O Segredo de Sarah
Capítulo Um
Eu precisava encontrar um ponto inicial para começar a contar minha história, não posso contar do dia que nasci, porque não são minhas as lembranças, mesmo sabendo que todas as coisas começam no ventre, mas para mim começou naquela noite, e é por ela que vou começar.
Meu nome é Sarah Barelli Delgado, tenho vinte e um anos de idade, mas naquela noite, eu estava completando dezoito. Hoje eu consigo entender melhor por que meu coração batia tão acelerado naquela noite: ele já sabia tudo o que estava por vir.
Eu olhei mais uma vez para o relógio na parede. A cada segundo que passava, eu ficava mais atrasada. Meus pais mudaram, pela primeira vez em anos, a rotina da casa, e minha mãe resolveu cantar às nove da noite. Para dor e desespero do meu coração que se encontrava aflito, a casa não estava em silêncio, mesmo assim eu o ouvia, eu ouvia meu coração me dizer que aquele seria o dia de mudanças em minha vida; ou melhor, à noite. Eu conseguia até sentir a onda de adrenalina entrar no meu quarto passando pelos conhecidos móveis cor-de-rosa, e levando para longe aquelas fortes lembranças infantis.
Eu nem me dei conta de que estava sentada no chão do meu quarto havia quase uma hora. Eu tentava odiar aquele quarto, mas no fundo eu o amava. Foi lá que passei dezoito anos de minha vida, alguns dias tristes ou dolorosos, porque a dor e a tristeza são coisas diferentes; já me senti completamente feliz ainda que uma dor cortante machucasse meu corpo, mas já deixei a tristeza entrar em mim, mesmo não sentindo nenhum tipo de dor.
Eu não escolhi a vida que eu tinha, muito mesmo a decoração do quarto. A cama cor-de-rosa com dossel de princesa, a penteadeira rosa-pink com flores coloridas, o tapete branco felpudo que me impedia de sentir o chão, assim como todo o resto, as cortinas, o closet, o banheiro. Tudo incrivelmente diferente de mim e tão meu, a infância cuidadosa que meus bons pais me haviam dado, a infância sufocante que eles me haviam obrigado a ter.
Aquela noite não deveria ser tão diferente das outras. Como sempre, meus pais serviriam o jantar às sete horas pontualmente. A mesa estaria, como sempre, impecável; a conversa se resumiria a assuntos da igreja; e minha mãe seria a mais falante, ela falaria das honras que a igreja lhe concedia por ser tão generosa para com pessoas menos favorecidas. Após o jantar, em nossos quartos, às nove horas, o murmúrio das orações deveria selar o silêncio da noite, e era esse o silêncio que eu tanto esperava para começar a dar asas ao meu sofrido coração, mas naquela importante noite, talvez por graça do destino, minha mãe serviu o jantar mais tarde e, após o jantar, quis a família reunida na sala para celebrar o fato de estarmos juntos e, somente às dez horas da noite, recebi permissão para subir para meu quarto. Ainda assim, minha mãe continuou a cantar no cômodo ao lado, dificultando o meu silencioso grito de liberdade, se isso é possível.
