O País de Outubro

Ray Bradbury · Capítulo 9 de 19

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O País de Outubro

O Pequeno Assassino

Quando ocorreu a idéia de que estava sendo assassinada, ela não soube precisar. Foram alguns sinais sutis, m inúsculos, pequenas suspeitas do m ês que passou; coisas profundas, com o correntes m arítim as interiores, com o se olhasse para um determ inado trecho de águas tropicais, perfeitam ente tranqüilas, e desej asse banhar, e descobrisse, com o a corrente que arrasta o corpo, que, sob a superfície, habitam m onstros, coisas não vistas, intum escidas, de m uitos m em bros, de barbatanas afiladas, m alignas, das quais não se pode escapar.

À sua volta, o quarto flutuava num eflúvio de histeria. Instrum entos afiados rondavam suspensos, havia vozes e pessoas com m áscaras brancas, estéreis.

Meu nom e — pensava. Com o m e cham o?

Alice Leiber. Lem brou-se. Mulher de David Leiber. Mas não se sentiu reconfortada. Estava sozinha com essas pessoas silenciosas, brancas, que sussurravam , e dentro dela havia um a dor intensa, náusea e m edo da m orte.

Estão m e assassinando, bem diante dos olhos deles. Esses m édicos, essas enferm eiras não percebem a coisa sinistra que m e aconteceu. Nem David percebe. Ninguém sabe, exceto eu e... o m atador, o hom icidazinho, o pequeno assassino.

Estou m orrendo, e não consigo dizer isto a eles. Ririam , diriam que estou delirando. Verão o assassino, o pegarão nas m ãos e j am ais im aginarão que ele sej a o responsável por m inha m orte. Mas, aqui estou eu, diante de Deus e do hom em , m orrendo, sem ninguém para acreditar na m inha história, com todos a duvidar de m im , a m e reconfortar com m entiras, para m e enterrar na ignorância, velar-m e e salvar aquele que m e destruiu.

Onde está David? , im aginou. Na sala de espera, fum ando um cigarro atrás do outro, ouvindo o tique-taque infindável daquele relógio tão lento?

De um a vez só, o suor explodiu-lhe por todo o corpo; e com o suor, um grito agonizante. Agora. Agora! Tentem m e m atar, gritou. Tentem , tentem , m as eu não vou m orrer. Não vou m orrer!

Houve um vazio. Um vácuo. De repente, a dor desapareceu Envolveram -na a fadiga, a penum bra. Tudo acabado. Oh, m eu Deus! Alice pareceu cair por inteiro e chocar-se com um nada obscuro que fez surgir um a nada, nada, outro nada e m ais outro...

Passos. Suaves, passos se aproxim am . Bem distante, a voz diz:

— Ela está dorm indo. Não a incom ode.

Um cheiro de lã, um cachim bo, um a certa loção de barba. David ali estava, na cabeceira. E, por trás dele, o cheiro im aculado do Dr. Jeffers. Alice não abriu os olhos.

— Estou acordada — disse, tranqüila.

Que surpresa, que alívio poder falar, não estar m orta.

— Alice...

Alguém a cham ara, e era David, do lado de lá de seus olhos cerrados, quem lhe segurava as m ãos cansadas.

Alice pensou: você quer saber quem é o assassino, David? Posso ouvir sua voz pedindo para saber quem ele é; portanto, tudo o que eu posso fazer é apontá-lo para você.

David ali estava, debruçado sobre ela. Alice abriu os olhos. O quarto entrou em foco. Com a m ão fraca, afastou a colcha para o lado.

O assassino fitou David Leiber com um a tranqüilidade dim inuta, um rosto averm elhado, olhos azuis. Olhos profundos, cintilantes.

— Por quê? ?...

David Leiber perguntou, sorrindo.

—...É um bebê m uito bonzinho!

No dia em que David Leiber veio apanhar a m ulher e o filho, para levá-los para casa, Dr. Jeffers estava à sua espera. Conduziu Leiber até o consultório, ofereceu-lhe um a cadeira, deu-lhe um charuto, acendeu um para si próprio, sentou na borda da escrivaninha e, por um longo m om ento, deu baforadas solenes. Em seguida, pigarreou, olhou diretam ente para David Leiber, e afirm ou:

— Sua m ulher não gosta do filho, David.

— O quê!

— Foi difícil para ela. Nesse ano que se inicia, ela vai precisar de m uito am or. Na hora, eu não quis falar m uito, m as ela estava histérica na sala de parto. Falou coisas estranhas... nem quero repetir. Direi apenas que ela se sente estranha em relação ao filho. E isso é algo que talvez possam os esclarecer com um a ou duas perguntas.

Dr. Jeffers deu m ais um as baforadas no charuto. Depois, perguntou:

— Esse filho é um filho desej ado, David?

— Por que o senhor pergunta isso?

— É vital.

— É. É um filho desej ado sim . Nós o planej am os j untos. Alice estava tão feliz, há um ano, quando...

— Hum m m ... isso dificulta as coisas. Porque, se o filho não tivesse sido planej ado, seria um sim ples caso de um a m ulher para quem a idéia da m aternidade é detestável. Não, isso não se aj usta a Alice.

Dr. Jeffers retirou o charuto da boca e esfregou toda a extensão do m axilar.

