O Que Fazem Mulheres
Capítulo XII
XII
Enquanto D. Angélica dormita os sonos curtos e sobressaltados da febre, a baronesa despertou o pai, chamando-o à antecâmara.
Melchior Pimenta, estremunhado e como ébrio dos aturdimentos da morfina, estranhou à filha a extraordinária madrugada, e perguntou se o barão fizera alguma nova loucura.
— Não podemos continuar a existir nesta casa, meu pai — disse Ludovina, sem saber ainda como sair-se bem de lance tão perigoso para sua mãe.
«Então que houve? esse alarve que fez? será necessário amarrá-lo?»
— O necessário é sairmos; mas a mãe está muito incomodada...
«Que tem ela?!»
— Os meus desgostos afligiram-na a tal ponto que está ardendo em febre, e não sei se poderá transportar-se.
«Vamos vê-la.»
— Pois sim vamos, mas não perca tempo. Um médico é o mais urgente agora. Veja-a; se ela estiver descansando, não a desperte, e vá dispor as coisas em nossa casa para nos mudarmos logo, sim, meu pai?
«Mas que fez o bruto?! A gente há-de sair daqui sem dar uma satisfação à opinião pública? Não vês que esta saída precipitada autoriza a maledicência a caluniar-te como o barão te calunia?»
— Não tratemos agora da opinião pública, nem do barão. O pai saberá tudo. Venha ver a mãe, e vá depressinha, sim?
Melchior Pimenta entrou na câmara de sua mulher. Tacteou-lhe a testa que transpirava o suor da febre, sondou-lhe o pulso, afastou-lhe os cabelos dos olhos, e murmurou:
«Isto é doença séria, Ludovina!...»
— Talvez não, meu pai... São aflições que se curam com o sossego da nossa casa. Não se demore. Vá por casa do médico, e mande-o já. Se vir o barão, não lhe diga nada, promete-me?
«Eu sei cá o que farei! Ao despedir-me, tenciono dizer-lhe que me não codilhou. Tu tens escritura de dote. Quando quiseres, levantas vinte contos de réis...»
— Pois sim, meu pai, esses negócios não são para agora. O que eu quero é a saúde de minha mãe. Vamo-nos daqui embora, que eu torno a ser feliz... Se é meu amigo, não se demore; tire-nos deste purgatório.
Melchior Pimenta ia cismando no divórcio, e nos vinte contos, quando o barão lhe surgiu na extremidade do corredor.
— Bons dias, Sr. Melchior.
«Bons dias, Sr. barão.»
— Isso hoje foi madrugar!
«Assim é preciso.»
— Se não tem muita pressa, dê-me aqui uma palavra.
«Não posso, Sr. barão, vou com pressa.»
— Olhe cá, Sr. Melchior, é preciso que nos entendamos.
«A que respeito?»
— A respeito destas poucas vergonhas que aqui vão.
«Que chama o senhor poucas vergonhas?»
— Homem! vamos falar claro; eu sei tudo, e o senhor, se o não sabe, saiba-o, e tome tento na sua vida.
«O Sr. barão é que já perdeu o tento da sua. Essa cabeça está desmanchada.»
— Desmanchada está a sua, e bem desmanchada, Sr. Melchior. Entre cá, e há-de agradecer-me o que eu fiz, vingando a sua honra.
«A minha honra não pode ser ofendida nem vingada pelo Sr. barão.»
— Estou a ter pena do Sr. Melchior! Venha aqui dentro que eu conto-lhe tudo.
«Que me há-de o senhor contar?! — disse Melchior entrando na sala. — Quer contar-me a história do charuto?»
— O charuto! o charuto agora já me não serve a mim; é ao senhor; veja lá se o quer, que eu dou-lho de boa vontade.
«É para isso que me chama, Sr. barão? De que me serve a mim esse ridículo instrumento com que o senhor está representando perfeitamente o papel de doido?!»
— Doido quer o senhor fazer-me, mas há-de-lhe... digo-lho eu... Sente-se aí, e dê-me atenção, que o caso é muito sério...
Melchior Pimenta sentou-se impacientado. O barão de Celorico prosseguiu, cerrando a porta da sala:
— O senhor tem vivido enganado com minha sogra, acho eu.
«O quê?»
— Tenha mão, não se atrigue, Sr. Melchior. As desgraças são para os homens, e o remédio é aturá-las quando elas chegam. Sua mulher não lhe tem sido fiel.
«O senhor está doido, e, se não está doido, é um infame malvado!» — exclamou Melchior erguendo-se com arrebatamento.
— Sente-se, homem; eu não lhe tenho medo, nem meto a fala no bucho. Ouça, e faça o que quiser; creia ou não, saiba ou não saiba, o que eu lhe digo é que sua mulher tinha um amante, e eu dei esta noite um tiro nesse homem cuidando que era o amante de minha mulher.
«O Sr. barão sabe o que está dizendo? Se tem algum resto de juízo, desdiga-se da afronta que fez à minha honra.»
