O País de Outubro

Ray Bradbury · Capítulo 16 de 19

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O País de Outubro

Havia Uma Velha Senhora

 

— Eu não quero nem discutir! Já resolvi. Pode levar essa cesta idiota. Caram ba, não sei com o é que vocês puderam pensar um a coisa dessas! Fora daqui, vocês dois. Não m e aborreçam . Tenho m uito crochê, m uito tricô por fazer, e não posso perder tem po com as idéias excêntricas de hom enzarrões de cor..

O hom enzarrão de cor perm aneceu de pé, quieto, im óvel. Tia Tildy prosseguiu, sem perda de tem po.

— Você ouviu bem o que eu disse! Agora, se estiver com espírito para conversar com igo, pode conversar, m as, enquanto isso, não se ofenda, vou m e servir de café. Pronto. Se você fosse m ais bem educado, eu poderia oferecer a você tam bém m as você entra aqui assim , por cim a, poderoso, sem bater na porta, nem nada, j ulgando-se o dono do lugar.

Tia Tildy rem exeu no colo.

— Me fez até perder a conta! Estou fazendo um cachecol de lã, para m im . Esses invernos têm andado m uito frios, e não fica bem para um a senhora, com ossos de palha de arroz, andar por um a casa velha, com vento por todo lugar, sem agasalho.

O hom enzarrão de cor sentou-se. Tia Tildy preveniu:

— A cadeira é antiga, cuidado. Pode recom eçar, diga o que tem a dizer, vou ouvir com respeito. Mas baixe o facho e pare com esses olhares esquisitos. Meu Deus, isso m e dá até gases!

No parapeito da lareira, o relógio de m arfim , florido, acaba de badalar as três. Lá no corredor, agrupados em volta de um a cesta de vim e, quatro hom ens esperavam , quietos, com o se estivessem congelados.

— E quanto a essa cesta de vim e, ela tem m ais de um m etro e oitenta e, pelo aspecto, não é de roupa suj a. E aqueles quatro suj eitos ali que vieram com você, você não vai precisar deles para carregar a cesta. Por quê? Porque a cesta está leve com o um a plum a. Não é?

O j ovem de cor, na cadeira antiga, inclinava-se para a frente. Algo, naquele rosto, insinuava que, dentro em breve, a cesta j á não estaria tão leve assim .

— Puxa! — refletiu Tia Tildy. — Onde foi m esm o que eu vi um a cesta dessas antes? Já faz uns dois anos. Parece... Ah, agora m e lem bro. Foi quando a vizinha do lado, A Sra. Dwy er, m orreu.

Tia Tildy pousou a xícara de café, ríspida.

— Então é isso que vocês querem , hem ? Pensei que quisessem m e vender algum a coisa. Pois, então, fiquem aí. Em ily chega hoj e à tarde, da faculdade. Puxa, vai chegar cansada. Eu escrevi um bilhete para ela na sem ana passada. Não disse, é claro, que não estava m e sentindo lépida e fagueira, só dei a entender que queria vê-la de novo, j á faz tantas sem anas que não a vej o. Ela m ora em Nova Iorque, e tudo o m ais. Em ily é com o se fosse m inha própria filha.

— Pois ela vai cuidar de você, m eu j ovem . Vai enxotá-lo desta sala tão depressa que...

O j ovem de cor olhava para Tia Tildy, com o se ela estivesse cansada. Tia Tildy retrucou.

— Não estou não!

Na cadeira, o j ovem urdia, para a frente, para trás, com os olhos sem icerrados, descansando. Ah, ela precisa de um repouso tam bém , o j ovem pareceu m urm urar. De um repouso, um repouso, um bom repouso.

— Queridos filhos de Gessém , bem aqui em Gilberry Dike! Isso que vocês vêem nos m eus dedos, e não im porta que sej am franzinos, são cem cachecóis, duzentas suéteres e seiscentos suportes de vasos! Portanto, vão em bora e voltem quando eu term iná-los. Talvez então eu possa conversar com vocês.

Tia Tildy m udou de assunto.

