O País de Outubro
A Morte Maravilhosa de Dudley Stone
— Vivo!
— Morto!
— Vivo, na Nova Inglaterra! Merda!
— Morto há vinte anos!
— Passem o chapéu; eu vou pessoalm ente, vou trazer a cabeça dele!
Foi assim que a conversa prosseguiu naquela noite. Um estranho a deflagrou ao labiar que Dudley Stone estava m orto. Vivo!, dissem os. Nós saberíam os! Nós não éram os, por acaso, os frágeis rem anescentes dentre aqueles que costum avam acender incenso e ler os livros de Dudley à luz dos votivos intelectuais, flam ej antes, dos anos vinte?
O Dudley Stone. Esse m agnífico estilista. O m ais orgulhoso dos leões literários. Vocês, com certeza, devem estar lem brados que foi um tal de puxar os cabelos, pular do penhasco, de assobiar os assobios da fatalidade, depois que ele escreveu aquele bilhete aos editores.
Senhores: hoje, com trinta anos, me retiro do metier, deixo de escrever, queimo os meus efeitos, jogo os últimos manuscritos no pântano, grito "Aleluia! " e "Adeus!". Atenc.
Dudley Stone
Terrem otos e avalanches, nessa ordem .
Por quê? , nos perguntam os, sem pre que nos encontram os, esse tem po todo.
À boa m oda das novelas radiofônicas, perguntam os se teriam sido as m ulheres a causa de ele ter j ogado fora seu futuro literário. Ou teria sido a Garrafa? Ou os Cavalos teriam corrido m ais que ele, interrom pendo o viço de bom m archador?
Muito à vontade, adm itíam os que se Stone ainda escrevesse, Faulkner, Hem ingway e Steinbeck estariam soterrados na lava expelida por ele. E o m ais triste é que Stone, na im inência de seu m elhor trabalho, dera, um belo dia, um a m eia-volta e desaparecera, fora viver num a cidade que podem os cham ar de Obscuridade, à beira do m ar, que podem os cham ar, m elhor dizendo, de O Passado.
— Por quê?
A pergunta viveu em nós, sem pre, em nós que havíam os visto os lam pej os do gênio naqueles trabalhos heterogêneos.
Um a noite dessas, refletindo sobre a erosão dos anos, percebendo nossos rostos um pouco m ais inchados, nossos cabelos m ais ausentes, portanto, m ais respeitáveis, nos enfurecem os com a ignorância do cidadão típico com relação a Dudley Stone.
Pelo m enos, resm ungam os, Thom as Wolfe j á havia sorvido sua dose de sucesso antes de apoderar-se do próprio nariz e pular da borda da Eternidade. Todos os críticos, pelo m enos, pasm aram depois daquele m ergulho na escuridão, com o quem pasm a com a passagem de um m eteoro que deixa um im enso rastro de fogo. Mas, quem , agora, se lem bra de Dudley Stone, de seu círculo seleto, de seus seguidores frenéticos dos anos 20?
— Passe o chapéu — eu disse. — Viaj o quinhentos quilôm etros e vou segurar Dudley Stone pelas calças e dizer "Olha aqui, Sr. Stone, por que o senhor nos abandonou de m aneira tão cruel? Por que o senhor não escreveu um livro sequer nesses vinte e cinco anos?
O chapéu foi nivelado com dinheiro. Passei um telegram a. Tom ei o trem .
Não sei o que eu esperava. Talvez encontrar um louva-a-deus caduco, frágil, balbuciando pela estação, em purrado pelo vento do m ar, um fantasm a, branco com o o giz, que iria m e descascar com as vozes do capim , da palha, sopradas na noite. Em agonia, com prim i os j oelhos, pois o trem bafej ava estação adentro. Desci num a cidadezinha rural, solitária, a dois quilôm etros do m ar, com o um m aluco abobalhado, pensando em que estava eu fazendo em lugar tão distante.
Nos painéis de avisos, em frente ao guichê coberto de painéis, encontrei um m onte de cartazes, de m uitos centím etros de espessura, colados e pregados uns sobre os outros, por m uitos anos. Ao levantar aquelas folhas, ao descascar aquelas cam adas de tecido antropológico, encontrei o que queria. Dudley Stone para m em bro do conselho m unicipal, Dudley Stone para Delegado, Dudley Stone para Prefeito! Aquela fotografia, descorada por sol e chuva, quase irreconhecível, clam ava, ao longo dos anos, por posições cada vez m ais responsáveis na vida deste m undo próxim o ao m ar. Fiquei a ler os cartazes.
