O Que Fazem Mulheres
Capítulo VII
VII
Ludovina disse um dia a sua mãe:
— Estou casada há treze meses, e sinto-me velha. Até aqui obedeci como criança, a minha mãe, a meu pai, e a esse homem, que entrou na nossa família com certa autoridade que me intimidava. Eu fui sempre dócil, dócil até à pusilanimidade. Se a violência não fosse tamanha, este homem, que chamam meu marido, teria feito a escravidão da minha alma para sempre. Assim não pode ser. Sinto-me outra; perdi os costumes de criança; envelheceram-me com os desgostos contínuos, e por isso hão-de sofrer-me agora emancipada.
«Que vem tudo isso a dizer, Ludovina?»
— Que quero a minha liberdade, que hei-de passar por cima da opressão à custa de tudo.
«Ludovina! que linguagem é essa?»
— É a da desesperação, e da justiça. Não pratiquei sombra de mau acto, por onde mereça este amargo viver que me dão. Quero saber porque vivo apartada das minhas amigas, e dos recreios, donde a minha reputação saiu sempre sem mancha.
«A quem o perguntas, a mim?»
— Sim, à mãe, ao pai, e depois perguntá-lo-ei ao dono desta casa, ao dono dos meus vestidos e dos meus braceletes. Se este me disser que a minha liberdade é o preço dessas coisas, deixo-lhas, e peço a meu pai a subsistência que me dava dantes. Se ma negarem, Deus me inspirará o destino que me convém. Isto há-de decidir-se hoje. Ninguém sofria tanto tempo, por amor-próprio, ou pela virtude da paciência.
«Tens direito a interrogar teu marido, Ludovina; mas sê prudente; vence-o com razões moderadas, por não dizer humildes.»
— E se ele, por maldade ou por ignorância, suspeitar da pureza das minhas intenções?
«Fala-lhe como deve falar uma senhora, e confundi-lo-ás.»
Veio o comendador cortar o colóquio. Nunca tão achamboada e trombuda se mostrara a lerda fisionomia do personagem. Nessa ocasião, o achaque intestinal era verídico, segundo o testemunho do semblante. Era o ideal da fealdade, então, o Sr. Dias!
D. Angélica, instada por um gesto da filha, deixara-os sós.
— É a primeira vez — disse Ludovina, sentada numa cadeira de braços estofada, com a formosa face encostada à palma da mão direita, e uma perna sobre a outra baloiçando-se, deixando ver o pé de fada, através do rendilhado da saia que a velava. — É a primeira vez que falo a meu marido como se deve falar a um marido. Até aqui tratei-o como se trata um amigo que se respeita, um tio, um pai desses com quem se não tem muita confiança.
O Sr. Dias abriu a boca para entender melhor. D. Ludovina prosseguiu:
— Poucas filhas há tão respeitadoras como eu lhe tenho sido na qualidade de mulher. Tudo que há nesta casa, Sr. Dias, seu tem sido, como seria, se eu aqui não fosse mais que uma pessoa estranha, sujeita à sua generosidade. A sua vontade é o móvel das minhas acções. Enquanto o senhor me concedeu a liberdade honesta, que meus pais me concediam, aceitei-a, sem lha agradecer, porque achei isso tão natural como absurdo e impossível o contrário. Logo que o senhor, sem me explicar a causa da sua mudança, de repente me afastou da sociedade, como se faz às pessoas incapazes de viverem nela, aceitei também, sem me queixar, o cativeiro, e suportei-o seis meses como uma mulher culpada que expia a culpa com a paciência muda. O Sr. Dias, sem saber o que fez, expôs sua mulher aos comentários ofensivos que a sociedade há-de ter feito à minha ausência repentina. Deu um escândalo, sem necessidade de evitar outro. Disse à sociedade que não tinha bastante confiança em mim para me levar onde há o bom e o mau.
«Estás enganada, menina, eu não disse isso a ninguém» — interrompeu o comendador, que andou às aranhas muito tempo antes que traduzisse para vulgar o estilo sentencioso da filha e discípula de D. Angélica.
— Não o disse com a palavra; mas disse-o com as acções. Privando-me de ir aos bailes, de frequentar o teatro, de receber as minhas amigas de colégio, e as relações de minha família, o que diria a sociedade?
«Lá o que ela quiser, menina...»
— O que ela quiser, não, Sr. Dias! Não consinto que se façam de mim conjecturas desairosas. Requeiro que o senhor me explique o motivo desta separação injusta a que me força.
«Não te zangues, Ludovina... Foi tua mãe que te meteu na cabeça essas palavras? Bem diz lá o ditado: “Livra-te da sogra, que eu te livrarei do diabo.”»
— Respeite minha mãe, senhor! Eu não falo pela boca de minha mãe; o meu silêncio até hoje não era estupidez nem insensibilidade: era amor-próprio, e outro sentimento mais nobre que o senhor não entende. Vamos ao essencial, Sr. Dias. Teve alguma razão para me privar de viver como vivem todas as mulheres casadas da boa sociedade?
«Não, já disse que não. A coisa é outra...»
— Qual é essa outra coisa?
«As boas pagam pelas más, e não há mulher honrada para certa gente que vai aos bailes e aos teatros.»