— Vou contar-lhe a respeito de Em ily, essa m inha criança doce e form osa. Pensativa, Tia Tildy confirm ava com um gesto de cabeça. Em ily, dos cabelos dourados, m acios, finos com o pendões de m ilho.

— Me lem bro do dia em que a m ãe dela m orreu, vinte anos atrás, e deixou Em ily com igo. E é por isso que eu estou zangada com vocês, com suas cestas e coisas do gênero. Vocês j á ouviram falar em alguém que tenha m orrido por um a boa causa? Meu j ovem , eu não gosto não. Porque m e lem bro...

Tia Tildy fez um a pausa; um a rem iniscência dolorosa, breve, tocou-lhe o coração. Ouviu a voz do pai, vinte anos atrás, num fim de tarde, em bargada, m urm urar:

— Tildy, o que é que você vai fazer na vida? Do j eito que você age, os hom ens não vão querer m uita coisa com você. Você beij a e desaparece. Por que você não se aquieta, se casa, tem filhos?

Tildy respondera em voz alta:

— Papai, eu gosto de rir, de brincar, de cantar. Não sou do tipo casam enteiro. Im possível encontrar um hom em com a m esm a filosofia que eu.

— E que filosofia é essa?

— Que a m orte é um a coisa ridícula! Quando m ais nós precisávam os da m am ãe, a m orte deu um sum iço nela. O senhor acha que isso é ser inteligente?

Os olhos do pai um edeceram , nublaram , turvaram .

— Você tem sem pre razão, Tid. Mas não podem os fazer nada. A m orte vem para todos nós.

— Com bata a m orte! Aplique um golpe baixo. Não acredite nela!

Papai estava triste.

— Im possível. Estam os, todos, sozinhos no m undo.

— Mas um dia isso tem que m udar, papai. E hoj e, aqui e agora, vou com eçar m inha própria filosofia! Vej a que insensatez, as pessoas vivem alguns anos e, depois, com o sem entes um edecidas, são atiradas num a cova. E não brotam ! Qual a utilidade disso? Ficar ali, deitadas, por m ilhões de anos, sem aj udar a ninguém . E a m aioria é gente boa, form osa, pura. Ou, pelo m enos, tentam ser.

Mas o pai não ouviu. Descorou, desfaleceu, com o um a foto deixada ao sol. Tildy tentou convencê-lo a sair daquele estado, m as, de um j eito ou de outro, ele expirara. Tildy deu m eia-volta, correu. Já que ele estava frio, ela não poderia perm anecer ali, pois aquela frieza negava-lhe a filosofia. Tildy não com pareceu ao enterro. Tudo o que fez foi instalar essa loj a de antigüidades na frente de um a casa velha e viver só, anos a fio, isto é, até a chegada de Em ily. Tildy não quisera receber a garota. Por quê? Porque Em ily acreditava na m orte. A m ãe dela, entretanto, era um a velha am iga e Tildy prom etera aj udá-la.

Tia Tildy prosseguiu, dirigindo-se ao hom em de preto:

— Em ily foi a prim eira a viver nesta casa com igo, depois de longos anos. Eu nunca quis m e casar. Tinha m edo da idéia de viver com um hom em vinte, trinta anos, e depois ele acabar, m orrer na m inha cola. Abalaria m inhas convicções, com o a um castelo de cartas. Esquivei-m e do m undo. E quem sequer m encionasse a m orte na m inha frente, levava um a bronca.

O j ovem ouvia, paciente, educado. Depois, ergueu a m ão. Parecia saber de tudo, com aqueles olhos som brios, frios, brilhantes, antes m esm o que Tildy m ovesse os lábios. Sabia a respeito dela, a respeito da Segunda Guerra Mundial, de quando ela desligara o rádio para sem pre, cancelara os j ornais e dera um a guarda-chuvada na cabeça de um suj eito, expulsou-o da loj a, porque ele insistiu em descrever as praias da invasão, as m arés contínuas, lentas, com os m ortos à deriva, sob a insistência silenciosa do luar.

