O País de Outubro

Ray Bradbury · Capítulo 3 de 19

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O País de Outubro

A Ficha de Pôquer Sempre Atenta de H. Matisse

 

Quando conhecem os George Garvey, não dem os um tostão furado por ele. Mas, com o tem po, ele irá usar seu m onóculo — um a ficha de pôquer com um olho azul pintado no m eio pelo próprio Matisse. E depois, quem sabe, um a gaiola dourada ainda venha a gorj ear dentro de sua perna artificial, ou sua m ão esquerda, a m ão boa, venha a ser m odelada em cobre e j ade lustroso.

Mas, no com eço, perceba um hom em assustadoram ente vulgar.

— A seção econôm ica, m eu bem ?

Os j ornais farfalham no apartam ento noturno.

— O boletim m eteorológico diz "chuva am anhã".

Nas narinas, os fiapos pretos expiram , inspiram , leves, leves, e as horas passam .

— Hora de dorm ir.

Pelo aspecto, nascera, m ui obviam ente, de m anequins de vitrine, de 1907. Com o truque, m uito adm irado pelos m ágicos, de sentar-se num a cadeira de veludinho verde e... sum ir! Se virarm os o rosto, não m ais nos lem bram os do rosto de Garvey. Pudim de baunilha.

Um reles acidente, porém , fez dele o núcleo do m ovim ento literário m ais audacioso da história!

Por vinte anos, Garvey e a m ulher viviam em farta solidão. A m ulher era de bela carnação, m as o azar de encontrá-lo bem serviu para afastar as visitas. Am bos, m arido e m ulher, não suspeitavam do talento de Garvey para m um ificar as pessoas instantaneam ente. Am bos diziam -se satisfeitos com as m uitas noites a sós, sentados, depois de um dia de trabalho agitado. Tinham em pregos anônim os. E nem se lem bravam , m uitas vezes, do nom e da pálida com panhia, que os utilizava com o tinta branca pintada sobre tinta branca.

Entre para a vanguarda! Entre para o Septeto do Porão!

Estas alm as tão estranhas floresceram nos porões de Paris, ouvindo um tipo de jazz dolente, m antendo um a relação bem volátil durante uns seis m eses, ou m ais, e, ao retornarem aos Estados Unidos, num ponto de clam orosa desintegração, esbarraram no Sr. George Garvey.

Alexander Pape, antigo potentado da courriola, exultou:

— Meu Deus! Encontrei o m aior chato do m undo! Vocês têm que conhecê-lo!

No apartam ento de Bill Tim m in, na noite anterior, o bilhete dizia que Bill voltaria em um a hora. No corredor, esse tal de Garvey perguntou se eu não queria esperar no apartam ento dele. Então, sentam os, Garvey, a m ulher, e eu! Inacreditável! Ele é um Tédio m onstruoso, produzido por nossa sociedade m aterialista. Conhece m il m aneiras de te paralisar! E o rococó absoluto, um talento para induzir ao estupor, ao sono profundo, ou à parada cardíaca. Um caso que m erece ser estudado. Vam os lá todo m undo, fazer um a visitinha!

Apinhados com o urubus! A vida flui até a porta de Garvey, a vida sentou-se à sala de visitas. O Septeto do Porão em poleirou-se no sofá franj ado, observando a presa.

Garvey inquietou-se.

— Vocês querem fum ar? Porque... fum em à vontade. Sorriu, tím ido.

Silêncio.

Eis as instruções: "A palavra de ordem é todo m undo quieto. É o único j eito de verm os o estupendo exem plar que ele é. Zero absoluto em m atéria de cultura am ericana!

Depois de um silêncio em que ninguém piscou por uns três m inutos, o Sr. Garvey inclinou-se para a frente. Perguntou:

— O senhor trabalha em que, Sr....?

— Crabtree. O poeta.

Garvey refletiu sobre a resposta.

— E com o vai seu trabalho?

Mudez total.

Eis um silêncio típico de Garvey. Eis o m aior fabricante, o m aior em issor de silêncios do m undo; é só escolher um tipo, e Garvey o apronta, em bala, e dá o laço, com todos os pigarros e cochichos. Silêncios envergonhados, dolorosos, calm os, serenos, indiferentes, abençoados, dourados ou nervosos; Garvey estava no centro de todos.

Bem , nesta noite, o Septeto do Porão apenas chafurdou no silêncio. Mais tarde, no apartam ento de água fria, debruçados sobre um a garrafa de "um vinhozinho tinto apropriado" (passavam por um a fase que os levava a contactar a realidade real), despedaçaram o silêncio e preocuparam -se.

