O País de Outubro
A Caixinha de Surpresa
Edwin olhava pelas j anelas; m anhã fria. Nas m ãos, a caixinha de surpresa; os olhos fixos na tam pa enferruj ada. Que se debatesse o bonequinho, à vontade, pois nem com um grito conseguiria saltar para a luz, nem espraiar ao ar as luvinhas de veludo, nem balançar em tantas direções com seu sopro espantado, pintado. Com prim ido pela tam pa, na j aula, socado, apertado, dobra por dobra. Coloque o ouvido j unto à caixa, e sentirá a pressão, o m edo, o pânico do brinquedinho encurralado. É o m esm o que segurar, na m ão, um coração. Edwin não conseguia dizer se o que pulsava era a caixa, ou a batida de deu próprio sangue colado na tam pa.
Atirou a caixa no chão, olhou pela j anela. Ali fora, árvores circundavam a casa; a casa circundava Edwin. Im possível enxergar além das árvores. Se tentasse vislum brar outro Mundo por trás delas, as árvores form ariam , com o vento, um tecido encorpado, para interrom per-lhe a curiosidade, para interceptar-lhe os olhos.
— Edwin!
Atrás dele, a Mãe, à espera, a respiração nervosa, tom a o café da m anhã.
— Pare de ficar olhando. Venha tom ar café.
— Não — sussurrou Edwin.
— O quê?
Um m ovim ento enérgico, rígido. Talvez tenha até m esm o se virado.
— O que é m ais im portante? O café ou a j anela?
— A j anela...
Edwin respondeu, com um sussurro, e lançou o olhar, rápido, por aqueles cam inhos, aquelas trilhas que, há treze anos, vinha experim entando. Seria verdade que o arvoredo se estendia por quinze m il quilôm etros e ia dar no infinito? Ele não sabia. A vista, derrotada, com as m ãos trêm ulas na vidraça, recuou para o gram ado, para a escadaria.
Foi com er os abricós sensabores, só, com a m ãe, na sala de chá, am pla, acústica. Cinco m il m anhãs nessa m esa, nessa j anela, e, além das árvores, nenhum m ovim ento.
Silentes, os dois, tom aram o café da m anhã.
Ela era a m ulher pálida que os pássaros, e apenas os pássaros, costum avam ver em velhas casas de cam po, em j anelas com cúpulas, nos andares m ais altos, todas as m anhãs, às seis, todas tardes, às quatro, e um m inuto depois da m eia-noite, se passassem por ali, lá estaria ela, na torre, silente, alva, altaneira, só, calm a. Era com o passar por um a estufa abandonada, e a derradeira flor silvestre, branca, oferecesse sua copa ao luar.
E o filho, Edwin, era um cardo desentocado por um a lutada de vento, na estação dos cardos. Tinha os cabelos sedosos, e os olhos eram de um azul constante, de tem peratura cálida. A expressão, assom brada, com o de quem dorm e pouco. Desm anchável com o um pacote de estrelinhas de artifício, feitas de pão-de-ló, com o bater de um a certa porta.
A m ãe com eçou a falar, lenta, com m uita cautela; depois, acelerou, enfureceu, e, por fim , quase cuspindo.
— Por que você m e desobedece todas as m anhãs? Não gosto que você fique olhando pela j anela, ouviu bem ? O que é que você quer? Quer ver as Feras?
A m ãe gritava, esfregava os dedos. Era adorável, de um a luz intensa, qual um a flor branca, zangada.
— Você quer ver essas Feras que andam pelos cam inhos a esm agar pessoas com o se elas fossem m orangos?
Queria sim , pensou Edwin, eu gostaria de ver as Feras, por m ais horrendas que fossem .
— Você quer ir até lá, com o seu pai fez antes de você nascer, e m orrer com o ele, abatido por um daqueles Horrores da estrada? É isso que você quer?
— Não...
— Já não basta que tenham m atado seu Pai? Não sei por que você insiste em pensar naquelas Feras?
A m ãe apontou a floresta.
— Bem , se você quer m orrer, tanto assim , vá em frente. Acalm ou-se, m as os dedos ainda abriam e fechavam , em cim a da toalha.
— Edwin, Edwin, seu Pai construiu cada pedaço desse Mundo;e era tudo tão m aravilhoso para ele, deveria sê-lo tam bém para você. Para lá daquelas árvores, não existe nada, nada, existe apenas a m orte. E eu não quero que você se aproxim e de lá. Aqui é o Mundo. Não há outro que m ereça sua preocupação.
Com a cabeça, Edwin concordou, am ofinado.
— Agora, sorria e acabe de com er sua torrada.
Edwin com eu, devagar; sorrateira, a j anela veio refletir na colher que usava, de prata.
— Mam ãe...
Edwin não conseguia falar.
—... o que é m orrer? Me diga o que é. É um a sensação?
— Para os que têm que viver depois dos outros, é um a sensação sim , e m uito ruim .
A Mãe levantou-se, de repente.
— Você j á está atrasado para o colégio! Ande depressa!
Edwin apanhou os livros, despediu-se, com um beij o.
— Até logo!
— Diga alô para a Professora!
Edwin sum iu da frente da Mãe, com o um a bala disparada de um a arm a. Subiu as escadas interm ináveis, atravessou passagens, corredores, passou por j anelas que despej avam cortinas escuras, de galerias, com o cascatas brancas. Subiu, atravessou Mundos feitos em cam adas, e, entre eles, glacês espessos de tapetes orientais; no topo, velas ilum inadas.
