O Que Fazem Mulheres

Camilo Castelo Branco · Capítulo 23 de 23

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O Que Fazem Mulheres

Suplemento

 

PREFÁCIO

 

O romance estava acabado. Os meus numerosos admiradores, que eu regalara com a leitura dessas duzentas páginas, haviam asseverado, com a costumada franqueza, que este volume era a flor da virtude a rescender perfumes de deleitosa aspiração para as almas. Um desses, cujo voto muito respeito pela massa de conhecimentos que amassou em Frederic Soulié e Alexandre Dumas, acrescentou que o romance O Que Fazem Mulheres era a flor do meu talento. Cheio de encantadora modéstia, perguntei se a virtude da minha heroína precisaria de mais três ou quatro capítulos para ser vista a toda a luz celestial com que a Providência lhe irradiara o espírito. Disseram-me, à uma, que não escrevesse mais uma só linha, que deixasse à perspicácia das leitoras o desvelarem mistérios do coração, que eu não saberia iluminar sem profaná-los, que deixasse às lágrimas das almas sensíveis o fecho desta história, que esperasse, finalmente, alguns anos, para então escrever a segunda parte da biografia da baronesa de Celorico de Basto, que talvez os colégios de meninas adoptassem para uso das educandas.

Convenci-me disto, e mandei ao meu editor o romance, com a profecia de ser este um livro cuja décima edição apenas bastaria para aquietar as ânsias dum terço do país. Disse-me em linguagem fria o meu editor que uma virtude em duzentas páginas por quinhentos réis era pequena de mais para o comprador que prefere um vício em trezentas. Redargui-lhe, com argumentos de grande calibre lógico e moral, que a unidade da acção era inatacável no romance.

Item: que o estirar uma ideia para avolumar a lombada dum livro era chatinar a mercancia literária.

Item: que muitas capacidades largas e agudas, às quais eu submetera o meu manuscrito, se comprometiam a dizerem que este livro era a quinta-essência de tudo que se tem escrito acerca das mulheres virtuosas desde Santa Ágata até às Virgens do Tirol.

Chamei em meu abono Aristóteles, Longino, e mais alguns legisladores que eu não conhecia, para convencer o intérprete do público de que as raias do meu trabalho de cronista não podiam transpor as da realidade. Porquanto:

Não é inventada esta história;

Não quadram os incidentes imaginados com o essencial dum conto verdadeiro;

Não tolera um leitor sisudo que se lhe encampe à credulidade enfadonhas narrativas que agorentam a verosimilhança, ou enfastiam a atenção benévola.

Após uma renhida desavença da qual ia resultando a perda do manuscrito, que eu insensatamente sacrificaria ao meu bem entendido orgulho, viemos ao acordo de se publicar o magro volume com grandes margens, grandes entrelinhas, exuberância de reticências, e alguns juízos críticos dos meus amigos, que serviriam de indigitar ao leitor em que páginas estão as belezas que ele não viu.

Concertados assim, estava o tipógrafo com a última página, quando eu fiz uma excursão ao Minho, e encontrei no Senhor do Monte o cavalheiro que me contara o contexto deste romance, nos últimos dias do mês de Janeiro próximo passado.

A nossa conversação de algumas horas vai ser trasladada em páginas suplementares.

Antes, porém, de entrar nessa tarefa que realmente me dói, seja-me permitido verter uma lágrima no degrau do altar onde eu colocara Ludovina, onde ela se colocara, e donde se me afigura que...

Não dou ansa a juízos temerários do leitor. Leiam, e decidam se a virtude perfeita não é uma utopia impossível num livro que tiver mais de duzentas páginas.

Cumpre dizer quem é a pessoa, destinada pela Providência dos romances a figurar neste suplemento.

V. Ex. as decerto a conhecem. Viram-na já muitas vezes no teatro, nos bailes, e na missa dos Congregados, na dos Clérigos, na do Carmo, em todas as missas clássicas em que se vê tudo, e se ouve tudo, menos o padre e a missa.

Eu dou os sinais do homem.

Tem uma bela cabeça, uns belos cabelos, uns belos olhos... Já conheceram?

De vinte leitoras, dez estão na dúvida. Se V. Ex.ª é uma das dez perplexas, desperte as suas reminiscências com os seguintes traços:

O nariz é a feição mais característica deste homem. Na base tem um promontório, no centro uma protuberância, na ponta uma recurva como o bico dum pássaro. Chamam-se estes narizes Bourbons. Agora conheceram-no todas. Na escola dos fisionomistas, este nariz tem significações espantosas. É um nariz que individualiza um homem; é um livro aberto; é o porta-voz dos segredos da alma; é, em suma, uma biografia.

