O Que Fazem Mulheres

Camilo Castelo Branco · Capítulo 3 de 23

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O Que Fazem Mulheres

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PARA SER COLOCADO ONDE O LEITOR

 

QUISER

 

Francisco Nunes...

Que nome tão peco e charro! Francisco Nunes!

Pois se o homem chamava-se assim!?

Deus sabe que tristezas eram as dele por causa deste Nunes. O rapaz tinha talento demais para escrever folhetins líricos, e outras coisas. Pois nunca escreveu, porque não queria assinar-se Nunes.

Há apelidos que parecem os epitáfios dos talentos.

Um escritor Nunes morre ao nascer.

Bem o sabia ele.

Houve em Portugal um escritor chamado António José. Se a Inquisição o não queima, ninguém se lembrava hoje dele.

Francisco Nunes só poderia viver na memória da posteridade, se S. Domingos fizesse o milagre de reacender as fogueiras nos subterrâneos do teatro de D. Maria.

Outros lá sofrem tratos agora, mas é em cima, no palco... Se, ao menos, Francisco Nunes escrevesse uma comédia...

Não escrevia nada; mas falava muito, e, quase sempre, sozinho, em casa, e na rua. Não incomodava ninguém; era um anjo; tinha só a perversidade de chamar-se Francisco Nunes.

Ele aí vai, faz agora três anos, por uma rua do Porto, vizinha da de Cedofeita, falando só, e falando, ao que parece, enraivecido. Ninguém o escuta, senão eu, porque lhe vou na alheta, com subtis sapatos de borracha.

Esta rua, por um lado, tem raros edifícios; pelo outro é marginada por um comprido muro de quintais que pertencem às casas da rua paralela.

Nunes, de tempo a tempo, sustém o monólogo, para puxar com sorvos sibilantes o vapor dum charuto. Depois, faz um trejeito iracundo, bate o pé com sanha, e prorrompe na imprecação interrompida, do seguinte teor:

«Arado pelo fogo do inferno seja o torrão maldito onde nasceu a folha deste charuto!

«A chuva candente de Sodoma e Gomorra tisne a folha do tojo e do carrasco que nascer no terreno que te produziu!

«Frieiras, gota, paralisia, e morte tolham os dedos que te colheram!

«O sol, que te secou, morra nos olhos de quem te trouxe aqui!

«As mãos que te enrolaram, charuto infame, sequem-se e mirrem-se como as das múmias de Mênfis.

«E para vós, contratadores, caixas, comarqueiros, e estanqueiros do contrato do tabaco, para vós o inferno ilimitado, a região tenebrosa dos condenados, onde há o ranger dos dentes, e o sempiterno horror!

«Para vós, Bórgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós, envenenadores impunes, o patíbulo neste mundo, donde fugiu espavorida a vergonha e a justiça; e as caudais de súlfur em combustão eterna nas furnas tartáreas, onde é de fé que dá urros medonhos um condenado chamado Nicot, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudência de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada

de França.[1]

«Porque os vossos charutos, propinadores de venenos, enegrecem as substâncias orgânicas, como o ácido sulfúrico.

«São amargos e cáusticos como o ácido nítrico.

«Calcinam os beiços como o ácido hidroclórico.

«Queimam a laringe como o ácido fosfórico.

«Laceram o esófago como o acetato de chumbo.

«Fulminam e despedaçam como o ácido hidrociânico.»

Enquanto ele repuxava o vapor do incombustível rolo de erva-santa (que blasfémia!... santa!) façamos tremendas reflexões:

Um «manual de química para uso dos leitores de romances» é instantemente reclamado. Sente-se na literatura este vazio, desde que a novela é um estendal da ciência humana; e esta pode, sem imodéstia, graduar-se assim.

Quando se escreviam bacamartes para as gerações sofredoras, que os leram, o sábio repunha aí em azedo vómito as indigestas massas, que ainda agora resistem ao dente roaz da carcoma e da ratazana, nos lotes esboroados das bibliotecas.

O in-fólio era uma crença, uma religião, uma faculdade daquelas gordas almas, que ressumavam pingue chorume por três mil páginas em tipo-breviário.

Não vos faz melancolia ver a lombada desses enormes volumes aprumados numa estante? Não há naquele aspeito triste alguma coisa que vos faz crer que o in-fólio chora pelo frade?

Agora não se escreve daquilo, posto que o saber humano seja mais vasto, e opulentado com as vigílias de dois séculos laboriosos. Reina o romancista, que é o sucessor do frade, na ordem das inteligências produtivas. Ora, o romancista há-de, por força de sua natureza científica, despejar no romance a ciência que lhe traz entumecido o estômago intelectual; e o romance, assim, deixará de ser lido, se o conselho superior de instrução pública não organizar os estudos de modo que as ciências transcendentes, em consórcio com as da natureza física, desbravem o espírito-charneca de muito leitor sandio, que não pode entender a iracúndia química de Francisco Nunes.

O qual continuou assim:

«Há cinco séculos que a raça proscrita de Israel sofreu em Paris uma perseguição sanguinolenta. Morreram milhares de judeus entre lavaredas, porque a calúnia, infamando a religião do Messias, disse que o povo judaico tentara envenenar as fontes e poços de França.