— Então, o m otivo deve ser outro. Talvez algum a coisa sufocada na infância, que estej a saindo agora. Ou talvez sej a um a sim ples dúvida, um a desconfiança, de um a m ãe que passou por um a dor incom um , pela proxim idade da m orte, que é o caso de Alice. Se for isso, um curto período de tem po será suficiente para curá-la. Mas tem um a coisa que eu quero lhe dizer, David. Para aj udá-la, você terá que ser dócil e tolerante caso ela diga algum a coisa a respeito... bem ... a respeito de querer que o filho tivesse nascido m orto. E se as coisas não correrem bem , vocês três venham m e ver. Sem pre gosto de rever os am igos, não é m esm o? Pegue, leve m ais um charuto para... claro...para o bebê.

Tarde clara de prim avera. Por estradas principais, largas, de três pistas, o carro zuniu. Céu azul, flores, o vento m orno. David falou sem parar, acendeu o charuto, falou m ais ainda. Suave, direta, Alice respondia, e relaxou um pouco m ais, no curso da viagem . Mas não carregava o bebê de um a m aneira afetiva,-calorosa, ou m aternal, que aliviasse o estranho sofrim ento da m ente de David. Parecia, sim plesm ente, carregar um a estatueta de porcelana.

Mas David sorriu, por fim .

— Bem , que nom e vam os dar a ele?

Alice Leiber via deslizarem as árvores verdes.

— Vam os deixar em suspenso, por enquanto. Prefiro esperar até encontrar um nom e bem especial. Não j ogue fum aça nele.

As frases fluíram , j untas, sem alteração de tom . A últim a contestação não continha qualquer reprovação m aternal, qualquer interesse, qualquer sinal de irritação. Apenas labiou-a, e foi só.

Alarm ado, o m arido j ogou o charuto pela j anela.

— Desculpe.

O bebê descansava na j unção dos braços da m ãe, som bras de sol, de árvores alteravam -lhe o rosto. Abriam -se os olhos azuis, qual flores novas, azuis, de prim avera. Ruídos m olhados exalavam daquela boca pequenina, rósea, elástica.

De relance, Alice olhou o bebê. Junto a ela, David sentiu Alice trem er.

— Está com frio?

— Friagem . Melhor subir o vidro, David. Era m ais que friagem . David subiu o vidro.

Hora da ceia.

David apanhara o bebê no quarto; agora, levantava-o, num ângulo pequenino e confuso, escorado por m uitos travesseiros, num a cadeira alta, recém -com prada. Alice observava o m ovim ento do garfo e da faca em suas m ãos.

— Ele ainda não está em idade de usar essas cadeiras altas. David sentia-se bem .

— Mas é gozado vê-lo nessa cadeira, de qualquer m odo. Tudo é divertido. Até m esm o no escritório. Estou cheio de pedidos, até o pescoço. Se eu não tom ar cuidado, vou faturar outros quinze m il dólares esse ano. Ei, olha o bebê. Está com o queixo todo babado! (

David inclinou-se; com o guardanapo, enxugou a boca do neném . Com o canto do olho, percebeu que Alice nem olhando estava, e com pletou o trabalho. Voltou para a refeição.

— Não é nada interessante, não é m esm o? Mas o que se espera de um a m ãe é que ela dem onstre algum interesse pelo próprio filho!

Alice espichou o queixo.

— Não diga isso! Na frente dele, não. Depois, se você quiser.

— Depois? Na frente, por trás, que diferença faz? De repente, David acalm ou-se, engoliu, pediu desculpas.

— Está bem . Está certo. Eu sei com o são essas coisas. Term inado o j antar, Alice deixou que David levasse o bebê para o quarto. Não chegou a dizer-lhe que o fizesse. Apenas deixou.

Quando desceu, de volta, David encontrou Alice ao lado do rádio, ouvindo m úsica que j am ais ouvira. Os olhos cerrados, em toda um a atitude de reflexão, de autoquestionam ento. Assim que David surgiu, Alice parou.

De repente, grudou-se nele, apertou-o, suave, rápida; a m esm a.. Os lábios foram encontrá-lo, guardá-lo. David estava perplexo. Agora que o bebê j á se encontrava no quarto, que j á não estava m ais na sala, Alice pôde respirar novam ente, viver novam ente. Estava livre. Sussurrava, rápida, sem parar.

— Obrigada, obrigada, m eu am or. Por ser quem você é, sem pre. Tão seguro! Tão digno de confiança!

David não pôde conter o riso.

— Foi m inha m ãe quem disse: Filho, não deixe faltar o sustento de sua fam ília!

Exausta, Alice pousou os cabelos m orenos, brilhosos, no pescoço de David.

— Você exagerou. Às vezes queria que continuássem os sendo o que éram os quando nos casam os. Nenhum a responsabilidade, apenas nós dois. Sem ... sem nenhum bebê.

Alice apertou as m ãos nas m ãos de David, no rosto um a alvura sobrenatural.

— Puxa, David, j á houve apenas você e eu. Nós nos protegíam os um ao outro, e agora nós protegem os o bebê, m as não recebem os dele nenhum a proteção. Você com preende isso? Lá no hospital, deitada, tive tem po para pensar em m uitas coisas. O m undo é m alvado...

— É m esm o?

— É. É sim . Mas existem leis para nos proteger. E quando elas inexistem , o am or se responsabiliza pela proteção. Você está protegido contra as m ágoas que eu possa causar a você, por causa do m eu am or. Dentre todas as pessoas, é logo com relação a m im que você é vulnerável. Mas o am or o protege. Eu não tenho m edo de você, porque o am or am ortece suas irritações, seus instintos naturais, seus ódios e im aturidades. Mas... e o bebê? É ainda m uito j ovem para conhecer o am or, ou algum a lei do am or, ou qualquer coisa, até que nós ensinem os a ele. Enquanto isso, sinta-se vulnerável ao seu próprio filho!

David afastou-a; riu, delicadam ente.

— Vulnerável ao bebê?

