O País de Outubro
O Anão
Aim ée, quieta, observava o céu.
Hoj e é um a noite quente, parada, de verão. Vazio o cais de concreto, as luzes vivas, verm elhas, brancas, am arelas, qual insetos sobrevoando o vazio de m adeira. De pé, ao longo do passeio, os olhares fixos sem nada enxergar; sem conversar, os encarregados das barracas parecem bonecos de cera, derretendo.
Dois fregueses por ali passaram , há um a hora. Agora, os dois solitários, na m ontanha russa, soltam gritos assassinos quando despenca o carrinho noite adentro tão esplendorosa; em volta, um vazio atrás do outro.
Devagar, Aim ée passou pela corrente, um as poucas argolas de m adeira, gastas, grudavam -lhe nas m ãos úm idas. Atrás de um balcão de ingressos voltado para o LABIRINTO DOS ESPELHOS, parou. Viu-se grosseira, equivocadam ente representada nos três espelhos ondulados, do lado de fora do Labirinto. Do lado de lá, diluídas no corredor, m il réplicas cansadas de si própria, im agens calorosas em m eio a tanta frieza visível.
Entrou na bilheteria e ficou a contem plar, por bom tem po, o pescoço m agro de Ralph Banghart. Entre dentes com pridos, desiguais, am arelos, Ralph m ordeu o cigarro apagado e abriu, em cim a do guichê, um a cartada puída de paciência.
Quando a m ontanha russa rilhou e, novam ente, despencou em terrível avalanche, Aim ée recebeu sinal para falar.
— Que tipo de gente anda em m ontanha russa?
Ralph Banghart rodopiou o cigarro na boca por uns bons trinta segundos.
— As pessoas querem m orrer. Essa m ontanha russa é a m elhor coisa que existe para se m orrer.
Sentado, ficou a ouvir os sons surdos dos disparos dos rifles do tiro ao alvo.
— Todo esse negócio de parque de diversões é coisa de m aluco. Por exem plo, o anão. Você j á viu o anão? Toda noite, paga sua m oeda de dez cents, entra logo no Labirinto dos Espelhos, vai até lá no fundo, até o Salão da Luísa Violão. Você devia ver esse nanico. Meu Deus!
— Claro. — Aim ée se lem bra. — Sem pre im aginei com o é que deve ser a gente ser anão. Sem pre tenho pena dele, quando o vej o.
— Eu poderia tocá-lo com o se ele fosse um acordeão.
— Não fale assim .
— Por Deus! - com a m ão livre, Ralph alisou a coxa de Aim ée. - Que m ania de se ligar em suj eitos que você nem conhece!
Ralph sacode a cabeça, ri entredentes.
— Quer dizer que ele tem um segredinho, hem ? Só que ele não sabe que eu sei qual é. Sej a bem -vindo, rapaz.
— A noite está tão quente!
Aim ée esfregava, nervosa, nos dedos úm idos, os argolões de m adeira.
— Não m ude de assunto. Ele virá hoj e, chova ou faça sol.
Aim ée apoiou-se em outra posição. Ralph segurou-a pelo cotovelo.
— Ei, você não está zangada, está? Você quer ver o anão, não quer? Pssiu... Ralph virou-se.
— Ele está chegando!
Apenas a m ão do Anão, cabeluda, escura, apareceu entrando na j anelinha do guichê, com um a m oeda de prata, de dez cents. Alguém invisível pediu "Um !", em voz alta, infantil.
Involuntariam ente, Aim ée debruçou-se.
O Anão lançou-lhe um olhar, evidenciando apenas um hom em de olhos escuros, cabelos escuros, feio, recém -saído de um lagar de vinho, com prim ido e socado cada vez m ais fundo, fole por fole, agonia por agonia, até reduzir-se a um a m assa descorada, ultraj ada, o rosto intum escido, disform e, aquele rosto, você sabe, que vai escancarar os olhos e acordar às duas, às três, chapados na cam a, só o corpo a dorm ir.