Por fim, às dez e quarenta, o silêncio tomou conta da casa, então, como sempre, corri para minha cama e esperei a visita da minha mãe, que beijou meu o rosto e me desejou boa noite, deixando-me sozinha no escuro do quarto. A parte mais difícil da minha rotina noturna era conter a euforia. Então, tentando me manter calma, eu descia da cama e abria a janela, descia com cuidado pelo canto do telhado até chegar na árvore do jardim; lá, eu subia na árvore e descia para o chão. Lidia quase sempre já me esperava do outro lado da rua no carro verde do seu pai. Você pode perguntar: “Por que tudo isso para sair de casa?”. Eu vou contar, antes, porém, vou falar sobre Lidia e sobre o motivo de toda euforia
Mesmo contra a vontade dos meus pais, Lidia, a loira curiosa da escola, insistiu tanto, que conseguiu criar comigo uma grande amizade. Conheci Lidia na terceira série do Ensino Fundamental, quando ela ainda usava chuquinhas e brilho com glitter; hoje ela tem seios fartos e para o trânsito com o tamanho de sua beleza; e continuo sem entender por que ela quis tanto ser minha amiga. Mas eu não reclamo, só agradeço a Deus aquele anjo em minha vida. Como em toda cidade pequena, estudávamos na mesma escola. Ela, como já mencionei, é loira, bonita, tem cabelos longos e rosto bem desenhado, além de uma boa educação. Em minha escola não tinha essa coisa de popular ou não popular, mas se tivesse, ela seria uma popular. Quem não conhecia Lidia Ferraz, ou quem não queria ser amiga dela? Diferente dela, eu não tinha permissão para ter amigos. Meus pais diziam que crianças tinham péssimos hábitos e muitas bactérias, e eu jamais vou esquecer a cara de bactéria da minha mãe, então eu ficava longe daquelas crianças e suas bactérias, e elas ficavam longe de mim e dos meus T.O.C.s. Não me importava muito, eu tinha tudo que o dinheiro podia comprar, era a mais rica da escola. No entanto, aquela menina desbotada de cabelos escorridos e boca cor-de-rosa insistia em passar suas bactérias para mim. Ela insistia em dividir seu lanche, em me convidar para estudarmos juntas, ela me seguia na biblioteca, e se sentava perto de mim nas aulas. Eu não lhe dava a mínima, ignorar era algo que eu amava fazer. Mas na quarta série, eu me vi obrigada a falar com ela. Era quase o final do ano letivo, e havia uma coisa que queria muito e o meu dinheiro não podia comprar, nem minha mania de ignorar. Mas a Lidia, como líder da sala e representante escolar, podia, então eu a procurei e, sem rodeios, falei:
— Quero fazer parte da peça de fim de ano da escola, posso?
Lidia conseguiu um papel importante para mim. Como? Não sei. Ela me ajudou nos ensaios e nas fantasias, foi a primeira vez que pude contar com alguém que não fossem meus pais ou as empregadas de casa, e foi muito bom. A menina era demais: alegre e divertida. Mais uma vez, quero explicar que, para mim, essas duas palavras têm diferenças. Uma pessoa alegre está sempre de bem com a vida e vive feliz; uma pessoa divertida nem sempre é feliz, mas sempre consegue fazer as outras pessoas felizes. Lidia me fazia feliz. Ela conseguia fazer mil coisas, e sempre ser gentil com as pessoas. No começo, eu até pensei que ela era retardada, mas não, ela só era uma garota legal.
Ela, assim como eu, não havia nascido em Realengo. Seus pais se mudaram para lá quando ela era pequena, e se tornaram donos do mais popular mercado da cidade, o que não queria dizer muito, porque mercado de cidade pequena nunca chega a ser um Wal-Mart da vida, mas era útil. A mãe dela, não sei por quê, me lembrava uma joaninha verde e desengonçada; e seu pai parecia um naturalista louco, barbudo, magro e de incríveis olhos verdes, um bom homem. Ela tinha a família que eu sempre quis.
A Lidia tinha uma criação diferente da minha, ela podia ir onde quisesse, ter amigos, frequentar suas casas, ir em passeios. Ela tinha a infância que eu tinha nos meus sonhos, e era incrível. Quando ela chegava de um passeio, da praia por exemplo, ela perdia todo o intervalo da aula me contando como tinha sido, e eu conseguia, através de seus olhos, saber como era estar lá. Era assim quando éramos crianças, é assim até hoje.
Mas nossa amizade mal havia se formado, e já começava a passar por situações complicadas a primeira delas foi no grande dia, o dia da peça.
Eu era a bailarina do soldadinho de chumbo, vestia uma linda roupa de balé cor-de-rosa. Eu estava radiante, havia tempos não sentia dor, a não ser pelos ensaios da peça nos intervalos. Eu aprendi um pouco sobre balé e me apaixonei por aquela dança, então, às escondidas, eu comecei a comprar fitas cassetes de aulas de dança e, toda noite, após meus pais irem dormir, eu ensaiava por horas, e aqueles ensaios me deram muitas roxas e calos em meus pés, o que me fazia sentir dor quando eu ficava nas pontas dos pés, mas era uma dor incrivelmente bem-vinda, era a dor da minha primeira paixão, simples assim.
Bem, como eu já sabia o que meus pais pensavam sobre grupo, projeto de escola e todas essas baboseiras, eu resolvi não contar sobre minha participação na peça, e muito menos sobre minha paixão por dança. Enfim, foi uma surpresa para eles, e todos souberam disso quando meu pai subiu no palco e me puxou pelo braço dizendo palavras ofensivas para a professora e para a Lidia que chorou no canto do palco. Um verdadeiro show. Chorei tanto aquele dia... Foi a primeira vez que eu quis morrer.
