O Segredo de Sarah
Capítulo Onze
— Quero mudar meu visual.
Lidia me olhou de canto sem entender ao certo se aquilo era verdade. Ela sempre quis me ver em um corte melhor ou com roupas menos evangélicas, mas eu nunca havia sentido necessidade de mudar. Não me sentia mal por usar roupas conservadoras, as roupas não podem ser você, você que tem que ser a roupa, e as minhas estavam boas. Mas a época havia mudado, as coisas estavam diferentes, de repente eu senti necessidade de estar bonita. Não montada em maquiagem de uma noite, mas sim estar com os cabelos bonitos, a pele bonita, as roupas bonitas. Eu queria estar à altura de tudo o que eu tinha; e eu queria estar à altura de Lex.
Fomos ao shopping, foi um dia divertido, compramos roupas modernas, sapatos de cores chamativas, e bolsas de grife, passamos horas no cabeleireiro onde deixei quase um palmo da minha história.
Naquele dia, não esperei que Lex fosse até mim, naquele dia eu queria ir até ele então eu liguei, do meu próprio celular. Havia me rendido não apenas a ele, mas também ao tablet e fiz questão de ter até um videogame.
— Oi.
Aquela voz me enlouquecia, na verdade, aquele homem me enlouquecia. Eu não havia esperado tanto da vida, ter um homem como o Lex, para mim, era algo tão esplêndido que eu mal conseguia disfarçar meu contentamento ao falar dele, ou minha empolgação ao falar com ele.
— Vamos sair?
— Você está bem? — ele perguntou.
Ele sempre me perguntava isso, às vezes até mais que o necessário, me incomodava tanta preocupação, mas eu não podia pedir que parasse.
— Estou e quero sair — respondi.
— Eu estava mesmo querendo levar você em um lugar especial hoje, ia pegar você de surpresa para que você não mudasse minha cabeça quando chegássemos em nosso quarto.
Senti um arrepio na pele, pois sabia a que ele estava se referindo.
— Ok, você passa aqui e me pega.
— Às sete.
— Perfeito!
Animei-me com a expectativa de surpreendê-lo com meu novo visual, sempre era ele que me surpreendia. Olhei-me mais uma vez no espelho e admirei os cabelos com um corte moderno, eu estava bonita, combinava com aquela nova fase. Olhei o relógio e faltava duas horas para as sete. Tomei um banho de princesa com direito a muita espuma. Tinha muitos planos para aquela noite.
Sobre a cama, Lidia havia deixado um vestido longo na cor gelo — pelo menos era o que dizia a etiqueta, para mim, era branco —, algumas joias e um sapato de salto. Um bilhete assinado por Lex acompanhava o presente:
É uma festa a rigor, sei que parece chato, mais é uma das mais lindas festas beneficentes da cidade, todos estarão lá.
Espero que goste, a Allegra escolheu.
Com amor, Lex Lambertini.
Vesti e me sentir a mulher mais linda, isso era inédito para mim. Acho que ter alguém que nos ame é tão bom, que passamos a nos amar também. Lidia me ajudou com a maquiagem e a fechar o colar. No final, eu estava à altura de Lex.
Ele chegou pontualmente, o bater na porta acelerou meu coração e encheu minha cabeça de dúvidas, mas já era tarde pra arrependimentos.
Abri a porta. O olhar que ele me dirigiu me deixou acanhada e eu baixei a cabeça, então, ele segurou meu queixo e, muito levemente, beijou meus lábios.
— Você é linda, mas hoje você está acabando comigo.
— Obrigada, pensei em outros elogios, mas esse foi mais original — disse sorrindo.
— Que tal a gente esquecer de sair e voltar para o plano da cama?
Lex me agarrou, suas mãos acariciaram minhas costas e ele me beijou com desejo e paixão. A opção de sair de casa, perto daquilo, era, de longe, muito ruim.
— Não! Precisamos ir — disse ele bruscamente.
A noite estava quente, mas era agradável, Lex estava falante e sorridente, um pouco fora do seu habitual. A viagem não foi longa, cerca de vinte minutos, e paramos na frente de um dos poucos hotéis da cidade. O mais belo deles. Na entrada, a recepcionista nos recebeu com um lindo sorriso. Passamos direto para o terraço, quando chegamos, ao entrar, entendi o que Lex quis dizer com “todos estarão lá”. Era uma festa particular, a minha festa particular, Lex já estava ajoelhado em minha frente.