—Ei!
E Dudley Stone atravessou a plataform a da estação e m e abordou por trás, de repente.
— Você se cham a Douglas?
Girei e m e deparei com essa im ensa arquitetura de hom em , grande, m as nada gordo, com as pernas qual enorm es pistões a im pulsioná-lo, um a flor clara na lapela, um a gravata clara ao pescoço. O hom em esm agou m inha m ão e m e olhou, de cim a para baixo, com o se fosse o Deus de Michelangelo criando Adão com um toque poderoso. Seu rosto, a ilustração dos Ventos do Norte, do Sul que sopram quentes, frios, nas velhas cartas m arítim as. Era o rosto que, nas inscrições egípcias, sim boliza o sol, num a cham a de vida!
Meu Deus!, pensei. E é esse hom em que deixou de escrever e nos deixou intrigados por vinte anos. Im possível. Está tão vivo, tão pecam inoso. Posso ouvir-lhe a batida do coração!
Devo ter perm anecido com os olhos estatelados para deixar que aquela expressão m e abarrotasse os sentidos sobressaltados.
Ele riu.
— Você pensou que fosse encontrar o Fantasm a de Marley ? Adm ita que sim .
— Bem ...
— Minha m ulher nos espera com um cozido à Nova Inglaterra, com m uita ale, e m uita stout. Gosto do som dessas palavras. Beber ale não significa ficar de ressaca, e sim reviver o espírito flácido. Palavrinha capciosa! E stout! Tem um som bonito, selvagem .
Um relógio im enso, dourado, pendia no colete, em correntes brilhantes. Dudley apertou m eu cotovelo e m e deleitou no traj eto, um m ago cioso de retornar à sua gruta com um coelho desafortunado.
— Foi bom você ter vindo. Acho que você, com o os outros, veio para m e fazer a m esm a pergunta. Bem , dessa vez, contarei tudo!
Meu coração saltava.
— Maravilhoso!
Atrás da estação, aguardava-nos um Ford, Modelo T, conversível, da safra de 1927.
— Ar fresco! Andar nisso aqui, ao crepúsculo, faz todos os cam pos, toda a várzea, as flores, entrarem em você com o vento. Espero que você não sej a do tipo que anda pela casa, pé ante pé, a fechar as j anelas! Nossa casa é com o se fosse um platô. O próprio clim a se encarrega da lim peza. Pule!
Dez m inutos depois, qual pêndulos, saím os de um a rodovia e tom am os um a estradinha que, há anos, não era aplainada nem m esm o recoberta. Dudley seguiu dirigindo, por cim a dos calom bos, dos buracos com um sorriso constante. Pam ! Nos últim os m etros, sacudim os, chegam os a um a casa tosca, sem pintura, de dois pavim entos. O carro, num últim o suspiro, pôde entregar-se ao silêncio m ortal.
— Você quer saber a verdade?
Stone virou-se, olhou nos m eus olhos, a m ão séria tocava m eu om bro.
— Fui assassinado por um hom em arm ado, há vinte e cinco anos, e continuo m orto até hoj e, quase.
Fiquei a olhá-lo, ele saltou do carro. Era sadio com o um a tonelada de rocha e não havia nada de fantasm a nele; m as eu sabia que, de algum m odo, a verdade estava m esm o naquilo que ele m e dissera antes de disparar, com o um canhão, na direção da casa.
— Essa é m inha m ulher, e essa é a casa, e esse é o j antar que nos espera! Olhe só a vista! Janelas nas três paredes da sala de estar, vista para o m ar, para a praia, para a vargem . Das quatro estações do ano, em três abrim os as j anelas e as pregam os. Juro que, no m eio do verão, chegam os a sentir o arom a das lim as e, em dezem bro, entra algum a coisa de Antártida, de am ônia e de sorvete. Sente-se. Lena, é bom tê-lo aqui conosco, não?
— Espero que você goste do nosso j antar à Nova Inglaterra.
