O Que Fazem Mulheres

Camilo Castelo Branco · Capítulo 8 de 23

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O Que Fazem Mulheres

Capítulo V

V

 

 

Inventou-se uma lua para os casados.

Os irracionais têm uma lua; essa entende-se, sabe-se o que é. Mas o aluarem-se, à força, os casados, é uma ideia ingrata à decência, feia, e desonesta.

Uma senhora inocente que diz: «lua de mel» suja os lábios, se preza a pureza deles; se, porém, sabe o que diz, se sabe o que é o favo, o mel da lua, desdenha o pudor, e despreza-se.

Os noticiaristas das gazetas aforaram a frase, sem saberem, talvez, que desaforavam as palavras. Os diários do Porto, em 1856, noticiaram assim um casamento:

Ontem às nove horas da manhã, contraíram o sacramento do matrimónio o Il.mo Sr. João José Dias, rico negociante que foi no Rio de

Janeiro, com a Ex.ma Sr.ª D. Ludovina da Glória Pimenta, filha do nosso amigo Melchior Pimenta. O Sr. Dias deve à fortuna a escolha duma noiva tão rica de prendas morais como de formosura angélica. A gentil menina encontrou um honrado protector, cuja fortuna, sendo imensa, vale menos que a briosa reputação que tem. Os esposos vão passar a LUA DE MEL à sua quinta de Celorico de Basto, para onde partiram ontem de manhã acompanhados dos numerosos amigos dos ditosos consortes. Diz-se que o Sr. Dias vai mandar construir um palacete no Porto, onde tenciona fixar a sua residência. Damos os parabéns à cidade invicta por tão valiosa aquisição.

 

A local está redigida a primor, como lá se faz sempre nas gazetas; mas aquela LUA DE MEL indigna-me.

Se querem que haja por força uma lua para os que se casam, façamos umas poucas de luas:

Lua de mel;

Lua de cicuta;

Lua de láudano;

Lua de tártaro emético;

Lua de mostarda inglesa;

Lua de óleo de rícino;

Lua de fel da terra;

Lua de salsa parrilha;

Lua de raspa de veado;

Lua de jalapa;

Luas tónicas, luas antiflogísticas, luas irritantes, luas vómitas, luas drásticas, etc.

Convém, de seguida, observar, que a lua não influi por igual nos dois noivos. Cada um deve ter sua, nos casos exceptuados de casamento por paixão recíproca.

Tal marido é aluado em ovos moles, e sua mulher em jalapa.

Tal noiva saboreia-se nos dulcíssimos favos da colmeia lunar, e o homem enjoa um cozimento salobro de raspa de veado, animal que muitas vezes lhe lembra, por causa das virtudes medicinais, e outras causas.

Qual dessas luas influiria em João José Dias, e qual em D. Ludovina da Glória?

Eu não decido, porque sou supinamente ignorante em astrologia judiciária. Conto os factos, e deixo as luas ao arbítrio do leitor.

Fez-se o casamento, e efectivamente partiram os cônjuges para Celorico de Basto. D. Angélica também foi. Melchior Pimenta ficou para comprar terreno, e contratar o arquitecto e alvenéis que deviam fazer o palacete, a toda a pressa.

Os cavalheiros de Basto receberam cartão do casamento. Esta usança das famílias de bem, desconhecida a João José Dias, fora lembrança da previdente D. Angélica: o fim era relacionar sua filha com as famílias mais tratáveis de Basto, para que estas, visitando-a, segundo o cerimonial, a distraíssem das melancolias do noivado.

Tudo lhe saiu ao pintar dos seus projectos. A fidalguia circunvizinha não desdenhou as relações do capitalista. O cartão enviado às senhoras dizia:

 

D. ANGÉLICA TEODORINA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E

LEMOS

TEM A HONRA DE PARTICIPAR A V. EX.ª

o casamento de sua filha

A EX.ma SR.ª

D. LUDOVINA DA GLÓRIA PIMENTA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO

LEITE E LEMOS

COM O IL. mo SR.

 

JOÃO JOSÉ DIAS

 

Os apelidos heráldicos abalaram os espíritos pechosos daquela fidalguia de travessão que por ali enxameia.

Devia ser filha segunda de casa muito distinta a que descera até aos fabulosos milhões do João da Chã-de-Cima: diziam-no assim os que daquele modo chasqueavam o brasileiro, pouco dado com fidalgos.