— Eu sei, Sarah que você, assim como todas as mulheres, quer ter um casamento grande, mas você poderia se casar comigo hoje? Agora?
Meus pais estavam sentados em uma mesa, eles me olhavam e sorriam, pareciam felizes com aquilo; Lidia estava em pé a poucos metros de mim, não se cabia de felicidade; assim a lista seguia, uma reunião de muitas pessoas importantes para mim e para ele. Casar não era uma coisa em que eu estivesse pensando, então aquilo foi uma grande surpresa. Lex se ajeitou, desconfortável, nos joelhos e eu percebi que estava demorando a dar minha resposta.
— Sim, claro que sim... Sim, sim, sim.
Lex respirou aliviado e se levantou, pôs suas mãos em meu rosto e me beijou suavemente, com uma voz morna ele disse ao meu ouvido:
— Respira, Sarah, não entra em pânico, porque eu também não sei o que fazer a partir de agora. Eu só planejei até aqui.
Mas tudo saiu muito perfeito, a cerimônia foi linda, meu pai me levou até o pequeno altar, entregou-me para Lex, que sorria feito um bobo, o juiz de paz foi breve e direto e, ao final de poucos minutos, eu havia me transformado em Sarah Lambertini. Aquilo era muito emocionante.
A festa foi ali mesmo, nada muito grande, porém bem elegante. No decorrer dela, Lex me apresentou a muitas pessoas importantes em sua vida, entre elas, seus pais.
— Roberta e Roberto Lambertini — disse ele, beijando o rosto de sua mãe.
— Que coincidência! — disse inocente.
— Meu pai mudou seu nome assim que se apaixonou por minha mãe — disse Lex sério. Acho que minha expressão foi um tanto quanto exagerada, pois os três riram imediatamente, Lex se apressou em colocar do meu lado e me disse sorrindo. — Já te falei para não acreditar em tudo, era só uma brincadeira, meu pai se chama Janio e minha mãe se chama Roberta, o resto é verdade.
Eu não esperava me casar naquela noite, mas me casei. Eu nunca teria imaginado algo tão espetacular como aquilo, as pessoas estavam felizes, me cumprimentavam com sorrisos, me abraçavam com ternura. Aquele foi o dia mais lindo que eu tive na vida. Estou aberta a outros mais especiais, ou até importantes, mas aquele foi e será para sempre o mais lindo. Eu me sentia merecedora de todas aquelas honras, assim como me sentia à altura do noivo que não tirava os olhos de mim.
Enquanto as pessoas nos engoliam com seus assuntos superimportantes a única coisa que eu pensava era em fazer amor com meu marido.
— Você está difícil esta noite... — disse Lex quando conseguiu me alcançar.
— São seus convidados, mas estou preparada para fugir. Aquela história da cama ainda está de pé?
Lex sorriu, segurou em minha mão e saímos pelas escadas até o andar seguinte, lá ele me pegou nos braços e me levou para a suíte.
— Lex... — protestei.
— O quê?
— Não vamos pra casa? Eles estão logo ali...
— Não aguentaria esperar até em casa para começar nossa lua de mel. Quanto a eles, tem muita bebida, isso vai distraí-los.
Na manhã seguinte, viajamos para Miami.
Minha primeira viagem internacional foi maravilhosa, minha lua de mel foi incrível, passamos um mês viajando e curtindo a companhia um do outro. Estávamos muito apaixonados. Lex me despertava uma atração tão grande, que era impossível sair do quarto, estávamos vivendo um ao outro intensamente.
