O País de Outubro

Ray Bradbury · Capítulo 2 de 19

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O País de Outubro

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A caricatura de um a praça m unicipal. Nela constavam os seguintes ingredientes, fresquinhos: o coreto — um a caixinha de açúcar cândi onde hom ens explodiam m úsica às quintas e dom ingos à noite; belos bancos de cobre bronzeado, patinados de verde, todos ornados e floridos; bonitas m uretas de azulej os azuis e cor-de-rosa — azuis com o olhos de m ulher, recém -laqueados, rosas com o as m aravilhas ocultas de um a m ulher; e belas árvores, podadas à francesa, igualzinhas a caixas de chapéu. O todo, aí de sua j anela, no hotel, possui a insinuação fresca e a fantasia inacreditável que se podem esperar de um a aldeia francesa do final do século dezenove. Mas... não! Isto é o México, e esta é um a praça de um a cidadezinha colonial m exicana, com um bom Teatro Lírico Municipal (que passa film es a dois pesos o ingresso: Rasputin e a Imperatriz, O Presídio, Madame Curie, Duas Vidas, Mama Ama Papa.

Joseph veio para a varanda quente de sol, aj oelhou-se j unto à grade e apontou a pequena câm era Brownie. Atrás dele, no banheiro, a água escorria, e a voz de Marie veio de lá:

— O que é que você está fazendo aí? Joseph resm ungou:

—...um a fotografia.

Mane perguntou novam ente. Joseph acionou o obturador, levantou-se, rebobinou o carretel, arranhando.

— Tirei um a foto da praça m unicipal. Puxa, com o aquele pessoal gritou ontem à noite! Só consegui dorm ir às duas e m eia. Nós tínham os que chegar exatam ente na hora do bão-balalão do Rotary !

—Quais são seus planos para hoj e?

— Ir ver as m úm ias.

— Ahh...

Longo silêncio.

Joseph entrou, pousou a câm era, e acendeu um cigarro.

— Se você preferir, vou sozinho.

— Não — respondeu Marie, não m uito alto. — Vou com você. Mas o que eu gostaria m esm o é de não perder tem po com essas coisas. Essa cidade é tão bonitinha!

— Vem cá ver...

Com o canto dos olhos, Joseph captara um m ovim ento. Correra para a varanda, e ali perm anecera; o cigarro fum egava, esquecido nos dedos.

— Vem rápido, Marie!

— Estou m e enxugando.

— Depressa...

Joseph estava fascinado com o que via lá em baixo, na rua. Sentiu, por trás, um m ovim ento, e logo em seguida, o arom a de sabonete, de carne enxaguada, de toalha m olhada, de água de colônia recém -passada. Marie encostou-lhe nos cotovelos.

— Não se m exa — preveniu Marie. — Assim não preciso m e expor. Estou nuazinha. O que está havendo?

—Olhe.

Um a procissão passava na rua. Na frente, um hom em , com um em brulho na cabeça. Atrás dele, m ulheres em rebozos negros, m ascando cascas de laranj a, até extrair o sum o, e cuspi-las nas pedras arredondadas do calçam ento; pelos braços, crianças; à frente, hom ens. Alguns com iam cana, roendo a cam ada exterior até fazê-la partir-se e, depois, abocanhando nacos grandes até atingir a suculenta polpa e as ner-vuras caudalosas, que chupavam . Eram , ao todo, cinqüenta pessoas.

Por trás de Joseph, Marie segurou-lhe o braço.

—Joe!

Não era um em brulho com um o que o prim eiro hom em levava na cabeça e equilibrava com toda delicadeza com o se se tratasse de penas de galinha. O em brulho estava coberto de cetim prateado, de franj as e rosetas prateadas. E o hom em o levava com suavidade, com u'a m ão m arrom , enquanto a outra m ão balançava, livre.

Era um enterro, e o pequeno em brulho era um caixão. ,

Joseph lançou um olhar para a m ulher.

Marie estava da cor do leite fresco, puro. A cor rósea do banho j á se esvaíra. O coração a sugara toda para algum vácuo oculto. Marie apressou-se ao portal francês, e viu passar os itinerantes, viu-os com er as frutas, ouviu-os conversar, rir delicados. Esquecera que estava nua.

— Um bebezinho, hom em ou m ulher, passou desta para m elhor. Foi Joseph quem observou.

— Para onde... a levam ?

Nada incom um , Marie pensou, a escolha do pronom e fem inino. E j á se identificara com aquele m inúsculo fragm ento em balado qual um a espécie de fruta ainda verde. Agora, neste m om ento, seria conduzida colina acim a, sob um a escuridão opressora, um a pedra num pêssego, silenciosa, aterrorizada; do lado de fora, o toque do pai pressionava o m aterial do caixão; suave, insonoro e firm e, lá dentro.

— Para o cem itério, é claro; é para lá que a estão levando — respondeu Joseph.

Enquanto falava, o cigarro form ou um filtro de fum aça por todo aquele rosto descontraído.

— Não é para o cem itério que a levam ...

— Ora, você sabe que nestas cidadezinhas só existe um cem itério. E eles resolvem essas coisas depressa. Essa m enininha deve ter m orrido há apenas algum as horas.

— Algum as horas...

Marie virou-se, tão ridícula, tão nua, apenas a toalha segura pelas m ãos lassas, nada sedutoras. Foi até a cam a.

— Há algum as horas, estava viva, e agora... Joseph em endou:

— E agora eles a levam depressa para a colina. O clim a não é bom para os m ortos. É quente, não em balsam am . Têm que agir com m uita rapidez.

— Mas, é para aquele cem itério, aquele lugar horrível! A voz de Marie em anou, com o de um sonho.

— Ah... por causa das m úm ias. Não se preocupe com elas.

Marie sentou-se na cam a, não parou de j ogar a toalha por cim a das pernas. Estava cega com o os m am ilos m arrons de seus seios. Não via Joseph, e nem o quarto. Sabia que se Joseph estalasse os dedos, ou tossisse, não conseguiria erguer os olhos. Disse:

— Eles estavam com endo frutas no enterro... e rindo!

— É um a subida e tanto até o cem itério.

Marie estrem eceu, em m ovim ento convulsivo, com o um peixe que tenta se libertar de um anzol bem espetado. Está deitada de costas, e Joseph a olha com o quem exam ina um a escultura m al-acabada; todo crítica, todo quietude e facilidade, todo descuido. Fria, Marie pensou em quanto as m ãos de Joseph eram responsáveis pelo alargam ento, achatam ento, pela m udança de seu corpo. Esse, é claro, não era o corpo com que Joseph havia iniciado. Agora, im possível salvar. Assim com o o barro im pregnado d'água pelo escultor descuidado, im possível rem odelá-la. Para rem odelar o barro, você tem que aquecê-lo com as m ãos, para, com o calor desprendido, fazer evaporar a um idade. Mão não havia, entre eles, m ais nada daquele clim a agradável de verão. Não havia calor para cozinhar e liberar a um idade envelhecida, acum ulada, que agora fazia pender-lhe os seios e o corpo. Quando o calor se esvai, é m aravilhoso e desconcertante ver quão depressa o vaso arm azena, em suas células, água autodestrutiva.

— Não estou m e sentindo bem . Lá está ela deitada, repensando.

— Não estou m e sentindo bem .

Marie repetiu. Joseph não respondeu. Um ou dois m inutos depois, Marie levantou-se.

— Joe, não quero ficar aqui nem m ais um a noite!

— Mas... é um a cidade m aravilhosa.

— É, m as j á vim os o que havia para ver.

Levantou-se. Marie sabia o que viria a seguir. Alegria, j ovialidade, estím ulo. Tudo m uito falso e esperançoso.

— Poderíam os ir para Patzcuano. Chegam os lá num m inuto. Você nem tem que se incom odar com as m alas, eu m esm a as faço. Podem os arranj ar um quarto na Don Posada. Dizem que a cidadezinha é m uito bonita...

— Essa cidade aqui — observou Joseph — é m uito bonita.

— Lá todas as casas tem bouganvilles copadas.

— Aquilo ali — Joseph apontou para as flores na j anela — é bouganville.

—...nós iríam os pescar, você gosta de pescar — Marie retrucou, astuta, depressa. — E eu iria pescar tam bém . Aprendo, ora se aprendo! Sem pre quis aprender! E dizem que os índios tarascanos são quase todos de aspecto m ongolóide, e quase não falam espanhol, e de lá nós vam os para Paracutín, que é perto de Uruapán, e eles têm cada arca laqueada lá! Puxa, vai ser tão bom , Joe. Vou fazer as m alas. Pode ficar tranqüilo que...

— Marie...

Com um a palavra, Joseph interrom peu o traj eto de Marie até o banheiro.

— O que é?

— Pensei que você tivesse dito que não estava se sentindo bem ! ?

— Não, não disse não. Não estou não. Mas, só de pensar naqueles lugares encantadores...

— Nós ainda não vim os nem um -décim o dessa cidade — Joseph explicou com lógica. — Tem a estátua de Moreles lá na colina, quero fotografar, e um pouco de arquitetura francesa m a acim a... viaj am os quinhentos quilôm etros, estam os aqui há apenas um dia, e você j á quer se m andar para outro lugar. A noite de hoj e j á está paga...

— Ora, você pode pedir devolução. Joseph fitou Marie, com sim plicidade cortês.

— Por que você quer fugir daqui, assim ? Você não está gostando da cidade? Sorriram as m açãs alvas de Marie.

— Eu estou adorando... é tão verde! Tão bonita!

— Então, m ais um dia. Você vai gostar. E estam os conversados. Marie tentou argum entar.

— O quê? — perguntou Joseph.

— Nada não.

Marie cerrou a porta do banheiro. Atrás da porta, com estardalhaço, abriu um a caixa de rem édios. A água enchia um copo sem pé. Marie tom ava algo para o estôm ago.

Joseph veio até a porta do banheiro.

— Marie, você não está aborrecida por causa das m úm ias, está?

— Han han...

— Foi o enterro, então?