Na escada m ais alta, virou-se, viu quatro intervalos do Universo.
Baixadas de cozinha, sala de j antar, sala de visitas. Dois Países Interm ediários, de m úsica, j ogos de salão, quadros e aposentos trancados, proibidos. E aqui — Edwin girou — as Alturas, piqueniques, aventuras e aprendizado, por onde costum ava peram bular, vadio, ou sentar-se, e cantar cantigas infantis, solitárias, na traj etória sinuosa até o colégio.
Aqui, então, era o Universo. O Pai (ou Deus, com o a Mãe costum ava cham á-lo) erigira, há m uito tem po, suas m ontanhas de papel de parede. Era um a criação do Pai-Deus, onde as estrelas incandesciam ao m ero estalido de um interruptor. E o sol era a Mãe, a Mãe era o sol, e em torno deles balançavam os Mundos, girando. E Edwin, um m inúsculo m eteoro, escuro, girava e subia por tapetes escuros e tapeçarias cintilantes de espaço. Era possível vê-lo desaparecer em im ensas escadarias, caudas de com etas, em excursões, explorações.
Ele e a Mãe, algum as vezes, fizeram piqueniques nas Alturas, espalharam roupas brancas, alvas com o a neve, sobre os gram ados persas, salpicados com tufos verm elhos, sobre os prados rubros, num platô rarefeito, no ápice dos Mundos, onde retratos descascados, de estranhos desbotados, presenciavam as refeições, as folias dos dois, com olhos zangados. Apanhavam água nas torneiras prateadas nos nichos secretos, azulej ados, e quebravam copos nas pedras roladas, com gritos de alegria. Brincavam de esconder nos Países Superiores, encantados, em terras desconhecidas, selvagens, escondidas, e ela sem pre o ia achar enrolado, com o um a m úm ia, num a cortina de veludo, ou debaixo dos lençóis que cobriam a m obília, com o um a planta rara a proteger-se do vento, porventura. Certa vez, perdido, Edwin vagou, por horas, nos contrafortes loucos de poeira e eco, onde ganchos e cabides eram guardados em arm ários, apenas à noite. Mas a Mãe o encontrou, e o levou, choroso; passaram pelo Universo nivelador e chegaram à Sala de Visitas, onde átom os de poeira, precisos, conhecidos, caíam em chuvas de fagulhas no ar ilum inado pelo sol.
Edwin subiu um lance de escadas.
E bateu em m il, m il portas, todas trancadas, proibidas. Dam as de Picasso, cavalheiros de Dali gritavam , calados, em asilos de linhos; os olhos dourados fuzilaram ao m andriar de Edwin.
— Essas Coisas vivem lá fora! — dissera a Mãe, apontando para as fam ílias de Picasso, de Dali.
Edwin passou correndo por elas e m ostrou a língua.
Parou de correr.
Um a das portas proibidas estava aberta.
O sol quente a atravessava, de viés; Edwin em ocionou-se.
Do lado de dentro da porta, um a escada espiral subia, enroscada, ensolarada, silenciosa.
Edwin respirou fundo. Ano após ano, experim entara aquelas portas que sem pre encontrara fechadas. E agora, o que aconteceria se escancarasse essa que via diante de si e subisse a escada? Existiria algum Monstro oculto lá em cim a?
—Olá!
A voz de Edwin elevou-se ao sol espiralado.
— Olá... — sussurrou o eco longínquo, indolente, baixinho. Edwin entrou e lançou um sussurro àquele lugar alto, ensolarado.
— Não m e faça m al, por favor. Não m e faça m al.
Subiu; e, em cada degrau, parou, à espera do castigo, com os olhos cerrados, qual um penitente. Agora, m ais rápido, aos saltos espiralados, até doerem os j oelhos, retrair-se a respiração, exalar, a cabeça ribom bar, com o um sino, e, por fim , alcançar o ápice terrível da escalada e encontrar-se num a torre aberta, banhada de sol.
O sol, um a pancada nos olhos. Nunca, nunca vira tanto sol! Edwin cam baleou, am parou-se na grade de ferro.
—É lá!
A boca aberta passeou por toda aquela extensão.
—É lá!
Correu em círculos.
—Lá!
Edwin ultrapassara a barreira das árvores soturnas. Pela prim eira vez, encontrava-se bem acim a do nível das castanheiras, dos elm os que não paravam de ventar, e, até onde pôde enxergar, tudo era gram a verde, árvore verde, faixas brancas por onde esvoaçavam os besouros, e a outra m etade do m undo era azul, infindável, o sol, perdido, descia, desaparecia num aposento de um azul-escuro inacreditável, de tão am plo. Edwin sentiu-se desfalecer, gritou, agarrou-se à sacada da torre, e viu, do outro lado do arvoredo, para lá das faixas brancas por onde esvoaçavam os besouros, coisas que pareciam dedos em pinados, m as que não eram os terrores de Dali-Picasso, eram apenas alguns lencinhos tricolores, verm elhos, azuis e brancos, a trem ularem no alto de grandes m astros alvos.
De repente, Edwin sentiu-se m al; de novo, sentia-se m al.
Virou-se e quase caiu escada abaixo, estatelado.
Fechou a porta proibida, com força, e, de costas, caiu de encontro a ela.