Ralph rasgou um bilhete am arelo ao m eio.
—Um !
O Anão, com o quem tem e a aproxim ação de um a tem pestade, puxou as lapelas do casaco negro, apertou-as contra a garganta e foi-se, gingando suavem ente. Um instante depois, dez m il anões perdidos, errantes, colearam entre os planos dos espelhos , qual tesouros escuros, frenéticos, e desapareceram .
— Rápido!
Ralph esprem eu Aim ée ao longo de um a passagem escura, por trás dos espelhos. Ela o sentiu alisá-la por todo o túnel, até chegarem a um a espia estreita do tapum e.
— Que rico! — Ralph riu sarcástico. — Vam os, olhe. Aim ée hesitou, depois levou o rosto à espia.
— Está vendo? - Ralph falou baixinho.
Aim ée sentiu o coração bater. Um m inuto se passou.
Lá estava o Anão, no m eio do com partim ento azul. Os olhos cerrados. Não estava pronto para abri-los. Agora, agora sim , abriu as pálpebras e olhou para o enorm e espelho instalado diante dele. E o que viu no espelho fê-lo sorrir. Piscou, fez pirueta, ficou de lado, acenou, curvou-se em reverência, e dançou dança tosca.
E o espelho repetiu todo m ovim ento, com braços alongados, delgados, com um corpo alto, alto, com um piscar im enso, um a enorm e repetição da dança, encerrando com um a reverência gigantesca!
— A m esm a coisa, toda noite - sussurrou Ralph ao pé do ouvido de Aim ée. — Que rico, não?
Aim ée voltou o rosto para Ralph, e lançou-lhe um olhar firm e, de traços im óveis, por longo tem po, e não disse nada. Em seguida, com o quem não consegue conter-se, girou a cabeça, lenta, m ui lentam ente para trás, e olhou novam ente pela abertura. Prendeu a respiração. Sentiu os olhos com eçarem a lacrim ej ar.
Ralph cutucou-a, e sussurrou:
— Ei, o que é que o suj eitinho está fazendo agora?
Meia hora depois, sem se olharem , tom avam café na bilheteria, quando o Anão deixou os espelhos. Ele tirou o chapéu, e vinha se aproxim ando do guichê quando, ao ver Aim ée, afastou-se depressa.
— Ele queria algum a coisa — disse Aim ée.
— Claro. — Ralph am assou o cigarro, friam ente.
— E eu sei bem o que é. Só que ele ainda não teve peito de pedir. Num a noite ele falou, com essa voz esganiçada dele: Aposto que esses espelhos são m uito caros, não são? Eu m e fiz de bobo. Disse: Claro que são. Ele m e olhou, m eio assim , na expectativa, e com o eu não dissesse m ais nada, foi em bora, m as, na noite seguinte, disse: Aposto que esses espelhos devem custar uns cinqüenta a cem dólares. Devem m esm o, eu disse, e com ecei m eu j ogo da paciência.
— Ralph...
Ralph olhou para Aim ée:
— Por que você está m e olhando assim ?
— Ralph, por que você não vende um espelho para ele, um dos que estão sobrando?
— Escuta, Aim ée, por acaso eu j á dei palpite na sua barraca de argolas?
— Quanto custa um espelho destes?
— De segunda m ão, consigo por trinta e cinco dólares.
— Por que você não diz a ele onde ele pode com prar um ?
— Você não é nada inteligente, Aim ée.
Ralph pousou a m ão no j oelho de Aim ée. Aim ée afastou o j oelho.