— Han...

— Porque, se você estiver com m edo, eu faço as m alas num segundo, você sabe disso, m eu bem .

Joseph esperou.

— Não, eu não estou com m edo não.

— Isso. Assim é que se fala!

 

O túm ulo estava envolto num a parede de adobe, grossa, e, nos quatro cantos, anj inhos de pedra erigiam -se em asas pedregosas, as cabeças encardidas encim adas por despej os de passarinhos, as m ãos presenteadas com am uletos de m esm a substância, os rostos inquestionavelm ente sardentos.

Sob o j ato de sol quente, uniform e, que despej ava qual rio sem profundidade, sem m aré, Joseph e Marie subiram a colina, as som bras enviesavam , desanim adas, atrás. Aj udando-se um ao outro, chegaram ao portão do cem itério, puxaram a grade espanhola, de ferro azulado, e entraram .

Passadas m uitas m anhãs desde a festa com em orativa do "El Dia de los Muertos", fitas, fiapos de tecido e adesivos reluzentes ainda encontravam -se colados, com o se fossem cabelos am alucados, às pedras erigidas, aos crucifixos entalhados à m ão, lustrados com am or, e às tum bas acim a do nível do solo, que se assem elhavam a porta-j óias feitos de m árm ore. Havia estátuas congeladas em posturas angelicais, sobre m ontes de cascalho, pedras esculpidas de m odo intrincado, da altura de um a pessoa, com anj os a transbordar braços abaixo, e tum bas tão grandes e tão ridículas com o os colchões postos a secar ao sol depois de algum acidente noturno. E, dentro dos quatro m uros do cem itério, inseridos em aberturas e vãos, estavam os caixões, cim entados, lacrados por placas de m árm ore e reboco, com nom es gravados e fotografias im pressas em latas, penduradas, retratos a peso barato dos inseridos defuntos. Com tachinhas, pregadas a dedão, nas fotografias, viam -se os adornos queridos em vida, berloques de prata, insígnias de prata, de braços, pernas, corpos, xícaras de prata, m edalhões de igrej a, de prata, pedaços de crepe verm elho e fita azul. Pintadas, em certos lugares, ripas de lata m ostravam os m ortos subindo aos céus nos braços de anj os pintados a óleo.

Ao olharem novam ente para os túm ulos, viram os resquícios da fiesta da m orte. Cotocos de vela esparram ados sobre as pedras pelos candelabros ilum inados dos festej os, orquídeas m urchas caídas qual tarântulas verm elho-púrpura esm agadas contras as pedras leitosas, algum as de aspecto horrível, sexuais, flácidas e definhadas. Em form a de laços, folhas de cactus, bam bu, j unco e ipom éias selvagens, secas. Havia coroas de gardênias e buquês de bouganville, ressequidos. Todo o chão do cem itério parecia um salão depois de um a festa enlouquecida, cuj os participantes j á se tinham ido; as m esas desalinhadas, confete, velas, fitas e sonhos profundos abandonados ao esquecim ento.

Estavam , Marie e Joseph, no cem itério quente e silencioso, por entre as pedras, entre os m uros. Lá adiante, em um a das extrem idades, um hom em zinho de bochechas salientes, a cor leitosa da infiltração espanhola, óculos de aros espessos, de casaco preto, chapéu cinza, de pano cru, calças por passar e sapatos m uito bem am arrados, percorria por entre as pedras, supervisionando um a coisa ou outra que um outro hom em , de m acacão, com um a pá, fazia em um dos túm ulos. O hom enzinho de óculos levava, debaixo do braço esquerdo, um j ornal dobrado em três; as m ãos, enfiadas nos bolsos.

— Buenos dias, señora e señor! — saudou o hom enzinho, ao perceber, por fim , Joseph e Marie, e vir vê-los.

— É aqui o lugar de las mommias? — perguntou Joseph. — Elas existem , não existem ?

— Si, as m úm ias. Elas existem , e estão aqui. Nas catacum bas.

— Por favor — pediu Joseph — ,yo quiero veo las mommias, si?

— Si, senõr.

Joseph desculpou-se:

—Me Español es mucho estúpido, es muy malo.

— Não, não, señor. O senhor fala bem . Por aqui, por favor.

O hom em cam inhou na frente, entre pedras floridas, até um a tum ba próxim a às som bras do m uro. A tum ba era grande, rasa, ao nível do cascalho, com um a porta acesa, derreada, trancada com cadeado. Depois de destrancada, a porta de m adeira, rangendo, foi atirada para o lado. Exposta um a cavidade cuj o interior circular continha degraus que se aparafusavam terra adentro.

Antes m esm o de Joseph esboçar qualquer m ovim ento, a m ulher apressou-se em colocar o pé no prim eiro degrau.

— Ei, eu vou prim eiro — disse Joseph.

— Não. Pode deixar.

Marie desceu, circulou num a espiral escura até ver a terra desaparecer à frente. Movia-se com cuidado, pois os degraus m al aj ustavam -se a pezinhos de bebê. Escureceu, Marie ouviu os passos do zelador à frente, em seus ouvidos, e houve luz de novo. Desem bocaram num corredor com prido, caiado, a seis m etros de profundidade, com a ilum inação tênue oriunda de um as poucas clarabóias góticas no teto abobadado. O corredor tinha cinqüenta m etros de com prim ento, e term inava, à esquerda, num a porta dupla, em que se fixavam vidraças de cristais, altas, e um aviso proibindo a entrada. Na outra extrem idade, à direita, havia um a arm ação enorm e, feita de travessas e pedras roladas, brancas.

— Soldados que lutaram com Pai Morelos — inform ou o zelador. Cam inharam até a im ensa pilha. Estava tudo m uito bem arrum ado, osso em cim a de osso, com o lenha, e, ao topo, um m onte de m il crânios secos.

— Crânios e ossos não m e intim idam — disse Marie. — Não têm nada de hum ano neles, nem um pouquinho. Não tenho m edo de crânios, de ossos. De algum m odo, m e lem bram insetos. A criança que cresce sem saber que tem esqueleto não vai pensar nada sobre ossos, vai? Eu sou assim . Tudo o que era hum ano j á foi raspado dessas coisas aí. De conhecido, nada sobrou que sej a horrível. Para que um a coisa sej a horrível é preciso que tenha sofrido um a m udança reconhecível. Isso aí não m udou nada. Ainda são esqueletos, com o sem pre o foram . A parte que m udou j á se foi, e não existe nada que a lem bre. Não é interessante?

Joseph concordou com a cabeça. Marie, agora, sentia-se m uito valente.

— Bem , vam os ver as m úm ias.

— Por aqui, señora.

O zelador os levou até o fundo de um corredor, do lado oposto à pilha de ossos, e assim que Joseph deu a ele um peso, o hom em destrancou as portas de cristal, proibidas, escancarou-as, e Joseph e Marie viram um corredor ainda m ais com prido, o corredor m al-ilum inado, onde estão as pessoas.

 

Do lado de dentro, as pessoas esperavam num a fila com prida, sob o teto abobadado, cinqüenta e cinco contra um a parede, à esquerda, cinqüenta e cinco contra a parede da direita, e cinco bem lá no fundo.

— Senhor Interlocutor! — conclam ou Joseph, anim ado.

Lem bravam apenas edificações prelim inares de um escultor, a estrutura de aram e, os prim eiros tendões de barro, os m úsculos e um laqueado fino de pele. Inacabados, todos os cento e quinze.

Tinham a cor do pergam inho, e a pele, com o a secar, esticada de um osso ao outro. Os corpos estavam intactos, apenas os hum ores líquidos haviam evaporado.

— O clim a — observou o zelador. — Conserva-os. Muito seco.

— Há quanto tem po j á estão aqui? — indagou Joseph.

— Alguns há um ano, alguns há cinco, señor, outros dez, outros há setenta.

Houve um constrangim ento de horror. Você com eçou com o prim eiro hom em à direita, preso, à parede, por um gancho, e am arrado com aram e, que não estava bom de se olhar; você passou à m ulher que vinha em seguida, inacreditável, e depois para um hom em horrendo, depois para um a m ulher m uito aborrecida por estar m orta e por estar num lugar destes.

— Por que estão aqui? — indagou Joseph.

— Os parentes não pagaram o aluguel das covas.

— E existe aluguel para isso?

— Si, señor. Vinte pesos por ano. Ou, se desej arem um sepultam ento perm anente, cento e setenta pesos. Mas, nosso povo, as pessoas são m uito pobres, com o o senhor deve saber, e cento e setenta pesos é o que m uitas ganham em dois anos. Portanto, trazem os m ortos para cá e os colocam na terra por um ano, e pagam os vinte pesos com a firm e intenção de pagar todo ano; m as, a cada ano que passa, depois do prim eiro ano, elas têm que com prar um burro novo, ou é um a boca nova para alim entar, ou talvez três bocas novas, e os m ortos, afinal, não sentem fom e, e os m ortos, afinal, não puxam arados; ou é um a m ulher nova, ou o teto que precisa de reparos, e os m ortos, lem brem -se disso, não podem ir para a cam a com os hom ens, e os m ortos, vocês com preendem , não podem estancar a chuva no telhado, e é por isso que elas não pagam o aluguel dos m ortos.

— E acontece o quê com eles? Você está prestando atenção, Marie?

Marie contava os corpos. Um , dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito. Perguntou, tranqüila.

— O quê?

— Você está prestando atenção?

— Acho que estou. O quê? Ah, claro. Estou prestando atenção, sim . Oito, nove, dez, onze, doze, treze.

— Bem — disse o hom enzinho. — Eu cham o um trabajante, e ele, com um a pá delicada, ao fim do prim eiro ano, cava, cava e cava. A que profundidade o senhor acha que a gente cava, señor?

— A dois m etros. É a profundidade usual.

