O Segredo de Sarah
Capítulo Nove
Pegamos a estrada para a casa dos meus pais às cinco da manhã. Consegui tomar um banho na escola e vesti uma das roupas que usava para dançar. Foi o melhor que consegui no meu armário. Lex também tomou banho, ele se vestiu de preto, seu humor estava da mesma cor. Após a nossa discussão na sala de dança, ele não falou mais no assunto, a não ser para dizer que precisávamos ir falar com meus pais. Naquele momento. Só me deu tempo necessário para tomar um banho.
Eu pretendia puxar um assunto qualquer com ele, mas seria impossível. Ele estava concentrado demais em seus pensamentos e na estrada à sua frente. Aquele silêncio todo estava me incomodando. Ele não poderia se esconder em sua armadura e me deixar ali sofrendo sem saber no que ele estava pensando.
— Eu preciso que você converse comigo... — falei por fim
— Me dá um tempo, Sarah...
— Seu silêncio está acabando comigo. Vivi uma vida inteira sendo escrava do silêncio das pessoas, sem saber o que estava acontecendo de verdade. Eu não suportaria se nossa vida se tornasse isso também.
Lex me olhou, e seu semblante mudou, voltando sua atenção para a estrada e ele se pôs a pensar por alguns segundos, então sua mão gelada se pôs sobre a minha. Ele me olhou novamente, se esforçando para sorrir.
— Podemos conversar sobre qualquer coisa, menos do que não temos certeza.
Já era um começo.
— Allegra..., não consigo me perdoar por tê-la machucado.
Lex continuou a acariciar minha mão, sua atenção sempre na estrada.
— Eu expliquei tudo para ela, ela já te perdoou. Se fosse você eu faria o mesmo.
— Me conta sobre vocês...
Lex me olhou, soltou minha mão e se concentrou novamente na estrada. Eu sabia que o silêncio iria voltar, senti um nó na garganta, virei-me e concentrei minha atenção na paisagem para não chorar.
— Meus pais se mudaram para Santa Mônica quando conseguimos abrir nossa primeira filial fora do país. Jonas era o mais velho. Ele conheceu uma mexicana no primeiro ano de escola, Olivia, uma dançarina órfã que morava escondida nos Estados Unidos. Os dois se casaram e tiveram gêmeos, Allegra e Nóa. Quando os dois estavam com três anos, meu irmão e sua esposa morreram em um acidente de carro. Eles voltavam para casa quando Jonas fugiu de uma blitz. Era noite, chovia, os dois caíram em uma ribanceira.
Voltei minha atenção toda para Lex, ele estava longe em seus pensamentos. Era visível o quanto aquele assunto o machucava.
— Tudo bem, Lex, não precisa falar mais.
— Eu estou bem, Sarah...— disse ele, forçando outro sorriso. —Quando isso aconteceu, meus pais não souberam lidar com a situação, eles entraram numa depressão de dar pena. A Erica estava com oito anos de idade, eu estava com dezesseis e tive que cuidar dos meus sobrinhos, da minha irmã, e dos meus pais.
— Por isso que você deixou de dançar?
— Eu não tinha tempo pra muita coisa. Logo Erica se tornou mulher e passou a me ajudar nos negócios; se casou, tem até uma filha. Meus pais, depois de muito tratamento, estão melhores, hoje eles estão bem, o Nóa está em Harvard, o menino é um gênio da computação, mas a Allegra eu mimei demais, ela é teimosa, insiste que quer dançar. Às vezes eu não sei o que fazer com ela.
— E o dedo do seu pai? Tanta violência...
— O dedo do meu pai está nas mãos dele.
Lex riu, e o clima ruim passou. Parecia que eu tinha contado uma piada muito engraçada, então eu rir também.
— Sarah, você não pode acreditar em tudo o que te contam.
