O País de Outubro
Tio Einar
— É só um m inutinho — pediu a doce esposa de Tio Einar.
— Eu m e recuso — respondeu. — E antes que eu m e esqueça, só dem ora um segundinho.
A esposa plantou as m ãos nas ancas delgadas.
— Trabalhei a m anhã inteira, e você se recusa a dar u'a m ãozinha? Está trovej ando, vai chover.
Tio Einar retrucou, casm urro:
— Pois deixe que chova. Não quero ser perfurado por um raio só para ir secar a roupa.
— Mas você faz isso num instantinho.
— Me recuso, m esm o assim .
As im ensas asas de Tio Einar, de lona encerada, vibraram , nervosas, em suas costas indignadas.
A esposa estendeu-lhe um cordão em que estavam am arradas quatro dúzias de peças de roupa recém -lavadas. A contragosto, Tio Einar enrolou o cordão no dedo e m urm urou, am argo:
— Então, estou reduzido a isso! A isso!
E quase derram ou lágrim as enfurecidas, ácidas.
— Não chore; vai m olhar a roupa de novo. Pule agora, dê um a volta com a roupa.
— Dar um a volta com a roupa...
A voz saíra oca, profunda e m uito m agoada.
— Não! Pois que caiam os raios! Que chova! A esposa ponderou:
— Se o dia estivesse bonito, se estivesse fazendo sol, eu não pediria. Se você não for, será trabalho perdido, vou ter que estender a roupa pela casa...
Aquilo o convenceu. Acim a de tudo, detestava roupas penduradas, em bandeiras festonadas, que o faziam abaixar-se para atravessar a sala. Tio Einar subiu, bateu as im ensas asas verdes.
— Mas só vou até a cerca do pasto!
Girou: deu um salto, as asas m ascaram , deliciaram -se com o ar fresco. E antes m esm o que você pronuncie Tio Einar Tem Asas Verdes, Tio Einar navegou, em vôo baixo, pela fazenda, estendendo a roupa num círculo im enso, farfalhante, secando-a com a concussão, contundente, da lavagem de costas que suas asas proporcionavam !
— Segura!
De volta do giro, m anobrou a roupa, seca com o pipoca, fazendo-a pousar num a série de cobertores lim pos que a esposa estendera para servir de plataform a de aterrissagem .
— Obrigada!
— Ora, não am ole!
Voando, Tio Einar foi am argar debaixo da m acieira.
Aquelas lindas asas sedosas, dobradas sobre as costas de Tio Einar qual duas velas de cor verde-m arinho, faziam desprender dele, sobre os om bros, um chiado, um sussurro, sem pre que espirrava ou se virava de repente. Era, na Fam ília, dos poucos cuj o talento era visível. Tinha prim os, sobrinhos e irm ãos obscuros, escondidos pelo m undo, em cidadezinhas, e todos realizavam coisas invisíveis com a m ente, ou coisas relacionadas com dedos de feiticeiros, com dentes brancos, ou sopravam labaredas de fogo no céu, galopavam em florestas com o se fossem lobos enluarados, prateados. E, com parativam ente, viviam bem protegidos dos hum anos norm ais, coisa que, para um hom em de asas verdes, im ensas, era praticam ente im possível.
Não que detestasse suas asas. Nada disso! Quando j ovem , costum ava voar à noite, pois a noite é um a ocasião rara para os hom ens alados! O dia oferecia perigo, sem pre ofereceu e sem pre oferecerá; à noite, porém , ah, a noite, Tio Einar sobrevoara ilhas de nuvens e m ares de céu de verão. Sem perigo algum . Foram vôos bem altos, proveitosos, regozij o absoluto.
Mas agora j á não m ais conseguia voar à noite.
Quando voltava para casa, no alto de um certo desfiladeiro, na Europa, depois de um a reunião fam iliar com em orativa em Mellin Town, Illinois (alguns anos atrás), bebera m uito vinho tinto, forte. Estarei bem , disse para si m esm o, vago, e prosseguiu a longa j ornada, sob as estrelas da m anhã, sobre as colinas dos cam pos, que sonham com a lua, para lá de Mellin Town. E então... desastre nos céus.
Um a torre de alta tensão.
Um pato na rede! Que chiado! As faíscas azuis do fio em preteceram -lhe o rosto, ele conseguiu desgarrar-se da eletricidade com um a estupenda percussão das asas, num estupendo salto de costas, e caiu.
Estatelar na ravina enluarada, ali debaixo da torre, foi com o o ruído de um enorm e catálogo telefônico despencado do céu.