Enfim, depois daquele episódio fatídico, a Lidia se superou e me encantou quando me procurou.
— Você ainda quer ser minha amiga?
— Você tem problemas, Lidia. — Rimos muito
Ela conseguiu aulas escondidas durante a noite para mim. Eu, ela e João fazíamos balé às dez horas da noite, três vezes por semana. Eu, por não ter permissão; a Lidia para me acompanhar; e o João por vergonha dos amigos. Nossa professora era a mesma que havia nos ajudado nos ensaios. Foram anos aprendendo com ela, não só aprendemos a dançar, como amadurecemos e nos tornamos fortes, e com o término das aulas, havia chegado a hora de cada um seguir um destino. E esse destino seria decidido naquela noite, a noite que mudou minha vida.
***
A Lidia me olhou de dentro do carro, estava estranha, como se eu estivesse vestindo algo que ela nunca tinha visto. Eu sempre vestia vestidos longos, meus pais gostavam. Eu também gostava e, além do mais, eu parecia mais alta com eles. Já a Lidia sempre estava impecável. Parecia uma das minhas bonecas Barbie. Às vezes eu sentia um pouco de inveja dela, não por eu ser feia, porque nunca fui feia. Desde meus doze anos tenho cabelos longos, são pretos e lisos, eu sou magra e meus olhos são negros, minha pele é clara, sou alta — não como uma modelo. Tudo bem! Sou bem mais baixa do que eu gostaria, mas sou bonita. A inveja que eu tinha dela era do seu jeito “a vida sempre vai dar certo”, e acho que, por ela pensar assim, a vida sempre dava certo pra ela.
— Você está atrasada, Sarah — disse ela baixinho, como se meus pais pudessem escutá-la do outro lado da rua no andar de cima da casa.
— Meus pais demoraram no jantar hoje, desculpa
Entrei no carro e partimos para a rua da praça onde ficava a casa onde a professora Linda nos dava aula. No caminho, conversei pouco com Lidia. Estávamos preocupadas e sem saber o que seria da gente dali para frente. Paramos nos fundos da prefeitura como de costume; João nos esperava com sua calça costumeira jeans desbotada. Acho que ele devia ter centenas de calças jeans desbotadas, mas, lindo como ele era, com aquele corpo magro e aqueles cabelos loiro-avermelhados, até um uniforme de gari lhe cairia bem.
Por ser uma cidade pequena, e a prefeitura ser mais afastada do centro, a rua estava deserta, a não ser pelo grupo de rapazes que andava de skate na calçada branca da prefeitura. Mas eles não me importavam. Andamos apressadamente até o João. Ele sorriu o sorriso mais lindo que alguém poderia dar. Acho que aquela noite também foi de realizações para o João, e só bem mais tarde eu fui descobrir isso. É uma pena! Eu poderia ter devolvido o sorriso lindo que ele me havia dado aquela noite, mas ao contrário disso, eu apenas passei por ele rapidamente com Lidia no meu calcanhar, e gritamos seu nome.
— Vamos, João, não fique aí parado igual um bobão — falamos em uníssono.
Linda estava sentada à mesa com alguns papéis nas mãos. O rosto sereno parecia preocupado. Linda tinha os cabelos lisos e curtos acima dos ombros, era alta e magra, os olhos eram verde-esmeralda. Ela sempre estava de roupas de balé, acho que a única vez que a vi de jeans e camiseta foi no mercado, de longe, e ela continuava perfeita. Era viúva e não tinha filhos. Sempre dançou. Era bailarina profissional, mas se machucou e resolveu ensinar o que sabia, ela não só nos ensinava balé, ela ensinava tudo. Eu sabia que não iríamos dançar naquela noite, então nos sentamos à mesa juntamente com Linda, e esperamos paciente — ou melhor, impacientemente — ela nos dizer como seria dali para frente.
A casa dela era bonita e grande demais para uma pessoa sozinha, o piso de madeira brilhava refletindo as cortinas brancas e os enormes sofás brancos com almofadas bordadas. Ela tinha uma academia perto da escola em que dava aulas havia anos, mas em minha condição, não haveria a mínima chance de ter aulas lá. Mas hoje posso dizer que divino ela ter aceitado abrir a porta de sua casa para nos dar aulas porque, com isso, criou um laço muito forte entre a gente.
