O Segredo de Sarah

Cláudia Sátiro · Capítulo 5 de 15

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O Segredo de Sarah

Capítulo Quatro

 

O som do sino para acordar as atrasadas soou alto, e eu era uma delas. Cinco minutos de atraso. Eu poderia esperar que teria castigo. Já havia se passado quase dois meses desde o dia em que tinha começado as aulas, e a rotina estava me matando. Eu tentava ter disposição, mas cada vez estava mais difícil, e naquela semana estávamos entrando em jejum. Fazia dois dias que eu não comia. No convento era fácil manter o jejum, mas na escola, a tentação era demais. Como eu havia prometido a mim mesma, eu viveria as duas vidas me doando de verdade às duas. No convento, as coisas não mudavam, todos os dias eram do mesmo jeito, como se você lesse o mesmo livro sempre. Todos os dias eram iguais, exceto os domingos, em que assistíamos à Missa do Canto e víamos nossos parentes. Os demais dias eram sempre cinzas. Mas eu me sentia muito perto de Deus ali, não sei se pelo silêncio, pela paz ou simplesmente por buscá-Lo. Eu conversava com Ele por horas às vezes, e acredite, eu O sentia — e sinto — tão perto, que me energiza e eu consigo seguir.

A escola tinha novidades a todo segundo. Eram turmas novas que se formavam, alunos novos que chegavam, eventos dançantes, pessoas dançando no estacionamento, em carros com som alto nas praças, havia risos e passos novos, havia festas e muita música, e tinha a Linda, que sempre me abraçava e me tratava como uma filha. Eu evitava falar dos jejuns e trabalhos para ela, não seria bom se ela tentasse me tirar de lá. Enfim, era um sabor diferente todas as noites, e eu amava aquilo. Mesmo que eu estivesse cansada e com fome, aquilo me renovava, dava sentido a tudo. Eu tinha amigos, eles admiravam meu talento, me aplaudiam, alguns me pediam dicas, outros me davam, era uma salada de frutas deliciosa que eu comia um pouco toda a noite, e isso me dava forca pra aguentar os jejuns e trabalho.

Quanto ao Lex, eu não mais o havia visto.

Lidia exigiu que eu contasse tudo para ela, e se surpreendeu ao saber que eu havia conhecido o Vicente. Vicente, com o passar do tempo, acabou se tornando nosso amigo e vivia para cima e para baixo com a gente. Diferentemente do que Lex havia falado, Vicente era alegre, falante, dançava como ninguém, criava passos novos com muita facilidade, e estava sempre disposto a ajudar. Ele tinha a agilidade de um gato e a beleza também, mas era nítida nele a vontade de quebrar as regras. Era um perigo. Lidia também não entendeu por que eu havia falado para o Lex que queria beijá-lo, mas eu nunca havia tido um relacionamento e não sabia das regras.

O sino soou de novo, era a terceira vez, meu castigo só aumentava. Irmã Gloria adentrou com seu sorriso esticado, como se tudo aquilo fosse bom e fez sinal para que eu a seguisse. Caminhamos até o banheiro, então ela ligou aquela ducha fria. O tempo estava quente, e o banho foi até agradável, mas era um castigo, e isso tornou tudo muito agressivo. Trabalhei o resto do dia nas hortas. O dia todo sem comer, debaixo daquele sol fervente, e eu só pensava na ducha fria daquela manhã.

Ao voltar para meu quarto naquela noite, deparei-me com a Madre sentada em minha cama. Ela tinha nas mãos um saco com milho. Estava serena e fria.

— A noite toda aqui, neste milho, diante do altar, será esse seu castigo.

Ela espalhou o milho pelo chão e deixou o quarto.

Eu me sentia fraca, meu corpo já estava lento, mal reagia aos meus comandos, seria melhor terminar o jejum ali, até que eu não suportasse mais. Por outro lado, sair me fascinava, me dava forças para voltar ao castelo. Fiquei um bom tempo só olhando o milho no chão e imaginando o quanto da minha dignidade ele tiraria.

Deixei o quarto vinte minutos depois.

Ao chegarmos no campus, fomos para nosso dormitório. Lidia já estava arrumada, foi para aula, eu fiquei ali, por segundos debaixo daquela ducha quente e forte. Era muito bom. Eu evitava usar qualquer tipo de cheiro, apenas sabão.