Foi o que me aproximou deste homem. Se a natureza lhe desse a ele um nariz vulgar, o leitor não se deliciaria na leitura deste romance. Vejam donde eu tirei um livro! O nariz de Cyrano de Bergerac foi causa de vinte duelos de morte. Do nariz do meu amigo podem pender vinte volumes.

Fascinou-me, e fui eu que me ofereci à sua amizade. Achei-o um homem raro, sabendo profundamente a vida de V. Ex.as as , quero dizer, todas as virtudes que V. Ex. escondem, todas as perfeições que a sociedade não vê, sem lhas explicarem.

É provinciano o Sr. Marcos Leite: dê-se-lhe este nome. Visita o Porto duas vezes cada ano, uma no Carnaval, outra na estação do teatro italiano.

Consta que nunca teve namoro que o entretivesse nas duas estações. O nome da mulher, que adora, até à demência, no Carnaval, quase sempre lhe esquece na Páscoa seguinte. Em compensação, as mulheres rejeitadas, quando o leão volta das suas selvas natais, apenas dão fé que Marcos está no teatro das suas façanhas pelo estrupido extraordinário do cavalo, que ele atira em arremetidas e sacões pelas ruas mais sonoras da cidade eterna. A não serem as mulheres o que providencialmente são, Marcos Leite seria preia dos dentes do remorso, há muito tempo. Não há uma só das esquecidas damas, que lhe não incendiasse no mais íntimo do peito um amor eterno... de três semanas.

Algumas possuem cartas duma paixão tão frenética, que as exclamações de Werther, comparadas com elas, são frias e chatas como um rol de roupa suja.

Foi, pois, este cavalheiro, respeitável em todos os sentidos, que me contou o essencial da história do barão de Celorico, acrescentando que tinha visto duas vezes de relance, numa grade dum mosteiro do Minho, próximo ao seu solar, a figura celestial da baronesa, e a simpática e ainda juvenil fisionomia de D. Angélica.

Por essa ocasião, lhe perguntei eu se traçava alguma rede à virtude heróica de Ludovina. Respondeu-me o narrador, que não ousava escalar uma fortaleza em cujo assalto era forçoso triunfar, ou morrer. Acrescentou, que, nem ainda cooperado por duas primas que tinha no tal convento, ele se animava a revelar a Ludovina uma afeição, que, desprezada, se tornaria em loucura furiosa.

Pareceu-me sensata a resposta de Marcos. Que homem conseguiria alvoroçar aquele coração, que eu imaginava esmagado sob a pressão de uma virtude exaltada?

Decorreram quatro meses, e, como disse no prefácio, fui, há dias, surpreendido no Senhor do Monte por Marcos.

Conhecem aquele saudosíssimo arvoredo, que rumoreja na sumidade da serra, e aquela fresca alameda que está tapetando a entrada para a mãe d’água? Foi ali que o encontrei, encostado à mesa de pedra, lendo LES RÊVERIES de Senancourt; leitura que eu aconselho a todas as pessoas que precisam idealizar um mundo médio entre o asquerosamente lorpa em que vivemos, e o absurdamente ininteligível que nos prometem as religiões.

Quando me viu, Marcos Leite correu a abraçar-me, exclamando:

«O meu coração tinha-te invocado. Abominaria quantos homens e mulheres me aparecessem aqui, menos tu, e ela...»

— Temos ELA!

«E tu vieste para este sítio com o coração vazio?!»

— Graças a Deus, não, meu poeta. Trago tecidos, membranas, válvulas, ventrículos, veias, artérias, nervos, sangue, etc. O meu coração está funcionando com a mais fisiológica das regularidades. Respiro desafogadamente, e completo a digestão duns suculentos pedaços de boi, que triturei sub tegmine fagi.

«Se vens assim, melhor fora que não viesses. Eu queria que me entendesses, como creio que me entendem, há três dias, estes rumores da floresta. Escuta! Vê tu se este ermo, se este sussurro, que parece o eco esvaído dum mundo remoto, não te está dizendo que o amor é a vida, que a esperança é a felicidade, que debaixo do céu há só três coisas grandiosas, o homem e a mulher um para o outro, e a soledade para ambos! Não digas alguma blasfémia! Esse sorriso ofende, e é um sacrilégio aqui. Agradece ao Senhor que nos dá isto, esta fontinha, a fresquidão destas sombras, o murmúrio destas árvores, o azul do céu, lá em baixo a melancolia poética do vale, o som do campanário rural que repercute na alma...»

Marcos Leite tinha razão. Não pude contrafazer, por mais tempo, a minha índole triste. Entrou-me a saudade no coração, aninhando-se no pequeno recinto não tomado ainda pela desesperança. Lancei os olhos ao livro em que lia Marcos, e recolhi à alma as seguintes linhas:

La paix jointe aux lumières sera le partage d’un homme dans toute une province. Quant au contentement, on le cherche, on l’espère même; peut-être l’obtiendrait-on, si la mort ou la décrépitude ne survenaient auparavant... La vie était bonne, et on lui trouve encore des douceurs que la raison ne saurait méconaître. Mais il importe que l’imagination, renonçant aux écarts, et servant, elle-même d’asile contre les peines, anime seulement le repos que l’âme peut conserver quand elle est restée pure.