— Você vai ficar cego!
Edwin apertou os olhos, com as m ãos.
— Você não deveria ter olhado! Não deveria ter olhado!
Caiu de j oelhos, deitou-se no chão, retorcido, contraído, protegendo-se. Bastariam alguns m inutos, a cegueira logo viria.
Passados cinco m inutos, lá estava ele num a das j anelas com uns das Alturas, contem plando o Mundo Aj ardinado, seu velho conhecido.
Mais um a vez, viu os elm os, as nogueiras am argas, o m uro de pedras, e a floresta que, segundo ele, era, ela própria, um m uro sem fim , ocultando, do outro lado, o nada, apenas o nada, a névoa, a chuva e a noite eterna dos pesadelos. Agora, porém , um a coisa era certa, o Universo não term inava na floresta. Além dos m undos contidos na Altura, ou na Baixada, existiam outros m undos.
Edwin, m ais um a vez, experim entou a porta proibida. Fechada.
Teria m esm o entrado? Teria m esm o descoberto toda aquela im ensidão, m eio azul, m eio verde? Deus o vira? Edwin trem eu. Deus. Deus que rum ava cachim bos negros, m isteriosos, e em punhava caj ados m ágicos. Deus que, m esm o agora, poderia estar atento!
Edwin tocou o rosto frio, e m urm urou:
— Eu estou vendo, não fiquei cego! Obrigado, m uito obrigado. Eu não fiquei cego!
Às nove e m eia, com m eia hora de atraso, Edwin bateu à porta do colégio.
— Bom -dia, Professora!
A porta escancarou-se. Com um hábito de m onge, com prido, cinzento, de um tecido grosso, a Professora esperava, o capuz escondia-lhe o rosto. Usava os costum eiros óculos prateados; as m ãos, vestidas em luvas cinzentas, acenaram .
— Você está atrasado.
Atrás dela, a terra dos livros ardia em cores vivas oriundas da lareira. Os tij olos das paredes eram enciclopédias, e a lareira, era possível ficar em pé dentro dela sem ter que abaixar a cabeça. Um tronco incandescia, feérico.
A porta se fechou e reinou um silêncio aquecido. Aqui, a escrivaninha, onde Deus sentou um dia, e ele deve ter andado por este tapete, socando o cachim bo com tabaco de qualidade, e olhando, preocupado, por aquela j anela im ensa, com o vidro m anchado. A sala cheirava a Deus, a m adeira lixada, a tabaco, a couro e a m oedas de prata. Aqui, a voz da Professora cantou, harpa solene, falando de Deus, dos velhos dias, e de quando o Mundo foi sacudido por Suas determ inações, de quando, ante Sua sabedoria, trem eu, de quando, o Mundo era construído pelas m ãos de Deus, um proj eto, um a ordem , e tábuas se erguendo. Suas im pressões digitais ainda estão lá, nuns dez lápis de pontas feitas, trancados na cristaleira, com o se fossem flocos de neve, j á m eio derretidas. Que não fossem tocadas j am ais, j am ais, para que não derretessem para sem pre.
Aqui, aqui nas alturas, através do som m acio da voz ininterrupta da Professora. Edwin aprendeu o que se esperava dele e de seu corpo. Edwin deveria crescer, transform ar-se num a Presença, deveria satisfazer os odores de Deus, a voz m etálica de Deus. Deveria, um dia, aqui erguer-se, altaneiro, à luz da pálida fogueira, para execrar a poeira dos alicerces dos Mundos; teria que ser, Ele Próprio, o Deus! Que nada surgisse para im pedi-lo. Nem o céu, nem as árvores, nem as Coisas atrás das árvores.
Com o vapor, a Professora se m ovim entava na sala.
— Por que você chegou atrasado, Edwin?
— Não sei.
— Vou repetir a pergunta. Edwin, por que você chegou atrasado?
— Um a das portas proibidas estava aberta...
Edwin ouviu chiar a respiração da Professora. Viu-a deslizar e afundar-se na im ensa poltrona entalhada à m ão, tragada pela escuridão; antes de desaparecer, os óculos em anaram reflexos de luz. Lá da som bra, sentiu-lhe o olhar, a voz paralisada, e paralisada com o aquela voz que costum a ouvir, de noite: o grito da própria voz antes de acordar de algum pesadelo.
— Que porta? Onde? Ora, deveria estar trancada!
— A porta j unto ao pessoal de Dali e Picasso.
Edwin respondera em pânico. Ele e a Professora sem pre foram am igos. Estaria tudo acabado, agora? Estragara as coisas?
— Eu subia a escada. Tive que entrar! Tive que entrar! Desculpe, Professora, desculpe. Por favor, não conte nada à m inha Mãe!
Na poltrona profunda, a Professora perm anecia sentada, vaga, no capuz profundo. Os óculos sem pre em anavam reflexos, qual fagulhas, daquele poço onde costum ava divagar solitária.
— E o que foi que você viu?
— Um aposento grande, azul!
— Viu m esm o?
— E um verde tam bém , e fitas cobertas de m oscas. Mas não fiquei m uito tem po, eu j uro. Não fiquei não, j uro.
— Quarto verde, fitas, claro, fitas cobertas de m oscas.
— Claro.
A voz da Professora o entristeceu.
Edwin estendeu a m ão; procurava a m ão da Professora. Mas acabou por encontrar-lhe o colo e, ao recuar, tocou-lhe, na escuridão, o seio.