— Os bebês sabem a diferença entre o certo e o errado?

— Não, m as ele aprende.

— Mas os bebês são tão novinhos, tão am orais, tão isentos da consciência! Alice interrom peu. Os braços escorregaram do corpo de David. Rápida, virou-se.

— Que barulho foi esse?

Leiber olhou em volta.

— Não ouvi...

Alice olhou na direção da porta da biblioteca. Disse, devagar:

—Lá.

Leiber atravessou a sala, abriu a porta, acendeu a luz da biblioteca, e apagou.

— Não tem nada aqui.

Voltou.

— Você está esgotada. Agora vam os dorm ir. Já, j á!

Juntos, apagaram as luzes; devagar, subiram a escada silenciosa do corredor, sem dizer palavra. Lá em cim a, Alice pediu desculpas.

— Essa conversa insensata, m eu bem . Me desculpe. Eu estou exausta. David com preendia, e disse-o a Alice.

Indecisa, Alice fez um a pausa ao passar pela porta do quarto do bebê. Em seguida, com firm eza, dedilhou a m açaneta de m etal, e entrou. David viu-a aproxim ar-se do berço com m uito cuidado, olhar para baixo e endurecer, com o se tivesse sido golpeada no rosto.

— David!

Leiber prosseguiu, chegou ao berço.

O rosto do bebê estava m uito verm elho, m uito m olhado; a boquinha rosada abria e fechava, abria e fechava; os olhos, de um azul fogoso. As m ãozinhas m exiam no ar.

— Ora, ele estava chorando, é isso.

— Estava m esm o?

Alice agarrou a grade do berço, para equilibrar-se.

— Eu não ouvi choro nenhum .

— Porque a porta estava fechada.

— É por isso que ele está com a respiração presa, com o rosto verm elho?

— Claro, Coitadinho. Chorando sozinho na escuridão. Ele vai dorm ir no nosso quarto, hoj e; assim , se ele chorar de novo...

— Ih, desse j eito ele vai ficar m uito m im ado.

David em purrou o berço até o quarto de dorm ir e sentiu os olhos de Alice acom panharem -no durante o traj eto. Em silêncio, despiu-se e sentou-se à beira da cam a. De repente, ergueu a cabeça, respirou fundo, soltando um palavrão, e estalou os dedos.

— Merda! Me esqueci inteiram ente! Tenho que ir a Chicago na sexta-feira.

— Puxa, David!

A voz de Alice perdeu-se no quarto.

— Já têm dois m eses que eu estou adiando essa viagem . Agora, não tem j eito, eu tenho que ir.

— Mas eu tenho m edo de ficar aqui sozinha.

— A nova cozinheira vai chegar na sexta. Ela estará com você o tem po todo. Eu só vou ficar fora alguns dias.

— Estou com m edo. Não sei bem de quê. Se eu contar, você nem vai acreditar. Acho que eu estou ficando m aluca.

David j á se deitara. Alice escureceu o quarto. David ouviu-a dar a volta na cam a, abrir as cobertas, e entrar. Sentiu-a, j unto a ele, exalar um a fragrância fem inina, calorosa.

— Se você quiser, eu espero uns dias. Talvez eu possa... \ Alice respondeu, convicta:

— Não, pode ir. Sei que é im portante. O problem a é que eu não paro de pensar naquelas coisas que eu disse. As leis, o am or e proteção. O am or o protege contra m im . Mas, o bebê...

Alice tom ou fôlego.

—... e contra o bebê, o que irá protegê-lo, David?

Antes m esm o que David pudesse responder, antes m esm o que pudesse dizer a ela que conversar sobre criança era a m ais absurda tolice, Alice, abruptam ente, acendeu a luz da cabeceira, e apontou:

— Olha lá!

Bem acordado no berço, os olhos azuis, fortes e profundos, o bebê olhava diretam ente para David.

Mais um a vez, as luzes se apagaram . Aconchegada, Alice trem eu.

— Não é bom sentir-se m edo daquilo que nós m esm os geram os... O sussurro de Alice baixou de tom , tornou-se grave, ferino, rápido.

—... Ele tentou m e m atar! E agora, ali está ele, ouvindo a nossa conversa, esperando você ir viaj ar para ele tentar m e m atar de novo! É verdade! Eu j uro!

Alice desabou em soluços. David tentou acalm á-la.

— Por favor. Não fique assim , por favor.

Na escuridão, Alice ainda chorou por m uito tem po. Bem m ais tarde, aconchegando-se, trêm ula, j unto a David, relaxou. Com a respiração suave, calorosa, uniform e, o corpo de Alice descarregou os reflexos exauridos, e ela dorm iu.

David cochilou.

E antes m esm o que as pálpebras pesassem e lançassem -no em órbitas m ais e m ais profundas, David ouviu um ligeiro ruído, estranho, de alerta e vigília dentro do quarto.

O ruído de lábios pequeninos, m olhados, róseos e elásticos.

O bebê.

Depois, dorm iu.

De m anhã, o sol resplandecia. Alice sorria.

Sobre o berço, David bam boleava o relógio de pulso.

— Olha só, neném , com o isso aqui é lustroso, é bonito. É. É. É lustroso. É bonito.

Alice sorria. Dissera a David para ir em frente, viaj ar para Chicago, ela seria valente, não haveria com que se preocupar. Ela tom aria conta do bebê. Claro, ora, ela tom aria conta dele direitinho.

O avião rum ou leste. Tanto céu, tanto sol e nuvens, e Chicago percorrendo o horizonte. David foi j ogado no lufa-lufa dos pedidos, planej am entos, j antares, telefonem as e reuniões de m uita discussão; m as, m esm o assim , escreveu cartas diárias, enviou telegram as, a Alice e ao bebê.

