O Que Fazem Mulheres

Camilo Castelo Branco · Capítulo 22 de 23

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O Que Fazem Mulheres

Notas

Conclusão

 

 

O barão de Celorico parecia uma criança atemorizada ao pé de Ludovina. Se a perdia um momento, davam os espectros com ele, e lá ia o pobre homem gritando, até se acocorar ao pé dela, escondendo-se com a roda do vestido.

Bastava a presença de Ludovina para sossegar-lhe os acessos de loucura, manifestados em exclamações desatadas, quase sempre seguidas da aparição do charuto, cuja história ele contava a sua mulher, pelo teor ridículo que já lhe ouvimos.

Acudia Ludovina com o inútil remédio da razão, despersuadindo-o da morte de Almeida. O barão abria a boca atenciosa, parecia dar mostras de entender e acreditar; o desfecho, porém, do silêncio sereno com que a escutava, era ver um novo avejão, que o vinha aterrar por cima do ombro da mulher.

Os primos compadecidos, e os facultativos aconselhavam à baronesa o emprego dos meios violentos para o curarem. A grande ideia terapêutica era o cáustico e a sangria. A contristada senhora anuiu. Por sua parte, fez-lhe até carinhos para o induzir a deixar-se sangrar. O barão replicava que o queriam matar, e de joelhos pedia à mulher que não o deixasse morrer às mãos dos seus inimigos, que o perseguiam para lhe roubarem a esposa.

Resolveram empregar a força. Dois robustos campónios tomaram a peito a árdua empresa. O cirurgião armado de lanceta esperava o ensejo propício. O oficioso abade da freguesia encarregara-se de cingir-lhe um lenço sobre os olhos. O juiz ordinário pegava na bacia. Vários primos formavam o corpo de reserva, e a baronesa fugira para não presenciar os estrebuchamentos do infeliz.

«Agora!» — disse o facultativo.

À palavra agora o barão estava entalado entre quatro braços cabeludos, e o abade, à retaguarda do preso, lançava o lenço com mão certeira. O barão arquejava, sem contudo barafustar entre os membrudos braços. Tudo prometia um propício resultado, quando o antigo hércules da Rua dos Pescadores sacode um solavanco, e dispara dois murros simultâneos nas ventas vizinhas. Umas eram as do abade, o proprietário infeliz das outras ventas era o juiz ordinário. Investiram de novo contra ele os atletas: cara lhes foi a façanha, porque apararam um chuveiro de socos tremebundos, indo um deles por engano, estoirar na lombada do cirurgião. Rarearam as fileiras. O abade, o juiz, os homens de pega, parte dos primos, o cirurgião coaram-se cabisbaixos pela primeira porta que lhes franqueou a fuga atropelada.

Nesse conflito apareceu Ludovina. O doido baixou as armas contundentes, os braços inteiriçados que vibravam o ar como duas mangueiras de malho. Correu para ela, como a pedir-lhe socorro; ouviu-lhe as repreensões com o tremor do medo, e caiu prostrado da luta sobre uma cadeira, apegando-se à saia da baronesa.

Aqui está o viver da deplorável senhora, no espaço dum mês, em Celorico de Basto. Aquela vida, e as dores profundas de outras causas, eram o preço porque se fizera, ou a fizeram opulenta aos olhos da sociedade, que, ainda assim, a invejava.

O barão desmedrara a olhos vistos. Do antigo João José Dias restava o arcabouço proeminente de ângulos ósseos. A panda fisionomia, tão rúbida de nediez chorumenta, chupara-se, entanguira-se, coisa de fazer lástima. Diziam todos que a baronesa, um mês depois, seria uma formosa e rica viúva. Já dois dos primos, morgados empenhados, botavam suas medidas, e porfiavam a conquista. As damas, com palavras francamente grosseiras, iam dando os parabéns à baronesa. As que ousaram feri-la assim, ouviram resposta que lhes fechou para sempre as portas de sua casa.

A ideia que dominava o barão era a morte de António de Almeida. Ludovina perdera a esperança de afugentar o fantasma, empregando razões tão convincentes da vida de Almeida como eram mostrar-lhe cartas dele, que o barão ouvia ler com o sorriso do idiotismo, precursor de nova berraria.