— Ah, não. Ah, não. Nesse ponto, señor, o senhor se engana. Com o sabem os que, depois do prim eiro ano, é provável que o aluguel não sej a pago, enterram os os m ais pobres a sessenta centím etros. É m enos trabalho, com preende? Claro, devem os sem pre j ulgar de acordo com a fam ília-dona do corpo. Alguns, enterram os a noventa centím etros, algum as vezes a um m etro e vinte, outras a um m etro e m eio, ou a um m etro e oitenta, depende da riqueza da fam ília, depende de quais sej am as chances de não term os que desencavá-los no ano seguinte. E, deixe que eu diga ao señor, quando enterram os um hom em no fundo, a um m etro e oitenta, tem os m uita certeza de que vai ficar lá. Jam ais desencavam os um corpo enterrado a um m etro e oitenta, tal a precisão com que conhecem os o dinheiro do povo.

Vinte e um , vinte e dois, vinte e três. Os lábios de Marie m oviam -se com um leve sussurro.

— E os corpos desencavados são colocados aqui, contra a parede, j untam ente com os outros compañeros.

— Os parentes sabem que os corpos estão aqui?

— Si.

O hom enzinho apontou.

— Este aqui, que yo veo. É novo. Está aqui há um ano. Tanto madre y padre sabem que ele está aqui. Mas, e o dinheiro? Não têm .

— Isso não é m eio revoltante para os pais? O hom em zinho falou com convicção:

— Nem ligam .

— Você ouviu isso, Marie?

— O quê? Trinta, trinta e um , trinta e dois, trinta e três, trinta e quatro. Ouvi sim . Que eles nem ligam .

— E, se depois de algum tem po, voltarem a pagar o aluguel? — inquiriu Joseph.

— Aí, então, os corpos são re-enterrados, pelo tem po que o aluguel for pago.

— Isso parece chantagem .

O hom enzinho deu de om bros, as m ãos no bolso.

— A gente tem que viver.

— Você sabe que ninguém pode pagar cento e setenta pesos de um a só vez. E aí você os pega em vinte pesos por ano, ano após ano, por, talvez, trinta anos. Se não pagarem , você am eaça deixar a mamacita ou o nino deles em pé na catacum ba.

— A gente tem que viver.

Cinqüenta e um , cinqüenta e dois, cinqüenta e três.

No centro do corredor com prido, Marie contava; por todo lado, m ortos em pé.

Todos gritavam .

Parece que haviam saltado dos túm ulos, detonados para cim a, e, as m ãos, que haviam agarrado os tóraxes encarquilhados, e gritado, os m axilares escancarados, as línguas estiradas, as narinas dilatadas.

E, desse m odo, congeladas.

Todos tinham as bocas escancaradas. O grito era perpétuo. Estavam m ortos e sabiam disso. Em cada fibra desencapada, em cada órgão evaporado, sabiam disso.

Marie ouvia os gritos.

Dizem que os cães ouvem sons inaudíveis para o hom em , sons de tantos decibéis que, de tão m ais altos, para a audição norm al, parecem inexistentes.

O corredor pululava em gritos. Gritos despej ados de lábios abertos de horror, e, línguas secas, gritos inaudíveis, de tão altos.

Joseph aproxim ou-se de um dos corpos.

— Diga "Aaa".

Sessenta e cinco, sessenta e seis, sessenta e sete, contava Marie, dentre os gritos.

— Eis aqui um bem interessante — disse o proprietário.

Viam um a m ulher com os braços proj etados à frente do rosto, a boca escancarada, os dentes intactos, os cabelos, na cabeça, desgrenhados, com pridos e bruxuleantes. Os olhos eram dois ovinhos, de cor azul-leitosa, no crânio.

— Isso às vezes acontece. Essa m ulher, ela é cataléptica. Um dia cai, m as não está m orta, pois, lá no fundo dela, o tam borzinho do coração ainda bate, tão débil que ninguém ouve. E é enterrada no cem itério num caixão bonito e barato.

— O senhor não sabia que ela era cataléptica?

— As irm ãs sabiam . Mas, desta vez, pensaram que tivesse m orrido de vez. Enterro, nessa cidade quente, é coisa rápida.

— Ela foi enterrada poucas horas depois de "m orrer"?

— Si, a m esm a coisa. Tudo isso, o j eito que ela se encontra agora, j am ais teríam os sabido se as irm ãs dela, um ano depois, com outras coisas para com prar, não tivessem deixado de pagar o aluguel do sepultam ento. Então, escavam os calm am ente, desprendem os o caixão, içam os, e abrim os a tam pa, colocam os no chão, e olham os...

Marie fitava, esbugalhada.

Esta m ulher acordou debaixo da terra. Arranhou, esganiçou, usou os punhos para golpear a tam pa do caixão, m orreu sufocada, neste gesto, as m ãos proj etadas acim a do rosto esbugalhado, os olhos aterrados, os cabelos desgrenhados.

— Por favor, señor, repare na diferença entre as m ãos dela e as m ãos dessas outras, os dedos tranqüilos sobre a barriga, quietos com o botões de rosas. As dela? Ah, as m ãos dela estão vergadas para cim a, de m odo m uito selvagem , com o a tentar soltar a tam pa!

— Isso não poderia ter sido causado pelo rigor m ortis?

— Acredite, señor, rigor m ortis não dá pancada em tam pas. Rigor m ortis não grita assim , nem se contorce, nem luta para soltar pregos, señor, ou força as laterais em busca de ar, señor. Todas essas outras tam bém estão de boca aberta, si, pois os fluidos do em balsam ento não lhes foram inj etados, m as o grito delas é um sim ples grito dos m úsculos, señor. Esta señorita aqui, a m orte dela foi murte horrible.

Marie cam inhava, arrastando os sapatos; ia para um lado, depois para o outro. Corpos nus. As roupas, há m uito tem po, j á haviam dado o últim o suspiro. Os seios das m ulheres gordas eram am ontoados disform es de m assa ferm entada, ao sabor da poeira. Os m em bros genitais dos hom ens estavam encolhidos, orquídeas m urchas.

— Eis a dupla Careta e Bocej o — avistou Joseph.

Joseph apontava a câm era para dois hom ens que pareciam conversar, as bocas em m eio a um a frase, as m ãos enrij ecidas gesticulando a respeito de algum boato há m uito desfeito.

Acionou o obturador, avançou o film e, focou a câm era em outro corpo, acionou o obturador, avançou o film e, passou ao seguinte.

Oitenta e um , oitenta e dois, oitenta e três. Maxilares caídos, línguas esticadas qual zom baria de criança, olhos com íris am arronzadas, pálidas, em encaixes apertadíssim os. Cabelos encerados e m ordidos pela luz do sol, os fios, pontudos, qual calam os, encravados nos lábios, nas bochechas, nas pálpebras, nas sobrancelhas. Fiapos de barba nos queixos, nos tórax, nas barrigas. A carne, qual couro de tam bor, qual m anuscritos e m assa de pão trançado. As m ulheres, coisas de sebo im ensas, deform adas, derretidas pela m orte. Os cabelos loucos pareciam ninhos feitos, desfeitos, e refeitos. Os dentes, todos, todos bons, perfeitos, no m axilar. Oitenta e seis, oitenta e sete, oitenta e oito. Um apanhado dos olhos de Marie. No fundo do corredor, m ovendo-se rápidos. Contando, sem pre depressa, sem parar. Adiante! Rápido! Noventa e um , noventa e dois, noventa e três! Eis um hom em , com a barriga aberta, parece um buraco de árvore em que se j ogam , aos onze anos de idade, as cartas de am or infantis. Os olhos penetraram no buraco, pelo espaço debaixo das costelas. Marie bisbilhotou. Por dentro, o hom em parecia um j ogo de m ontar. A espinha, as placas pélvicas. O resto era tendão, m em brana, osso, olho, m axilares barbados, ouvido, narina estupefata. E um cercado nodoso, carcom ido, no um bigo, que bem poderia abrigar um a colher de pudim . Noventa e sete, noventa e oito. Nom es, lugares, datas, coisas!

— Essa m ulher m orreu em trabalho de parto.

Bonequinha fam inta, a criança prem atura pendia, am arrada com aram e, no pulso da m ãe.

— Esse aqui era soldado. Ainda veste m etade do uniform e...

Os olhos de Marie foram bater na parede do fundo, depois de um balanceio alternado, para frente, para trás, de horror em horror, de crânio em crânio, batendo de costela em costela, fitando, com fascínio hipnótico, órgãos genitais sem am or, sem polpa, hom ens transform ados em m ulher, por evaporação, m ulheres transform adas em suínos de tetas largas. O ricochete tem eroso da visão, crescendo, crescendo, tom ando im pulso em seios inchados, em bocas delirantes, de parede a parede, parede a parede, com o um a bola lançada com efeito, aprisionada em dentes incríveis, cuspidos num grito que varava o corredor e se aprisionava em garras, aloj adas entre m am as m agras, todo o coral, de pé, de m aneira invisível, cantando para que o j ogo prossiga, e prossiga, o j ogo selvagem , do recuo da visão, do eco, do vaivém da procissão inconcebível, através daquela m ontagem de horrores eretos que se encerrou, por fim , de um a vez por todas, no m om ento em que a visão foi estatelar-se no fim do corredor, com o derradeiro grito, dentre todos os que aqui estavam !

Marie virou-se e lançou a visão até o lugar onde os degraus espiralados cam inhavam para a luz do sol. A m orte é m uito talentosa. Quantas expressões e m anipulações de m ão, rosto, de corpo! Não há duas iguais. Ali estavam qual tubos nus de um im enso calíope abandonado, as bocas recortadas, transform adas em ventosas frenéticas. E, agora, a m ão im ensa da m ania descia, de um a vez só, sobre todas as chaves, e o calíope com prido gritou por sobre o grito interm inável das cem gargantas.

A câm era fez clique, Joseph avançou o film e. A câm era fez clique, Joseph avançou o film e.