— Você acha m esm o que ele vai com prar um espelho, se eu disser? Não vai m esm o. E sabe por quê? Porque ele tem consciência de si próprio. Porque, se ele descobrir que eu sei que ele está nam orando aquele espelho do Salão da Luísa Violão, ele nunca m ais vai voltar aqui. Ele age com o se entrasse no Labirinto para se perder, com o um a pessoa qualquer. Ele sem pre finge que não liga m uito para aquele Salão. Sem pre espera o negócio ficar ruim , sem pre vem tarde da noite, para poder ficar sozinho no Salão. O que ele faz para se divertir nas noites em que o negócio está bom , só Deus sabe. Não senhora, ele não ousaria com prar um espelho, sej a qual for o lugar. Ele não tem am igos, e, m esm o que os tivesse, j am ais pediria a eles que lhe com prassem um a coisa assim . Orgulho, por Deus, orgulho. E ele só com entou o assunto com igo porque eu talvez sej a o único suj eito que ele conheça. Além disso, preste atenção nele, ele não tem dinheiro para com prar um espelho desses. Talvez estej a econom izando, m as, onde, no m undo de hoj e, um anão vai arrum ar trabalho? Dez cents a dúzia? Vender bolinhas por aí? Em porta de circo?
— Estou m e sentindo terrível. Triste. Sentada, Aim ée olhava a calçada vazia.
— Onde ele m ora?
— Num pardieiro, lá para baixo, na orla da praia. No afluentes do Ganges. Por quê?
— Estou perdidam ente apaixonada por ele, j á que você quer saber. Ralph rosnou, girou o charuto na boca.
— Você e suas piadas engraçadinhas.
Noite m orna, m anhã quente, noite esplendorosa. O m ar era um tecido escaldante de brocado e vidro.
Aim ée cam inhava pelas ruelas internas, trancadas, do parque de diversões, j á sobre o m ar, à som bra, debaixo do braço um as seis revistas am areladas pelo sol. Abriu um a porta descascada e gritou adentro da cálida escuridão.
— Ralph!
O traj eto, escolhera o corredor escuro por trás dos espelhos; os saltos m artelaram no chão de m adeira.
—Ralph!
Alguém se m exe, pachorrento, na cam a de lona.
— Aim ée?
Ralph sentou-se e atarraxou a lâm pada no bocal da penteadeira; m eio entortado m eio cego, olhou para Aim ée.
— Ei, você está parecendo o gato que engoliu o canário.
— Ralph, eu fui procurar o pigm eu.
— Anão, querida Aim ée, anão. Pigm eu é coisa das células, a gente j á nasce assim . Anão é coisa das glândulas...
— Ralph, descobri um a coisa m aravilhosa nele!
— Por Deus!...
Ralph conversou com as próprias m ãos, esticadas à frente com o a testem unhar a própria incredulidade.
—... Essa m ulher! Ninguém dá dois cents por um suj eitinho feio e pequeno...
Aim ée estendeu as revistas, os olhos brilhavam .
— Ralph, ele é um escritor! Pense nisso!
— Está m uito quente para pensar.
Ralph recostou-se e pôs-se a observar Aim ée com um leve sorriso.
— Acabei de passar pelo "Afluentes do Ganges". Estive com o gerente, Sr. Greeley. Ele disse que a m áquina de escrever trabalha a noite toda no quarto do Sr. Big.
— E esse o nom e dele? Ralph urrou, de tanto rir.
— Escreve contos policiais baratos, o suficiente para viver. Achei um a história dele no sebo, e, Ralph, adivinhe só!
— Eu estou cansado, Aim ée.
— Esse hom enzinho tem a alm a do tam anho do m undo; está tudo na cabeça dele.
— Por que, então, ele não escreve para as grandes revistas? Responde, vai.
— Talvez porque tenha m edo. Talvez ele não saiba que pode consegui-lo. Isso acontece. As pessoas não acreditam em si próprias. Mas, se ao m enos tentasse, aposto que conseguiria vender suas histórias em qualquer canto do m undo.
— Então, por que não ficou rico?
— Talvez porque as idéias fluam devagar nesse estado de depressão? Quem não estaria deprim ido? Ele é tão pequeno. Deve ser difícil pensar em qualquer coisa que não no próprio fato de ser tão pequeno e m orar num apartam ento de quinta categoria, de um côm odo só.