— Vocês foram aceitos — disse ela, assim mesmo, sem meias palavras.
— Eu não sei o que eu faço com tanto orgulho, a Instituição Lambertini a melhor escola que existe no Brasil, ela aceitou vocês três.
Sua voz ficou trêmula por alguns instantes, então percebemos que ela chorava. Foram aquelas lágrimas que quebraram o clima ruim da noite, trouxeram a alegria de volta. Eram lágrimas de felicidade pelo dever cumprido. Estávamos felizes, ainda que um pouco perdidas e preocupadas. Abraçamo-nos todos. Ela chorava e sorria, nós também, então Lidia começou a falar:
— Bem, o ano letivo lá começa em dois meses, está quase tudo pronto, falta apenas você confirmar, Sarah.
De certa forma, eu sabia que a pressão maior estava em cima de mim, porque Lidia e João eram livres, eu era a presa da história, eu tinha problemas. Bem, o plano em prática seria bem fácil.
Havia alguns dias que tínhamos decidido entrar na Instituição Lambertini. Ela ficava a uma distância razoável de Realengo e era bem conceituada. De lá, já havia saído uma primeira bailarina, além de corpo de balé para companhias famosas ou grandes cantores em suas turnês; enfim, um sonho que eu queria, a Lidia queria e o João queria, além de a Linda querer por nós três.
Eu queria, mesmo sabendo o quanto meus pais me prendiam e tendo certeza de que eles nunca me deixariam fazer um ato tão insano como ir para uma outra cidade e dançar. Lógico que você se pergunta, “mas sendo você maior de dezoito, por que apenas não pega suas coisas e vai?”. Por três simples motivos: o primeiro, porque sem a ajuda de custo dos meus pais, eu não teria como pagar as aulas, nem uniformes ou material escolar; segundo motivo, meu pai era muito influente, um médico cirurgião famoso na região e, com certeza, se ele pedisse, o dono da escola não me aceitaria; e o terceiro, porém mais importante, eu amava meus pais, o carinho com o qual eles cuidavam de mim, o amor em me criar, me darem tudo e sempre procurarem me ver bem, por esse motivo eu não aceitaria dar um desgosto tão grande para eles e correr o risco de perder aquele amor. Não sei bem como me sentia na época, mas aquilo parecia ser o certo a se fazer.
Então pedi para minha mãe me pôr em um convento, eu e a Lidia pesquisamos e descobrimos que existia um convento a cinquenta quilômetros da escola de dança, ficava afastado da cidade como se fosse em uma fazenda. Eu sabia que a vida no convento não seria fácil, eu não teria as coisas boas que tinha em minha casa, eu também sabia das intenções de meus pais, ele nunca me deixaria sair de casa, ele dizia que eu tinha dinheiro suficiente para viver a vida sem fazer nada para sempre. Não foi surpresa quando meus pais permitiram a minha partida para o convento senhorinhas. Nunca conheci pessoas tão religiosas como meus pais, eles pareciam ter uma dívida grande com Deus, mas a verdade é que todos nós temos, não é mesmo?
Meu pai providenciou tudo e, sem muito trabalho, minha aceitação no convento foi total. Eles souberam disso naquela noite também, mas resolveram me contar só pela manhã, quando uma das freiras foi me visitar. A freira em questão se chamava Shirley, ou Irmã Graça, ela era pequena e atarracada, tinha os olhos acinzentados e grandes, a pele pálida, e o resto era pano da longa túnica preta que ela usava, ela tinha uma ar gentil e meigo, suas mãos macias seguraram as minha com firmeza, e o toque foi muito suave. Naquele dia, em minha casa, ela me disse:
— É uma decisão muito importante essa que você tomou, você terá mais responsabilidade que as jovens de sua idade, você passará a ser um exemplo, o seu isolamento do mundo será revertido em orações para a sociedade, você não saberá, mas suas noites de oração e jejum em um convento salvarão muitas vidas, minha moça, você está a serviço de Deus.