Lena ia ora aqui, ora acolá, um a m ulher alta, de com pleição rij a, o sol a leste, filha de Papai Noel, o rosto um a lâm pada clara que ilum ina a m esa ao servir os pratos pesados, úteis, feitos para suportar o baque de punhos gigantescos. Os talheres eram suficientem ente fortes para receber dentes de leão. Um a nuvem de vapor, im ensa, subiu, e nós, de bom grado, pecadores do inferno, descem os por ela. Vi os pratos secundários deslizarem por três vezes à m inha frente,e senti o alim ento acum ular-se no peito, na garganta e, por fim , nos m eus ouvidos. Dudley Stone serviu-m e um a bebida ferm entada feita com uvas concordianas que, segundo ele, haviam suplicado por piedade. A garrafa de vinho, vazia, Dudley soprou-a pela boca, levem ente, e evocou um a m elodia ritm ada, de um a nota só, que logo acabou.
— Bem , j á o fiz esperar m uito tem po.
Dudley olhou para m im , à distância em que a bebida coloca as pessoas, e que, em certas horas da noite, parece a própria proxim idade.
— Vou contar m eu assassinato. Nunca contei a ninguém , acredite. Você conhece John Oatis Kendall?
— Um escritor m enor da década de 20? Uns poucos livros. Por volta de 1931 estava acabado. Morreu na sem ana passada.
— Que Deus o tenha!
O Sr. Dudley m ergulhou num a breve m elancolia particular; e dela reviveu com eçou a falar.
— Ele m esm o. John Oatis Kendall, acabado em 1931, escritor de grandes potencialidades.
— Não tão grandes quanto as suas — retruquei prontam ente.
— Bem , espere, espere. Fom os garotos j untos, John Oatis e eu, nascem os num lugar em que a som bra de um carvalho vinha envolver m inha casa pela m anhã e, a dele, ao entardecer; nadam os tudo que é rio j untos, j untos nos intoxicam os de m açãs ácidas e cigarro, j untos vim os os m esm os reflexos nos m esm os cabelos louros da m esm a m enina, e, no final da adolescência, j untos resolvem os dar um chute no Destino e ir apanhar da vida. Nos saím os razoavelm ente bem , m as eu m e saí m elhor, e m elhor ainda com o correr dos anos. Quando um livro dele conseguia um a citação, o m eu conseguia seis, e quando um livro m eu recebia um a crítica desfavorável, o dele recebia um as dozes. Éram os com o dois am igos num trem que o público havia desengatado. Lá estava John Oatis no vagão da tripulação, lá atrás, gritando "Socorro! Eu não quero ficar aqui, em Tank Town, Ohio. Afinal, nós estam os na m esm a viagem !" E o condutor diria "Mas não no m esm o trem". E eu gritava "Eu acredito em você, John, sej a caridoso, eu volto. E o vagão da tripulação ia dim inuindo lá atrás, com aquelas luzes verm elhas e verdes, que pareciam pirulitos de cerej a e lim ão, a brilhar na escuridão, e nós, aos brados de am izade. "John, m eu velho! Dudley, am igo velho!" E John Oatis tom ou um desvio por trás de um depósito, à m eia--noite, e a m inha locom otiva, com bandeirolas agitadas e bandas de m etais, ferveu crepúsculo adentro.
Dudley Stone fez um a pausa, percebeu m inha expressão de confusão total.
— Tudo isso conduziu ao m eu assassinato. Pois foi John Oatis Kendall que, em 1930, trocou um as roupas velhas e uns exem plares rem anescentes de uns livros seus por um a arm a, e veio até a m inha casa, até essa sala aqui.
— Ele tinha m esm o intenção de m atá-lo?
— Intenção? Com os diabos! Ele m e m atou m esm o. Pam ! Aceita m ais vinho? Assim é m elhor.
Sobre a m esa, a Sra. Stone colocava um a torta de m orangos, e Dudley saboreava m eu suspense garrulado. Stone cortou a torta em três nacos enorm es, e os distribuiu, lançando, para m im , a sua versão gentil do olhar de alguém que é convidado para um casam ento.