— Merda! — bufou Ralph. — Você parece a avó da Florence Nightingale falando.
Aim ée ergueu a revista.
— Vou ler um pedaço do policial dele. Tem tudo, arm as, m al-encarados, só que é contado por um anão. Aposto que os editores nem sabem que o autor sabia o que estava escrevendo. Por favor, Ralph, não fique aí sentado dessa m aneira. Ouça.
E com eçou a ler em voz alta.
"Sou anão, e assassino. As duas coisas são inseparáveis. Um a é a causa da outra".
"O hom em que assassinei costum ava parar-m e na rua, eu tinha vinte e um anos, e levantar-m e nos braços, beij ar m inha fronte, cantarolar alto para m im , cantar Rock-a-bye-Baby, arrastar-m e até os m ercados de carnes, j ogar-m e nas balanças e gritar: Cuidado, não vá pesar o dedão tam bém , garotão!"
"Vê com o nossas vidas cam inham para o crim e? Este idiota, este perseguidor de m inha carne, de m inha alm a!
"Quanto à m inha infância: m eus pais eram pessoas baixas, não propriam ente anãs, não propriam ente. A herança de m eu pai nos m anteve num a casinha de bonecas, um a coisa surpreendente, sem elhante a um bolo de casam ento confeitado de branco — quartinhos, cadeirinhas, quadros-m iniaturas, cam afeus, âm bares com insetos grudados no interior, tudo m inúsculo, m inúsculo, m inúsculo! Muito distante o m undo dos Gigantes, um a atoarda m aléfica para lá do m uro do j ardim . Coitada da m am ãe, do papai! Queriam apenas o m elhor para m im . Man tiveram -m e, com o um vaso de porcelana, pequeno e entesourado, para eles, em nosso universo de form igas, nossos quartos de colm éias, nossa biblioteca m icroscópica, nosso m undo onde as portas eram feitas para besouros e as j anelas para m ariposas. Som ente agora percebo a estupenda dim ensão da psicose de m eus pais! Talvez sonhassem em viver para sem pre, e em poder m e conservar num vidro, qual um a borboleta. Mas, prim eiro, m orreu o pai, e um incêndio lam beu nossa casinha, o ninho da vespa, todo espelho de selo postal e todo arm ário de saleiro lá dentro. Mam ãe tam bém se foi! E eu, sozinho, presenciando a queda das cinzas, j ogado num m undo de Monstros e Titãs, no m eio de um desm oronam ento da realidade, arrem essado, pisoteado e esm agado contra o pé da colina!
"Levei um ano para m e aj ustar. Em prego em núm eros secundários, inim aginável. Parecia não existir lugar para m im no m undo. E então, um m ês atrás, o Perseguidor entrou na m inha vida, enfiou um boné na m inha cabeça insuspeita e bradou para os am igos: Quero que vocês conheçam essa m ulherzinha!
Aim ée parou de ler. Ao estender a revista a Ralph, tinha os olhos inquietos, a revista trêm ula.
— Acabe de ler você m esm o. O resto é um assassinato. Mas é um a boa história. Você não percebe? Aquele hom enzinho... aquele hom enzinho!
Ralph j ogou a revista de lado e, pachorrento, acendeu um cigarro
— Prefiro bangue-bangue.
— Ralph, você tem que ler. Ele precisa de alguém que lhe diga que ele é bom , para m antê-lo escrevendo.
Ralph olhou para Aim ée, a cabeça derreada.
— E adivinha quem vai fazer isso? Ora, ora, som os a m ão direita do Salvador, não som os?
— Não quero escutar.
— Use a cabeça, porra! Se você o invadir, ele vai pensar que você está com pena dele. Vai gritar com você, vai te expulsar do quarto dele.
Aim ée sentou-se, pensou a respeito, e revolveu o problem a para considerar todos os ângulos.
