O País de Outubro
O Homem do Segundo Andar
Douglas lem brava-se do cuidado, da perícia com que Vovó acariciava as vísceras das galinhas, cortadas, congeladas, e retirava, lá de dentro, todas aquelas m aravilhas; os m eandros brilhosos, m olhados, dos intestinos que cheiravam a carne, o caroço m usculoso do coração, a m oela, com sua coleção de sem entes. Da precisão e do aprum o com que Vovó cortava a galinha ao m eio e im ergia a m ãozinha gorda para despoj á-la de todas as m edalhas. Estas seriam segregadas. algum as em panelas com água, outras em papel, para depois, talvez, serem j ogadas para o cachorro. E, em seguida, o ritual de taxiderm ia, recheando a ave com pão m olhado, tem perado, e a m aneira com o ela executava a cirurgia com um a agulha ligeira, apertando ponto por ponto.
Um a das prim eiras em oções dos onze anos de vida de Douglas.
No côm puto geral, Douglas contou vinte facas nas diversas gavetas rangentes da m esa m ágica da cozinha, de onde Vovó, essa velha feiticeira bondosa, de rosto m eigo e cabelos brancos, retirava a parafernália para seus m ilagres.
Douglas deveria perm anecer em silêncio. Recebia perm issão para sentar-se do outro lado da m esa, defronte a Vovó e, com o nariz sardento apoiado na borda da m esa, observava. Conversa fiada de criança, entretanto, poderia interferir na m agia. Que m aravilha ver Vovó agitar os potinhos prateados, por cim a da ave, salpicando, supostam ente, chuviscos de pó de m úm ia, de ossos indígenas, pulverizados, m urm urando versos m ísticos num fôlego entredentes ausentes.
Douglas quebrou o silêncio, enfim .
— Vovó, eu sou assim por dentro? Apontou para a galinha.
— É sim . Um pouco m ais arrum ado, m ais apresentável, m as é quase igual... Douglas sentiu-se orgulhoso das próprias vísceras.
— E tem m ais coisa, não é, Vovó?
— Claro, m uito m ais.
— O Vovô tem m ais que eu ainda. As vísceras dele fazem um a saliência na frente, que dá até para ele apoiar os cotovelos.
Vovó riu, sacudiu a cabeça.
— E a Lucie William s, lá do final da rua...
— Olha essa boca, m enino!
— Mas ela tem ...
— Não se m eta nisso. É diferente.
— Mas, por que ela é diferente?
Vovó insistiu, com firm eza:
— Qualquer dia desses, um a libélula vai passar por aqui com um a agulha e costurar sua boca.
Douglas esperou; depois, perguntou:
— Com o é que a senhora sabe que a m inha parte de dentro é assim ?
— Ora, ora. Agora chega, som e daqui. A cam painha tocou, na porta da frente.
Douglas atravessou o corredor, correndo, e viu, pelo vidro da porta, um chapéu de palha.
— Bom -dia, m enino. A senhoria está?
Olhos cinzas, frios, num rosto com prido, liso, castanho, contem plaram Douglas. O hom em era alto, m agro, carregava um a m ala, um a valise, um guarda-chuva debaixo do braço dobrado, luvas finas, grossas e cinzas nos dedos m agros, e usava um chapéu de palha horrível, de tão novo.
Douglas recuou.
— Ela está ocupada.
— Quero alugar o quarto do segundo andar, eu li o anúncio.
— Nós j á tem os dez inquilinos, e o quarto j á está alugado. Vá* em bora!
— Douglas!
Vovó surgira de repente, por trás. Cum prim entou o estranho.
— Com o vai o senhor? Não ligue para o m enino.
Sem sorrir, o hom em entrou, rígido. Douglas os viu sum ir escada acim a, e ouviu Vovó enum erar as conveniências do quarto do segundo andar. Ela desceu logo depois, em pilhou roupa de cam a, que apanhou no arm ário de roupa de cam a de Douglas, e m andou-o subir correndo.