Consentiram algumas famílias em visitar os noivos. Um dos fidalgos, esmerilhando a procedência genealógica de D. Angélica, descobriu que um seu tio-bisavô saíra da casa dos Ciprestes para ir entroncar na nobilíssima família dos Pereiras e Sousas, em Paços de Gaiolo, donde era oriunda a avó de D. Angélica. Feito o descobrimento, D. Ludovina achou-se prima de tudo que faz o lustre e ornamento de Celorico, Cabeceiras, Arco, e terras de Barroso.

João José Dias também era primo dos primos de sua mulher; e, de si para si, ao bom do homem dava-lhe para rir-se à socapa da parentela. A língua não se lhe ajeitava a chamar primos aos fidalgos da casa dos Ciprestes, aos do Reguengo, aos da Capela, e outros que frequentavam, mais do que ele queria, a casa e o espírito atraente de sua sogra, espanto das fidalgas analfabetas.

Sem embargo, o capitalista simulava afectuosa estima aos hóspedes, e contentamento com o ar festivo que sua mulher mostrava, tendo visitas.

D. Ludovina pagava as visitas, passava as noites em sociedade, primava em tafularia, ensinava as primas a vestirem-se, cuidava dos seus enfeites com desvelo, e gastava com seu marido o tempo necessário para projectarem passeios, romarias, e saraus, por aquelas redondezas.

Anuía o cônjuge, folgazão no rosto, e zangado por dentro. O bom siso dizia-lhe que sua mulher era uma criança, vezada a bailes, e ainda verde para gostar da quietação doméstica. Bem via ele a inocente alegria com que Ludovina andava nos honestos brinquedos, e o desapercebimento, se não desprezo, com que ela aceitava as louvaminhas dos primos.

D. Angélica entendia o que o seu genro calava; conhecia a violência que ele fazia ao génio e aos anos ronceiros, para andar naquela lufa-lufa de visita em visita, bifurcado num macho, que lhe contundia as carnes com o chouto ingrato. Receosa de que a impaciência rebentasse enfim por algum dito menos delicado à mulher, quis ela prevenir o desgosto de ambos, dizendo uma vez à filha:

«Convém conformarmo-nos um pouco aos costumes de teu marido, Ludovina. Teu homem não foi assim educado, e os anos estranham esta transição.»

— Que quer a mãe que eu faça?

«Que espaces os teus passeios e visitas, que vivas mais em tua casa, que tenhas com ele algumas horas mais de convivência.»

— Que hei-de eu dizer-lhe?!

«O que hás-de tu dizer-lhe?!...»

— Sim, mamã. Temos ocasiões de estar duas horas juntos sem trocarmos três palavras. Sou amiga dele; mas não sei como hei-de mostrar-lho de outro modo. Se querem que eu não receba visitas, nem vá a casa de quem me visitou, estarei em casa, contemplando os carvalhos e os castanheiros; mas eu não creio que se possa viver assim na aldeia. Se ele ainda me não disse nada, porque há-de a minha mãe censurar-me este desabafo que eu preciso? Eu a fugir de falar na minha situação, e a mãe a lembrar-ma! Cuida que sou feliz? Diga, mãe, está persuadida que eu devo estar extasiada de contentamento diante de meu marido?

«Não creio que te devas extasiar, mas também não aprovo que te arrependas. Como explicas tu a consideração, o respeito com que és tratada? Pensas que o seres casada com este homem te desmerece aos olhos desta gente, que lhe chama parente?»

— E a felicidade é isso, mãe?!

«A felicidade não é coisa nenhuma desta vida, e, se alguma existe cá, é a que dá à consciência da mulher casada o prazer de não envergonhar seu marido.»

— Que palavras! Isso que quer dizer, minha mãe?

«Não tas aplico, Ludovina: respondi à tua pergunta. A felicidade no amor é uma criancice dos quinze anos, e às vezes dos quarenta; mas o desengano vem com todos os homens e com todas as idades. Não te persuadas que a vida te seria aqui mais risonha, por muito tempo, com um marido de tua escolha. Este homem, daqui a três meses, hás-de amá-lo como se ama um amigo. O outro, daqui a três meses, amá-lo-ias com o aflitivo amor da mulher que enfastia, que se vê cada vez mais aborrecida, e compara os ardores dos primeiros meses de casada com a fria sequidão dos que traz o cansaço. Poupaste-te ao maior dos infortúnios, que é esse para a mulher que não quer curar a chaga do amor a seu marido com a peçonha da infidelidade, compreendes-me, Ludovina? Eu não consinto que tu, sequer, recordes alguns exemplos de mulheres casadas que viste conciliadas com o desprezo dos maridos, aceitando a adoração doutros, como vingança, e fazendo do crime uma necessidade. Lembra-te só delas como mulheres que casaram apaixonadas, que doudejaram de alegria nos primeiros tempos, e pareciam cheias de felicidade para toda a vida. Não te recomendo paciência, Ludovina, porque ninguém te dá causa de sofrimento; recomendo-te juízo. Este homem há-de merecer a tua amizade: logo que a tenha, viverás da melhor afeição, da que mais dura neste mundo; terás o bem que raras vezes fica dum amor ardente.»

