O País de Outubro

Ray Bradbury · Capítulo 17 de 19

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O País de Outubro

A Cisterna

 

Era um a tarde de chuva e de abaj ures acesos contra o cinza.

As duas irm ãs ali estavam , j á há algum tem po, sentadas na sala de j antar. Um a delas, Juliet, bordava roupa de m esa; a m ais nova, Anna, sentava-se, silenciosa, no parapeito da j anela, contem plando a rua escura, o céu escuro.

A testa contra o vidro, os lábios de Anna m overam -se e, depois de longa reflexão, disseram :

— Nunca tinha pensado nisso antes!

— Nisso o quê? — perguntou Juliet.

— Só agora m e ocorreu. Existe, na verdade, um a cidade debaixo de um a cidade. Um a cidade m orta, bem ali, debaixo dos nossos pés.

Juliet enfiou a agulha no pano branco, puxou do outro lado.

— É m elhor sair da j anela. A chuva deve estar afetando você.

— Não, não é isso não. Você, algum a vez, j á parou para pensar nas cisternas? Estão pela cidade toda, um a para cada rua, e você pode cam inhar por elas sem bater com a cabeça, e elas passam por diversos lugares e depois vão desaguar no m ar.

Fascinada, Anna. A chuva batia no asfalto, a chuva caía do céu e desaparecia nas grades das quatro esquinas lá adiante!

— Você gostaria de m orar num a cisterna?

— Eu não!

— Mas seria divertido, não seria? Quer dizer, seria... secreto. Morar na cisterna e olhar pelos buracos, ver as pessoas sem que elas nos vej am . É com o ser criança e brincar de esconder, e ninguém nos achar, e o tem po todo você estava bem ali no m eio de tudo, abrigada, escondida, agasalhada, em ocionada. Eu gostaria. É assim que deve ser m orar na cisterna.

Devagar, Juliet desviou os olhos de sua tarefa.

— Você é m inha irm ã, não é, Anna? Você nasceu, não nasceu? Certas vezes, do j eito que você fala, dá a im pressão de que a m am ãe encontrou você, um belo dia, debaixo de um a árvore, trouxe você para casa, plantou num vaso, você ficou desse tam anho, e agora está aí, e parece que não vai m udar nunca.

Anna não respondeu e Juliet voltou à agulha. Na sala, não havia cor; as duas irm ãs, nenhum a delas, adicionava qualquer colorido. Anna perm aneceu com a cabeça apoiada na j anela por cinco m inutos. Depois, divagou na distância.

— Você pode dizer que é sonho, se quiser. Quer dizer, essa hora que eu passei aqui. Pensando. E foi m esm o, Juliet. Foi um sonho.

Foi a vez de Juliet não responder. Anna sussurrou:

— Esse aguaceiro m e deixou m eio sonolenta, eu acho, e aí com ecei a pensar na chuva, de onde ela vinha, para onde ia, na m aneira com o ela desce pelos buracos j unto ao m eio-fio; depois m eu pensam ento foi bem lá para baixo e, de repente, lá estavam eles. Um hom em ... e um a m ulher. Lá na cisterna, debaixo da rua.

— E estavam fazendo o quê? — perguntou Juliet.

— Tem que ter m otivo?

— Não, se forem m alucos, não. Nesse caso, m otivos ná"o são necessários. Se os dois estão lá na cisterna, que fiquem lá.

Ciosa, a cabeça derreada, Anna m exia os olhos, sob pálpebras sem icerradas.

— Mas eles não estão lá por estar. Não, eles estão apaixonados, os dois.

— Pelo am or de Deus, Anna. Será que o am or os fez se arrastarem lá para baixo?

— Não, eles j á estão lá há anos e anos. Juliet protestou:

— Com o é que você sabe que eles estão lá em baixo por tanto tem po assim , m orando j untos?

— Eu falei que estavam vivos? — Anna indagou, surpresa. — Não. Não estão não. Estão m ortos.

Janela abaixo, a chuva am ontoava-se em bolas caóticas, que em purravam um as às outras. Os pingos vinham , j untavam -se aos outros e form avam filões.

— Ah, bom !

— Pois é — Anna saboreou. — Mortos. Ele está m orto, ela está m orta.

A idéia pareceu gratificá-la; um a grande descoberta. Anna sentia-se orgulhosa.

— Ele parece um hom em solitário, que nunca viaj ou em toda a vida.

— Com o é que você sabe?

— Ele parece o tipo de hom em que nunca viaj ou, m as que sem pre teve vontade de viaj ar. Pode-se ver nos olhos dele.

— Então você sabe com o ele é?