«Que é isto?» — perguntei eu tomando de sobre a mesa um papel escrito a lápis.

— Versos, meu caro; linhas, é melhor dizer linhas. O coração mais poeta creio que é o menos metrificador.

«Pode saber-se que anjo te roçou a fronte com a asa?»

— Não adivinhas quem eu poderei amar assim? Há uma só mulher neste mundo.

«A baronesa?»

— Com que frialdade proferes esse nome! Chama-lhe antes Ludovina...

«Lê os versos.»

Marcos declamou com as mais maviosas modulações do sentimento a seguinte poesia:

 

A LUDOVINA

 

Quem há aí que possa o cálix

De meus lábios apartar?

Quem, nesta vida de penas,

Poderá mudar as cenas

Que ninguém pôde mudar?

 

Quem possui n’alma o segredo

De salvar-me pelo amor?

Quem me dará gota de água

Nesta angustiosa frágua

Dum deserto abrasador?

 

Se alguém existe na terra

Que tanto possa, és tu só!

Tu só, mulher, que eu adoro,

Quando a Deus piedade imploro,

E a ti peço amor e dó.

 

Se soubesses que tristeza

Enluta meu coração,

Terias nobre vaidade,

Em me dar felicidade,

Que eu busquei no mundo em vão.

 

Busquei-a em tudo na terra,

Tudo na terra mentiu!

Essa estrela carinhosa

Que luz à infância ditosa

Para mim nunca luziu.

 

Infeliz desde criança,

Nem me foi risonha a fé:

Quando a terra nos maltrata,

Caprichosa, acerba, e ingrata,

Céu e esp’rança nada é.

 

Pois a ventura busquei-a

No vivo anseio do amor.

Era ardente a minha alma;

Conquistei mais duma palma

À custa de muita dor.

 

Mas estas palmas tais eram

Que, postas no coração,

Fundas raízes lançavam,

E nas lágrimas medravam

Com frutos de maldição.

 

Em ânsias d’alma, a ventura

Nos dons da ciência busquei.

Tudo mentira! A ciência

Era um sinal de impotência

Da vã RAZÃO que invoquei...

 

Era um brado, um testemunho

Do nada que o mundo é.

Quanto a minha mente erguia

Tudo por terra caía,

Só ficava Deus e a fé.

 

Lancei-me aos braços do Eterno

Com o fervor de infeliz;

Senti mais fundas as dores,

Mais agros os dissabores...

O próprio Deus não me quis!

 

Depois, no mundo, cercado,

Só de angústias, divaguei

De um abismo a outro abismo

Pedindo ao louco cinismo

O prazer que não achei.

 

Tristes correram meus anos

Na infância que em todos é

Bela de crenças e amores,

Terna de risos e flores,

Santa de esp’rança e de fé.

 

Assim negra me era a vida

Quando, ó luz d’alma, te vi

Baixar do céu, onde, outrora,

Te busquei mão redentora

Procurando amparo em ti.

Serás tu a mão piedosa,

Que se estende entre escarcéus

Ao perdido naufragado?

Serás tu, ser adorado,

Um prémio vindo dos céus?

 

E eu mereço-te, que imenso

Tem já sido o meu quinhão

De torturas não sabidas,

Com resignação sofridas

Nos seios do coração.

 

Que ternura e amor e afagos

Toda a vida te darei!

Com que júbilo e delírio,

Nova dor, novo martírio,

De ti vindo, aceitarei!

 

Se na terra um céu desejas

Como o céu que eu tanto quis,

Se dum anjo a glória queres,

Serás anjo, se fizeres,

Contra o destino, um feliz.

 

Faz que eu veja nestas trevas

Um relâmpago d’amor,

Que eu não morra sem que diga:

«Tive no mundo uma amiga,

Que entendeu a minha dor.

 

Deu-me ela o estro grande

Das memoráveis canções;

Acendeu-me a extinta chama

Da inspiração que inflama

Regelados corações.

 

Os segredos dos afectos

Que mais puros Deus nos deu,

Ensinou-mos ela um dia

Que dentre arcanjos descia

Com linguagem do céu.

 

Os mimosos pensamentos

Que, de mim soberbo, leio,

Inspirou-mos, deu-mos ela

Recostando a fronte bela Sobre o meu ardente seio.

 

Morta estava a fantasia

Que o gelo d’alma esfriou;

Tinha o espírito dormente,

Só no peito um fogo ardente,

Quando o céu ma deparou.

 

Agora morro no gozo

Duma saudade imortal.