— Não sei. Talvez você tenha razão. Mas não é só pena, Ralph, em bora ele possa achar que sej a. Tenho que agir com m uita cautela.
Ralph sacudiu a cabeça de Aim ée, para frente, para trás, beliscando-a levem ente com os dedos.
— Merda! Merda! Deixe-o em paz, é tudo o que eu peço. Você só vai arrum ar problem a para o seu lindo bolsinho. Por Deus, Aim ée, nunca vi você se ligar tanto assim em alguém . Escuta, você e eu, vam os curtir um a nossa, um dia desses, vam os alm oçar, botar um pouco de gasolina no tanque e descer pelo litoral até onde conseguirm os ir; depois, nadar, j antar, assistir a um bom espetáculo num a cidadezinha — ao diabo com o parque de diversões. O que você acha? Um dia super-agradável, sem preocupações. Andei econom izando uns dolarezinhos.
— E porque eu sei que ele é diferente — disse Aim ée, o olhar difuso na escuridão. — É porque ele é algo que nós j am ais poderem os ser — você, eu e todo o resto aqui do cais. E tão engraçado, tão engraçado. A vida fez com que ele só servisse para espetáculos de diversões, e lá está ele na cidade. E nós, do j eito que a vida nos fez, não precisaríam os trabalhar em parque de diversões. Mas aqui estam os nós, bem aqui no cais do litoral. Algum as vezes parecem quilôm etros daqui até a praia. Com o é possível, Ralph, que nós tenham os os corpos e ele tenha o cérebro e consiga pensar coisas que nós não conseguiríam os nem de perto im aginar?
— Você nem escutou o que eu falei, não foi?
Aim ée ainda estava sentada, e Ralph, diante dela, ainda de pé, a voz distante. Os olhos de Aim ée, sem icerrados, as m ãos, sobre as pernas, se esfregavam . Enfim , Ralph falou:
— Não estou gostando nada desse seu olhar de esperteza.
Devagar, Aim ée abriu a bolsa, retirou um pequeno m aço de notas e com eçou a contar.
— Trinta e cinco, quarenta dólares. Pronto. Vou telefonar a Billie Fine e m andar entregar um desses espelhos que alongam para o Sr. Bigelow, no "Afluentes do Ganges". Ora, se vou!
— O quê?
— Pense com o vai ser m aravilhoso para ele, Ralph, ter um espelho no próprio quarto, à hora que ele quiser. Posso usar seu telefone?
— Claro, seja burra.
Ralph virou-se rapidam ente e saiu túnel adentro. A porta bateu.
Aim ée esperou, e, instantes depois, levou as m ãos ao fone e com eçou a discar, num a lentidão dorida. Entre um núm ero e outro, fazia um a pausa, prendia a respiração, cerrava os olhos, pensava em com o deveria ser sentir-se tão pequeno no m undo e, então, um belo dia, alguém lhe m anda um espelho especial. Um espelho que ficará em seu próprio quarto, onde você poderá se esconder com um reflexo enorm e de si próprio, brilhando, brilhando, e escrever histórias e m ais histórias, tendo que ir à rua apenas o necessário. Com o será, então você sozinho, com toda essa ilusão m aravilhosa contida num a sim ples peça de seu quarto. Você ficaria feliz, ou triste, isso o aj udaria a escrever, ou iria m agoá-lo? Aim ée balançou a cabeça, para frente, para trás. Pelo m enos, dessa m aneira, ninguém iria olhá-lo de cim a para baixo. Noite após noite, talvez em segredo, levantando-se às três horas de um a fria m anhã, você pudesse piscar e dançar, sorrir e acenar para você m esm o, ali tão alto, tão alto, tão alongado e alto naquele espelho tão esplendoroso.
No telefone, a voz disse:
— Billie Fine's. Aim ée exultou:
— Oh, Billie!
