O Segredo de Sarah

Cláudia Sátiro · Capítulo 8 de 15

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O Segredo de Sarah

Capítulo Sete

 

Acordei ao primeiro toque. Na verdade, eu não havia dormido. Ainda não conseguia acreditar que eu tinha contado toda a história para a Irmã Gloria. O olhar dela de espanto em saber por quanto tempo eu havia mentido... Ela não falou uma palavra, não manifestou sequer um som, mesmo quando falei que havia me interessado por um rapaz e que desejei beijá-lo. Eu sabia que estava desistindo do meu sonho de dançar em uma grande companhia ou me tornar uma primeira bailarina, sabia que nunca mais eu veria meus poucos amigos, e Lex ficaria apenas em minhas lembranças, mas o que eu havia feito com a Allegra foi muito sério, foi a prova de que eu estava indo pelo caminho errado, eu não teria muito futuro ali, meu futuro era o convento, isso era certo em minha vida. Eu ficaria apenas com as boas lembranças do que eu tinha vivido na Instituição Lambertini, e mesmo que algum dia eu me arrependesse, ainda assim eu não conseguiria me perdoar por ter sido tão infantil e mentirosa.

“Ah, Lex, como eu gostaria que tudo tivesse sido diferente!”

A porta do meu quarto se abriu — ninguém nunca batia ali — a Madre entrou junto com a Irmã Gloria e uma outra irmã, Imaculada seu nome, elas estavam sérias e frias. A irmã fechou a porta assim que teve oportunidade. Elas pararam perto a minha cama, a Madre fez sinal para que eu me levantasse;

— Então você nos enganou? Mentiu, usou da nossa fé para fazer imundícies mundanas?

— Madre...

— Cale a boca! — interrompeu-me com um grito. — Você é uma grande decepção, Sarah. — Ela estava parada perto a mim, seu rosto estava ainda mais frio, eu nunca senti tanto medo de alguém como senti daquela mulher. — Eu tomei você como uma bênção, estava acreditando que sua reclusão tão bem aceita se dava ao fato de você ter um dom, eu escrevi sobre você aos meus superiores, você me tomou como uma tola.

— Eu estou arrepen...

A Madre esbofeteou meu rosto por duas vezes. Eu nunca havia apanhado em minha vida, já tinha sido colocada em castigos e, por vezes, fui obrigada a escutar longos sermões de meu pai, mas apanhar era aquela a primeira vez. Senti o gosto de sangue em minha boca, e o arder da minha bochecha, a Madre continuou ali, parada, fria e violenta. Abaixei minha cabeça em forma de respeito, eu não tinha muito a fazer, de certa forma, eu merecia tudo aquilo. Havia mentido para ela, a enganado.

— Eu não vou expulsá-la daqui, pois ainda acredito na mudança e, como partiu de você nos contar, mostrando assim seu arrependimento, lhe darei a chance de ser novamente digna. Você é uma vergonha para todas neste momento, vou limpar sua alma com o pior dos castigos, você tem que entender de uma vez por todas que o mundo lá fora não existe mais, e acredite, não vai ser fácil.

As duas irmãs seguraram em meus braços, eu não sabia bem o que estava pra acontecer, de certa forma, eu não as impedi que me levassem. Eu poderia estar gritando “não” em minha mente, mas ali para elas eu apenas chorava. Não era um choro alto de forma a manifestar algo, eram apenas lágrimas que escorriam por meu rosto machucado.

Andamos pelos corredores vazios e descemos para o que pareceu ser um porão, foi como voltar no tempo, aos porões dos castelos medievais. Tudo ali era velho, frio e úmido.

Andamos até o final de um corredor, não havia janelas ou qualquer tipo de entrada de ar, uma das irmãs abriu o que parecia ser um quarto, então fui deixada lá, sozinha no escuro.

Tateei um lugar para me sentar e, como eu havia imaginado, tinha uma cama de tijolos sem colchão em um dos cantos da sala, não procurei mais nada, apenas me deitei ali e me pus a esperar o tempo.