— Afronta?! essa não é má! Pois eu vinguei a sua honra, sem saber o que fazia, e o senhor ainda diz que o afronto! Ora, meu amigo, o senhor é que me parece doido! Acredite o que lhe digo, Sr. Melchior. Este charuto era do amante de sua mulher, que entrava no meu jardim pela porta do muro, e vinha a esta casa todas as vezes que queria.
«Quem, Sr. barão? diga quem, quando não um de nós há-de morrer.»
Ludovina entrou precipitadamente na sala.
«Quem?! então não diz quem é o amante de minha mulher» — repetiu Melchior, enquanto a baronesa cravava os olhos no semblante subitamente desfigurado do marido.
— Que indecentes palavras escuto, meu pai!
«Primeiro as ouvi eu a este miserável que mas disse!»
— A meu marido? Desculpe-o que ele tem o juízo perturbado. O Sr. barão não disse tais palavras com intenção de ofender os pais de sua mulher, não é verdade? Essa calúnia foi um desatino, uma irreflexão, não foi, meu amigo? Dê uma satisfação a meu pai, que está aflito como vê, ou então crave-me um punhal no seio, antes de repetir na minha presença que minha pobre mãe está infamada.
«Tens razão, Ludovina — murmurou o barão, com as lágrimas nos olhos. — Eu estou doido; o que disse é uma mentira; se for necessário, eu peço perdão ao Sr. Melchior, e à Sr.ª D. Angélica.»
— Ouviu, meu pai? Vá agora, vá. Assim fez o que lhe pedi?
«Foi ele que me arrastou para esta sala... Sabe que mais, Sr. barão? O senhor o que deve fazer é recolher-se a um hospital, antes que as autoridades o amarrem. Eu vou requerer um exame às suas faculdades intelectuais...»
— Meu pai! — murmurou aflitivamente Ludovina — pelo amor de Deus lhe peço que se retire, quando não, vê-me cair aqui morta.
«Eu vou, menina.»
E saiu, reatando a meditação no divórcio e nos vinte contos.
— Não lhe disse eu já, Sr. Dias — continuou Ludovina, baixando a voz com maviosa brandura, e assumindo ares de penitente — não lhe disse eu já que o homem ferido pelo senhor era meu amante? que a mulher da janela do jardim era eu? que a culpada, a adúltera, a infame, a digna de morte ou do seu desprezo é sua mulher?
«Mentes, mentes, Ludovina! eu ouvi tudo o que tua mãe te disse no quarto.»
— Que importa o que o senhor ouviu? Tudo o que meu marido disser contra mim, tudo o que a sociedade inventar contra a minha dignidade, hei-de certificá-lo com o meu silêncio, e com o meu divórcio. Tudo o que o senhor disser contra minha mãe, hei-de desmenti-lo em público, pondo em mim as nódoas que o senhor puser na reputação dela. De maneira que meu marido, quando cuida salvar a sua honra, sacrifica-a, e provoca o escárnio do público. Vê quais são as minhas tenções, meu amigo?
«Tu não fazes isso, Ludovina! — rugiu iracundo o deplorável homem. — Se fazes tal... Ludovina, se fazes tal...»
— Que se há-de seguir?
«Eu sei!... tu queres matar-me, mulher! mata-me, mas deixa-me a honra, que eu estimo mais que tudo. Dou-te tudo quanto tenho, deixo-te em liberdade, torno para o Brasil; mas não digas que me foste infiel; não digas que esse homem era teu amante. Peço-te isto de joelhos, Ludovina.»
Era feio o espectáculo, mas fazia dó a postura humilde do barão.
Ludovina, apiedada ou aborrecida da atitude, pôs-lhe as mãos nas espáduas, pedindo-lhe, afectuosa, que não estivesse assim.
E continuou:
— Entre nós há só uma reconciliação possível. Vou fazer-lhe uma proposta: se o senhor a aceita, retiro-me contente de sair por um contrato; se a não aceita, vou de sua casa como fugitiva. O Sr. Dias não dirá a alguém que deu um tiro em António de Almeida; não fará suspeitar pelo mais pequeno indício que António de Almeida foi ferido, quando entrava no jardim desta casa; não proferirá o nome de minha mãe, contando ou ouvindo contar essa desgraça acontecida esta noite. Estas são as suas obrigações do contrato que lhe proponho; as minhas são as seguintes: sairei de sua casa, com minha mãe, porque o amor que tenho a minha mãe é incomparável ao simples respeito que o Sr. Dias me inspira; sairei, calando o segredo do seu crime, para que ninguém desconfie de que o senhor me surpreendeu com um amante. Autorizo e quero que meu marido diga às pessoas admiradas da nossa separação que o meu génio era intratável, que a minha educação era péssima, que as minhas impertinências de rapariga eram insofríveis. Diga tudo o que lhe lembrar em meu desabono, que eu com o meu procedimento desmentirei alguma desconfiança injuriosa que possa haver. Eu não levo desta casa o valor de um ceitil. Os meus baús irão como saíram do meu guarda-roupa de solteira. O senhor fica na posse livre de tudo que tinha, menos de uma mulher que o há-de infalivelmente flagelar. Essa mulher sou eu, Sr. Dias, porque o não amo, nem sequer estimo. Respeito-o, temo-o, daqui a pouco hei-de odiá-lo. O homem que o senhor feriu ou matou criou-me nos braços, foi o primeiro rosto estranho que vi ao pé do meu berço, há quinze anos que o via todos os dias, da amizade que lhe tinha ao amor que se pode ter a um homem delicado, generoso, e confidente das alegrias e mágoas da minha família, não ia grande distância. Eu choro esse homem, Sr. Dias, não é só a minha desgraçada mãe que o chora. Se ela era amante dele, eu, como filha, não tenho direito a censurá-la; como mulher de coração creio que lhe perdoaria. Tenho dito mais do que devo, e importa ao Sr. Dias. Entendeu-me bem, quer que eu repita por outras palavras o que disse?