Cheguei atrasadíssima na aula, entrei correndo na sala e todos me olharam, inclusive Lex que, naquela noite, estava substituindo um dos professores. Aqueles olhares foram desoladores, fizeram eu me sentir pesada e, de alguma forma, conseguiram piorar aquele dia — ou noite — eu já não sabia mais. Naquele ponto, eu sentia como se estivesse vivendo dois dias em um só, mas só tinha metade de uma noite para aquilo. Eu poderia suportar? Sim, mas era dolorido.

Entrei na sala meio, sei lá, cismada. Não sei por que motivo, mais Lex nada falou. Lidia não estava naquela aula, e isso pesou ainda mais, pois não teria ninguém para me dar um sorriso amigável mesmo que escondido.

Lex deu continuidade à aula. Já havia escutado que ele era um dos melhores dançarinos que a escola havia formado. Não aquela, mas uma filial em Santa Monica, nos Estados Unidos, mas ele havia se destacado mesmo cuidando dos negócios da família. Logo depois que seu pai, Janio Lambertini, foi sequestrado no Rio, tendo um dos dedos arrancados pelos sequestradores, mudou-se para Santa Mônica e começou a se recusar a sair de casa, tinha fortes crises de depressão e pânico.

Lex era o segundo filho de três. Depois dele, vinha Erica, e antes dele vinha Jonas, que havia morrido em um acidente de carro com a mulher e deixado dois filhos. Uma família marcada por tragédias. Porém Lex e Erica alavancaram os negócios da família e, além de dezesseis filiais, tinha também duas fabricas brasileira de sapatos e roupas para dança. Lex deveria ter entre vinte e nove e trinta e um anos, mas sobre ele tudo era muito misterioso. Ninguém sabia se era casado ou tinha filhos ou o que ele fazia da vida pessoal.

Terminei meu alongamento olhando para ele. Ele não me olhou uma única vez, caminhei firmemente até os demais alunos e comecei a fazer os exercícios mandados. Lex não dançava, apenas indicava com o os braços, do canto da sala, como deveríamos fazer. Eu seguia à risca tudo que ele falava, mas aquela pirueta foi demais. Senti quando saltei, mas até hoje não sei como retornei ao chão.

Quando me dei conta, estava na sala de aula, Lex escorava minha cabeça em seus braços e dava leves tapinhas em meu rosto. Ele falava coisas como “acorda”, “por favor, Sarah”, “olha pra mim”, “tá me ouvindo?”. Fiquei por alguns segundos apenas ouvindo o que ele dizia. Quando recuperei meus sentidos, pude perceber o clima tenso de todos na sala, eles cochichavam entre si, Lex parecia demasiadamente preocupado.

— Você está bem? — perguntou quase em meu ouvido

— Acho que sim — respondi

— Vou tirar você daqui. Consegue andar? — perguntou ele. — Vocês estão dispensados por hora — concluiu, dirigindo-se ao resto da turma.

Saí ainda sem saber direito das coisas, meio zonza, meio aérea, meio louca, meio eu. Na verdade, meio era o que me resumia.

Por um tempo longo demais, eu vivi apenas metade.

Lex me levou direto para a cantina do campus. Se algum dia eu me esquecer de todas as coisas, tenho certeza de que o cheiro daquele lugar vai permanecer em mim. Cheirava comida e, naquele momento, comida era vida pra mim. Lex me deixou em um canto afastado e saiu. Trouxe consigo dois lanches de frango e dois sucos de acerola, colocou em minha frente e nada falou. Eu não podia comer, eu estava em jejum, era pecado comer. Se alguém no mundo soubesse que eu estava em jejum por conta do meu voto no convento me entenderia, e até se solidarizaria com minha situação. Mas eu era também uma dançarina, e estava sem comer, a ponta de ter chegado a desmaiar, e aquilo era muito sério. — Você acha que isso tá certo?

— Isso o quê? Não entendi.

— Por favor, Sarah, sem infantilidades. Você já é magra o suficiente pra passar em uma garrafa, jura que você ainda tem problemas com comida?

— Eu preciso ir pra casa, Alexandro.

— Come!

Então percebi que não iria sair dali sem comer, porque ele insistiria, ele iria atrás de mim, ele procuraria meus pais, ele iria me perseguir. Seria mais fácil eu comer, para ele não pensar que eu tinha algum distúrbio. Depois eu contaria à Madre que comi e receberia o castigo. Comi aquele sanduíche, e foi a melhor coisa que comi em anos. Tinha tempero e era incrivelmente saboroso. Tudo que no convento não tinha. O suco era bom e tinha gosto de suco, por um tempo, comi em silêncio, e depois comi o dele também. Ele quase que sorriu. Mas “quase” nunca será um sorriso.