Eu procurava soluções para meus problemas no escuro, afinal, eu já havia lido isso em algum livro. Ele dizia que o escuro poderia trazer respostas; mas aquele escuro, naquelas circunstâncias, era terrível, então o escuro se tornou assustador. Ele vinha em forma de ondas e me engolia me jogando cada vez mais no fundo, e o fundo era ainda mais macabro. O pânico começava a tomar conta de mim, eu já não fazia ideia do tempo que eu havia perdido ali dentro, me dei conta que as horas passavam pelas refeições que colocavam por baixo da porta, já estava na terceira. O barulho do prato rangendo contra o chão é algo que jamais vou esquecer. Eu começava a entrar em estado de vegetação, apenas sentia a reação que minha alma mandava para meu corpo, arrepios e tremor, boca seca e muito medo. Eu gritava, chorava e suplicava, e nada acontecia, não sei se dormi e acordei no mesmo lugar ou se dormir e não conseguir sair do pesadelo, eu sabia que não levaria muito, e minha sanidade mental se acabaria.

Nove refeições, algo mudou.

Eu estava agachada no canto da cela, tentando não desistir da vida, perturbada com pensamentos destrutivos, imaginando uma maneira de morrer, de desistir de tudo sem parecer uma covarde, eu já nem estava mais naquela cela, afinal, com tanto sofrimento, eu já estava no inferno, e posso confessar: quando você está sentindo que vai morrer, a única coisa que vem à mente é o que está se perdendo, e as coisas que você poderia ter feito diferente. Naquele momento, eu me arrependia de nunca ter perguntado à minha mãe o porquê de tanta tristeza, talvez ela estivesse disposta a me contar, e só então seríamos mãe e filha de verdade. Eu me perguntava também por que meu pai era tão distante, e por que ele me privou de tantas coisas boas na vida, essa resposta, sim, mudaria tudo, no entanto, o pensamento que me trazia paz e ao mesmo tempo sofrimento, era imaginar o que poderia ter sido e como seria se eu tivesse beijado o Lex quando tive oportunidade, mas ele não me deu essa oportunidade.

— Sarah...

O som morreu no escuro e se perdeu em meio aos meus delírios, não eram expectativas o que eu precisava naquele momento.

— Sarah, menina, responda...

A voz era da Irmã Gloria, ela estava aflita e trêmula, eu fiquei sem saber o que responder. No fundo, eu estava chateada por ela ter me jogado nas mãos da Madre, mas não existia muito o que ela pudesse ter feito com a história que eu tinha contado.

— Me tira daqui, por favor? — supliquei.

— Menina, não vejo como tirar você daqui, vim lhe ajudar, você não está se alimentando. Se ficar assim, vai morrer rapidamente...

— Se não pode me retirar daqui, então é melhor morrer mesmo.

As lágrimas desciam como um rio dos meus olhos, me atrapalhavam a fala e os pensamentos, faziam minha garganta arder e me apertavam o peito.

— Eu não posso te tirar daqui.

Nunca terei certeza, mas a voz da Gloria estava tão embargada quanto a minha. Ela chorava atrás daquela enorme porta de madeira

— Meus pais, chama meus pais, eles podem me tirar daqui.

Por um instante, eu achei que ela tivesse ido embora. Ela se calou, e o silêncio voltou, estava tudo perdido.

— Seus pais estiveram aqui hoje cedo, menina, eles não pretendem te tirar daqui, a Madre teve uma longa conversa com eles.

— Minha mãe me deixou aqui, ela sabe que estou presa?

— Talvez ela não saiba toda a história, talvez eles não saibam os detalhes, mas sim, eles sabem que você está presa, que você fugia do convento e que você vai se mudar para Argentina.

Me senti sozinha, abandonada por todos.

— Eles vão me deixar aqui?

— Eles falaram que você tem uma doença muito grave, Sarah, você está morrendo.

Senti um frio me abraçar. Eu estava caindo, caindo sem chegar a lugar algum. Foi a viagem mais horrível que já fiz em minha vida. Aquilo não poderia ser verdade, eu sempre fui muito saudável, com bochechas rosadas e pensamentos ligeiros, eu não era doente, eles dois eram doentes. Agachei-me ainda mais para tentar me proteger do frio. Foi inútil.

Então me lembrei do meu primeiro dia de aula.

Depois dos gritos que minha avô materna deu, dizendo que era um absurdo eu não estar frequentando uma escola, meus pais ficaram por dias quietos, a casa quase que só tinha eu e os funcionários, passavam dois, três dias sem que eles me vissem, era incrível a importância que eles me davam.

