O País de Outubro
A Jarra
Era um a dessas coisas que se costum am guardar em j arras, num a tenda de um parque de diversões m am bem be, na periferia de um a aldeola pacata. Um a dessas coisas, em plasm a alcoólico, flutuantes, eternas sonhadoras, giratórias, de olhos abertos, m ortiços, que o encaram , m as não o vêem . A coisa vagava, na calada da noite alta, apenas o cricri dos grilos, os soluços dos sapos no charco úm ido. Um a dessas coisas, num a j arra grande, que fazem saltar o estôm ago, com o se se estivesse diante de um braço conservado num vidro de laboratório.
Mais um a vez, Charlie fitou-a, por longo tem po.
Por longo tem po, as m anzorras nuas, cabeludas no dorso, crisparam -se naquela corda que m antinha os curiosos à distância. Charlie pagara os dez cents e agora apreciava.
Estava ficando tarde. O carrossel am ansara, reduzido agora a um tinido m ecânico, indolente. Atrás de um a lona, os bate-estacas fum avam , praguej avam , j ogando pôquer. As luzes apagaram e im puseram , ao parque de diversões, um a aura veranosa. As pessoas dirigiam -se para casa, em curriolas, em filas. Nalgum canto, um rádio alardeou e apagou, enchendo de estrelas a vastidão do céu de Louisiana.
Para Charlie, o m undo era apenas aquela coisa pálida, lacrada num universo de soro. A boca m ole da Charlie, aberta, um a felicidade rósea, os dentes à m ostra; os olhos, intrigados, adm iravam , cism avam .
Alguém chegou pelas som bras, por trás, pequeno, ao lado da altura esquelética de Charlie.
— Olá! — a som bra saudou, acendendo-se no clarão da lâm pada. — O am igo ainda está por aqui?
— Estou — respondeu Charlie, com o se dorm itasse.
O dono do parque de diversões gostou da curiosidade de Charlie. Cum prim entou o velho conhecido, dentro da j arra.
— Não há quem não goste dele. Quer dizer, de um certo m odo, é claro. Charlie esfregou o m axilar afilado.
— O senhor j á... j á pensou em vendê-lo?
Os olhos do proprietário dilataram -se; depois, cerraram . O hom em bufou:
— Não. Isso aí atrai a clientela. Os fregueses gostam dessas coisas. E isso.
— Ora...
Charlie abateu-se. O proprietário ponderou:
— Bem , se aparecer alguém com dinheiro, talvez...
— Com quanto dinheiro?
— Bem , se aparecesse alguém com uns...
O proprietário estim ava, contava dedos, observava Charlie, e j untava um dedo no outro, contando.
— Bem , se aparecesse alguém com três, quarto, digam os, talvez sete ou oito... Charlie concordava, a cada m ovim ento, na expectativa. Ao percebê-lo, o proprietário subiu o preço.
—... talvez dez dólares, talvez quinze...
Preocupado, Charlie contraiu o cenho. O proprietário recuou.
—... digam os, se aparecesse com doze dólares... Charlie sorriu, largo. O proprietário concluiu:
—... poderia levar aquela coisa ali na j arra.
— Engraçado, eu tenho exatam ente doze dólares no bolso. E andei pensando no quanto eu seria respeitado se voltasse para Wilder's Hollow com um a coisa destas, e a colocasse na prateleira lá de casa. O pessoal iria m e respeitar, aposto.
— Bem , bem , então, escute...
A venda foi concretizada com a colocação da j arra no banco de trás da carroça de Charlie. O cavalo viu a j arra, esfregou os cascos, relinchou. A expressão do proprietário era de, quase, alívio.
— De qualquer m odo, eu j á estava cansado de ver essa porcaria por aí. O senhor não tem nada que agradecer. E ultim am ente, ela tem até m e provocado certos pensam entos, pensam entos estranhos... Bom , que linguarudo eu sou! Até a vista, fazendeiro...
Charlie se foi. As lâm padas azuis, nuas afastaram -se qual astros m oribundos; a noite aberta, escura, de Louisiana, envolvia carroça e cavalo. Havia apenas Charlie, o cavalo, que com passava os cascos, e os grilos.
E a j arra, atrás da boléia.
A j arra balançava, balançava. Tanto que derram ou. Dentro dela, a coisa cinza, insensível, era arrem etida contra o vidro, de um lado para outro, olhando, olhando, não vendo nada. Nada.