A noite desceu sobre o cais. O oceano lá está, escuro e estrondoso por baixo das tábuas. Em seu túm ulo de vidro, Ralph perm anecia sentado, ensebado, dispondo as cartas, os olhos fixos, a boca endurecida. Ao lado do cotovelo, crescia a pirâm ide de guim bas. Aim ée passou pelas lâm padas quentes, verm elhas e azuis, e Ralph nem parou de j ogar, devagar, bem devagar.
— Oi, Ralph!
Num copo suj o, Ralph tom ava água gelada.
— Com o vai o rom ance? Com o é o Charles Boy er? Ou será o Cary Grant? Aim ée sorriu.
— Saí e com prei um chapéu novo. Caram ba! Estou m e sentindo tão bem ! E sabe por quê? Billie Fine vai entregar o espelho am anhã! Im agine só a expressão do nosso sim pático hom enzinho!
— Eu não sou m uito bom de im aginação.
— É, era bem capaz de você im aginar que eu quisesse m e casar com ele, ou algo do gênero.
— Por que não? Carregue-o num a m ala. Quando alguém perguntar "Onde está seu m arido?", você só tem que abrir a m ala, e anunciar: Ei-lo! Com o um toque de clarim . É só tirar da m ala, a qualquer hora, tocar um a m elodia, e guardar de novo. E coloque um a caixa de areia para ele na varanda de trás.
— Puxa, eu estava m e sentindo tão bem .
— A palavra correta é "benevolente".
Disse-o sem olhar para Aim ée, com os lábios quase cerrados.
— Be-ne-vo-len-te. E tudo isso porque eu o observei pelo buraquinho, de farra? É por isso que você vai dar o espelho a ele? Pessoas iguais a você estão sem pre por aí, com tam borezinhos na m ão, tirando m inha alegria de viver.
— Vê se m e lem bra de não ir m ais tom ar drinques na sua casa. Prefiro não sair com ninguém do que sair com pessoas m alvadas.
Ralph expirou fundo.
— Aim ée, Aim ée. Será que você não entende que não pode aj udar esse suj eito? Ele é m aluco. E essa coisa m aluca que você quer fazer é o m esm o que dizer "Vá em frente, sej a m aluco, eu te aj udo, com panheiro.
— Um a vez na vida, ao m enos, faz bem com eter um erro se a gente acha que vai fazer bem a alguém .
— Deus m e livre dos benfeitores, Aim ée.
— Ora, cale a boca! — exclam ou Aim ée, e não disse m ais palavra.
Ralph deixou o silêncio assentar, por um instante; depois, colocou o copo de lado e levantou-se.
— Se im porta de tom ar conta da bilheteria para m im ?
— Claro que não. Por quê?
Um m inuto inteiro se passou, e Aim ée, sentada, tiritou. Na bilheteria, o reloginho tiquetaqueava, e Aim ée virava o baralho, carta por carta, esperando. Ouviu, lá do Labirinto, um a pancada de m artelo, um a batida m ais leve, e novam ente um a pancada; silêncio, m ais espera, e, em seguida, dez m il im agens dividiram -se, dividiram -se novam ente, dissolveram ; Ralph voltava, cam inhando, contem plando dez m il im agens de Aim ée na bilheteria. Aim ée ouviu-o rir, tranqüilo, ao descer a ram pa.
Perguntou desconfiada:
— Por que você está tão bem -hum orado assim ? Ralph respondeu, displicente:
— Não vam os brigar. Você disse que Billie vai entregar o espelho am anhã para o Sr. Big, não foi?
— Por quê? Você não vai aprontar algum a gracinha, vai?
— Eu não.
Ralph retirou-a do balcão e retom ou o j ogo de cartas, sussurrando; os olhos brilhavam .
— Eu não. Não m esm o.
