O Que Fazem Mulheres
Capítulo XIII
XIII
Eu costumo reunir alguns peritos em letras magras como estas, e leio-lhes alguns capítulos dos meus romances, com adorável modéstia e exemplar submissão. Recito-lhes sempre um preâmbulo improvisado que estudo cinco horas, no qual os convido, com humildade de aprendiz inexperto, a que me corrijam as hipérboles desgrenhadas, me desbastem as excrescências da taramelice a que sou atreito, e me recomponham os desatavios da forma em que me descuido, se a imaginação desfila comigo pelos prados floridos do inverosímil.
Tão atilado é o arrolamento que faço dos meus árbitros, que raro de entre eles se desacredita admoestando ou corrigindo as perfeições que me escorregam do bico da pena, com primores de fundição esmerada. Esse raro, porém, se encalha em elegância que não percebe e deturpa, cá o inscrevo no meu canhenho de pascácios, e nem sequer desagravo o meu talento ofendido com resposta comedida. A minha docilidade chega até este ponto, e não há aí que ver mais lhano e brando do que eu sou à opinião cortada dos meus amigos, que me fazem o obséquio de trazer da rua quatro superlativos encomiastas, antes de saberem que pábulo vou dar-lhes à sua admiração faminta.
Há pouco acabei eu de ler os doze capítulos passados a quatro luzeiros do orbe literário, e um deles, acabada a girândola dos elogios, teve a descocada impertinência de me dizer uma coisa assim:
«Os teus romances do meio em diante adivinham-se.»
— Ora essa!
«Adivinham-se, e coxeiam por isso. O sexto sentido do romancista é o invento da surpresa. A concatenação lógica e natural dos sucessos danifica a peripécia, e aguarenta a curiosidade do leitor.»
— O leitor é que não é capaz de entender-te essa linguagem assaralhopada. Tu calunias o gosto dos meus leitores. Sou informado pelo órgão da opinião pública, o órgão que eu mais respeito, o meu editor, que o bom siso dos consumidores escolhe o romance verosímil, amalgamado com arte e discernimento, escrito de modo que seja o reflexo da sociedade, e que possa de per si reflectir também na sociedade, amoldurando-se nas formas costumeiras e exequíveis.
«Enfreia lá os ímpetos, modesto escritor! não soltes a parlenda inexorável. Concordo com o bom senso público. O natural e o reflectido da vida apraz e cativa o leitor; mas a previdência dos capítulos advenientes esfria o empenho, e dessabora a curiosidade.»
— Aceito a correcção, e tu aceita a aposta. Se adivinhares o enredo dos capítulos subsequentes, eu prescindo dos meus títulos de Henri Heine, Alphonse Karr português, e escrevo repertórios de hoje em diante. Se não adivinhares, escreve-me uma crítica literária em que hás-de provar aos incrédulos basbaques que eu alojo na cabeça um desses lobinhos cerebrais que chamam «génio» os galiparlas da nossa terra.
«Aceito, e aí vai o desenvolvimento do teu romance, nos pontos essenciais: D. Angélica pode morrer duma congestão cerebral, ou de um tifo. Não questiono a morte; é certo que a matas brevemente, e a fazes pedir, na hora derradeira, perdão do escândalo à filha, e da traição ao marido. António de Almeida já nos disse que morria, e ele que o diz é porque o sabe, e tu já o sabias antes dele. D. Ludovina vai para a casa paterna, e, a pedido de Melchior Pimenta, enxuga as torrentes caudais do pranto que a saudade maternal lhe arranca, mas teima em não querer nada do abominado marido. O barão de Celorico, atassalhado pelo remorso, dispara apóstrofes sem gramática ao espectro de António de Almeida, pega-lhe a febre sócia predilecta dos romancistas patológicos, solta quatro urros estrídulos ao despegar-se-lhe a alma do sebo corporal, e vê-o que morre boçalmente, sem deixar nada ao Hospital do Terço, nem às Velhas da Cordoaria! A tua crueldade para com este homem irá ao extremo de lhe negares até um necrológio na gazeta, ignomínia póstuma com que rematarás a biografia dum homem que teve o infortúnio de ser cevado de enxúndias, enquanto tu espirras ossos por todos os poros. D. Ludovina toma conta da herança, e...»
— E, sabendo que tu és um portento de esperteza — atalhei eu — digno de substituir João José Dias, manda-te convidar pelo seu procurador para tomar chá às quartas-feiras; namora-te, casa contigo, e o autor é padrinho do primeiro pequeno. Ora, meu amigo, outro ofício. Desquito-te da promessa do elogio; já nem «génio» quero ser à custa do teu estilo assoprado. Eu já disse em mais de um livro que não escrevo de fantasia. A verdade e a observação dispõem-me as situações como tu as não inventas. A natureza, que tu conheces, é tola, meu amigo.
Disse.