No dia seguinte, de m anhã cedinho, batendo com violência as asas encharcadas de orvalho, levantou-se. Ainda estava escuro. Um a faixa tênue de alvorada estendia-se a leste. E logo iria se colorir, e logo os vôos estariam restritos. Assim , nada a fazer senão refugiar-se na floresta e esperar a passagem do dia, nalgum bosque cerrado, até que a nova noite perm itisse às suas asas o m ovim ento oculto nos céus.
E, dessa m aneira, conheceu a esposa.
Passava o dia, quente para prim eiro de novem bro, na rural Illinois, e a bela Brunilla Wexley foi ordenhar um a vaca desgarrada, pois levava um a caçam ba na m ão e, pelo bosque, cam inhava de lado, suplicando, esperta, para que a vaca invisível por favor voltasse para casa; do contrário, iria explodir a barriga de tanto leite acum ulado. O fato de que a vaca com certeza voltar quando as tetas necessitassem de ordenha não tocou Brunilla Wexley. Pretexto m eigo para ir passear na floresta, soprar cardos e m ascar flores, o que ela fazia quando tropeçou em Tio Einar.
Adorm ecido, j unto a um a touceira, parecia um hom em debaixo de um abrigo verde.
— Chii! — exclam ou Brunilla. — Um hom em ! Num a barraca!
Tio Einar acordou. Para trás, a barraca se abriu, im enso leque verde
— Chii!...
Brunilla, que procurava a vaca, exclam ou.
—... Um hom em alado!
Foi assim que Brunilla viu as coisas. Assustou-se, é claro, m as, com o nunca se m achucara na vida, não tinha m edo de ninguém , e encontrar um hom em alado era algo fantástico. Orgulhou-se em conhecê-lo. Com eçou a conversar. Em um a hora, j á eram velhos am igos, e em duas horas, j á se esquecera de que o hom em possuía asas. E ele, de certa form a, confessou com o viera parar ali no bosque.
— Claro, eu percebi; você está m eio bom bardeado. A asa direita está m al. É m elhor irm os até lá em casa, eu trato dela. De qualquer m odo, você não vai conseguir voar para a Europa desse j eito. E, afinal, hoj e em dia, quem vai querer m orar na Europa?
Tio Einar agradeceu, m as não via j eito de aceitar.
— Mas eu m oro sozinha. Com o você vê, sou m uito feia. Ele insistiu que não.
— É bondade sua. Mas eu sou sim , não adianta m e enganar. Minha fam ília j á m orreu, eu tenho um a fazenda, grande, todinha para m im , bem distante de Mellin Town, e estou precisando de gente com quem conversar.
A m enina não sentia m edo dele?, Einar perguntou.
— Orgulhosa, e com invej a; isso sim . Você m e dá licença?
Cuidadosa, Brunilla acariciou aquelas im ensas asas verdes, m em branosas, invej ando-as. Ao sentir o toque, Tio Einar estrem eceu, trincou a língua com os dentes.
Assim , a única coisa a fazer seria m esm o ir até a casa da fazenda e deixar que ela cuidasse dele, com rem édios e ungüentos, e, m eu Deus!, que queim adura feia no rosto, bem em baixo dos olhos! Sorte você não ter ficado cego! Com o foi que aconteceu?
— Bem ...
Tio Einar m al com eçou a contar, e j á estavam na casa da fazenda, sem terem percebido que haviam cam inhado dois quilôm etros, entreolhando-se.
Um dia se passou, e m ais outro, e Tio Einar agradeceu, na porta, dizendo que teria que ir-se, agora, que apreciara o ungüento, dem ais, o cuidado, as acom odações. O crepúsculo chegara, e daqui, seis horas da tarde, até as cinco de m anhã, ele teria que atravessar um oceano e um continente.
— Muito obrigado! Adeus!
Na penum bra, decolou e chocou-se contra um a acerácea.
— Caram ba!
Brunilla correu até o corpo desacordado.
Ao acordar, um a hora depois, Tio Einar percebeu que não poderia voar à noite; sua percepção noturna, delicada, se fora. A telepatia alada que o alertava contra as torres, árvores e colinas que se encontrassem à frente, a visão e a sensibilidade, lím pidas, que o guiavam através do labirinto das florestas, colinas e nuvens estavam cauterizadas para sem pre por aquela queim adura no rosto, por aquela tritura azul, eletrificada, tostada.
Meigo, Tio Einar queixou-se.
— Com o vou conseguir chegar à Europa? Se eu voar de dia, serei visto e — piada m acabra! — alguém pode m e abater! Ou então querer m e levar para um j ardim zoológico; que vidão, não? Brunilla, m e diga, o que devo fazer?
Brunilla fitava as próprias m ãos.
— Ora, vam os dar um j eito nisso...
Casaram -se.