— Eu desci logo, tranquei a porta. Nunca m ais vou querer olhar! Tão baixinho, ele m al pôde ouvi-la.
— Mas agora que você j á viu, vai querer ver m ais; e, de agora em diante, vai ficar sem pre curioso
Bem devagar, o capuz m ovia-se, para a frente, para trás. E tam anha profundeza o questionou.
— Você... gostou do que viu?
— Fiquei com m edo. Era grande.
— Grande, grande é claro. Im enso, im enso é claro, Edwin. Não é com o nosso Mundo. Grande, im enso, incerto. Por que você foi fazer isso? Você sabia que estava errado!
O fogo ardia e ressecava na lareira; a Professora esperou a resposta de Edwin e, quando a resposta não veio, ela m al m oveu os lábios.
— É algum a coisa com sua Mãe, não é?
— Não sei.
— Ela está nervosa, perversa, ela bate em você, abraça m uito você, você quer tem po para você m esm o, não é? É isso, não é? Não é?
— É... é sim .
Edwin debulhou-se em soluços, espontâneo.
— Foi por isso que você correu, porque ela exige todo seu tem po, todos seus pensam entos.
Vaga, triste, aquela voz.
— Pode dizer...
As m ãos de Edwin, de tantas lágrim as, grudavam .
— É isso sim .
Edwin m ordia os dedos, o dorso das m ãos.
— É isso sim .
Era errado adm itir essas coisas, m as não fora ele quem as dissera; ela as dissera, ela as dissera, e tudo o que ele fez foi concordar, balançar a cabeça, m order os nós dos dedos, e, entre soluços, confirm ar.
A Professora tinha um m ilhão de anos. Estava cansada.
— Nós aprendem os.
Levantou-se da cadeira, foi até a escrivaninha, com um balançar suave de hábitos cinzentos, e a m ão enluvada procurou pena e papel, por m uito tem po.
— Nós aprendem os, Meu Deus, m as... com paciência e dor; m as aprendem os. Pensam os que estam os agindo corretam ente, m as, a todo instante, a todo instante, estam os destruindo o Plano...
A respiração chiava e, de repente, ela ergueu a cabeça. O capuz parecia inteiram ente vazio, tiritante.
No papel, escreveu palavras.
— Entregue à sua m ãe. Aí diz que ela precisa dar, toda tarde, duas horas para você ficar sozinho, para fuçar onde quiser. Em qualquer lugar. Menos lá fora. Escutou bem , m enino?
Edwin enxugou o rosto.
— Está bem ... m as...
— Sim ...
— Foi m entira o que m inha Mãe m e contou a respeito de lá de fora, e das Feras?
— Olhe bem para m im . Tenho sido sua am iga, nunca bati em você, com o é bem possível que sua m ãe o faça, de vez em quando. Nós dois estam os aqui para aj udá-lo a com preender, a desenvolver, para que não sej a destruído com o Deus o foi.
A Professora se levantou e, ao levantar-se, virou de tal m odo o capuz que a luz da lareira lam beu-lhe o rosto. Rápida, a luz da lareira apagou-lhe as rugas, m uitas.
Edwin tom ou fôlego. O coração sacolej ou, num ruído surdo.
— A lareira!
A Professora congelou.
— A lareira!
A lareira... o rosto da Professora! O capuz sacudiu, Edwin perdeu-o de vista, aquele rosto desapareceu no poço profundo, sum iu. Edwin, m eio perplexo.
— A senhora parece com m inha m ãe!
A Professora foi percorrer livros, rápida, e apanhou um . Num tom alto, m onótono, com o de costum e, conversou com as prateleiras.
— As m ulheres se parecem um as com as outras, você sabe disso! Não ligue! Olhe, olhe...
Entregou o livro a Edwin.
— Leia o prim eiro capítulo! Leia o diário!
Edwin apanhou o livro, m as não sentiu peso algum . A lareira estalava; brilhante, sugava-se fum eiro acim a. Entrem entes, Edwin com eçou a ler, e quando Edwin com eçou a ler, a Professora afundou-se na cadeira, instalou-se, acalm ou-se, e quanto m ais Edwin lia, tanto m ais balançava aquele capuz cinzento, serenava, e tanto m ais solenizava-se aquela face oculta, qual um badalo solenizado dentro do sino. A luz da lareira incandescia, os títulos rudes, dourados, dos livros nas prateleiras, e Edwin lia e pronunciava as palavras, pensando, na verdade, naqueles livros cuj as páginas, algum as, haviam sido recortadas com tesouras, cuj as linhas, algum as, haviam sido apagadas, e algum as pinturas arrancadas, cuj as capas de couro, algum as, estavam coladas para sem pre, e outras, qual cães loucos, am ordaçadas com cintos de bronze, para m anterem -no afastado. Pensou nisso tudo enquanto m ovia os lábios na quietude da lareira:
— No com eço, era Deus, que criou o Universo, e os Mundos dentro do Universo, os Continentes dentro dos Mundos, e as Terras dentro dos Continentes; m oldou, da própria m ente, com as próprias m ãos, a Esposa adorada, e m eu filho que, no devido tem po, seria, Ele Próprio, Deus...
Devagar, a Professora confirm ava com a cabeça. A lareira despencara, lenta, sobre os carvões dorm idos. Edwin continuou a leitura.