O resto da viagem foi tranquila, agora conversávamos sobre tudo. Eu contei para ele sobre meus pais e toda a história do convento. Ele era um bom ouvinte, me fazia perguntas uma vez ou outra, mas conseguimos manter uma conversa agradável. Paramos para tomar café em Realengo, a menos de vinte minutos da casa dos meus pais. Eu não estava com fome, quanto mais perto chegava, mas eu me sentia sufocada e presa. Era triste, mas eu não conseguia imaginar ver meus pais sem um aperto no coração, e por mais que eu os amasse, a mágoa que vinha crescendo dentro de mim mataria qualquer coisa boa que pudesse vir daquela história.
Chegamos na casa dos meus pais às dez horas daquele domingo. Não havia possibilidade de eles não estarem em casa. A rotina ali nunca havia mudado, e eu tinha para mim que nunca mudaria.
A casa estava bela como sempre. Os portões se abriram assim que anunciei meu nome. Lex não se sentiu impressionando com a grandeza do lugar, eu já havia lhe contado sobre quem meu pai era e sobre tudo que ele tinha. Maria me esperava nas escadas da entrada. Ela correu até mim e me abraçou saudosa. Era assim que uma mãe esperava um filho, pensei. Do alto da escadaria, na soleira da porta, meu pai me esperava. Ele estava abatido, parecia ter envelhecido uns dez anos, tinha olheiras grandes, barba por fazer, parecia ser o fim para ele. Não avistei minha mãe em nenhum lugar.
— Oi, pai...
Falei assim que consegui chegar até ele. Sua boca mal se abriu em uma resposta.
— Esse é Lex Lambertini.
Lex estendeu a mão para meu pai, eles trocaram um aperto breve e Lex completou:
— Sou namorado da Sarah.
Olhei para ele por um minuto saboreando a novidade, então me voltei para meu pai. Entramos, e todo meu passado caiu sobre mim, cada canto daquela casa me retratava algo diferente. Não eram lembranças ruins. Sim, houveram privações, no entanto, eu vivi sempre com o melhor. Meus pais me amavam mais que tudo na vida, e eu não podia duvidar daquilo. Ainda conseguia me lembrar de quando meu pai me pagava no colo e me chamava de borboleta; das muitas vezes que ele chegava do seu trabalho com caixas gigantes de bonecas que nem tinham sido lançadas no mercado ainda; dos beijos antes de dormir mesmo após eu ter me tornando mocinha. Corri em disparada e abracei meu pai como sempre fazia. Ele sempre se surpreendia, mas nunca deixava de me corresponder. Seus braços já não estavam mais tão fortes, e seu abraço já não era mais tão apertado, mas era o abraço do meu pai, e isso era muito bom. Ficamos ali por minutos, a emoção era tão forte que chorávamos em forma de perdão, afinal eu também havia errado com eles, eu havia mentido e me aprisionado em um mundo ainda pior. Talvez se eu tivesse perguntado, se eu tivesse questionado meus pais sobre toda aquela história, talvez tivesse sido diferente. Percebi que Lex nos observava de canto de olho. Ele estava sério, com o semblante triste, e eu entendi que faria tudo outra vez. Se fosse para tê-lo, eu não mudaria nada em minha história.
— Minha mãe?
— Está no quarto, Sarah. Veja filha, ela está sofrendo, nada disso é culpa dela. Em todo momento ela quis seu bem, não a odeie, por favor... — Meu pai chorava como uma criança que se machuca brincando de correr.
Eu estava tentando segurar todas as emoções dentro de mim, não conseguiria chegar ao final daquela história sem saber ao certo tudo o que havia acontecido, as emoções poderiam me trair e me deixar sem as respostas que tanto precisava.
— Eu quero que você conte tudo para mim, pai, eu preciso descobrir o que aconteceu com minha vida.