Charlie reclinou-se, acariciou a tam pa. A m ão, ao retornar, cheirava a um licor estranho, estava m udada, fria, trêm ula, em ocionada. Sim senhor — pensou. Sim senhor!
A j arra balançava, balançava, balançava...
Em Hollow, m uitos lam piões, verde-m usgo, verm elho-encarnado, j orravam um a luz em poeirada sobre hom ens am ontoados, que conversavam em m urm úrios, cuspiam sentados no recinto do Em pório.
Já conheciam aquele zunido de m am angava, e nem m overam os crânios, de cabelos castanhos, quando a carroça de Charlie balançou e parou. Os charutos eram m inhocas em brasa, as vozes eram coaxos de sapos, de noites de verão.
Efusivo, Charlie inclinava-se para cum prim entar.
— Alô, Clem ! Alô, Milt!
— Olá, Charlie! Olá, Charlie!
Os hom ens m urm uravam . Prosseguia a rixa política. Charlie cortou-a pela raiz.
— Eu trouxe um a coisa com igo. Trouxe um a coisa que vocês talvez queiram olhar.
Os olhos de Tom Carm ody, verdes à luz do lam pião, faiscaram na varanda do Em pório.
Para Charlie, Tom Carm ody era um suj eito que sem pre estava em varandas, na som bra, debaixo de árvores. E quando estava num a sala, sem pre procurava o canto m ais afastado, e ali ficava na escuridão, os olhos brilhando. Im possível saber o que fazia seu rosto; os olhos, sem pre a zom bar de você. E cada vez que olhava, a zom baria vinha de um m odo diferente. —•
— A gente não quer ver o que você trouxe não, bonequinha. Charlie cerrou o punho, olhou para a coisa. Insistiu.
— Está na j arra, parece um a espécie de cérebro, parece um a espécie de água-viva, um a espécie de... Por que vocês não vêm ver com os próprios olhos?
Alguém bateu o charuto, deixou cair a cinza rosada e esquipou para olhar. Solene, Charlie tirou a tam pa da j arra. Sob a luz im precisa do lam pião, a fisionom ia do hom em m udou.
— Ei! Que negócio é esse?
O prim eiro quebra-gelo da noite. Mais gente se levantou, indolente, e inclinou--se para ver; a gravidade puxou-os, fê-los cam inhar. Não fizeram esforço, apenas o suficiente para ficar com um pé atrás e evitar despencar dos rostos intrigados. Rodearam a j arra, o conteúdo.
E Charlie, pela prim eira vez na vida, usou de um a estratégia oculta; fechou com força a tam pa de vidro. E declarou, generoso:
— Se quiseram ver m ais, passem lá em casa. A coisa estará lá.
Gram ps Medknowe interpelou:
— Eu quero dar m ais um a olhada. Isso aí é um octopus?
Charlie sacudiu as rédeas. O cavalo deu o prim eiro passo tropeçado e seguiu.
— Apareçam ! Terei prazer em recebê-los.
— E sua m ulher? Será que vai gostar?
— Ela vai é chutar as nossas canelas!
Mas Charlie e a carroça j á desapareciam na lom bada da colina. Em pé, todos ficaram a m ascar as próprias línguas, com olhares atravessados para a escuridão da estrada. Ali da varanda, Tom Carm ody soltou um palavrão, silencioso...
Charlie subiu a escadinha do barraco, pousou a j arra no trono, eleito, na sala de estar. Daqui por diante, pensou, aquela m eia-água seria um palácio, com "im perador". É, era essa a palavra, "im perador", frio, alvo, tranqüilo, flutuando em seu lago particular, no alto, elevado, num a prateleira sobre um a m esa desconj untada.
A j arra — Charlie a observava — fazia ressecar a névoa fria que envolvia o lugar, à beira do charco.
— O que é que tem aí dentro?
A voz aguda, soprano, de Thedy, veio quebrar o encanto. Lá estava ela, à porta do quarto, olhando, o corpo m agro vestido em guinguão azul, bem alto,'os cabelos presos em am arrados castanhos por trás das orelhas averm elhadas. Os olhos m uito claros, iguaizinhos ao guinguão. Repetiu:
— Ei... o que é que tem aí dentro?
— O que lhe parece, Thedy ?
Thedy deu um passo curto adiante, num pêndulo indolente dos quadris, sem tirar os olhos da j arra; os lábios retesados exibiam dentes de leite, felinos.
A coisa pálida, m ortiça, ali j azia no líquido seroso.
Thedy relanceou um olhar azul m ortiço a Charlie; depois, à j arra, e girou num a m eia-volta súbita.
