O Segredo de Sarah

Cláudia Sátiro · Capítulo 14 de 15

Páginas do PDF

O Segredo de Sarah

Capítulo Treze

 

A casa estava cheia, um dos maiores teatros do Rio estava lotado de pessoas. Seria aquele meu primeiro grande evento. Eu nunca havia me apresentado para tantas pessoas, mas eu não estava preocupada com isso, a única coisa em que eu conseguia pensar era no homem de smoking preto que estava sentado na primeira fileira do teatro. Eu nunca o havia visto tão lindo.

Lex estava sentado junto de sua irmã. Ela usava vestido longo azul e conversava com ele, algo que os envolvia de tal forma que parecia que não viam mais nada. Lidia se aproximou de mim e me mostrou nossos pais. Eles haviam ido juntos e, pelos sorrisos, estavam se divertindo.

As pessoas estavam todas muito bem vestidas, com vestidos longos e joias caras. Era um evento maravilhoso.

No camarim, a realidade era outra. Bailarinos emendavam pedaços de meias para pôr em suas sapatilhas, evitando assim ficarem sem um dos dedos, pedaços de implantes de cabelo eram colocados em coques enormes, as muitas olheiras eram cobertas por maquiagem carregadas feitas por mãos ágeis, o caos se estendia quando algum figurino se rasgava ou alguma sapatilha da sorte sumia ou quando alguém vomitava no banheiro. Mas, aos poucos, tudo foi se encaixando. O primeiro grupo se organizou, e todos seus figurinos foram organizados para as trocas rápidas de palco, então a noite foi aberta por um grupo só de mulheres. Enquanto isso, nós e o outro grupo tentávamos nos organizar para nossa hora.

A primeira apresentação foi linda, elas fizeram um espetáculo aéreo com fitas gigantes que as suspendiam e as faziam voar. No chão, muitas delas conseguiam voar também com seus saltos maravilhosos de finalizações impecáveis.

— Perfeito! — diziam as pessoas.

A segunda apresentação foi menos arrepiante, eles erraram alguns passos, e isso desconcertou todos no grupo.

Enfim chegou a nossa vez. Entramos no palco escuro abrindo nosso espetáculo, eu, Lidia e Ian, que tomou lugar do João. Aquilo era doloroso, mas ao mesmo tempo era gratificante pensar que eles estavam felizes nos vendo dar continuidade aos seus trabalhos. Com as luzes apagadas, as fotos de João e da Carol eram vistas nos telões atrás da gente. Emocionante. As luzes do palco iam mudando de cor conforme trocávamos de cenário e de figurino. Sempre que as freiras entravam no palco, a iluminação ficava baixa lembrando as velas daquele lugar, Vicente entrou no palco e seu semblante era de segurança, ele realmente me lembrou o Lex. Era maravilho dividir aquela magia com aquelas pessoas que eu tanto amava e amo. Então chegou o momento que o Vicente tanto temia, havíamos trocado a parte da música latina que fazia todos os bailarinos se juntarem no palco por apenas nós dois. Eu com aquela camisa branca social, enquanto Vicente usava jeans sem camisa. A música envolveu o lugar, e eu quase não segurei a emoção. Era a minha primeira vez se tornando eterna na arte, um momento que se tornou para sempre. Eu não conseguia olhar para o Lex para saber se ele estava gostando da surpresa, de nos ver representados naquele palco, mas eu estava muito feliz, e ao término de toda aquela apresentação, eu o pude encarar de cima do palco. Ele estava sorrindo e me aplaudindo de pé. Naquele instante, vi quando Linda se aproximou e lhe entregou o envelope como nós havíamos combinado. Ele segurou e se sentou para ver o que havia dentro, e as cortinas se fecharam em minha frente.

O barulho ali no palco era enorme, muitos riam descontroladamente, outros choravam e se abraçavam, Vicente abraçava Lidia e a beijava ardentemente, aquele relacionamento que ninguém entendia, o clima de felicidade daquele lugar era maravilhoso e contagiante, só perdia para o pânico que existia em mim por pensar que o Lex poderia não me aceitar mais em sua vida.

As cortinas se abriram novamente para os agradecimentos, Lex não estava mais lá.

Ele devia ter mudado de ideia quanto a mim, não seria de se espantar. Um homem tão especial quanto Lex não perderia muito do seu tempo esperando uma tonta como eu. Por mais que isso me deixasse chateada e triste, era compreensível. As cortinas se fecharam novamente, mais uma onda de gritos risos e choros veio dos meus colegas de dança. Eu sorria ao mesmo tempo que as lágrimas rolavam por meu rosto. Eu estava feliz por termos conseguido uma apresentação tão maravilhosa, e triste por ter perdido de vez o Lex. Talvez se eu tivesse pensando naquilo alguns meses antes, ele ainda estivesse comigo, mas só sabemos o quanto crescemos quando tomamos decisões como essa e nos arrependemos depois imaginando muitas outras formas de resolver.