Moreno, Morelos, Cantine, Góm ez, Gutiérez, Villanousul, Ureta, Licón, Navarro, Iturbi, Jorge, Filom ena, Nena, Manuel, José, Tom ás, Ram ona. Esse andava, aquele cantava, e esse tinha três m ulheres; e esse m orreu disso, o outro m orreu daquilo, o terceiro, de outra coisa, o quarto levou um tiro, o quinto foi esfaqueado, o sexto caiu m orto no chão; o sétim o bebia m uito e m orreu m orto, o oitavo m orreu apaixonado, o nono caiu do cavalo, o décim o cuspiu sangue, o décim o prim eiro, o coração parou, o décim o segundo ria m uito, o décim o terceiro era dançarino, o décim o quarto era o m ais bonito de todos, o décim o quinto tinha quinze filhos, e o décim o sexto é um dos filhos, e tam bém o décim o sétim o; o décim o oitavo era Tom ás, que tocava bem a guitarra; os três seguintes cortavam m ilho na roça, cada um com três m ulheres; o vigésim o segundo j am ais foi am ado por ninguém ; o vigésim o terceiro vendia tortillas todas batidas e preparadas no m eio-fio em frente ao Teatro Lírico, no fogão de carvão da m ulher; e o vigésim o quarto batia na m ulher; ela, agora, com m uito orgulho, peram bula pela cidade, feliz com hom ens que conheceu, e ele aqui se encontra com tam anha ingratidão, e o vigésim o quinto bebeu m uitos litros de rio com os pulm ões, foi retirado num a rede, e o vigésim o sexto era um grande pensador, e seu cérebro hoj e j az, igualzinho a um a am eixa seca, dentro do crânio.

— Eu gostaria de tirar um a foto colorida desses aqui, de saber-lhes os nom es, deles e delas, e saber com o m orreram , eles e elas. Daria um livro surpreendente, e irônico. Quanto m ais penso nisso, m ais a idéia m e sobe à cabeça. A história dessas vidas, e, depois, um a foto de cada um aqui, em pé contra a parede.

Joseph tam borilou nos tóraxes, levem ente. Em itiam sons surdos, com o se alguém batesse à porta.

Marie forçou passagem por entre os gritos pendurados, encruzilhados pelo cam inho. Cam inhou pelo m eio do corredor, com passo uniform e, não m uito devagar, não m uito rápido, rum o à escada espiralada, sem olhar para os lados. Atrás dela, a câm era fez clique.

— Cabe m ais gente aqui? — perguntou Joseph.

— Si, señor. Muito m ais.

— Eu não queria ser o próxim o da fila, o próxim o na sua lista de espera.

— Ah, claro que não, señor, ninguém quer ser o próxim o da fila.

— Existe algum a possibilidade de eu com prar um deles?

— Ah, não, não, señor. Não, não. Não, señor.

— Pago cinqüenta pesos.

— Não, não, señor, não, não, señor.

No m ercado, o que sobrou dos crânios de açúcar, da Fiesta dos Mortos, estava sendo vendido em frágeis tabuleiros. Mulheres vestindo rebozos negros, sentadas tranqüilam ente, de vez em quando trocavam um a ou outra palavra, os esqueletos de açúcar candi, os defuntos de sacarina e os crânios de açúcar, brancos, à altura dos cotovelos. Cada crânio levava no topo, um nom e em arabescos confeitados em açúcar dourado: José, Carm en, Ram ón, Tena, Guierm o, Rosa. Vendiam a preço barato. O Festival da Morte j á havia acabado. Joseph pagou um peso por dois crânios de açúcar.

Marie, ali na rua estreita, olhava, aqueles crânios açucarados, Joseph, e aquelas senhoras m orenas que colocavam os crânios na sacola.

— Na verdade, não — diz Marie.

— Por quê? — pergunta Joseph.

— Logo agora?

— Agora... depois das catacum bas? Marie concordou com a cabeça.

— Mas é gostoso.

— Parece venenoso.

— Só porque tem form a de crânio?

— Não, é que o próprio açúcar parece cru, com o é que você vai saber quem fez, se as pessoas que fizeram isso não têm disenteria?

— Marie, m eu am or, todo m undo no México tem disenteria.

— Por m im , você pode com er os dois.

— Caram ba! Coitado do Yorick. — Joseph deu um a espiada dentro da bolsa.

Os dois cam inharam por um a rua estreitada por edifícios altos, com esquadrias am arelas nas j anelas, grades cor-de-rosa, de ferro, e de onde em anava o cheiro de tamales, e o som de chafarizes perdidos estatelando em m anilhas ocultas, de passarinhos j untando-se e pipilando em gaiolas de bam bu, e de alguém tocando Chopin ao piano.

Joseph exclam ou:

— Chopin, aqui? Muito estranho, m as m uito bom . Olhou para o alto.

— Gosto daquela ponte. Segure isto.

Joseph entregou a Marie a sacola contendo o açúcar, para tirar um a fotografia da ponte verm elha, com um edifício branco em cada canto do quadro, e um hom em atravessando com um sarape no om bro.

— Ótim o! — exultou Joseph.

Enquanto cam inhavam , Marie olhava para Joseph, tirava os olhos, olhava novam ente, os lábios m exiam sem nada falarem , os olhos irrequietos, um m usculozinho do pescoço parecia um pedaço de aram e, um nervinho repuxava, na sobrancelha. Marie passou a sacola para a outra m ão. Subiu no m eio-fio, de algum m odo reclinou para trás, fez alguns gestos, disse algum a coisa para recuperar o equilíbrio e deixou cair a sacola.

Joseph curvou-se rapidam ente para tentar apanhá-la.

— Meu Deus do céu! Olha só o que você fez! É um a desastrada m esm o!

— Puxa, eu podia ter quebrado o tornozelo, eu acho.

— Eram os m elhores crânios; todos os dois am assados; eu os estava guardando para dar a uns am igos lá da nossa cidade.

— Desculpa — pediu Marie, vaga.

Joseph espiou dentro da sacola, o cenho franzido.

— Pelo am or de Deus! Merda! E se eu não encontrar outros dois iguais a estes? Não sei não, eu desisto.

O vento soprava, só os dois na rua, Joseph não parava de olhar os escom bros espatifados dentro da sacola, Marie rodeada pelas som bras da rua, o sol do outro lado da rua, ninguém m ais, o m undo distante, os dois sozinhos, a três m il quilôm etros de qualquer lugar, num a rua de um a cidade artificial, insignificante, circundada apenas por desertos e falcões em redem oinho. Na cabeceira da rua, o Teatro Lírico Municipal, um quarteirão depois erguiam -se as estátuas gregas, douradas, ensolaradas, altas; num boteco, o fonógrafo gritava Ay! MARIMBA... corazón... e toda sorte de palavras estranhas, em baralhadas e diluídas ao vento.

Joseph torceu a sacola, fechou-a, e, furioso, enfiou-a no bolso.

Os dois cam inharam para o hotel, para o alm oço das duas e m eia.

Joseph sentou-se à m esa com Marie, sorvendo, silente, com a colher m óvel, sopa de Albóndigas. Marie, por duas vezes, fez com entários exultórios sobre os painéis que via nas paredes, e Joseph lim itou-se a fitá-la, a sorver. Sobre a m esa, a sacola com os crânios açucarados...

— Señora...

Um a m ão m orena retirou os pratos de sopa, pousando um a enorm e travessa com enchiladas.

Marie olhou para o prato.

Havia dezesseis enchiladas...

Marie esticou o garfo para espetar um a ou duas, m as parou. Recolocou garfo e faca nos devidos lugares do prato. Olhou para as paredes, depois para o m arido, e para as dezesseis enchiladas.

Dezesseis. Um a a um a. Um a fila com prida, todas am ontoadas.

Marie contou as enchiladas.

Um , dois, três, quatro, cinco seis.

Joseph apanhou um a no próprio prato e com eu.

Seis, sete, oito, nove, dez, onze.

Marie pousou as m ãos nas pernas.

Doze, treze, quatorze, quinze, dezesseis. Term inou de contar.

— Não estou com fom e.

Joseph apanhou m ais um a enchilada. O interior era revestido de um papiro de tortilla de m ilho. Era fino, um dos m uitos que cortou e levou à boca, um dos que Marie m astigou por ele, com a boca da cabeça, apertando os olhos.

— O que há?

— Nada — respondeu Marie.

Restavam treze enchiladas, qual m olhos pequeninos, qual cartuchos. Joseph com eu m ais cinco.

— Não estou m e sentindo bem — diz Marie.

— Vai se sentir m elhor, se com er.

— Não.

Ao term inar, Joseph abriu a sacola e retirou um dos crânios sem idem olidos.

— Você não vai com er isso aqui, vai?

— Por que não?

Joseph levou um tablete de açúcar aos lábios; m astigou.

— Nada m au...

Refletiu sobre o sabor, e colocou para dentro m ais um a parte do crânio.

— Nada m au m esm o!

Marie pôde ver o nom e inscrito no crânio...

... Marie.

 

Foi estupendo o j eito com que Marie aj udou Joseph a fazer as m alas. Os cine-j ornais costum am m ostrar-nos pessoas em piscinas, pulando de tram polins, para, um instante depois, no m om ento em que o rolo é rebobinado, pularem de volta, num a fantasia aérea, e pousar novam ente, em segurança, no tram polim . Agora, Joseph observava, ternos e vestidos voavam para as caixas, para as m alas, os chapéus pareciam pássaros alçando vôo, rufando asas adentro de caixas redondas, de cores vivas, os sapatos, qual cam undongos, pareciam atravessar o assoalho e saltar para dentro das valises. As m alas batiam ao fechar, os fechos faziam clique, as chaves giravam .

Marie exultou.

— Pronto! Tudo arrum ado. Joe, obrigado por m e deixar fazê-lo m udar de idéia!

Marie cam inhou para a porta.

— Eu aj udo...

— Não está pesado, não.

— Mas você nunca carregou m ala na vida. Nunca. Vou cham ar um garoto.

— Bobagem ...

Marie perdera o fôlego com o peso das m alas. Do lado de fora da porta, o garoto apanhou-as.

— Señora, por favor.

— Será que você não esqueceu nada?