— Parece... parece com você, Charlie! Gritou e bateu a porta do quarto.
A reverberação nem perturbou o conteúdo da j arra. Mas, a Charlie, sim ; perm aneceu, desej ando a m ulher, com frenéticas batidas do coração. Bem m ais tarde, com o coração am ansado, conversou com a coisa dentro da j arra.
— Trabalho o ano inteiro no aluvial, até o coto do osso, e ela pega o dinheiro e vai visitar os parentes, na cidade dela, e fica nove sem anas direto. Não consigo controlar essa m ulher. Ela, os hom ens do em pório, todos riem de m im . Não é m inha culpa se não sei com o m antê-la ao m eu lado! Mas eu tenho tentado... Merda!
No plano filosófico, o conteúdo da j arra não em itiu qualquer conselho.
— Charlie?
Na porta da frente, alguém em pé.
Charlie virou-se, sobressaltado, e irrom peu num sorriso forçado. — Ô Charlie, nós pensam os... bem ... nós viem os dar um a olhada nessa, coisa... que você tem aí dentro da j arra...
Julho fora um m ês quente. Agosto chegara.
Pela prim eira vez, depois de m uitos anos, Charlie estava feliz, qual pé de m ilho que vinga depois da seca. Certa noite, foi gratificante ouvir as botas em poçarem no capim alto, ouvir o som de hom ens cuspindo na vala antes de porem os pés na varanda, o som de corpos pesados fazendo ranger as tábuas, e o estalo da casa quando outro om bro encostou-se no portal, e outra voz disse, ao tem po em que um pulso cabeludo enxugava os lábios:
— Posso entrar?
A inform alidade elaborada de Charlie convidou os recém -chegados a entrar. Havia cadeiras, caixotes para todos; no m ínim o, tapetes onde poderiam acocorar-se. E, no m om ento em que os grilos com eçaram a cocar as patas para o m urm úrio de verão, e os sapatos incharam as gargantas, qual senhoras papudas que gritam na grande noite, a sala j á estava entupida de gente de toda parte do aluvial.
Ninguém diria nada, no início. A prim eira m eia hora da noite, tem po para as pessoas chegarem , se instalarem , foi dedicada ao enrolar cuidadoso dos cigarros. Alinhado, o fum o era colocado nos sulcos de papel cru, enrolado, socado, da m esm a m aneira com que pensam entos, m edos e espantos eram carregados, socados e enrolados. Assim teriam tem po para pensar. Era possível ver-lhes os cérebros trabalhando enquanto dedilhavam cigarros e colocavam -nos em condições de serem fum ados.
Um a espécie de reuniãozinha de igrej a de interior. Sentados, acororados, encostados em paredes de taipa, todos, im buídos do tem or reverente, fitavam a j arra, na prateleira.
Não a fitavam de im ediato. Não, faziam -no lentos, casuais, com o se estivessem passando os olhos pela sala; deixavam que os olhos esbarrassem em velhos obj etos que lhes ocorressem à consciência.
E — por acaso, é claro — o foco daqueles olhos errantes convergia sem pre para o m esm o lugar. Num instante, todos os olhos da sala j á estavam todos ligados a ela, com o alfinetes espetados num a alm ofada fantástica. O único ruído, alguém chupava um sabugo de m ilho. Ou as crianças descalças correndo pelas tábuas da varanda, lá fora. Um a voz de m ulher, eventualm ente: "Vão lá para fora, crianças. Vão!" Com risinhos de água doce, corrente, os pés descalços iam rápidos assustar as rãs.
Na prim eira fila, naturalm ente, na cadeira de balanço, estaria Charlie, com um travesseiro enxadrezado por baixo do traseiro recostado, balançando, lentam ente, saboreando a fam a, o respeito, angariados pela posse da j arra.
Thedy poderia ser vista no fundo da sala, num bolo de m ulheres, som brias, quietas; aguardavam os m aridos.
Thedy parecia em vias de chorar de ciúm es. Mas não dizia nada, apenas observava os hom ens, e sua delicadeza inútil, entrarem na sala de estar, e sentarem ao pé de Charlie, contem plarem essa coisa — o Santo Graal? Os lábios de Thedy esfriaram , endureceram e não se dirigiram a ninguém , sequer um a palavra cortês.
Passado o período de silêncio, respeitoso, alguém , talvez o velho Gram ps Medknowe, de Crick Road, puxaria um escarro, bem do fundo de um a gruta interior, inclinar-se-ia para a frente, piscando, um edeceria os lábios, talvez, e seus dedos calosos m anifestariam um trem or curioso.