Estas e outras palavras modificaram a força motriz de D. Ludovina. Os passeios rarearam-se, os convites para reuniões foram esquecendo à míngua de estímulo, e as massas amolecidas do Sr. João José Dias recobraram vigor, com não menos gáudio do velho macho que as caminhadas traziam desmedrado e manhoso.

Estava já a lua de mel em quarto minguante, quando os noivos, voltando para o Porto, foram hospedar-se na casa paterna, enquanto não alugavam casa provisória, onde esperassem que o palacete se fizesse.

João José Dias foi agradavelmente surpreendido em casa de seu sogro.

Convidado para um baile, em que Ludovina ia ostentar preciosíssimos recamos de brilhantes, que seu marido lhe dera na véspera do casamento, João José Dias ao vestir a casaca nova, que seu sogro lhe mandava ao quarto numa bandeja, viu uma comenda pregada nela, e sobre uma salva de prata um colar com a cruz da ordem de Cristo, pendente dum vistoso laço de fita.

— Que diabo é isto? — disse ele ao criado, no requinte do pasmo.

«É um presente que faz a V. Ex.ª o Sr. Melchior.»

— Diz-lhe que venha cá, e pega lá para cigarros — dizendo isto, o comendador lançou à salva... setecentos e vinte.

Não vos assombre este lance dadivoso de grandeza. Em sucessos de menor estímulo à munificência, sei doutros arrojos de liberalidade, que desbancam João José Dias.

Aí vão, de passagem, dois exemplos:

Um visconde, opulentado pelos dons duma bestial fortuna que o ama como a coisa sua, compra um quarto de bilhete da loteria espanhola. O rapaz que, à custa de muito teimar, lho vendera, vai dar-lhe a nova de que a cautela fora premiada com quatro mil duros. O visconde manda esperar o alvissareiro moço, e traz-lhe umas calças de cotim sem fundilhos.

Outro, na passagem do rio Douro, escorrega do barco para a corrente, e mergulha; passados instantes, emerge à tona de água resfolegando, e pedindo socorro. Travam-no os braços robustos do barqueiro, que, em risco de morte, consegue salvá-lo. Vai levá-lo à família, mandam-no esperar à porta da rua, e recebe, como salvador duma vida cara aos seus, uma vida que os jornais pranteariam com tarjas da grossura dum dedo, e vinhetas das mais fúnebres da tipografia, recebe, finalmente, setecentos e vinte em cobre.

Isto é público e notório; mas não estava em crónica. Receio magoar a modéstia dos generosos cavalheiros, por isso ressalvo os nomes. Na quinta edição deste livro, havidos os consentimentos respectivos, serão postos em estampa, para inveja de miseráveis sovinas, e estímulo à profusão da presente raça.

O comendador não era fona. Esse cainho feito não desluz os bizarros presentes que fazia à esposa, e aos sogros. Ludovina era o primor da casquilhice, e do mais rico em gosto e droga. Para cada baile, para cada exposição do teatro lírico, um vestido não visto, só comparável aos que trajara antes, e sempre inferior aos que trazia depois.

Os «leões» sertanejos, estes cinco ou seis pataratas, senhores duma glória tão produtiva, que faz lembrar a dos domínios da coroa portuguesa na Etiópia, Arábia, e Pérsia, os leões honoríficos do Porto, se assestavam pertinazes os óculos na peregrina esposa do comendador, o mais que conseguiam era realizar o anexim nacional: — «viam-na por um óculo.»

João José Dias envesgava o olho de soslaio por sobre as feras; e, a meu ver, seria ele homem bastante para realizar, já não com um, mas com todos, a fábula do leão espinotado pelo orelhudo.

