O Que Fazem Mulheres

Camilo Castelo Branco · Capítulo 14 de 23

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O Que Fazem Mulheres

Capítulo XI

XI

 

Mulheres são os melhores juízes de mulheres.

Disseram filósofos e moralistas, uns, grandes santos como S. Paulo, e outros, grandes ateus como Voltaire, que a mulher é um ser exuberante de sensibilidade, e apoucado de raciocínio.

Daí vem o denegarem-lhes acesso às ciências abstractas, às políticas, aos parlamentos, ao magistério, às regiões intelectivas do maquinismo social, e mandarem-nas cuidar dos filhos, e fiar na roca.

Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher é um ente inepto para exercitar a razão, com que direito as julgamos e sentenciamos, segundo a razão, sendo as suas culpas demasias de sentimento.

A injustiça é flagrante e odiosa.

Privam-nas de razão para as excluírem das funções que a requerem; sentenciam-nas pela razão, se o sentimento, seu dom essencial, as desvia do piso demarcado por ela.

Isto é uma tirania, uma inquisição, uma crueza turca.

A mulher não pode ser julgada por nós. Somos os senhores feudais da razão. A nossa alçada respira a prepotência do baraço e cutelo. Estamos em insurreição permanente contra o santíssimo apostolado de Jesus, que baixou seu divino braço por igual sobre o homem e mulher.

Não podemos superintender no foro do coração, porque a nossa jurisprudência é toda de cabeça, e o nosso código em pleitos da alma é estúpido ou hipócrita.

Quem é o juiz da mulher? O homem que a despenha do abismo, onde a lançou o amor, ao abismo do opróbrio.

É o homem, que lhe entalha o ferrete da ignomínia na face onde imprimira o beijo da perdição.

O altar onde se adora uma mulher é ao mesmo tempo a asa onde ela se dá em holocausto. Pecadora por muito sentir e chorar, amar e crer, quando nos abre céus e céus de alegria e glória, abrimos-lhe nós o inferno dos desenganos, e o suplício extremo do descrédito. O mundo não as exila, mas afronta-as; o coração não as incrimina, mas agoniza na horrível soledade para onde a razão o desterra.

E somos nós os juízes, porque entramos numa herança usurpada pela força primeiro, e legalizada depois pelo sofisma escrito.

A mulher foi escrava do braço, antes de o ser da superioridade moral.

Quando o homem chamou a ciência a dar um testemunho falso da sua primazia, a mulher, quebrantada pela escravidão do braço, não pôde remir-se com as forças do espírito.

Ainda assim, o tirano, receoso da emancipação, fez em redor da escrava as trevas da ignorância, para que a razão da mulher não pudesse conceber da luz o gérmen que a reabilitasse.

Pegou da formosa flor, cercou-a de estevas, cobriu-a de sombras por onde o sol não podia coar uma réstia reanimadora.

Esta maquinação arteira sobreviveu a todas as borrascas sociais. Os fautores, e ainda os mártires da igualdade perante Deus e perante a lei, nunca proferiram uma palavra, nem verteram gota de sangue para o resgate moral da mulher.

O Filho de Maria disse que a mulher era igual ao homem, e levou para o céu o segredo da sua emancipação.

Ficamos nós cá, os açambarcadores do entendimento escrevendo livros, que sacrilegamente denominamos de moral derivada do Evangelho, e neles demarcamos a profunda raia que estrema RAZÃO de SENTIMENTO. A razão para nós, o sentimento para elas. Se, todavia, o sentimento claudica nos preceitos da razão pautada e insofrida, condenamos a mulher pela culpa de se deixar perder na escuridade, à míngua de uma lâmpada que lhe negáramos.

 

Não sei se rasgue estas cinco páginas do manuscrito. Se alguém me assegura que entre vinte mil leitoras (orça por isto o número das senhoras que compram livros em Portugal) se me asseguram que entre as vinte mil há duas que me entenderam a parlenda, e me ficam desejando muita saúde e graça para servir a Deus, não rasgo as páginas, embora os homens me mandem, em portuguesíssima frase, bugiar.

Quando comecei o capítulo, tinha de olho dizer, à quarta linha, que, acerca de culpas de mulheres, jamais consulto homens.

Mulheres são os melhores juízes de mulheres.