Na noite do sexto dia de ausência dom iciliar, David recebeu um telefonem a interurbano. Los Angeles.

— Alice?

— Não, David. Aqui quem fala é Jeffers.

— Doutor!

— Controle-se, filho. Alice adoeceu. E seria bom que você viesse no prim eiro avião. É pneum onia. Eu estou fazendo o possível, m as aconteceu m uito perto da chegada do bebê. Ela precisa de força.

Leiber deixou cair o fone no gancho. Levantou-se, sem pés a apoiá-lo, sem m ãos, sem corpo. O quarto de hotel em baçou, despedaçou. Cego, David partiu em direção à porta.

— Alice!

As hélices m ascaram , giravam , m ascaram , pararam ; tem po e espaço haviam ficado para trás. Na m ão, David sentiu girar a m açaneta da porta; debaixo dos pés, o chão retom ou a realidade; em volta, fluíram as paredes de um quarto, e ali estava, ao pôr-do-sol da tarde, o Dr. Jeffers, que agora dava as costas para a j anela, e Alice, deitada na cam a, esperando, esculpida com um a nevasca de inverno. E Dr. Jeffers falava, falava, sem parar, gentil; através do abaj ur, o som subia, descia, um a ligeira vibração, um m urm úrio alvo de voz.

— Sua esposa é um a ótim a m ãe, David. Estava m uito m ais preocupada com o bebê que com ela m esm a...

Em algum a canto da palidez do rosto de Alice, um súbito aperto diluiu-se antes de m aterializar-se. Depois, devagar, com eçou a conversar a conversar com o um a m ãe, a respeito disso, daquilo e daquil’outro, a contação dos detalhes, o inform ativo m inuto a m inuto, hora a hora, de um a m ãe preocupada com um m undo de bonecas e com a m iniatura de vida daquele m undo. E não parou. A m ola estava retesada, e a voz descam bou para a raiva, o m edo, e um toque m ínino de revulsão que, em bora nem tenha alterado a expressão do Dr. Jeffers, fez com que o coração de David entrasse no ritm o da conversa, que acelerava e não parava.

— O bebê não queria dorm ir, de j eito nenhum . Pensei que estivesse doente. Ficava deitado, olhando, no berço, e, tarde da noite, chorava. Alto, chorava m uito alto, a noite inteira. Eu não conseguia acalm á-lo, e nem conseguia descansar.

Pausado, Dr. Jeffers concordava com a cabeça.

— Cansou tanto que pegou pneum onia. Mas j á está cheia de sulfa, e j á está fora de perigo dessa coisa toda.

David sentia-se m al. —E o bebê? O bebê?

— Está em ótim a form a. É o galinho da rua!

— Ah, ainda bem , doutor.

O m édico saiu do quarto, desceu as escadas, abriu a porta da frente, devagarinho, e se foi.

— David...

David voltou-se na direção daquele suspiro assustado.

—...Foi o bebê de novo... Alice apertou as m ãos de David.

—...Eu tentei m e enganar, dizer para m im m esm a que eu sou um a boba, m as o bebê sabia que eu ainda estava enfraquecida, por causa do hospital, então ele chorou a noite inteira, todas as noites; e quando não estava chorando, ficava quieto dem ais. E eu sabia que se acendesse a luz, lá estaria ele, m e olhando.

David sentiu o corpo fechar, com o um punho cerrado. Lem brou-se de ter visto o bebê, sentido o bebê, acordado na escuridão, acordado, tarde da noite, num a hora em que os bebês geralm ente estão dorm indo. Acordado, deitado, silencioso com o pensam ento, sem chorar, m as observando, lá do berço. Desfez-se do pensam ento. Era loucura.

Alice prosseguiu.

— Eu ia m atar o bebê. Ia sim . Um dia depois que você viaj ou, eu entrei no quarto e coloquei as m ãos em volta do pescoço dele; e fiquei an, por m uito tem po, pensando, com m edo. Depois cobri o rosto dele com a coberta, virei o rosto dele, apertei e saí do quarto.

David tentou contê-la. Alice, am argurada, olhava para a parede.

— Não, eu quero term inar. Quando eu saí do quarto, eu pensei... É sim ples. Bebês m orrem asfixiados diariam ente. Ninguém vai saber. Mas quando eu voltei, esperando encontrá-lo m orto, David, ele estava vivo! É, vivo, deitado de costas, vivo, sorrindo, respirando. Depois disso, não consegui m ais sequer tocar nele. Deixei-o lá, não voltei m ais, nem para dar de m am ar, para ver com o ele estava, para nada. Provavelm ente a cozinheira cuidou dele, eu não sei. Tudo o que eu sei é que aquele choro não m e deixava dorm ir, e eu passei as noites pensando, andando pelos quartos, e adoeci.

Alice j á havia term inado. Quase.

— O bebê fica deitado, pensando num a m aneira de m e m atar. Um a m aneira sim ples. Porque ele sabe que eu sei m uito a respeito dele. Eu não sinto am or por ele; entre nós, não existe proteção, e nunca haverá.

Alice term inara. Desfaleceu, dentro de si m esm a, e dorm iu, por fim . Ali, debruçado sobre ela, David perm aneceu por longo tem po, incapaz de m over-se, com o sangue congelado no corpo, sem que nalgum canto, nalgum canto qualquer, um a única célula avivasse.

Na m anhã seguinte havia apenas um a única coisa a fazer. E ele a fez. Entrou no consultório do Dr. Jeffers, contou tudo, e ficou a escutar as respostas condescendentes de Jeffers.