Era a senha para que todos se aprontassem para a conversa vindoura. Aprum ar-se-iam os ouvidos. Todos estavam im óveis, pareciam porcos atolados na lam a m orna, depois de um dia de chuva.
Gram ps ficou a contem plar, com a língua — de lagarto — m ediu os lábios, depois reclinou-se novam ente, e disse, com o sem pre, com a voz alta, rala, de um tenor velho:
— Estou im aginando o que será isso. Se é ele, ou ela, ou se é um a coisa qualquer. Certas noites, eu acordo, m e viro na esteira de palha e penso nessa j arra, guardada nessa escuridão im ensa. Penso nela flutuando no líquido, pacífica, pálida, com o um a ostra. As vezes até acordo Maw, e ficam os os dois a pensar...
Ao falar, Gram ps m ovia os dedos em pantom im a trem ulante. O dedão grosso costurava — todos os observavam — e os outros dedos, de unhas fortes, coleavam .
—...e ficam os os dois a pensar, deitados. E nos arrepiam os. Mesm o nas noites quentes, com as árvores suando, os m osquitos sem poder voar, de tão quentes, nós nos arrepiam os da m esm a m aneira, e viram os para lá, para cá, tentando dorm ir...
Gram ps voltou ao silêncio, com o se sua fala tivesse encerrado, para que outra voz pudesse falar da m aravilha, do espanto, da estranheza.
Juke Marm er, de Willow Sum p, lim pou o suor da palm a das m ãos na rótula dos j oelhos. Tranqüilo, proferiu:
— Me lem bro de quando eu era um garotinho. Eu vivia fungando o nariz. Tínham os um a gatinha que passava o tem po todo fazendo gatinhos. Por Deus do céu, ela dava cria toda vez que saía para brincar e pulava a cerca...
Juke falava com um certo tom de brandura sagrada, benevolente.
—...Bem , nós dem os os gatinhos, m as quando essa gatinha finalm ente foi em bora, todos os nossos vizinhos j á tinham recebido um ou dois gatos de nós, de presente. Então a m ãe correu até a varanda do quintal, com um a j arra grande, de quase dez litros, e encheu d'água até a borda. A m ãe disse: Juke, afogue os gatinhos! Eu m e lem bro, eu fiquei lá. Os gatinhos m iavam , corriam em volta, cegos, pequeninos, indefesos; e engraçado... m al haviam com eçado a abrir os olhos. Olhei para a m ãe, e disse: Eu não, m ãe! Faz você! A m ãe ficou lívida, disse que tinha que ser feito, que eu era a única pessoa à m ão, e entrou, foi m exer o purê e preparar a galinha. Eu... eu apanhei um ... gatinho. Segurei. Ele estava quente. Fez um som de m iado, e eu quis fugir, e nunca m ais voltar.
Juke acenava a cabeça, os olhos brilhantes, j ovens, m ergulhando no passado, renovando-o, m odelando-o com palavras, uniform izando-o com a língua.
— Abri a m ão, o gatinho caiu dentro d'água. O gatinho fechou os olhos, abriu a boca, querendo ar. Me lem bro dos dentes caninos à m ostra, da língua cor-de-rosa, esticada, e bolhas, subindo em fila para a superfície. Me lem bro, até hoj e, do m odo com o aquele gatinho ficou flutuando, depois que tudo term inou, flutuando de um lado para o outro, lento, sem se preocupar, olhando para m im , sem m e condenar pelo que eu fizera, m as, tam bém , sem gostar de m im .
Ahhhh...
Os corações aceleraram . Os olhos giraram nos eixos, iam de Juke à j arra, na prateleira; abaixaram -se e levantaram -se novam ente, apreensivos.
Houve um intervalo.
Jahdoo, o negro de Heron Swam p, parecia j ogar os olhos de m arfim , na cabeça, qual m elancólico m alabarista. As j untas dos dedos escuros contraíam -se, distendiam -se: gafanhotos vivos.
— Vocês sabem o que é aquilo? Vocês sabem ? Sabem ? Eu digo pra vocês. Aquilo é o centro da vida, tenho certeza! Deus acredita em m im , eu sei que é!
Jahdoo balançou, era um a árvore soprada por um vento, vindo do charco, que ninguém , exceto ele próprio, via, ouvia ou sentia. Os olhos giraram novam ente, com o se tivessem sido rem ovidos para vagar em liberdade. A voz costurou um tecido de fios negros, passando pelos lóbulos dos presentes e form ando, com eles, um desenho, sem respiração.
