O Que Fazem Mulheres
Capítulo III
III
João José Dias devia orçar pelos seus quarenta e cinco anos. Era de estatura menos que meã, adiposa, sem proeminências angulares, essencialmente pançuda, porque João José tinha uma série descendente de panças, desde a papeira cor-de-rosa até às buchas das canelas ventrudas.
Nas faldas duma testa estreita, chata, e rugosa, como um élitro da concha de um cágado, luziam os olhos pequenos e esverdinhados de João José. As pálpebras, túmidas e pilosas como a casca da fava, enviesavam-se para dentro, formando à raiz das pestanas um rebordo purpurino. O nariz, sem base, nem ossos, nem cartilagens, devia ser a desesperação de Falópio e de Bichat: rompiam-lhe dentre os olhos as ventas já formadas, com a ponta arregaçada, e as asas convexas, dilatando-se até às alturas dos ossos malares, entupidos nas bochechas gordurentas. Os beiços eram bicolores: nacarinos no centro, e roxos para as extremidades quase invisíveis sob os rofegos relaxados dos músculos limítrofes. João José tinha quatro dentes incisivos de brilhante esmalte, entalados nos outros quatro, formando de comum acordo as saliências irregulares dum pedaço de cristal bruto. Os dentes laniares ou caninos tinham uma crusta de cárie, e algumas luras chumbadas. Os vinte malares estavam no gozo das suas funções triturantes, conquanto amarelados de sais térreos, e regurgitamentos do bolo indigesto.
João José não tinha pescoço: as espáduas ladeavam-lhe os bócios da garganta, alteando-se ao nível das orelhas escarlates, com bolbos da mesma cor, e não sei que excrescências no lóbulo, simulando pingentes de coral.
Disse-se que era todo barriga o homem, já que Bufon e Cuvier asseveram que é homem, feito à imagem e semelhança de... não ousamos escrever a blasfémia. O que se não sabe é que a barriga lhe marinhava peito acima, até levar de assalto o campo onde fora pescoço.
As pernas de João José eram dois cepos, postos em peanha a uma esfera armilar. Tão curtas eram elas, e tão desmesurados os pés, que me não seria dificultoso convencer-vos de que a natureza, em hora de travessura, fez da porção de matéria, destinada para perna e pé, duas partes iguais, juntou-as, e o ponto de junção denominou-o calcanhar.
As botas de João José tinham incríveis expansões de couro: eram um oceano de bezerro cortado de ilhas. Os joanetes do pé direito formavam um arquipélago. No remanescente das milhas despovoadas, o pé era raso e chão como uma loisa de merceeiro.
Deram-se uns longes para auxiliar a fantasia de quem não conhece o Sr. João José Dias. Para os que o viram, a pintura, vai tacanha e inábil, aqui o confesso, envergonhado do meu descrédito.
Vamos à biografia da pessoa, e veremos que boa alma se anichou neste hediondo invólucro.
João foi cachopo para o Brasil, e estreou-se numa loja de molhados, onde granjeou renome de rapaz videiro e possante. Abraçava uma tanha de azeite de três almudes, e aguentava com ela do armazém para a loja, sem impar. Levantava do sobrado para o balcão o peso das três arrobas com os dentes. Punha a prumo meia pipa de cachaça, e levava à boca, sem gemer, um barril de dois almudes, com o braço testo na asa. Isto constou na Rua dos Pescadores, e, ao terceiro ano, João era aliciado por vários patrões, que disputavam o lanço.
Não pertencem à alma estes esclarecimentos, bem o sei; mas a alma de João José formou-se então. A probidade, a lisura, a honradez do boçal caixeiro nunca foram desmentidas pela gaveta do patrão. Os convites, feitos à sua cobiça de melhores ordenados, repeliu-os sempre, dizendo que nunca deixaria a casa onde comera o primeiro bocado de pão. O aumento de ordenado vinha sempre espontâneo dos patrões: podendo inculcar-se com as propostas dos vizinhos, nunca João José se queixou dos pequenos ganhos.
Os pais de João eram uns pobres fazendeiros de Celorico de Basto, que se desfizeram do único cevado e de uma vitela para pagarem a passagem do rapaz. João não esqueceu estes sacrifícios, nem as lágrimas que vira no rosto da mãe, quando, em Miragaia, lhe deu um quartinho em oiro embrulhado em seis camadas de papel.
Os lucros dos três primeiros anos foram quase todos enviados a seus pais, e, daí em diante, metade do ordenado vinha repartido em pequenas mesadas para os velhos, que lhos devolviam em roupas brancas.
João José, morrendo um sócio da casa, achou-se herdeiro da terça parte do negócio. Pudera então retirar-se com haveres sobejos para viver descansado na pátria; mas, para obviar os desarranjos da liquidação, continuou na sociedade.