— E ele estava aí, John Oatis, nessa m esm a cadeira em que você está agora. Atrás, lá fora, no defum adouro, dezessete presuntos; nas nossas adegas, quinhentas garrafas do que há de m elhor; para lá do descam pado da j anela, o m ar elegante, num laço perfeito; a lua, lá em cim a, um prato de crem e fresquinho; por todo o lugar, a panóplia absoluta da prim avera; e Lena do outro lado da m esa, tam bém , e um salgueiro, ao vento, que ria de tudo o que eu dizia ou que preferia não dizer, nós dois com trinta anos, você quer? , com trinta anos de idade, a vida num carrossel m aj estoso, nossos dedos dedilhando cordas sonoras, m eus livros vendendo bem , a correspondência dos fãs nos encharcando qual fontes cristalinas, revigorantes, os cavalos nos esperando no estábulo para as cavalgadas da m eia-noite, às enseadas em que nós, ou m esm o o m ar, poderíam os sussurrar todos os nossos desej os noturnos. E John Oatis estava aí, sentado, sacando aquela arm a m elancólica do bolso do paletó.
A m ulher com entou:
— Eu ri, pensando que fosse algum tipo de acendedor de charutos.
— Mas John Oatis disse, bem sério: Eu vou m atar você, Sr. Stone.
— E você, o que fez?
— O que eu fiz? Continuei sentado, petrificado, rachado; ouvi um a batida terrível, a tam pa do caixão na m inha cara! Vi o carvão descer por um a calha inclinada, vi terra na m inha porta soterrada. Dizem que nos chocam os às vezes com o passado. Bobagem . É com o futuro que nos chocam os. Você vê aquela papa de sangue no rosto. E fica ali, sentado, até que seus lábios trôpegos digam "Mas, por que John, o que foi que eu fiz a você? "
— Muita coisa! — John gritou.
— E os olhos dele passearam pela estante im ensa, por aquela brigada de livros, elegantes, que ressaltava aos olhos, ereta, com m eu nom e im presso em todos, fuzilante com o os olhos de um a pantera na escuridão m arroquina. "Muita coisa!", gritou, m ortífero. As m ãos suadas cocavam o revólver. Eu fui com cautela, disse "John, o que você quer?"
— O que eu m ais quero no m undo — ele respondeu — é m atar você e ser fam oso. Ter m eu nom e nas m anchetes. Ser fam oso com o você Ser conhecido por toda a vida, e depois tam bém , com o o hom em que m atou Dudley Stone.
— Você não está falando sério, está?
— Estou sim . Serei m uito fam oso. Muito m ais fam oso do que hoj e, à sua som bra. Escute, ninguém no m undo consegue odiar tanto quanto um escritor. Meu Deus, eu gosto tanto do seu trabalho. Meu Deus, e eu odeio você porque você escreve tão bem . Um a am bivalência surpreendente. Mas eu não consigo m ais suportar isso, ser incapaz de escrever com o você; então, quero m inha fam a da m aneira m ais fácil. Vou interceptá-lo antes que você atinj a sua obra-prim a. Dizem que seu próxim o livro será o m elhor, o m ais brilhante!
— Estão exagerando.
— Pois eu acho que eles têm razão — John insistiu.
— Atrás dele, olhei para Lena; ela estava sentada, com m edo, m as não a ponto de gritar, correr e estragar a cena e provocar um final inadvertido.
— Tranqüilo — eu disse. — Tranqüilidade. Não se m exa, John. Me dê só um m inuto. Depois, pode puxar o gatinho.
— Não! — Lena sussurrou.
— Tranqüilidade — eu disse, para Lena, para m im m esm o e para John Oatis.
— Olhei pelas j anelas abertas, senti o vento, pensei no vinho na adega, nas enseadas na praia, no m ar, na lua da noite que, com o um tablete de m entol, refrescava o céu do verão, atraía nuvens ardentes de sal, nas estrelas que iam girar com a lua até de m anhã. Pensei em m im m esm o, com apenas trinta anos, Lena, com trinta anos, com nossas vidas inteiras pela frente. Pensei em toda aquela carne de vida, pendurada bem alto, esperando pelo m eu regalo! Nunca escalara um a m ontanha, nunca navegara no oceano, nunca m e candidatara a Prefeito, nunca m ergulhava para apanhar pérolas, nunca tivera um telescópio, nunca representara num palco, construíra um a casa, ou lera os clássicos que tanto desejava ler. Todos esses atos esperavam para ser realizados...