***
Existe aquele momento da vida em que as coisas viram uma rotina boa, minha vida estava se tornando isso, mas não aquela rotina chata de coisas para fazer, e sim aquela rotina legal em saber que logo mais à noite eu teria duas pessoas para se sentarem à mesa comigo, conversaríamos e teríamos um jantar prazeroso, saber que, ao dormir, o Lex se deitaria ao meu lado, e que quando eu acordasse ele estaria lá e me daria um beijo de bom dia. Rotina boa é poder fazer aquilo que você ama e que nasceu para fazer, e se tornar cada dia melhor em fazer isso. Como acontecia com a dança. Ela me envolvia cada dia mais, eu me tornava uma das melhores bailarinas da Instituição Lambertini, sem falar naquelas coisas que não planejamos e acontecem assim sem querer. Por exemplo, o que eu havia começado a fazer por distração no convento, acabou ganhando forma e se tornando um projeto respeitado e procurado. Eu passava todas as manhãs ajudando mulheres a voltarem a viver na sociedade depois de serem abusadas ou sofrerem quaisquer tipos de violência. As visitas e a quantidade de pessoas já estava tão grande que precisamos alugar uma casa. Contratamos dois psicólogos e um psiquiatra, sem falar que Lidia, João, Linda e meus pais passaram a nos ajudar. Em um ano, havíamos criado a Instituição Restituir para todas as mulheres.
***
Meu casamento estava completando seu primeiro ano.
Allegra alcançou a maioridade e foi morar sozinha
E eu acabava de entrar nos vinte e me preparava para pedir o divórcio.
***
Devemos sempre seguir. Se está feliz, continue sendo feliz, se está triste mude o seu rumo.
***
Lex me deu um beijo na testa e afagou meus cabelos. Era uma manhã de sexta-feira, e nossa casa havia mergulhado no silêncio depois que Allegra se mudou. Nossa rotina estava mudada, mas éramos recém-casados, logo estaríamos esperando um bebê e a casa estaria cheia de vida.
Lex estava de terno e cheirava maravilhosamente bem, seus cabelos estavam úmidos seu rosto cheirava loção pós-barba.
— Tenho que ir, à noite eu te vejo...
— Só a noite? — choraminguei.
— Sairei o mais cedo que puder, lembra que hoje teremos visitas.
Lex me beijou novamente e saiu, deixando apenas o rastro do seu cheiro maravilhoso.
O meu dia foi movimentado, a começar pela ONG que estava lotada com um grupo de jovens que escrevia sobre a violência doméstica, a manhã voou, quando dei por mim, estava almoçando com Lidia na lanchonete da instituição, João se juntou a nós e o falatório foi intenso.
— Vocês já estão sabendo do concurso que vai ter entre as escolas do Grupo Lambertini e a de um grupo do Rio? — perguntou João animado.
— Não — falamos em uníssono.
Era de se esperar que eu, como esposa do Lex, soubesse de assuntos dessa importância, mas não, eu não fazia ideia do que ele estava falando. Até por que, eu e Lex evitávamos falar de trabalho em casa, existia todo um universo de coisas que poderíamos fazer e falar que não fosse trabalho. Olhei desconfiada para o Vicente que acabava de chegar e já me olhava esperando que eu falasse algo revelador.
— Não sei de nada, o Lex saiu bem cedo hoje e não me falou o que ia resolver — afirmei.
— Seu príncipe já está virando sapo? — brincou Vicente.
— Não, apenas não gostamos de falar de trabalho — respondi dando de ombros.
— Nem quando te interessa? Ou ele não acha que você ia querer ter um espetáculo estreando na Broadway?
— Eles fazem sexo o tempo todo — brincou Lidia. — Nem todos são como você e vivem pelos cantos sonhando com outdoors e estrelato e se esquecem dos outros prazeres — completou em tom de cobrança.
— É isso aí! — afirmei, vermelha.
— Chega desse papo, pra que dar tanta importância às besteiras do Vicente? — disse João. — Acabou de ser decidido, soube por fontes secretas, o Grupo Lambertini, junto com duas grandes companhias, vai lançar um concurso para um grupo. Eles querem estrear um espetáculo original, com balé clássico e o que houver de moderno.
Era palpável a animação de todos na mesa, em minutos, aquilo pareceu um sonho bem próximo, jovens talentosos e cheios de energia.
— Podemos dançar juntos, somos os melhores da escola.
— Modesta você, hein, Lidia? — disse João.
— Sou sincera, podemos montar algo e brilhar na Broadway.
— Não sei quanto a vocês, mas eu tô atrasada — falei, já me levantando da mesa.
Eu não deveria ter me incomodado com as alfinetadas do Vicente, afinal, ele não gostava do Lex, mas eu me incomodei. Se estava por vir um concurso, Lex já estaria sabendo desde o começo, por que ele não tinha me contado? Ele administrava todo o Grupo Lambertini, era dele a caneta que assinava qualquer coisa, havia de ter algum motivo para ele não me falar.