A Fam ília veio para o casam ento. Num a im ensa avalanche outonal, de folhas de aceráceas, plátanos, carvalhos e elm os, m ergulhavam num a chuva de castanheiras da índia, tocaram o chão com o ruído surdo da queda das m açãs de inverno, e com o vento im pregnado do arom a do adeus do verão partiram . A cerim ônia? A cerim ônia foi breve com o a luz de um a vela negra, acesa e soprada, a fum aça deixada no ar. A brevidade, a escuridão, a natureza invertida, de trás para diante, tudo isso escapou a Brunilla, que ouviu apenas o m urm úrio tênue do im enso vagalhão das asas de Tio Einar, ao fim do rito. Ê, no que diz respeito a Tio Einar, a ferida no nariz j á quase curada, tom ando Brunilla pelo braço, sentiu a Europa esvair-se, diluir-se na distância.
Mas, para voar na vertical, em linha reta, e descer, não era preciso enxergar bem . Nada m ais natural, portanto, que tom asse Brunilla nos braços e com ela subisse num vôo reto, vertical, céu adentro.
Um fazendeiro, a uns dez quilôm etros dali, viu um a nuvem baixa à m eia-noite, viu ligeiros reflexos, ligeiros estrépitos.
— Relâm pagos de verão — com entou, e foi dorm ir.
Só desceram no dia seguinte, de m anhãzinha, com o orvalho.
O casam ento vingou. Tudo o que ela fazia era olhar para ele e inflar-se só em im aginar-se a única m ulher no m undo casada com um hom em alado. Quem diria?, perguntou ao espelho. A resposta veio: Ninguém !
Ele, por seu turno, viu m uita beleza oculta por trás do rosto de Brunilla, m uita bondade, m uita com preensão. Para aj ustar-se às idéias da esposa, fez algum as alterações no regim e alim entar e tom ava cuidado com as asas pela casa; bibelôs lascados e lâm padas quebradas poderiam ferir-lhe os nervos; deles, procurou distância. Mudou o horário de dorm ir, j á que não m ais voaria à noite. Quanto a Brunilla, aj eitou as poltronas para que ficassem confortáveis para as asas de Tio Einar, nalguns lugares colocou alm ofadas adicionais, de outros, retirou-as, e as coisas que dizia eram precisam ente as coisas por que Tio Einar a am ava.
— Estam os em casulos, todos nós. Vej a com o sou feia! Mas, um dia, vou florescer e vou ter asas tão bonitas e elegantes com o as suas!
— Você j á floresceu há m uito tem po!
Brunilla refletiu e teve de adm iti-lo.
— É, j á m esm o. E sei em que dia foi, tam bém . Foi no bosque, eu procurava um a vaca e achei um a barraca!
Os dois riram , e com ele a envolvê-la, Brunilla sentiu-se m aravilhosa, sabia que o casam ento a fizera desabrochar da feiúra, com o um a espada resplandecentes, desem bainhada.
Tiveram filhos. No início, sentiram m edo, m ais por parte de Tio Einar, de que nascessem alados.
— Que bobagem ! Eu gostaria dem ais. Estariam protegidos contra os pisões.
— Bem , então, vão ter o seu cabelo!
— Ah, essa não...
Nasceram quatro filhos, três m eninos e um a m enina, que, de tanta energia, pareciam alados. Em quatro anos, espoucaram com o cogum elos; nos dias quentes de verão, pediam ao pai que sentasse debaixo da m acieira, os abanasse com suas asas refrescantes e lhes contasse a história rom ântica, estrelada, das ilhas de nuvens, dos oceanos celestes, da textura da brum a e do vento, de com o o gosto da estrela derrete na boca, de com o beber o ar frio da m ontanha, de qual a sensação de ser um a pedra rolada caindo pelo Monte Everest, e transform ar-se num broto verde que vem florir-lhe as asas antes m esm o que se chegue lá em baixo!
Assim era o casam ento de Tio Einar.
E hoj e, seis anos depois, ali estava Tio Einar, sentado, criando úlceras debaixo da m acieira, ficando im paciente e indelicado; não porque assim o desej asse, m as porque, depois de longa espera, ainda não conseguia viaj ar pelo céu da noite, aventuresco; j am ais recuperara o sentido superior. Ali estava ele, sentado, acabrunhado, apenas um a barraca de verão, verde, descartada, abandonada, pela tem porada, por veranistas indiferentes que outrora buscavam refúgio em sua som bra translúcida. Teria que ficar aqui sentado para sem pre, com m edo de voar de dia, de que alguém o visse? Teria que voar apenas para secar a roupa para a esposa; ficaria ali apenas a abanar as crianças nas tardes de outono? Sua única ocupação sem pre fora transportar m ensagens fam iliares, m ais rápido que as tem pestades. Um bum erangue, saía a girar por colinas, vales e, com o um cardo, aterrissava. Andava sem pre com dinheiro; a Fam ília fazia bom uso de seus m em bros alados! Mas, e agora? Am argura? As asas bateram rápidas, agitaram o ar, num trovão cativo.