Foi ditosa a minha sorte;

Amei, vivi: venha a morte,

Que morte ou vida é-me igual.

 

Igual, sim, que o amor profundo,

Como foi na terra o meu,

Não expira, é sempre vivo,

Sempre ardente, e progressivo

Em perpétuo amor do céu.»

 

Assim, querida, meus lábios,

Já moribundos, dirão,

Nas agonias supremas,

Essas palavras extremas,

Do meu ao teu coração.

 

Sabes quem é, neste mundo,

Quasi igual ao Redentor?

É quem diz: «Sou adorada

Pela alma resgatada,

Por mim, das ânsias da dor.»

 

«Por ora, vejo que suplicas amor — disse eu. — A tua poesia é um requerimento que pode ficar esperado muito tempo no gabinete de despacho.»

— Fala doutra maneira... Eu sofro demais para te achar graça. Não é um requerimento esta poesia, meu amigo, é uma expansão de reconhecimento. O amor ditoso chega a entristecer. Tenho a segurança, a segurança que nos dá o coração, de que a alma de Ludovina me pertence.

«Por consequência tens tudo... Enganei o público...»

— Como enganaste o público?!

«Pus em romance a história que me contaste, e disse que a baronesa era uma rocha inabalável de virtude.»

— E receias mentir?!

«Eu já sabia que me não acreditavam... Pois tenho pena, palavra de honra! A meiga imagem de Ludovina havia de ser sempre nova e pura na minha imaginação, como o eterno tipo das duas formosuras enlaçadas, a do corpo e a da alma. Rasgava o romance, se ele não estivesse já no prelo, e o dinheiro dele transformado num cavalo. É tarde para reivindicar a minha honra de romancista ingénuo ou palerma, que anda neste mundo a querer provar, que as onze mil virgens nunca de cá saíram.»

— Pois que esperavas tu de Ludovina?

«Que morresse abraçada à sua cruz, que desse o exemplo da esposa mártir, da filha sacrificada ao bom nome de sua mãe; que saísse apenas da sua cela para recobrar paciência aos pés do altar; que nunca consentisse que corações degenerados como o teu, e o meu, concebessem a esperança de profaná-la.»

— Estás a fazer a alta comédia, ou crês sinceramente que Ludovina degenera? Põe de parte a consciência de romancista, e deixa falar a do ente pensante e racional; — e se tu e eu somos indignos de aspirar ao amor da baronesa, crês que um outro, caído das nuvens determinadamente por ela, a absolveria do crime horrível de ter coração?

«O coração de Ludovina estava cheio de sensações, que a faziam participante do amor divino. Que precisão tinha ela do amor dos homens? Estragou uma bela biografia essa mulher! Talvez fosse única, e apontada à posteridade como molde. Era uma virtude original; converteu-se em vício vulgar. A minha heroína fez bancarrota, faliu, e deixou-me em hipoteca a palavra que eu dei a páginas 170, pouco mais ou menos, de que eram sólidos os fundos em virtude, e grandes os haveres em créditos desta mulher inimitável, típica, e bíblica, deixa-me dizer assim, porque ela merecia todos os epítetos levantados e grandiosos.»

— Mas que fez a pobre senhora para descrédito tamanho?

«O que fez?! é boa! autorizou-te a cantá-la em quintilhas! Um homem de mais alma que tu és, vazaria a inspiração em versos hendecassílabos. Uma mulher assim amada em redondilha maior! É horrível, e imoral!»

— Bem! Ainda agora te compreendi. Estás zombando com ela e comigo, e não sei se com o público, a quem prometeste uma virtude enfadonha e monótona, como deve ser o teu romance, se te não salvares com a rápida narração que te vou fazer da mais sublime virtude, da virtude por excelência de Ludovina.

«Qual virtude?»

— A de me receber dez cartas, escritas com o sangue do coração, e... não me responder a nenhuma.

«Mas tu disseste-me ainda agora que tinhas a segurança de que a alma de Ludovina te pertence.»

— E tenho.

«Não te respondendo às tuas cartas!? Não entendo.»

— Não me respondeu a dez cartas...

«Bem.»

— Mas eu escrevi-lhe vinte, e ela respondeu à última.

«Ah! isso então muda de figura... E a resposta foi tal que te deu a segurança de seres o proprietário do coração da baronesa?...»

— Queres ver a resposta?... Franqueza e confiança. Lê lá.

Era um bilhete, que rezava assim:

«Tenho recebido por delicadeza as suas cartas. Basta dar-me V. Ex.ª o nome de amiga para que eu as aprecie. Não me julgava na obrigação de responder. Hoje, porém, que V. Ex.ª me lembra esse dever, peço perdão da falta, e castigo-me devolvendo-lhe as suas vinte cartas, de cuja posse sou indigna, porque não soube corresponder-lhe.