Um dia desses qualquer da semana, eu brincava pelos corredores da casa, corria e espalhava minhas bonecas fingindo estar em uma grande festa, quando escutei um grito vindo do quarto da minha mãe. Corri até lá, a porta estava entreaberta, espiei do cantinho, minha mãe estava sentada na cama, falava ao telefone, estava agitada e chorando.

— Escuta, a culpa não é minha, ela veio e falou, nos ameaçou, não podemos privar a Sarah de ir pra aula, ela já é uma mocinha!

Do outro lado do telefone, alguém falava algo para minha mãe, que a deixava ainda mais nervosa, a ponto de segurar firme o telefone.

— Não, não... Eu a amo muito, podemos fazer diferente... Eu sei que até hoje funcionou, estamos felizes, mas temos que... Não, não.

No segundo não, minha mãe arremessou o telefone na parede e ficou olhando os pedaços se espalharem pelo chão. Fiquei por um tempo ali, parada, sem saber o que fazer, senti medo da minha mãe, ao mesmo tempo, veio uma enorme vontade de abraçá-la, mas ela me rejeitaria, mandaria que eu saísse do seu quarto gritando. Dei mais uma olhadinha e voltei para a festa das minhas bonecas.

Alguns dias depois, meu pai veio até mim, Maria me ensinava a fazer bolo de laranja, ele entrou na cozinha e parou perto de nós.

— Oi, meninas...

Seu tom de voz era macio e quase pacífico, mas eu sabia a tempestade que era o meu pai.

— Você vai para a escola amanhã, Sarah.

Dizendo isso, ele se retirou. Maria olhava para mim com felicidade, um sorriso estampou em seu rosto, ela me pegou nos braços e disse feliz:

— Amanhã você vai levar bolo de laranja para a escola.

Mais tarde, à noite, meu pai junto de minha mãe, me chamou no escritório. Eles estavam sérios, minha mãe ainda parecia aflita.

Foi meu pai quem falou.

— Eu não quero que você faça nem um tipo de amizade com ninguém na escola, já informamos à direção os termos para sua matrícula. A escola deve ser, apenas e somente, uma fonte de aprendizado para você, nada mais que isso. Se, por acaso, algo além disso acontecer, você será transferida imediatamente, até que você entenda que tudo isso é para seu bem. O motorista irá lhe levar e buscar.

Estava acabado o assunto.

Às seis horas da manhã eu já estava de pé na cozinha esperando o café da manhã que Maria havia me preparado, a ansiedade era tanta que mal senti o gosto do pão. Até hoje eu não sei se aquilo era pão. A minha lancheira estava pronta, uma linda lancheira rosa com borboletas presas nela, assim como a mochila. E o meu uniforme era o mais lindo do mundo, meu primeiro uniforme.

O motorista me acompanhou até a entrada da escola, os alunos corriam e gritavam de uma forma frenética, os mais velhos se amontoavam em grupos conversando e rindo. Era tanta agitação que meu ar começou a faltar, eu não ia conseguir sozinha.

— Oi!

Uma loirinha sardenta sorriu, faltavam dentes em sua boca, mas ela era muito bonita, os cabelos mais compridos que o normal, e um olhar solidário.

— Sou Lidia.

— Sou Sarah, meu pai falou que não posso ter amigos, desculpa.

— Tá bem, eu não vou ser sua amiga.

Lidia saiu pelo corredor olhando para mim e sorrindo, então eu percebi que o medo já havia passado. Eu queria aquilo mais que tudo na vida, segurei firme minha mochila e andei pelos corredores, aquele foi o primeiro dia feliz da minha vida.

— Sarah...? Sarah...!

A voz vinha de longe e atrapalhava as minhas lembranças da escola, então eu voltei para o escuro frio. A voz da Irmã Gloria me chamava com desespero. Ela insistia, mas eu não queria mais falar, eu não tinha mais por que responder. Pela segunda vez na vida, tudo o que eu mais queria era morrer.

— Sarahhhhh!

— Oi... — respondi.

— Você conhece alguém que pode tirar você daqui?

— Lidia, Linda, elas sãos minhas amigas, elas podem me tirar daqui.