Joseph foi olhar debaixo das duas cam as, foi à sacada e contem plou a plaza, entrou, foi até o banheiro, olhou no arm ário e na pia. Saiu do quarto estendendo algo para Marie.

— Olha aqui. Você esqueceu o relógio.

— Puxa vida!

Marie colocou o relógio e saiu do quarto.

— Sei lá. Já está m eio tarde para irm os em bora.

— São três e m eia ainda. Só três e m eia. Joseph hesitava.

— Ah, eu sei lá!

Joseph deu a últim a olhada ao redor, saiu do quarto, fechou a porta, trancou, desceu, tilintando as chaves.

Marie fora para o carro, acom odara-se, o casaco dobrado sobre as pernas, as m ãos enluvadas dobradas dentro do casaco. Já lá fora, Joseph supervisionou a colocação da bagagem rem anescente no porta-m alas traseiro. Depois, cam inhou até a porta da frente, bateu no vidro e Marie abriu a porta para que entrasse.

— Bem , lá vam os nós!

Marie exultou, com um a risada, as faces rosadas, os olhos com um brilho frenético. Inclinava-se para a frente, com o se, com o m ovim ento, pudesse deslocar o carro colina abaixo, festivo.

— Obrigado, m eu bem , por m e deixar pegar o reem bolso da diária de hoj e. Tenho certeza que passar a noite em Guadalaj ara será m uito m elhor. Muito obrigado!

— Claro, claro.

Joseph enfiou a chave na ignição, pisou no acelerador.

Nada aconteceu.

Pisou novam ente no acelerador. Os lábios de Marie retorciam .

— Tem que esquentar um pouco. Essa noite fez m uito frio. Joseph tentou m ais um a vez. Nada.

Sobre a pernas, as m ãos de Marie aflitas.

Joseph tentou outras seis vezes. Depois, reclinou, desistindo.

— Bem ...

— Tente de novo, dessa vez vai funcionar.

— Não vai adiantar. Tem algum a coisa errada.

— Você tem que tentar m ais um a vez, ora bolas. Joseph tentou m ais um a vez.

— Vai funcionar, tenho certeza. A chave está ligada?

— Se a ignição está ligada? Claro que está.

— Não m e parece que estej a ligada.

— Está ligada sim .

Joseph torceu a chave, para prová-lo.

— Tente agora. Nada aconteceu.

— Está vendo? Não falei? Marie retrucou:

— Você não está fazendo direito; daquela vez quase pegou.

— Vai arriar a bateria, e só Deus sabe onde com prar bateria por aqui.

— Então, arria a bateria. Tenho certeza de que vai pegar da próxim a vez.

— Bem , j á que você sabe tudo, tente você m esm a. Joseph saiu do carro e convidou-a a vir para a direção.

— Vá! Tente!

Marie m ordeu os lábios, sentou-se à direção. Fez, com as m ãos, coisas dignas de um a pequena cerim ônia m ística; com m ovim entos de m ãos e corpo, tentava superar a gravidade, a fricção, e as dem ais leis naturais. Com o sapato de dedos à m ostra, acariciava o acelerador. O carro perm anecia quieto, solene. Os lábios apertados de Marie deixaram escapar um gritinho. Marie calcou fundo o acelerador e, ao puxar o afogador, um cheiro forte inundou o ar.

— Você acaba de afogar o carro. Que ótim o! Volte para o seu lugar.

Joseph pediu a três garotos que o aj udasse a em purrar. Ao com eçarem a descer a ladeira, Joseph pulou para dentro, para passar a m udança. O carro deslizava, suave, aos trancos e rateios. O rosto de Marie, ilum inado, na expectativa.

— Assim ele pega.

Nada pegou. Mudos, deslizaram até o posto de gasolina, no pé da ladeira; balançando levem ente nas pedras redondas do calçam ento, encostaram perto das bom bas.

Marie estava sentada, sem dizer nada, e quando o bom beiro deixou a casinhola para vir atendê-los, sua porta estava trancada, o vidro levantado; o bom beiro teve que dar a volta até o lado onde estava o m arido, para com eçar a perguntar.

Ao levantar-se do m otor, o m ecânico franziu o cenho para Joseph. Calm os, os dois conversaram em espanhol.

Marie desceu o vidro da j anela, escutou. Reclam ou:

— O que é que ele está dizendo?

Os dois continuaram a conversar. Marie reclam ou:

— O que é que ele está dizendo?

O m ecânico, m oreno, acenava para o m otor. Joseph concordava. Os dois conversavam .

Marie quis saber:

— O que há de errado? Joseph irritou-se.

— Espera, porra! Não posso ouvir os dois ao m esm o tem po!

O m ecânico segurava o braço de Joseph. Os dois diziam m uitas palavras.

— O que é que ele está dizendo?

— Ele disse que...

Perdeu-se, pois o m exicano levou-o até o m otor e o fez debruçar-se para constatar um a descoberta seríssim a.

— Quanto vai custar?

O grito de Marie, da j anela, envolveu as duas costas debruçadas. O m ecânico conversava com Joseph.

— Cinqüenta pesos — respondeu Joseph.

— E vai dem orar quanto tem po?

Joseph perguntou ao m ecânico. O hom em encolheu os om bros, e os dois discutiram por cinco m inutos. Marie insistiu:

— Vai dem orar quanto tem po? A discussão persistiu.

O sol se punha no céu. Por sobre as árvores altas, que m argeavam o cem itério, Marie olhou para o sol. As som bras aum entaram , aum entaram , até encontrarem o vale, até que o céu, apenas o céu, se tornasse nítido, intocável, azul.

Joseph voltou-se para Marie:

— Dois dias, talvez três.

— Dois dias? Será que ele não pode dar um j eitinho que dê para chegarm os à cidade m ais próxim a, e o resto a gente conserta lá?

Joseph perguntou ao hom em . O hom em respondeu. Joseph inform ou à m ulher.

— Não, ele tem que fazer tudo.

— Mas, por quê? Isso é estupidez, é pura estupidez, ele não tem que fazer tudo coisa nenhum a, aposto que não, diga isso a ele, Joe, se ele andar depressa ele consegue.

Os dois a ignoravam . Estavam conversando a sério novam ente.

Dessa vez foi tudo em câm era lenta. O tirar as coisas das m alas. Joseph fez a parte dele, Marie deixou suas m alas perto da porta, ainda trancadas.

— Eu não vou precisar de nada.

— Nem da cam isola?

— Não, vou dorm ir nua.

— Bem , não foi culpa m inha. Carro m iserável!

— Mais tarde a gente desce para ver com o vai indo o trabalho do m ecânico.

Marie, sentada na borda da cam a. Estavam em quarto novo. Marie recusara-se a ficar no m esm o quarto. Disse que não conseguiria suportá-lo. Quis outro quarto para ter a im pressão de que estavam em outro hotel, outra cidade. Portanto, outro quarto, com vista para a ruela, para a rede de esgotos, não m ais para a plaza, para as árvores em form a de caixa.

— Você tem que descer e supervisionar o trabalho, Joe. Senão, é capaz de durar sem anas.

Marie olhou para Joseph.

— Você deveria estar lá agora, em vez de ficar aí parado.

— Vou descer, pode deixar.

— Vou descer com você, vou com prar revista.

— Você não vai encontrar revistas am ericanas num a cidade dessas.

— Eu vou procurar, não posso não?

— Além disso, estam os com pouco dinheiro. Não quero ter de telegrafar para o banco. Dem ora m uito tem po e dá m uita aporrinhação.

— Mas, ao m enos as revistas eu posso com prar, não posso?

— Um a ou duas.

Sentada na cam a, Marie, feérica, retrucou:

— Quantas eu quiser!

— Porra, Marie, tem m il revistas lá no carro: Posts, Collier's, Mercury, Atlantic Monthlys, Barnaby, Superman! E você não leu nem m etade dos artigos.

— Mas não são novas. Não são novas, eu j á passei os olhos nelas, e depois que você passa os olhos num a coisa... não sei não.

— Por que não tenta ler em vez de passar os olhos?

Ao descerem para o térreo, a noite j á se estabelecera na plaza.

— Me dê alguns pesos.

Joseph deu a Marie alguns pesos.

— Com o é que eu peço revistas em espanhol?

— Quiero una publicación americana.

Joseph cam inhava rápido; Marie repetiu a frase, aos tropeços, e riu:

— Obrigada.

Joseph prosseguiu até a oficina m ecânica, Marie entrou na prim eira Farmácia Botica, e todas as revistas dispostas nas prateleiras eram cores estranhas, nom es estranhos. Em rápidos m ovim entos dos olhos, leu os títulos. Viu um velho atrás do balcão. Perguntou em inglês, com vergonha de tentar as palavras em espanhol:

— Vocês têm revistas am ericanas? O velho fitou-a.

— Habla inglês? — Marie perguntou.

— Não, señorita.

Marie procurou as palavras certas.

—Quiero...não.

Parou, com eçou de novo.

— Re — vis — tas americanos?

— Ah, não señorita.

As m ãos espalm aram em gesto largo, à altura da cintura. Depois, com o bocas, fecharam -se. A boca abriu e fechou. Os olhos de Marie depararam -se com um a barreira. Aqui estava ela, e aqui estavam essas pessoas, de baixa estatura, de adobe cozido, a quem nada conseguia dizer e de quem ouvia palavras incom preensíveis; aqui estava ela num a cidade incapaz de dizer-lhe palavra, e ela, incapaz de dizer-lhes palavra, senão com rubor, confusão e espanto. E a cidade estava rodeada pelo deserto e pelo tem po, a casa estava distante, distante, em outra vida.

Deu m eia-volta e sum iu.

Loj a após loj a, Marie encontrou apenas revistas cuj as capas apresentavam touradas, pessoas ensangüentadas ou padres de batinas rendadas. Mas, por fim , conseguiu com prar, com m uita exuberância, e risadas altas, três exem plares da Post, e deu ao vendedor da loj inha um a gorj eta respeitável.