— Precisam os ver a coisa com a devida calm a, filho. Às vezes, é m uito natural um a m ãe odiar o filho. Tem os até um rótulo para isso: am bivalência. A capacidade de am ar e, ao m esm o tem po, odiar. Os am antes odeiam -se reciprocam ente, com freqüência. Os filhos detestam as m ães...

Leiber interrom peu-o:

— Eu nunca detestei m inha m ãe.

— Você seria incapaz de adm iti-lo, é claro. As pessoas não gostam de adm itir que odeiam os entes queridos.

— E assim , Alice odeia o filho.

— Um a obsessão, m elhor dizendo. Ela está um pouquinho além de um a am bivalência sim ples, com um . A cesariana, que deu vida ao filho dela, quase lhe tira a vida. Ela culpa o filho pelo fato de quase ter m orrido e de estar com pneum onia. Está proj etando os próprios problem as, e atribuindo a culpa ao obj eto que encontrou m ais à m ão para usar com o causa do problem a. Nós todos agim os assim . Tropeçam os num a cadeira e xingam os a m obília, e não nossa própria displicência. No golfe, se erram os um a tacada, execram os o gram ado, o taco ou a confecção da bola. Se nosso negócio vai m al, culpam os os deuses, o clim a, nossa sorte. Tudo o que eu posso dizer, j á disse antes. Am e-a. É o m elhor rem édio do m undo. Descubra alguns j eitinhos de m ostrar sua afeição por ela, de dar segurança. Descubra alguns j eitinhos de m ostrar a ela que a criança é inofensiva, é inocente. Faça-a ver que valeu a pena ter o bebê. Em pouco tem po, ela se acalm a, esquece a m orte e com eça a am ar o bebê. Se isso não acontecer em um ou dois m eses, m e cham e. Eu recom endarei um bom psiquiatra. Agora, vá em frente, e vej a se m elhora essa expressão no teu rosto.

Com a chegada do verão, as coisas pareceram acalm ar, folgar. David trabalhava, im erso nas m inúcias do escritório, m as ainda dedicava m uito tem po à esposa. Alice, por sua vez, fazia longas cam inhadas, ficava m ais forte, e, eventualm ente, j ogava badmington. Raríssim as vezes, explodiu. Parecia ter se libertado de seus tem ores.

Salvo, num a certa m eia-noite, quando um a súbita ventania de verão, quente fugaz, envolveu a casa e balançou as árvores, qual pandeiros reluzentes. Alice acordou, trêm ula, deslizou até os braços do m arido e deixou que ele a consolasse, que perguntasse o que se passava com ela. Alice respondeu:

— Tem algum a coisa aqui no quarto, nos observando. David acendeu a luz.

— Você andou sonhando de novo. Mas você está bem m elhor. Já faz um bom tem po que não se descontrola.

Alice suspirou, David apagou a luz. De repente, Alice dorm iu. David tocou-a e pensou, por quase m eia hora, quão doce, quão estranha era aquela criatura.

David ouviu a porta abrir, alguns centím etros.

Não havia ninguém lá. E por que abriria? Não havia m otivo. O vento j á havia passado.

Esperou, parece que um a hora se passou. David deitado, em silêncio na escuridão.

Então, bem distante, gem endo com o um m inúsculo m eteoro que desaparece na voragem im ensa, negra, do espaço, no quarto ao lado, o bebê com eçou a chorar.

Era um som dim inuto, solitário, em m eio às estrelas, à escuridão, à respiração da m ulher em seus braços, e ao vento, que recom eçava, agora, a roçar pelas árvores.

Lentam ente, Leiber contou até cem . O choro persistiu.

Liberou-se, com cuidado, dos braços de Alice, deslizou para fora da cam a, calçou os chinelos, vestiu o roupão e, sem fazer ruído, saiu do quarto.

Deveria descer, pensou, esquentar o leite, subir de novo e...

O negror sum iu de seus pés. O pé escorregou, precipitou. Escorregou em algo m ole. Precipitou adentro do nada.

Estendeu as m ãos e, atabalhoado, segurou no corrim ão. O corpo parou de despencar. David continuou segurando. Praguej ou.

A "coisa m ole" que lhe fizera escorregarem os pés, deslizarem , e despencarem alguns degraus. A cabeça zunia. O coração m artelava, na base da garganta, grosso, agredido pela dor.

Por que existem pessoas tão displicentes, que deixam coisas j ogadas pelo chão? Em busca do obj eto, que quase o fizera esborrachar-se escada abaixo, David tateou, m eticuloso.

Num sobressalto, a m ão congelou. A respiração im plodiu. O coração prolongou um a, duas batidas.

A coisa que segurara na m ão era um brinquedo. Um a boneca grande, m al-aj am brada, de retalho, que, por gozação, ele com prara...

... para o bebê.

No dia seguinte, Alice levou-o para o escritório, no autom óvel. A m eio cam inho da cidade, Alice reduziu a velocidade, encostou no m eio-fio e parou. Em seguida, acom odou-se no assento e olhou para o m arido.

— Eu quero tirar um a férias, viaj ar. Não sei se você vai poder ir tam bém , am or, m as, se não puder, eu quero ir m esm o sozinha. Arrum am os alguém para tom ar conta do bebê, tenho certeza. Mas eu tenho que fazer essa viagem . Pensei que j á estivesse m e afastando dessa... dessa sensação. Mas, não. Eu não agüento ficar no quarto com ele. E ele tam bém , m e olha com o se m e odiasse. Não consigo nem tocá-lo com o dedo. Tudo o que eu sei é que preciso fazer essa viagem , antes que algum a coisa aconteça.