A última que Ludovina lera, quase certa de que seu marido não a percebia, foi a seguinte:

«Minha amiga. É já bastante o número dos infelizes que põem os olhos lagrimosos no abrigo consolador de Ludovina. Somos já muitos os desamparados da esperança e da alegria. Daqui até ao fim da vida é sofrer, e chorar de modo que o mundo nos não veja as lágrimas: é preciso que o coração as verta, e as absorva; é necessário sufocar os gemidos, e entreter as dores, cavando a sepultura.

«Curta será a minha existência. Quarenta e quatro anos, e a saúde alquebrada, e o coração feito pedaços, é um bom agoiro, não é? Mas, para Ludovina será extensa a estrada da amargura. Tem vinte anos, minha amiga; vejo-a na aresta do precipício, a contemplar-lhe a profundeza, e aí se lhe hão-de prolongar as horas como as do desterrado. Meu pobre anjo! quem lhe vaticinaria há dez anos este infortúnio?

«A santidade do seu viver devia ser recompensada aqui; mas a fé, a religião dos desgraçados, ensina que o prémio das grandes virtudes não pode ser dado neste mundo porque não há mãos puras que possam tecer a coroa do martírio. Espere, Ludovina, com os olhos no céu, e a mão sobre o seio para esmagar os ímpetos do coração, que tem acessos de raiva blasfema.

«Obedeci-lhe, Ludovina.

«Comprimi, abafei, matei a essência da minha vida, o sentir que ma fazia preciosa. Sou para sua mãe uma memória. Dela tenho só o nome escrito no coração, como o epitáfio do afecto que ali morreu recalcado.

«Deu-me um cálix, Ludovina. Bebi-o dum trago. Se tem outro, ofereça-mo; tomá-lo-ei de joelhos.

«Pergunta-me qual é o meu viver?

«É isto, minha amiga. Não sei dizer-lhe que turbação aflitiva me embaça o ânimo. Em redor, todos os meus horizontes são tenebrosos. A mesma sepultura perdeu para mim os encantos de repoiso, esse acabar que é o porto seguro de todos os náufragos deste horroroso pego.

«Poderei fazer-lhe entender, Ludovina, um quadro triste da minha imaginação cansada de sofrer? Vejo dois vultos em pé, taciturnos, sombrios, com os olhos cerrados, travando-se as mãos com a gélida imobilidade de duas estátuas. Parou a vida externa nesses dois entes. Uma tremenda agonia lhes despedaçou a maior parte do coração; o remanescente são fibras de ferro que resistem ao veneno e à morte. Ao pé deles está a sepultura de ambos, e o anjo da consolação, sentado nela, alimenta aí a alâmpada da esperança.

«Adeus, minha santa amiga.»

Esta carta reclamaria notas explicativas, se o entendimento do leitor não traduzisse a singelo o que aí se esconde no figurado da linguagem. A aliança de António de Almeida e Ludovina, sobre um contrato de honra tão melindrosa, não podia ser tratada com mais recato e pejo, de ambas as partes. Entende-se o melancólico debuxo que atribulava o espírito de Almeida. Angélica era a companheira desse homem que lhe dava as mãos à borda da sepultura. A alâmpada da esperança alimentada pelo anjo da consolação, era o fito da morte donde ambos não desfitavam os olhos, como a náufragos sucede, se no horizonte se lhes recorta um rochedo salvador.

Ludovina entendeu o viver de sua mãe, e pungidas lágrimas essa carta lhe desentranhou do coração. Chamou-a para si com grandes demonstrações de saudade. Pediu-lhe que fosse aliviar-lhe o peso da cruz à qual já não bastavam seus ombros. Dava-lhe paciente conta do seu viver ao pé do barão que noite e dia bramava contra os espectros, e já dava aos facultativos receio de morrer desvairado, a mais acerba de todas as mortes.

D. Angélica, fechada em seu quarto, realizava a imagem que a fantasia de Almeida adivinhara. Sombria, inerte, reconcentrada, impassível a cuidados, carinhos, e desvelos de Melchior Pimenta, apenas dizia que estava esperando a morte, e repelia com desabrido enfado os lenitivos de quem quer que fosse.