«Com verdadeira estima, atenciosa veneradora de V. Ex.ª — Ludovina Pimenta.»

«Isto é lisonjeiro! — disse eu sorrindo. — Com um documento destes, é indispensável a posse que tomaste do coração da baronesa. Eu creio que podia ser assim o proprietário mais abastado do género...»

— Espera lá... Ainda tenho outros títulos da propriedade. Já agora hás-de examiná-los todos, e dizer-me no fim se os meus direitos serão litigiosos. Recebi as vinte cartas, e escrevi mais dez. Que dez cartas! Que estilo! que dez cáusticos para fazerem supurar um coração!

«Deixas ver a resposta?»

— A resposta foram dez cartas.

«Incendiárias?»

— Que dúvida! Eram as minhas, lacradas, sem um vinco, direitinhas como foram!

«E teimaste?! Seria necessário muito despejo e indignidade!»

— Não teimei: caí doente, tive febre, assustei a minha família, e fiz que me chorassem as minhas primas, companheiras conventuais da baronesa. Ao nono dia de enfermidade, a medicina suspeitou que o sangue me refluía à cabeça. Correu que eu enlouqueceria, ou morreria. A baronesa mandou saber de mim duas vezes num dia.

«Oh! isso é muito! No dia imediato foste agradecer-lhe o cuidado...»

— Não fui, não podia ir. O abalo, a certeza de que era amado, exacerbou-me a febre, escaldou-me a imaginação, a ponto de delirar. Durante um curto intervalo de tranquilidade de espírito, escrevi à baronesa uma dúzia de linhas quando muito. Dava-lhe parte de que tinha a morte sentada à cabeceira do meu leito de agonias; dizia-lhe que pediria por ela ao Senhor, se a glória celestial me fosse dada como prémio do muito que sofrera, e da muita paciência com que sofrera na terra os rigores duma alma que não quis compreender-me; perdoava-lhe com a mais evangélica generosidade de moribundo, e emprazava-a para me restituir o coração na eternidade.

«Isso devia fundir em lágrimas de remorso a pobre senhora.»

— Estás ludibriando a minha angústia? — interrogou Marcos Leite com irónico enfado.

«Não ludibrio a tua angústia, faço a apologia da tua astúcia. Tu não tinhas febre, nem vias a morte à cabeceira do teu leito, fala a verdade.»

— Tinha febre, palavra de honra, porque sou muito nervoso; e, se me persuado que tenho uma ponta de febre, sinto-me logo em lavaredas. Tenho tido vinte e tantos destes tifos, com as vinte e tantas mulheres que tu sabes. O que vale é ser rápida e segura a convalescença.

«Convalesceste depressa? Já vejo que o teu bilhete conseguiu...»

— Um triunfo!

«Como um triunfo?!»

— Uma glória imprevista, um lance tão arrojado de venturas, que ainda agora me salta o coração no peito.

«Guarda os êxtases para o fim, e vamos ao ponto.»

— Mandou-me visitar por um médico do Porto, que fora de propósito medicar D. Angélica.

«Consiste nisso o triunfo?!»

— Que mais querias tu!

«Mais nada... A um doente a maior prova de estima que pode dar-se é mandar-lhe um médico.»

— O pior foi dizer o doutor que a minha enfermidade era imaginária. Mandou-me dar longos passeios a cavalo, e a pé, comer alimentos pouco volumosos e muito substanciais, e dormir o máximo número de horas que pudesse. Reflecti-lhe que sentia a morte no coração; a isto redarguiu, sorrindo, o médico matreiro que, verificando-se a morte desta víscera, entregasse ao estômago o exercício das atribuições do coração. Não sei o que ele foi dizer à baronesa: é certo que os cuidados da parte dela não esfriaram, e eu, melhor avisado, entendi que não precisava morrer para ser amado. Logo que me ergui do leito...

«Da agonia, ou da dor para variar...»

— Nada de chacota. Daqui em diante fala-se sério. Logo que saí fui ao convento. Era por uma bela tarde de Maio. Soprava de leste uma viração suavíssima, que, sacudindo as urnas das flores, embalsamava a atmosfera de fragrantes aromas. No horizonte...

«Se me pudesses dispensar do idílio!... Guarda as reminiscências bucólicas para o Inverno, quando estivermos ao fogão. Por mais que fantasies não deslumbras a realidade do belo espectáculo que nos está dando aqui a natureza em primeira mão. Descarna as descrições, e diz o que passaste no convento com a baronesa.»

— Estás materialmente estúpido, homem! Foi-se-te a poesia toda no fabrico dos romances. Vocês, os que trabalham no coração humano com o escalpelo sanguinário da análise, tornam-se áridos, brutais, e famulentos de sensações rijas...

«É assim; todavia, prefiro a descrição da tarde de Maio à catilinária insolente que vais disparar-me.»