— A partir disso aí, lá no Charco de Middibam boo, é que todo tipo de coisa rastej ou. Cresceu m ão, cresceram pés, cresceu língua, e chifre, e desenvolveu. Um a am ebinha m inúscula, talvez. Depois saiu um sapo de garganta papuda! É!
Jahdoo estalou as j untas.
— Depois, babou nas j untas pegaj osas e... ERA HUMANO Isso era o centro da criação. Isso é Mam ãe Middibam boo, e dela viem os nós todos, há dez m il anos. Acreditem !
— Dez m il anos? ! — sussurrou Vovó Carnação.
— Isso é velho! Olhem ! Isso j á não se preocupa m ais, j á sabe de tudo. Está aí, com o costeletas de porco em banha de fritar. Isso tem olho, e não pisca, os olhos não parecem aflitos, parecem ? Não, senhor! Isso j á sabe de tudo. Isso sabe que nós fom os feitos dele, e vam os voltar para ele!
— Qual é a cor dos olhos dele? -Cinza.
— Não, é verde!
— E a cor do cabelo? Castanho?
— Preto?
— Verm elho!
— Não, cinza!
E Charlie daria sua opinião, arrastando a fala. Certas noites, diria a m esm a coisa. Outras, não. Não tinha im portância. No auge do verão, m esm o que você diga a m esm a coisa, noite após noite, sem pre parece diferente. Os grilos alteravam -na. Os sapos alteravam -na. A coisa na j arra a alterava. Charlie disse:
— E se um velho, ou m esm o um garoto, voltasse para o pântano e vagasse, perdido, por anos e anos, naquela lam a m ovediça, pelas picadas, valas, pelas velhas ravinas encharcadas, pela noite, a pele ficando pálida, sentindo frio, encarquilhando? Tão distantes do sol, eles definhariam cada vez m ais e, por fim , afundariam num buraco de estrum e, e ali ficariam num a espécie de... ralé... com o larva de m osquito, dorm indo em água de poço. Porque, porque... pelo que sabem os, isso pode ser qualquer conhecido nosso! Alguém com quem eventualm ente j á tenham os trocado um a ou outra palavra. Pelo que sabem os...
Dentre as m ulheres, lá no fundo, no escuro, surgiu um assobio. Em pé, com os olhos brilhantes, um a m ulher procurava palavras. O nom e era Sra. Tridden, ela m urm urou:
— Todos os anos, m uitas criancinhas vão brincar no pântano, nuas em pelo. Correm , correm , e não voltam . Eu m esm o j á quase m e perdi por lá. Foi assim que eu perdi m eu filhinho, o Foley. Vocês... vocês não im aginam !
A respiração estava presa nas narinas, constrangidas, apertadas. Bocas retorciam -se nos cantos, puxadas por m úsculos endurecidos, contraídos. As cabeças pendiam em talos de aipo — os pescaços — e os olhos percebiam -lhe o horror, a esperança. A coisa estava no corpo da Sra. Tridden, retesado, agarrado à parede, de costas, os dedos duros, esticados.
— Meu filho! — exalou num sussurro. — Meu Filho! Meu Foley ! Foley ! E você, Foley ? Foley ! Diga, Foley, m eu filho, é VOCÊ?
Todos prendiam a respiração, voltando os olhos para a j arra.
A coisa na j arra não disse nada. Apenas fitava, branca, cega, a m ultidão. E no fundo daqueles ossos despidos, o fluido de um tem or secreto escorreu com o o degelo da prim avera; a calm a, a fé, a hum ildade benevolente, resolutas, foram corroídas, com idas pelo fluido, e fundiram -se na torrente. Alguém gritou.
— Mexeu!!
— Não, não, não m exeu não. É ilusão de ótica!
— Eu j uro — exclam ou Juke. — Eu o vi flutuar igualzinho a um gatinho m orto.
— Calm a, calm a. Ele j á está m orto há m uito tem po. Talvez antes m esm o de você ter nascido!
— Um sinal; ele fez um sinal! — gritou a Sra. Tridden. — É o m eu Foley ! É o m eu filhinho que está aí! Ele tinha três aninhos. É o m eu filhinho que se perdeu e m orreu no pântano.
Irrom peu em soluços.
— Calm a, Sra. Tridden. Calm a. Sente-se. Controle-se. Pode ser o m eu filho tam bém . Pronto... pronto.
