O País de Outubro

Ray Bradbury · Capítulo 10 de 19

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O País de Outubro

A Multidão

Spallner levou as m ãos ao rosto.

Houve um a sensação de m ovim ento no espaço, um grito de tortura, m aravilhoso, o im pacto do carro, a capotagem contra o m uro, através do m uro,'a subida, a queda, com o um brinquedo; e ele, arrem essado fora do carro. Depois... silêncio.

A m ultidão veio correndo. Dali, de onde estava deitado, ouviu-a correr, vagam ente. Pôde identificar idades, tam anhos, nos sons daqueles pés, tão num erosos, correndo pelo gram ado de verão, pelas faixas do calçam ento, pela rua de asfalto, cam inhando, cuidadosos, pelos tij olos atropelados, até o lugar onde o carro se encontrava, pendurado pelo m eio, com o bico voltado para o céu da noite, com as rodas ainda a girar, num a centrífuga inteiram ente sem sentido.

De onde vinha a m ultidão, não sabia. Esforçou-se para m anter a consciência, e viu os rostos da m ultidão rodearem -no, debruçarem qual folhas largas, lustrosas, de árvores inclinadas. Form avam um anel de rostos que se m oviam , com prim iam e m udavam sobre ele, olhando para baixo, para baixo, procurando, em seu rosto, identificar-lhe o tem po de vida, ou de m orte, transform ando-lhe o rosto num relógio lunar, em que, atrás do nariz, proj etada nas m açãs do rosto, a som bra do luar inform ava o m om entum da respiração, ou da não respiração, para nunca m ais.

Puxa, pensou, a m ultidão anda depressa, é com o a íris de um olho que se com prim e a partir do nada.

Um a sirene. Um a voz policial. Movim ento. O sangue escorria-lhe dos lábios, e ele era colocado num a am bulância. Alguém disse:

— Ele m orreu? Alguém respondeu:

— Não, não m orreu não. Alguém m ais afirm ou:

— Ele não vai m orrer, não vai não.

Na noite, Spallner viu, por cim a dele, os rostos da m ultidão, e pôde perceber, por aquelas expressões, que não iria m orrer. De um a m aneira estranha. Viu o rosto de um hom em , m agro, efusivo, pálido, que engolia em seco e m ordia os lábios, m uito doente. E tam bém um a m ulher baixa, de cabelos ruivos, e m uito verm elho nas m açãs do rosto e nos lábios. E um m enininho sardento. E outros rostos. Um velho, com o lábio superior enrugado, um a velha com um sinal de nascença no queixo. Vieram todos... de onde? Das casas, carros, ruas laterais, do m undo im ediato, chocado, do acidente. Das ruas laterais, dos hotéis, dos bondes e, aparentem ente, do nada.

A m ultidão o olhava. Spallner olhava a m ultidão e não gostava. Em todos, pairava um grande equívoco, e ele não conseguia atinar qual. Eram bem piores que essa coisa m etálica por que havia passado há pouco.

Bateram as portas da am bulância. Pelas j anelas, viu a m ultidão olhando lá para dentro, olhando. Aquela m esm a m ultidão que sem pre chegava tão rápida, estranham ente rápida, e form ava um círculo para bisbilhotar, sondar, em basbacar, perguntar, apontar, perturbar e destruir, por m eio da curiosidade franca, a intim idade da agonia de outrem .

A am bulância partiu. Spallner prostou-se de costas e os rostos ainda continuaram a olhá-lo; ele, j á com os olhos fechados.

Em sua cabeça, as rodas do autom óvel giraram por dias a fio. Um a roda, quatro rodas, girando, girando, zum bindo, girando m ais e m ais. Mas aquilo estava errado. Havia algo de errado com aquelas rodas, com todo o acidente, com a pressa daqueles pés, com a curiosidade. Os rostos da m ultidão m isturavam -se, giravam com a rotação desenfreada das rodas.

Acordou.

O sol, num quarto de hospital, u'a m ão tom ava-lhe o pulso.

O m édico perguntou:

— Com o está se sentindo?

As rodas desapareceram . Sr. Spallner olhou em volta.

— Bem ... creio.

Procurou palavras. A respeito do acidente.

— Doutor?

— Pode falar.

— A m ultidão... foi ontem à noite?

— Já foi há dois dias. Você está aqui desde quinta-feira. Mas você está bem . Está reagindo bem . Não se levante para testar.

— A m ultidão. E rodas tam bém . É com um as pessoas ficarem m eio... fora de si, depois de um acidente desses?

— Às vezes, tem porariam ente. Deitado, Spallner olha o m édico.