— Sei. É m uito doente e m uito bonito. Você sabe com o é, quando um hom em fica bonito por causa de doença? A doença ressalta os ossos do rosto.

— E ele está m orto? — insistiu a irm ã m ais velha.

— Já há cinco anos.

Anna narrava suave, as pálpebras levantavam , abaixavam . Com o se estivesse prestes a contar um a história com prida e, ciente disso, desej asse trabalhá-la com m uito vagar e depois se apressasse, m ais depressa, até que o próprio m om entum a fizesse continuar, com olhos esbugalhados e lábios entreabertos. Nesse m om ento, porém , Anna seguia devagar, apenas um leve ardor na narração.

— Há cinco anos, esse hom em cam inhava pela rua e sabia que, j á por m uitas noites, cam inhara pela m esm a rua, e que continuaria a cam inhar por ela, e então se deparou com um a tam pa de visita, um desses waffles enorm es, de ferro, no m eio da rua, e ouviu o rio fluir sob os pés, sob a tam pa de m etal, fluindo rum o ao m ar.

Anna estendeu a m ão direita.

— Ele abaixou-se, devagar, levantou a tam pa da cisterna e olhou lá para baixo, viu fluírem a espum a, a água, e- pensou em alguém que desej ava am ar, m as não podia, e então girou o corpo para firm ar-se na escada de m ão, e desceu pelos degraus de ferro até desaparecer...

— E ela? — perguntou Juliet, atarefada. — Quando m orreu?

— Não estou bem certa. Ela é nova. Acabou de m orrer. Mas está m orta, m aravilhosa, m aravilhosa.

Anna adm irou a im agem que form ara na m ente.

— Para ser verdadeiram ente bela, a m ulher precisa m orrer; e para ser a m ais bela, precisa m orrer por afogam ento. Assim se esvai toda rigidez, e o cabelo flutua na superfície d'água com o um a nuvem de fum aça.

Anna balançava a cabeça, deliciada.

— Não há, no m undo, escola, etiqueta e ensinam entos que façam um a m ulher m over-se assim , com a leveza de um sonho, dócil, ondulante, bela.

Com a m ão larga, áspera, Anna procurou representar toda essa beleza, toda essa ondulação e graça.

— E há cinco anos, ele espera por ela. Mas, ela, só agora, descobriu onde ele estava. E agora estão lá, e lá estarão daqui por diante... Na estação das chuvas viverão. Mas, na estação da seca — às vezes dem ora m eses — terão longos períodos de descanso, irão deitar-se em pequenos nichos ocultos, com o as flores m arinhas j aponesas, secas, com pactas, velhas, inertes.

Juliet levantou-se, acendeu m ais um abaj urzinho no canto da sala de j antar.

— Prefiro que você não fale m ais nisso. Anna riu.

— Eu queria contar com o foi que tudo com eçou, com o foi que retom aram a vida. Já elaborei a coisa toda.

Anna curvou-se, apoiou-se nos j oelhos e fitou a rua, a chuva, a entrada das cisternas.

— Eles estão lá, lá em baixo, e, lá em cim a, ó céu está eletrificado, granulado. Com um a das m ãos, Anna j ogou os cabelos opacos, j á algo grisalhos, para trás.

— Prim eiro, o m undo lá de cim a faz bolas. Vem o relâm pago e, depois, o trovão, e a seca acaba, e as bolinhas correm pelas calhas e caem nos bueiros. E levam , com elas, o invólucro dos chicletes, os ingressos dos cinem as, os passes dos ônibus!

— Agora saia da j anela.

Com as m ãos, Anna construiu um quadrado e im aginou coisas.

— Eu sei bem com o são as coisas lá por baixo da rua, lá na cisterna quadrada, grande. Ela é im ensa. Está vazia, depois de tantas sem anas de sol. E quando você fala, faz eco. O único som audível lá em baixo é o som do carro passando aqui em cim a. Muito acim a. Toda a cisterna parece um cam elo seco, oco, no deserto, a esperar.

Anna ergueu a m ão e apontou, com o se ela própria estivesse lá em baixo, na cisterna, a esperar.

— Agora, um fiozinho d'água. Escorre pelo chão. Com o se algum a coisa, no m undo externo, se ferisse e sangrasse. Alguns trovões! Ou foi um cam inhão?