Claro, na cadeira antiga, o j ovem de cor sorria, sabia que Tia Tildy aferrara-se aos velhos discos, à velha vitrola. A Harry Lauder cantando "Roam in 'in the Gloam in' ", a Madam e Schum ann-Heinke aos acalantos. Sem interrupções, sem calam idades internacionais, assassinatos, envenenam entos, desastres de autom óveis, suicídios. A m úsica, a cada dia, todos os dias, era sem pre a m esm a. E assim passaram os anos, e Tia Tildy tentava ensinar sua filosofia a Em ily. A m ente de Em ily, entretanto, se fixara na m ortalidade. E em bora respeitasse o m odo de pensar de Tia Tildy, j am ais m encionara... a eternidade.

O j ovem sabia de tudo isso.

Tia Tildy fungou o nariz.

— Com o é que você sabe de tudo isso? Bem , se você pensa que vai m e convencer a entrar nessa cesta vim e, deve estar fora do esquadro. Se você encostar as m ãos em m im , cuspo na sua cara!

O j ovem sorriu. De novo, Tia Tildy fungou o nariz.

— É m elhor esquecer esse risinho idiota, parece um cachorro doente. Eu j á estou m uito velha para ser am ada. Já está tudo seco, retorcido, com o um tubo de tinta, velho, abandonado por anos a fio.

Houve um ruído. No parapeito da lareira, o relógio badalou as três. Tia Tildy olhou-o, rápida. Estranho, dera três horas há cinco m inutos atrás, não dera? Ela gostava daquele relógio de m arfim branco, com anj os nus, dourados, pendendo em volta do m ostrador dos num erais, e daquele tom de sino de catedral, m acio, distante.

— Você vai ficar aí sentado, m eu j ovem ?

Ia sim .

— Então, espero que não se incom ode, vou tirar um cochilo. Mas não ouse se m exer nessa cadeira. Não venha se insinuar. Vou só fechar os olhos, um a folguinha de nada. É isso... é isso...

Bela hora do dia, quieta, de descanso. Silêncio. Apenas os tique-taques do relógio, ativos com o cupins na m adeira. Apenas a velha sala exalando o arom a do m ogno encerado, do couro oleoso da cadeira Morris e dos livros duros nas prateleiras. Tão bonito. Bonito...

— Você não vai se levantar dessa cadeira aí, vai, m eu senhor? É m elhor que não se levante. Estou com um olho pregado em você, viu? Estou m esm o. Estou m esm o. Puxa... ahhh. Hum m m .

Plum oso. Letárgico. Profundo. Debaixo d'água, quase. Ahh, que bom . Quem vej o, com m eus olhos cerrados, a m over-se no escuro? Quem m e beij a no rosto? É você, Em ily ? Não. Não. Meus pensam entos, creio. Um sonho... apenas. Por Deus, claro. É isso. Diluindo, diluindo, diluindo...

— HEM? O QUÊ? CARAMBA?... Cadê m eus óculos? Pronto!

De novo, o relógio badalou as três. Ora, seu velho relógio, que vergonha! Vou ter que m andá-lo para o conserto.

O j ovem de terno preto lá estava ao pé da porta. Tia Tildy balançou a cabeça.

— É cedo ainda, m eu j ovem . Desistiu, não foi? Não conseguiu m e convencer, hem ? Claro, eu sou teim osa com o um a m ula. Você não vai conseguir m e tirar dessa casa; portanto, não precisa se incom odar em vir tentar de novo!

O j ovem curvou-se, gentil reverência. Não tinha intenções de voltar, j am ais.

— Ótim o! — declarou Tia Tildy. — Sem pre disse a papai que eu venceria! Por quê? Porque, nesta j anela, vou fazer m inhas costuras nos próxim os m il anos. Para m e tirarem daqui vão ter que roer as tábuas.

O j ovem de cor pestanej ou.

— Ah, com o o gato que acaba de engolir o passarinho, hem ! Levem essa cesta idiota daqui!

Os quatro hom ens saíram , pesados, pela porta da frente. Tildy observou o m odo com que carregavam a cesta. Em bora estivesse vazia, parecia em penar com o peso.

Levantou-se, trêm ula, indignada.