— Sarah, a Madre tem muito interesse em manter você aqui.

— Não entendo por quê...

— Eu sei — interrompeu a Irmã — Assim como eu, você é a filha única de pais muito ricos, tudo o que você tem, Sarah, será do convento. Estamos falando de muito dinheiro. Ela vai te deixar aqui até que enlouqueça e pense que o convento é seu melhor caminho, então ela te mandará para a Argentina, e lá você viverá um regime bem mais fechado, onde tudo o que mais vai desejará será voltar para cá e viver em paz. Você assinará documentos doando todo seu patrimônio para a igreja, mas no final, isso parecerá a melhor coisa a se fazer. É tudo muito bem planejado. Eu pensava que tivesse escolhido tudo isso, e só agora, vendo você passar por tudo o que eu passei, posso garantir que fui obrigada pelas circunstâncias a ser quem sou hoje. A única coisa boa nisso tudo é Deus.

— Você não está chateada por ele ter deixado você aqui?

— Eu era abusada por meu pai e espancada por minha mãe, ela nunca acreditou nas coisas que eu contava. Vir pra cá foi um alívio, foi como estar no paraíso. Eu era uma moça revoltada, não queria obedecer a nada, brigava pelas ruas e me deitava com homens sujos e bêbados, talvez eu tivesse me tornado algo bem pior do que imagino. Penso nisso todas as noites, e fico feliz por ter superado cada etapa dessa iniciação. Sou forte, Sarah, hoje ajudo pessoas, mulheres que sofrem com o abuso. Eu sou muito feliz e muito grata a Deus. Mas o seu lugar não é esse, você tem sonhos, tem amigos, tem um amor, você irá brilhar muito lá fora, e eu vou te ajudar a sair daqui. Mas essas pessoas têm que ter dinheiro e poder pra tirar você daqui.

— Eu acho que elas podem.

— Tome isso, Sarah... — Irmã Gloria pôs três velas, um fósforo e algumas frutas pelo buraco da porta.

— Você precisa comer algo, precisa estar forte para sair daqui, tenho que ir agora.

Por um tempo, permaneci imóvel, sem saber se tudo aquilo era verdade. Eu estava presa em uma masmorra, prestes a ir para outro país, contra minha vontade. Meus pais haviam me abandonado e, para justificar isso, disseram que eu estava doente. A irmã poderia estar, de fato, indo atrás das minhas amigas para me ajudar ou apenas me sondando para saber mais sobre mim e quem me ajudava.

Não tinha como saber, eu só podia esperar.

Risquei um fósforo e deixei a luz da vela iluminar o local. Era ainda pior do que eu havia pensado. Havia teias de aranhas por toda a parte; o pinico que horas antes eu havia usado ainda estava com o xixi perto a porta; a cama era de tijolos e cimento; havia mofo por todos os lados. Ver onde eu estava me encheu ainda mais de pavor. A única coisa que me fazia ter um fio de esperança era ficar perto da porta esperando que alguém a abrisse para que eu corresse o mais depressa que conseguisse, então me agachei lá e apaguei a vela. Às vezes, permanecer no escuro é melhor do que ver as coisas horríveis que a vida apresenta.

Perdi mais uma vez a noção de tempo e espaço. Quando me dava conta, estava longe; e quando esse longe me deixava feliz, as portas da cela se fechavam em mim novamente. Eu não consigo entender como suportei tudo aquilo sem morrer.

Foi muito rápido quando aconteceu, ouvi gritos, muitos passos e vozes, eu acho que era no corredor da cela que estava acontecendo tudo aquilo, mas nunca terei certeza. Quando a porta se abriu, eu estava semiconsciente, de fome, de medo, de frio, de tudo o que me tiraram. Os braços que me pegaram eram fortes. Havia muitos gritos, acho que eu gritava, entre um desmaio e um suspiro eu abri meus olhos para poder vê-lo. Lex me segurava em seus braços, seu rosto estava sombrio e angustiado, ele falava alto, dava ordens, sua voz estava agressiva, havia mais pessoas ali, freiras, homens de ternos e pessoas chorando, parecia uma cena de crime do seriado CSI, mas eu sabia que era a minha cena de crime.