— E afeta a noção de tem po?

— O pânico às vezes afeta.

— Faz um m inuto parecer um a hora, ou, quem sabe, um a hora parecer um m inuto?

— Faz.

— Então, vou contar-lhe algo.

Debaixo do corpo, Spallner sentiu a cam a; no rosto, a luz do sol.

— O senhor vai pensar que eu sou m aluco. Sei que estava dirigindo depressa. Agora m e arrependo. Subi no m eio-fio e acertei o m uro. Eu m e m achuquei, fiquei paralisado, m as ainda m e lem bro. Principalm ente... da m ultidão.

Fez um a pausa. Depois, decidiu continuar, pois, de repente, percebeu o que o incom odava.

— A m ultidão chegou m uito depressa. Trinta segundos depois da batida, as pessoas j á estavam lá, debruçadas por cim a de m im , olhando... Não m e parece verossím il que tenham chegado tão rápido assim , àquela hora da noite...

— É que o senhor pensa que haviam passado apenas uns trinta segundos, quando, na verdade, foram três ou quatro m inutos. Os seus sentidos...

— Sei, claro... os m eus sentidos... o acidente. Mas eu estava consciente! E m e lem bro de um a coisa, que resum e as coisas, e dá a tudo um tom de estranheza, de m uita estranheza. As rodas do carro, de cabeça para baixo. As rodas ainda estavam girando quando a m ultidão chegou ao local.

O m édico sorria.

O hom em deitado prosseguiu.

— Eu tenho certeza! As rodas ainda giravam , e rápidas... as rodas da frente! As rodas não giram por tanto tem po assim , a fricção as desacelera. E elas estavam girando de verdade!

— O senhor deve estar um pouco confuso.

— Não estou confuso não. A rua estava vazia. Nenhum a alm a à vista. Em seguida, o acidente, as rodas ainda girando e aqueles rostos todos em cim a de m im , rapidam ente, sem defasagem de tem po. E, pela m aneira com que m e olharam , percebi que não ia m orrer...

— Sim ples estado de choque!

O m édico se afastou.

Duas sem anas depois, Spallner recebeu alta do hospital. Foi de táxi para casa. Pessoas vieram visitá-lo durante as duas sem anas que passou deitado, e, a todas, contou sua história, o acidente, as rodas girando, a m ultidão. Todo riram de sua preocupação e se foram .

Inclinou-se à frente, bateu na vidraça de proteção do m otorista.

— O que é que está havendo?

O m otorista olhou para trás.

— Sinto m uito, patrão. É um a parada dirigir nessa cidade! Foi um acidente ali adiante. O senhor quer que eu saia fora?

— Quero. Não! Não! Siga em frente. Quero dar um a olhada.

O m otorista seguiu em frente, buzinando, e resm ungou:

— Que coisa estranha! Ei, seu...! Tira essa geringonça da frente.

Mais tranqüilo:

— Que coisa estranha! Mais gente ainda! Quanta gente curiosa!

O Sr. Spallner percebeu os dedos trem erem em cim a dos j oelhos.

— O senhor tam bém notou?

— Claro. É toda hora! Sem pre aj unta gente. Parece até que foi a m ãe deles quem m orreu!

O hom em sentado no banco de trás observou:

— E eles chegam tão rápido!

— É incêndio, explosão, é sem pre a m esm a coisa. Ninguém à vista. Pam ! Junta um a porção de gente. Sei lá...

— O senhor j á presenciou algum acidente à noite? O m otorista confirm ou com a cabeça.

— Claro. Tanto faz. A m ultidão está sem pre lá.

Agora j á podiam ver a batida. Um corpo caído no asfalto. Mesm o que não conseguisse vê-lo, qualquer um saberia que havia um corpo ali. Por causa do aj untam ento. Do aj untam ento que ele, ali sentado no banco de trás, podia ver pelas costas. Spallner abriu a j anela, e por pouco não com eçou a gritar. Não o fez por falta de coragem , pois, se gritasse, talvez a m ultidão se virasse.

E ele sentiu m edo de ver-lhes os rostos.

No escritório, conversou.

— Parece que eu tenho um pendor para acidentes.

Quase fim de tarde. O am igo, sentado do outro lado da escrivaninha, ouvia.

— Saí hoj e de m anhã do hospital e, no cam inho de casa, passei por um atropelam ento.

— As coisas têm seus ciclos — observou Morgan.

— Vou te contar m eu acidente.

— Já m e contaram . Já m e contaram tudo.

— Você tem que adm itir que foi estranho.

— É, foi sim . Mas... vam os tom ar um aperitivo?

