O País de Outubro

Ray Bradbury · Capítulo 14 de 19

Páginas do PDF

O País de Outubro

O Vento

O telefone tocou às cinco e m eia da tarde. Era dezem bro, e j á escurecera há m uito tem po. Thom pson atendeu. -Alô.

— Alô, Herb?

— Allin?

— Sua m ulher está aí, Herb?

— Claro que está, por quê?

— Que pena!

Tranqüilo, com o fone na m ão, Herb Thom pson perguntou:

— O que é que há? Você está estranho.

— Queria que você viesse passar a noite aqui, hoj e.

— Mas hoj e vem gente aqui.

— Queria que você viesse passar a noite aqui. Quando é que sua m ulher vai viaj ar?

— Ah, na sem ana que vem . Vai ficar nove dias em Ohio. A m ãe dela adoeceu. Quando ela for, eu passo aí.

— Queria que você viesse hoj e.

— Se eu pudesse, iria. Você sabe, vem visita, m inha m ulher m e m ataria se eu fosse.

— Eu gostaria tanto que você viesse...

— Mas, o que é que há? É o vento, de novo?

— Não, não. Nada disso.

Thom pson insistiu:

— É o vento?

A voz hesitou ao telefone.

— É. É o vento, sim .

— Mas a noite está clara. Não está ventando m uito.

— Mas está o bastante. Está entrando pela j anela, a cortina está balançando um pouquinho. O bastante para eu saber.

— Escuta, por que você não vem para cá, e passa a noite aqui? Herb Thom pson passou os olhos pelo corredor ilum inado.

— Não, não, Herb. Não dá m ais tem po. Talvez ele m e pegue no m eio do cam inho. É m uito longe. Não quero m e arriscar. Mas, obrigado assim m esm o. São cinqüenta quilôm etros, m as obrigado assim m esm o.

— Tom e um a pílula para dorm ir.

— Eu fiquei em pé na porta por um a hora, Herb. Estou vendo-o form ar-se a oeste. Tem algum as nuvens lá, e um as delas, eu vi, se desgarrou. Vai ter vento, sim senhor.

— Bem , então tom e um a pílula para dorm ir, das boas. E telefone para cá, a qualquer hora. Tarde da noite, se você quiser.

A voz perguntou, do outro lado:

— A qualquer hora?

— Claro!

— Então, vou telefonar. Mas o que eu gostaria m esm o é que você viesse para cá! Mas tam bém não quero prej udicar você. Não quero prej udicar m eu m elhor am igo. Talvez sej a m elhor m esm o eu enfrentar isso sozinho. Desculpe tê-lo incom odado.

— Porra, am igo é para isso m esm o! Escuta, por que você não se senta e escreve algum a coisa esta noite?

Ali no corredor, Herb Thom pson m udou o pé de apoio.

— Assim você esquece os Him alaias, o Vale dos Ventos e essa sua preocupação com tem pestades, com vendavais. Escreva m ais um capítulo do seu próxim o livro de viagens.

— É, talvez eu escreva m esm o. Talvez, não sei. Talvez. É, talvez. Bem , m uito obrigado por m e deixar im portuná-lo.

— Obrigado o cacete! Desliga logo essa porcaria, seu... Minha m ulher está m e cham ando para j antar.

Herb Thom pson desligou.

E foi sentar-se à m esa de j antar. A esposa, sentada em frente, do lado oposto, perguntou:

— Era Allin?

Herb confirm ou com a cabeça. A esposa passou-lhe o prato, com um m onte de com ida.

— Ele e os ventos! É vento que sobe, vento que desce, é vento quente, é vento frio!

— Ele passou m esm o um a tem porada feia no Him alaia, durante a guerra.

— Ora, você não acreditou naquela história do vale, acreditou?

— É um a boa história.

— Escalar, escalar as coisas. Por que os hom ens escalam m ontanhas? Para sentirem m edo?

— É que... com eçou a nevar.

— É m esm o?

— A chover, a cair granizo, a nevar, tudo ao m esm o tem po. Allin j á m e contou m ais de dez vezes. E ele conta bem . Estava m uito alto m esm o. Nuvens, e tudo o m ais. O vale fez um ruído.

— Claro que fez!

— Com o se fossem vários ventos, e não um só. Ventos de todas as partes do m undo...

Herb deu um a garfada.

—... é o que Allin diz.

— Para com eçar, ele não deveria ter ido lá e olhado. Quando a gente fuça m uito, com eça logo a ter idéias. Os ventos com eçam a ficar zangados com a introm issão e passam a nos seguir.