— Quer dar uma volta?

— Pode ser...

Andamos pela cidade, paramos em uma praça pequena, mas muito aconchegante, com flores pequenas e brancas, uma fonte colorida, banquinhos rústicos feito com sobras de madeiras, hortas plantadas em pneus, tudo muito mimoso e único.

Lex me olhava com seriedade. Ele ainda estava com as roupas largas de dança, e isso o deixava muito gato. Não usava sapatos, e sim chinelos. Parecia certo estar ali com ele e, hoje, percebo que era.

— Você está bem?

— Acho que comi demais.

— Vai vomitar?

— Não.

— Você está com problemas, Sarah, precisa de ajuda. — Eu não teria como desmentir, ele continuou: — Eu sei que a pressão é grande, mas você está ótima, fisicamente falando.

— Mentalmente sou perturbada. — Ele se retraiu, e então me lembrei de seu pai. — Desculpa, é que talvez eu tenha colocado muito peso em minhas costas, minha cabeça está ruim, eu ando querendo muito da vida, quero demais.

— Você é muito menina, Sarah.

— Você se acha o velho.

— Talvez eu seja velho demais pra minha idade.

— Então somos dois.

Ficamos ali parados por um tempo, esperando as ideias se juntarem, se organizarem.

— Sabe, Alexandro, quando eu era pequena, eu ficava imaginando o dia que eu realizaria meu sonho. Eu sonhava descer as cataratas de Foz do Iguaçu igual o Pica Pau em um barril de madeira. Então quando me tornei mais velha, percebi que isso era impossível. Depois, quis ser uma líder que teria um Príncipe Azul igual a Milly de Chiquititas; logo mais, quis morar em uma terra distante e ter um super cachorro igual o Finn e o Jack; lá na frente, eu quis ser uma heroína charmosa e forte como a Tracy Whitney, como o primeiro livro que li. Foi quando conheci a dança, e ela era real, não era um desenho, nem série, nem livro. Eu já estava vivendo, não era um sonho. Não vou deixar que a dança saia da minha vida, nem que pra isso eu me anule. Eu viverei a dança.

Ele me olhou meio sem saber o que falar

— Você pode viver a dança sem se matar, não precisa se sacrificar tanto.

— Você não tem ideia do que diz.

— Desculpa se eu penso que ficar sem comer é errado.

Olhei para ele irritada, levantei-me do banco e, brava, disse:

— Desculpa, mas você não me conhece e, sinceramente, o que você pensa não me importa.

— Terei que contar para seus pais...

Ele me olhou com deboche. Juro.

Fiquei aterrorizada só de imaginar meus pais sabendo de tudo aquilo. Ele percebeu. Eu sentir muito ódio dele naquele dia. Esse negócio de gostar de alguém pode pôr tudo a perder, não que eu gostasse dele. Sentei-me novamente, respirei fundo, um pânico começou a me consumir, eu estava prestes a ter uma crise de pânico e ele percebeu.

— Calma, não entre em pânico. Eu não vou falar com seus pais, está tudo bem. — Parou de falar por um minuto, segurou minhas mãos, e continuou em tom baixo. — Só não fica sem comer novamente, por favor.

Não sei se pela proximidade, ou horário, mas ele deu um pulo do banco e me estendeu as mãos.

— Vamos, tenho que voltar.

— Pode ir, logo mais eu vou, o ar aqui está bom...

— Tem certeza?

— Sim.

Lex não deu quatro passos e voltou. Estava sorrindo. Era bom vê-lo sorrir. Sorrir para ele também.

— Eu não vou conseguir deixar você aqui sozinha. Deixa eu levar você para o dormitório?

Eu ia dizer não, mas devido àquele sorriso, achei melhor aceitar. Saímos caminhando em silêncio, eu estava me acostumando com sua presença.

Cheguei cedo no castelo aquele dia, era pouco mais que nove. Entrei no quarto e me sentei na cama, fiquei por um tempo lembrando daquelas poucas horas que saí. Era estranho o quanto Lex me fazia bem, sentia-me leve perto dele. Era quase uma mágica.

Levantei-me ainda pensando nele, então me ajoelhei nos grãos de milho e me pus a rezar.