— Vocês viram que ele não parou de pegar no colarinho? Caram ba!

— É m esm o, m as eu devo adm itir que ele é quase "insensível". Quando alguém falou de Muggsy Spanier e Bix Beiderbecke, vocês repararam na expressão dele? Muito insensível. Eu queria ser assim , desligado, desprovido de em oções.

Pronto para dorm ir, George Garvey, refletindo sobre a extraordinária noite, descobriu que, quando perdia o controle da situação, quando conversava sobre m úsica ou literatura, entrava em pânico, congelava.

Isto, ao que parece, não preocupava m uito aquelas visitas um tanto oblíquas. Para falar a verdade, quando se foram , apertaram -lhe a m ão com vigor e agradeceram -lhe pelas horas m aravilhosas que ali haviam passado.

Pela cidade, Alexander Pape exultava:

— O verdadeiro, o m aior especialista em chatice.

— Vai ver que agora ele está rindo de nós! — retrucou Sm ith, o poeta m enor, que, quando acordado, j am ais concordava com Pape.

— Vam os pegar Minnie e Tom ; eles vão adorar o Garvey. Um a noite única. Vam os ter assunto para m uitos m eses!

Sm ith, o poeta m enor, cerrou os olhos, presunçoso:

— Vocês repararam nas torneiras do banheiro? Têm água quente! Irritados, todos fitaram Sm ith.

A nenhum ocorrera a idéia de experimentá-las.

A curriola, ferm ento inacreditável, foi batendo em portas e j anelas, crescendo.

— Vocês ainda não conhecem o casal Garvey ? Meu Deus! Então é m elhor entrar logo no caixão! É impossível que o Garvey não ensaie! Ninguém consegue ser tão chato sem um pouco de Stanislavsky !

Nesse m om ento, o orador, Alexander Pape, que costum ava deprim ir o grupo com suas im itações perfeitas, com eçou a m acaquear o com entário, pausado e reflexivo, de Garvey :

— "Ulisses? Não é um livro sobre os gregos, um navio e um m onstro de um olho só? Com o?" Intervalo. "Ah..." Outro intervalo. "Entendo". Um recostar na cadeira. "Foi Jam es Joy ce quem escreveu Ulisses? Estranho, eu tinha certeza de que m e lem brava, anos atrás, no colégio..."

Mesm o odiando Alexander Pape por suas brilhantes im itações, o grupo contagiou-se com a continuação:

— “Tennessee William s? Não foi ele quem escreveu aquela valsa caipira?”

Todos insistiam :

— Anda logo, diz logo onde é que m ora esse Garvey ?

O Sr. Garvey com entou com a m ulher:

— Caram ba! A vida anda engraçada ultim am ente. A m ulher retrucou:

— É você m esm o. Você reparou que eles prestam atenção em tudo o que você diz?

— É um a atenção tão obsessiva que parece chegar às raias da histeria. A m ínim a coisa que eu diga parece fazê-los explodir. Estranho. No escritório, as piadas que faço ficam pelas paredes. Aqui, por exem plo, hoj e, não tive a m enor intenção de ser engraçado. Deve ser um filãozinho de picardia que corre, inconsciente, tranqüilo, sub-repticiam ente, em tudo o que faço, em tudo o que digo. É bom saber que conto com essa reserva. Ah, a cam painha! Lá vam os nós, de novo!

Alexander Pape exultava:

— Ele é especialm ente incom um quando acordado às quatro da tarde. Um a m istura de cansaço com m oralidade de fin de siècle, a salada habitual.

Estavam todos um tanto agastados com Pape por ter sido dele a idéia de ir visitar Garvey à tarde. Mesm o assim , o interesse corria solto depois de um a m eia-noite de fim de outubro.

O inconsciente confiou, ao Sr. Garvey, um segredo íntim o: fora o Sr. Garvey o responsável pela abertura de um a nova tem porada teatral, cuj o sucesso dependia da perm anência da força entediante que inspirava nas pessoas. A despeito disso, saboreando, Garvey tentava adivinhar o m otivo por que aqueles lem ingues vinham se acotovelando em seu m ar particular. No fundo, fora um j ovem surpreendentem ente brilhante, em bora seus pais, nada im aginativos, tivessem -no sufocado num clim a de Leito Estranho e Abom inável. Daí, fora atirado num esprem edor de lim ões, ainda m aior: o Escritório, a Fábrica, a Esposa. Resultado: um hom em cuj as potencialidades eram um a bom ba-relógio bem ali, na própria sala de estar. O inconsciente reprim ido de Garvey reconhecia, de certo m odo, que os vanguardistas j am ais haviam conhecido alguém com o ele, ou m elhor, j á haviam conhecido m ilhões de pessoas com o ele, m as j am ais haviam parado para estudar um a delas.

