O Que Fazem Mulheres

Camilo Castelo Branco · Capítulo 9 de 23

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O Que Fazem Mulheres

Capítulo VI

VI

 

Esta inquietação danificou a vida menos má do comendador, e o sossego, aparentemente feliz, de Ludovina. A paz existia; era, porém, como a serenidade pressagiosa de trovoada.

O marido recebia os convites para bailes, e queimava, à sorrelfa, as cartas. Ludovina admirava o esquecimento, sem aventurar uma pergunta. Estes rebuços são a desgraça das famílias, e o rastilho de pólvora que espera uma faísca.

Ao teatro iam raras vezes. O comendador adoecendo quase sempre no dia da récita, suportou no estômago muitas papas de linhaça, sem precisão. O seu achaque postiço era uma inflamação intestinal.

D. Angélica censurava o procedimento do genro; mas calava-se, para não dar auso à filha de romper em queixumes, que abafava com a esperança de melhor vida, ou desafogava em carpir-se sozinha. Melchior Pimenta achava que tudo ia bem, e dava-lhe mais cuidado a esperançosa aparição dum neto que a irritação de entranhas do capitalista.

Acabara-se o palacete, e fez-se a mudança. O comendador não convidava os sogros para viverem com ele. Ludovina, reagindo contra a tirania simulada, disse que não saía da casa onde nascera, sem levar seus pais. João José acreditou na resolução, e disfarçou o intento, dizendo que nunca tivera outro.

Ludovina queixava-se à mãe da reclusão em que vivia cheia de aborrecimento e tédio; perguntava se era aquela a felicidade que dava o dinheiro; dizia que a pobreza e o ar livre eram preferíveis ao gozo de cinquenta vestidos que se traçavam no guarda-roupa, e da luxuosa mobília que ninguém admirava.

D. Angélica, já aborrecida também, prometeu à filha entender-se com o genro, e mudá-lo por meios suaves.

— Que motivo há, Sr. comendador — disse D. Angélica — para se encerrar nesta casa, cortando as suas relações com a sociedade que tão bem o tratava?

«Eu vivo assim melhor.»

— Viverá!... não creio. O senhor, quando estivemos em Celorico, divertia-se nas sociedades, e já no Porto parece que folgava de que o vissem com sua mulher em toda a parte...

«Estou velho para andar a perder as noites. Esta minha inflamação de entranhas não me deixa. A saúde está em primeiro lugar.»

— Tem razão; mas neste mundo só se vive bem, sacrificando-se a gente uma à outra. O senhor é casado com uma menina habituada aos inocentes prazeres da sociedade, e eu, se me dá licença, dir-lhe-ei que não consentiria um casamento entre génios tão contrários, se previsse o que está acontecendo.

«Então que é?»

— É que minha filha não pode assim viver contente.

«Ágora não! ela não se queixa: a senhora é que toma as dores por ela.»

— Não se queixa porque é muito delicada, muito soberba, ou uma santa. O pior será quando ela se queixar... Isto assim vai mal, Sr. Dias; mude de vida, confie em sua mulher que é um anjo de virtude, incapaz de ofender a sua dignidade.

«Não duvido; mas estou melhor assim, e ela também não está mal, acho eu. Quem casa vive para seu marido, e para os filhos, se os tem. Isso de andar de bailarico em bailarico é bom para as raparigas solteiras que andam à pesca de marido. Até parece mal uma mulher casada a saltarilhar com um homem que lhe pega pela cinta, e anda ali com a cara ao pé da dela. Nada de bailes, Sr.ª D. Angélica. Minha mulher, se quer passear, tem aí uma carruagem, e eu estou pronto a acompanhá-la para toda a parte.»

— Pois bem, não se frequentem os bailes, mas conservem-se as relações de nossa casa. Ludovina tem amigas, que estranham muito a vida encarcerada que ela passa. Porque não há-de sua mulher visitar, e receber as visitas das suas amigas?

«E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as outras não dizem coisa boa. O melhor é cada um em sua casa.»

— Que razão essa tão... tão singular!

«Afinal de contas, Sr.ª D. Angélica, eu estou em minha casa, e entendo que faço bem. Não se lucra nada em aparecer. O mundo está uma pouca vergonha. Eu já sei como está o Porto, e como se vive por aí. Não quero que minha mulher ande nas bocas do mundo. Se Ludovina não fosse ao baile, onde lhe apareceu o tal namorado que ela teve, não tínhamos todos a zanga com que saímos de lá. Em casa, em casa é onde se está melhor.»

— Eu não me responsabilizo pelas consequências, Sr. Dias. Ludovina tem brios e pundonor; se ela desconfiar que V. S.ª a encerra em casa, por suspeitar da lealdade dela, teremos grandes desordens, e não terei poder para acomodá-las.

«Eu não desconfio de minha mulher; se não vou aos bailes, é porque não quero que os outros desconfiem, e acabou-se.»

O diálogo ficou aqui; mas há aí duas linhas que fazem honra à inteligência equívoca de João José. Merecem ter segunda edição de versaletes:

EU NÃO DESCONFIO DE MINHA MULHER; SE NÃO VOU AOS BAILES É PORQUE NÃO QUERO QUE OS OUTROS DESCONFIEM.

Isto é uma grande ideia, das quatro ideias grandes, que aparecem em cada século, e que, por engano, entrou na cabeça inóspita do comendador.

Pesem bem o quilate das duas linhas, que me ministrou João José, e verão que as melhores deste livro são elas.

O marido, que me está lendo, se tem cinquenta anos, e espreita os vinte de sua mulher, através do vidro embaciado que a experiência lhe vendeu caro, não deve já agora perder a esperança de dizer, no auge do seu ciúme, alguma coisa que possa ler-se em letra redonda.

A indignação fazia os versos de Juvenal; porque não há-de o ciúme fazer as prosas toleráveis dos maridos?

A ideia de João José, se fosse minha, ninguém me aturava a vaidade. Rogo aos escritores contemporâneos, e aos futuros sábios, alinhavadores de remendos alheios, que se escreverem a seguinte máxima:

Há maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes para que os outros não desconfiem; escrevam por baixo — O comendador JOÃO JOSÉ DIAS.

As pessoas, que melhores ideias engendraram, não têm sido as mais felizes. O comendador pertence ao martirológio dos grandes pensadores. Os fados, os estúpidos fados hão-de castigá-lo por essas poucas palavras com que ele arranjou um nicho, podre de barato, no templo da memória.

O castigo começa.