A respeito de D. Angélica, consultei uma sua amiga de infância, tão virtuosa como indulgente; mas virtuosa — não me afiram lá a palavra pelo elucidário caseiro — virtuosa amando, amando muito e com muito despego de pecos empecilhos, atravancados pela impostura.

Disse-me ela o seguinte:

«D. Angélica é das poucas mulheres que podem fazer do seu crime um título ao respeito das mulheres que sentem o coração pela dor.»

— Ao respeito! — atalhei eu, com fumos de juiz, vício do sexo ingrato, onde por desventura me encontro.

«Sim, ao respeito, porque D. Angélica amando vinte anos um homem, juro-lhe que não teve uma hora de consciência quieta, nem intrepidez para sacrificar o coração ao repoiso da consciência.»

— Vinte anos! pois era amor de vinte anos o do tal Almeida que o barão de Celorico arcabuzou?

«Mais seria, talvez. Angélica era filha segunda dum fidalgo pobre do Minho. Foi educada comigo, no Porto, no recolhimento de S. Lázaro. Passava as festas do ano em casa dum doutor, que tinha filhas, e um filho que se formava nesse tempo. Esse filho era o António de Almeida, que o senhor conhece, e D. Angélica amou desde os quinze anos, com o amor imenso das simpatias contrariadas.

O doutor descobriu a afeição do filho, e impôs-lhe um violento termo, proibindo-o de vir ao Porto nos dois últimos anos da formatura.

As cartas de António de Almeida recebia-as eu, e Angélica relia-as, ao cabo de dois anos de ausência, com paixão cada vez mais entranhada.

O fidalgo pobre resolveu casar a filha com um rapaz que se dizia rico. Melchior Pimenta era filho bastardo de um cónego opulento, e litigava a herança paterna, com a certeza do vencimento.

Angélica saiu do recolhimento sem saber para que fim saía. Friamente avisada de que havia de casar com Melchior Pimenta, embruteceu, ficou como tolhida, e desmemoriada do amor que alimentara três anos.

Quando o coração reviveu do letargo, a indiscreta menina escreveu ao pai de António de Almeida, pedindo-lhe que a pedisse ao pai para casar com seu filho. Que inocência!

Escreveu ao marido que lhe destinavam, confessando que não podia dar-lhe o coração.

O doutor, se ela lhe conviesse tê-la-ia. Angélica era pobre. Melchior Pimenta não respondeu à carta, nem diminuiu as instâncias.

O fidalgo, informado pelo doutor, agradeceu-lhe a probidade da denúncia, e acelerou o desfecho.

Angélica não soltou um gemido na presença do pai; sei que apenas lhe disse: «A história de muitas mulheres desgraçadas começa como a minha.» Disse, e pôs a cabeça no altar do sacrifício. Ao marido apenas perguntou se recebera uma carta dela...

Participei a Almeida o casamento de Angélica. Respondeu-me ele que não acreditava a infâmia enquanto a pérfida não tivesse o cinismo de lha dizer. Modifiquei as palavras desta carta, contando-as à minha amiga. Ela soluçou nos meus braços muito tempo, e disse com veemente resolução: «Pois sou eu que lhe vou dar parte do meu casamento, e oferecer-lhe a minha casa.» — Que fazes tu, menina? — repliquei eu, longe de suspeitar a resposta: «Faço à prepotência de meu pai o sacrifício da minha dignidade, e castigo um homem que me comprou.»

Julguei-a desvairada pela angústia, e reservei para melhor ensejo os conselhos que os meus vinte e cinco anos, já palpados por amarguras de coração, podiam dar-lhe.

Efectivamente, António de Almeida voltou formado, e frequentou a casa de Melchior Pimenta, que dava bailes, e figurava na primeira plana a favor de antecipações que fazia sobre o penhor do seu património.

Deixei de ser a confidente de Angélica, meses depois. As suas cartas não eram confidências: eram lágrimas, queixumes vagos contra a sua sorte, chagas de consciência que só a morte podia cicatrizar. Entendi tudo, e fiz o que faz, ou o que raras vezes faz uma amiga: consolei-a na queda, como a aconselhara à beira do abismo. Disse-lhe que mandasse a consciência ao pai, e que ficasse ela com o coração. Não lhe falei em Deus, nem na Virgem, porque no infortúnio de Angélica, não havia que ver com coisas sobre-humanas.