Minhas aulas naquele dia foram afetadas por minha falta de atenção, por mais que eu tentasse, minha cabeça estava em Lex. Não conseguir desenvolver nada, estava errando tudo o que tentava fazer e todos notavam isso, mas como sou persistente, fui até o fim. Quanto mais eu errava, mais eu tentava me concentrar. Quando dei por mim, venceu oito horas no relógio.
Eu não conseguia entender por que aquela história havia mexido tanto comigo. Eu não estava chateada pelo concurso, eu estava amando demais o que eu tinha, aquela vida cheia de pessoas boas e com aquela rotina de casada, talvez o Lex tenha pensado que eu me empolgaria com o concurso e teria corrido para participar, ele sabia que eu estava sendo considerada uma das melhores; talvez ele também não quisesse abandonar aquela vida de casal, assim como eu, ele poderia estar pensando em filhos e casa cheia.
— Sarah...
Lidia desceu as escadas gritando, ela estava muito agitada e animada com algo. Atrás dela, com o pique menor, porém com a mesma animação, Vicente, João e seu namorado gato faziam o que podiam para acompanhá-la.
Ela me alcançou, estava ofegante.
— Pensamos a tarde toda e tivemos uma ideia maravilhosa — disse ela eufórica. Eu continuei a olhá-la sem nada dizer, ela respirou mais um pouco e continuou a falar, João e os outros já tinham se juntado a nós. — Vamos fazer um musical com sua vida, uma freira bailarina.
— E um grande amor — completou Ian, o namorado gato
Eu não via minha vida como um musical, apesar de saber que minha história não era das mais comuns, mas levar ela para os palcos era demais
— Não acho que seja uma boa ideia — disse.
— É a melhor ideia, vamos levar esse concurso e ter esse espetáculo em todos os palcos do mundo — gritou Vicente.
Eles estavam tão felizes com a ideia, que até parecia que dali sairia uma boa coisa, se fosse em um outro tempo, eu até me animaria para tal façanha, mas as coisas estavam diferentes, eu já tinha tudo o que eu precisava, não tinha por que me estressar com um concurso e sair por aí viajando o mundo.
Mas eles estavam tão felizes e me olhavam imaginando o que eu iria dizer. Esperavam minha resposta.
— Eu acho o máximo por vocês, apesar de não ver muita graça. Eu não vou participar, mas posso ajudar em tudo.
— Mas, Sarah...
— Não — interrompi. — Eu não quero participar, tá bem?
Eles ficaram me olhando, a empolgação deu uma abaixada.
Deixei-os e saí antes que eles pensassem no que dizer e me enchessem de coisas. Eu já estava com a decisão tomada, não iria mudar.
O trajeto para casa foi tranquilo, cheguei rápido, estacionei e percebi que o carro do Lex já estava lá, fui correndo ao seu encontro, eu estava com saudades, tinha passado o dia sem vê-lo. Lex não estava em nenhum lugar da casa, resolvi procurar nos fundos, depois da piscina, onde ficava a sala de jogos. Lex estava jogando bilhar com um rapaz moreno. Eles não me viram chegar, então me lembrei que Erica e seu marido iriam para nos fazer uma visita.
Fui me juntar a eles, antes de alcançá-los ouvi meu nome e não resisti em escutar a conversa dos dois.
— A Sarah é teimosa — disse o Lex.
— Você tem que ser firme. Qual futuro vocês terão se continuar assim? — perguntou Bernardo, enquanto encaçapava uma bola.
— Não vejo futuro para meu casamento com a Sarah — disse Lex.
Meu coração parou por alguns segundos, meu ar faltou, senti minhas pernas fraquejarem. Quando percebi, eu já estava agachada perto do bar.
Lex pegou um copo que estava sobre a mesa e bebeu quase todo o líquido, então ele se sentou e descansou o corpo na poltrona. Bernardo também deixou seu taco e depositou toda sua atenção em Lex.