Douglas parou na soleira da porta. O quarto j á m udara, de m aneira esquisita, com os poucos m om entos que o estranho ali passara. Em cim a da cam a, o chapéu de palha, quebradiço, terrível; o guarda-chuva, duro, encostado na parede, parecia um m orcego negro, as asas negras recolhidas.
Douglas piscou para o guarda-chuva.
O estranho ali estava, em pé, alto, alto, no m eio do quarto.
— Olha...
Douglas j ogou a roupa na cam a.
—...O alm oço é ao m eio-dia em ponto, e se o senhor dem orar a descer, a sopa esfria. A Vovó sem pre dá um j eito para que esfrie, todas as vezes.
O hom em alto, estranho, contou dez m oedas novas de um cents, de cobre, e tilintou-as no bolso de Douglas, inflexível.
— Vam os ser am igos.
Estranho. O suj eito só tinha m oedas de um cents. Muitas. Nenhum a m oeda de prata, nem de dez cents, nem de vinte e cinco. Só m oedas de um cents, novas, de cobre.
Douglas agradeceu, em birrado.
— Vou colocá-las no m eu cofrinho depois que eu as trocar por um a m oeda de dez cents. Já tenho seis dólares e cinqüenta cents, em m oedas de dez, para o acam pam ento de agosto.
O hom em alto, estranho, falou:
— Bem , agora vou m e lavar.
Certa vez, à m eia-noite, Douglas acordava para ouvir a tem pestade trovoar lá fora: o vento frio, im piedoso, sacudia a casa, a chuva batia na j anela. E um relâm pago viera aterrissar ali fora, na j anela, num a concussão silenciosa, terrível. Lem brou-se do m edo que sentiu ao olhar ao redor do quarto e vê-lo daquela m aneira, estranho, horrível, com a luz instantânea.
O m esm o acontecia agora, naquele quarto. Douglas continuava a olhar o estranho. O quarto j á não era o m esm o; m udara, de m aneira indefinível; aquele hom em , rápido com o um relâm pago, espalhara nele sua luz. Douglas recuou, devagar; o estranho vinha em sua direção.
A porta fechou na cara de Douglas.
O garfo de m adeira subiu, cheio de purê de batata, e desceu vazio. O Sr. Koberm an, era este seu nom e, trouxera com ele um garfo de m adeira, um a faca e um a colher de m adeira, quando Vovó anunciou o alm oço.
— Sra. Spaulding — dissera, tranqüilo —, m eus talheres. Por favor, use-os. Hoj e vou alm oçar, m as, de am anhã em diante, só quero café-da-m anhã e j antar.
Vovó estava m uito afobada, entrava e saía, com terrinas escaldantes de sopa, ervilha e purê de batata, para im pressionar o novo inquilino. E Douglas, sentado, alardeava, no prato, o talher de prata, pois descobrira que isso irritava o Sr. Koberm an.
— Eu sei um truque. Prestem atenção.
Com a unha, Douglas prendeu o dente de um garfo. Depois, com o um m ágico, apontou para os diversos cantos da m esa. Apontava para um lugar e logo em ergia, com a voz aguda de um elfo, o som da vibração do dente do garfo. Sim ples, é claro. Sem que ninguém visse, Douglas com prim ia o cabo do garfo contra o tam po da m esa. Com o um a caixa de ressonância, a m adeira causava a vibração. Parecia coisa de m ágico! Para lá, agora para cá, de novo para lá! Contente, Douglas com prim ia o garfo novam ente. Apontou para a sopa do Sr. Koberm an, e lá estava o ruído.
Aquele rosto castanho tornou-se rij o, inerte, horrível. Agressivo, o Sr. Koberm an em purrou o prato de sopa; os lábios retorceram . O hom em prostrou-se de costas, na cadeira.
Vovó apareceu.
— O que houve, Sr. Koberm an?
— Eu não vou tom ar a sopa.
— Por quê?
— Porque j á estou satisfeito e não agüento m ais. Muito obrigado. Fuzilando, o Sr. Koberm an saiu da sala de j antar.
— O que é que você fez, Douglas, dessa vez? — Vovó perguntou, decidida.
— Nada, Vovó. Por que ele usa talher de m adeira?