Um a das m ulheres a tom ou pelos braços, aj udou-a a estancar os soluços, até vê-los transform arem -se num a respiração convulsiva, em lábios que trem iam com a rapidez de um a borboleta ante a passagem brusca da respiração, tem erosa.
Quando tudo se aquietou, Vovó Carnação, com um a flor m urcha, cor-de-rosa presa aos cabelos grisalhos que pendiam sobre os om bros, baforou o cachim bo no canto da boca. As palavras o envolveram , e Vovó sacudiu a cabeça e fez dançar os cabelos sob a luz.
— Quanto falatório! Quanto desperdício de palavras! Nós nunca vam os descobrir, nunca vam os saber o que é. E se descobrirm os, não vam os querer saber. É com o os truques dos m ágicos. Quando os descobrim os, as coisas que estão por debaixo da m anga perdem a graça. Já estam os nos reunindo aqui a cada dez noites, m ais ou m enos. A razão diz que se form os ver o que é esta coisa aí, não haveria m ais nada com que nos preocupar, e pronto!
— Ora, m ande isso aí para o inferno! — trovej ou um a voz bovina. — Eu acho que isso aí não é nada!
Tom Carm ody.
Tom Carm ody lá estava, com o sem pre, na som bra. Lá fora, na varanda. Apenas os olhos penetravam , e os lábios riam , ligeiram ente, fazendo pouco. A risada tocou Charlie com o um a picada de m arim bondo. Fora idéia de Thedy. Thedy pretendia m atar a nova vida de Charlie; se pretendia!
Carm ody insistiu, áspero:
— Nada! Isso aí na j arra não passa de um am ontoado de água-viva do Mar de Cove, é um a coisa podre e fedorenta!
— Será que você não está com ciúm es, prim o Carm ody ? — retrucou Charlie, espaçado.
— Deixe disso — bufou Carm ody. — Eu só venho aqui para ver tantos crédulos e idiotas se preocuparem com nada. Vocês j á repararam que eu não botei os pés aí dentro, e nem participei. Eu vou é para casa. Alguém quer vir com igo?
Ninguém se ofereceu para acom panhá-lo. Carm ody riu novam ente, com o se a negativa fosse um a piada ainda m aior, com o era possível tanta gente fora de si. Thedy ancinhava a palm a da m ão, com as unhas, lá no fundo, num canto da sala. Charlie viu retorcer a boca de Thedy. Fazia frio. Charlie não conseguiu falar.
Sem parar de rir, Carm ody proj etou-se varanda afora com o retum bar de suas botas de saltos altos; o som dos grilos levou-o em bora.
Vovó Carnação m ascou o cachim bo.
—Com o eu estava dizendo antes da tem pestade: aquela coisa na prateleira, por que ela não pode ser um a espécie de... todas as coisas? Muitas coisas. Todos os tipos de vida... de m orte... eu não sei. Um a m istura de chuva, de sol, de estéreo, de geléia, tudo isso j unto. Capim , cobras, crianças, neblina e todas as noites, todos os dias no bam buzal estagnado. Por que tem que ser um a coisa só? Talvez sej am m uitas.
E a conversa prosseguiu tranqüila por m ais um a hora, e Thedy escapuliu na noite, na trilha de Tom Carm ody, e Charlie com eçou a suar. Aqueles dois estavam planej ando algum a coisa. Ah, esses dois! Estavam m esm o planej ando algum a coisa. Até o fim da noitada, Charlie sentiu m uito calor, suou m uito.
A reunião acabou tarde, e Charlie foi se deitar, tom ado por em oções controversas. A reunião saíra a contento, m as... e Thedy e Tom ?
Bem m ais tarde, o m ovim ento de um bando de estrelas no céu m arcou a passagem da m eia-noite. Charlie ouviu o passo em poçado de Thedy, no capim alto, m arcado pelo pêndulo indolente dos quadris. Os saltos bateram leves pala varanda, entraram em casa, entraram no quarto.
Na cam a, deitada, olhos felinos fitam Charlie. Charlie não o$ via m as podia senti-los.
— Charlie? Charlie esperou. Depois:
— Estou acordado. E Thedy esperou.
— Charlie?
— O que é?
— Aposto que você não sabe onde eu fui. Você não sabe onde eu fui, aposto...
O estribilho da noite, debochado, tranqüilo.
Charlie esperou.
Thedy esperou tam bém . Mas não conseguiu esperar m uito.