Sem olhar para Aim ée, Ralph com eçou a dispor as cartas. Aim ée atrás dele; o olho direito com eçou a repuxar ligeiram ente, os braços cruzavam e descruzavam . O m inuto do relógio fez tique. Ouviam -se apenas o som do oceano por baixo do cais noturno, a respiração calorenta de Ralph, o farfalhar suave das cartas. Acim a do cais, o céu estava quente e espesso, tantas nuvens. No m ar alto, a luz tênue do relam pej ar com eçava a surgir.
Por fim , Aim ée falou:
— Ralph...
— Relaxe, Aim ée.
— É sobre aquela viagem que você quer fazer pelo litoral.
— Am anhã. Talvez no m ês que vem , no próxim o ano. O velho Ralph Banghart é um suj eito paciente. Não estou preocupado com isso, Aim ée. Olhe... — Ralph esticou um a das m ãos —... eu estou calm o.
Aim ée esperou que am ainasse a saraivada de trovões.
— Só quero que você não fique zangado, é só o que eu quero. Só quero que prom eta que não vai fazer nenhum a m aldade.
O vento, ora quente, ora fresco, soprava ao longo do cais. Havia um cheiro de chuva no vento. O relógio tiquetaqueava. Aim ée com eçou a transpirar m uito, enquanto observava o m ovim ento contínuo das cartas. À distancia, audíveis os sons de alvos atingidos e de pistolas disparadas no tiro ao alvo.
E, então, lá estava ele.
Gingando no espaço aberto, sob as lâm padas insetiform es, o rosto torcido, escuro, todo m ovim ento um esforço. Veio de lá do fundo do cais, Aim ée assistia. Quis dizer a ele: Essa é a últim a vez que você vai ter que se envergonhar de ter vindo aqui, a últim a vez que vai ter que aturar ser observado por Ralph, m esm o em segredo. Quis poder gritar tudo isso, e rir, bem na frente de Ralph. Mas não disse nada.
— Salve, salve! — exultou Ralph. — Hoj e é de graça, a casa paga. Prom oção para os fregueses antigos!
Atônito, o Anão olhou para Ralph, os olhos negros, protuberantes, im ersos em confusão. A boca conseguiu form ar a palavra "obrigado"; ele se virou, com um a m ão no pescoço, e apertou as pequeninas lapelas contra a garganta convulsiva; a outra m ão apertava, em segredo, a m oeda de prata de dez cents. Olhou para trás, com um pequeno aceno de cabeça, e, em seguida, dúzias de rostos com prim idos, torturados, exalando a estranha luz escura das luzes, vagaram pelos corredores de vidro.
Aim ée puxou Ralph pelo braço.
— O que está acontecendo com você, Ralph? Ralph rosnou.
— Estou sendo benevolente, Aim ée, benevolente.
— Ralph...
— Pssiu. Escute só.
Na bilheteria, os dois esperavam no longo silêncio cálido. Então, bem lá de dentro, abafado, ouviram um grito.
— Ralph...
— Escuta, escuta!
Outro grito, outro, e m ais outro, um a saraivada de m urros, um a pancada, um a peça quebrada, um a m eia-volta, um a corrida pelo labirinto. De lá, selvagem , colidindo, ricocheteando de um espelho a outro, histérico, em gritos agudos, soluçando, as lágrim as escorrendo no rosto, a boca aberta, ofegante, surgiu o Sr. Bigelow. Proj etado no ar livre da noite esplendorosa, olhou em volta, selvagem , rilhou e desapareceu correndo pelo cais.
— O que houve, Ralph?
Ralph continuou sentado, rindo, dando tapas nas pernas. Aim ée deu-lhe um tapa no rosto.
— O que foi que você fez? Sem parar de rir:
— Venha. Vou te m ostrar um a coisa.
E lá estava ela no labirinto, im pelida de um espelho branco, escaldante, a outro, vendo o próprio baton, verm elho vivo, repetido m il vezes em todo o traj eto até a gruta de prata incandescente, onde m ulheres histéricas, com o a própria Aim ée, costum am acom panhar hom ens apressados e debochados.
—Vem !