David saiu do carro, deu a volta, pediu-a que se afastasse e entrou.

— A única coisa que você vai fazer é procurar um bom psiquiatra. Se ele recom endar um as férias, então, está bem . Mas dessa m aneira é que não pode continuar. Passo o tem po todo com o estôm ago em brulhado.

David deu partida.

— Eu dirij o.

Cabisbaixa, Alice tentava conter as lágrim as. Na porta do escritório, ergueu os olhos.

— Está bem . Pode m arcar a consulta. Vou conversar com quem você quiser, David.

David beij ou-a.

— Agora sim , agora a senhora está usando o bom -senso. Você vai conseguir dirigir de volta, direitinho?

— Claro, seu bobo.

— Então, te vej o no j antar. Dirij a com cuidado.

— Ah, você sabe que eu dirij o sem pre com cuidado! Até!...

No m eio-fio, David esperou o carro partir; o vento envolveu os cabelos longos, m orenos e reluzentes de Alice. Lá em cim a, um m inuto depois, telefonou a Jeffers e m arcou hora com um neuropsiquiatra de confiança.

Meio aflitiva, a j ornada daquele dia de trabalho chegou ao fim . As coisas andaram m eio em baçadas, e no m eio do em baraço só viu Alice, perdida, cham ando-o. Boa parte do m edo passara para David. Ela, de fato, conseguira convencê-lo de que o guri tinha lá suas coisas não m uito naturais.

David ditou cartas com pridas, m al inspiradas. No andar de baixo, conferiu algum as entregas fez perguntas aos assistentes, e continuou. Ao fim do expediente, estava exausto, a cabeça latej ava. Que bom ir para casa!

No elevador, que descia, pensou: E se eu contar a Alice sobre a escada... sobre a boneca de retalho... que eu pisei nela e escorreguei ontem à noite? Por Deus, isto seria um apoio e tanto para ela! Mas, não, não vou contar nada. Afinal, acidentes são acidentes.

O dia prolongou no céu, David tom ara um táxi. Na frente de casa, pagou o m otorista e, devagar, cam inhou pela calçada de cim ento, saboreando a luz que ainda pairava no céu, nas árvores. A fachada da casa, colonial, branca, estranham ente quieta, desabitada. De repente, lem brou-se. Era quinta-feira, e a diarista que costum avam contratar, de tem pos em tem pos, j á se fora.

David inspirou fundo. Atrás da casa, um pássaro cantou. Um quarteirão adiante, o tráfego m ovia-se na avenida larga. A chave, girou-a na porta. A m açaneta, girou com os dedos, engordurada, silenciosa.

A porta se abriu. David entrou, em cim a da cadeira pousou o chapéu, a pasta, e com eçou a revolucionar os om bros para sair do paletó. Nesse m om ento, ergueu os olhos.

Próxim a ao corredor de cim a, um a j anela deixava entrar, escada abaixo, o resto de pôr-de-sol. Aquele ponto, tocado pela luz do sol, tom ou a cor viva, da boneca de retalho, esparram ada ao pé da escada.

David nem prestou atenção ao brinquedo.

Conseguiu, apenas, olhar, im óvel, e olhar m ais um a vez para Alice.

Ali está Alice, estirada, o corpo angulado, em posse grotesca e pálida, ao pé da escada, qual boneca entortada, que não quer m ais brincar, nunca m ais.

Alice estava m orta.

Na casa silenciosa, um único ruído, o coração de David.

Alice estava m orta.

Com as m ãos, envolveu a cabeça de Alice, sentiu-lhe os dedos. Envolveu seu corpo. Ela nem tentaria viver. Pronunciou-lhe o nom e, bem alto, m uitas vezes, e tentou, m ais um a vez, apertando-a contra o corpo, proporcionar a ela um pouco do calor que havia perdido, em vão.

Levantou-se. É possível que tenha telefonado para alguém . Mas não se lem brava. De repente, percebeu, estava no andar de cim a. Abriu o quarto do bebê, entrou e olhou, vazio, para o berço. O estôm ago em brulhou. David não conseguia enxergar com nitidez.

Os olhos do bebê estavam cerrados, m as o rosto estava averm elhado, m olhado de suor, com o se tivesse chorado m uito, por m uito tem po.

— Ela m orreu — Leiber disse ao bebê. — Ela m orreu.

E com eçou a rir, baixinho, suave, contínuo, por m uito tem po, até que o Dr. Jeffers entrou, vindo da noite, e deu-lhe tapas no rosto, m uitos.

— Acorda, hom em !

— Ela caiu da escada, doutor. Escorregou na boneca de retalho, e caiu. Eu tam bém , ontem à noite, quase escorreguei nela. E agora...

Dr. Jeffers o sacudiu. David estava m eio tonto.

— Doutor, doutor. Que coisa engraçada. Muito engraçada! Já encontrei um nom e para o bebê.

Dr. Jeffers não disse nada.

David recostou a cabeça nas m ãos trêm ulas e proferiu palavras.

— Vou batizá-lo no dom ingo que vem . Sabe qual o nom e que escolhi para ele? Lúcifer.

Eram onze horas da noite. Muitas pessoas vieram , andaram pela casa e levaram com elas a cham a essencial... Alice.

Na biblioteca, David Leiber sentava-se, do outro lado da m esa, com o Dr. Jeffers.

— Alice não era doida — dizia, devagar. — Tinha bons m otivos para tem er o bebê.

Jeffers suspirou.

— Não vá pela cabeça dela! Ela culpou o bebê pela doença, e agora você o culpa pela m orte dela. Ela tropeçou no brinquedo, está lem brado? Você não pode culpar o bebê!