Veio a Portugal em 1835, comprou no Minho a cerca dum convento, e, deixando o usufruto aos pais para que vivessem regalados, voltou ao Rio de Janeiro, onde achou falida a sua casa comercial, e comprometida a compra que fizera na terra.
Tinha sido escandalosamente roubado o pobre homem. Aconselharam-no que intentasse acção judiciária contra os sócios. Rejeitou o alvitre, dizendo que Deus os julgaria. Aceitou os enormes créditos que lhe ofereceram, estabeleceu-se, e dentro de doze ou treze anos pagou as dívidas de seus sócios, e liquidou cem contos de réis fortes, entre os quais, diz ele, e dizem todos os que o conheceram, não havia cinco réis adquiridos desonrosamente.
Chegou a Portugal em 1848. O pai era morto, e a mãe octogenária estava entrevadinha, pedindo ao Senhor que a não remisse das penas deste mundo sem ver seu filho.
João José Dias assistiu seis anos aos longos paroxismos de sua mãe, adoçados com as lágrimas da felicidade. Em 1854 finou-se a velha nos braços do filho, dizendo-lhe que fizesse feliz uma moça pobre, casando com ela, já que Deus lhe dera a riqueza.
Passado o luto, o capitalista veio ao Porto, e conheceu casualmente, na alfândega, Melchior Pimenta, que lhe fez um pequeno serviço na brevidade duns despachos.
Alguns dias, depois, encontrou o empregado da alfândega com uma formosa menina pelo braço, e perguntou-lhe se era sua filha. No dia imediato foi à praça, e colheu de alguns negociantes informações acerca da filha de Melchior.
Todos à uma lhe disseram que a menina gozava de excelente opinião; mas tinha só o defeito de querer ombrear em luxo com as filhas dos negociantes mais abastados. Um dos informadores acrescentou que os tafetás, as rendas, e as peliças da filha do empregado da alfândega não pagavam direitos.
Esta mordedura dos malévolos não magoou João José Dias.
Fez-se encontradiço com Melchior, e falou-lhe dos seus teres, e da tenção que tinha de mudar de estado, até para cumprir uma promessa que fizera a sua mãe. Disse-lhe Melchior que era acertada a resolução, e muito fácil o realizá-la. Replicou o brasileiro pedindo que lhe indicasse alguma menina honesta. Pimenta pediu tempo para pensar, e o capitalista, com a rude franqueza de uma boa alma, disse que a sua escolha estava feita. Averiguada a coisa, a escolhida era a filha do Sr. Melchior Pimenta, que não cabia num sino.
«Isto é um modo de falar... — observou João José. — Sem que sua filha dê o sim, nada feito. Eu sei que estou no calçado velho, e não trajo cá à moda dos janotas, como por aí dizem. A sua filha é muito nova, e quererá um rapaz. Fale com ela, diga-lhe a verdade, eu irei lá se o senhor quiser; se ela quis, muito bem; se não quis, ficamos amiguinhos como dantes.»
— A minha filha é dócil e ajuizada: há-de querer o que eu quiser. Foi educada por uma mãe, que teve melhores princípios que eu, e faz com que ela lhe obedeça, tratando-a como irmã. Posso dizer-lhe que minha filha será sua esposa; mas bom é que o senhor nos dê o prazer de frequentar a nossa casa, para conhecer o coração da minha Ludovina.
É este o resumo do grande diálogo que precedeu a apresentação do Sr. João José Dias a D. Angélica.
Não querendo eu, nem por sombras, indispor contra os meus fiéis escritos o império do Brasil, peço ao meu sisudo editor que faça estampar o seguinte epílogo deste capítulo:
João José Dias adquiriu com exemplar probidade os seus bens de fortuna.
Foi bom filho.
Levou a honra comercial ao primor de embolsar credores roubados pelos sócios que o roubaram a ele.
Foi trabalhador, quando precisava acreditar-se pelo trabalho; e foi-o também, na opulência, como o último dos seus servos.
Nunca teve escravos, comprados ou alugados: remiu alguns na decrepitude, e deu-lhes uma cama onde o último instante da vida lhes fosse o primeiro de bem-estar.
Que mais virtudes querem, ou maiores encómios a um bom carácter? Se pintei João José Dias feio, não é dele a culpa, nem minha. João José Dias era realmente muito feio.
Do Brasil vem muita gente galante.
Tenho na pasta um esboço de romance onde figuram quatro brasileiros bonitos.
Hão-de ver com que isenção de ânimo se escreve nesta província das letras.
Acabou-se o epílogo, e preveniu-se uma crise literária no Brasil.