Herb retrucou, seco:

— Deixe de ironia. Allin é m eu m elhor am igo.

— Isso tudo é bobagem .

— Não im porta, ele j á passou por m uita coisa. A tem pestade em Bom baim , um a outra ocasião, e dois m eses depois, o tufão na Nova Guiné. E um a outra vez, em Cornwall.

— Eu não posso sentir piedade por um suj eito que está sem pre encontrando vendavais, furacões, e que, por causa disso, fica com com plexo de perseguição.

Nesse instante, o telefone tocou.

— Não atenda...

— Mas pode ser im portante.

— Ora, é o Allin de novo.

Os dois perm aneceram sentados; a cam painha do telefone tocou nove vezes; com o nenhum dos dois fosse atender, aquietou-se, por fim . Term inaram de j antar. Lá na cozinha, a cortina m oveu-se, sutil, um a brisa leve entrava pela j anela ligeiram ente entreaberta.

O telefone tocou novam ente. Herb foi atender.

— Não posso deixar tocar assim ... Ah, alô, Allin!

— Herb! Ele chegou! Está bem aqui!

— Você está m uito perto do telefone. Recue um pouco.

— Fiquei em pé na porta, esperando. Vi a hora em que ele veio descendo a estrada, sacudindo as árvores, um a a um a até fazer sacudir as árvores aqui do j ardim e m ergulhar na m inha porta. Mas eu bati a porta na cara dele!

Thom pson não disse nada. Não conseguia pensar em nada, a m ulher o observava da porta do corredor. Mas, enfim , disse algo:

— Interessante!

— Já cercou a casa toda, Herb. Não posso sair, não posso fazer nada. Mas eu o enganei, deixei que pensasse que tinha m e pegado e na hora em que desceu para m e pegar, bati a porta na cara dele e tranquei-a! Eu estava bem preparado, j á tem sem anas que estou m e preparando!

— É m esm o? Conte lá, am igo Allin.

Herb Thom pson quis parecer j ovial, pois a m ulher o olhava; com eçou a suar no pescoço.

— Ele com eçou há seis sem anas...

— É m esm o? Ora, ora.

—... pensei que j á tivesse sum ido, que j á tivesse desistido de m e seguir, de m e pegar. Mas ele estava era só esperando. Há seis sem anas eu ouvi o vento rir, m urm urar pelos cantos da casa. Por um a hora, m ais ou m enos, não dem orou m uito e nem foi alto. Depois, foi em bora.

Thom pson confirm ava com a cabeça.

— Que ótim o! Que ótim o!

A m ulher o olhava.

— E, na noite seguinte, voltou. Chacoalhou as persianas, espalhou fagulhas pela cham iné! Por cinco noites consecutivas, cada vez um pouco m ais forte. Quando eu abri a porta da frente, ele avançou e quis m e puxar para fora, m as não teve força suficiente. Mas essa noite ele está forte.

— É ótim o saber que você m elhorou...

— Eu não estou m elhor coisa nenhum a! Sua m ulher está na escuta?

— Está.

— Ah, entendo. Sei que tudo isso parece bobagem , não é m esm o?

— Que nada! Pode continuar.

A m ulher voltou para a cozinha, Thom pson relaxou. Sentou-se num a cadeirinha próxim a ao telefone.

— Vam os, Allin, desabafe. Você vai dorm ir m elhor.

— Ele j á cercou a casa toda, Herb; parece um aspirador de pó gigante, fuçando as em penas. E está batendo nas árvores do j ardim .

— Esquisito, Allin, aqui não está ventando nem um pouquinho.

— Claro que não está, não é você que ele quer, sou eu.

— É, é um a explicação.

— É um assassino, Herb, o m aior caçador de vítim as, o m aior assassino pré-histórico, sacana. É um cão de fila, farej ador, querendo m e sugar para fora da casa, querendo m e encontrar. Ele coloca o narigão, gelado, em cim a da casa, inala o ar, e quando descobre que estou na sala de visitas, faz m ais pressão para aquele lado, e quando estou na cozinha, ele vai tam bém . Agora está tentando entrar pelas j anelas, m as eu m andei reforçá-las, coloquei dobradiças novas nas portas, e trancas. A casa é m uito forte. Antigam ente, as construções eram m uito resistentes. Todas as luzes da casa estão acesas. A casa está toda ilum inada, clara. E o vento m e seguiu, de um côm odo ao outro, à m edida que eu ia acendendo as luzes, olhando pela j anela. Caram ba!

— O que houve?

— Ele acabou de arrancar a porta da frente!

— Gostaria que você viesse passar a noite aqui, Allin.