Saiu dali apressada, ansiosa; as duas m ãos apertavam as Posts contra o peito. Depressa pela calçada estreita, deu um saltinho para atravessar um a vala, correu para atravessar a rua, cantou trá-lá-lá, do outro lado, saltou para alcançar a calçada, deu um a pequena corridinha adicional, sorriu um sorriso interior, m ovendo-se com rapidez, com prim indo as revistas contra o corpo, os olhos sem icerrados, respirando o carvão do ar noturno, sentindo o vento resvalar orvalho nos ouvidos.

Refletia a luz das estrelas, em núcleos dourados, nas figuras gregas, m aj estosas, em poleiradas no topo do Teatro Municipal. No escuro, nas im ediações, um hom em cam inhava com dificuldade; na cabeça, equilibrava um cesto; dentro do cesto, pães de form a.

Marie viu o hom em , a cesta equilibrada e, de repente, ficou im óvel, sem sorriso interior, tam pouco suas m ãos continuaram apertando as revistas. Marie observou o hom em cam inhar, com um a das m ãos levantadas para apoiar o cesto, quando se desequilibrava, definhando rua abaixo; as revistas escorregaram das m ãos de Marie, espalharam -se na calçada.

Marie abaixou-se para apanhá-las, rápida, correu para o hotel, e quase caiu ao subir as escadas.

No quarto, Marie estava sentada. Em cada lado, pilha de revistas; aos pés, form avam um círculo. Entretinha-se com o castelinho que construíra com pontes levadiças de palavras. A toda volta, revistas que com prara, e com prara, e passara os olhos, em dias passados, que constituíam a barricada externa, e do lado de dentro da barricada, sobre as pernas, ainda fechadas, em bora as m ãos de Marie estivessem trêm ulas com o desej o de abri-las, e ler, e ler, reler com os olhos ávidos, estavam as três revistas Post, m achucadas. Marie abriu a prim eira página. Leria página por página, linha por Unha, estava decidida. Nenhum a linha passaria despercebida, nenhum a vírgula, fixaria todo anunciozinho, toda cor. E ainda havia — Marie irradiou-se com a descoberta — nas outras revistas, nas que ali estavam j unto aos pés, anúncios e desenhos que negligenciara nas outras vezes — pequenos fragm entos de m atéria ali estavam para serem , m ais tarde, reconvocados e utilizados.

Esta noite, leria a prim eira Post; isso, esta noite leria esta prim eira Post, deliciosa. Iria devorá-la página por página e, am anhã à noite, se houver am anhã à noite, em bora talvez não haj a am anhã à noite neste lugar, pois talvez o m otor pegue, e subirão os odores da exaustão e o chiado redondo de borracha na estrada, e o passeio ao vento, na j anela, fará trem ular os cabelos — m as, vam os supor, apenas supor que HAJA um am anhã à noite neste lugar, neste quarto. Bem , então, ainda existiriam duas Posts, um a para am anhã à noite, a outra para depois de am anhã à noite. Com a língua da cabeça, disse-o com toda convicção. Virou a prim eira página.

A segunda página. Os olhos passaram por ela, m ais de um a vez, e aqueles dedos, para ela desconhecidos, escorregaram por trás da página seguinte, preparando-se para virá-la; o relógio tiquetaqueava no pulso, o tem po passou e ela, sentada, a virar páginas, a virar páginas, contem plando, ávida, as pessoas em olduradas nas fotografias, pessoas que viviam em outra terra, em outro m undo onde os letreiros de neon, com bravura, preservavam a noite com listas verm elho-rubras, e os cheiros eram cheiros caseiros, e as pessoas falavam palavras sim páticas, e aqui estava ela a virar páginas, e todas as linhas passaram na horizontal, na vertical, e as páginas escaparam -lhe pelas m ios, com o um leque. Marie j ogou a prim eira Post no châ"o, apanhou a segunda, e folheou-a em m eia hora, j ogou no chá"o, apanhou a terceira, j ogou no chão uns bons quinze m inutos depois, e percebeu-se respirando, respirando tensa e rapidam ente, no corpo, e boca afora. Levou as m ãos à nuca.

De algum lugar, soprava um a brisa.

Na nuca, os cabelos levantaram -se.

Marie os tocou com a m ão pálida de quem toca a nuca de um taraxaco.

Lá fora, na plaza, as luzes da rua balançavam , pareciam refletores m alucos ao vento. Jornais passavam pelas valas, em novelos de lã. Som bras pontilhavam , chicoteavam , debaixo das lâm padas m ovediças, para um lado e para outro, desse lado um a som bra, num instante, do outro lado a próxim a som bra, depois, não há som bra algum a, tudo é luz fria, ausência de luz, tudo é som bra fria, preto-azulada. Rangiam as lâm padas nos broches m etálicos, suspensos.

No quarto, as m ãos de Marie com eçaram a trem er. Elas as viu trem er. O corpo com eçou a trem er. Sob o im pacto brilhoso, brilhoso, da saia m ais brilhosa, m ais espalhafatosa, que encontrou para vestir especialm ente para a noite, e dentro da qual, frenética, girou e serpeou diante de um espelho do tam anho de um caixão, por baixo da saia de raion o corpo era todo aram e, tendão e em oção. Os dentes estalej avam , fundiam , estalej avam . O batom lam buzou, um lábio esm agava o outro.

Joseph bateu à porta.

Estão prontos para dorm ir. Joseph voltara com novidades, algo fora feito no carro, m as iria dem orar, voltaria am anhã.

— Mas não bata a porta!

Marie despia-se diante do espelho.

— Então não a feche.

— Vou deixar fechada. Em vez de bater, cham e.

— Qual é o problem a em bater na porta?

— O som é m eio esquisito.

— Com o assim , esquisito?

Marie não diria nada. Via-se no espelho, nua, com as m ãos pendentes, e lá estavam seus seios, quadris, e todo o corpo, que se m ovim entava, que sentia o chão debaixo dos pés, e as paredes e o ar em volta, e os seios saberiam quando m ãos os tocassem , e o estôm ago não em itiria um som oco quando tocado.

Joseph j á fora para a cam a.

— Pelo am or de Deus, não fique aí se adm irando desse j eito! O que é que você está fazendo? Que coisa é essa de colocar as m ãos no rosto? V

Joseph apagou a luz.

Marie não conseguiria dizer nada, pois não conhecia palavras que Joseph conhecia, e Joseph nada diria que ela conhecesse, e assim foi para a cam a, escorregou coberta adentro, e lá está Joseph de costas para ela, na outra cam a, idêntico a essas pessoas m orenas, tostadas, desta cidade distante, em solo lunar, e a terra verdadeira situava-se em algum lugar onde, para chegar lá, seria preciso um a viagem interplanetária. Se Joseph falasse com ela, e ela com ele, esta noite, a noite talvez fosse ótim a, fácil seria respirar e relaxar os vasos sangüíneos dos artelhos, dos pulsos, das axilas, m as, com o não houvesse palavra, a noite passou com dez m il tique-taques e dez m il enroladas de cobertor, e o travesseiro passou com o um forninho branco, aquecido, sob a bochechas, e o negror do quarto foi um cortinado contra m osquitos, tão colgado que Marie enrolou-se num a das dobras. Se ao m enos os dois trocassem um a só palavra. Mas não trocaram , e as veias não se aquietaram nos pulsos, o coração passou com o um fole soprando, sem parar, sobre um a brasa m inúscula, feita de m edo, ilum inando-a sem parar, colorindo-a de verm elho-cerej a, e de novo, pulsando, e, de novo, um a luz que se desenvolvia para o interior e que seus olhos internos contem plavam , estatelados, com um fascínio indesej ável. Os pulm ões não descansaram ; foram , ao contrário, exercitados com o se Marie tivesse acabado de se afogar, e ela própria tivesse m inistrado, em si m esm a, a respiração artificial para dar prosseguim ento à últim a vida. Tudo isso lubrificado pelo calor daquele corpo brilhoso, Marie colada, de m odo irreversível, entre os cobertores, com o se estivesse com prim ida, am assada, com um arom a úm ido, entre as páginas brancas de um livro pesado.

Assim deitada, ao chegarem as horas da m eia-noite, Marie j á era criança novam ente. Deitada, neste m om ento, de novo, o coração bate em histeria ribom bante, depois, aquieta-se, com pensam entos tristes, lentos, de um a infância bronzeada, quando tudo era sol ensolarando as folhas verdes, ensolarando a água e ensolarando os cabelos louros de um a criança. Rostos fluíam num carrossel de rem iniscências, um rosto corria para encontrá-la, de frente para ela, ao fundo, à direita; outro, lá da esquerda, surgia girando, um fragm ento rápido de conversa interrom pida, que se perde à direita. Girando, girando. Puxa, que noite longa. Para consolar-se, pensou no carro pegando am anhã de m anhã, o som da m archa lenta, o som de potência, a estrada passando por baixo. Na escuridão, Marie sorriu de prazer. Mas, logo depois: e se o carro não pegar? Marie encolheu-se no escuro, com o papel que queim a, resseca. E todas as dobras, todos os cantos se enrascaram ; à volta, o relógio continuava, tique-taque, tique-taque, e m ais tique-taque, tique-taque, tique-taque e m ais um tique-taque, para prosseguir ressecando.

Manhã. Marie olhou para o m arido, deitado, reto, confortável, na cam a. Deixou ficar a m ão, lassa, no espaço fresco entre as duas cam as. A m ão ali passara, naquele intervalo vazio, frio, toda a noite, a certa hora, chegou a esticá-la na direção de Joseph, m as com o o espaço fosse um pouco grande dem ais, Marie não conseguiu alcançá-lo. Batera na própria m ão, e esperou que Joseph não tivesse escutado aquele m ovim ento de aproxim ação silenciosa.

E lá estava ele agora, deitado. Os olhos cerrados, leves, os cílios delicadam ente entrefechados, qual dedos engatados. A respiração tão tranqüila que m al se viam m over as costelas. Com o de costum e, a esta hora da m anhã, Joseph j á tirara o pij am a. O peito nu expunha-se a partir da cintura. O resto está encoberto. A cabeça repousa no travesseiro, o perfil pensativo.