— Então, naqueles sessenta segundos, quase instantâneos, pensei, por últim o, na m inha carreira. Nos livros que escrevera, que estava escrevendo, nos livros que queria escrever. As críticas, as vendas, um saldo gigantesco no banco. E, acredite ou não, pela prim eira vez na vida, m e libertei de tudo isso. Transform ei-m e, por um m om ento, num crítico. Lim pei os pratos da balança. De um lado, coloquei os navios em que deixei de viaj ar, as flores que deixei de plantar, os filhos que não tive, as colinas que ainda não vira, e Lena ali, deusa da colheita. No m eio, coloquei John Oatis e o revólver — o prum o que segurava a balança. E, no prato vazio, coloquei a caneta, a tinta, os papéis em branco, as dúzias de livros. Fiz alguns aj ustes m enores. Os sessenta segundos passavam em tiques-taques. O vento doce da noite percorreu a m esa, foi tocar um cacho de cabelo no pescoço de Lena, Meu Deus, tocou-o tão suave, tão suave...
— A arm a apontava para m im . Já vira as fotografias das crateras lunares, e aquele buraco no espaço, a Nebulosa Saco de Carvão, m as, nenhum deles, palavra de honra, era tão grande quanto a boca daquele revólver à m inha frente.
— John — eu disse, enfim —, você m e odeia tanto assim ? Por eu ter tido sorte e você não?
— Ele gritou "Odeio sim , m erda!".
— A invej a dele chegava a ser esquisita. Eu não era m elhor do que ele. A diferença estava apenas no j eitinho da m unheca.
— Então, calm o, eu disse: John, se você quer m e ver m orto, eu m orrerei. Você gostaria que eu nunca m ais escrevesse?
— E o que m ais gostaria. Você está pronto?
— Ele apontou para o m eu coração.
— Então, está bem , não escrevo m ais. -Hem ?
— Nós som os velhos am igos, j am ais m entim os um para o outro, não é verdade? Então, confie na m inha palavra, dessa noite em diante nunca m ais vou encostar a caneta no papel.
— Não?! — Ele riu, de satisfação, incrédulo.
— Bem ali — eu apontei para a escrivaninha, j unto a ele, com a cabeça — estão os originais dos dois livros que venho trabalhando nos últim os três anos. Um deles, vou queim ar agora, na sua frente. O outro, você m esm o pode j ogar no m ar. Lim pe a casa, leve tudo que aparente a m ínim a sem elhança com literatura, queim e os livros editados tam bém . Tom e. Me levantei. Ele poderia ter m e m atado naquele m om ento, m as eu o deixara fascinado. Joguei um m anuscrito na lareira e acendi um fósforo.
— Lena, disse "Não faça isso". Eu m e virei e disse: "Eu sei o que estou fazendo". Ela com eçou a chorar. John Oatis ficou a m e olhar, enfeitiçado. Apanhei o outro m anuscrito, não editado. "Tom e". Enfiei-o debaixo do pé direito dele, usando-o com o peso de papel. Eu voltei e sentei. O vento soprava, a noite estava quente. Em frente, do outro lado da m esa, Lena estava branca com o um a flor de m acieira.
— Eu disse: De hoj e em diante, não escrevo m ais.
— E John Oatis falou, por fim : Por que você fez isso?
— Para que todos fiquem os satisfeitos. Para satisfazer você, porque, eventualm ente, continuarem os am igos. Para satisfazer Lena, porque serei, novam ente, um m arido para ela e não um a chancela em desem penho para um editor. E para satisfazer a m im m esm o, pois prefiro ser um hom em vivo que um autor m orto. Quem está à m orte faz qualquer negócio, John. Agora apanhe m eu últim o rom ance e vá em frente.
— E ali ficam os os três, sentados, assim com o nós, hoj e. Pairava o arom a dos lim ões, das lim as, das cam élias. Lá em baixo, o m ar ribom bava na orla de pedra. Meu Deus, que belo som enluarado! E, enfim , apanhando o m anuscrito, John Oatis o levou, com o a m eu próprio corpo, e foi em bora. Na porta, fez um a pausa e disse "Acredito em você". E foi. Ouvi o carro partir. Levei Lena para cam a. Foi um a das raras noites, na vida, que saí a cam inhar pela praia, e cam inhei m esm o, respirando fundo, apalpando, com as m ãos, m eus braços, m inhas pernas, gritando com o um a criança, cam inhando, enfrentando a quebra-m ar para sentir a água salgada, fria, espum ar à m inha volta em m ilhões de bolhinhas.