E ela continuou a falar, confesso que me desliguei do mundo, eu nunca quis brincar com Deus, na verdade, eu tenho muita fé Nele para fazer isso, confesso que naquele momento eu pensei em jogar tudo para o ar e dizer a verdade para minha mãe, ou simplesmente desistir do convento e do sonho de ser uma primeira bailarina. Eu acho que foi só naquele momento que me dei conta da gravidade do que eu estava prestes a fazer, mas algo em mim não queria parar, eu não podia desistir de tudo, então decidi levar as duas coisas a sério. Eu iria me esforçar para ser uma ótima bailarina, a melhor, e eu também iria dar o melhor de mim para ser uma ótima freira. Eu me dedicaria, seguiria todas a as regras, ou quase todas, e seria pura, uma moça pura de corpo e alma. Dançar não seria um pecado se meu corpo fosse puro. Voltei à realidade a tempo de ouvir a Irmã Graça dizer algo sobre o dia de ir.
— Você deve partir o mais breve possível, não espere mais que duas semanas para se apresentar para a Madre Superiora no convento. Estamos ansiosas para ter você como uma de nossas irmãs.
Assim, dando mais alguns conselhos e deixando algumas coisas para serem feitas, a Irmã Graça deixou minha casa. Às vezes você conhece pessoas e, pelo pouco que se identifica com elas, não imagina o quanto podem influenciar positivamente ou negativamente sua vida. Foi o que aconteceu com Irmã Graça, quando eu a conheci, não imaginei que ela seria uma peça tão importante do jogo que estava se tornando a minha vida, talvez naquele momento eu só tivesse sentido medo das coisas que ela falava, porque parecia ser tudo tão errado.
Duas semanas se passaram, eu não vi a Lidia nesse tempo, tudo o que tínhamos para fazer já havia sido combinado, então, o que eu fiz foi imaginar como seria minha vida dali para frente. Eu não sabia que teria que enfrentar as coisas que hoje enfrento, eu apenas imaginei que viveria duas vidas, sendo uma delas uma mentira para agradar meus pais, e a outra uma mentira para agradar a mim mesma, nenhuma dessas vidas era real.
Eu poderia escolher uma delas. Em uma, eu passaria a viver o que eu poderia sentir se fosse livre, que seria ir para uma boa escola de dança, me aperfeiçoar, ter amigos, namorar e quem sabe, até me casar e ter filhos, ou seguir o mundo dançando e espalhando alegria com a arte. Na outra, eu saberia o que seria viver se fosse a filha obediente e certinha que meus pais imaginavam, passando toda a vida fazendo caridades e me doando para um convento, fazendo curtíssimas visitas a eles e propagando a felicidade através da religião. No entanto, eu escolhi viver metade das duas, e eu nunca vou me arrepender disso.
A saída de casa foi silenciosa, cheguei a pensar que ela já era esperada. Minha mãe havia acordado ainda mais cedo naquele domingo, era por volta das cinco, e eu já conseguia ouvir o barulho da sua voz vindo da cozinha. Quando desci para tomar café, ela estava sentada em um dos bancos perto do gigantesco balcão de Corian branco. Minha mãe adorava aquela cozinha, uma enorme cozinha nas cores branco e preto, eletrodomésticos de última geração, sem dúvida uma elegante cozinha, mas cozinhar que é bom nunca foi seu forte, a generosa Maria se encarregava disso. Minha mãe passava muito do seu tempo ali com seus elegantes terninhos claros, ela nunca perdeu o hábito de usar roupas claras, mesmo tendo trabalhado poucas vezes em sua função, era médica como o meu pai. Nunca vi minha mãe com outro corte de cabelo que não fosse o Chanel curto e escuro perto do pescoço. Na verdade, tudo em minha mãe era igual havia muito tempo: o mesmo tipo de roupa, as mesmas unhas nude, o rosto pálido carregado de maquiagem, e o ar de uma fina dama da sociedade. Eu não havia herdado isso. Pensando bem, quando me olho no espelho, percebo que não herdei nada dela, o que é uma pena, eu tenho muito do meu pai, às vezes tento encontrar traços da personalidade dela em mim, mas para isso que teria que admitir o quanto sou teimosa, irritante, metódica, fria e exageradamente ciumenta, traços marcantes da personalidade dela. Mas eu nunca vou admitir isso.
Helena Barelli Delgado, minha mãe, nasceu em São Paulo, filha de italianos, ela sempre teve tudo, formou-se em medicina aos vinte e dois anos; aos vinte e três, se casou com meu pai; aos vinte e seis, engravidou; uma vida nada emocionante, pelo menos era nisso que eu acreditava.
