O Segredo de Sarah

Cláudia Sátiro · Capítulo 13 de 15

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O Segredo de Sarah

Capítulo Doze

 

Não existe um dia pior após o término de um amor. Todos os dias são do mesmo jeito, a dor não passa, o choro está ali, basta se entregar a ele, a saudade toma conta do peito te fazendo lembrar coisas que você tenta de todas as formas esquecer. Deixar um grande amor para trás é como escalar uma montanha sem nenhum preparo ou equipamento, você sabe que é quase impossível, mas você vai tentando, passo por passo, se obrigando a levantar mesmo quando está tudo doendo, então você olha para cima e percebe que, em algum momento, toda aquela dor vai passar, todo aquele sofrimento vai valer a pena, você vai se fortalecer e vai parar de olhar para trás.

Eu estava decidida que o Lex nunca mais faria parte da minha vida e mandava essa afirmação para meu coração, ao mesmo tempo que me passava um conforto por saber que eu estaria me livrando daquele sentimento de dor, aquela tristeza exacerbada. Eu sentia também uma dor maior ainda por saber que, em algum momento, quando tudo fosse esquecido e todos os sentimentos fossem enterrados, outra mulher tomaria meu lugar, ganharia os beijos que deveriam ser meus, os abraços, ela ocuparia meu lugar na vida e no coração de Lex, e o meu “para sempre” viraria pó.

Eu resolvi continuar da melhor forma possível, Lex era importante em minha vida, mas eu tinha que ser mais importante que ele. Entregar-me à solidão naquela altura do campeonato era uma perda grande de tempo, e eu nem sabia se tinha esse tempo.

Eu não podia ficar tentando consertar meu coração, o jeito era ir com ele quebrado mesmo.

Deixei a ONG de lado para me concentrar na dança noventa por cento do meu tempo. Os outros dez eu aplicava no meu corpo e em como ele tinha que estar para ganhar aquele concurso.

Não mais vi o Lex. Sem ligações, sem visitas. Nem mesmo na Lambertini eu o via. Ele tinha sumido. Isso não era ruim, porque, se eu não o visse, não sentiria vontade de estar com ele.

O concurso seria dali a dois meses, o grupo tinha que ser formado por mais de dez pessoas, tinha que ter balé clássico e um pouco do que as academias chamavam de moderno. Preparamos a coreografia exatamente em cima do que havia acontecido. Cada dia ficava ainda mais bonita e especial, me incomodava a parte que mencionava um grande amor na história, mas eu decidi não tirar. Deixei apenas as partes importantes e, por mérito, eu seria eu mesma no palco.

Os ensaios passaram de cansativos para exaustivos.

O concurso seria prático sem muitas etapas. Todos os grupos mandariam seus vídeos com o show para os organizadores, eles escolheriam os três melhores. Dez dias após essa escolha, os selecionados se apresentariam no palco de um grande teatro no Rio de Janeiro, dali sairia o grupo vencedor.

A produção do vídeo tinha que ser a melhor, em alta definição, com imagem e som perfeitos. Isso ficou por conta do João e seu namorado gato.

Lidia e mais seis das meninas que estavam em nosso grupo se empenhavam na maquiagem e no figurino, um outro grupo ficou por conta do cenário, e eu e Vicente ficamos com a coreografia. Claro que todos davam seus palpites e ajudavam em tudo o que podiam, mas organizando cada um em seu espaço seria mais fácil de ter a perfeição que Lidia tanto queria.

Linda nos ajudava em todos os detalhes.

Eu tentava não deixar tempo vago em minha vida, sempre que eu tentava ficar comigo mesma e descansar dos compromissos, Lex me enchia a cabeça e meus medos voltavam, então passei a dar todo meu tempo para o concurso e para a ONG, nesta ordem mesmo. Ia dormir às três da manhã exausta, então Lex não me visitava os sonhos. Acordava às cinco e já voltava à rotina. Pensar nele logo pela manhã me impedia de sorrir por todo o dia. Meus pais se preocupavam muito comigo, eles pediam para que eu fosse devagar, mas eu já estava grande demais até para os conselhos deles — assim eu pensava naquela época — eles não questionavam minhas escolhas quando eu as fazia, mas eu sabia que eles estavam contrariados com elas.