— Fui ao parque de diversões em Cape City. Tom Carm ody m e levou. Nós... nós conversam os com o proprietário, Charlie. Conversam os, Charlie. Se conversam os!
Thedy soltou um risinho, algo secreto.
Charlie congelou. Levantou-se, perm aneceu apoiado num dos cotovelos. Thedy prosseguiu, insinuante:
— Nós descobrim os o que é que tem dentro da j arra, Charlie. , Charlie sentou-se, pesado, na cam a, levou as m ãos aos ouvidos.
— Não quero ouvir.
— Mas você tem que ouvir, Charlie. É um a piada e tanto. Coisa rara, Charlie. Thedy assobiou.
— Vá em bora.
— Ah, não. Não, senhor Charlie. Por quê? Não, Charlie... querido. Não antes de contar!
— Vá em bora.
— Eu vou contar. Nós conversam os com o proprietário, e ele... ele quase m orreu de rir. Disse que vendeu a j arra, a e coisa que estava nela, para um , um ... (soluço) por doze dólares. E que aquilo vale no m áxim o dois dólares!
A gargalhada encheu a escuridão, da boca de Thedy ; um a gargalhada horripilante.
Thedy com pletou, rápida, estridente:
— Isso não vale nada, Charlie! É borracha, papier-m achê, seda, algodão, ácido bórico! É só isso, Charlie! Com um aro de m etal por dentro. Só isso, Charlie, só isso!
— Pára, pára!
Rápido, aos berros, Charlie levantou-se, os dedos grossos rasgaram os lençóis.
— Eu não quero ouvir nada! Eu não quero ouvir! Charlie gritava, gritava.
— Espere até que todo m undo saiba do em buste! Eles vão rir, ah, se vão! Vão chacoalhar os pulm ões!
Charlie pegou-a pelos pulsos.
— Você não vai contar nada a eles!
— Você não quer que eu passe por m entirosa, quer, Charlie? Charlie girou-a, largou-a.
— Por que você não m e deixa em paz? Sua im unda! Im unda, venenosa, você tem ciúm es de tudo o que eu faço. Abaixei a sua crista quando trouxe a j arra para casa, não foi? Você não dorm iu até conseguir estragar tudo, não foi?
Thedy riu.
— Então não vou contar nada a ninguém . Charlie fitou-a.
— Você estragou o m eu brinquedo. É isso o que im porta. Contar ou não, não tem im portância. O que im porta é que eu sei. E nunca m ais vou conseguir m e divertir. Você e o Tom Carm ody. Gostaria de fazê-lo parar de rir. Todos esses anos, ele ri de m im ! Bem , vá contar aos outros, é a m elhor coisa que você tem a fazer, vá se divertir às m inhas custas!
Com passos furiosos, Charlie pegou a j arra, a água rebentava. E Charlie a teria j ogado no chão; m as, trêm ulo, parou e pousou-a, com delicadeza, na m esinha de pés com pridos. Debruçou-se, soluçando. Se a perdesse, seria o fim do m undo. Já estava perdendo Thedy tam bém . A cada m ês que passava, se afastava cada vez m ais, intim idando-o, zom bando dele. Aqueles quadris, por m uitos anos, haviam sido o pêndulo que lhe possibilitaram m arcar o tem po da vida. Mas agora, outros hom ens, e Tom Carm ody era um deles, tam bém m arcavam o tem po na m esm a fonte.
Na expectativa, Thedy esperava que Charlie espatifasse a j arra no chão. Mas, não, Charlie acariciou-a, afagou-a, e acalm ou-se, gradualm ente. Pensou nas grandes noites do m ês que passou, noites profícuas, tantos am igos, tanta conversa pela sala. E isso, ao m enos, era bom . Mesm o que tudo o m ais não prestasse.
Lento, voltou-se para Thedy. Perdera-a para sem pre.
— Thedy, você não foi ao parque de diversões.
— Fui sim .
— É m entira! — retrucou, tranqüilo.
— Não é não.
— Esta... esta j arra tem que ter algum a coisa dentro dela. Algum a coisa além de toda essa sua porcariada. Muita gente acredita que haj a algo nela, Thedy. Isso você não vai conseguir m udar. O proprietário do parque de diversões, se é que você conversou m esm o com ele, m entiu.
Charlie retom ou o fôlego, do fundo do peito.
— Vem cá, Thedy.
— O que é que você quer? — respondeu Thedy, m al-hum orada.
— Vem cá...
Charlie deu um passo na direção de Thedy.