Nunca mais escrevera a Almeida, e à filha eram mais as lágrimas que as letras. Não era a sua uma dessas dores que desabafam. Sentia-se tomada de vergonha, se o coração a mandava abrir-se em desafogados prantos com Ludovina. Sentia-se ferida de aborrecimento, se não ódio, quando o marido, mais simulado que dorido, lhe repetia as consolações frívolas de quem não comparte as penas.

À saudosa carta que a chamava a Celorico, D. Angélica respondera que já não tinha vigor que a levantasse do seu leito. Suplicava a Ludovina que lhe perdoasse a ela como causa dos seus tormentos, e lhe aceitasse como reparo de seu pouco amor maternal os amargos transes que lhe estavam desfazendo o coração fibra por fibra.

No entanto, disseram os médicos à baronesa que a aparição desse homem, que o barão julgava sua vítima, poderia recobrar-lhe a razão, desoprimindo-a de fantasmas e remorsos, causas principais da demência.

Ludovina comunicou a Almeida as esperanças dos médicos, sem pedir-lhe o sacrifício de se verem.

Almeida foi a Celorico de Basto, e encontrou ao pé da baronesa Melchior Pimenta.

Ludovina turvou-se da surpresa, e assim denunciou aos olhos do pai o sobressalto em que a pusera a aparição do amante.

Melchior Pimenta, forte da sua indignação, insultou Almeida, exprobrando-lhe a pertinácia da infâmia, e ameaçando-o com a morte, se ele não saísse imediatamente daquela casa.

Ludovina cobrando forças, disse que só ela tinha direito de expulsar alguém daquela casa. Encruou-se a sanha de Melchior, vociferando injúrias contra a filha, e provocações ao hóspede silencioso. E saiu escandecido de raiva. Almeida quis segui-lo, com sereno gesto, sem assomos de cólera, nem propósito de vingança. Impediu-o Ludovina com lágrimas e gemidos que irritavam as iras paternas. Bem se via que não estava ali um pai; e, se estava, não era por certo Melchior Pimenta.

Este conflito atalhou-o o barão. Seguiu-se uma cena de efeito dramático. O barão recuava diante de Almeida que lhe estendia a mão. Ludovina segurava o marido, pedindo-lhe que aceitasse a reconciliação que Almeida lhe oferecia. Este com palavras afectuosas lhe pedia a sua estima, e o esquecimento da passada ofensa. O barão, ora espavorido, ora risonho, alternava os olhos entre Almeida e Ludovina.

O leitor já sabe como no teatro se recupera o juízo. Se é mulher a doida, rigorosamente desgrenhada, esfrega os olhos, atira com as madeixas para trás, e dá fricções secas às fontes com frenesi; se, homem, abre a boca, espanta os olhos, soleva o peito em arquejantes haustos, despede o grito agudo obrigado a ambos os sexos, e está pessoa de juízo, capaz de casar, que é quase sempre a pior das doidices em que os autores fazem cair os seus doidos, restaurados para a razão.

Pois o barão de Celorico não se curou por esse teor. Os áditos da razão estavam cerrados de modo que levou longo tempo a desempeçá-los. A contínua assistência de Almeida ao pé do leito, e as continuadas insinuações de Ludovina, conseguiram reabilitar-lhe o juízo, mas vagarosamente. O barão parecia emergir dum pesadelo atroz quando reconheceu Almeida. Não houve exclamações nem abraços de pé atrás, secundam artem. Lágrimas, sim, as da baronesa, cujo contentamento desmentia as conjecturas dos primos que a imaginavam lograda nas suas ânsias de viuvez. O custoso, depois, foi rebocar os estragos que a demência fizera no corpo do barão. Foi longa a convalescença. Almeida quis despedir-se; mas o enfermo erguia as mãos suplicantes pedindo-lhe que o não deixasse.

Melchior Pimenta, de volta de Celorico, contou a sua mulher o escândalo que presenciara. Repetiu contra Ludovina as injúrias que lhe dissera em face. Protestou esbofetear e apunhalar Almeida na presença de testemunhas que depusessem no processo da sua honra, e impôs, com autoridade, a sua mulher a saída imediata da casa da adúltera.