Corrim ão abaixo, j á sem fôlego, Edwin foi cair na Sala de Estar.
— Mam ãe, m am ãe!
A Mãe ali está, estirada num a poltrona m arrom , estofada, com o se tam bém tivesse percorrido um a distância enorm e, correndo.
— Mam ãe, m am ãe, com o você está suada!
— Ah, é m esm o?
Disse-o com o se atribuindo a Edwin a culpa pelo fato de ter de andar às pressas, de um lado para o outro, pelas redondezas.
— É, estou m esm o! Estou m esm o!
A Mãe inspirou fundo, suspirou. Depois, tom ou as m ãos de Edwin e beij ou-as. Olhava-o com firm eza, os olhos dilatados.
— Escute, escute bem . Tenho um a surpresa para você! Você sabe que dia é am anhã? Você nem vai adivinhar! É seu aniversário!
— Mas só se passaram dez m eses!
— Mas, am anhã, será! Vai nos fazer m uito bem . Sou eu que estou dizendo, e tudo o que eu digo, é correto, m eu querido.
Ela riu.
— E vam os abrir m ais um aposento secreto? Edwin estava deslum brado.
— Vam os abrir o décim o quarto aposento! No ano que vem , o décim o quinto, o décim o sexto, o décim o sétim o, e assim por diante, até você com pletar vinte e um anos, Edwin! Então, ah!, então vam os abrir as portas, essas que estão fechadas com três cadeados, que conduzem ao aposento m ais im portante de todos, e você será o Hom em da Casa, o Pai, o Regente do Universo!
—Oba!
Edwin exultou.
—Oba!
E j ogou os livros para cim a. Os livros explodiram no ar com o um a revoada de pom bos, assobiando. Edwin riu. A Mãe riu. Os risos voaram e caíram com os livros. Edwin saiu correndo, foi descer e gritar corrim ão abaixo, m ais um a vez.
Ao pé da escada, a Mãe o esperava, de braços abertos, para pegá-lo.
Deitado, na cam a enluarada, os dedos de Edwin vão bolir a Caixinha de Surpresa; porém , a tam pa continuou fechada. Pegou-a inteira nas m ãos, enceguecido, m as não olhou. Am anhã, aniversário. Por quê? Seria ele tão bonzinho assim ? Não. Então, por que seu aniversário seria antecipado? Bem , sim plesm ente porque as coisas ficam ... com o dizer? Nervosas? É isso, as coisas que habitualm ente trem eluziam à noite, com eçaram a trem eluzir de dia. Edwin viu o trem or alvo, viu o luar alastrar-se cada vez m ais no rosto da Mãe, com o neve invisível. Mas, para que aquele rosto se acalm asse novam ente, seria preciso m ais um aniversário.
Edwin conversou com o teto.
— Meus aniversários serão, a partir de agora, cada vez m ais próxim os uns dos outros. Eu sei, eu sei. Mam ãe está rindo tanto, tão alto, e os olhos dela estão esquisitos...
E a Professora? Seria convidada para a festa? Não. A Mãe e a Professora não se conheciam . "Por quê?", Edwin perguntara. "Sei lá", a Mãe respondera. "A senhora quer conhecer a Mãe, Professora?". "Qualquer dia desses", respondera com frieza, exalando um sussurro que o fizera lem brar-se das teias de aranha do corredor. "Qualquer dia desses..."
E onde passaria as noites, a Professora? Vagaria pelos cam pos m ontanhosos, secretos, bem lá no alto, perto da lua, em que os candelabros erodiam -se e ofuscavam -se com a poeira, ou divagaria lá por trás das árvores, que ficavam atrás de outras árvores, que ficavam atrás de outras tantas. Não, bastante im provável!
Edwin torceu o brinquedo nas m ãos, suadas. No ano passado, quando as coisas com eçaram a trem er, a tiritar, a Mãe não tinha tam bém antecipado seu aniversário em vários m eses? Tinha sim , se tinha.
Pense em outras coisa. Em Deus. Em Deus construindo o porão frio da m eia-noite, o sótão, cozido ao sol, e, entre os dois, todos os m ilagres. Pense na hora da m orte Dele, esm agado por algum besouro m onstruoso do lado de lá do m uro. Caram ba, os Mundos devem ter balançado m uito quando Ele se foi!
Edwin encostou a Caixinha de Surpresa no rosto. Baixinho, conversou com a tam pa.
— Olá! Olá! Olá!
Nenhum a resposta. Lá dentro, apenas a tensão rígida da m ola espiralada, com prim ida. Eu tiro você daí, Edwin pensou. Mas, você tem que esperar um pouco, um pouco. Talvez você se m achuque, m as só existe um a m aneira. Essa...
Da cam a, foi à j anela, debruçou-se bem para fora, e olhou para o cam inho de m árm ore, enluarado. Ergueu a caixinha, bem alto, sentiu o suor escorrer pelas axilas, os dedos crisparem , o braço sacudir. Soltou um grito e j ogou a caixa. No ar, a caixa deu piruetas e caiu. Dem orou, para atingir o chão de m árm ore.
Edwin debruçou-se ainda m ais, a respiração ofegante. Gritou:
— E então?
Repetiu:
— E então?
Insistiu:
— Ei, você!
E:
— Ei, você!