— Im possível! Por Deus, é im possível sair daqui. Não há nada que eu possa fazer. Eu conheço bem esse vento. É m uito forte, é inteligente. Há pouco, quando fui acender um cigarro, um a brisa sugou e apagou o fósforo. O vento gosta dessas brincadeiras, gosta de zom bar de m im , está se divertindo às m inhas custas; e tem a noite inteira pela frente. Agora, olha lá! Você tinha que ver isso. Um dos m eus livros de viagens, na m esa da biblioteca. Um a brisinha de nada deve ter entrado por algum buraquinho, só Deus sabe qual, e está virando as folhas, um a a um a. Você tinha que ver. È a parte da introdução. Você se lem bra da introdução do m eu livro sobre o Tibet?

— Lem bro sim .

— Este livro é dedicado a todos que perderam o jogo dos elementos, escrito por alguém que viu, mas que sempre conseguiu escapar.

— Claro, lem bro sim .

— As luzes se apagaram , Herb! O telefone estalou.

— As linhas de transm issão acabaram de cair. Herb, você está m e ouvindo?

— Estou ouvindo sim .

— O vento não gosta de toda essa luz acesa pela casa, e aí derrubou os postes. O telefone deve ser o próxim o. Meu Deus, que festa, eu e o vento! Espere um pouco.

—Allin?

Silêncio. Herb curvou-se, aproxim ou-se do bocal; a m ulher olhava, da cozinha. Herb Thom pson esperou.

— Allin?

— Voltei — disse a voz ao telefone. — Um a brisa estava entrando pela porta, e eu forrei por baixo, para evitar que ventasse nos m eus pés. Foi bom você não ter vindo, Herb, eu não iria querer vê-lo m etido nessa bagunça. Pronto! Acabou de quebrar um a j anela da sala de estar, e agora, aqui dentro, um a raj ada constante; está arrancando os quadros da parede. Está ouvindo?

Herb Thom pson escutou. Um ronco, de sirene, um sibilo, um a batida. Allin teve que gritar.

— Está ouvindo?

Herb Thom pson engoliu em seco.

— Estou.

— Ele quer que eu fique vivo, Herb. Não ousa derrubar a casa de um sopro só. Se o fizer, m e m ata. Mas ele m e quer vivo, para poder m e despedaçar, dedo por dedo. Ele quer o que está dentro de m im . Minha m ente, m eu cérebro. Quer m inha energia vital, m inha força psíquica, m eu ego. Ele só quer intelecto.

— Minha m ulher está m e cham ando, Allin. Tenho que ir enxugar a louça

— É um a nuvem de vapores, im ensa, são ventos de todas as partes do m undo. É o m esm o vento que levantou Celebes no ano passado, o m esm o pam peiro que provocou m ortes na Argentina, o tufão que se alim entou do Havaí, o vendaval que assolou a costa da África no início do ano. É parte de todas essas tem pestades de que escapei. E ele vem m e seguindo, desde o Him alaia, porque não quer que eu saiba o que sei a respeito do Vale dos Ventos, desse vale em que se reúnem e planej am toda essa destruição. -Algum a coisa, há m uito tem po, deu a ele um com eço no cam inho da vida. Sei onde ele se aum enta, sei onde nasce, sei onde algum as partes expiram . É por isso que ele m e odeia, e a m eus livros que ensinam a m aneira de destruí-lo. Ele não quer que eu continue pregando. Quer m e incorporar a seu corpo im enso, para que lhe dê sabedoria. Quer que eu passe para o lado dele!

— Eu vou ter que desligar, Allin. Minha m ulher...

— Hem ?.

Pausa; no telefone, o sopro do vento, ao longe.

—... O que foi que você disse? Herb desligou.

Foi enxugar a louça. A m ulher o olhou, ele olhou os pratos, ao esfregá-los com o pano de prato, perguntou:

— Com o está a noite lá fora?

— Está agradável. Não está m uito fria. Estrelas, por quê?

— Por nada.

Na hora seguinte, o telefone tocou três vezes. Às oito, as visitas chegaram , Stoddard e a m ulher. Conversaram até as oito e m eia e, depois, foram para a outra sala, arrum aram a m esa de j ogo e com eçaram a j ogar Gin.

Herb Thom pson em baralhou as cartas diversas vezes, causando um efeito de m urm úrio, de farfalho; deu as cartas, estalando-as na m esa, ao colocá-las, um a a um a, diante dos três j ogadores. A conversa oscilou, para um lado, para outro. Herb acendeu um charuto e deixou, na ponta, um a longa brasa cinzenta; aj eitava as cartas na m ão e, de vez em quando, levantava a cabeça, para escutar. Lá fora, nenhum ruído. A m ulher o pegou em flagrante e ele parou de escutar, im ediatam ente, e descartou um valete de paus.