Meu pai chorava entre soluços. Ele estava se matando com toda aquela história. Eu já estava entrando em desespero, não poderia sair dali sem saber ao certo o que estava acontecendo, meu pai não podia se entregar ao choro e me privar mais uma vez daquilo que eu precisava ouvir. Num gesto de desespero, segurei em seus ombros e balancei, eu queria que ele me olhasse que se compadecesse da minha dor, eu não suportaria mais um dia sem saber se eu estava morrendo.
— Pai, você precisa me contar — eu gritava já beirando a histeria. No fundo, eu sabia que estava errado, mas as emoções que eu tentava não deixar me atrapalhar já me sufocavam, as lágrimas já desciam do meu rosto.
— Eu conto, Sarah...
Minha mãe desceu as escadas, em suas mãos, havia duas pastas grandes. Ela estava séria, sem demonstrar nenhum tipo de emoção, parecia que havia acabado de despertar de um sono longo. Eu nunca a tinha visto tão dona de si, ela nunca havia enfrentado nenhuma situação com tamanha coragem.
Eu larguei os braços do meu pai, ele levou as mãos ao rosto e descansou o corpo no sofá, eu me sentei tentando controlar mais uma vez as emoções que insistiam em me trair. Limpei meus olhos e encarei minha mãe. Eu não era mais uma criança cheia de medo, por isso encarei minha mãe como uma mulher. Eu havia me transformado em uma mulher.
Minha mãe caminhou até mim e jogou sobre a mesa de centro os envelopes. Meu nome estava escrito neles. Segurei-os e retirei seu conteúdo. Eram envelopes velhos que pareciam ter sido manuseados muitas vezes. O papel estava surrado, e as pontas estavam rasgadas. Olhei aquelas radiografias e senti uma pontada em meu coração. Eram exames feitos três dias após meu nascimento, assim dizia a data que estava junto ao meu nome, aquilo deveria ser a prova de que eu estava doente. Lex estava parado quase invisível no canto da sala. Ele ouvia toda a discussão, mas não se manifestava. Sempre que eu o olhava, ele estava com os olhos fixos em mim. Impossível decifrar o que ele estava sentindo.
— Eu não podia engravidar, Sarah, por mais que eu tentasse, me tratasse, nada adiantava.
Neste momento, minha mãe parou de falar e olhou para meu pai, ele já estava mais calmo, quando percebeu que eu ia perguntar algo, ela ergueu a mão, eu já sabia que deveria permanecer em silêncio.
Não sabia o que havia acontecido com minha mãe, mas ela estava forte, caminhava pela sala com ar de grandeza e sabedoria, como se tivesse enterrado a mulher frágil que eu sempre conheci.
— Eu e seu pai éramos recém-casados e recém-formados em medicina, sabíamos sobre a inseminação, optamos por fazer. Você era meu sonho, Sarah, porém existia a mãe do seu pai, uma mulher impetuosa e fria, evangélica doente, ela não suportava a ideia e nos pediu, na verdade ela gritou, que não poderíamos ir contra a vontade de Deus. Para ela, eu não servia para seu pai, não teríamos filhos porque Deus não queria, ir contra Ele seria tolice. Mas insistimos e lutamos até que eu engravidei de você, minha Sarah, ficamos tão felizes.
Meu pai, já totalmente seguro de si, caminhou até a minha mãe e segurou as mãos dela. Era visível o quanto os dois se amavam.
— À medida que você crescia na barriga da sua mãe — começou meu pai —, nossa vida ia mudando o sentindo. Saímos do nosso apartamento, mudamos para esta casa, sua mãe continuava trabalhando, assim como eu. Estávamos confiantes de que havíamos escolhido o caminho certo. Mantivemos distância da sua avó. Quanto mais longe, melhor nos sentíamos.