Dissipavam -se os ecos. A caixa lá está, nas som bras da floresta. Edwin não conseguira ver se se quebrara e abrira com a queda. Não conseguira ver se o boneco saltara, sorridente, de sua j aula oculta, e agora oscilava, ao vento, de um lado para o outro, de um lado para o outro, com os guizinhos prateados a guizarem , sutis. Edwin pôs-se a escutar. Ali na j anela, ficou, por m eia-hora, a fitar, a escutar, e, por fim , voltou para a cam a.
Manhã. Ouviam -se vozes nítidas, perto, longe, para dentro, para fora, no Mundo da Cozinha. Edwin abriu os olhos. De quem seriam as vozes? De quem seriam ? De alguns trabalhadores de Deus? Do pessoal de Dali? A Mãe os detestava. Im possível. As vozes esvaíam -se num ribom bar de m urm úrios. Silêncio. E, de m uito longe, ouviu passos correndo, correndo, cada vez m ais altos, m ais altos, e a porta do quarto escancarou-se:
— Feliz Aniversário!
Dançaram , com eram doces gelados, m orderam sorvetes de lim ão, beberam vinhos rosados, e Edwin viu seu nom e estam pado num bolo confeitado de neve; num a avalanche de som , a Mãe tirou acordes ao piano, cantou, com os lábios abertos, e, depois, girou, levou-o até os m orangos, m ais m orangos, m ais vinhos, m ais risos, que balançaram os lustres em chuva trêm ula. Em seguida, um a Chave prateada reluziu, os dois correram , foram abrir a décim a quarta porta proibida.
— Está preparado? Atenção!
A porta sussurrou, abrindo para o corredor.
—Ahhh...
Pois, para seu desapontam ento, a décim a quarta porta não passava de um arm ário em poeirado, m arrom pálido. Nele, nenhum a prom essa, e tanto prom eteram os aposentos a ele oferecidos em aniversários passados! No sexto aniversário, recebera, de presente, a sala de aula nas Alturas. No sétim o, abrira o quarto de brincar, na Baixada. O oitavo, a sala de m úsica; o nono, a cozinha m ilagrosa, ilum inada com o fogo do inferno! O décim o, o aposento em que os fonógrafos sibilavam , num exalar contínuo de fantasm as cantando à passagem de um a brisa. O décim o prim eiro, o aposento do diam ante verde, no Jardim , onde o tapete, em vez de varrido, tinha que ser aparado!
— Ora, não desanim e. Entre!
A m ãe ria, em purrava-o aposento adentro.
— Espere e verá quanta m agia! Feche a porta!
Junto à parede, apertou um botão verm elho. Edwin assustou-se.
— Não...
Pois o quarto com eçou a trem er, a funcionar, parecia abocanhá-los com m andíbulas de ferro; o quarto se m ovia, a parede do fundo deslizava.
— Depressa, querido...
A porta desapareceu, atravessou o chão, e um a parede com prida, doida, de tão vazia, deslizou qual cobra que chocalha, e fez surgir outra porta, e m ais outra, que continuaram passando ante os gritos, e Edwin agarrou-se à cintura da Mãe. Nalgum canto, o aposento gem eu, e pigarreou; o trem or cessou, o aposento pairou. Edwin fitou a porta estranha e a Mãe disse-lhe que fosse em frente, que a abrisse, agora, bem ali, bem ali. A porta estranha escancarou-se, num convite a m istérios m ais profundos. Edwin piscou.
— As Alturas! As Alturas! Com o viem os parar aqui? Onde é a Sala de Visitas, Mam ãe, onde é?
A Mãe o puxou pela m ão, porta adentro.
— Nós subim os em linha reta e voam os. Um a vez por sem ana, você irá para o colégio voando, não terá que dar toda essa volta!
Edwin não conseguia m over-se; conseguiu apenas contem plar o m istério de um a Terra que substituiu outra Terra, de um País substituído por outro País, m ais alto, m ais distante.
— Minha Mãe! Minha Mãe!
Passaram m om entos rom ânticos, duradouros, na gram a espessa do j ardim ; ali folgaram , deliciados, e sorveram enorm es colheradas de sidra de m açã, os cotovelos apoiados em alm ofadas de seda encarnada, os sapatos atirados para longe, os dedos acolchoados em dentes-de-leão, ásperos, e em trevos. Por duas vezes, a Mãe sobressaltou-se, ao ouvir, lá de trás da floresta, o rugir dos Monstros. Edwin deu-lhe um beij o no rosto.
— Está tudo bem , Mãe. Eu protej o você.
— Eu sei, m eu filho.
Porém , a Mãe continuou a fitar o trançado das árvores, com o se, a qualquer m om ento, o caos do lado de lá viesse, com um a só pancada, esm agar a floresta, im prim ir no chão a pegada do Titã, e cravá-los no pó.
Mais tarde, naquela longa tarde azul, viram um a coisa, um pássaro de crom o, passar voando pelo vão das árvores, bem alto, rugindo. Correram para a Sala de Visitas, as cabeças afundadas com o se am eaçados por um a tem pestade verde, de chuva de relâm pagos, com o se ouvissem os sons despej arem chuvas enceguecedoras, que os deixariam ensopados.
Crépito, crépito... o aniversário encardiu num nada de celofane. No pôr-do-sol, na penum bra suave, do País da Sala de Visitas, a Mãe, com as narinas desabrochadas, com os lábios criados pelo verão, inalou cham panha, e, depois, tonta, solta, arrebanhou Edwin, levou-o para seu quarto, fechou a porta.