— Vem cá.
— Fique longe de m im , Charlie.
— Só quero lhe m ostrar um a coisa.
A voz de Charlie saiu suave, baixa, insistente.
— Aqui, gatinho. Vem , vem ... tsss tss tss. AQUI GATINHO!
Mais um a noite, um a sem ana depois. Gram ps Medknowe, Vovó Carnação chegaram , e depois deles o j ovem Juke, a Sra. Tridden e Jahdoo, o negro. E todo o resto, m oços e velhos, doces e am argos, fazendo ranger as cadeiras, cada qual, na m ente, com um pensam ento, um a esperança, um tem or, um devaneio. Não olhavam para o santuário; apenas, baixinho, diziam "alô" para Charlie.
Esperaram pelos dem ais, para a reunião. Pelo brilho dos olhos, era possível perceber que cada um via um a coisa diferente na j arra, um a coisa de vida, de vida após vida m ortiça, de vida na m orte, de m orte em vida, cada qual com um a história, um a sugestão, com obj etivos distintos, velhos, todos, porém renovados.
Charlie, sentado, sozinho.
Alguém esticou os olhos adentro do quarto vazio.
— Olá, Charlie. Sua esposa foi visitar os pais de novo?
— É. Foi até o Tennessee. Volta em duas sem anas. Nunca vi m ulher para gostar tanto assim de bater perna. Você conhece Thedy.
— Para bater perna, está sozinha, essa sua m ulher.
Vozes sussurradas conversam , aprontam -se; subitam ente, cam inhando pela varanda escura, os olhos fitando as pessoas dentro da sala... Tom Carm ody.
Do lado de fora da porta, os j oelhos arqueados, trêm ulos, os braços pendentes, sacudindo, lá estava Tom Carm ody. Olhava para o interior da sala, não ousava entrar. A boca aberta, sem rir. Os lábios úm idos, bam bos, sem rir. O rosto pálido, da cor-de-giz, com o se, há m uito, estivesse doente...
Gram ps ergueu os olhos até a j arra, lim pou a garganta.
— Caram ba! Eu nunca havia percebido tão bem ! Os olhos dele são azuis.
— Os olhos dele sem pre foram azuis! — confirm ou Vovó Carnação.
— Não, não — gem eu Gram ps. — Não foram sem pre azuis, não. Da últim a vez que viem os, eram castanhos.
Com um piscar, Gram ps enlevou o olhar.
— E tem m ais... o cabelo dele era castanho. Não era castanho o cabelo dele?
— Era sim — suspirou a Sra. Tridden.
— Não era não.
— Era sim .
Naquela noite de verão, Tom Carm ody tiritava, fitava a j arra. Charlie erguia os olhos para contem plá-la, enrolava um cigarro, à vontade, todo paz, todo calm a, seguro de sua vida, de seus pensam entos. Tom Carm ody, sozinho, percebia, na j arra, coisas que j am ais percebera. Todos viam o que Carm ody desej ava ver; todos os pensam entos fluíram , com o chuva que despenca e pára.
— Meu filho. Meu filhinho! — pensava a Sra. Tridden.
— Um cérebro! — pensava Gram ps. O negro agitou os dedos.
— Middibam boo Mam a!
O pescador torceu os lábios.
— Um a água-viva!
— Gatinho! Vem cá, gatinho... vem ... tsss tsss! — afogavam -se os pensam entos, e apoderavam -se dos olhos de Juke. — Gatinho!
— Tudo! Qualquer coisa! — estrilou o pensam ento encarquilhado de Vovó. — A noite, o charco, a m orte, as coisas m ortiças, as coisas m olhadas do m ar!
Silêncio. Depois, Gram ps sussurrou:
— Eu im agino... estou im aginando se é ele, ou ela, ou apenas um a coisa qualquer?
Charlie ergue os olhos, satisfeito; socava o cigarro, m oldava-o à boca. Depois, olhou para Tom Carm ody, e Carm ody j am ais riria de novo, lá da porta.
— Acho que nunca vam os saber. Claro, nunca vam os saber.
Devagar, Charlie balançou a cabeça, e instalou-se com as visitas, olhando, olhando.
Era um a dessas coisas que se costum am guardar em j arras, num a tenda de um parque de diversões m am bem be, na periferia de um a aldeola pacata. Um a dessas coisas em plasm a alcoólico, flutuantes, eternas sonhadoras, giratórias, de olhos abertos, m ortiços, que o encaram , m as não o vêem ...