Dois meses depois que eu saí de casa, entrei com o pedido de divórcio.

Aquele dia eu não consegui sair do quarto, mas tudo bem, era só um dia.

Com a chegada do dia de gravar o vídeo, os ânimos estavam à flor da pele, já estava tudo muito bem esquematizado, estávamos prontos, aquele seria o último ensaio e, no dia seguinte, gravaríamos, e pronto, estaria nas mãos de Deus.

— Você está tão distante hoje — disse Lidia me acompanhando nos alongamentos.

— Impressão sua — respondi.

— Chamei você por três vezes antes de entrar na sala, e você não me escutou.

— Me perdoe, amiga, ando por aí com fone no ouvido escutando a música e tentando encontrar falhas em nossa coreografia, não pense mal.

— Lex renunciou à diretoria da escola e voltou para santa Monica, Erica voltou à direção hoje.

Aquilo não era bem o que eu queria ouvir, estar ali sem o Lex era como estar no deserto sem ninguém. Por vezes eu me pegava dançando, imaginando se ele estava me olhando de algum lugar, agora eu sabia que ele não estaria me olhando de lugar nenhum.

— Bom pra ele. Vamos ensaiar?

Aquele dia eu caí mais de seis vezes, Vicente gritava comigo, e eu não podia sequer questionar, eu estava pensando no Lex, a coreografia havia sumido da minha cabeça, eu não me recordava de um passo direito, não adiantava, eu não conseguiria ensaiar.

— Desculpa, eu estou muito ansiosa, vou fazer o vídeo direito amanhã, hoje eu não consigo mais.

— Sarah! — protestou Vicente.

— O quê? — falei grosseiramente.

Todos ficaram calados. Eles não estavam acostumados com aquela Sarah. Eu nunca falava alto, sempre estava tranquila, mas naquele dia eu estava longe demais de mim mesma.

Lidia saiu do seu lugar e me acompanhou antes que eu alcançasse a porta.

— Me desculpa, eu não deveria ter falado dele...

— Que bom que você sabe que a culpa é sua — interrompi e saí antes que ela dissesse mais alguma coisa.

Chorei por quase toda a noite. Só dormi quando imaginei o Lex deitado perto a mim na cama, eu o desejei tanto ali que senti seu abraço e então consegui dormir.

O dia amanheceu ensolarado, a sensação que o Lex estava ali me trazia uma paz e uma alegria muito grandes, foi então que percebi a Lidia em minha cama, ela estava agarrada a mim, segurava com força as minhas mãos, mesmo estando dormindo profundamente.

— Lidia... — chamei. Ela se assustou, abriu os olhos e se levantou rápido da minha cama. — Calma! — falei.

— Eu não quis dormir aí, me desculpa, ontem, quando entrei no quarto, você estava chorando. Eu não sabia o que fazer, você se encolhia na cama como se estivesse com frio, então eu te abracei e você dormiu, acho que dormi também.

— Me perdoa, amiga, não quis falar daquela forma com você, eu estava ferida.

— Eu sei, Sarah, eu vejo você se matando apenas para não pensar nele, por que você não o procura?

— Ele não merece o que eu tenho pra dar, ele merece muito mais que uma doente. Eu vou superar, um dia passa, só preciso ganhar esse concurso e me mudar daqui, e mesmo que eu não ganhe, vamos sair daqui, outro país, outras pessoas, outra vida.

— Tá bem, podemos fazer isso.

Lidia sorriu e nos abraçamos, estava tudo bem novamente, foi só um cisco no olho.