— Saiam do palco, vamos — disseram duas mulheres apressadas trazendo um grupo de pessoas para desmontar cenário. Em questão de segundos, o local onde sairia o ganhador já estava decorado.

Eu não tinha mais nada a fazer ali, já havia dado o melhor de mim no palco para meus amigos ganharem, eles não precisavam mais da minha presença. Era um grupo de dezessete pessoas, se por acaso ganhássemos, eu, com certeza, não faria falta.

— Vou para o hotel, não me sinto bem — avisei a Lidia.

— Não, você vai se trocar e vamos encarar essa disputa, somos seus amigos, Sarah, queremos dividir isso com você.

— O Lex foi embora, Lidia.

— Então ele é um babaca, Sarah, você é maravilhosa, nem mentir para ele você conseguiu. Ele não queria que você enfrentasse e fizesse os exames? Você foi sincera em dizer que estava com medo, pediu ajuda e ainda fez aquela homenagem linda ao amor de vocês. Ah, me poupe! Se ele foi embora, que se dane.

— Você está certa.

Me troquei e descemos para esperar o anúncio do ganhador do prêmio. O apresentador começou fazer um discurso longo, os ânimos estavam à flor da pele, todos com aquela expectativa de que iriam ganhar, mas foi só quando aquele homem magrelo e pálido nomeou nosso grupo como o grande vencedor foi que eu pude sentir toda a emoção de tudo o que havíamos feito. Imagens da nossa apresentação começaram a passar nos telões, e era maravilhoso.

— Parabéns, Sarah!

Disse Ian a me abraçar. Ele estava emocionado, assim como eu e todos os ali presentes. Subimos ao palco e recebemos o prêmio juntos com todas as honras.

Foi quando eu o vi. Lex adentrou o palco com todo aquele ar de perfeição que só ele tinha. Em suas mãos, um buquê de rosas azuis. As mais lindas que já tinha visto — não que eu já tivesse visto rosas azuis — e foi em minha direção. Seu rosto trazia um sorriso contagiante. Entregou-me as rosas.

— Desculpa a demora, rosas azuis são incomuns.

Eu sorri e mergulhei em seu abraço, Lex me segurava me beijava ali no palco para todos os olhares.

— Eu senti muita saudade de você — disse ele.

— Eu te amo — respondi.

As pessoas nos aplaudiam de pé. Eu não sabia bem quem elas estavam aplaudindo, porque eu só enxergava o Lex, estávamos tão felizes e ligados um ao outro que esquecemos onde estávamos e quantas pessoas havia ali.

Lex me beijava eu o correspondia da melhor forma possível. Era muita saudade guardada, muito orgulho sendo destruído.

Então ele se deu conta de onde estávamos quando notou o vermelho gritante em minhas bochechas, se virou e viu todas aquelas pessoas nos olhando.

Deixamos o palco e fomos para os bastidores, ele segurava firmemente minhas mãos.

— Onde vamos? — perguntei.

— Tem muita gente aqui, não acha?

Eu olhei para ele e senti a malícia em seus olhos. Eu não podia julgá-lo, também estava louca para tê-lo novamente, sentir seu cheiro e ser dele. De tudo o que eu havia vivido, Lex foi como um prêmio, uma recompensa por não ter me tornado alguém ruim ou mesquinha, um presente que Deus havia me enviado por eu ser uma pessoa boa. Foi pensando nisso que fiquei feliz em ter optado em não aceitar a proposta da Lidia, fazer uma homenagem no palco para ele e mandar aquela carta expondo todos os meus medos foi o certo.

— Você vai comigo fazer os exames por que eu estou com muito medo? — perguntei.

— Eu vou com você para qualquer lugar, eu nunca mais vou te deixar sozinha. — Me beijou. — Quer ir comemorar comigo?

— Sim, vamos — respondi.

Lex segurou minhas mãos e começamos a sair do teatro.

— Calma, não vamos esperar os outros? — perguntei.

— Essa comemoração é só nossa. Vamos, eu tenho uma surpresa para você, meu amor.

— Você conseguiu preparar uma surpresa em tão pouco tempo?

Lex me abraçou e sorriu.

— Não foi só você que mudou de ideia e jogou a toalha.

Juntos, fizemos aquela noite se tornar inesquecível em nossas vidas, uma noite para sempre.