E lá estava ele, a prim eira das celebridades do outono. Um m ês depois, talvez fosse algum abstrato de Allentown — que talvez trabalhe num a escada de dois m etros de altura, e pinte, com tinta dom éstica, em duas cores apenas, azul e cinza-nuvem , ou, com instrum entos de confeitar bolos ou aerossóis de inseticidas, pinte telas revestidas com cam adas de m ucilagem e borra de café — e que precise apenas de algum reconhecim ento para subir. Ou então um funileiro, m anufaturador de m óbiles, de Chicago, de quinze anos de idade, j á carregando a velhice da sabedoria. O inconsciente perspicaz do Sr. Garvey ficou ainda m ais desconfiado ao com eter o grave erro de ler a revista predileta dos vanguardistas, a Nucleus.

— Olha só esse artigo sobre Dante! Fascinante! Principalm ente quando coloca em discussão as m etáforas espaciais contidas nos contrafortes do Antipurgatorio e do Paradiso Terrestre no topo da Montanha. A parte que fala dos Cantos XV -XVIII, os cham ados "cantos doutrinários", é brilhante!

A reação do Septeto do Porão?

Estupefatos, todos!

Houve um arrepio perceptível.

E foram saindo de fininho quando, em vez de agir com o um delicioso m assificado, com o um suj eito preocupado em acom panhar o status dos vizinhos, um suj eito dom inado pela engrenagem , de vida desenxabida, em desespero m udo, Garvey os deixou exasperados com suas opiniões sobre Does Existentialism Exist, or is Draft-Ebbing? Não queriam dele, inform ou o inconsciente, opiniões de flautim , sobre alquim ia ou sim bolism o. Queriam apenas o habitual pão com m anteiga caseira derretida, para irem rum iná-lo m ais tarde nalgum bar, à m eia-luz, e exclam ar "que delícia!"

Garvey recuou.

Na noite seguinte, retom ara o antigo e precioso eu. Dale Carnegie? Esplêndido líder religioso! Hart Schaffner & Marx? Melhores que Bond Street! Mem bro do Clube do Pós-Barba? Garvey era. O últim o Livro-do-Ano? Está ali m esm o em cim a da m esa! Será que j á haviam experim entado Elinor Gly n?

Horrorizado, deliciado, o Septeto do Porão. Concordaram com a agressão de ouvir o program a de Milton Berle. Garvey ria de tudo o que Berle dizia. A vizinhança dera um j eito de gravar diversas novelas radiofônicas, que iam ao ar durante o dia, e Garvey, à noite, passou a ouvir as gravações, enquanto o Septeto do Porão analisava-lhe a fisionom ia e a devoção irrestrita a Ma Perkins e a John 's Other Wife.

Garvey estava ficando esperto. O eu interior com entava: você está no alto! Fique aí! Agrade o público! Am anhã, coloque os discos das Two Black Crows [As Duas Gralhas Negras]! Olhe onde você está pisando! Bonnie Baker, ora... é isso! Eles serão tom ados de sobressalto, não acreditarão que você gosta m esm o de ouvi-la cantar. E Guy Lom bardo? Eis o ingresso!

A m entalidade de rebanho, observou o inconsciente. Você é um sím bolo da m ultidão. Eles vieram estudar a horrenda vulgaridade desse Hom em da Massa im aginário, que fingiam detestar. Mas a cascavel os deixou fascinados.

Adivinhando-lhe os pensam entos, a m ulher obj etou:

— Eles gostam de você. Garvey ponderou:

— De um m odo algo tem eroso. Fiquei acordado, pensando em por quê teriam vindo m e procurar. Eu sem pre m e odiei, m e entediei. Um idiota grisalho e tagarela. Não existe, em m inha m ente, sequer um pensam ento original. E tudo o que eu sei é: adoro a com panhia das pessoas. Sem pre quis ser gregário, e nunca tive oportunidade. Nos últim os m eses, tenho m e divertido a valer! Mas o interesse deles está dim inuindo. Quero as pessoas para sem pre! Para isso, que devo fazer?

O inconsciente forneceu um a lista de aquisições. Cerveja. Pouco criativo.

Biscoitos salgados. Deliciosamente "ultrapassados".

Passar na minha mãe. Pegar o quadro de Maxfield Parrish, aquele com marcas de moscas grudadas, desbotado de sol Palestra sobre o mesmo hoje à noite.