Herb tirava baforadas lentas do charuto, todos conversavam calm os, com pequenas erupções de risos; e o relógio, no corredor, badalou nove horas.

— E aqui estam os nós...

Herb Thom pson tirou o charuto da boca e contem plou-o, reflexivo.

—... a vida é m esm o engraçada.

— Ahhnn? — perguntou Stoddard.

— Nada não; é que nós estam os aqui, vivendo nossas vidas, e em outros lugares da terra, m ilhões de pessoas estão vivendo as suas.

— Um a afirm ação um tanto ou quanto óbvia.

— A vida... — Herb levou o charuto de volta aos lábios —... é um a coisa solitária. Mesm o para os casados. Às vezes, m esm o nos braços de alguém , você se sente a quilôm etros de distância.

— Que ótim o — resm ungou a m ulher.

— Bem , não é exatam ente isso...

\M

Herb procurou explicar. Porém , sem pressa, pois não se sentia culpado. Prosseguiu, devagar.

— O que eu quero dizer é que todos acreditam os no que acreditam os e vivem os nossas vidinhas, e outras pessoas, enquanto isso, vivem vidas inteiram ente diferentes. Quer dizer, estam os aqui sentados, nesta sala, enquanto m ilhares de pessoas m orrem . Algum as de câncer, outras de pneum onia, outras m ais de tuberculose. Im agino que, nesse exato instante, alguém , nos Estados Unidos, acaba de m orrer num desastre de autom óvel.

A m ulher interveio.

— Esse tipo de conversa não é nada estim ulante!

— O que eu quero dizer é que vivem os sem pensar em que pensam os outros, ou em com o vivem suas vidas, em com o m orrem . Esperam os a m orte chegar até nós. O que eu quero dizer é que nós estam os aqui, sentados, em cim a de nossos ossos auto-afírm ados e, enquanto isso, a cinqüenta quilôm etros daqui, num casarão antigo, inteiram ente envolto pela noite, e só Deus sabe pelo que m ais, um dos suj eitos m ais incríveis que j á viveu até hoj e está...

— Herb!

Herb tirava baforadas do charuto, m ascava; olhava as cartas, sem vê-las.

— Desculpe...

E deu um a piscadela rápida para o charuto.

—... É m inha vez? -É.

Em volta da m esa, o j ogo prosseguiu, com o estalido das cartas, os m urm úrios, a conversa. Herb Thom pson afundou-se na cadeira, parecia doente.

O telefone tocou. De um salto, Herb correu e atendeu, tirou-o do gancho com um safanão.

— Herb? Estou telefonando há horas. Com o é que estão as coisas por aí?

— Com o assim ?

— As visitas, j á chegaram ?

— Merda, j á...

— Vocês estão conversando, rindo, j ogando baralho?

— Claro, m erda, m as qual é a relação...

— Você está fum ando seu charuto de dez cents?

— Porra, estou; m as...

— Maravilha! — exclam ou a voz do outro lado. — Isso é m uito bom . Gostaria de estar aí. Gostaria de não saber as coisas que sei. Gostaria de tantas coisas.

— Você está se sentindo bem ?

— Por enquanto, estou. Me tranquei na cozinha. Um pedaço da parede da frente da casa desm oronou. Mas j á planej ei a retirada. Quando a porta da cozinha ceder, desço para o porão. Se tiver sorte, talvez consiga ficar lá até de m anhã. Ele vai ter que esfacelar a casa para m e pegar, e o chão do porão é m uito sólido. Tem um a pá, lá em baixo, e talvez eu cave um buraco... fundo.

No telefone, o som parecia de m uitas vozes. Um arrepio gelado percorreu Herb Thom pson.

— O que é que está acontecendo?

— Ah, isso? São as vozes das doze m il pessoas m ortas num tufão, das sete m il m ortas num vendaval, e das três m il soterradas por um ciclone. Estou incom odando? É isso o que o vento é. Um a porção de gente m orta. O vento as m atou e ficou com suas m entes para adquirir inteligência. Ficou com todas as vozes e transform ou-as num a só. Milhões de pessoas m ortas nos últim os dez m il anos, torturadas, levadas de um continente para outro, nas costas, nas barrigas de m onções e rem oinhos. Meu Deus, dava um poem a e tanto!

O telefone ecoou, estrepitou com vozes, gritos e lam entos.