— O senhor está se referindo a Lúcifer?

— Não fale assim ! Leiber m eneou a cabeça.

— Alice ouvia coisas à noite, andando pelos corredores. O senhor quer saber o que eram aqueles ruídos, doutor? Eram o bebê. Com quatro m eses de idade, m o vendo-se na escuridão, ouvindo nossa conversa. Não perdia um a só palavra!

David apoiou-se nos braços da cadeira.

— Acender a luz, nem adiantava. Bebês são coisas pequenininhas, escondem -se atrás da m obília, da porta, j unto a um a parede... sem pre abaixo do alcance da vista.

— Gostaria que você parasse com isso!

— Tenho que dizer o que penso, ou então vou enlouquecer. Quando fui para Chicago, quem foi que não deixou Alice dorm ir, quem foi que a exauriu até deixá-la com pneum onia? Foi o bebê! E com o Alice não m orreu, ele tentou m e m atar. Era sim ples: era só deixar o brinquedo na escada, chorar de noite até o pai se levantar para ir buscar o leite, e tropeçar. Um truque grosseiro, m as eficiente, que não conseguiu m e pegar, m as pegou Alice, m atou-a.

David Leiber parou; apenas para acender o cigarro.

— Eu devia ter desconfiado. Acendia a luz no m eio da noite, m uitas noites seguidas, e lá estava ele, deitado, de olhos estatelados. A m aioria dos bebês dorm e de noite. Ele não. Ficava acordado, pensando.

— Os bebês não pensam , David.

— Sei lá. Ficava acordado fazendo não sei o que, então, com a cabeça. Nós não sabem os nada sobre o cérebro dos bebês. Ele tinha m uitos m otivos para detestar Alice; ela desconfiava dele, pelo que ele era... com certeza, não era um a criança norm al. Era... diferente. O senhor conhece crianças, doutor? Apenas o corriqueiro, não é m esm o? O senhor sabe, não sabe, que os bebês m atam as m ães na hora do parto? E sabe por quê? Ressentim ento, talvez, de ser forçado a entrar nesse nosso m undo im becil.

Cansado, Leiber inclinou-se na direção de Jeffers.

— Tudo fecha. Vam os supor que, dentre m ilhões de bebês recém -nascidos, alguns sej am capazes de m ovim entar-se instantaneam ente, de ver, ouvir, pensar, assim com o m uitos anim ais e insetos. Os insetos j á nascem auto-suficientes. E em poucas sem anas os m am íferos e os pássaros se adaptam . Mas as crianças levam anos para falar e aprender a tropeçar nas próprias perninhas. Mas, vam os supor que, em um bilhão de crianças, um a sej a... estranha. Que nasça perfeitam ente consciente, capaz de pensar, por instinto. Seria o cenário perfeito, o álibi perfeito para tudo que ele quisesse fazer. Ele poderia fingir ser um a criança com um , fraca, chorona, ignorante. E se gastasse apenas um pouquinho de energia, conseguiria se arrastar por um a casa escura, e ouvir. Para ele, seria fácil colocar obstáculos no alto de um a escada. Seria fácil chorar a noite inteira, e exaurir a m ãe, até que ela pegasse pneum onia. Seria fácil, bem na hora do parto, tão próxim o à m ãe, executar algum as m anobras ágeis e presenteá-la com um a peritonite!

Jeffers levantou-se.

— Pelo am or de Deus! Quanta coisa repulsiva!

— Eu estou falando de coisas repulsivas, doutor. Quantas m ulheres j á m orreram ao dar a luz? Quantas j á não am am entaram coisinhas im prováveis, que lhes causaram a m orte, de um j eito ou de outro? É estranho, criaturinhas averm elhadas com cérebros que pensam coisas inadivinháveis no m eio da escuridão. Cérebros pequenos, elem entares, aquecidos com o conhecim ento da raça, com o ódio, a crueldade selvagem , com o pensam ento voltado apenas para a autopreservação. E, nesse caso, a autopreservação consiste em elim inar a m ãe que percebeu ter dado a luz a um m onstrengo. Eu pergunto ao senhor, doutor. Existe algum a coisa m ais egoísta nesse m undo que os bebês? Não, não existe!

Jeffers franziu a testa, m eneou a cabeça, im potente. Leiber deixou cair o cigarro.

— Não estou falando de forças poderosas. Apenas da força suficiente para engatinhar com alguns m eses de antecipação, para ficar ouvindo, o tem po todo. Para chorar de noite. Já é o suficiente, m ais do que suficiente.

Jeffers tentou ironizar.

— O nom e disso é assassinato. E assassinatos têm que ter m otivos. Qual, você acha, seria o m otivo dele?

Veio a resposta de Leiber, na ponta da língua.

— Nada m ais pacífico, m ais gratificante, sonhador, m ais relaxante, repousante, m ais bem alim entado, reconfortante, im perturbável, que o estado de um a criança que ainda não nasceu. Nada! A criança flutua num a m aravilha atem poral, de alim ento e silêncio. De repente, é solicitada a desistir daquele porto, é forçada a desocupar o lugar, é lançada num m undo barulhento, displicente, egoísta, onde é solicitada a andar por conta própria, a caçar e a alim entar-se da caçada, a partir em busca de um am or que se esvai, e que, em outras épocas, fora um direito inquestionável, a ir de encontro à confusão, e não ao silêncio interior, ao repouso prudente! E a criança se ressente disso! Se ressente do ar frio, dos espaços im ensos, do desaparecim ento repentino de coisas que conhece. E naquele m inúsculo filam ento de cérebro, a única coisa que o bebê conhece é o egoísm o, o ódio, pois a m agia j á foi abruptam ente espatifada. E quem seria o responsável por esse desencanto, por essa quebra abrupta da m agia? A m ãe, é claro. E assim , com toda a m ente irracional da criança, o recém -nascido j á tem alguém para odiar. A m ãe a atirou no m undo, rej eite-a. E o pai, não presta tam bém . Mate-o! A seu m odo, ele tam bém é responsável.

