O Que Fazem Mulheres

Camilo Castelo Branco · Capítulo 7 de 23

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O Que Fazem Mulheres

Capítulo IV

IV

 

— Então a pequena está incomodada? — perguntou Melchior a sua mulher, que não declinava os olhos do cepo informe do Sr. João José Dias.

«Um pouco incomodada.»

— Vais dizer-lhe que venha à sala, menina?

«Irei.»

— Estou boa, papá — disse Ludovina entrando subitamente, e cortejando o hóspede, que ela reconhecera de o ter visto outra vez.

«Tem a bondade de sentar-se, Sr. Dias? — disse Melchior ao acanhado brasileiro, que mal pudera gaguejar um “criado de vossa senhoria” que corrigiu bruscamente em “vossa excelência”. — Minha filha, quando ontem te disse que a Providência me deparara para ti um digno marido, era deste senhor que te falava.»

— Tenho muito prazer em conhecê-lo — atalhou Ludovina com uma afabilidade e desembaraço que espantou a mãe, alegrou o pai, e lisonjeou o noivo.

«Para satisfazer a uma exigência deste cavalheiro — continuou Melchior — é preciso que tu digas se aceitas livremente a minha escolha, ou direi melhor a escolha com que te distinguiu o Sr. Dias.»

— Aceito muito de minha livre vontade — respondeu com firmeza D. Ludovina.

«Não lhe restam escrúpulos?» — tornou Melchior inclinando-se para o brasileiro.

— Não, senhor — disse ele. — Estou satisfeito; o que eu não queria era que a menina viesse um dia a arrepender-se... e...

«Não espero tal desgraça...» — interrompeu Ludovina, sem fitar os olhos no brasileiro.

— Da minha parte, hei-de fazer o possível por lhe não dar desgosto, porque o meu natural é bom, e ninguém, até hoje, se deu mal comigo.

Ludovina ergueu-se, e pediu licença de retirar-se por um instante. D. Angélica entendeu-a, e seguiu-a, pouco depois. Foi encontrá-la no quarto, afogada em soluços, curvada sobre o leito.

«Que é isto, filha?»

— Nada, minha mãe...

«É muito, Ludovina; que tens?»

— Precisão de desabafar assim. Estas lágrimas não fazem mal a ninguém. É uma vítima que se entrega ao sacrifício, mas deixem-na chorar... Que vida, que futuro, meu Deus!

«Ludovina, não chores, e escuta-me. Eu não imaginava que teu pai te dera a semelhante homem. Tens razão... É repugnante, e horroroso. Não casarás com ele, menina.»

— Hei-de casar, minha mãe. Mal o vi ainda; não tive ainda tempo de sentir repugnância ou horror... Choro como vítima, mas não dele; é do outro que me matou.

«Isso é que é covardia, Ludovina! Pois não te fez nojo esse miserável?»

— Fez, fez; mais que nojo... É preciso que ele se não persuada que minha mãe lhe mentiu, quando lhe disse que a sua intenção era dar-lhe parte do meu casamento. Devo casar muito depressa, o mais breve que seja possível.

«Casar por vingança?... Isto é um desforço desgraçado...»

— Não caso por vingança, que ele não vale o ódio. Caso para salvar a nossa dignidade, minha mãe. Hei-de simular quanto possa o contentamento da mais feliz mulher. Não tenho já coração para sentir desgostos. Será tudo estupidamente alegria na minha vida. Toda a gente dirá que eu amo... meu marido. As pessoas que souberem do meu namoro com esse infame, dirão que devia amá-lo muito pouco a mulher que se deixou casar com um homem ridículo. Quero que se diga isto; quero que me assaquem a calúnia de que eu sou mais uma das mulheres que se venderam à riqueza. O que nunca ninguém dirá é que eu infamei o homem que me comprou... nunca, meu Deus!... Pois a mãe está chorando agora, depois de me ter ensinado a ver o mundo como ele é? Não se arrependa, minha boa mãe. Deu-me a maior prova de amor fazendo-me escutar o que esse homem disse... palavras de tanta aflição como vergonha para mim... Fiquei bem, estou desoprimida... vê? já não choro.

D. Angélica abraçou com veemência a filha, beijou-a como a beijaria criancinha de peito, e saiu, enxugando as lágrimas. Entretanto, conversavam assim, na sala, os Srs. João José Dias e Melchior Pimenta:

— Gostou dos modos da pequena, Sr. Dias?

«Gostei muito; mas, a falar-lhe a verdade, pareceu-me que ela não olhava direita para mim!»