— Eu não consigo esquecer um único dia que ela está doente e que eu não posso fazer nada, ela evitar até falar no assunto. É uma insanidade! Tenho medo que ela se machuque. Já cancelei, por vezes, apresentações que exigiriam muito dela. Até esse concurso eu tentei cancelar, tenho medo que ela se machuque, se eu pudesse, eu faria como seus pais, a colocaria em um local seguro onde ninguém pudesse incomodá-la ou machucá-la. Não consigo imaginar meu casamento além do hoje, não vejo possibilidade de ter filhos ou de comemorar bodas de ouro. Ela é o amor da minha vida, mas seguir as regras dela está acabando comigo — disse Lex com a voz cansada.
— Você não pode conversar com ela novamente?
— Ela não vai fazer, tenho duas opções, meu caro Bernardo, viver um dia com ela, enquanto a perco sem saber, ou deixá-la ir de vez.
Com certo esforço, consegui me levantar. Eu tentava controlar minha respiração para o pânico não me atrapalhar de caminhar. Com muita dificuldade, consegui chegar ao meu quarto, então deixei que meu corpo se recuperasse na cama, controlei minha respiração por quase uma hora, então me senti segura para me levantar. Peguei uma mala e, sem vontade alguma, comecei a pôr algumas roupas dentro. Eu não queria ir embora, mas eu não tinha mais o que fazer ali, eu não conseguia chorar, o choque havia sido tão grande que as lágrimas ficaram presas em mim. Isso aumentou a dor no peito. Desisti de colocar mais coisas e resolvi ir com o que eu havia conseguido pôr na mala, eu estava acabando de fechar quando Lex entrou no quarto. Ele ficou parado perto da porta, a expressão séria, seus olhos estavam parados na mala sobre a cama. Por alguns segundos, eu o encarei e então continuei a fechá-la.
— O que você está fazendo? — perguntou ele.
— Deixando você viver. Percebi que você não é capaz de decidir o que é melhor para você sozinho, vou te ajudar.
— Do que está falando, Sarah?
— Alexandro, por favor, não torne tudo ainda mais doloroso.
— Você estava ouvindo minha conversa...
— Não — interrompi. — Eu ouvir apenas uma parte, o suficiente.
— Não podemos resolver uma briga assim, Sarah.
— Não estamos brigando, Lex, será que você não percebeu?
Saí do quarto deixando Lex a me olhar. Ele estava embriagado, sua voz estava sofrida, e eu percebi que tudo aquilo era culpa minha. Desci as escadas quase correndo, Lex conseguiu me alcançar na porta.
— Você está me deixando?
— Não, Lex, eu estou liberando você da sua sentença. Lembra? Seja honesto comigo e consigo mesmo e me diga. — Me aproximei e olhei em seus olhos. — Olhe em meus olhos e diga que é feliz comigo, que sonha em ter filhos e pensa em nossa velhice, talvez até em netos.
Lex ainda me olhou por um tempo, então, sem ter o que me dizer, ele soltou meus braços. Abri a porta e saí para a noite escura. Sem o Lex, era como se metade de mim estivesse morrendo. Eu sabia que dali por diante nada mais me daria a alegria que ele me havia dado, tudo o que eu havia imaginado para o futuro era com ele, eu teria que refazer todos os meus planos, mapear novos caminhos. Meu coração estava doente e ele doía muito. Olhei para trás e percebi que a porta permaneceu fechada, Lex havia entendido que o melhor para ele era seguir sem mim, agora dependia de mim entender que eu precisava viver sem ele. Aquilo me pareceu surreal. Deixei a mala na calçada e refiz o caminho, parei perto da porta, eu sabia que não conseguiria fazer aquele exames, eu não estava pronta ainda, e mesmo amando o Lex, mesmo querendo estar com ele, aquele sentimento, aquela sensação de coisa errada era mais forte, eu não podia voltar atrás. Naquele instante percebi que as lágrimas molhavam meu rosto. Contra minha vontade, eu estava finalizando uma etapa importante da minha vida, só existia uma coisa capaz de amenizar a dor e dar uma luz ao meu caminho.
Peguei o telefone, minhas mãos tremiam, e por duas vezes eu quase o deixei cair no chão.
Lidia me atendeu no segundo toque.
— Oi, amiga.
— Eu vou participar do concurso, mas eu preciso ganhar, eu quero sumir.
Lidia ficou em silêncio enquanto eu chorava desesperadamente.