«Não é preciso... entendi bem...»
— Qual é a sua resposta?
«É necessário pensar, Ludovina.»
— Não lhe dou tempo a demoradas reflexões. Eu hei-de sair daqui logo que meu pai volte.
«Nesse caso, faz o que quiseres; mas eu hei-de dizer em toda a parte que António de Almeida era o amante de tua mãe.»
— E eu direi que era o meu amante; darei em público quantas provas puder dar para o desmentir; hoje mesmo irei ser a enfermeira desse homem, se ele não tiver morrido. O Sr. Dias será tido na conta de assassino, e assassino ridículo, que mata o amante de sua mulher, e denuncia adúltera sua sogra, para que se suponha que os seus merecimentos não podiam ser vencidos por um rival.
«Tu és uma serpente, mulher! — bradou o barão, fazendo com os braços e a cabeça as asas dum alambique. — És um dragão! foste o demónio que me apareceste em corpo e alma! Vai-te para as profundas do inferno, e nunca descanso tenhas noite e dia enquanto me não vieres pedir perdão de quereres desonrar teu marido, que te deu palácios, e quintas, e carruagens, e tudo quanto cobre o sol. Vai-te para onde quiseres, ingrata mulher, e quando souberes que eu morri doido vem tomar conta de tudo isto que é teu, porque o que vocês querem todos é acabar comigo, para ficarem com isto que eu ganhei com honra a trabalhar como um moiro!»
Ludovina voltara as costas ao berreiro virulento de João José Dias.
Entrou no quarto de sua mãe, que não ressurgira ainda do torpor febril. A criada, que lhe assistia, entregou à baronesa uma carta, subscritada a D. Angélica. Era-lhe conhecida a letra de António de Almeida. Alvoroçada com a aprazível certeza de que Almeida vivia, Ludovina abriu a carta sem reflectir. Apenas viu no topo do papel «Angélica», simplesmente «Angélica», estremeceu, caindo em si. Era uma carta do amante, do amante de sua mãe. Repugnava-lhe o lê-la, mas a amizade instigava-a, desprezando os escrúpulos duma virtude intempestiva.
Leu o seguinte:
«Angélica, fui ferido com um tiro quando entrava no jardim dessa casa. O segredo do meu assassino morrerá comigo. O meu ferimento dizem ser mortal. Não importa. Morro amando-te. Esperava assim morrer. Mas a tua honra, minha amiga? Não bastará a minha vida para salvá-la? Dá um beijo a tua filha, ao nosso anjo que eu não verei jamais. Sacrificámo-la ambos, ao verdugo de... A febre deu-me este intervalo. Adeus, até ao céu dos desgraçados. — A. de A.»
Ludovina rompeu em gemidos, e caiu de joelhos orando com o fervor da desesperação. Nada mais triste neste mundo que o espectáculo daquele quarto! Não é preciso grande coração e poder de fantasia para aceitar um quinhão de tamanha angústia. A alma de pedra estala de encontro a este conflito que esmorece na pintura. Cada lágrima ardente de Ludovina bastaria a reacender a luz de piedade apagada no coração humano. Já imaginastes uma vida com este imenso horto de agonia? Na previsão de todos os infortúnios, concebeu alguém as torturas daquela mãe, e da filha que aceita a desonra para salvar-lhe o nome? Desamparados da esperança e de Deus, cobrai alento nas dores com que não podeis, agradecei ao vosso anjo mau os suplícios vindos, pedi-lhe mais, pedi-lhos todos, menos o cálix de Angélica, e Ludovina, porque há aí o suco de todos os venenos provados neste inferno da vida, obra-prima duma causa eterna, obra que mais me espanta a mim que a criação dos astros, do mar, e do homem.
A minha grande prova de Deus, da justiça, e da condenação é este inferno. O outro... é inferior à Omnipotência que deixou, no seio da criatura, aberta a garganta do abismo, onde a alma se despenha a devorar-se.