Lá pelo m ês de dezem bro, o Sr. Garvey andava realm ente receoso.

O Septeto do Porão j á se acostum ara a Milton Berle, a Guy Lom bardo. Tanto racionalizaram , de fato, que haviam chegado a um a posição de aclam ar Berle com o a verdadeira e única expressão do povo am ericano; e Lom bardo estava vinte anos à frente de sua época; as pessoas m ais sórdidas gostavam dele pelas razões m ais sim plórias possíveis.

Balançava o im pério de Garvey.

De repente, era apenas um a pessoa a m ais, j á não m ais divertia o gosto dos am igos; em vez disso, perseguia-os ao vê-los aderirem a Nora Bay es, ao Quarteto Knickerbocker, de 1917, a Al Johnson cantando "Onde Robinson Crusoe levava Sexta-Feira aos sábados à noite?" e a Shep Fields e seu Ritm o Ondulante. A redescoberta de Maxfield Parrish deixou o Sr. Garvey na extrem idade norte do pasto. De um dia para o outro, todos concordaram : cervej a é coisa de intelectual. É um a pena que tantos idiotas bebam cervej a!

Em resum o, os am igos desapareceram . Alexander Pape — corria o boato, por gozação — pensava em colocar água quente em seu apartam ento de água fria, um a m istificação abom inável, sufocada, entretanto, som ente depois do declínio de Alexander Pape entre os cognoscenti

Garvey suou para antecipar-se à transição do gosto! Aum entou a produção de "bocas-livres" e anteviu o retorno aos Fabulosos Anos Vinte, quando passou a usar calções largos, de m ulher, e exibir a m ulher num vestido saco, com um corte de cabelo m asculino, bem antes de qualquer um .

Porém , os urubus apenas vieram , com eram e desapareceram . Agora, com esse Gigante tem erário, a TV, a percorrer o m undo, estavam m uito ocupados em readerir ao rádio. Transcrições de Vic and Sade, de Pepper Young's Family, de 1935, contrabandeadas, eram disputadas em galas intelectuais.

Enfim , Garvey foi forçado a adotar um a série de dem onstrações de força, m iraculosas, concebidas e desenvolvidas por um eu interior aterrado.

O prim eiro acidente foi a batida de um a porta de carro.

Que decepou, por igual, a cabeça do dedo m indinho do Sr. Garvey.

No caos que se seguiu, pulando de um lado para o outro, Garvey pisou na cabeça do dedo e chutou-a para dentro do bueiro. Quando conseguiram pescá-la, j á não havia m ais m édico que conseguisse costurá-la de volta.

Um acidente feliz. No dia seguinte, passeando, ao passar por um a loj a de artigos orientais, Garvey viu um lindo "obj et d'art". O velho inconsciente, astuto, em vista do constante declínio de bilheteria e do fraco índice de audiência j unto à vanguarda, forçou-o a entrar na loj a e exaurir a carteira.

Alexander Pape exultou:

— Vocês viram o Garvey ultim am ente? Não percam .

— O que há com ele?

— Dedal de m andarim ...

Casual, Garvey fez um aceno de m ão.

—... um a antigüidade oriental. Os m andarins usavam -no para proteger as enorm es unhas que cultivavam , de doze centím etros.

Garvey pediu cervej a; revestido de um dedal dourado, o dedo m indinho em pinava.

— Todos detestam aleij ões, a visão de coisas faltando. Fiquei triste de perder o dedo, m as fiquei satisfeito com esse negócio dourado.

A m ulher de Garvey serviu a salada de verduras:

— Nenhum de nós j am ais vai ter um dedo tão bonito assim ! E George tem todo o direito de usá-lo!

Garvey ficou chocado, e encantado, ao ver retornar a popularidade, m oribunda. Ah, a arte! Ah, a vida! O pêndulo balançava, para um lado, para o outro, do com plexo ao sim ples, de volta ao com plexo. Do rom ântico ao realista, de volta ao rom ântico. O hom em esperto foi capaz de detectar periélios intelectuais, e de preparar-se para novas órbitas, m ais violentas. O brilho do inconsciente de Garvey sentou-se, com eu algum a coisa, e, por alguns dias, arvorou-se a cam inhar pelas redondezas, experim entando os m em bros incom uns. A coisa pegou fogo!