— Vocês roubaram m inhas antigüidades? Meus livros? Os relógios? O que é que vocês levam aí na cesta?

Lam peiro, o j ovem de cor assobiava, de costas para ela. E prosseguia cam inho, atrás do cam baleio dos outros. Ao passar pela porta, apontou para a tam pa da cesta, oferecendo-a à inspeção de Tia Tildy. Em pantom im a, pensou na possibilidade de ela querer abri-la e dar um a espiada.

— Quem ? Eu? Curiosa? Nada disso. Vão em bora!

O j ovem de cor cravou o chapéu na cabeça e saudou-a, decidido.

— Adeus!

Tia Tildy bateu a porta.

Pronto. Pronto. Melhor assim . Do lado de fora. Aqueles hom ens bobos, com idéias tão bichentas. E ela não se im portaria com a cesta. Se tivessem roubado algum a coisa, ela não ligaria, contanto que a deixassem em paz.

— Vej a...

Tia Tildy sorriu.

—...Lá vem Em ily, chegando da faculdade. Já era tem po. Que m enina adorável. Que j eitinho de andar! Mas, Deus do céu, ela parece pálida, esquisita, hoj e, andando assim tão devagar. Por que será? Parece preocupada, parece sim . Coitada. Vou preparar um café e um prato com bolinhos.

Os pés de Em ily m arcaram os degraus da escada da frente. Afobada, Tia Tildy ouviu os passos lentos, deliberados. O que será que a aborreceu. Parece um lagarto adoentado, sem cham a de vida. A porta da frente escancarou-se. No corredor, Em ily parou, apoiou-se na m açaneta m etálica.

— Em ily ?

Cabisbaixa, Em ily arrastou-se, entrou na sala de visitas.

— Em ily ! Eu estava à sua espera. Vieram uns quatro bobões hoj e aqui, com um a cesta. E quiseram m e vender coisas que eu não queria. Que bom você chegar. A casa fica m ais aconchegante...

Tia Tildy percebeu que, pelo m inuto que passou, Em ily estivera a olhar para ela, com os olhos fixos.

— O que aconteceu, Em ily ? Pare de m e olhar assim . Olhe, vou trazer um a xícara de café. Pronto!

— Em ily, por que você está se afastando de m im ?...

—...Em ily, não grite assim ! Pare com isso. Se ficar gritando assim , vai enlouquecer. Levante do chão, vam os! Desencoste da parede! Em ily ! Não se encolha assim , eu não vou fazer m al algum a você!...

—...Meu Deus, quando não é um a coisa, é outra...

—...O que está acontecendo, m inha m enina?

Por entre as m ãos, que lhe cobriam o rosto, Em ily exalou gem idos.

— Minha m enina. Minha m enina... Tia Tildy sussurrava.

—...Pronto. Tom e um gole d'água. Beba, Em ily. Assim .

Em ily esbugalhou os olhos e viu algo; estrem eceu, fechou os olhos, recuou.

— Tia Tildy ! Tia Tildy ! Tia... Tildy bateu-lhe no rosto.

— Pare com isso. O que foi que m ordeu você? Com esforço, Em ily ergueu os olhos.

Estendeu as m ãos à frente. Os dedos desapareceram adentro de Tia Tildy.

— Que idéia m ais boba! Tire as m ãos daí! Tire, estou m andando!

Em ily caiu para o lado, m eneou a cabeça, os cabelos dourados sacudiram em trem ores resplandecentes.

— A senhora não está aqui, Tia Tildy ! É um sonho. A senhora está m orta!

— Olhe essa boca, m enina!

— É im possível que a senhora estej a aqui!

— A Terra de Gessém , Em ily...

Tildy segurou a m ão de Em ily. A m ão varava-lhe o corpo. Tia Tildy, im ediatam ente, levantou-se, ereta, e bateu o pé. Gritou, furiosa:

— Por quê? Por quê? Aquele... m entiroso! Larápio!

As m ãos m agras crisparam , form aram punhos fibrosos, enrij ecidos, pálidos.