Na m esa de j ogo, a esposa o cham ou.

—Vem j ogar, Herb.

— É assim que o vento, ano após ano, fica m ais inteligente; ele se acrescenta a cada corpo, a cada vida, a cada m orte.

— Herb, nós estam os esperando — insistiu a m ulher. Herb virou-se, num quase rosnado.

— Merda! Quer esperar?! E, de volta, ao telefone:

— Allin, se você quiser que eu vá para aí, agora, eu vou. Eu deveria ter ido m ais cedo...

— Não, isso nem m e passa pela cabeça. Isso é um a vingança pessoal, você se m eter não iria adiantar. É m elhor eu desligar, a porta da cozinha não vai nada bem . Tenho que descer para o porão.

— Você vai telefonar m ais tarde?

— Se eu tiver sorte. Mas acho que não vou conseguir. Já escapei m uitas vezes, m as acho que dessa vez ele m e pegou. Espero não tê-lo aborrecido m uito, Herb.

— Você não aborreceu ninguém , Allin. Telefone depois.

— Vou tentar...

Herb Thom pson voltou para o j ogo. A m ulher fuzilava.

— Com o vai seu am igo Allin? Está sóbrio? Herb sentou-se, m al hum orado.

— Allin nunca tom ou um a única dose de bebida, em toda a vida. Eu deveria ter ido, três horas atrás.

— Mas ele j á vem telefonando há seis sem anas, toda noite, e você j á passou um as dez noites com ele, no m ínim o, e não aconteceu nada.

— Ele precisa de aj uda. Pode se m achucar.

— Você esteve lá há dois dias apenas; não pode ficar assim , correndo atrás dele.

— Logo de m anhã, a prim eira coisa, vou levá-lo para um sanatório. Eu não queria fazer isso. Ele é tão lúcido para outras coisas.

Às dez e m eia, o café foi servido. Herb bebeu devagar, com o olho no telefone. Será que j á desceu para o porão?, pensou.

Herb Thom pson foi até o telefone, discou interurbano, deu o núm ero.

— Sinto m uito — inform ou a telefonista — o distrito cham ado está com as linhas interrom pidas, senhor. As linhas caíram . Quando forem consertadas, com pletarem os a ligação.

— Quer dizer, então, que as linhas caíram m esm o?!

Herb deixou cair o fone no gancho. Virou-se, abriu a porta do arm ário, com violência, e apanhou o casaco. Voltou-se para as visitas, surpresas, e para a m ulher, ela com a cafeteira na m ão.

— Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!

— Herb!

Herb vestiu o casaco.

— Eu tenho que ir lá!

Na porta, um ligeiro trem or.

Na sala, atentos, paralisaram , todos.

— Quem será? — perguntou a m ulher de Herb. O trem or repetiu-se, ligeiro, silencioso. Thom pson apressou-se, no corredor; parou, alerta. Lá fora, ouviu um a risada abafada.

— Não é possível!

Levou a m ão à m açaneta, num susto agradável, de alívio.

— Conheceria essa risada em qualquer lugar. E o Allin. Deve ter pegado o carro, e vindo, afinal. Não deve ter conseguido esperar até de m anhã para m e contar toda aquela história confusa.

Thom pson sorriu um sorriso am arelo.

— E deve ter trazido alguns am igos. Estou ouvindo um a porção de... Herb abriu a porta.

A varanda, vazia.

Thom pson não dem onstrou surpresa; no rosto, um a expressão de satisfação, m aliciosa. Riu.

— Allin? Já chega de brincadeira!

Thom pson acendeu a luz da varanda, espiou, olhou em volta.

— Ei, Allin. Onde é que você se m eteu? Apareça, hom em . Um a brisa veio soprar-lhe o rosto.

Thom pson ali ficou, por um instante, e um arrepio súbito percorreu-lhe os ossos. Deu um passo no j ardim e olhou em volta, desconfortável, com m uito cuidado.

Um vento repentino chicoteou-lhe as lapelas do paletó, despenteou-lhe os cabelos. Pensou ter ouvido a risada novam ente. O vento envolveu a casa e, de um a só vez, com prim iu todo o lugar; depois, num a ventania de um m inuto, foi em bora.

O vento m inguou, triste; gem eu nas árvores altas, afastou-se. Voltou para o m ar, para Celebes, para Costa do Marfim , Sum atra, Cabo Horn, para Cornwall, para as Filipinas. Minguando, m inguando, m inguando.

Thom pson, gélido, entrou, fechou a porta, encostou-se nela, im óvel, os olhos cerrados. A m ulher perguntou:

— O que houve?