Edwin despiu-se, num devaneio de lenta pantom im a, pensativo. Esse ano, ano que vem ? E daqui a dois anos, a três, que aposento será? E as Feras? Os Monstros? E aquela conversa de ser esm agado, de Deus ter sido assassinado? O que era ser assassinado? O que era a Morte? Um a sensação? Será que Deus gostou tanto da m orte, que não quis voltar? Então, seria a m orte um a viagem ?!
No corredor, descendo as escadas, a Mãe deixou cair a garrafa de cham panha. Edwin ouviu e sentiu frio, pois frio foi o pensam ento que lhe passou pela cabeça, foi o som produzido por ela. Se tivesse caído, se tivesse quebrado, pela m anhã os m ilhões de cacos seriam encontrados. Cristal brilhante, vinho branco, apenas isso, no soalho de parque, seria encontrado.
A m anhã chegou com o cheiro de vinhos, de uvas, de m ofo, um cheiro de frigidez som bria no quarto. Lá em baixo, o café da m anhã, provavelm ente, m anifestava-se, nesse instante, com um estalar de dedos, nas m esas de inverno.
Edwin levantou-se, foi fazer a higiene m atinal, foi se vestir, e foi esperar. Sentia-se bem . As coisas, agora, por, no m ínim o, um m ês, seriam novidades. Hoj e, com o qualquer dia, haveria o café da m anhã, o colégio, o alm oço, cantigas na sala de m úsica, um a hora ou duas de j ogos elétricos e, depois, chá nos Exteriores, na gram a lum inosa. Depois, subir de volta à escola, por um a hora e tanto, onde ele e a Professora, j untos, talvez fuçassem a biblioteca censurada, onde ele ficaria intrigado com palavras e pensam entos a respeito daquele m undo lá fora, censurado de seus olhos.
Edwin esquecera-se do bilhete da Professora. Era hora de entregá-lo.
Abriu a porta. O corredor, vazio. Nas profundezas dos Mundos, pairava um a neblina suave, num silêncio im perturbável sequer por passos; as colinas estavam quietas; as fontes de prata não pulsaram ao raiar do sol, e o corrim ão, encolhido, por causa da neblina, parecia um m onstro pré-histórico que lhe bisbilhotava o quarto. Edwin afastou-se dessa criatura e olhou, procurando a Mãe, com o um barco branco, lá em baixo, em m eio às m arés e aos vapores do am anhecer.
Não viu a Mãe, e correu, por terras silentes, cham ando:
—Mãe!
Foi encontrá-la na Sala de Visitas, caída no chão, com o vestido de festa, brilhante, verde-dourado; na m ão, um a taça de cham panha; no tapete, cacos de vidro..
Estava dorm indo, era óbvio. Edwin, então, foi sentar-se à m esa de café, m ágica. Piscou um olho para a toalha de m esa vazia e para os pratos fulgurantes. Não havia alim entos. Por toda a vida, alim entos m aravilhosos ali estiveram a esperá-lo. Menos hoj e, porém .
— Mãe, acorda! Edwin correu até a Mãe.
— Eu vou ao colégio hoj e? Cadê o café da m anhã? Acorda! Edwin subiu a escada correndo.
As Alturas estavam frias e som brias, e os sóis vitrais, esbranquiçados, j á não brilhavam do teto, nesse dia de névoa zangada. Apressado, Edwin desceu por corredores escuros, por continentes de silêncio, na penum bra. Bateu na porta do colégio. Bateu. Sozinha, a porta deslizou.
O colégio, vazio, escuro. A lareira não fazia alarde nas pedras e nem j ogava som bras no teto cheio de vigas. Não havia crépito, nem sussurro.
— Professora?
Abriu as cortinas, chicoteando-as para os lados; um j ato tênue de sol enviesou pela vidraça m anchada.
Edwin gesticulou. Ordenou que a lareira explodisse, nas pedras, com o pipoca de am êndoas. Ordenou que se abrisse e revesse! Fechou os olhos, na esperança de que a Professora surgisse. Abriu os olhos, e ficou estupefato com o que viu em cim a da escrivaninha.
Ali, bem dobrados, estavam o capuz e o hábito cinzento, sobre eles os óculos prateados, reluzentes, e um a luva cinzenta. Edwin tocou-os. A outra luva desaparecera. Em cim a da túnica, um cotoco de bastão de m aquilagem , gorduroso. Experim entou-o nas m ios, e produziu estrias escuras.
Recuou, fitou o hábito vazio da Professora, os óculos, o bastão gorduroso. A m ão foi tocar a m açaneta de um a porta que sem pre vira fechada. A porta deslizou, lenta, e escancarou. Ali dentro, um arm ário m arrom , pequeno.
— Professora!
Edwin entrou correndo, a porta fechou-se, rápida. Edwin apertou um botão verm elho. A sala afundou-se e, com ela, um a frigidez m ortal, lenta. O Mundo estava silente, quieto e frio. A Professora se fora, e a Mãe... dorm indo. A sala descia; com m andíbulas de ferro, conduzia Edwin.
Barulho de engrenagens. Um a porta deslizou e abriu. Edwin correu para fora.
— A Sala de Visitas!
Ali atrás, não havia porta, apenas um painel de carvalho, m uito alto, de onde em ergira.