— Aquele m aníaco negro! Ele o roubou, o surrupiou. Roubou sim , roubou! Tia Tildy espum ava de cólera. Os olhos azuis, pálidos, estavam em cham as.

Naquele silêncio afrontado, falava aos perdigotos. Voltou-se para Em ily.

— Levante-se, m enina; vou precisar de você! Em ily está prostrada, tiritando. Tia Tildy anunciou:

— Parte de m im está aqui sim . E essa parte, m eu Senhor das Alm as, vai ter que agüentar um pouquinho. Apanhe m eu chapéu.

— Estou com m edo — confessou Em ily.

— Claro... m as não de m im , não é?

— É, sim senhora.

— Por quê? Não sou nenhum a assom bração. Você m e conhece m uito bem , pelo tem po que j á viveu com igo. Agora não é hora de bancar a bebê-chorona. E levante-se, se não lhe racho o nariz!

Em ily ergueu-se e ali ficou, com o algo encostado num canto, procurando decidir que direção tom ar.

— O carro está aonde, Em ily ?

— Ali no fim da rua, na garagem , tia.

— Ótim o!

Tia Tildy fustigou-a porta afora. Os olhos beliscaram as ruas.

— Agora... para que lado é o necrotério?

Em ily apoiava-se no corrim ão da escada, tropeçava.

— O que a senhora vai fazer, Tia Tildy ?

— O que é que eu vou fazer?...

Atrás de Em ily, Tia Tildy descia, trôpega, as bochechas sacudiam , num a fúria pálida, m agra.

—...Vou apanhar m eu corpo de volta, é claro! Quero m eu corpo de volta! Vam os!

O carro roncou. Em ily, agarrada ao volante, olhava em frente, as ruas curvas, m olhadas de chuva. Tia Tildy brandia a som brinha.

— Depressa, m enina. Depressa! Antes que esguichem caldos no m eu corpo, antes que o retalhem em dados, em cubinhos, com o esses cínicos agentes funerários costum am fazer. Eles cortam você e costuram , e o corpo não tem m ais utilidade para ninguém .

Em ily suspirou.

— Tia, tia, eu não quero ir, não m e obrigue a ir. Não vai adiantar.

— Pronto. Chegam os.

Em ily encostou no m eio-fio e desabou por cim a do volante. Tia Tildy, porém , j á pulara fora do carro, e agora, afetada, cam inhava rum o à entrada do necrotério. Deu a volta e foi até o local onde um rabecão negro, brilhoso, descarregava um a cesta de vim e.

— Você aí!

O ataque foi dirigido a um dos quatro hom ens ao redor da cesta.

— Coloquem a cesta no chão!

Os quatro ergueram os olhos.

— Por favor, m inha senhora. Saia do cam inho. Estam os fazendo nosso trabalho.

Tia Tildy brandiu a som brinha.

— Esse corpo socado aí dentro é m eu!

— Eu não sei de nada disso, não senhora — disse um segundo hom em . — Por favor, m inha senhora. Não fique na frente. Isso aqui está pesado.

Tia Tildy m agoou-se.

— Olhe, m eu senhor. Fique o senhor sabendo que eu só peso cinqüenta quilos.

O hom em olhou-a, casual.

— Não estou interessado em seu peso, senhora. Eu j á estou atrasado para o j antar. Se m e atrasar, m inha m ulher m e m ata.

Os quatro seguiram cam inho; com Tia Tildy atrás, atravessaram um corredor, entraram na sala dos preparativos.

Um hom em de j aleco branco esperava a chegada da cesta com um sorriso bem satisfeito estam pado no rosto com prido, ávido. Tia Tildy não deu bola para a avidez daquele rosto e nem sequer para todo o conj unto da personalidade daquele hom em . Os quatro depositaram a cesta e saíram .

O hom em de j aleco branco olhou para Tia Tildy.

— Minha senhora, este não é o lugar apropriado para um a dam a.

Tia Tildy sentiu-se lisonj eada.

— Ainda bem que o senhor pensa assim . Foi o que eu tentei dizer àquele j ovem de terno preto.

O dissecador intrigou-se:

— Qual j ovem de terno preto?