— Pois eu não estou disposta a sacrificar-me às mulheres indignas. A minha consciência é o meu juiz. Não me importa o que se diz de mim.
«Essa é de cabo de esquadra! Pois não se te importa o que se diz de ti?»
— Que se diz, Sr. Dias?
«Não sei; mas... eles lá sabem o que dizem.»
— Eles quem? acuse-me sem piedade; repita as afrontas que me fazem; tenha a coragem de caluniar-me, se lhe é preciso inventar os meus crimes.
«Tu estás fora de ti, Ludovina! Isso não é assim. Aí anda espírito santo de orelha... O teu génio não é esse...»
— O meu génio é a minha dignidade, neste caso. Responda-me: Ofendi a sua honra?
«Não, já disse duas vezes que não.»
— Faltei aos meus deveres de esposa?
«E ela a dar-lhe!»
— Pois bem: quero viver como vivi nos primeiros seis meses da nossa união. Quero ir ao teatro, aos bailes, às visitas, como ia em solteira. Quero receber as minhas relações, como as recebi antes de ter metade da sua riqueza. Quero uma inteira liberdade como prémio do meu procedimento para consigo. Quero...
«Então isto, pelos modos, é “nós, el-rei, e justiça de Fafe!” Aqui não há rei nem roque nesta casa? é quero, e mais nada?»
— Quero, sim, porque é de justiça o que já não tenho a baixeza de pedir; mas quando não, Sr. Dias, meus pais têm uma casa estabelecida, e sobejos meios para eu me declarar independente dessas riquezas com que o senhor me dotou, e que eu, de todo o meu coração, rejeito, porque não aceito o preço porque fui vendida.
Ludovina, já de pé, com o rosto inflamado, e os belos olhos coruscantes de cólera, saiu dum ímpeto, deixando o comendador atónito na mais palerma imobilidade.
D. Angélica ouvira tudo.
«Excedeste-te, Ludovina — disse ela — mas fizeste-me orgulhosa de ser tua mãe. Aceito, de hora em diante, a responsabilidade das tuas palavras, seja ela qual for.»
João José Dias nem palavra naquele dia e no seguinte. Ao terceiro havia teatro lírico. D. Ludovina mandou buscar camarote. Às sete horas e meia mandou pôr os cavalos à sege, e disse a seu marido se a acompanhava ao teatro. O comendador fez-se verde-garrafa, desenrugou as pálpebras quanto pôde, e pasmou os olhos suínos na atitude imperiosa de Ludovina, que apertava o botão da luva, e enroscava no colo as martas.
— Vem, ou não? — repetiu ela.
— Espera, que eu visto-me — disse o comendador, tomado duma espécie de susto irreflectido, que em muitos maridos é o corolário de demorados raciocínios.
Fez impressão o aparecimento de Ludovina. Acharam-na mais donosa os amadores do pálido. O viço da florescência tinha murchado ao lento dessecar da melancolia. Ficara a pele acetinada, com as alvuras do desmaio, realçando o vívido fulgor dos olhos negros, assombrados da cor violeta, que tanto encarece o rosto dolorido. Ponderaram os analistas que os tecidos celulares do comendador estavam cada vez mais chorumentos e luzidios. Segredaram-se, acerca das medranças dele, pilhérias que incitam o riso, e ferem o melindre de ouvidos pudibundos. Estes colóquios, que a estampa rejeita, ciciavam, por entre froixos de riso, nos camarotes, onde estava a própria virtude, com cabelos à Stuart, e despeitorada à Aspásia.
Ludovina falava com meiguice ao marido, explicando-lhe o entrecho do Trovador, e aguçando-lhe a compunção nas lamentações finais da Ponti, que o comendador denominava uma «comediante de mão cheia». O ar de felicidade que se mutuavam, era o espanto dos observadores, e o castigo da maledicência desapontada.
Seguiu-se um baile. A carta de convite não ficou, desta vez, no escritório do comendador. Ludovina primou mais que nunca em enfeites. A inflamação deu tréguas às entranhas de João José Dias. Era para ver como ele se tornava, sadio e durázio, aos prazeres do mundo.
Mas o interior de João José? Era um incêndio para que a filosofia humana não inventou ainda bomba eficaz! Era o inferno do moiro de Veneza chorriscando aquele humano torresmo!
Que via ele para se moer assim? Nada. Ludovina nem, sequer, dançava já danças de roda, de contacto, de aperto, e raras contradanças aceitava. Os cavalheiros, que se avizinhavam dela, com liberdade, eram os amigos de seu pai, ou de seu marido. Os outros, repelidos pela sisudez e gravidade com que os ela recebia, denominavam-na uma virtuosa grosseira, e apostavam que andava ali influência de capelão incógnito.
Que sandeus ciúmes eram, pois, os do comendador, que a fortuna poupava à sorte de pessoas tão conspícuas, e bem ajeitadas de corpo e alma?
Batei nesta sáfara, entendedores do coração humano, esmerilhadores do íntimo dos predestinados e minotauros, e Sganarellos ao alcance da ciência humana.
Cansar-vos-eis sem achar a razão da coisa. O axioma foi proferido há quatro anos, e já tem três edições com esta:
Há maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes, para que os outros não desconfiem.
O comendador JOÃO JOSÉ DIAS (passim).