— O que é que você tem com isso? Quando é que recom eçam suas aulas, hem ?
— Daqui a quatro sem anas.
— Não!...
O Sr. Koberm an trabalhava à noite. Misterioso, toda m anhã, chegava em casa às oito, devorava um café-da-m anhã bem exíguo, e ia para o quarto. Dorm ia, sem em itir qualquer ruído, no período diurno — onírico, de tão quente — até a hora do lauto j antar, com os outros inquilinos.
O horário de dorm ir do Sr. Koberm an exigiu o silêncio de Douglas. Isso era insuportável. Assim , toda vez que Vovó ia visitar o pessoal do fim da rua, Douglas subia e descia a escada, batendo os pés, tocando tam bor, quicando um a bola de golfe, ou apenas gritando, por três a quatro m inutos, j unto à porta do quarto do Sr. Koberm an; ou então, dava descarga sete vezes consecutivas.
O Sr. Koberm an nem se m exia. O quarto perm anecia silencioso, escuro. O hom em não reclam ava. Não havia ruídos. Continuava a dorm ir, a dorm ir. Muito estranho.
Douglas sentia queim ar, no peito, um a cham a branca, pura, de ódio, de um a beleza uniform e, fosca. Aquele quarto, agora, era Território de Koberm an. Já fora florido, brilhante, quando a Srta. Sadlowe se hospedara nele. Agora estava desolado, cru, gélido, lim po, com tudo no lugar, estranho, quebradiço.
No quarto dia de m anhã, Douglas subiu a escada.
A m eio cam inho do segundo andar, um a j anela grande, ensolarada, form ada de vidros laranj as, púrpuras, azuis, verm elhos e borgonhas, todos de quinze centím etros. Nas m anhãzinhas encantadas,' quando o sol entrava, e vinha tocar o pataréu e deslizar pelo corrim ão da escada, Douglas costum ava ficar ali, extasiado, a olhar o m undo através daqueles vidros m ulticores.
Agora, um m undo azul, o céu azul, pessoas azuis, ônibus azuis e cachorros azuis, passeando.
Mudou de vidro. Agora... um m undo feito de âm bar! Duas m oças am areladas passeavam , pareciam filhas de Fu-Manchu! Douglas riu. O vidro dourava ainda m ais a luz do sol.
Oito horas da m anhã. Ali em baixo, passou o Sr. Koberm an, de volta do trabalho noturno, a bengala enganchada no cotovelo, o chapéu de palha colado na cabeça, com óleo.
De novo, Douglas m udou de vidro. O Sr. Koberm an era agora um hom em verm elho, a cam inhar num m undo verm elho, de árvores verm elhas, flores verm elhas e... algum a coisa a m ais.
Algum a coisa... com relação ao Sr. Koberm an.
Douglas olhou atravessado.
O vidro verm elho causava certas coisas ao Sr. Koberm an. O rosto, o tem o, as m ãos. As roupas pareciam derreter. Douglas chegou a pensar, por um instante de horror, que conseguira ver o Sr. Koberm an por dentro. E o que viu o fez encostar, espontâneo, no pedaço de vidro verm elho, e piscar.
Nesse m om ento, o Sr. Koberm an olhou para cim a, viu Douglas e, furioso, brandiu a bengala — guarda-chuva, ao m esm o tem po — com o se fosse atacar. Rápido, correu pelo gram ado verm elho, rum o à porta da entrada.
Subiu a escada correndo.
— Ei, rapazinho! O que é que você estava fazendo aí? Douglas estava paralisado.
— Estava olhando.
— Só isso? Só isso?
— Claro. Eu gosto de olhar pelo vidro. Todos os tipos de m undos, azuis, verm elhos, am arelos. São todos diferentes.
— Tipos de m undo, é?
O Sr. Koberm an olhou pelo vidro, a expressão lívida. Controlou-se. Com um lenço, enxugou o rosto e dissim ulou um sorriso.
— Claro, todos os tipos de m undo. São todos diferentes... E cam inhou rum o à porta do quarto.