Dudley Stone fez um a pausa. Na sala, o tem po parará. O tem po entrara num novo ano, e nós três, ali sentados, encantados com Dudley a contar a história de seu assassinato.
Eu perguntei:
— E ele destruiu m esm o seu últim o rom ance? Dudley Stone confirm ou com a cabeça.
— Na sem ana seguinte, um a das folhas passou flutuando pela praia. Ele deve tê-las j ogado lá de cim a da colina, m il folhas, posso vê-las com os olhos da m ente, talvez se assem elhassem a um floco de gaivotas-m arinhas, brancas, m ergulhando em direção à água, sendo levadas pela m aré às quatro horas de um a m anhã escura. Lena correu pela praia com aquela folha na m ão, gritando "Olha, olha!" E quando eu vi o que era, atirei-a de volta ao m ar.
— Não vá m e dizer que você cum priu a prom essa? Dudley Stone olhou-m e com firm eza.
— O que você teria feito no m eu lugar? Procure ver as coisas dessa m aneira: Joan Oatis m e fez um favor. Não m e m atou. Não atirou em m im . Aceitou m inha palavra. Confiou em m inha palavra. Me deixou viver. Deixou que eu continuasse com endo, dorm indo, respirando. De repente, ele alargou m eus horizontes. Naquela noite, lá na praia, im erso n'água até a cintura, senti-m e tão grato a ele que gritei. Estava grato a ele. Você com preende de fato essa palavra? Grato por ele ter m e deixado viver quando teve, nas m ãos, a oportunidade de m e aniquilar para sem pre.
A Sra. Stone levantou-se. O j antar estava term inado. Ela tirou a m esa, nós acendem os charutos; e Dudley Stone conduziu-m e ao seu escritório dom éstico, um a escrivaninha com tam pa corrediça, cuj as m andíbulas escancararam -se, com pacotes, papéis, tinteiros, um a m áquina de escrever, docum entos, cadernos de despesas, índices.
— Tudo isso ia ferver dentro de m im . John Oatis apenas retirou a espum a com a colher e eu pude ver o líquido. Tudo m uito claro. Para m im , escrever sem pre fora pim enta e fel; sem pre preocupado com as palavras no papel, experim entando depressões enorm es, de corpo, de alm a. Observar os críticos traçarem gráficos a m eu respeito, m apear-m e, cortar-m e com o a um a salsicha, devorar-m e em seus cafés-da-m anhã boêm ios. Trabalho da pior espécie. Eu j á estava prestes a entregar o m eu boné. O gatilho j á estava arm ado. Pam ! E veio John Oatis. Olhe!
Dudley rem exeu na escrivaninha e apanhou uns im pressos, uns cartazes.
— Sem pre escrevi sobre a vida. Mas, na época, eu queria viver. Fazer coisas, em vez de contar coisas. Me candidatei ao conselho de educação. Venci. Me candidatei para m em bro do conselho m unicipal. Venci. Me candidatei a Prefeito. Venci. Delegado. Bibliotecário Municipal. Encarregado da Lim peza Municipal. Apertei m uitas m ãos, vi m uita vida, fiz m uita coisa. Vivem os de todas as m aneiras possíveis, com os olhos, bocas, narinas, ouvidos e m ãos. Escalam os m ontanhas, pintam os quadros, tem alguns na parede! Já dem os a volta ao m undo por três vezes! E até vi nascer m eu filho, inesperado. Ele cresceu e agora se casou. Mora em Nova Iorque. Já fizem os m uito, m uito m esm o.
Stone fez um a pausa. Sorriu.
— Vam os até o j ardim . Instalam os um telescópio. Você quer ver os anéis de Saturno?
E ali ficam os no j ardim e o vento soprou, de um a distância de m ilhares de quilôm etros adentro do m ar. Enquanto ali estávam os, contem plando as estrelas pelo telescópio, a Sra. Stone desceu à adega, na m eia-noite, para ir apanhar um vinho espanhol, raro.
No dia seguinte, ao m eio-dia, chegam os à estação solitária, depois de um a viagem -relâm pago pelas várzeas sacolej adas que se estendiam desde o m ar. O Sr. Dudley Stone soltou o carro à própria cabeça e ficou a conversar com igo, rindo, sorrindo, apontando um ou outro afloram ento de rocha neolítica, um a ou outra flor silvestre, e silenciou apenas quando estacionam os e ficam os a esperar que o trem chegasse para m e levar.