— Ora, qual? Esse que foi enlam ear m inha casa.

— Não há ninguém aqui com essa descrição.

— Bem , não interessa. Com o o senhor m esm o j á afirm ou, com m uita sabedoria, isto aqui não é lugar para um a dam a. Eu não quero ficar aqui. Quero ficar em casa e assar presunto para m inhas visitas dom inicais, estam os próxim os da Páscoa. Tenho que dar de com er a Em ily, que fazer m inhas suéteres, que dar corda nos m eus relógios...

— A senhora está m uito filosófica, não há dúvida; e filantrópica, m as eu tenho trabalho a fazer. Acabou de chegar um corpo.

A últim a frase, o hom em pronunciou-a com um certo regalo, enquanto selecionava algum as facas, tubos, j arras e instrum entos. Tildy eriçou-se.

— Se o senhor tocar nesse corpo, que sej a apenas com a im pressão digital, eu...

O hom em afastou-a para o lado, com o a um a m ariposa insistente. Gentil, suave, cham ou:

— George, conduza essa senhora até a saída, por favor.

Tia Tildy lançou um olhar fulm inante para esse tal de George, que j á se aproxim ava.

— Quero vê-lo pelas costas, volte!

George segurou-a pelos pulsos.

— Por aqui, senhora.

Tildy desvencilhou-se. Com facilidade. A carne pareceu... escorregar. Ela própria se surpreendera. Afinal, j á nessa idade, desenvolvia um talento inesperado. A nova habilidade deixou-a satisfeita.

— Está vendo? O senhor não pode bolir com igo. Quero m eu corpo de volta! Casual, o dissecador abriu a tam pa da cesta. Em seguida, num a série sucessiva de exam es, percebeu que o corpo que ali estava era... parecia ser... seria?... talvez... claro... não... não... é impossível, m as...

— Ahh... — exalou, abrupto.

—...Essa senhora... é sua... parenta?

— É um a relação m uito estim ada. Tenha cuidado.

— Irm ã, talvez?

O hom em , esperançoso, agarrou-se ao últim o fio de um a lógica que m inguava.

— Não, seu bobo. Essa aí sou eu. Ouviu bem ? Sou eu.

O dissecador pensou na possibilidade.

— Não, essas coisas não acontecem . Atrapalhou-se com os instrum entos.

— George, cham e os outros para aj udá-lo. Não posso trabalhar com um a m aníaca do m eu lado.

Voltaram os quatro hom ens. Em desafio, Tia Tildy cruzou os braços.

— Não conseguirão bolir com igo!

Prosseguiram os gritos de Tia Tildy, desde a sala dos preparativos, rem ovida que foi, com o um pião num tabuleiro de xadrez, para o quarto de vestir, através do corredor, para a câm ara de espera e para o salão do velório, onde ela se j ogou num a cadeira situada bem no m eio do vestíbulo. Havia cabines fam iliares, que recuavam no silêncio lúgubre, e um arom a de flores.

Um dos hom ens ponderou:

— Por favor, m inha senhora. É aqui que o corpo ficará repousando para o serviço de am anhã.

— Eu vou ficar bem sentadinha aqui até conseguir o que quero!

E ali ficou, sentada, os dedos pálidos a bolirem no laço que lhe envolvia a garganta, o queixo em pinado, e o sapato, com um botão alto, no dorso, a bater irritado. E se um dos hom ens entrasse em seu cam po de ataque, ela o acertaria com a som brinha. E se viessem tocá-la, ela, agora, não se esqueceria de... escorregar.

O Sr. Carrington, Presidente do Mortuário, em seu escritório, ouviu o tum ulto e veio, a passos m iúdos, por entre os bancos, para investigar. Falou baixinho, com um dedo à boca.

— Vocês, vocês. Mais respeito. Mais respeito. O que há? Minha senhora, posso aj udá-la em algum a coisa?

Tia Tildy olhou-o de cim a a baixo.

— Pode sim .

— E com o, senhora?

— Entre naquela sala...

Tia Tildy apontava.

— Pois não, m inha senhora.