Entrei na cozinha cantarolando uma canção de roda que estava encravada em minha mente. Não que eu estivesse feliz a ponto de ficar cantarolando pelos cantos da casa, mas não me sentia triste o suficiente para ficar em silêncio lamentando a vida. Dei um bom dia para minha mãe e um leve beijo na sua face, ela retribuiu com um sorriso doce e terno, fui até Maria que, rechonchuda, ocupava quase toda a pia; dei-lhe um beijo no rosto flácido e senti aquele conhecido cheiro de bolo de cenoura. Aquela mulher havia estado presente em todos os momentos da minha vida. Sentei-me de frente para minha mãe e comecei a me servir do café que, por sinal, estava muito bom naquela manhã. Eu esperava que tudo continuasse em silêncio, mas minha mãe começou uma conversa que só hoje consigo compreender com exatidão.
— Sabe, filha, eu não queria ter sido tão fria e distante de você. Se eu soubesse o que sei hoje, não teria tanto medo, eu vou sentir sua falta, mas eu já ensaiei tanto sua partida, que hoje não dói tanto, eu deixei de viver...
Minha mãe se levantou rapidamente e saiu da cozinha, ela não terminou a frase, a Maria ficou me olhando do canto sem muita surpresa, levei um tempo para assimilar tudo aquilo e entender que ela estava sofrendo muito.
— Sua mãe ama muito você, garotinha — disse Maria com meio sorriso
“Também amo muito ela, Maria”, pensei em dizer, mas permaneci em silêncio. O silêncio não é algo ruim, sabe? O problema do silêncio é que há um limite de tempo aceitável para se permanecer dentro dele, antes que ele comece a sufocar. Mas não é um perigo mortal. Quando ele te sufoca, é quando você grita tudo que está dentro de você, coisas com ou sem sentido. Já tive crises assim algumas vezes, eu chamo de crise do silêncio contido.
Terminei meu café e saí da cozinha sem pressa, minha coisas já estavam prontas, não era muita coisa o que se podia levar para o convento, “nada do mundo lá fora”, havia dito a irmã, e eu já sabia que meus poucos e pessoais pertences, como uma fotografia dos meus pais, documentos, coisas de higiene pessoal, passariam pela inspeção da Madre.
Mas eu tinha uma outra mala que estava com a Lidia, e nela estava toda a minha vida, todas minhas coisas de balé, meus livros da Sabrina e Bianca que, lógico, nunca levei para casa, meus CDs, meu único salto alto, minhas camisetas desbotadas com dizeres trágico sobre homens e gatos. Enquanto na mala de casa eu levava o silêncio, na outra mala estava todo o barulho do mundo.
Meu pai iria me levar ao meio-dia, e ainda não era nem sete da manhã. Resolvi dar uma caminhada pelo jardim, e essa caminhada se estendeu por toda a casa. O jardim de casa era enorme, com plantas, árvores e gramas, tinha uma piscina gigantesca que eu odiava, porque estava sempre vazia; a do meu vizinho, apesar de ser de lona e ter pés de metal, era cheia de felicidade e de pessoas. Eu me sentia tão presa e sufocada naquela mansão; tudo era tão regrado, que nem na casa dos fundos eu tinha permissão para ir. É claro que eu ia do mesmo jeito, eu brincava com a terra do gramado e caçava formigas nas árvores; minha mãe gritava, e minha doce Maria me limpava para que meus pais não descobrissem minhas traquinagens. Talvez um dia eu conte isso para meu pai, talvez não.
Encontrei seu Eraldo, o marido da Maria, um simpático senhor, perto ao canteiro de margaridas, ele sorriu para mim, eu acenei de volta. Eles moravam ali desde que me entendo como gente. Cultuavam um filho que morava na cidade grande havia muitos anos e que não dava a mínima pra eles; acho que o garoto tinha quase a idade do meu pai. Durante os meus dezoito anos eu o vi uma vez, uma visita em dezoito anos. Ele se arrependeria disso em algum momento, até por que, a Maria e Seu Eraldo já tinham uma boa idade. É uma pena quando os filhos abandonam os pais.
Além deles, na minha casa haviam mais duas moças, a Rute e a Angélica. Elas cuidavam da casa e, uma vez ou outra, vinha uma outra moça cuidar das roupas.