O doutor farejava um casamento rico para o filho; achou-o, e marcou-lhe o prazo para se realizar. António de Almeida rejeitou-o com toda a ousadia da desobediência. Choveram maldições às dúzias, abriram-se os cancelos do inferno aos pés do obstinado moço. Pior que tudo isso, o castigo de Almeida foi ser expulso de casa, sem pão, nem habilitações prontas para ganhá-lo.

Angélica soube tudo por mim, e por uma carta do doutor, que a responsabilizava pela desgraça do filho. Vendeu algumas jóias que tinha de sua mãe, e pediu-me a entrega do produto, como dádiva minha, a Almeida. O brioso moço, não sei como, soubera onde as jóias paravam. Aceitou o dinheiro, comprou as jóias, e pediu-me que as entregasse a Angélica.

Duas almas assim nunca se separam. As ligações mais duradoiras são as do crime, quando as virtudes do sacrifício recíproco chegam a esquecer-se da sua má origem.

António de Almeida trabalhou dia e noite, até ser um advogado de fama.

Melchior Pimenta, ao cabo de quatro anos de casado, tinha perdido a demanda, e estava pobre. António de Almeida cortou às suas primeiras necessidades para emprestar a Melchior o fausto da casa. Angélica soube-o tarde; mas, sabendo-o, conheceu a pobreza de seu marido, e a delicada generosidade do seu amigo.

Fecharam-se as portas da sala, acabaram bailes e teatros, resumiu-se a vida de Angélica ao amor a sua filha, à adoração mais íntima do amante, e aos respeitos afectuosos por seu marido.

António de Almeida acatou o melindre de Angélica. Inventou pretextos para melhorar-lhe a vida, que ela não desejava melhor. Conseguiu fazer despachar Melchior Pimenta para a alfândega, comprando o despacho por alto preço.

Nem este mesmo sacrifício desconheceu Angélica. Os jornais anunciaram a corrupção, e a minha atilada amiga adivinhou a causa. Melchior Pimenta, não. Esse perguntava se os seus merecimentos não eram demasiada recomendação para o despacho.

Sabe agora a vida de Angélica?

Se alguma vez o seu sestro linguareiro o levar a pôr em romance esta história, acrescente que D. Angélica, ao despedir-se de Almeida para visitar o berço da filha, lavou-lhe muitas vezes o rosto com lágrimas. Diga que, outras muitas, o amante de Angélica, farto de a esperar na sala, e já receoso de algum sucesso triste, procurando-a, ia encontrá-la ajoelhada ao pé desse berço. E, depois que Ludovina se lançava aos braços de Almeida, com fervor mais de filha que de criança afeita a mimos e carinhos, o rosto de Angélica incendiava-se de pejo, como se o afecto e a virgindade do coração travassem peleja.

Em resumo, Sr. romancista, acabo por onde principiei, e do que vou repetir faça uma máxima, por minha conta; mas não a enfileire a par da do comendador João José Dias:

HÁ MULHERES QUE PODEM FAZER DO SEU CRIME UM TÍTULO AO RESPEITO DAS MULHERES QUE SENTEM O CORAÇÃO PELA DOR.

D. Angélica está julgada, e punida

 

Entretanto foi Jesus para o monte Olivete:

 

Então lhe trouxeram os escribas e os fariseus uma mulher que fora apanhada em adultério: e a puseram no meio.

E lhe disseram: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adultério.

E Moisés, na lei, mandou-nos apedrejar estas tais. Que dizes tu logo?

 

Jesus, inclinando-se, escreveu com o dedo na terra.

E, como eles teimavam em interrogá-lo, ergueu-se Jesus, e disse-lhes: O que de entre vós está sem pecado seja o primeiro a apedrejá-la.

E, tornando a curvar-se, escrevia na terra.

Eles, porém, ouvindo-o, saíram um a um, sendo os mais velhos os primeiros; e ficou só Jesus e a mulher que permanecia, no meio, em pé.

Então ergueu-se Jesus, e disse-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?

Ninguém, Senhor; — respondeu ela. Então, disse Jesus: Nem eu tão-pouco te condenarei: vai e não peques mais.

O SANTO EVANGELHO DE JESUS CRISTO, SEGUNDO S. JOÃO — Capítulo VIII.