estava muito preocupado com Wendy, que parecia estar desmaiando. Ainda faltava um longo caminho.

— Dick! — gritou Danny. Estava de pé no assento, apontando. — Dick, veja! Olhe lá!

A neve havia parado de cair, e uma lua cheia espreitava pelas nuvens. Lá embaixo, na direção deles, era possível ver as luzes de faróis que subiam por uma série de S, como um colar de pérolas. O vento diminuiu por um momento, e Hallorann ouviu o zumbido distante de motores de snowmobiles.

Hallorann, Danny e Wendy os alcançaram em quinze minutos. Haviam trazido roupas, conhaque e o dr. Edmonds.

E a longa escuridão terminara.

58

EPÍLOGO/ VERÃO

Depois de examinar as saladas que sua substituta fizera e de beliscar o feijão à moda da casa que serviam como entrada nesta semana, Hallorann tirou o avental, pendurou-o num gancho e saiu pela porta dos fundos. Tinha talvez quarenta e cinco minutos, antes que precisasse se preparar, efetivamente, para o jantar.

O lugar se chamava Hospedaria Red Arrow e estava cravado nas montanhas oeste do Maine, a cinquenta quilômetros da cidade de Rangely.

Era um bom emprego, pensou Hallorann. O movimento não era pesado, as gorjetas ajudavam, e até então nenhuma refeição tinha sido devolvida. Nada mal, considerando-se que a temporada estava chegando ao fim.

Ele passou pelo bar ao ar livre e pela piscina (apesar de não entender como alguém poderia usar a piscina, tendo o lago tão pertinho), atravessou um gramado, onde um grupo de quatro pessoas jogava croquet alegremente, e subiu uma colina. Aqui, os pinheiros se espalhavam, e o vento sussurrava agradavelmente entre eles, trazendo o aroma de abeto e resina doce.

Do outro lado, algumas cabanas com vista para o lago estavam

discretamente posicionadas entre as árvores. A última era a mais bonita, e em abril, quando conseguiu o emprego, Hallorann a reservara para duas pessoas.

A mulher estava sentada numa cadeira de balanço da varanda, com um livro nas mãos. Hallorann ficou impressionado com a mudança dela. Um dos motivos era a maneira rígida, quase cerimoniosa de se sentar, apesar do ambiente informal — forçada, naturalmente, pelo colete ortopédico. Ela tivera uma vértebra estilhaçada e três costelas quebradas, além de outros danos internos. As costas eram a parte que mais demorava a se curar, e ela ainda estava usando colete… daí a postura formal. Mas a mudança era mais do que isso. Parecia mais velha, e parte da alegria desaparecera de seu rosto.

Agora, enquanto lia o livro, Hallorann viu ali uma beleza sóbria, que não existia no dia em que se conheceram, há uns nove meses. Na época, ela era apenas uma menina. Agora, uma mulher, um ser humano que fora arrastado para o lado escuro da lua e voltara capaz de juntar os pedaços. Mas esses pedaços, pensou Hallorann, nunca mais se encaixam perfeitamente. Nunca, nunca mais.

Ela ouviu os passos de Hallorann e levantou os olhos, fechando o livro.

— Dick! Oi! — Começou a se levantar, e uma careta de dor passou por seu rosto.

— Não, não se levante — ele falou. — Eu não faço cerimônia, a não ser que seja uma ocasião a rigor.

Ela sorriu quando ele subiu os degraus e se sentou ao seu lado na varanda.

— Como vão as coisas?

— Bem — admitiu Hallorann. — Experimente o camarão creole hoje à noite. Vai gostar.

— Combinado.

— Onde está Danny?

— Lá embaixo — apontou, e Hallorann viu uma figurinha sentada na ponta do ancoradouro. Usava jeans dobrados até os joelhos e uma camisa de listras vermelhas. Mais adiante, na água calma, estava uma boia de pesca. De vez em quando, Danny enrolava a linha, observava o anzol e depois o atirava na água novamente.

— Está ficando bronzeado — disse Hallorann.

— Está. Muito bronzeado. — Ela confirmou, contente, enquanto o olhava.

Ele pegou um cigarro, pôs na boca e acendeu. A fumaça passeou preguiçosa na tarde ensolarada.

— E os pesadelos que ele anda tendo?