E os dois se separaram num pequenino com partim ento cheirando a poeira.
— Ralph!
Os dois perm aneceram na soleira da porta daquele pequeno com partim ento que o Anão freqüentara, noite após noite, durante um ano inteiro. Perm aneceram naquele m esm o lugar que o Anão perm anecera, noite após noite, antes de abrir os olhos para ver, diante de si, a m iraculosa im agem .
Lenta, Aim ée esgueirou-se, um a m ão ainda do lado de fora, adentro do obscuro com partim ento.
O espelho fora trocado.
O novo espelho tornava pequenas, pequenas, m esm o as pessoas norm ais; m esm o as pessoas altas, fazia-as pequenas, escuras, cada vez m enores e m ais retorcidas à m edida que dele se aproxim assem .
E Aim ée ficou ali a pensar, pensar, que, se este espelho tornava pequenas as pessoas grandes, de pé bem aqui, o que não faria com um anão, um anão m inúsculo, um anão escuro, um anão assustado e solitário?
Virou-se, quase caiu. Ralph olhava-a.
— Ralph! Por que você foi fazer isso? Meu Deus!
— Aim ée, volte aqui!
Chorando, Aim ée desapareceu pelos espelhos. Foi difícil escancarar os olhos em baçados para encontrar o cam inho. Mas ela o encontrou. No cais vazio, parou, piscou, com eçou a correr para um lado, depois para outro, e outro m ais, e parou. Ralph veio falando, atrás dela, um a voz rem ota e estranha, com o a voz que se escuta na calada da noite, do lado de lá da parede.
— Não fale com igo! — disse Aim ée.
Alguém apressado subia o cais. Era o Sr. Kelly, do tiro ao alvo.
— Ei, vocês viram um suj eito baixinho por aqui, agora m esm o? O coisinha apanhou um a pistola na m inha barraca, carregada, e desapareceu; não consegui agarrá-lo. Vocês m e aj udam a procurar?
E Kelly foi-se, a toda velocidade, virando a cabeça para procurar por entre as barracas de lona, até desaparecer debaixo das cores vivas das lâm padas encordoadas, azuis, verm elhas e am arelas.
Aim ée balançou-se, para a frente, para trás; deu um passo.
— Onde você vai, Aim ée?
Aim ée olhou para Ralph com o se tivessem acabado de dobrar um a esquina, com o estranhos passantes que se esbarram .
— Acho que vou aj udar a procurar.
— Você não vai poder fazer nada.
— Tenho que tentar, de qualquer m aneira. Por Deus, Ralph, é tudo culpa m inha! Não deveria ter telefonado a Billie Fine! Não deveria ter encom endado o espelho e deixado você tão zangado a ponto de fazer o que fez! Era eu quem deveria ter ido para o Sr. Big, e não um a coisa m aluca que eu com prei! Eu vou encontrá-lo, m esm o que sej a a últim a coisa que faça na vida!
Balançando, levem ente rodando, a face um edecida, Aim ée viu os espelhos contorcerem -se à frente do Labirinto; em um deles, o reflexo de Ralph. Aim ée não conseguiu afastar os olhos da im agem que viu, que a prendeu, boquiaberta, num fascínio frio e estrem ecedor.
— O que há de errado, Aim ée? O que é que você...?
Ralph localizou o olhar de Aim ée, e virou-se para ver o que era.
Ao ver o esplendoroso espelho, franziu a testa.
Um hom enzinho horrendo, feio, de sessenta centím etros de altura, o rosto pálido, am assado, debaixo de um chapéu de palha antiquado, olhou de volta para ele com o cenho franzido. Ralph ficou a olhar-se, as m ãos espalm adas nas faces.
Aim ée cam inhou devagar, m ais depressa, e, depois, com eçou a correr. Correu pelo cais vazio, e a brisa m orna soprou, e sobre ela soprou pingos grossos de chuva m orna, que caia do céu, durante todo o traj eto de sua corrida.