Conversaram por m eia hora ou m ais. Durante toda a conversa, no fundo do cérebro de Spallner, um reloginho tiquetaqueava; o reloginho dispensava corda. Eram rem iniscências de um as certas coisinhas. Rodas, rostos.

Por volta das cinco e m eia, na rua, um ruído de m etal duro. Morgan acenou com a cabeça, olhou pela j anela, lá para baixo.

— Não falei? Ciclos. Um cam inhão e um Cadillac crem e. Claro, claro. Spallner foi até a j anela. Dem onstrava m uita frieza, consultava o relógio no pulso, o ponteiro dos segundos. Um , dois, três, quatro, cinco segundos — as pessoas corriam — oito, nove, dez, onze, doze — pessoas chegavam , correndo, de todas as direções — quinze, dezesseis, dezessete, dezoito segundos — m ais gente, m ais autom óveis, m ais buzinas. Curiosam ente alheio, Spallner contem plou aquela cena com o um a explosão invertida, os fragm entos da detonação de volta ao ponto de im pulsão. Dezenove, vinte, vinte e um segundos, e lá estava a m ultidão. Spallner lançou-lhes um gesto, sem palavras.

A m ultidão aj untara-se depressa dem ais.

Spallner vira um corpo de m ulher, instantes antes de ser engolido pela m ultidão.

— Você está abatido. Olhe, por que não term ina o aperitivo?

— Eu estou bem . Estou bem . Quero ficar sozinho. Eu estou bem . Você está vendo aquela gente lá? Você consegue identificar alguém ? Gostaria de vê-los m ais de perto.

— Ei, onde é que você vai? — gritou Morgan.

Spallner saíra porta afora, desabalado, e Morgan fora atrás, escada abaixo.

— Venha e ande depressa.

— Calm a, hom em , você não está em boas condições!

Foram até a rua. Spallner forçou passagem . Pensou ter visto um a m ulher ruiva com m uito verm elho nas m açãs do rosto e nos lábios. Rápido, voltou-se para Morgan.

— Ali! Você a viu?

— Quem ?

— Merda! Ela sum iu. A m ultidão a escondeu!

A m ultidão se espalhava por todos os lugares, respirando, em baralhando, m isturando, balbuciando e atravacando-lhe o cam inho quando tentou passar. Era evidente, a m ulher ruiva o vira e desaparecera.

Spallner viu outro rosto conhecido! Um garotinho sardento. Mas, existem tantos garotos sardentos no m undo! De qualquer m odo, foi inútil, pois, antes que Spallner o alcançasse, o garotinho fugira, desaparecera na m ultidão.

Um a voz perguntou:

— Ela m orreu? Ela m orreu?

Alguém ponderou:

— Está m orrendo. Vai m orrer antes que chegue a am bulância. Não deveriam tê-la tirado do lugar. Não deveriam ...

Todos os rostos da m ultidão — conhecidos e tão desconhecidos debruçavam -se, olhando, olhando.

— Ei, prezado, vê se não em purra!

— Pare de em purrar, com panheiro!

Spallner retirou-se; Morgan o segurou antes que caísse, e cham ou-o às falas:

— Você é m esm o teim oso. Você ainda está doente. O que é que tinha que vir fazer aqui na rua?

— Não sei... não sei m esm o. Eles tiraram o corpo dela do lugar, Morgan, e isso não se faz com um acidentado. É m orte certa. É m orte certa.

— Pois é, m as as pessoas são assim m esm o. Um bando de im becis.

Com cuidado, Spallner organizava os recortes de j ornais. Morgan passava os olhos.

— Para que isso? Agora, depois do seu acidente, você pensa que qualquer tum ulto no trânsito faz parte de você! Que recortes são esses?

— Recortes de desastres de autom óveis e fotos. Dê um a olhada. Nos carros não. Na m ultidão em volta.

Spallner apontava.

— Olhe. Com pare essa foto de um desastre no Distrito de Wilshire com essa outra de Westwood. Não existe sem elhança algum a. Mas, agora, pegue essa foto de Westwood e coloque ao lado dessa outra, tam bém do Distrito de Westwood, dez anos atrás.

Spallner apontou novam ente.

— Esta m ulher está nas duas fotografias.

Coincidência, a m ulher estava lá em 1936, e novam ente em 1946.

— Vá lá. Um a vez, pode ser coincidência. Mas doze vezes num período de dez anos, em acidentes que ocorreram a uns cinco quilôm etros de distância uns dos outros, não é não. Olhe aqui.

Spallner estendeu doze fotografias.

— Ela está em todas.

— Ora, talvez sej a um a pervertida!