Olhando o tamanho daquela casa e daquele jardim, sem muros ou grades, ninguém poderia imaginar que uma pessoa poderia viver presa ali. Eu me lembro pouco de quando começou essa prisão, até por que, eu me acostumei rápido com ela; não sou o tipo de garota revoltada com a vida, apesar de tudo, nunca me voltei contra meus pais, pelo contrário, eu sempre fui grata por tudo, e tudo era muita coisa, pode acreditar. Eu não podia ter amigos, mas eu tinha um quarto enorme com todos os brinquedos que o dinheiro poderia comprar, o meu quarto de dormir, parecia ter saído de uma revista de arquitetura moderna, o mais lindo do mundo, meu closet era maior do que o quarto de muitas garotas, eu tinha todas as roupas que eu poderia vestir e todos os sapatos que conseguisse calçar à minha disposição e da minha mãe; haviam também dois carros e um motorista, o Carlos, tudo bem que eu não saía muito, além da escola e da igreja, não ia a outros lugares, mas eu sabia que estava à minha disposição. O que meu pai diria se soubesse que eu já sabia dirigir? Como? A Lidia, é claro!
Enfim, a minha vida era a que muitos queriam ter, menos eu, assim eu pensava. A mansão que eu chamava de casa era tão grande que eu nunca consegui ir em todos os cômodos, e acho que nem meus pais. Eram dois andares, as cores branca e verde-limão pintavam as elegantes paredes, havia longos sofás brancos na sala, e inúmeros quadros com desenhos diferentes, havia lustres de cristais e esculturas de mármore; em um canto mais reservado, havia uma mesa com retratos da família, fotos minhas de bebê, dos meus pais abraçados perto ao mar, dos meus avós, aquelas fotografias sempre me pareceram tão distantes da nossa realidade, até por que ninguém nunca nos visitava, o que era confortante quando você se acostuma com a solidão de uma família de três pessoas.
Lembro-me da minha avó materna ter ido em minha casa uma vez, ela teve uma briga tão feia com meus pais — com meu pai principalmente —, que eu imaginei que nunca mais ela voltaria a nos visitar. Eu estava certa. Aquela foi a última vez em que ela esteve na mansão. Eu devia ter seis anos na época. Ela se revoltou porque eu ainda não estava na escola. Lembro de ela dizer aos meus pais que aquele tipo de proteção era um absurdo, que eles não conseguiriam me esconder do mundo e dos perigos dele, meu pai ainda tentou argumentar dizendo que ele me ensinava tudo que eu precisava aprender, mas minha avó foi categórica em dizer que se eles não começassem a me tratar como uma criança de carne e osso e não de porcelana, ela iria me tomar deles. Bem, meu pai me levou para o quarto e continuou a conversa em particular com minha avó. No outro dia, ela me pediu desculpas e me falou sobre minha mãe não poder ter mais filhos e toda essa superproteção. Depois que ela se foi, meu pai me colocou na escola da cidade. Ele estabeleceu muitas regras para eu cumprir se eu quisesse continuar lá. Eu fiquei tão feliz com aquela ideia, que obedeci a todas, ou quase todas. Tirando a escola, o resto continuou do mesmo jeito.
Meu pai era bem mais rígido com as regras que minha mãe, ele queria obediência, sem mais palavras, ele nunca gritou comigo, mas as longas conversas sobre o que ele esperava de mim na biblioteca eram bem piores que qualquer surra. Quando pequena, ele brincava comigo e me dava apertados abraços, mas depois de uma certa idade, ele começou a se permitir apenas a me dar um beijo pela manhã e outro pela noite. Com o tempo, o mesmo aconteceu com minha mãe. Acho que com toda aquela vida de reclusão, meus pais se tornaram frios e antissociais.
Já era quase onze quando ouvi a voz do meu pai na porta da frente da casa, eu estava na inútil sala de visitas, nem me dei conta de como havia chegado ali. A voz do meu pai estava tensa, ele não parecia estar tendo um bom dia. Subi da sala para o meu quarto, achei melhor não o encontrá-lo antes de ir. Tomei um longo banho de banheira e coloquei um alegre vestido amarelo que descia até meus pés, eu estava me sentindo bem naquela manhã, minha pele estava com uma aparência saudável. Olhei-me no espelho eu me senti linda como havia muito tempo eu não me sentia. Desci levando uma pequena mochila, não havia ninguém na sala, fui para o jardim e meus pais estavam lá, perto ao carro, eles já me esperavam para partir. Como eu já disse, quem tanto me havia me privado do mundo, agora parecia não estar surpreso com minha partida.