—...e diga àquele j ovem investigador, tão ávido, que pare de bolinar m eu corpo. Eu sou donzela. Meus sinais, m inhas m arcas de nascença, cicatrizes e outras curiosidades, inclusive a curva do m eu calcanhar, são segredos que m e pertencem . Não quero que ele fique bisbilhotando, fuçando, cortando, m achucando tudo, de m odo algum .

Diante de coisas tão vagas, para ele que ainda não correlacionara os corpos, o Sr. Carrington olhou-a, inteiram ente im potente.

— Ele está com igo lá, em cim a daquela m esa. Pareço um pom bo, prestes a ser cortado e recheado!

Sr. Carrington apressou-se em ir verificar. Depois de quinze m inutos, no silêncio da espera, em discussão aterrorizada, com parando, a portas fechadas, as notas com o dissecador, Carrington voltou, três tons m ais branco.

Caíram os óculos de Carrington. Ele os apanhou.

— A senhora está tornando as coisas difíceis para nós.

Tia Tildy enfureceu-se.

— Estou, é? São Vito, dai-m e luz, todas as m anhãs! Olh’aqui, Senhor Sangue e Ossos, ou o que for, vá dizer àquele...

— Nós j á estam os drenando o sangue...

— O quê?

— É sim , senhora. Posso assegurá-lo. Portanto, é m elhor a senhora ir em bora agora; não há m ais nada a ser feito.

Carrington riu, um riso nervoso.

— Nosso dissecador está realizando um a pequena autópsia para determ inar a causa mortis.

Tia levantou-se, fuzilando.

— Ele não tem o direito! Só os investigadores da polícia podem fazer isso!

— Bem , nós, certas vezes, nós perm itim os...

— Vá lá dentro, agora, e diga àquele açougueiro para bom bear o m eu sangue, puro, da Nova Inglaterra, de volta ao m eu corpo, de pele pura, e, se, por acaso, ele tiver retirado algum a coisa, para ele colocar de volta, deixar funcionando direitinho, e depois devolver o corpo, novinho em folha, à m inha guarda. Ouviu bem ?

— Eu não posso fazer nada, senhora. Nada!

— Vou dizer um a coisa ao senhor. Eu vou m e instalar aqui pelos próxim os duzentos anos. Está ouvindo? E toda vez que entrar um cliente, vou cuspir ectoplasm a, aos j atos, dentro das narinas dele!

Carrington tenteou a idéia em sua m ente j á enfraquecida e em itiu um grunhido.

— A senhora m e deixaria inteiram ente arruinado. A senhora não faria isso, faria?

Titia sorriu.

— Não faria não, é?

Carrington apressou-se, correu pelo m eio dos bancos. À distância, ouviu-se o discar ininterrupto de um telefone. Meia hora depois, m otores roncavam defronte ao m ortuário. Três vice-presidentes e o histérico presidente cam inharam em m eio aos bancos.

— Qual o problem a, m inha senhora?

Titia contou, com algum as infernalidades bem escolhidas.

Os três conferenciaram ; entrem entes, notificaram ao dissecador para que interrom pesse o dever de casa, até quando, pelo m enos, conseguissem chegar a um acordo... O dissecador deixou a câm ara e pôs-se a sorrir, am istoso, e a fum ar um charuto preto, im enso.

Titia olhou o charuto. Exclam ou, horrorizada:

— Onde foi que você bateu as cinzas?

Im perturbável, o dissecador apenas rosnou e tirou um a baforada. A conferência term inou.

— A m inha senhora, com toda franqueza, a senhora não iria querer que tivéssem os que recom eçar todo o negócio de novo, não é m esm o?

Titia esquadrinhou os abutres.

— Eu não m e incom odaria nem um pouquinho!

Carrington enxugou o suor do rosto.

— A senhora pode levar o corpo de volta.

— Ótim o! — exclam ou Titia.

Depois, com cautela.

— Intacto?

— Intacto.

— Sem form ol?

— Sem form ol.

— Com sangue?

— Com sangue, claro. Claro, m eu Deus, contanto que a senhora o leve logo e sum a daqui!