Displicente, a Mãe dorm ia. Debaixo dela, dobrada, com apenas um a pontinha à m ostra no m om ento em que Edwin rolou aquele corpo deitado, a outra luva cinzenta, da Professora.
Por longo tem po, Edwin perm aneceu j unto ao corpo; nas m ãos, a luva inacreditável. Enfim , com eçou a chorar baixinho.
Disparou para as Alturas. A lareira estava fria, a sala, vazia. Esperou. A Professora não veio. Correu de volta para as Baixadas e ordenou que pratos escaldantes viessem encher a m esa! Não aconteceu nada! Ao lado da Mãe, sentou-se, conversando, im plorando, tocando-a, tão frias aquelas m ãos.
O relógio fazia tique-taque, a luz m udava no céu, a Mãe não se m ovia, ele, fam into, e a poeira, silenciosa, caía pelo ar, por todos os Mundos. Pensou na Professora; sabia que, se não estivesse nas colinas, nas m ontanhas lá de cim a, haveria apenas um lugar onde poderia estar. Ela deveria, por equívoco, ter saído para os Exteriores; deveria estar perdida, até que alguém a encontrasse. Portanto, ele deveria ir lá, cham á-la, trazê-la de volta para acordar a Mãe, pois, do contrário, a Mãe ficaria deitada para sem pre, e a poeira cairia nos im ensos espaços escuros.
Atravessou a cozinha, saiu pelos fundos e encontrou o pôr-do-sol e o troar das Feras, ao longe, para lá da orla do Mundo. Escalou o m uro do j ardim , esforçando-se para não soltar as m ãos e, nas som bras, a um a certa distância, viu, espatifada, a caixa que j ogara pela j anela. Sardas ensolaradas oscilavam na tam pa quebrada e tocavam , trem ulantes, o rosto do bonequinho, j á todo esticado do lado de fora, esparram ado, os braços em pinados, gesto eterno de liberdade. O boneco sorria, e não sorria, e o sol piscava-lhe na boca, e Edwin, hipnotizado, ali estava, por cim a dele, por entre as árvores secretas do cam inho proibido lam buzado pelos despej os oleosos das Feras. O cam inho, porém , está m udo, e o sol aqueceu Edwin, e Edwin ouviu o sopro suave do vento percorrer as árvores. Por fim , ali no m uro do j ardim , largou as m ãos.
— Professora!
Os pés escorregavam nos despej os dos anim ais; Edwin fitou, ofuscado, ao longe, o túnel inerte. Por baixo, o cam inho m oveu-se; por cim a, as árvores.
— Professora!
O andar era lento, porém firm e. Edwin virou-se. Atrás, seu Mundo, e o recém -silêncio daquele Mundo. Dim inuíra, estava pequeno! Estranho vê-lo assim , m enor do que era antes. Sem pre, para sem pre, parecia tão grande! Sentiu o coração parar. Deu um passo atrás. Em seguida, porém , tem eroso do silêncio do Mundo, virou o rosto para o cam inho da floresta, em frente.
Diante dele, tudo novidade. Odores enchiam -lhe as narinas, cores, form as estranhas, dim ensões inacreditáveis enchiam -lhe os olhos.
Se eu correr até o outro lado das árvores, pensou, m orrerei; fora a Mãe quem o dissera, afinal. Você vai m orrer! Você vai m orrer!
Mas, o que é m orrer? É um aposento novo? Um aposento azul, um aposento verde, m uito m aiores que os aposentos que j á vira! Mas, onde estaria a chave? Lá, lá adiante, um im enso portão de ferro, entreaberto, um portão de ferro bordado. Do outro lado do portão, um aposento do tam anho do céu, todo colorido de verde, com árvores, gram ados. Ahhh...! Minha Mãe! Professora!
Edwin correu, tropeçou, caiu, levantou, correu novam ente; as pernas entorpecidas haviam ficado para trás, quando ele caiu, m uitas vezes, ao descer o sopé de um a colina, j á sem trilha a guiá-lo, cam baleando, chorando, e, depois, sem cam balear, sem chorar, apenas produzindo novos sons, chegou ao im enso portão de ferro, enferruj ado, rangente. Atrás, o Universo m inguava, Edwin não quis olhar, apenas correu enquanto ressecavam e desvaneciam os antigos Mundos.
Junto ao m eio-fio, o policial olhava a rua.
— Esses garotos! Nunca conseguirem os entendê-los!
— Com o assim ? — indagou o pedestre. O policial refletiu, franziu o cenho.
— Alguns segundos atrás, passou um garotinho correndo por aqui. Estava rindo e chorando, rindo e chorando, as duas coisas ao m esm o tem po. Dava pulos no ar, no chão, e tocava tudo o que via. Postes de luz, de telefone, hidrantes, cães, pessoas. Calçadas, grades, portões, carros, vitrines envidraçadas, postes de propaganda de barbeiros. Puxa, até m e segurou, m e olhou, olhou o céu, você devia ter visto as lágrim as do m enino, devia tê-lo ouvido gritar, um bom tem po, um as coisas esquisitas.
— Que coisas? — insistiu o pedestre.
— Gritava: "Eu m orri, eu m orri, que bom que eu m orri!, eu m orri, eu m orri, que bom que eu m orri!, eu m orri, eu m orri, é bom m orrer."
O policial cocou o queixo, devagar.
— Acho que deve ser m ais um a dessas brincadeiras de criança!