O comendador tinha em sua mulher inteira confiança, nada lhe alterava o conceito bem merecido; todavia era acessível ao ciúme sem causa. Nos bailes, andava o pobre homem sempre assustado. Não tinha sossego, nem poro que não estilasse o suor da apoquentação. As afabilidades mais triviais e inocentes da cortesia, um sorriso de Ludovina ao par dançante que a deliciava com ensosso palavrório, o menor gesto de atenção a que a delicadeza obrigava a festejada dama, isso era um adstringente doloroso que apertava as entranhas do comendador.

Num desses bailes, em que João José Dias emagreceu duas polegadas na circunferência, apareceu Ricardo de Sá, que nunca mais vira Ludovina desde a véspera da sua derrota.

Audacioso até ao desatino, teve a petulância de aprumar-se diante de Ludovina, com a luneta insultante. A filha de D. Angélica pediu o braço a uma amiga e saiu daquela para outra sala. O comendador não fora estranho ao acto, e seguiu-a com disfarce.

Ricardo, brincando com os berloques do relógio, e trejeitando o habitual sorriso do homem trágico de romance, seguiu de longe as duas amigas, simulou um encontro casual, estacou diante delas, e montou a luneta.

D. Ludovina rodou sobre o calcanhar e voltou-lhe as costas. À cabeça do comendador subiu um repuxo de sangue, e os lóbulos das orelhas fizeram-se-lhe escarlates como ginjas.

D. Angélica, que espiava o sucesso da sala próxima, acercou-se de Ricardo de Sá, fitou-o com fulminante soberania, e disse-lhe a meia voz:

«O senhor é um miserável tolo, que incomoda. Se se estima alguma coisa, não me obrigue a encarregar o boleeiro de minha filha de responder às suas provocações.»

— Mude de sexo como Tirésias, e fale-me depois — disse Ricardo, dando à perna direita o costumado repuxão dos elegantes.

O comendador veio ao encontro de D. Angélica, e disse-lhe:

«Aquele sujeito com quem a senhora falou agora, não é um homem que eu encontrei em sua casa a primeira vez que lá fui?»

— É.

«Que diabo anda ele a prantar-se diante de Ludovina?»

— Já reparei nessa acção repetida. Eu lhe conto: dê um passeio comigo. — E tomando-lhe o braço, D. Angélica continuou: — Este homem foi uma afeição inocente de minha filha, e é hoje um ente desprezível para ela e para mim.

«Escreviam cartas um ao outro?» — interrompeu o comendador, bufando.

— Escreveram, sim...

«Porque me não disse isso a senhora?!»

— Porque não merecia a pena dizer-lho. Que é escreverem-se cartas?

«Não é pouco, acho eu... E como acabou isso?»

— Acabou, dizendo eu a esse homem que não voltasse a minha casa.

«E que quer ele agora?»

— Vingar-se da única maneira que pode: afligir minha filha... Ela aí vem... não falemos nisto.

D. Ludovina disse afectuosamente ao marido:

«Vamos embora? eu estou incomodada.»

— Vamos, disse a mãe.

«Nesse caso, vou chamar a carruagem; esperem um pouco, que eu venho já» — disse o comendador.

As senhoras foram esperar na sala menos concorrida. D. Ludovina arquejava em ânsias, e falava aceleradamente a sua mãe.

Entretanto, João José Dias entrou na sala onde se dançava, e viu na porta fronteira Ricardo de Sá encostado, com a luneta em acção, e o cotovelo direito apoiado na mão esquerda.

Foi ao pé dele e disse-lhe:

— O senhor sabe quem eu sou?

«Creio que já o vi em alguma parte.»

— Faz favor de vir aqui que lhe quero falar?

Ricardo seguiu-o maquinalmente, atravessou um corredor, e parou num patamar deserto:

«Eu sou o marido daquela senhora que vossemecê insultou lá dentro.»

— Essa é muito boa! Eu não insultei senhora alguma!

«Se insultou ou não, sei eu. Fique-lhe de aviso que a Sr.ª D. Ludovina tem um marido de quarenta e tantos anos, isso é verdade, mas capaz de pegar numa orelha dos pandilhas como vossemecê, e dar-lhe com a cabeça numa esquina, tem percebido?»

O comendador desceu as escadas, e Ricardo de Sá, estupefacto e aturdido, atravessou o corredor, e entrou nas salas.

Pouco depois, entravam na carruagem D. Ludovina e sua mãe. O comendador não lhes disse palavra com referência ao desforço solene que tirara do bacharel.

Isto, se eu o não contasse, era coisa que morria ignorada, porque o autor embrionário do SÉCULO PERANTE A CIÊNCIA nunca a diria.