Agora, Anna j á falava um pouco m ais rápida; m as o corpo, apoiado na j anela, descontraído, expirou, inspirou as palavras seguintes:

— E atravessa o chão. Depois, nos outros vazios, há m ais o que atravessar. Fios torcidos, cobras. Água com m anchas de cigarro. Depois, se m ove. Junta-se aos outros. Faz cobrinhas e, depois, um a sucuri grande que desliza pelo chão liso, cheio de papéis. De todos os lugares, do norte, do sul, das outras ruas, outros riachos chegam , j untam -se e form am um rolo sibilante, brilhante. E a água entra naqueles dois nichos secos, pequenos, de que falei, e vai ressecando. E sobe devagarinho e envolve os dois, o hom em e a m ulher, ali deitados com o flores j aponesas.

Anna j untou as m ãos, devagar, dedo por dedo, e entrelaçou-os.

— A água encharcara os dois. Prim eiro, levanta a m ão da m ulher. Num ligeiro m ovim ento. A m ão é a única parte viva nela. Depois, um braço se levanta, e um pé. E os cabelos...

Anna tocou os cabelos, caídos sobre os om bros.

—... liberam -se, desabrocham , com o um a flor, dentro d'água. As pálpebras, cerradas, estão azuis...

A sala escurecia, Juliet continuava o bordado, e Anna falava, contava tudo o que via na m ente. Contou com o foi que a água subiu e levou a m ulher, desem brulhando-a, liberando-a, aprum ando-lhe o corpo, ereto, dentro da cisterna.

— A água dem onstrou interesse nessa m ulher, e a m ulher se entrega. Depois de m uito tem po deitada, a m ulher está pronta para viver, de novo, a vida que a água desej a que viva.

Noutro canto qualquer, um hom em tam bém se aprum ou, ereto, dentro d'água. Anna tam bém falou disso e de com o a água arrastou o hom em , devagarinho, à deriva, e a m ulher, à deriva, até que os dois se encontraram .

— A água abre os olhos dos dois. Eles j á podem ver, m as não vêem um ao outro. Os dois giram , m as não se tocam ainda.

Anna fez um ligeiro m ovim ento com a cabeça, os olhos cerrados.

— Observam -se m utuam ente. Brilham , com o um a espécie de fósforo. Sorriem ... As m ãos se tocam .

Juliet, por fim , fez corpo duro, pousou o bordado e olhou fixa para a irm ã, lá do outro lado da sala cinzenta, envolta no silêncio da chuva.

— Anna!

— A m aré... faz com que se toquem . A m aré vem e os coloca j untos um do outro. O tipo perfeito de am or, sem ego, apenas dois corpos, m ovidos pela água, que o tom a puro, sem im perfeições. Assim , não há m aldade.

A irm ã gritou:

— Então, se você contar, atrapalha.

— Não, está tudo bem . — Anna virou-se, num instante, para insistir. — Eles não pensam , não é? Eles estão bem lá no fundo, tranqüilos, despreocupados.

Anna ergueu a m ão direita, pousou sobre a esquerda, bem devagar, bem suave, estrem ecendo, entrelaçando. A j anela chuvosa, com a luz fontícula, pálida, a penetrá-la, derram ou um m ovim ento de luz e água corrente sobre os dedos, fê-los parecer subm ersos, a m uitas braças de profundidade, fazendo desbzar uns sobre os outros, e encerrando o pequeno sonho de Anna.

— Ele, alto, tranqüilo, as m ãos abertas.

Com um gesto, Anna representou-lhe a altura, a tranqüilidade, dentro d'água.

— Ela, baixa, tranqüila, relaxada.

Anna olhou para a irm ã, m antendo a m ão na posição em que a deixara.

— Estão m ortos, sem ter para onde ir, sem ninguém para orientá-los. Lá estão, sem nada que se aplique a eles, sem nenhum a preocupação, bem secretos, escondidos debaixo da terra, nas águas da cisterna. As m ãos, lábios se tocam , e ao passarem por um escoadouro transversal da cisterna, a m aré os aproxim a. Então, depois...

Anna desenlaçou as m ãos.

—...talvez prossigam j untos a viagem , de m ãos dadas, baralhando as águas, flutuando por todas as ruas, dançando dancinhas m alucas, eretas, quando apanhados em rem oinhos súbitos.

Anna rodopiou as m ãos, um a raj ada de chuva veio bater na j anela. • — E descem para o m ar, atravessam toda a cidade, passam por m anilhas e m ais m anilhas, por ruas e m ais ruas. Genesee Avenue, Crenshaw, Edm ond Place, Washington, Motor City, Ocean Side e, a seguir, o oceano. Vão a todos os lugares que a água queira, por toda a terra, e, m ais tarde, voltam para a entrada da cisterna e voltam a flutuar debaixo da cidade, debaixo de um a dúzia de charutarias, de um as quatro dúzias de loj as de bebidas, de um as seis dúzias de arm azéns e dez cinem as, um entroncam ento ferroviário, a Rodovia 101, e sob os pés am bulantes de trinta m il pessoas que nem sequer conhecem a cisterna, sequer pensam nela. A voz de Anna vagou, sonhou, aquietou-se novam ente.