— Mais aí você nasceu, Sarah — continuou minha mãe. — Eu sabia que tinha algo errado com você, você não chorava, o parto foi demorado, e quando você nasceu, não existia choro, só sussurros dos médicos em minha volta. Demorei a voltar para o quarto e, em nenhum momento eles levaram você para mim. Exatamente dez horas depois do seu nascimento, seu pai foi até mim e me contou que você havia nascido com uma doença grave, que seu coração não conseguia mandar sangue suficiente para o cérebro, e você era muito pequena para qualquer intervenção cirúrgica, seria questão de horas até você morrer.
Eu estava parada olhando com espanto para os dois no canto da sala me contando a história da minha vida, eles pareciam tão frágeis e cansados que era difícil sentir raiva deles.
— Foi aí que entrou sua avó — meu pai voltou a contar. — Ela diagnosticou você, Sarah, ela era a melhor cardiologista que existia, ela cuidou de você por aquelas setenta e duas horas, e então, em uma manhã de quinta-feira, ela trouxe você, tão pequena, e entregou nos braços da sua mãe. Eu sabia que era você, porque eu fui o primeiro a te segurar na sala de parto. Você estava corada e com os olhinhos abertos, parecia saudável.
— Ela disse que a fé havia te curado... — gritou minha mãe. — Ela pediu para que criássemos você privada do mundo. Segundo ela, teríamos que ser tementes, fiéis e criarmos você longe de tudo o que pudesse te contaminar. Sabíamos que algo estava errado, mas tínhamos você e nos bastava. Ela nos dizia como cuidar de você, até o que dar pra você comer, ela nos obrigou a ter uma religião, ela dizia que se desagradássemos a Deus, ele iria nos tirar você, ela nos obrigou a evangelizar mesmo sabendo que éramos católicos. Ela gritava e nos jogava na cara a cura, então nós sucumbimos a tudo que ela queria, apenas porque tínhamos muito medo de perder você.
— Vi você crescer fechada nestas paredes, Sarah, sem poder levar você para brincar com outras crianças no parque, mas se você quer saber, eu faria tudo de novo porque você é minha vida, meu milagre e tudo o que eu fiz foi pra ter um dia a mais com você — disse meu pai entre lágrimas.
Fiquei ali parada olhando para meus pais, tentando digerir tudo. Eles estavam tão machucados quanto eu, o sofrimento de quase dezenove anos estava sendo exposto ali. Lex saiu do seu canto e foi até mim, me abraçou e beijou o meu rosto. Teria sido bom se eu não estivesse tonta com tanta informação.
— Eu tô doente ainda?
Meus pais me olharam do canto, eles estavam determinados a me contar tudo.
— Não sabemos, Sarah, acreditamos sempre no que sua avó falava, era como se ela fosse um guru que nos dizia o que deveríamos fazer com você, nunca a questionamos, tínhamos medo de ser punidos e perder você. Você foi crescendo, de repente estava com seis anos, foi a única vez em que a desobedecemos e colocamos você em uma escola.
— Ela disse que você morreria assim que entrasse na escola — disse minha mãe a soluçar.
Meu pai continuou:
— Sua avó morreu um ano depois do seu primeiro ano letivo, então ficamos sem saber o que fazer, resolvemos continuar do jeito que estava. Era errado, eu sabia, mas era a única forma que existia de estarmos com você, não queríamos abrir mão disso. Você se tornou uma moça forte, bonita. Eu sempre me orgulhei tanto de você.
Senti-me tão mal ouvindo tudo aquilo. Meus pais tinham vivido tantos anos de sacrifício apenas para ter um dia a mais comigo, e eu os havia decepcionado, mentido. Sempre achei que estava sendo correta em tudo que fazia, mas nunca parei pra pensar em como tudo aquilo poderia mexer com os sentimentos deles, eu tinha sido tão egoísta quanto eles.
— Porque o convento, se vocês são evangélicos rigorosos? — perguntou Lex.
— Ao que minha sogra morreu, perdemos a noção do certo e do errado, continuávamos mantendo aquilo que já sabíamos, mas tudo o que era novo nos deixava em conflito, quando Sarah nos avisou sobre entrar em um convento, achamos que seria certo. Éramos católicos, mas a minha sogra era evangélica doente, não existia outra religião que não a dela, nos tornamos evangélicos, mas o Deus sempre será o mesmo.