No queixo, um fio de barba em pé.

A luz da m anhã expôs o branco dos olhos de Marie. No quarto, eram as únicas coisas em m ovim ento, em partidas e paradas lentas, delineando a anatom ia daquele hom em do outro lado.

Cada fiozinho de cabelo, no queixo e nas bochechas, perfeito. Um a m inúscula bola de luz passa pela cortina da j anela, pousa no queixo de Joseph e individualiza, com o os espetos de um cilindro de caixa de m úsica, cada um dos fiozinhos do rosto.

Nos dois lados, os pulsos exibem fiozinhos negros encaracolados, todos perfeitos, individualizados, brilhantes, cintilantes.

Os cabelos da cabeça, intactos, fio por fio preto, até a raiz. As orelhas m aravilhosam ente entalhadas. Por trás dos lábios, os dentes intactos.

Marie gritou:

— Joseph!

Gritou de novo, num a repetição de terror.

Dlon! Dlon! Dlon! O trovão do sino ressoou do outro lado da rua, na catedral azulej ada.

As pom bas alçaram um vôo branco, rodeado, de papel, pareciam revistas atiradas pela j anela! As pom bas contornaram a plaza, em espiral ascendente. Dlon, soou o sino. Fon, a buzina um táxi. Ao fundo de um a ruela, um a caixa de m úsica tocava "Cielito Lindo".

Os pingos da torneira da pia do banheiro ofuscaram tudo isso.

Joseph abriu os olhos.

A m ulher estava sentada na cam a; fitava-o.

— Pensei que... Joseph piscou.

—...Não, não...

Joseph cerrou os olhos e balançou a cabeça.

— São os sinos... Suspirou.

—...Que horas são?

— Não sei, não. Ah, sei sim , são oito horas. Joseph deitou de bruços, m urm urou:

— Ainda dá para m ais três horas de sono.

— Mas você tem que levantar!

— Não tem ninguém acordado ainda. Só com eçam a trabalhar às dez na oficina, você sabe; é im possível apressar esse povo. Agora fique quietinha, tá?

— Mas você tem que levantar!

Joseph virou de lado. A luz do sol bronzeava os fios de cabelo negros, caídos sobre o lábio superior.

— Por quê? Em nom e de Deus, por que é que eu tenho que levantar? Marie falou quase aos gritos:

— Você precisa se barbear. Joseph resm ungou.

— Quer dizer, então, que eu tenho que m e levantar e ensaboar a cara às oito da m anhã, só porque eu preciso fazer a barba?

— Bem , você está precisando fazer a barba m esm o.

— Eu só vou m e barbear no Texas.

— Você não pode sair por aí assim , parecendo um vagabundo!

— Posso... e vou. Tenho m e barbeado toda m anhã, durante trinta m anhãs infernizantes, colocado gravata e usado vinco na calça. Daqui por diante, acabaram -se as calças, as gravatas, a barba, tudo!

Foi tão forte o puxão no cobertor que, cobrindo-lhe os ouvidos, descobriu-se um a das pernas nuas.

A perna pendia na borda da cam a, branca, aquecida à luz do sol; perfeitos... os fios de cabelo negro.

Os olhos de Marie escancararam , focalizaram , e fixaram -se na perna de Joseph.

Marie levou a m ão à boca, e tapou-a, com força.

Durante o dia, Joseph entrou e saiu diversas vezes do hotel. Não se barbeou. Lá em baixo, cam inhou pelos azulej os da plaza, tão devagar que Marie, ali da j anela, pensou em atirar nele um a faísca elétrica. Lá em baixo, Joseph deu um a parada, conversou com o gerente do hotel, sob um a das árvores podadas em form a de caixa de chapéu, brincando com os sapatos nos azulej os da plaza, azul-claros. Nas árvores, olhou os pássaros e viu as estátuas do Teatro Municipal vestidas com o dourado fresco da m anhã; num a esquina, observou o tráfego, m eticulosam ente. Não havia tráfego algum ! Ficou ali de propósito, sem pressa, sem se voltar para olhar Marie. Por que não corria, não galopava rua abaixo, colina abaixo, e ia esm urrar a porta da oficina, am eaçar o m ecânico, levantá-lo pelas calças e enfiá-lo dentro do capo do carro? Não, ficou ali, assistindo a passagem daquele tráfego ridículo! Um porco m anco, um hom em de bicicleta, um Ford 1927. e três crianças sem inuas. Anda! Anda! Anda! Marie gritou calada, e quase espatifou a j anela.

Do outro lado da rua, Joseph passeava, devagar. Dobrou a esquina. Durante todo o traj eto até a oficina, parou para ver vitrines, para ler avisos, olhar fotografias, m anusear cerâm ica. Talvez parasse para tom ar um a cervej a. Claro, claro, um a cervej a!

Marie cam inhou pela plaza, tom ando sol, e saiu à procura de m ais revistas. Lim pou as unhas, lustrou-as, tom ou um banho, voltou para cam inhar na plaza, com eu m uito pouco, e voltou para o quarto para alim entar-se com as revistas.

Não se deitou. Teve m edo de se deitar. Sem pre que se deitava, entrava num a espécie de sonho, num a espécie de m odorra, em que se lhe revelava, em m elancolia im potente, toda a infância. Velhas am izades, crianças que não via, ou de quem não se lem brava, há vinte anos, enchiam -lhe a cabeça. Pensava em coisas que quis fazer e nunca fez. Nos últim os oito anos, desde que term inara a Faculdade, sem pre pensara em telefonar para Lila Holdridge, m as, por isso ou por aquilo, j am ais o fizera. Haviam sido grandes am igas! Cara Lila! Se se deitasse, pensaria nos bons livros, novos e velhos, que sem pre desej ara com prar, e, agora, talvez, não possa m ais com prar, nem ler. Marie sem pre apreciou os livros, e o cheiro dos livros. Pensou em m il coisas tristes. Sem pre, durante toda a vida, quisera ter a coleção de Oz, m as nunca a com prara. Por que não a com prou quando ainda existia vida? Seria a prim eira coisa a fazer ao chegar em Nova Iorque, com prá-la! E telefonar im ediatam ente para Lila! E ir ver Bert, Jim m y, Helen, Louise, ir até Illinois e passear pelos lugares da infância, e ver o que havia para ver por lá. Se é que iria voltar para os Estados Unidos? Dorido, dentro de Marie, o coração batia, pausava, continha-se, e batia novam ente. Caso ela voltasse...

Crítica, Marie escutava o coração.

Pam , pam , batidas surdas. Pausa. Pam , pam , batidas surdas. Pausa.

E se parasse bem agora, agora que o estava escutando?

Pronto!

Dentro de Marie, silêncio.

— Joseph!

Marie deu um salto. Agarrou os próprios seios, com o se fosse apertá-los, com o a bom beá-los para reativar o coração m udo.

O coração abriu, fechou, rateou, nervosam ente, vinte vezes em rápidas pancadas.

Marie afundou-se na cam a. E se parasse de novo, e não andasse m ais? O que iria pensar? O que faria? Morreria de m edo, isto sim . Que piada, m uito engraçada: m orrer de m edo por ouvir parar o coração. Teria de ficar escutando, teria de m antê-lo funcionando. Queria voltar para casa, ir ver Lila, com prar livros, dançar de novo, cam inhar no Central Park e... ouça...

Pam , pam , pam . Pausa.

Joseph bateu à porta. Bateu à porta, o carro ainda não estava pronto, haveria m ais um a noite; e Joseph não se barbeara, perfeitos os fiozinhos de barba no queixo, as loj as de revistas estavam fechadas, e não havia m ais revistas, os dois fizeram a ceia, um pouco dem ais para Marie, de qualquer m aneira, e Joseph saiu para a noite, foi cam inhar pela cidade.

De novo, Marie sentou-se na cadeira; os cabelos eriçaram , lentos, com o se o pescoço estivesse im antado. Marie, m uito fraca, não conseguia levantar-se da cadeira, não possuía corpo, era apenas um a batida de coração, um a pulsação im ensa, de calor e dor, entre as quatro paredes do quarto. Os olhos quentes e prenhes, esticados com o feto do pânico dentro dos lábios protuberantes, retesados.

Bem lá no fundo, sentiu soltar-se, pequeno, o prim eiro dente da engrenagem . Mais um a noite, m ais um a noite, m ais um a noite, pensava. Ainda m ais longa que a de ontem . Soltou-se o prim eiro dente, o pêndulo m anquej ou. Seguiram -se o segundo e o terceiro, engatados. Os dentes da engrenagem apoiavam -se uns nos outros, o pequenino, num ligeiram ente m aior, o ligeiram ente m aior, num m aiorzinho, o m aiorzinho, num grande, o grande, num m uito grande, o m uito grande, num enorm e, o enorm e, num colossal...

Um gânglio verm elho, do tam anho de um filam ento escarlate, estalou; palpitou; um nervo, do tam anho de um a fibra de linho, verm elha, retorceu. Bem no fundo, um pequenino m ecanism o se fora, e toda a engrenagem , desequilibrada, estava prestes a despedaçar-se em frangalhos.

Marie não ofereceu resistência. Deixou que tudo trepidasse, a aterrorizasse, que sacudisse o suor do cenho, sacudisse toda a coluna, que lhe inundasse a boca com o um vinho horrível. Era com o se um giroscópio quebrado se inclinasse ora para um lado, ora para outro, e, dentro dela, vagasse sem rum o, trem esse, gem endo. A cor esvaiu-se-lhe do rosto, com o a luz que em ana de um a lâm pada recém -apagada, com o faces de cristal do bulbo exibindo veias e filam entos descorados...

Joseph estava no quarto; Joseph chegara, e Marie nem o ouvira entrar. Estava no quarto, m as não fazia diferença algum a; a chegada nada m udara. Joseph aprontava-se para dorm ir; andando pelo quarto, não disse palavra; Marie não disse nada, apenas deixou-se cair na cam a, enquanto Joseph andava, de um lado para o outro, num espaço — exterior a Marie — cheio de fum aça; quando Joseph falou, Marie j á não ouviu.