D. Angélica ergueu-se impetuosa e terrível, exclamando:

«A adúltera sou eu!»

— Que dizes, Angélica?! — bradou Melchior.

«Adúltera sou eu. Ludovina encobriu a minha desonra com a sua virtude. Os nomes insultuosos que lhe dás, repara bem, Melchior, e vê-los-ás estampados no meu rosto. Se queres lavar com sangue estas manchas, arranca-mo do seio!»

E assim falando, tirava o lenço que lhe velava os ombros, oferecendo o peito.

— Endoideceste, minha querida Angélica? — exclamou Pimenta. — Faltava-nos esta desgraça! Estás doida! maldita seja tua filha que te levou a esta situação!

«Não estou doida, Melchior! não estou doida! Estou moribunda, e não quero deixar infamada a teus olhos a minha filha. Se eu te pedisse perdão do meu crime, acreditar-me-ias?»

— Não, não. Tu és uma esposa virtuosa, Angélica! Diz o que quiseres para salvar Ludovina, que eu não te creio. Reprovo essas demasias d’amor, que ela te está pagando com o amante ao pé de si.

«Melchior! — disse Angélica com firmeza e gravidade. — A tua filha está inocente; a amante de António de Almeida sou eu! Não me perdoes, vinga em mim a tua desonra, porque o perdão não to peço. Sabias, quando me aceitaste como tua, que eu não podia pertencer-te. Colocaste ao meu lado o homem que me fazia odiosa a tua baixeza. Nunca me perguntaste se era verdadeira a carta que te escrevi em solteira, pedindo à tua comiseração que me deixasses. A mulher que fez isto, não pede perdão. Revolta-se com a coragem do desespero, e deixa-se morrer. Confesso o crime para salvar minha filha. Julga-me tu agora, mas vai pedir perdão àquela santa que quis poupar também a tua dignidade.»

Melchior Pimenta saiu do quarto de sua mulher.

Para se armar do punhal de D. Jaime de Bragança, e do infante D. João?

Para se dar um tiro no ouvido?

Para mergulhar da ponte-pênsil, ou despenhar-se dos Arcos-das-Virtudes?

Para cismar e endoidecer?

Não, senhores.

Melchior Pimenta foi para a Alfândega, jantou no hotel de Miss Mery, e jogou o voltarete até às onze horas na Assembleia Portuense.

No dia imediato, visitou sua mulher, e recomendou-lhe que desse um passeio no jardim que estava o dia agradável. Às três horas procurou-a para jantar ao pé dela. Disseram-lhe que a senhora tinha saído numa cadeirinha, e deixara uma carta para seu marido.

Não vi esta carta; mas infiro o conteúdo pelos sucessos subsequentes.

D. Angélica obteve, vinte e quatro horas depois, licença de seu marido para entrar num convento, situado num ermo do Minho. Daí escreveu a sua filha, pedindo-lhe uma esmola para sustentar-se, visto que o trabalho não bastava às suas pequenas necessidades.

Ludovina apressou a sua volta para o Porto. Obteve licença para visitar sua mãe, e demorar-se no mosteiro por tempo indeterminado. Acompanhou-a o marido e deixou-a com a certeza de a trazer consigo passados dias.

São decorridos dois anos. A baronesa de Celorico ainda não saiu do convento. O barão sofre resignado a certeza de que sua mulher não sairá jamais.

A opinião pública diz que Ludovina merece louvores por não ter o descaramento petulante de apresentar-se como outras muitas, incursas no mesmo pecado; e declara a alta virtude de D. Angélica, mãe amorosa que deixa a sociedade para se enclausurar com a filha desamparada.

Melchior Pimenta está bom, e é comensal do barão.

António de Almeida encetou, há dois anos, uma longa viagem donde não voltou ainda.

O bacharel Ricardo de Sá comprou mais três bengalinhas, e dá a última demão ao seu SÉCULO PERANTE A CIÊNCIA.

São hoje 15 de Fevereiro de 1858.

O único personagem morto desta história é Francisco Nunes. Expirou ao cabo duma violenta apóstrofe, expedindo o derradeiro golfo de sangue com o epíteto mais fulminante que a sua cólera lhe sugerira. Matou-o o contrato do tabaco.

 

FIM