— Então, pode continuar a brincadeira.
A porta se fechou. O corredor estava vazio. O Sr. Koberm an entrara no quarto.
Douglas deu de om bros e descobriu um vidro novo.
— Caram ba! Está tudo violeta!
Meia-hora depois, quando, nos fundos, brincava com a caixa de areia, Douglas ouviu o barulho, o tilintar dos estilhaços. Deu um salto.
Em alguns instantes, Vovó. apareceu na varanda dos fundos, nas m ãos a velha correia de am olar, trem ulante.
— Douglas, eu j á não falei que não quero que você j ogue a bola de basquete na parede? Meu Deus, m e dá até vontade de chorar!
Douglas protestou.
— Mas eu estava aqui, sentado.
— Vem ver o que você fez, seu m oleque!
Os pedaços de vidro colorido j aziam estilhaçados, num arco-íris caótico, no pataréu da escada. No m eio das ruínas, a bola de basquete.
Antes m esm o que conseguisse alegar inocência, Douglas levou um as dez correadas ardidas no traseiro. E para onde fosse, a correia de am olar o vinha acertar.
Depois, escondendo o espírito no m onte de areia, com o um avestruz, am argou dores terríveis. Sabia quem j ogara a bola de basquete. Fora um hom em de chapéu de palha, de guarda-chuva duro, num quarto gélido, cinzento. Foi sim , foi ele, foi ele. Douglas driblou as lágrim as. O senhor vai ver só! Vai ver só!
Ouviu Vovó varrer os cacos. Ela os trouxe para fora, j ogou-os na lata de lixo. Meteoros de vidro, azuis, rosados, am arelos, brilhantes, j ogados fora.
Vovó entrou, Douglas arrastou-se, aos choram ingos, para apanhar três cacos daquele vidro fantástico. O Sr. Koberm an não gostava de j anelas coloridas. Estes aqui... Douglas tilintou os cacos nos dedos... valem a pena ser guardados.
Vovô costum ava chegar, do j ornal, um pouco antes dos dem ais inquilinos, às cinco da tarde. E quando um a passada lenta, pesada, tom ou o corredor, e um a bengala de m ogno, grossa, fez um ruído abafado no porta-bengalas, Douglas correu para abraçar aquele barrigão im enso e para sentar naquele colo, enquanto Vovô lia a edição vespertina.
— Oi, Vovô!
— Oi, m enininho!
— A Vovó cortou galinha hoj e, de novo. Eu gosto de ver.
Vovô continuou a leitura.
— É a segunda vez, nessa sem ana. Galinha! É a m ulher que m ais gosta de galinha, que eu conheço. Você gosta de ver, hem ? Molequinho de sangue frio! Ah! Ah!
— É por curiosidade só.
— Ah,é?
Vovô rugiu, franziu o cenho.
— Você se lem bra do dia em que aquela j ovem foi assassinada na estação? Você foi até lá e olhou aquele sangue, tudo...
Vovô soltou um a risada.
—...Seu travesso! Mas continue assim . Não tenha m edo de nada, m esm o da sua própria vida. Acho que você pegou isso de seu pai, ele era m ilitar, essas coisas, e você era m uito chegado a ele antes de vir para cá, no ano passado.
Vovô voltou para o j ornal. Longo intervalo.
— Vovô...
— O que é?
— O que aconteceria se um hom em não tivesse coração, pulm ão, estôm ago e, m esm o assim , andasse por aí, vivo?
Vovô rugiu:
— Seria um m ilagre.
— Não, não estou falando de m ilagres. Se ele fosse diferente por dentro? Diferente de m im .
— Bem , então não seria hum ano, não é m esm o?
— É, acho que não. Vovô, o senhor tem coração, tem pulm ão?
Vovô riu com os om bros.
— Bom , para falar a verdade, não sei. Nunca vi. Nunca tirei radiografias, nunca fui ao m édico. Ao que eu saiba, tenho a consistência de um a batata.
— E eu, tenho estôm ago?
— Claro que tem !
Foi Vovó quem respondeu, lá da entrada, na sala de visitas.