— Quando a Madre Superiora nos chamou e nos contou que Sarah tinha dons, ela nos convenceu que estávamos indo no caminho certo — disse meu pai. — Ela nos contou sobre a academia de dança, nos disse o quanto Sarah havia mentido, e por isso estava sendo castigada. Nós, em contrapartida, contamos a ela que Sarah estava doente e toda a história. Ela nos consolou dizendo que você, filha, havia sido escolhida para vencer. Disse dos seus dons e das muitas coisas que poderia fazer, nos enchemos de alegria por saber que estávamos fazendo o certo.
— Mas não estavam — gritou Lex.
— Soubemos disso assim que ouvimos na TV a notícia sobre o cárcere privado da Sarah. — Minha mãe voltou a chorar. — Eles te machucaram com nosso consentimento.
Existia muita emoção naquela sala.
Estava tudo ali exposto, não havia mais segredo além de existir ou não uma doença. As feridas estavam abertas e doíam muito, eu sabia que tudo aquilo jamais poderia ser apagado da minha história, mas gostaria de poder amenizar o sofrimento dos meus pais. Fui até eles e os abracei, eles esperavam aquele abraço, pois seus braços me puxaram para si. A emoção tomou conta da sala e, em minutos, só existíamos nós três em um universo totalmente paralelo, éramos nós três de novo, nos curando de todas aquelas feridas, nos conhecendo como nunca antes. Eu descobrir que tinha os pais mais amorosos e corajosos do mundo, e eles puderam tomar conhecimento da minha força.
Eu poderia viver mais mil anos e nunca iria entender o fanatismo da religião, eles se dividiram entre fés diferentes, que colocaram em lugares ou igrejas diferentes e denominaram deuses, mas todo ser humano sabe que existe apenas um Deus, Este sim pode curar feridas, doenças e restaurar famílias. As brigas ou seitas que se fazem a partir disso são meros fetiches de humanos egoístas atrás de poder e dinheiro sempre a inventar algo que não existe. Deus está aí para se sentir e amar. Ele está em nossos corações desde quando nascemos até o último suspiro. Hoje, mesmo sendo difícil para muitos admitir, estamos sob a vontade Dele e sabemos que, mesmo revoltados, não podemos ir sobre ela, e isso nada tem a ver com religião. Aceitar ou não a Deus em nossas vidas é particular de cada ser humano, impor que o outro faça o mesmo que você é prova de que não evoluímos nada. Sim, tem muito a ver com fé, e esta também não está ligada à religião. Estamos à mercê de um Deus justo que nos dá da mesma forma que nos tira, a fé nos aproxima de Deus para que Ele se compadeça dos nossos sentimentos e nos presenteie com uma segunda chance. Algumas vezes isso não é possível se partirmos do princípio de que nossas vidas são predestinas a partir do que escolhemos fazer. Não posso julgar meus pais, eu faria o mesmo. Conceber um filho é o presente mais gratificante que Deus nos dá, culpo os religiosos que, com suas convicções distorcidas, se aproveitam de quem não está bem para impor suas verdades e suas restrições. Religião não vê filhos, vê dizimistas; na religião de Deus, não há margem para erros. Ao me conscientizar que eu nunca poderia ir contra a vontade Dele, senti medo por aqueles que amava, ao mesmo tempo que me senti em paz por saber que estávamos sendo bem cuidados por Ele. Condenar um Deus que sabe exatamente o que está fazendo, ou viver conforme as leis dos homens para não ser punidos por algo que as pessoas julgam estar errado é cruel. O problema de todas as religiões foi ligar Deus a um ser extremamente vingativo. Não somos donos de ninguém, mesmo que este tenha nascido do nosso ventre.