— Têm melhorado — respondeu Wendy. — Só um esta semana.

Costumava ser toda noite, às vezes duas ou três vezes. As explosões. Os arbustos. E principalmente… você sabe.

— Sim. Ele vai melhorar, Wendy.

Ela olhou para ele.

— Vai? Não sei.

Hallorann meneou a cabeça.

— Você e ele, vocês estão melhorando. De maneiras diferentes, talvez, mas estão melhorando. Não são o que foram, vocês dois, mas isso não é necessariamente ruim.

Permaneceram calados por algum tempo, Wendy balançando levemente a cadeira, Hallorann com os pés na balaustrada da varanda, fumando. Uma brisa subiu, abrindo seu caminho secreto pelos pinheiros, mas leve o suficiente para não agitar o cabelo de Wendy, que estava bem curto.

— Resolvi aceitar a oferta de Al… sr. Shockley — ela disse.

Hallorann balançou a cabeça.

— Parece um bom emprego. Alguma coisa para se interessar. Quando começa?

— Logo depois do Dia do Trabalho, em setembro. Quando Danny e eu sairmos daqui, iremos direto a Maryland procurar um lugar. Foi na verdade o panfleto da Câmara de Comércio que me convenceu, você sabe. Parece uma boa cidade para educar uma criança. E eu gostaria de estar trabalhando novamente antes que a gente gaste muito o dinheiro do seguro que Jack deixou. Ainda tenho mais de quarenta mil dólares. O bastante para pagar a universidade de Danny, e ainda sobra bastante para ele poder começar a vida, se for bem investido.

Hallorann meneou a cabeça.

— E sua mãe?

Ela sorriu abatida.

— Acho que Maryland é suficientemente distante.

— Não vai esquecer os velhos amigos, vai?

— Danny não me deixaria. Vá lá e fale com ele, está esperando o dia inteiro.

— Bem, eu também. — Levantou-se e ajeitou a roupa branca de cozinheiro nos quadris. — Vocês dois vão melhorar — repetiu. — Dá para sentir?

Levantou os olhos para ele e, desta vez, o sorriso foi mais vivo.

— Sim — respondeu Wendy, tomando a mão dele e a beijando. — Às vezes, acho que estou melhorando.

— O camarão creole — insistiu ele, indo para os degraus. — Não se esqueça.

— Não vou esquecer.

Desceu a ladeira de cascalho que levava ao ancoradouro e depois caminhou nas tábuas, castigadas pelo tempo, até o final, onde Danny estava sentado, com os pés na água clara. Adiante, o lago largo refletia os pinheiros nas margens. O terreno era montanhoso, mas as montanhas eram antigas, arredondadas e rebaixadas pelo tempo. Hallorann gostava delas.

— Já pegou muitos? — indagou Hallorann, sentando-se ao lado do garoto.

Tirou um sapato, depois o outro. Com um suspiro, mergulhou os pés quentes na água fria.

— Não. Mas senti uma mordida, faz pouquinho.

— Amanhã de manhã, vamos passear de barco. Tem que ir lá pro meio se quiser pegar peixe para comer, meu rapaz. Os grandões estão lá longe.

— Grandes como?

Hallorann encolheu os ombros.

— Ah… tubarões, marlins, baleias, esse tipo de coisa.

— Não tem nenhuma baleia!

— Baleia-azul, não. Claro que não. Estas daqui não medem mais de 25

metros. Baleias rosadas.

— Como podem chegar aqui, se elas vêm do mar?

Hallorann pôs a mão no cabelo louro-avermelhado do menino e o mexeu.

— Nadam corrente acima, meu rapaz. É assim.

— Sério?

— Sim.

Ficaram calados durante muito tempo, observando a calmaria, e Hallorann apenas pensando. Quando olhou de volta para Danny, viu que os olhos do garoto estavam cheios de lágrimas.

— O que foi? — perguntou enquanto o abraçava.

— Nada — sussurrou Danny.

— Está com saudade de seu pai, não está?

Danny meneou a cabeça.

— Você sempre sabe. — Uma lágrima caiu do olho direito.

— Não podemos ter segredos — concordou Hallorann. — É assim mesmo.

Olhando para a vara de pesca, Danny disse:

— Às vezes, fico pensando que seria melhor se fosse eu. Foi minha culpa.