— Sarah... — Lex segurou meu rosto e me fez olhar para ele. Havia lágrimas em seus olhos, elas estavam ali, tímidas, mas prestes a cair.

— Oi, eu poderia beijar você antes de morrer? Não gostaria de levar esse arrependimento para a eternidade.

As lágrimas no rosto dele escorreram e molharam minha face, então ele se agachou e me beijou os lábios. Era quente e me aqueceu. Senti uma paz que nunca eu havia encontrado. Fechei meus olhos, e me entreguei àquele toque tão simples e tão animador. Eu estava ganhando energia, me renovando, amando.

— Se você se comportar direitinho, eu prometo dar muitos beijos em você.

E as lágrimas deram lugar para um sorriso lindo e esperançoso, era como um sol iluminando toda aquela podridão e a transformando em luz, em paz, em vida. Eu soube naquele exato momento que não morreria.

Lex caminhou pelos corredores daquele lugar comigo nos braços. Ele não se importava com os olhares, com os gritos. Ele não parava e nem diminuía os passos. Assim como eu, tudo o que ele queria fazer era sair o mais rápido possível daquele lugar. Quando alcançamos a porta da frente do castelo, o jardim que antes estava cheio de grama, estava povoado por pessoas com faixas e apitos, elas gritavam por meu nome, por liberdade, por justiça, aplaudiram quando Lex caminhou pelo jardim comigo a tiracolo. Eu fiquei feliz por ter visto aquilo, fiquei feliz por ter resistido a tudo e presenciado minhas melhores amigas no mundo gritando por minha liberdade, liderando uma multidão. Quando se tem amigos, não importa a quantidade, eles valem mais que toda uma fortuna.

Paramédicos me arrancaram dos braços de Lex, colocaram-me em uma maca e me levaram para uma ambulância. As sirenes gritavam me deixando tonta, eu nunca, em toda a minha vida, imaginei que sairia do convento daquela forma. Por mais que planejemos as coisas, nunca temos controle sobre elas. Eu já não tinha forças para assistir a tudo aquilo, meus olhos estavam pesados, eu não aguentava mais brigar com a escuridão. Estava muito cansada, não tinha nenhum controle sobre mim, deixei que meus olhos se fechassem e, antes de me entregar à escuridão total, ouvi, sem saber se era real ou fruto da minha imaginação.

— Eu te amo, Sarah...

Despertei para a vida novamente, não fazia ideia de que dia era, quanto tempo eu havia dormido, ou qual havia sido o desfecho de tudo, e, sendo franca, nada disso me importava. Eu estava livre e viva, tudo o que eu queria era respirar um ar fresco e sentir o sol quente da manhã tocar minha pele. O quarto era de hospital, mas para mim era o lugar mais lindo do mundo. As paredes e cortinas brancas, os lençóis azuis e o cheiro de álcool só não o faziam igual aos outros porque havia flores por toda a parte, além de balões e cartões, uma festa para meu despertar. Lidia dormia no sofá do lado, ela estava completamente apagada. Se eu pudesse agradecer a Deus um milhão de vezes, ainda assim eu estaria agradecendo pouco por tudo o que Ele me havia dado, por todos aqueles a quem Ele pôs em meu caminho, e pela coragem e garra que Ele me deu, apesar das muitas das vezes em que eu não soube usar. Aquela manhã, naquele quarto de hospital, eu estava agradecida por estar viva e poder continuar a contar minha história.

Levantei-me e fui até a janela, o sol havia acabado de nascer, estava perfeito, eu me sentia renovada, pronta para resolver os problemas que surgissem ao longo da minha vida, com meus pais, com a Irmã Gloria, com a escola de dança. Senti mãos tocarem meu cabelo, Lex afastou uma mecha que escondia meus olhos. Seus dedos tocaram de leve meu rosto, estremeci com o toque. Fiquei ali, por um minuto, olhando aquele homem. Ele estava casual, com jeans e camisa polo, parecia abatido, mas ainda assim estava lindo.

— Você está bem?

— Estou bem, estou bem... — E ali, com a alma renovada, eu chorei. Um choro de alívio, de felicidade. — Obrigada, Alexandro

Ele me abraçou e permitiu que eu chorasse em seus braços, senti outras mãos me abraçarem, então percebi que Lidia chorava ainda mais do que eu agarrada em meus ombros.