Abracei meus pais ainda mais forte pedindo para que tudo desse certo em nossas vidas a partir dali, mesmo tendo vivido uma vida aprisionada ao fanatismo religioso
— Podemos refazer todos os exames — disse Lex se levantando do sofá e retirando seu celular do bolso. Por mais que aquilo fosse o certo a fazer, eu não queria. Estava com quase dezenove anos de idade, e não ia me condicionar a um exame de laboratório. Se eu havia vivido até ali com a misericórdia de Deus e a fé dos meus pais, eu poderia seguir adiante juntando minha fé à deles, mas dessa vez vivendo como um ser humano normal, afinal, ninguém tem o dia de amanhã como certo. Por que eu me contentaria e desistiria da vida só porque um médico me prescreveu a morte em uma das suas receitas frias facilmente largada em seu escritório sábado à noite enquanto ele sai para se divertir?
Eu havia acabado de descobrir a cura pela fé.
— Não, eu não quero.
Lex teve um sobressalto. Sua expressão foi do medo ao pânico em poucos segundos.
— É o certo, Sarah, muita gente já se machucou com isso, não se cuidando, você estará cometendo os mesmos erros que seus pais e sua avó.
— Não, eu não quero.
— Filha, você pode fazer qualquer coisa. Descobri isso quando vi você entrar naquele convento com um sorriso largo no rosto.
— Eu não quero fazer nada, chega de ter que provar aos médicos, à religião a todos. Eu vou viver minha vida a partir daqui com a fé que trago em meu coração, acreditando que foi Deus que me trouxe até aqui.
— Você está louca, Sarah — gritou Lex.
— Não. Eu disse que você não estava preparado para viver comigo, você é muito cético, Lex, tem uma vida toda programada em suas mãos, não faço parte de um dos seus programas, assim como não vou ser controlada por você, a partir de hoje, eu vou tomar as rédeas da minha vida.
Saí batendo a porta de casa. Eu estava chateada, triste por ver onde a vida podia chegar com o envenenamento do ser humano. As chaves dos carros do meu pai sempre ficavam na ignição. Peguei o que estava mais perto e saí queimando pneus. Pelo retrovisor, pude ver as três pessoas que eu mais amava na vida me olhando com demasiada preocupação.
Percorri quilômetros sem saber ao certo onde eu estava indo, meu norte era tudo que eu tinha acabado de escutar. Era como se eu estivesse vivendo de verdade a partir dali. Quando me dei conta, estava em frente ao convento gritando desesperadamente pela Irmã Gloria. Não tive medo de estar ali, não poderia mais ser aprisionada, eu havia me tornado uma nova Sarah, mais forte e ferozmente ferida.
Irmã Gloria apareceu na porta, ela estava atordoada com todos aqueles gritos, seus olhos me encontraram sentada no último degrau da escadaria, não havia um sorriso em seu rosto dessa vez, apenas compaixão.
— Você pode me dizer por que estou com tanto medo?
— Você não está com medo, menina, você está confusa. Você só precisa se acalmar e entender que as soluções dos seus problemas só quem pode dar é você.
— Não quero ser prisioneira de laudos médicos, não quero ser prisioneira de uma religião, mas também não posso ser prisioneira do medo.
— Não seja, dias atrás você estava saudável e vivendo uma vida cheia de aventuras, tudo porque você acreditava estar saudável. Você é aquilo que Deus fez você para ser, impossível remodelar um vaso que Deus já modelou, siga da mesma forma que chegou até aqui, se você não quer exames, não faça; se não quer uma religião, não tenha; mas por favor, Sarah, que não seja por medo, você é mais que isso.
— Tenho medo de fazer coisas que O desagradem — disse chorando.
— Pequena Sarah, Deus é muito mais do que nós duas podemos concluir. Se você permanecer tendo fé, acreditando Nele e fazendo coisas boas, Ele estará sempre com você te dando muita vida, Deus não se comove com choro, Deus se comove com o que traz de bom seu coração. Eu acho que essa é a única coisa que O faz não desistir de nós.