Toda minha.

— Você não gosta de falar nisso na frente de sua mãe, não é?

— Não. Ela quer esquecer o que aconteceu. Eu também, mas…

— Mas não consegue.

— Não.

— Quer chorar?

O menino tentou responder, mas as palavras foram engolidas por um soluço. Encostou a cabeça no ombro de Hallorann e chorou, as lágrimas agora lavando seu rosto. Hallorann o abraçou sem dizer nada. O menino teria que derramar suas lágrimas várias vezes, ele sabia, e Danny tinha sorte em ainda ser jovem para poder chorar. As lágrimas que curam são também lágrimas que escaldam e castigam.

Quando ele se acalmou um pouco, Hallorann falou:

— Você vai superar isso. Pode não achar isso agora, mas irá. Você é ilu…

— Eu preferia não ser! — Danny interrompeu, sufocado, a voz ainda rouca com as lágrimas. — Eu preferia não ser!

— Mas é — afirmou Hallorann, com calma. — Queira ou não queira. Não depende da sua vontade, menininho. Mas o pior já passou. Pode usar sua iluminação para conversar comigo, quando as coisas ficarem feias. E, se ficarem muito feias, simplesmente me chame e eu irei a seu encontro.

— Mesmo se eu estiver lá em Maryland?

— Mesmo lá.

Ficaram em silêncio, observando a boia de Danny se mover a cerca de dez metros do ancoradouro. Depois, Danny disse baixinho:

— Vai ser meu amigo?

— Enquanto você quiser.

O menino o abraçou apertado.

— Danny? Ouça. Vou lhe falar sobre isso desta vez, depois nunca mais.

Existem coisas que nenhum menino de seis anos do mundo deveria ouvir; mas as coisas nunca são como deveriam ser na verdade. O mundo é um lugar duro, Danny. Não se importa com a gente. Não odeia você nem a mim, mas também não morre de amor por nós. Coisas terríveis acontecem no mundo, e são coisas que ninguém pode explicar. Indivíduos bons morrem de forma ruim e dolorosa, e deixam as pessoas que os amam sozinhas. Às vezes, parece que só as pessoas ruins permanecem sadias e prósperas. O mundo não ama você, mas sua mãe o ama e eu também. Você é um bom menino. Você

sofre com a morte de seu pai e, quando sentir que precisa chorar pelo que aconteceu com ele, vá se esconder num armário ou debaixo das cobertas, e chore até que tudo saia de dentro de você de novo. É isso que um bom filho deve fazer. Mas veja, você deve continuar vivendo. É sua obrigação, neste mundo duro, manter vivo o seu amor, e seguir adiante, não importando como.

Segure as pontas e vá em frente.

— Está bem — murmurou Danny. — Vou visitar você no verão que vem, se quiser… se não se importar. No próximo verão, já vou ter sete anos.

— E eu, sessenta e dois. E vou fazer seus miolos saírem pelos ouvidos de tanto abraço. Mas vamos deixar um verão terminar para planejarmos o outro.

— O.k . — Olhou para Hallorann. — Dick?

— Hummm?

— Você vai demorar muito ainda pra morrer, não vai?

— Certamente não estou cogitando a possibilidade. Você está?

— Não, senhor. Eu…

— Morderam a isca, filhinho — interrompeu Hallorann, apontando para o lago. A boia vermelha e branca afundara. Subiu novamente brilhando e desceu outra vez.

— Ei! — exclamou Danny.

Wendy descera e se juntara a eles, de pé, atrás do filho.

— O que é? — perguntou. — Peixe lúcio?

— Não, senhora — respondeu Hallorann. — Acho que é uma baleia rosada.

A vara envergou. Danny a puxou, e um peixe comprido e colorido cintilou rapidamente e sumiu.

Danny enrolou o carretel freneticamente, arquejando.

— Me ajuda, Dick! Peguei! Peguei! Me ajuda!

Hallorann riu.

— Está indo muito bem sozinho, homenzinho. Não sei se é uma baleia rosada ou uma truta, mas qualquer uma serve. Qualquer uma será ótima.

Pôs um braço em volta de Danny, e o menino ficou enrolando o carretel, pouco a pouco. Wendy sentou-se do outro lado de Danny, e os três ficaram na ponta do ancoradouro sob o sol da tarde.