Dudley Stone olhava o céu.
— Talvez você m e considere bastante m aluco, não?
— Não, eu j am ais diria isso.
— Bem , John Oatis Kendall m e fez m ais um grande favor. -Qual?
Stone rem exeu-se, coloquialm ente, no assento de couro rem endado.
— Me aj udou a sair fora quando as coisas estavam indo bem . Bem lá no fundo, talvez eu tenha adivinhado que m eu êxito literário iria derreter-se quando desligassem o sistem a de refrigeração. Meu inconsciente tinha um a visão m uito clara de m eu futuro. Eu sabia o que nenhum de m eus críticos sabia, que eu estava apontado única e exclusivam ente para baixo. Os dois livros que John Oatis destruiu eram horríveis. Teriam m e m atado m uito m ais do que o teria o próprio John Oatis. E ele m e aj udou a resolver, involuntariam ente, o que eu talvez não tivesse coragem de resolver por m im m esm o, de curvar-m e, reverente, e largar o cotilhão no m eio, enquanto os lam piões chineses ainda proj etavam , em m inha com pleição harvardiana, luzes rosadas e lisonj eiras. Já vi m uitos escritores subirem , caírem , abandonarem , m agoados, infelizes, suicidas. Essa com binação de circunstância, coincidência, conhecim ento inconsciente, alívio e gratidão a John Oatis Kendall, por estar vivo, foi fortuita. É o m ínim o que eu posso dizer.
Por m ais um m inuto, perm anecem os sentados à luz do sol quente.
— E então, quando anunciei m eu afastam ento do palco literário, senti o prazer de m e ver com parado aos grandes. Poucos autores, na história contem porânea, curvaram -se ante tanta publicidade. Foi um enterro m uito bonito. Eu estava, segundo eles, com um aspecto natural. E os ecos prolongaram -se. "O próxim o livro de Dudley ", clam avam os críticos, "seria o m elhor de todos! Um a obra-prim a!" Eu os deixei arquej antes, na expectativa. Mal sabiam eles. Mesm o agora, um quarto de século depois, m eus leitores que, naquela época, eram estudantes universitários, em preendem excursões fuliginosas, em trens ventilados, de curta distância, que fedem a querosene, para solucionar o m istério de por que eu os deixei esperando por tanto tem po pela m inha "obra-prim a". E graças a John Oatis Kendall, eu ainda tenho algum a fam a. Minha fam a retrocedeu, lenta, indolor. Um ano depois, eu talvez m orresse por m inhas próprias m ãos de escritor. É m uito m elhor você m esm o desengatar o vagão da tripulação antes que os outros o façam por você...
—... Minha am izade com John Oatis Kendall? Reviveu. Dem orou, é claro. Mas ele esteve aqui em 1947, veio m e ver. O dia foi ótim o, o tem po todo, com o nos velhos tem pos. E agora ele m orreu, e eu, por fim , contei tudo a alguém . O que é que você vai dizer aos seus am igos na cidade? Eles não vão acreditar num a só palavra. Mas tudo isso é verdade, eu j uro, aqui sentado, respirando o ar do bom Deus, olhando os calos de m inhas m ãos, com eçando a m e assem elhar àqueles im pressos descorados que usei quando m e candidatei a tesoureiro do condado.
Agora estávam os na plataform a da estação.
— Adeus e obrigado por ter vindo, por ter m e escutado, por ter deixado m eu m undo penetrá-lo. Deus abençoe a todos os seus am igos curiosos. Aí vem o trem ! Tenho que m e apressar. Lena e eu vam os viaj ar hoj e à tarde, pelas cidades litorâneas, num a cam panha da Cruz Verm elha. Adeus!
Fiquei a observar aquele hom em m orto, em passadas pesadas e distendidas, atravessar a plataform a, a sentir o trem or das tábuas, a vê-lo pular dentro do Modelo T, a ver o carro sacolej ar debaixo daquele corpanzil, a vê-lo pisar insistente nos pedais, com aquele pé im enso, dar partida no m otor, fazê-lo roncar, virar, sorrir, acenar para m im , e depois, com o ronco, desaparecer rum o àquela cidade, subitam ente brilhante, cham ada Obscuridade, ao longo de um litoral estonteante cham ado O Passado.
Você terminou O País de Outubro
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