— Sou eu quem o alim enta, afinal. E tem pulm ão, tam bém ; afinal, você grita tão alto que acorda até os zum bis. E você está com as m ãos suj as. Vá lavar as m ãos. O j antar está pronto. Vem , Vovô. Douglas, anda, anda.
No tum ulto dos inquilinos escada abaixo, Vovô, se é que tinha a intenção de aprofundar com Douglas aquela conversa estranha, perdeu a oportunidade. Se o j antar dem orasse m ais um pouquinho, Vovó e as batatas iriam , as duas, encaroçar.
Os inquilinos, que riam e conversavam à m esa — entre eles, o Sr. Koberm an, silencioso, lúgubre — calaram -se quando Vovô pigarreou. Vovô falou de política, por alguns m inutos, e depois m udou a conversa para um assunto intrigante, as m ortes recentes, estranhas, na cidade.
Vovó olhava-os a todos.
— Dá para deixar um velho editor de orelha em pé. Aquela m oça, a Srta. Larson, que m orava do outro lado da fazenda. Encontraram -na m orta, há três dias, sem m otivo algum ; tinha um as tatuagens esquisitas pelo corpo, e a expressão do rosto era de hum ilhar o próprio Dante. E aquela outra m oça, qual o nom e dela m esm o? Whitely ? Desapareceu e nunca m ais voltou.
O Sr. Britz, m ecânico da oficina, m astigava.
— Essas coisas acontecem a toda hora. Alguém j á deu um a espiada no arquivo de pessoas desaparecidas?
Ilustrou.
— É desse tam anho! Ninguém sabe o que aconteceu a elas.
— Alguém quer m ais recheio?
Com a concha, Vovó retirava, do interior da galinha, porções generosas. Servia. Douglas observava, pensando que aquela galinha tinha, na verdade, dois tipos de barriga. Um , feito por Deus; outro, feito pelo Hom em .
E por que não três tipos de barriga?
Ora!
Por que não?
A conversa continuou. As m ortes m isteriosas de fulano, de beltrano, ah, claro, e vocês se lem bram , na sem ana passada, Marion Barsum ian m orreu de enfarte, m as a coisa não fez sentido. Ou fez? Você está m aluco! Esquece isso, não há por que falar disso na hora do j antar. Pronto!
O Sr. Britz observou:
— A gente nunca sabe. Quem sabe há um vam piro na cidade? !
O Sr. Koberm an parou de com er.
Vovó se surpreendeu.
— Em 1927? Ora, deixe disso.
— Claro — retrucou o Sr. Britz. — Basta m atá-los com balas de prata. Para essas questões, qualquer coisa de prata resolve. Os vam piros detestam prata. Já li isso num livro, um a vez. É, li sim .
Douglas olhou para o Sr. Koberm an. Ele usa facas e garfos de m adeira; e, no bolso, as m oedas de um cent que carrega, são todas de cobre. Vovô ponderou:
— Esse m odo de j ulgar é falho. Não devem os atribuir nom es às coisas. Não sabem os com o são os vam piros, os dem ônios, nem m esm o os gigantes-anões. Poderia ser um a porção de coisas. Não podem os elevá-las a categorias rotuladas e dizer que agem assim ou assado. Isso é bobagem . Eles são pessoas. Pessoas que fazem coisas. É, essa é a m elhor m aneira de situá-los: são pessoas que fazem coisas.
— Com licença...
O Sr. Koberm an levantou-se e saiu para a cam inhada noturna; foi trabalhar.
As estrelas, a lua, o vento, o tique-taque do relógio, o badalo das horas no alvorecer, o raiar do sol, e eis um a nova m anhã, um novo dia; ei-lo, o Sr. Koberm an, de volta do trabalho noturno, a cam inhar na calçada. Douglas estava à espreita, com o um a engrenagem , roncando, observando com olhos m icroscópicos.
Ao m eio-dia, Vovó foi ao arm azém fazer as com pras.
Com o de costum e, com o fazia sem pre que Vovó saía, todos os dias, Douglas gritou por uns três m inutos j unto à porta do quarto do Sr. Koberm an. E,'com o de hábito, não houve resposta. Um silêncio horrível.