Meu pai pegou minha mochila e colocou no banco de trás do carro, minha mãe correu em minha direção e me abraçou apertado, foi tudo tão rápido, que nem me dei conta quando meu pai ligou o motor e começou a se afastar da casa. Minha mãe havia dito que não poderia me acompanhar pois não gostava de despedidas e entrou em casa escondendo o rosto. Acho que ela chorou, mas como falei, foi tão rápido que não tenho certeza. Os duzentos e cinquenta quilômetros até o convento foram os mais longos da minha vida, meu pai não disse uma palavra, não olhou para mim uma única vez, teria sido melhor se o motorista tivesse me levado.
Ele sempre foi muito bom, generoso, gentil e solícito a todos que precisavam dele, mas mantinha uma certa distância de mim. Talvez eu tivesse adoecido minha mãe, sempre a achei com cara de depressiva; talvez ele tivesse raiva de mim, e eu o entendo por isso.
Gean Barreli estava com quarenta e cinco anos, era o homem mais bonito que eu já tinha visto na vida, era alto como eu sempre quis ser, tinha os olhos escuros como os meus, e seus cabelos lisos em alguma outra época já tinham sido escuros como os meus. Eu me parecia muito com ele, eu gostava de tanta coisa em meu pai, que até me esquecia que era dele que partia quase todas as privações. Aquele jeitão duro de ser, aquela pose de alta sociedade que eu tentava imitar na escola para minhas colegas de classe, mas eu era tão apagada na escola que, com o passar do tempo, ninguém, exceto a Lidia, me notava, por isso digo que, na personalidade, me pareço muito com minha mãe, mas eu ficava feliz em me parecer com ele fisicamente. Meu pai trabalhava em uma clínica particular realizando cirurgias plásticas. Vinha gente de muitos lugares para ser atendida por ele, e seu serviço era muito caro. Nos finais de semana e feriados, ele atendia voluntariamente no hospital da cidade. Ele fazia cirurgias de reparação e era muito requisitado. Passava muito pouco tempo em casa, eu e minha mãe já estávamos acostumadas a vê-lo apenas no jantar, e nisso ele era pontual, era raro ele se ausentar e, se isso acontecesse, ele ligava e explicava o motivo. Só uma emergência poderia fazê-lo não estar em casa durante a noite.
O relacionamento dele com minha mãe era como os livros de romance que eu lia escondido. Ele a idolatrava, tratava-a com muito amor, beijava suas mãos e acariciava seu rosto sempre que podia; minha mãe vivia uma solitária tristeza que só podia ser notada por quem enxergasse dentro dos seus olhos, e meu pai, de alguma forma, se culpava por isso. Foram muitas as vezes que ele a beijou e disse “me desculpa por não poder te amar mais, eu queria...”, minha mãe o interrompia quando percebia que eu estava olhando. Eu queria entendê-los, mas a minha vida já era triste demais para que eu me ocupasse com a tristeza da minha mãe.
Entramos na cidade de Vila Velha pouco depois das três horas da tarde. Aquela seria a cidade onde eu teria minha segunda vida. O lugar era muito charmoso, tinha muitas praças verdes com gigantescas fontes coloridas e casas pequenas de cores fortes. Assim como em Realengo, não tinha grandes construções, a não ser pelo grande prédio colorido de vidraças negras e um imenso campo verde que fez meus olhos arderem por não conseguir piscar. Era ela, a minha escola, a escola de dança. Foi amor à primeira vista, ou eu não sei bem descrever o que senti, só sei que foi muito bom. Tinha jovens saindo de lá, outros entrando, outros sentados no gramado, jovens pela praça, nos bares e restaurantes, havia muitos jovens nas ruas, parecia que a cidade havia parado no tempo e ninguém envelhecia mais, porque a cidade parecia velha e ultrapassada, mas as pessoas pareciam jovens e felizes. Eu fiquei deslumbrada, e então me dei conta que ainda estava no carro com meu pai, ele me olhava estranho, e eu tentava disfarçar a emoção, foi impossível, então eu chorei.