Aquiescência pernóstica.

— Muito j usto. Prepare o corpo. Estam os com binados. Carrington estalou os dedos para o dissecador.

— Não fique aí parado, seu incom petente m ental. Vá prepará-lo!

— E tom e cuidado com esse charuto! — em endou a velha senhora.

— Calm a, calm a — dizia Tia Tildy. — Ponham a cesta no chão, para que eu possa entrar.

Sem m uito olhar para o corpo, Tia Tildy com entou, apenas:

— O aspecto... está natural.

E deitou-se na cesta, de costas.

Um a sensação de um frio ártico, cortante, assolou-a, seguida de um a náusea inauspiciosa de um turbilhão vertiginoso. Eram dois pingos de m atéria em fusão, água tentando filtrar-se através de concreto. De consum ação lenta e difícil. Era com o se um a borboleta tentasse retornar à casca, descartada, de um a crisálida dura!

Os vice-presidentes observavam Tia Tildy com apreensão. O Sr. Carrington fez um gancho com os dedos e procurou auxiliar com m ovim entos — de levantar, em purrar — de m ãos e braços. O dissecador, sincero em sua incredulidade, observava com olhos im passíveis, espantados.

Era com o filtrar-se em granito frio e espesso. Com o filtrar-se em um a estátua congelada, antiga. Com prim indo, sem pre.

— Viva, m aldita!

Tia Tildy dizia para si própria.

— Levante um pouquinho.

O corpo ergueu-se um pouco, fazendo ranger o vim e seco.

— Dobre as pernas, m ulher!

O corpo lutou, experim entando às cegas.

— Vej a! — ordenou Tia Tildy.

A luz entrou naqueles olhos cegos, em aranhados.

— Sinta! — exigiu Tia Tildy.

O corpo sentiu o calor do recinto, a súbita realidade da m esa de preparativos, onde teria que tom ar im pulso, ofegante.

— Mova-se!

O corpo deu um passo vagaroso, rangedor.

— Escute! — apressou-se.

Os ruídos do local entraram nos ouvidos entorpecidos. A respiração desarm oniosa, expectante, do dissecador, às sacudidas; o Sr. Carrington, chorão; a própria voz, rachada.

— Ande!

O corpo andou.

— Pense!

O velho cérebro pensou.

—Fale!

O corpo falou e curvou-se diante dos agentes funerários.

— Muito grata. Obrigada.

— Disse, por fim :

— Agora, chore!

E com eçou a chorar lágrim as de intensa felicidade.

E agora, toda tarde, por volta das quatro, quem quiser ir visitar Tia Tildy é só cam inhar até a loj a de antigüidades e bater. Na porta, um a im ensa coroa de flores negras. Não ligue. Foi Tia Tildy quem a colocou ali; é o hum or dela. Bata na porta. Há um a tranca dupla e um a fechadura tripla. Depois de bater, ouvirá um a voz estridente.

— É o hom em de preto?

Você vai rir e dizer não, não, sou eu, Tia Tildy.

E ela vai rir, e dizer "Entre, rápido!, e escancarar a porta e batê-la, rápido, para que nenhum hom em de preto possa esgueirar-se. Ela vai m andá-lo sentar-se, vai servir café e m ostrar as últim as suéteres de tricô. Ela j á não é m ais tão rápida quanto costum ava ser, e j á não enxerga m ais tão bem quanto antes, m as prossegue.

— E se você for m esm o sim pático — Tia Tildy declara, pousando, de lado, a xícara de café — tenho algo especial para m ostrar.

— O que é? — perguntam as visitas.

— Olhe...

Tia Tildy regozij a-se com sua pequenina particularidade, sua piada ingênua.

Então, com m ovim entos m odestos dos dedos, ela irá desam arrar o lenço branco que lhe encobre o pescoço e o peito, e, rapidam ente, irá m ostrar-lhe o que está por trás.

A cicatriz com prida, azul, onde a autópsia foi recosturada, com m aestria.

— A costura não está nada m á — ela fará a concessão — m esm o feita por um hom em . Ora... m ais café? Pronto!