Douglas correu, foi lá em baixo, apanhou a chave-m estra, um garfo de prata e os três cacos de vidro colorido que rescaldara dos estilhaços da j anela. Colocou a chave na fechadura e, devagar, abriu a porta.
O quarto estava à m eia-luz, as persianas fechadas. O Sr. Koberm an ali está deitado por cim a das cobertas, em roupa de dorm ir; a respiração sobe e desce, uniform e. Estava im óvel. O rosto, im óvel.
— Bom -dia, Sr. Koberm an!
As paredes descoloridas ecoaram a respiração regular do Sr. Koberm an.
— Sr. Koberm an, o senhor vai bem ?
Douglas aproxim ou-se; quicava um a bola de golfe. Gritou, ainda sem resposta:
— Sr. Koberm an!
Debruçou-se, com os dentes do garfo espetou o rosto adorm ecido.
O Sr. Koberm an encolheu, contorceu, rosnou, zangado.
Resposta. Ótim o! Legal!
Douglas retirou do bolso um caco de vidro azul. Através do caco azul, percebeu-se num quarto azul, num m undo azul diferente daquele m undo azul seu conhecido. Assim com o o m undo verm elho, diferente. Mobília azul, cam a azul, teto e paredes azuis, talheres de m adeira azuis, por cim a da escrivaninha azul, e o azul escuro e lúgubre do rosto, dos braços do Sr. Koberm an, e do peito azul inflando, desinflando. E tam bém ...
Os olhos do Sr. Koberm an, escancarados, fitavam -no num a escuridão fam inta.
"Douglas caiu de costas; afastou dos olhos o caco azul.
Os olhos do Sr. Koberm an estavam fechados.
De novo, o caco de vidro... escancarados. Sem caco de vidro... fechados. O caco azul... escancarados; sem caco... fechados. Esquisito. Douglas continuou a experiência, trêm ulo. Com o caco, os olhos daquele hom em pareciam entreolhar fam intos, ávidos, através das pálpebras cerradas. Sem o caco azul, pareciam bem apertados, fechados.
Mas, o resto do corpo do Sr. Koberm an...
A roupa de dorm ir desapareceu. Aquilo tinha relação com o vidro azul. Ou talvez com a própria roupa de dorm ir, apenas pousadas sobre o corpo do Sr. Koberm an. Douglas soltou um grito.
É que o que via estava por trás da parede do estôm ago do Sr. Koberm an, estava dentro do Sr. Koberm an.
O Sr. Koberm an era m aciço.
Ou, de certo m odo, quase m aciço.
Dentro dele, havia form as, dim ensões estranhas.
É possível que Douglas tenha ficado ali por uns cinco m inutos, espantado, a pensar nos m undos azuis, nos m undos verm elhos, nos m undos am arelos, convivendo, com o vidraças contíguas, na j anela grande, im ensa da escada. Contíguas, as vidraças coloridas, os m undos diferentes. O próprio Sr. Koberm an confirm ara.
E foi, então, por isso, que a j anela colorida foi quebrada.
— Sr. Koberm an, acorde! Nenhum a resposta
— Sr. Koberm an, em que lugar o senhor trabalha de noite? Sr. Koberm an, em que lugar?
Um a brisa leve agitou a veneziana azul.
— Num m undo verm elho, num m undo verde, ou num m undo am arelo?
Um silêncio de vidro azul pairou.
— Espere!
Douglas desceu, foi à cozinha, abriu a gaveta grande, rangendo, e apanhou a faca m ais afiada, a faca m aior.
Calm o, atravessou o corredor, subiu a escada, abriu a porta do quarto do Sr. Koberm an, entrou e fechou; na m ão, a faca afiada.
Vovó estava ocupada, com os dedos na m assa de torta, dentro da panela, quando Douglas entrou na cozinha e colocou algo em cim a da m esa.
— Vovó, o que é isso?
Vovó deu um a espiada, por cim a dos óculos.
— Sei lá.