— E depois... o dia passa, o trovão desaparece lá por cim a da rua. A chuva pára. Term ina a estação das chuvas. Os túneis gotej am e param . A m aré desce.

Anna está desapontada, parece triste com o final de tudo.

— O rio flui para o oceano. O hom em e a m ulher sentem a água pousá-los, devagarinho, no chão. Os dois assentam .

Anna abriu as m ãos, em trem eliques, até o colo, e olhou-as, fixa, num anseio.

— Os pés perdem a vida que a água, cá de fora, fora dar a eles. Agora a água os pousa, lado a lado, e escorre, e os túneis secam . E eles ficam deitados. Lá em cim a, no m undo, o sol alvorece. E eles ficam deitados, na escuridão, dorm indo, até a próxim a vez. Até a próxim a chuva.

Sobre o colo, as m ãos de Anna, palm as voltadas para cim a, estão abertas.

— Bom hom em , boa m ulher...

Anna m urm urou, apoiou a cabeça nas m ãos e fechou os olhos, apertando. De repente, esticou-se, olhou para a irm ã. Os olhos faiscavam .

— Você sabe quem é aquele hom em ? — gritou, am arga.

Juliet não respondeu; nos últim os cinco m inutos, estivera a observar, conturbada, o desenrolar de tudo aquilo, a boca retorcida, pálida. Anna quase gritou:

— Aquele hom em é o Frank! É o Frank! E a m ulher... sou eu!

— Anna!

— É ele sim . É o Frank que está lá em baixo!

— Mas Frank j á m orreu há m uitos anos; e, com certeza, não é ali em baixo que ele está, Anna.

Anna, agora, não se dirigia a ninguém , e se dirigia a todos, Juliet, à j anela, à parede, à rua. Lam entou:

— Coitado do Frank! Sei que ele foi para lá. Ele não conseguia estar em nenhum lugar do m undo. A m ãe dele o m im ou contra o m undo inteiro! Então, ele viu a cisterna, viu que era secreta, escondida. Coitado do Frank. E coitada de Anna, coitada de m im , só tenho um a irm ã. Ah, Juliet, por que não fiquei com Frank quando ele estava aqui? Por que não lutei para tirá-lo da m ãe?

— Pare j á com isso! Ouviu bem ? Já!

Anna despencou no canto da sala, j unto à j anela, com u'a m ão ainda apoiada no parapeito. Chorou, baixinho. Minutos depois, ouviu a voz da irm ã.

— Já acabou?

— O quê?

— Se j á acabou, vem m e aj udar a term inar isso, eu vou dem orar anos.

Anna ergueu a cabeça, foi até a irm ã", deslizando pelo chão. Suspirou.

— O que você quer que eu faça?

— Isso e isso. — Juliet apontou.

— Está bem .

Anna pegou a costura e foi sentar-se j unto à j anela, olhando a chuva, m ovendo as m ãos com agulha e linha; m as — observava — a rua j á estava m uito escura, a sala, e difícil enxergar a tam pa redonda, m etálica, da cisterna. Lá fora, naquele fim de tarde enegrecido, tão enegrecido, apenas chispas e fagulhas de m eia-noite. O relâm pago rachou o céu, num a teia.

Meia hora se passou. No outro lado da sala, na poltrona, Juliet sentiu sono, tirou os óculos, pousou-os, j unto ao bordado, reclinou a cabeça, num instante, e cochilou. Uns trinta segundos depois, talvez, ouviu a porta da frente se abrir, com violência, ouviu o vento entrar, ouviu passos correrem na calçada, dobrarem a esquina e apressarem -se adentro da rua enegrecida.

—Ahnn?

Juliet aprum ou-se, tateou para apanhar os óculos.

— Quem é? Anna, quem chegou?

Juliet olhou o parapeito, onde Anna estivera, na j anela; vazio. Cham ou:

— Anna!

De um salto, foi até o corredor.

Pela porta da frente, aberta, a chuva entrava, num a brum a fina.

— Deve ter saído um instante.

Juliet tentava enxergar através do negror m olhado.

— Ela j á vai voltar. Não vai, Anna querida? Anna, responda, você vai voltar logo, não vai, irm ãzinha?

Lá fora, a tam pa da cisterna levantou-se e fechou, batendo.

Na rua, a chuva sussurrou; e, pelo resto da noite, caiu sobre a tam pa cerrada.