— É m ais do que isso! Com o é que ela consegue chegar tão rápido ao local do acidente? E com o é possível estar com a m esm a roupa nessas fotografias tiradas num período de um a década?

— Não é que você tem razão!

— E, para encerrar, por que ela estava lá, em pé, debruçada em cim a de m im , na noite do m eu acidente, há duas sem anas?

Foram tom ar um aperitivo. Morgan passou os olhos na coleção.

— O que é que você fez? Contratou um a firm a de pesquisa de j ornais, enquanto esteve no hospital, para que colecionassem os recortes para você?

Spallner confirm ou com a cabeça. Morgan tom ou um gole do aperitivo. Ficava tarde. As luzes j á se acendiam na rua lá em baixo.

— E isso tudo leva a quê?

— Não sei. Só sei que existe um a lei universal a respeito dos acidentes: as m ultidões. Sem pre aj unta gente. E assim com o você, com o eu, as pessoas ficam a im aginar, por anos a fio, na tentativa de descobrir com o a m ultidão consegue reunir-se tão rapidam ente. E por quê? Eu sei a resposta. Ei-la.

Spallner j ogou os recortes sobre a m esa.

— Isso até m e assusta.

— Essas pessoas, Spallner... não seriam caçadores de em oções, sensacionalistas pervertidos cuj o desej o carnal se volta para o sangue, para a m orbidez?

Spallner encolheu os om bros.

— E isso explicaria o fato de estarem em todos os acidentes? Repare. Elas se atem a certos territórios. Um acidente em Brentwood desentoca um determ inado grupo. Em Huntington Park, outro grupo. Mas há um padrão, no que diz respeito aos rostos; um a certa percentagem aparece em todos os acidentes.

— Os rostos não são sem pre os m esm os, não é verdade?

— Claro que não. Acidentes costum am atrair pessoas norm ais tam bém , no curso do tem po. Mas esses aqui, eu estou vendo, são sem pre os prim eiros a chegar.

— Quem são? O que querem ? Você faz as insinuações, m as não diz nada. Meu Deus, eu sei que você está com algum a idéia na cabeça. Você j á se assustou, e agora quem está aflito sou eu.

— Eu j á tentei abordá-los, m as alguém sem pre atravessa no m eu cam inho, e eu sem pre chego tarde. Eles se esgueiram pela m ultidão e desaparecem . Parece que a m ultidão oferece proteção a alguns de seus m em bros. Sem pre m e vêem chegar.

— Isso está m e cheirando a um a espécie de bando.

— Um a coisa eles têm em com um . Sem pre aparecem j untos. Em incêndios, explosões, na periferia das guerras, em qualquer dem onstração pública dessa coisa cham ada m orte. Abutres, hienas, santos? Sim plesm ente não sei. Mas eu vou levar isso à polícia hoj e à noite. Isso j á foi longe dem ais. Hoje, um deles m exeu no corpo daquela m ulher. Não deveriam ter tocado nela. Foi por isso que ela m orreu.

Spallner guardou os recortes na pasta. Morgan levantou-se e deslizou paletó adentro. Spallner fechou a pasta.

— Ou então... estou pensando...

— O que é?

—... que talvez eles quisessem que ela m orresse.

— Por quê?

— Sei lá. Quer ir com igo?

— Não vai dar. Já está tarde. Nos vem os am anhã. Boa sorte.

Os dois saíram j untos.

— Dê lem branças aos tiras. Você acha m esm o que eles vão acreditar em você?

— Claro, ora se vão! Até am anhã!

Rum o ao centro da cidade, Spallner dirigiu devagar. Disse para si m esm o:

— Quero chegar vivo!

Spallner chocou-se, m as, nem por isso, surpreendeu-se, quando, saindo de um a rua lateral, um cam inhão veio diretam ente de encontro a ele. Foi no exato m om ento em que ele se parabenizava por possuir um senso de observação tão aguçado, e em que ensaiava, na cabeça, o que iria dizer ao policial, que o cam inhão espatifou-se contra seu carro. Bem , o carro não era exatam ente seu, e esse foi o aspecto desanim ador da coisa. Com a preocupação a rondar-lhe o espírito, foi atirado prim eiro para um lado, depois para o outro, e, enquanto isso, pensava: que pena, Morgan foi para casa, e deixou com igo seu segundo carro, por alguns dias, até que o m eu fosse consertado, e aqui estou eu de novo. O pára-brisa bateu-lhe no rosto. Spallner foi j ogado para trás, para a frente, em diversas sacudidelas-relâm pagos. Depois, todo o m ovim ento aquietou, todo ruído, e apenas a dor o preencheu.