Marie m arcou o tem po. A cada cinco m inutos, olhava o relógio, e o relógio trem ia, o tem po trem ia, os cinco dedos desdobravam -se em quinze e reagrupavam -se em cinco. O trem or não parava. Marie pediu água. Na cam a, de um lado para outro, sem parar. Lá fora, o vento soprava, fazendo em pinar as luzes, derram ando chispas de ilum inação que iam atingir os edifícios soprados por raj adas de vento ao longo das fachadas, fazendo rutilar as j anelas, qual olhos estatelados, e fechar rapidam ente no exato m om ento em que a luz m udava de direção. Lá em baixo, tudo quieto depois do j antar, de lá não ouviam som algum . Joseph estendeu a Marie a j arra d'água.

Marie afundou-se nas dobras da coberta.

— Estou com frio, Joseph.

— Está tudo bem .

— Não, não está não. Eu não estou bem . Estou com m edo.

— Não há nada a tem er.

— Quero pegar o trem e ir em bora para os Estados Unidos.

— Há um trem em León, m as aqui não. Joseph acendeu outro cigarro.

— Vam os de táxi.

— Nesses táxis? Com esses m otoristas? E deixar nosso carro aqui?

— É. Eu quero ir em bora.

— De m anhã você estará m elhor.

— Não, não vou m elhorar não, eu sei. Não estou m e sentindo bem .

—Vai custar uns trezentos dólares para m andar entregar o carro em casa!

— Não tem im portância! Eu tenho duzentos dólares no banco. Eu pago... m as, por favor, vam os em bora!

— Am anhã você m elhora, com o sol. Isso é só porque o sol j á se pôs.

— É, o sol j á se pôs, e está ventando...

Marie falou, num m urm úrio, cerrou os olhos e virou a cabeça, para escutar.

—... um vento solitário. O México é um a terra estranha. Toda essa m ata, esses desertos, esses longos descam pados, de repente, um a cidadezinha, com o esta, com algum as luzinhas acesas, que a gente pode fazer desaparecer com um estalar dos dedos...

— É um a terra m uito vasta.

— Será que essas pessoas nunca se sentem solitárias?

— Já estão acostum adas.

— E m edo, será que não sentem ?

— Para isso eles têm a religião.

— Eu queria ter um a religião.

— No m om ento em que você passa a ter religião, você pára de pensar. Se você acreditar m uito num a coisa, não terá m ais espaço para novas idéias.

Marie estava enfraquecida.

— Hoj e, tudo o que eu queria era não ter m ais espaço para novas idéias, queria parar de pensar, queria acreditar em algum a coisa, para não ter tem po para sentir m edo.

— Você não está com m edo... Marie o ignorou.

— Se eu tivesse um a religião, teria um a alavanca com que m e levantar. Mas, com o não tenho alavanca, não sei o que fazer para m e levantar.

Joseph falou sozinho. Sentou-se.

— Pelo am or de Deus!

— Eu tinha um a religião...

— Batista?

— Não, isso foi aos doze anos; superei. Foi depois.

— Você nunca m e contou.

— Você deveria saber.

— Qual foi a religião? Santos de gesso na sacristia? Algum santo especial a quem você gostava de contar suas peripécias?

— E ele correspondia às suas preces?

— Durante um certo tem po, sim . Depois, não; nunca. Nunca m ais. Há anos. Mas eu continuo rezando.

— Qual é o santo?

— São Joseph.

Joseph levantou-se, com o j arro de vidro, serviu-se de um copo d'água; a água corrente ressoou no quarto.

— Meu nom e!

— Coincidência...

Por instantes, os dois entreolharam -se.

Joseph afastou os olhos. Bebeu toda a água do copo.

— Santos de gesso.

Um m inuto depois;

— Joseph?

— O que é?

— Segure na m inha m ão.

Joseph suspirou, exclam ou:

— Ah, as m ulheres!

Joseph foi até Marie e segurou-lhe a m ão. Um instante, Marie retirou a m ão, escondeu-a debaixo do cobertor, deixando vazia a m ão de Joseph. Com os olhos cerrados, as palavras trêm ulas, Marie pronunciou:

— Pode deixar. Não está tão bom quanto eu o havia im aginado. É m uito bom o j eito que eu im agino você pegando na m inha m ão.

— Ó deuses, m e acudam !

Joseph foi ao banheiro. Marie apagou a luz. Exposta, apenas, a estreita fresta de luz debaixo da porta do banheiro. Marie escutava o coração. O coração batia cento e cinqüenta vezes por m inuto, constante, e o trem orzinho queixoso ainda se fazia sentir no interior do tutano, com o se, dentro de cada osso, um a varej eira azul estivesse presa, serelepe, zunindo, sacudindo, tiritando m uito, m uito, m uito. Os olhos de Marie voltaram -se para si própria, para observarem seu coração secreto sacolej ar e despedaçar contra o lado do peito.

A água escorria no banheiro. Marie ouviu Joseph escovar os dentes.

— Joseph. Vem cá.

Lá de trás da porta, Joseph respondeu:

— O que é que você quer?

— Quero que você m e prom eta um a coisa. É um favor que você m e faz... um favor.

— O que é?

— Prim eiro, abre a porta.

Joseph reclam ou, lá de trás da porta:

— O que é?

— Me prom ete... Marie parou.

Depois de longo silêncio, Joseph perguntou:

— Te prom eter o quê?

— Me prom ete...

Marie não conseguiu continuar. Lá está ela, deitada. Joseph, sem nada dizer. Marie ouviu o relógio e o coração baterem j untos. Lá fora, um lam pião rangeu.

— Me prom ete que...

Sufocada, paralisada, com o se estivesse conversando com Joseph, à distância, num a das colinas das im ediações, Marie ouviu as próprias palavras.

—... se algum a coisa acontecer com igo, você não vai m e enterrar no cem itério daqui, naquelas catacum bas horrendas!

Lá de trás da porta, Joseph respondeu:

— Você tem cada bobagem !

— Você prom ete? É um favor, prom ete?

— Am anhã de m anha você j á vai estar m elhor.

— Prom ete, anda! Só para eu poder dorm ir. Só vou conseguir dorm ir se você disser que não vai deixar que m e enterrem aqui. Eu não quero ser enterrada aqui.

Joseph perdeu a paciência.

— Porra, que besteirada!

— Por favor...

— Por que é que eu tenho que fazer essa prom essa ridícula? Am anhã você j á vai estar bem . E, além disso, m esm o que você m orra, vai ficar m uito bonita, em pé, na catacum ba, entre o Sr. Careta e o Sr. Bocej o, com um ram inho de ipom éias nos cabelos.

Joseph riu um riso sincero.

Silêncio. Lá está Marie, deitada na escuridão.

De trás da porta, j ocoso, Joseph perguntou:

— Você não acha que vai ficar bonita naquele lugar?

No quarto escuro, Marie não respondeu.

— Não acha?

Alguém passou pela plaza, quase sem fazer ruído, e sum iu. Joseph escovava os dentes..

— Êi..

Lá está Marie, deitada, fitando o teto, o peito subindo e descendo, cada vez m ais rápido, m ais rápido, o ar entrando e saindo, entrando e saindo pelas narinas, um fiozinho de sangue escorrendo dos lábios contraídos. Os olhos bem abertos, as m ãos cegas apertavam a roupa de cam a.

De trás da porta, Joseph repetiu:

— Êi...

Marie não disse nada.

Debruçado no j ato da torneira, enxaguando a boca, Joseph disse consigo m esm o:

— Se vai! Vai ficar lindíssim a! Nada de Marie, na cam a.

Joseph postou-se diante do espelho.

— As m ulheres são engraçadas... Lá estava Marie, deitada na cam a.

Joseph gargarej ava, com um anti-séptico; depois, cuspiu tudo no ralo da pia.

— Claro... Am anhã de m anhã você j á estará boazinha! De Marie, nenhum a palavra.

— O carro vai ficar pronto.

Marie não disse nada.

— Que chegue o am anhã, antes m esm o que você o perceba!

Joseph enrascava tam pinhas em coisas, e passava loção de barba no rosto.

— E que o carro estej a pronto am anhã. No m áxim o, talvez, depois de am anhã. Você não se incom oda de passar m ais um a noite aqui, não é m esm o? Marie não respondeu.

— Você vai ficar aborrecida?

Nenhum a resposta.

A luz da fresta piscou, desligando.

— Marie...

Joseph abriu a porta.

— Você está dorm indo?

Deitada, Marie está com os olhos estatelados, os seios sobem e descem ..

— É, está dorm indo. Bem , boa-noite, senhora.

Joseph foi para a cam a.

— Estou cansado... Nenhum com entário.

— É... estou cansado.

Lá fora, o vento sacolej ava as lâm padas; o quarto oblongo, escuro; Joseph, na cam a, j á dorm itava.

Marie, na cam a, está de olhos bem abertos, o relógio tiquetaqueando no pulso, os seios subindo e descendo.

Estava um bonito dia, ao atravessar o Trópico de Câncer. O autom óvel varava a estrada sinuosa, deixando para trás aquela terra de m ato, rum o aos Estados Unidos, roncando por entre colinas verdes, fazendo todas as curvas, deixando, para trás, um rastro débil de fum aça, que se ia diluindo. Dentro do autom óvel lustroso, Joseph dirigia; tinha o rosto róseo, saudável, um chapéu Panam á, e a pequenina câm era em balada no colo; um a tira de seda negra envolvia-lhe o braço esquerdo do terno castanho-am arelado. Joseph observava os cam pos, que deslizavam ; involuntário, fez um gesto na direção do assento ao lado, e parou. Irrom peu num sorriso tím ido e voltou o olhar novam ente para o pára-brisa, sussurrou um a m elodia sem m elodia, a m ão, lenta, tentou tocar o assento ao lado...

... Vazio.