— Mas eu sempre fui muito egoísta.
— Você queria viver, Sarah, e é isso que Deus nos dá, a vida.
— Como vou viver daqui em diante?
— Da mesma forma que você chegou até aqui, amando-O, respeitando-O, colocando-O à frente dos seus problemas, e agradecendo por todas as dádivas alcançadas, é só você pensar, Sarah, antes disso tudo, você já havia se decepcionando com Ele? Cada um paga por seus erros, não é culpa sua, Deus não está te castigando. — Segurou firmemente minhas mãos. — Lembre-se que o medo foi, talvez, o maior culpado de toda sua dor.
Fiquei ali imaginando se ela havia escutado toda a parte da religião e do fanatismo?
— E quanto à cura que meus pais presenciaram? A senhora acha certo o preço que eles pagaram?
— Você é esta cura. — Ela suspirou e pôs-se a olhar para o horizonte. — Quando não há um preço, quando não se tem cobrança, quando não há um cobrador, se alguém paga alguma coisa, esse alguém deve ser chamado de tolo e não de sofredor, aprenda minha menina, Deus pode cobrar o erro, mais nunca te cobrar uma bênção.
Duas noviças saíram correndo pela porta do convento, elas estavam muito preocupadas com algo.
— Madre...
Irmã Gloria olhou para elas com aquele olhar doce de quem tem amor por todos, seu rosto, que havia pouco estava triste e reprimido com minha história, se abriu em um sorriso fraterno e intenso.
— Sim, filhas...
— A senhora é Madre? — perguntei incrédula.
— Sim, Sarah, após todas aquelas manchetes nos jornais, de abuso de autoridade e cárcere privado, a Irmã Matilde foi afastada do cargo. A igreja não escraviza pessoas, e eu fiquei feliz em saber disso, se é verdade ou mentira, aqui no meu convento passou a ser uma verdade absoluta. Vê, Sarah? Não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar o ambiente que vivemos, e isso faz muita diferença. Eu preciso ir agora. Você está bem?
— Sim, estou bem.
Fiquei ali na porta do convento vendo a Irmã Glória entrar, ela estava mais forte e convicta de tudo o que estava fazendo, dentro de mim, eu sabia que ela havia nascido para o convento, assim como eu havia nascido para a dança.
O barulho do carro do Lex se fez ouvir ao longo da entrada do convento. Ele estacionou perto do carro do meu pai, foram necessários alguns minutos para que ele decidisse descer. Ele parecia cansado e angustiado, seus cabelos estavam bagunçados, Lex estava sofrendo.
— Eu já te falei que você não precisa ficar sofrendo do meu lado.
— Você já deveria saber que ninguém manda nos sentimentos dos outros.
Lex se sentou do meu lado na calçada, em nossa frente, um mar de jardim e árvores frutíferas. Era uma visão agradável e calma.
— Você sabe que não devia ter saído daquela forma?
— Você sabe que não devia ter me seguido — respondi.
— Entenda de uma vez por todas, Sarah, eu não estou com você por pena, ou por nada mais além do amor. Eu te amo, e vou estar com você até o momento que você me pedir, de coração, para que eu a deixe. Teus problemas, tuas dores, isso tudo faz parte de mim agora. Não adianta mandar eu ir embora da boca pra fora, quando tudo o que seu coração quer é estar do meu lado. Eu não sei o que você pretende fazer daqui por diante, mas eu vou estar do seu lado, será bem mais fácil se você entender isso de uma vez por todas.
Lex me puxou e me beijou. Eu também não sabia o que seria dali pra frente, o que aconteceria. De uma coisa eu tinha certeza, eu estava sem nenhuma presa. Ficamos ali sentados olhando para o jardim daquele lugar que, dias antes, havia sido meu inferno.