— Nem uma nem outra. Vou abreviar o conto, para que a inveja mais depressa te castigue. A baronesa mandou-me entrar numa grade, e apareceu sozinha. Era a primeira vez que me recebia a visita sem vir acompanhada das minhas primas ou de D. Angélica.

«Esse facto é profundamente significativo! Vou gozar o prazer de ouvir um diálogo de amorosas finezas, cortado de suspiros maviosos... Já principiam as disciplinas da inveja a verberar-me...»

— Saberás tu o que se passou?!

«Se sei o que se passou!?»

— Sim... dizes com tão irónica zombaria o prospecto do diálogo...

«Nada, não: é que me vou aquecendo ao teu entusiasmo, e o estilo principia a aquecer também.»

— Aí vai lealmente a cena final do definitivo triunfo. Eu tinha posto grandes esperanças na minha palidez. Três semanas de cama seriam capazes de fazer amarelo um camarão cosido. A primeira decepção, que recebi ao entrar na grade, foi dizer-me a baronesa:

«Ninguém dirá que esteve doente, Sr. Marcos! A vida sossegada de três semanas deu-lhe um colorido de saúde, que dantes não tinha.»

— Como assim, Sr.ª baronesa! Pois a minha palidez...

«Está enganado; pelo contrário, está cor-de-rosa, acredite. Eu chamo as suas primas, e verá se elas não dizem o mesmo.

— Não chame as minhas primas, Sr.ª baronesa. Eu preciso que V. Ex.ª me escute. Este é o momento solene da vida ou morte. Hei-de hoje ouvir aqui a minha sentença. A pedra da sepultura já está erguida para mim; o seu braço suspendeu-a; o seu braço há-de afastá-la de sobre o peito, que me esmaga, ou deixá-la abafar o meu derradeiro gemido.

«Que linguagem, Sr. Marcos! — disse ela. — Pelo amor de Deus, faça-me a justiça de me não julgar criança. O infortúnio emancipou-me. Não posso ser iludida, nem iludir-me. Tenho aquela dolorosa penetração que adquire o espírito à medida que a boa fé do coração se perde. Com que fim emprega tantos esforços baldados para inquietar-me?»

— Eu queria fazer a sua felicidade pelo amor.

«A intenção é generosa, e eu não sou ingrata. Mil vezes agradecida, Sr. Leite; mas o amor não pode dar-me felicidade. Imagino que ele possa ser a alegria de muitas almas puras e impuras; dou crédito a tudo o que se diz de sublime e celeste acerca desse sentimento, o mais mavioso de todos; mas sem coração essa flor não pode dar perfumes duma hora. O meu coração desfez-se em lágrimas, cuja história não é nova para o Sr. Marcos Leite. Eu não o amo, não o posso amar, apenas lhe vejo todas as boas qualidades que se podem desejar num amigo. Quadra-lhe esta afeição? quer-me para sua amiga? está decidido a aceitar deveras este oferecimento que tantas vezes aceitou, e outras tantas desprezou?»

— Desprezei!?

«Sim; pois que outro nome se deve dar às suas cartas escritas com um fogo que me deslumbra sem me queimar, instantes depois que me prometia respeitar a minha posição, compadecer-se dos meus infortúnios, e acolher-me à sua estima como uma alma quebrantada de enfermidades, que só os melindres duma verdadeira amizade podem suavizar? Não é meu amigo, Sr. Marcos. O senhor imaginou que eu tinha uma fibra do coração capaz de sustentar o peso de alguma grande desgraça, e quis parti-la.

Enganou-se; nem essa já tenho. Que mais quer que eu lhe diga?»

— Mais alguma coisa: disse-me V. Ex.ª que me não amava; agora diga-me que me despreza.

«Não posso. Sou sua amiga: não há neste mundo outro homem a quem eu possa dizer o mesmo. Sou para si, apesar da minha inutilidade, o mais que posso ser... Agora, se me dá licença, vou ao quarto de minha mãe, que está doente e só.»

O meu amigo Marcos Leite, fechando assim o diálogo com a esposa de João José Dias, fixou-me dum modo que parecia perguntar-me a razão porque eu me não ria.

«Esses triunfos são parecidos com as minhas derrotas» — disse-lhe eu.

— É que tu não sabes nada do coração humano! — replicou o singular provinciano, com um sorriso, que poderia ser definido enfatuamento tolo por quem não conhecesse a inteligência clara de Marcos Leite.

Vais agora ver que todos estes atalhos conduzem à estrada real da terra da promissão — prosseguiu ele. — Josué está defronte das muralhas de Jericó. A trombeta da aniquilação vai soar. A virtude de Ludovina está abalada desde os alicerces, e desabará como todas as virtudes possíveis no romance, e impossíveis na vida qual ela é, e como bom é que ela seja para que este mundo se suporte desde o amanhecer até que o sol refresca a sua fronte abrasada nas águas do oceano… Deleitei-te com esta nesga de estilo? Até os olhos se te riem quando ouves tolices eufónicas!... Vou concluir.