Era quadrado, com o um a caixa, e elástico. De um a cor laranj a-claro. E, acoplados, quatro canos quadrados, azuis. E tinha um cheiro esquisito.
— A senhora j á viu isso antes, Vovó?
— Não.
— Foi o que pensei.
Douglas deixou a coisa lá, saiu da cozinha. Cinco m inutos depois, voltou com outra coisa.
— E isso?
— Ora, eu estou ocupada. Isso é só um a corrente.
Na vez seguinte, Douglas voltou com as m ãos cheias. Um anel, um quadrado, um triângulo, um a pirâm ide, um retângulo e... outras form as. Todas flexíveis, pontudas, e pareciam feitas de gelatina.
Douglas colocou-as na m esa.
— Não acabou ainda não. De onde eu tirei isso, ainda tem m ais. Ocupada, Vovó com entou, num tom distante:
— Claro, claro.
— A senhora estava errada, Vovó.
— Errada com o?
— Em dizer que as pessoas são iguais por dentro.
— Ora, não diga bobagem .
— A senhora viu m eu cofrinho?
— Está no parapeito da lareira, no m esm o lugar em que você o deixou.
— Obrigado.
Com passadas surdas e rápidas, Douglas irrom peu pela sala de visitas e apanhou o cofrinho.
Às cinco horas, Vovô voltou do j ornal.
— Vovô, vam os lá em cim a.
— Claro filho. Por quê?
— Quero m ostrar um a coisa ao senhor. Não é agradável, m as é interessante. Vovô riu com os om bros e acom panhou os passos do neto até o quarto do Sr.
Koberm an.
— Não conte nada para a Vovó. Ela não vai gostar nada. Douglas em purrou a porta, abriu.
— Olha lá!
Vovô engoliu em seco.
Para o resto da vida, Douglas j am ais iria se esquecer das horas que se sucederam . Debruçado sobre o corpo nu do Sr. Koberm an, o investigador, os assistentes. Vovó, lá em baixo, perguntando a alguém "O que é que está acontecendo aí em cim a?" e Vovô dizendo "Vou fazer um a viagem com Douglas, ele vai precisar de um as férias para esquecer esse episódio m edonho. Medonho! Medonho!”
— Medonho por quê? — perguntou Douglas. — Não vej o nada de m edonho. Está tudo bem com igo.
O investigador trem eu.
— Koberm an está bem m orto m esm o.
O assistente suava.
— O senhor viu aquilo, naquelas panelas d'água, naqueles pedaços de papel de em brulho?
— Vi sim . Meu Deus, se vi!
— Deus do céu.
Mais um a vez, o investigador debruçou sobre o corpo do Sr. Koberm an.
— Melhor m anter isso em segredo, pessoal. Não foi assassinato. Foi um a graça que o garoto nos concedeu. Do contrário, só Deus sabe o que poderia acontecer.
— Koberm an era o quê? Um vam piro? Um m onstro?
— Talvez... não sei. Sei que não era... hum ano. O investigador passou as m ãos ágeis na sutura.
Douglas sentia-se orgulhoso de seu trabalho, pois j á tinha causado m uita confusão. Mas, de tanto observar Vovó, atento, se lem brara. Da agulha, da linha, de tudo. Um a coisa pela outra, o Sr. Koberm an fora um trabalho tão bem feito quanto qualquer galinha que Vovó j á j ogara no inferno.
— Ouvi o garoto dizer que Koberm an continuou vivendo m esm o depois que ele extraiu essas coisas de seu corpo...
O investigador olhava os triângulos, as correntes, as pirâm ides, flutuando na panela d'água.
—...continuou vivendo. Meu Deus!
— O garoto disse isso?
— Disse.
— Então, o que matou Koberm an?
O investigador arrancou pontos da sutura.
— Isto...
A luz do sol refletiu, gélida, naquele tesouro desconhecido, parcialm ente exposto: seis dólares e setenta cents em m oedas de dez, de prata, no tórax do Sr. Koberm an.
— Acho que Douglas fez um bom investim ento!
O investigou, recosturou a carne, rápido, e recobriu o "recheio".