— Recato de moça, pejo, e acanhamento, não acha que é muito natural?

«Isso sim; mas dava aquelas respostas tão... tão... tão desenganadas, que parecia ter por mim simpatia de mais tempo...»

— Minha filha tem muito juízo, Sr. Dias...

«Não duvido.»

— E então quis desde logo agradar a seu pai e a seu futuro marido.

«Ora, olhe; o senhor não se lhe dá que eu tenha com sua filha, cá em particular, uma conversazita?»

— Pois não, Sr. Dias! todas as vezes que quiser. Eu mesmo desejo que sonde o coração de Ludovina, e reconsidere a sua tenção, se vir que ela o não merece. Eu vou mandá-la.

«Faça-me esse favor.»

Melchior procurou a filha, reparou nos indícios das lágrimas, e fingiu que os não percebia. Dizendo-lhe que viesse à sala, acrescentou:

— Lembra-te que fazes a tua felicidade e a de tua família. Esse homem não será só teu marido, será um protector de todos os teus, e fará a tua independência numa sociedade onde a formosura se estima, como um meio de alcançar «fortuna», e a «fortuna» como um meio de se alcançar tudo. Entendeste-me, filha?

«Entendi, meu pai.»

Ludovina entrou jovialmente na sala.

— Minha senhora — disse o brasileiro, gaguejando. — Eu fui toda a minha vida negociante, apenas sei ler e escrever, e digo as coisas assim como elas me vêm à ideia. Ora bem; a menina está resolvida a ser minha companheira de toda a vida?

«Sim, senhor, disse ainda há pouco que sim.»

— É verdade que disse; mas pode ser que o dissesse para contentar seu pai, e lá no interior sentisse outra coisa.

«Disse o que sentia, e repito o que disse.»

— Quem sabe se a senhora tinha alguma simpatia por aí, e que lá por eu ter alguns vinténs seu pai a fizesse voltar-se para outro lado?

«Não, senhor, eu não tenho afeição a alguém.»

— Porque depois éramos ambos desgraçados; e eu devo dizer-lhe, que tudo o que eu mais tenho estimado neste mundo é a minha honra; até hoje, louvado Deus, ninguém lhe pôs o dedo sujo; e seria mais fácil eu deixar que me tirassem a vida do que a honra. Trabalhei muito ano para a conservar, cheguei até esta idade sem ser ofendido, e assim destes cabelos brancos que me vê, se alguém me atacasse a minha honra, tornava aos meus vinte e cinco anos. A menina entende-me?

«Creio que entendi, e sinto que V. S.ª me esteja ofendendo com as suas suposições injuriosas.»

— Isto é um modo de falar, Sr.ª D. Ludovina, e perdoará se a ofendi. Tudo o que lhe digo é em bem seu, e meu. Eu sou o que está vendo; a menina é nova e linda; se vê que se há-de arrepender, diga-me a verdade do seu coração, que eu arranjarei as coisas de modo que seu pai se queixe de mim, e não da senhora.

«Já disse a V. S.ª que desejo ser sua esposa; não sei que mais deva dizer-lhe. Não me hei-de arrepender, porque espero merecer sempre a sua estima e confiança; mas tenho um favor a pedir-lhe.»

— Diga lá, seja o que for.

«Desejava que ficássemos na companhia de meus pais.»

— Ficaremos; e quando formos passar algum tempo à nossa casa de Celorico, a nossa família irá connosco. Era só isso?

«Não tenho outra ambição.»

— Isso pouco é... Há-de fazer-se tudo que a menina quiser: graças a Deus, temos mais que o preciso para satisfazer as nossas vontades. Agora, se quiser dizer a seu pai que já lhe disse o que tinha a dizer, vá lá, que eu fico à espera dele e de sua mãezinha para me despedir, até à noite.

D. Ludovina chamou o pai, sem sair da sala. Melchior, lendo o bom resultado das suas reflexões na cara jubilosa do radioso capitalista, convidou-o a jantar, quando ele se despedia. João José disse que jantara três horas antes, e jantaria segunda vez com tão amável companhia. Estava inspirado!

E cumpriu a promessa. Jantou, fez muitos brindes, e o último, e mais solene que fez foi o seguinte:

À saúde de quem de hoje a um ano há-de ser meu compadre, e minha comadre!

Melchior Pimenta agradeceu.

D. Angélica franziu a testa, fez-se branca de cera, e levou o cálix aos lábios.

D. Ludovina corou até às orelhas.

A leitora faça o que quiser.

Eu não ri, nem corei: deu-me para chorar como uma vide, quando me contaram isto.