Desprezado j á há algum tem po, o outro eu se m anifestou, usando a língua de Garvey :

— Esse m undo é m esm o sem im aginação. Se eu sofresse, por acaso, um acidente na perna, j am ais usaria um a perna de pau. Não, senhor! Usaria um a perna de ouro incrustada com pedras preciosas, e parte da perna seria um a gaiola dourada; dentro da gaiola, estaria um pássaro azul, e o pássaro cantaria, durante m eus passeios, m inhas conversas com os am igos. E se tivesse o braço am putado, m andaria fazer um novo, de cobre e j ade, oco por dentro, com um com partim ento para gelo seco. E m ais cinco com partim entos, um para cada dedo. Alguém quer beber algum a coisa? Sherry ? Brandy ? Dubonnet? Calm o, eu abriria os dedos e encheria os copos. De cada um dos cinco dedos, cinco filões fresquinhos, cinco licores, ou cinco vinhos diferentes. Depois, fecharia as torneiras, e diria: agora, levantem os traseiros!

Mas, acim a de tudo, com o, quase sem pre, nosso olho desej a, de fato, ofender o próxim o, devem os arrancá-lo, diz a Bíblia. Foi a Bíblia, não foi? Se isso acontecesse com igo, j am ais usaria esses óculos pavorosos. Não, e nem tam pouco esses rem endos pretos, usados pelos piratas. Sabem o que eu faria? Mandaria um a ficha de pôquer para esse seu am igo que m ora na França, qual é m esm o o nom e dele? Matisse. E diria: seguem , dentro do envelope, um a ficha de pôquer e um cheque nom inativo. Por favor, pinte, nesta ficha, um olho hum ano, azul, m aravilhoso. Atenciosam ente, G. Garvey !

Bem , Garvey sem pre abom inara o próprio corpo. Seus olhos, pensava, eram pálidos, débeis e carentes de personalidade. Assim , não se surpreendeu quando, no m ês seguinte, sentiu o olho lacrim ej ar, inflam ar e transform ar-se num a im ensa lacuna!

Garvey ficou m uito chocado!

Mas, no íntim o, igualm ente satisfeito!

Com o Septeto do Porão a rir, com o se fosse um j úri de carrancas nos seus calcanhares, Garvey m andou a ficha de pôquer para a França com um cheque de cinqüenta dólares.

O cheque voltou, um a sem ana depois; não fora descontado.

Na correspondência seguinte, chegou a ficha de pôquer.

H. Matisse pintara um olho azul, único, m aravilhoso, com cílios e sobrancelhas delicadíssim os. H. Matisse aconchegara a ficha num estoj o de j óia, de pelúcia verde, deliciado, tanto quanto o próprio Garvey, com todo o em preendim ento.

A Harper's Bazaar publicou um a foto de Garvey com o olho de ficha de pôquer feito por Matisse, e outra de Matisse, em pessoa, pintando o m onóculo, depois de considerável experim entação com três dúzias de fichas!

H. Matisse tivera o bom senso de designar um fotógrafo para registrar o evento, com um a Leica, para a posteridade. E foi citado: "Depois de ter rej eitado vinte e sete olhos, encontrei finalm ente o que eu queria. Segue por entrega rápida para Monsieur Garvey!”

Reproduzido em seis cores diferentes, o olho repousava, m aliciosam ente, no estoj o de pelúcia verde. O Museu de Arte Moderna m andou im prim ir cópias para colocar à venda. E os Am igos do Septeto do Porão, quando j ogavam pôquer, usavam fichas verm elhas com olhos azuis, fichas brancas com olhos verm elhos, e fichas azuis com olhos brancos.

Porém , em Nova Iorque, um a única pessoa usava o m onóculo original de Matisse... o Sr. Garvey.

Garvey confidenciou à m ulher:

— Ainda sou um tédio enervante, m as agora, protegido pelo m onóculo e pelo dedal de m andarim , ninguém j am ais saberá que não passo de um boi horripilante. E se o interesse das pessoas dim inuir novam ente, podem os sem pre dar um j eito de perder um braço ou um a perna. Quanto a isso, não tenho a m enor dúvida! Consegui erigir um a fachada m aravilhosa; ninguém j am ais conseguirá identificar o velho cam pônio novam ente.

É com o disse a m ulher de Garvey, ontem à tarde:

— Já não penso m ais nele com o o velho George Garvey. Já m udou até o nom e. Quer ser cham ado de Giulio. E quando, algum as vezes, à noite, olho para ele e cham o "George", não há resposta. Lá está ele, o dedal de m andarim no dedo m indinho; no olho, o m onóculo, a Ficha de Pôquer de Matisse, azul e branca. Muitas noites, acordo e olho. E sabe de um a coisa? As vezes, parece, essa Ficha de Pôquer de Matisse m e dá cada piscada!