«Já?!»

— Achas que é cedo?

«Parece-me que o triunfo está muito longe ainda para concluíres tão depressa.»

— Lê esta carta, e prova-me que conheces alguma coisa do coração, dando como infalível a minha vitória.

Comecei a ler com ávida curiosidade a seguinte carta de Ludovina:

«Eu procurei este abrigo, cuidando que encontrava nele paz, esquecimento, anseios para Deus, bálsamo de piedade para as chagas de minha mãe e minhas, o desejo suave de morrer com ela, e um acabar a vida melhor que o princípio.

«Gozei alguns meses, se não a realidade, ao menos a esperança destes bens. Por que infortúnio estava confiada ao Sr. Marcos a missão de inquietar-me até me afligir com a mortificação das suas instâncias impertinentes, perdoe-me a clareza da ideia...?»

«Que amabilidade!» — disse eu, interrompendo a leitura.

— Lê, e não comentes por ora.

Prossegui, lendo:

«Muito egoístas são os homens, santo Deus! Há uma infeliz mulher, como eu, que impressiona um homem como o Sr. Marcos. Sou procurada na minha solidão por V. S.ª que me oferece o seu amor. Respondo-lhe que o não posso aceitar, porque a infelicidade me tornou dura e insensível aos prazeres dos afectos do coração. Conto-lhe a minha vida com aquele desabafo e confidência que forma as amizades imorredoiras. V. S.ª escuta-me, admira-me, lamenta-me, e faz-me acreditar que a minha dor é para si tão respeitável que não ousará mais despertar-me o desejo de alegrias impossíveis para mim. Apenas decorridas algumas horas, abro uma carta sua, em que espero encontrar a linguagem consoladora dum amigo, e leio um longo queixume contra a minha insensibilidade, e a ameaça de se matar, porque a sua mortificação é insuportável.

«Egoísmo, e tirania!

«Faltava-me a tortura da responsabilidade da sua vida, Sr. Marcos! Quem me dera ser o que creio que se é no grande mundo, que eu não tive tempo de estudar! Lá, as mulheres experimentadas nas tempestades do coração, sabem, creio eu, que nenhum homem morre em naufrágio. Eu tenho a inocência de crer que o mortifico, que o incomodo com a minha frieza, que o não satisfaço com o grande afecto de amiga que lhe dou.

«Que futuro me queria dar, Sr. Marcos? Pois não conhece a minha posição? Não adivinha que vivo toda e exclusivamente no amor de minha mãe? Que entrei num caminho de amarguras voluntárias donde não posso desviar-me uma linha, sem converter em remorso a consciência das boas acções que pratiquei até hoje? Deixe-me também ser egoísta das minhas virtudes, porque não tenho outro amparo que me sustente a coragem para sofrer o pouco de vida que me resta.

«Eu avalio o seu coração. Confesso que, há três anos, o encontrarmo-nos seria um desígnio da Providência divina. Creio que seríamos felizes; que teríamos a bem-aventurança na terra.

«Agora, porém, não há futuro para nós, nenhum futuro, meu amigo.

«São as últimas palavras que lhe dirige a sua sempre amiga Ludovina.»

— Que esperas agora, Marcos? — perguntei eu.

«Espero que ela se compadeça da minha humildade.»

— Humildade!? não entendo...

«Essa carta é um esforço extremo de quem se quer segurar à aresta do abismo. A baronesa é mulher.»

— Já sei.

«Cuidei que não sabias, e decerto não sabes o que é uma mulher.»

— Então, já não aprendo.

«Vou-te ensinar o que são todas, definindo-te Ludovina.»

— Escuto, sem respirar.

«A baronesa ama-me.»

— Isso é bem positivo e claro? Vê lá...

«Tenho visto. Ama-me, e está sem forças para manter uma isenção contrafeita. A mulher, quando se sente enfraquecer, revolta-se contra o homem que a subjuga.»

— E depois?

«Se esse homem aceita humildemente a revolta, é ela mesma a que se revolta contra si, incriminando-se de ingrata e insensível.»

— É pelos modos uma enfiada de revoltas, de bernardas do coração...

«Estás hoje intratável!»

— Estou intolerante com os absurdos. Esperas que ela te mande chamar à grade do mosteiro para assistires à queima desta carta na pira do amor?

«Talvez... Tu és uma criança velha. Não sabes nada. Morres ignorante dos segredos do coração feminino... Que lástima!»