Jeffers interrom peu-o.

— Se é verdade o que você diz, então toda m ulher nesse m undo deve ver o filho com o algo de que deva sentir horror, algo de que deva suspeitar.

— E por que não? As crianças têm álibis perfeitos. Estão protegidas por m ilênios de teorias consagradas pela m edicina. Todas as teorias naturais as definem com o indefesas, irresponsáveis. A criança j á nasce odiando. E, com o tem po, as coisas pioram , em vez de m elhorar. No com eço, o bebê ainda recebe um pouco de atenção, de carinho m aterno. Mas, com o passar do tem po, as coisas m udam . Quando novinhos, os bebês têm o poder de fazer com que os pais façam coisas idiotas, sem pre que choram , ou fungam , de fazê-los pular ao m enor ruído. Mas os anos passam , e o bebê sente escapar esse poder, ínfim o, para sem pre irrecuperável. Por que não reunir todo o poder que tem ? Por que não m anobrar para m anter sua posição enquanto está com todas as vantagens na m ão? Daqui a alguns anos, será difícil expressar o ódio. A hora de atacar é agora!

Leiber falava num tom de voz baixo e lento.

— Meu filhinho, deitado no berço, noites a fio, o rosto m olhado, verm elho, ofegante. De chorar? Não. De escalar, devagar, a grade do berço, de engatinhar longas distâncias por corredores escuros. Meu filhinho. Eu quero m atá-lo.

Dr. Jeffers ofereceu-lhe um copo d'água e algum as pílulas.

— Você não vai m atar ninguém . Vai dorm ir por vinte e quatro horas. Dorm ir o fará m udar de idéia. Tom e.

Leiber tom ou as pílulas e deixou-se conduzir até o andar de cim a, até seu quarto, chorando; sentiu que o colocavam na cam a. Dr. Jeffers esperou, até vê-lo entrar num sono profundo, e foi-se em bora.

Sozinho, Leiber entregou-se, m ais, m ais.

Ouviu um ruído. Fraco, ainda perguntou:

— O que é isso? O que...

Algo m oveu-se no corredor.

David Leiber dorm iu.

Na m anhã seguinte, bem cedo, Dr. Jeffers veio vê-lo. Um a bela m anhã. Viera para levá-lo para um período de descanso no cam po. Lá em cim a, Leiber ainda deveria estar dorm indo. Os sedativos que m inistrara a ele m antê-lo-iam apagado por, no m ínim o, um as quinze horas.

Tocou a cam painha. Ninguém . Os em pregados, provavelm ente, ainda não estavam de pé. Experim entou a m açaneta. A porta estava aberta, entrou. Pousou a m aleta na cadeira m ais próxim a.

Lá no alto da escada, um a coisa branca pareceu esconder-se rapidam ente. O m ovim ento, apenas insinuado, m al fora percebido por Jeffers.

Pairava, na casa, um cheiro de gás.

Jeffers correu ao segundo andar; com alarde, introm eteu-se no quarto de Leiber.

Leiber está im óvel, na cam a; o quarto, sufocado pelo gás que zunia de um cano na base da parede, próxim o à porta. Jeffers desligou a torneira, em pregou toda força para abrir as j anelas e voltou para Leiber.

O corpo estava frio, j á m orto há m uitas horas.

Tossindo violentam ente, depressa, Dr. Jeffers deixou o quarto; os olhos lacrim ej avam . Não fora Leiber quem ligara o gás. Não poderia ter sido ele. Estava dopado pelos sedativos, não conseguiria acordar antes do entardecer. Não fora suicídio. Haveria algum a possibilidade de que fosse?

No corredor, Jeffers esperou uns cinco m inutos. Em seguida, foi ao quarto do bebê. Fechado. Jeffers abriu a porta, entrou e foi direto ao berço.

O berço estava vazio.

Apoiado no berço, Dr. Jeffers balançou, por questão de m eio m inuto, e depois m urm urou algo, dirigido, especificam ente, a ninguém .

— A porta do quarto bateu com o vento. Você não conseguiu voltar para o berço, onde estaria a salvo. Você j am ais poderia pensar que a porta iria bater com o vento. Um a coisinha à toa, com o um a porta que fecha, é capaz de estragar qualquer plano, por m elhor que sej a. Eu descubro você. Sei que você está pela casa, escondendo-se, fingindo ser algo que não é.

Dr. Jeffers parecia enceguecido. Levou as m ãos à cabeça e sorriu, lívido.

— Estou agindo com o Alice e David. Mas, não posso m e arriscar. Não tenho certeza de nada, m as não posso m e arriscar.

Desceu a escada; em cim a da cadeira, abriu a m aleta, retirou algum a coisa, segurou-a nas m ãos.

Um ruído no corredor; de algum a coisa m uito pequena, m uito silenciosa. Rápido, Jeffers virou-se.

Para colocá-lo no m undo, pensou, tive que fazer um a operação. Agora, creio, vou ter que fazer um a operação para levá-lo em bora...

Corredor adentro, Dr. Jeffers deu uns seis passos, decididos. Ergueu a m ão, ensolarada.

— Olha aqui, neném ! Com o é lustroso! Com o é bonito! Um bisturi.