Ouviu passos correrem , correrem . De m al j eito, tateou a porta. A porta estalou. Spallner caiu ao solo, m eio desacordado, e ali ficou com o ouvido colado ao asfalto, a ouvi-los se aproxim ar. Com o se fossem um a tem pestade, com m uitos pingos, pesados, leves, m édios, a tocarem o chão. Esperou alguns segundos, ouviu-lhes a aproxim ação, a chegada. Depois, fraco, na expectativa, virou a cabeça e olhou.

A m ultidão lá estava.

Spallner sentiu-lhes a respiração, os odores m istos de m uitas pessoas sugando, sugando o ar de que todo hom em necessita para viver. Aj untavam -se, acotovelavam -se, sugavam , sugavam o ar que lhe envolvia o rosto arquej ante, e ele ainda tentou dizer que recuassem , que o estavam fazendo viver num vácuo. A cabeça sangrava m uito. Tentou m over-se, e percebeu que havia algo de errado com a coluna. Na hora do im pacto, não sentira m uito, m as a coluna estava m esm o avariada. Não ousou m over-se.

Não conseguia falar. Abriu a boca, apenas engasgos saíram .

Alguém disse:

— Me aj udem aqui. Vam os virá-lo, levantá-lo e colocá-lo num a posição m ais confortável.

A cabeça de Spallner pareceu estilhaçar.

Não, não toquem em m im ! Casual, a voz insistiu:

— Vam os tirá-lo daqui!

Seus im becis, vocês vão m e m atar. Não façam isso!

Nada do que disse fora audível. Dissera-o apenas no pensam ento.

Mãos o seguraram . Com eçaram a levantá-lo. Ele soltou um grito e a ânsia de vôm ito o asfixiou. Aprum aram -no, deitado, num m onturo de agonia. Dois hom ens o fizeram . Um era m agro, efusivo, pálido, atento, um j ovem . O outro, m uito velho, tinha o lábio superior enrugado.

Spallner j á vira aqueles rostos antes.

Um a voz, conhecida, perguntou:

— Ele m orreu?

Outra voz, um a voz m em orável, respondeu:

— Não, ainda não. Mas vai m orrer antes que chegue a am bulância.

Um ardil tolo, louco. Com o qualquer acidente. Spallner soltou um grito histérico, para aquela parede de rostos sólida. Estavam todos ao redor, esses j uizes, j urados, com rostos que j á vira antes. Contou-os, na dor.

O garoto sardento, o velho com o lábio superior enrugado.

A m ulher ruiva, de m açãs do rosto verm elhas. Um a velha com um sinal de nascença no queixo.

Sei por que vocês estão aqui, pensou. Estão aqui porque vocês estão em todos os acidentes. Para se certificarem de que as pessoas certas irão viver, e de que as pessoas certas irão m orrer. Foi por isso que m e levantaram . Sabiam que isso iria m e m atar. Sabiam que, se não m e tocassem , eu iria viver.

E tem sido assim desde os prim órdios do tem po, quando as m ultidões se encontram . É um m eio m ais fácil de assassinar. O álibi é m uito sim ples: vocês sim plesm ente não sabiam que não se deve m over o corpo de um acidentado. Não foi de propósito que o prej udicaram .

Spallner olhou para eles, ali em cim a, e sentiu a curiosidade de quem está debaixo d'água, bem no fundo, e olha as pessoas num a ponte. Quem são vocês? De onde vêm , e com o conseguem chegar tão depressa? Vocês são a m ultidão, que sem pre atravanca a passagem , que consom e o ar sadio de que carecem os pulm ões de um m oribundo, que tom am o espaço em que ele deveria perm anecer só, deitado, que espezinham as pessoas para terem certeza de que elas irão m orrer. Vocês são isso m esm o. Conheço-os bem .

Foi um m onólogo cortês. Eles nada disseram . Rostos. O velho. A m ulher ruiva.

Alguém pegou a pasta de Spallner.

— De quem é?

É m inha! E está cheia de provas contra vocês todos!

Olhos entrecuzaram -se por cim a dele. Olhos brilhantes, debaixo de cabelos desalinhados, ou de chapéus.

Rostos.

Em algum canto... um a sirene. A am bulância chegava.

Ao olhar aqueles rostos, porém , a construção, o olhar, o form ato, Spallner percebeu que era tarde dem ais. Pôde lê-lo naqueles rostos. Eles sabiam .

Spallner tentou falar. Pronunciou algo, m uito pouco.

— Parece... que... em breve... estarei com vocês. Acho que... daqui por diante... farei parte... deste grupo.

Cerrou os olhos e esperou pelo investigador.