«E vós, judeus cristianizados, caixas do tabaco, derramais o veneno à luz do meio-dia; abris as vossas tendas, vendeis pelo preço de vossas carruagens a droga homicida; matais a mocidade duma nação, que asfixia às mãos dos velhos; a vós, que alimentais o vício alheio com o crime próprio, quem vos castiga, quem vos queima, quem vos enforca, quem vos obriga a fumar um charuto de vintém?

«Portugal, tu queimavas os judeus industriosos, a quem deveste os melhores livros de ciência, as obras-primas da arte, os dinheiros extorquidos à pobre raça, que tão caros pagou os trinta dinheiros que Judas não comeu! Queimavas o povo inofensivo, nação de cafres, e dás refrescos, e condecorações, e honrarias, e montes de oiro aos envenenadores públicos, aos sicários de charuto, que te desentranham a alma num rolo de fumo negro!

«Que é dos vestígios da civilização cristã? Que é da égide que protege o fraco dos afrontamentos do forte? Em que lápide está escrita a lei que assegura a vida do homem?

«A Roma pagã era o santuário da justiça. Aí os propinadores de venenos eram clandestinos. A mão cruenta do verdugo ia arrancá-los ao segredo das suas fornalhas, e mandava-os de presente ao diabo.

«Lucius Cornelius Sila, a tua lei de suplício para os empeçonhadores vale só de per si uma legislatura desta horda de togados rotos, que nos espremem da algibeira 1$960 réis diários, por cabeça.

«Aqui, há o morrer sem recurso de revista, o expirar em vómitos negros, o tossir ríspido da bronquite, as asmas ofegantes, o ronco profundo da pieira laríngea, os delíquios da cabeça atordoada, a podridão dos dentes, as fendas carboniformes dos beiços, os abcessos pulmonares, as hemorragias de sangue apostemado: — há tudo isto, debaixo deste céu impassível, na presença do código criminal, num país, onde trabalha a electricidade por arames, onde se comem omelettes sucrées e soufflés, e donde se mandam rapazes para o estrangeiro estudar BENEFICÊNCIA.

«Mentira! Mentira e escárnio!

«Se quereis beneficiar este país, não mandeis lá fora, ó parvos governadores da Barataria, não mandeis lá fora estudar o processo do bem-fazer.

«Vede-me este moço, que apenas tem vinte e dois anos, e já precoces sulcos da doença lhe enrugam a fronte. A cútis macilenta, onde deviam vicejar as rosas da adolescência, adere aos ossos, desmedulados e cariados, uma tosse violenta lhe retesa os músculos do pescoço, expedindo das glândulas salivares um pus granuloso, pardo, e alcalino. As faculdades intelectuais estão entorpecidas nesse mancebo. Estimulando-se com cognac e absinto, esta espécie de cretino, bestificado por uma enfermidade incurável, apenas consegue dizer três tolices acerca de Donizetti, sentado num mocho de botequim, encostando o corpo enervado à banca dos licores incitantes.

«Sabeis quem reduziu esse vegetal a tão quebrantado estiolamento?

«Foi o charuto!

«O contrato do tabaco empeçonhara a seiva desse moço, que os fados, menos poderosos que os caixas, talvez tivessem destinado para exercer o magistério do folhetim, máximo esforço de inteligência, numa época, e num país, cujo amor às letras não vale a correspondência de uma local bem poética como a do baile do senhor fulano.

«Voltai para esse corpo achacadiço e apodrentado o vosso ânimo beneficente, Sanchos-Panças lerdos, pantalões administrativos!

«Chamai a juízo os vampiros que sugaram o soro desse sangue aguado que o faz tolhiço para tudo.

«Fazei a autópsia de um charuto como este — prosseguia Francisco Nunes, parando e contemplando as nervuras negras do rolo de folha, que semelhava uma rolha de cortiça queimada — charuto como este, e vereis que há aqui dentro um talo de couve lombarda, uma carocha seca, uma folha de leituga, uma casca de bolota, e três grãozitos excrementícios de rato ou coelho.

«Horrível, e sujamente infernal!

«Senhores deputados! não se mata assim impunemente um povo![2]

«As nações tiranizadas, quando a opressão requinta, erguem-se como um só homem, e fogem para o Aventino.

«Os envenenadores congregaram-se em conciliábulo de abutres, e criaram o charuto de vintém, a pitada do meio-grosso, e o cigarro onde cresce o musgo como em parede velha: Cadafalso para os envenenadores!

«O conselho de saúde, bandeado neste tripúdio de canibais, forma o cortejo científico das parcas que nos arrebanham para a região dos suicidas. Morte ao conselho!

«Não há tifos, nem cólera, nem febre-amarela, senhores deputados! Há charutos, há o meio-grosso, e o cigarro. A epidemia não está nos canos, senhores; está nestes canudos, por onde os contratadores cospem afronta e morte na face do povo!

«Que eles sejam malditos setenta vezes sete vezes, como se dizia no Oriente!

«Na hora do trespasse, a alma deles, tisnada pelo remorso, será negra como este charuto, donde eu sorvi um pus que me requeima os bofes... Vai-te, infame!»

E, assim rugindo, numa como imprecação de moribundo atormentado, arremessou o charuto por cima do muro para o quintal.