— Não me chores, responde: tiveste o cuidado de avisá-la que te vinhas suicidar nas florestas do Senhor do Monte? Meu caro Marcos, eu acredito que conheces todas as mulheres menos Ludovina. Há um Waterloo para cada Napoleão destas conquistas incruentas. O teu é a baronesa de Celorico de Basto. Queres poupar-te a um desgosto de amor-próprio? Esquece-a.

«E a omnipotência da vontade o que é? Hei-de triunfar, ou Ludovina é uma natureza superior à humanidade...»

 

Saí de Braga. O meu amigo ficou à espera da segunda «revolta» rimando a quarta poesia em quintilhas, e os primeiros duzentos versos duma elegia que ele intitulava o seu epitáfio.

 

Um mês depois encontrei no Porto Marcos Leite.

«Então?» — exclamei eu a custo, com as costelas apertadas num abraço homicida.

— A baronesa?

«Sim... diz-me alguma coisa da última “revolta”.»

— A baronesa... caiu miseravelmente.

«Caiu?!»

— Não o sabias? que estúpida espionagem tu trazes nas casas alheias!

«Venceste, pois. Marcos! Oh minha pobre Ludovina! onde eu te havia posto! O que dirá o público! Despenhou-se aquele anjo! Quando encontrarei eu outro para o trono que ficou vago?!»

— E em que lodaçal ela caiu!...

«Creio...»

— Esse creio é uma afronta...

«A ela...»

— Querem ver o romancista com ciúmes!...

«É compaixão dela, e de ti...»

— De mim! — tornou ele soltando uma estridente risada — de mim! Pois cuidas que o lodaçal sou eu!? Restitui-me a minha inocência na terrível torpeza que ela praticou.

«Depressa... que fez ela?»

— Caiu nos braços asquerosos de...

«De quem!»

— Do marido! Não te espantas da perversidade!? Estás corrupto!

«Por consequência está coroada a virtude da minha heroína com o extremo suplício.»

— Pelo que oiço, denominas resignação o que no meu vocabulário equivale a baixeza de alma! São tantas as mártires que sorriem à socapa da tua compaixão... Confessa que Ludovina não podia dar mais insignificante testemunho dum espírito menos de trivial. Entregar-se de novo a João José Dias!

«Cala-te, ímpio! não cuspas na face da mártir! Conta-me os pormenores dessa reconciliação. Palpita-me que a promoveu algum grande infortúnio...»

— Qual? adivinha lá...

«A morte de D. Angélica.»

— Justamente: morreu há três semanas.

«Atormentada de saudades... pobre mulher!»

— Creio que sim. Disseram-me minhas primas que lhe encontraram um retrato no seio, ainda embaciado pelo último respiro que ela exalou. Devia ser o retrato de António de Almeida. Também me disseram que viram ajoelhar Ludovina ao pé do cadáver, e lhe ouviram dizer: «A sua memória fica sem mancha, minha mãe!»

«Isso é triste, Marcos! Compreendes tu a santidade dessas palavras?»

— Compreendo; mas abomino a melancolia. O mundo aceita estes heroísmos como esquisitices. Eu pertenço a este mundo, dei-lhe o que tinha de bom no coração, e quero ter grande partilha no cinismo que ele dá em paga.

«Não importa. Ludovina continua a ser um anjo, confessa.»

— Parece-me que o seria, se não saísse de ao pé do túmulo de sua mãe. Se João José Dias avilta uma criatura que é só humana, com o seu contacto, como há-de ele sustentar as qualidades dum anjo?

«E se Ludovina aceita as torturas da convivência com tal homem, como provocações à morte?»

— Morrerá estupidamente. Será indigna dum necrológio, e terá apenas uma magra local chamando os amigos do marido a assistirem-lhe aos funerais.

 

Deixemos falar este homem sem alma, leitoras!

Ludovina continua a ser a flor da criação, o espelho de infelizes, o elo que prende a criatura ao Criador, o anjo que chora, esperando que os anjos a levem deste desterro.

 

FIM

Notas

 

 

[1] É para espantar a memória de Francisco Nunes, em crise de tamanha angústia! Aquela nesga de história destoava da virulência da apóstrofe; mas foi dita com sanhudo entono.

[2] É ordinário este estilo; aqui não há unidade; o ímpeto afrouxa, e descai na vulgaridade tacanha do artigo de fundo. É defeito de todos os nossos oradores de inspiração: remontam-se; a gente está a vê-los lutar com as águias; e, quando mal se precata, vê-os cair, a disputarem a presa do escaravelho que se rola no chão. Francisco Nunes tem lastimáveis desigualdades nesta apóstrofe.

[3] Perdoem-lhe a mentira pela intenção boa com que a diz...

[4] Veja Vies des dames galantes, por le Seigneur de Brantome — Discours premier.

Camilo Castelo Branco (1825-1890)

 

«A escala dos sofrimentos humanos é infinita.»

Você terminou O Que Fazem Mulheres

Camilo Castelo Branco

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