— Papai! — cham ou a pequenina Meg.
As crianças fitavam -lhe o rosto obscurecido pelo pensam ento.
— Papai — pediu Ronald. — Faz m ais trovão!
— Hoj e está frio — respondeu Tio Einar —, estam os em m arço, logo vam os ter m uita chuva, m uito trovão.
— Você vem ver a gente? — perguntou Michael.
— Andem , andem , m eninos! Deixem papai descansar!
Tio Einar estava fechado para o am or, as crianças do am or, o am or das crianças. Pensava apenas no firm am ento, no céu, nos horizontes, nos infinitos, de noite, de dia, ilum inados pelas estrelas, pela lua ou pelo sol, nublados ou lím pidos, eram sem pre o m esm o céu, o m esm o firm am ento, o m esm o horizonte ali à frente, e você, am argurado. E lá estava ele, a navegar pelo pasto, com m edo de ser visto.
A desgraça, num poço profundo.
Meg cham ou:
— Papai, vem ver a gente; estam os em m arço! E nós vam os à Colina com os guris da cidade!
Tio Einar resm ungou:
— Que colina?
— A Colina das Pipas, é claro! — cantaram em coro.
Tio Einar olhou para as crianças.
Cada um a com um a pipa grande nas m ãos, os rostos transpiravam por antecipação, um brilho anim alesco. Nos dedinhos, rolos de linha branca. Nas pipas verm elhas, azuis, am arelas e verdes, estiravam -se caudas, tiras de algodão e seda. Ronald insistiu.
— Nós vam os em pinar papagaio! Por que não vem ?
Tio Einar estava triste.
— Não, se alguém m e vir, estarei em apuros.
— Você poderia ficar escondido no bosque e olhar — disse Meg. — Nós m esm os fizem os as pipas. Porque sabem os fazê-las.
— E com o é que vocês sabem ?
— Você não é o nosso pai? — resposta im ediata. — É por isso que sabem os, ora!
Tio Einar fitou as crianças por longo tem po. Suspirou:
— Um Festival de Pipas, não é?
— Isso m esm o!
— Eu vou ganhar — afirm ou Meg.
— Eu é que vou — contradisse Michael.
— Não, sou eu, sou eu — esganiçou Stephen.
Tio Einar saltou, com um rufar surdo, ensurdecedor, das asas, e urrou:
— Por Deus! Se não foi Deus quem m e apareceu pela frente! Meus filhos! Meus filhos! Eu am o vocês, dem ais!
Michael recuou.
— Papai, o que é que houve?
Einar entoou:
— Nada! Nada!
E flexionou as asas, em propulsão, em extensão m áxim as. Pam ! Bateu-as qual pratos de banda! Com a percussão, as crianças estatelaram -se de costas.
— Descobri! Descobri! Estou livre de novo! Fogo nas turbinas! Penas ao vento! Brunilla!
Einar gritou na direção da casa. Brunilla apareceu. Einar gritou, exuberante, esguio, na ponta dos dedos.
— Estou livre, Brunilla. Ouça, não preciso m ais da noite! Posso voar de dia! Não preciso da noite! De agora em diante, vou voar todo dia, qualquer dia do ano! Mas, m eu Deus, estou perdendo tem po, conversando. Olhe!
Ante o olhar preocupado dos fam iliares, Einar pegou a cauda de algodão de um a das pipas, am arrou-a atrás do cinto, segurou o rolo de barbante, abocanhou um a das extrem idades, estendeu a outra às crianças, e subiu, voou para o céu, afastando-se ao vento de m arço!
Pelos prados, pelos cam pos das fazendas, as crianças correram , soltando linha para o céu diurno, espum ando, tropeçando; Brunilla ficou no quintal para ver, acenava, ria. Os filhos partiram para a Colina das Pipas, lá longe, e pararam , os quatro, a segurar o rolo de linha nos dedinhos ávidos e orgulhosos, cada um dando seus puxões, m anobrando, em pinando. E as crianças de Mellin Town vieram correndo para em pinar seus pequeninos papagaios ao vento, viram a im ensa pipa verde em pinar, planar no céu, e exclam aram :
— Caram ba! Que pipa! Que pipa! Eu queria ter um a pipa assim ! Onde foi que vocês com praram ?
— Foi nosso pai que fez.
Meg, Michael, Stephen e Ronald responderam , e, exultantes, puxaram a linha, e a pipa sibilante, trovej ante, lá no céu, m ergulhou e subiu, form ando, com a nuvem , um ponto, m ágico, de exclam ação!