Gravar aquele vídeo tomou o dia todo, deu muito trabalho. Era o figurino que rasgava, o cenário que caía, alguns dos dançarinos com cãibras, uma das bailarinas chegou a vomitar no palco. Imprevistos. Costuramos a roupa, colamos o papel na parede e demos remédios aos enfermos. Aquele vídeo beiraria a perfeição na graça de Deus.

— Vai! — gritou o cameraman, um senhor baixinho com cheiro de naftalina.

A apresentação começava com três bailarinos entrando em uma escola de dança, e ninguém melhor que eu, Lidia e João para fazer. João não nos acompanhou no trajeto do convento, mas esteve com a gente em todo o início. Colocamos no palco tudo o que passamos nos últimos dias, a alegria de estar ali, o medo; retratamos o convento de uma forma artística que deixou muita gente atônita. Vicente era meu Lex no palco, ele não tinha aquela pegada que o Lex tinha ao dançar comigo, mas sempre foi um ótimo bailarino. A música latina que dançamos no primeiro dia foi o “quê” de moderno que colocamos em nossa apresentação. Fizemos um show para ninguém pôr defeito.

Acabamos tudo às nove horas da noite.

— Vamos comemorar — gritou João

— Isso! — concordamos.

Fomos para uma boate que ficava a umas três horas dali. Estávamos em cinco carros diferentes. Tivemos uma noite maravilhosa, dançamos na pista e deixamos ali todo resto de energia que ainda nos restava.

Não estávamos com roupas de festa, estávamos com roupas de dança, alguns de chinelos, não era algo planejado, era uma comemoração, algo natural, não esperávamos nada daquela noite além de dançarmos e sermos felizes.

Eu gostaria de dizer que esqueci o Lex enquanto estava ali dançando e brindado com vinho barato, mas em todos os momentos era com ele que eu queria estar. Ainda assim eu fui forte e dei meu melhor sorriso para curtir aquela noite.

Então chegou a hora de ir para casa, já era cinco horas da manhã. Os motoristas seriam aqueles que não haviam bebido: João, seu namorado, Brenda, Luiz e Mariana.

Entramos no carro que o João dirigia, eu, Lidia, Vicente, e Carol, uma outra bailarina.

As pessoas falam muito do álcool nas estradas, realmente é algo muito sério, mas existe também o sono, ele é tão traiçoeiro quanto. Naquela manhã, dentro daquele carro, eu acho que fui a primeira a dormir. Eu estava na frente, poderia ter distraído João para que ele não dormisse, poderia ter colocado o cinto dele não só o meu, eu poderia ter feito muitas coisas, mas eu apenas dormi. O cansaço de todos aqueles dias me derrubou.

A freada brusca me acordou. Quando notei, João já estava saindo da estrada a uma velocidade considerável. Tentava controlar e frear ao mesmo tempo, mas não conseguia. Os gritos dentro do carro tornavam tudo ainda mais difícil, foi então que veio o primeiro giro, o carro capotou duas vezes e parou nos canteiros longe da pista. Aquele minuto que se passa quando o carro bate é muito estranho para quem está dentro do carro, porque primeiro vem aquela gritaria e aquele barulho horrível, e do nada tudo se silencia. Acho que levei uns dois minutos para entender que estava viva e acordada. João estava com a metade do corpo para fora do carro, entre os estilhaços de vidro, o carro estava de cabeça para baixo, o que me fez demorar em arrancar o cinto, mas eu consegui. Os vidros do carro estavam todos quebrados, saí por uma das janelas.

Do lado de fora, dois dos outros carros pararam para nos ajudar. Ian correu para ajudar João que estava desacordado, eu me sentia um pouco tonta, mas sabia que tinha que ajudar.

— Vamos tirar todos do carro — gritei.

Atrás, só Carol não estava com o cinto. Ela havia sido arremessada para fora do carro; Lidia e Vicente estavam presos ao cinto, mas estavam desacordados. Aquilo parecia tão surreal, tão inacreditável.

Conseguimos tirar o Vicente e o João, faltava apenas a Lidia. O cinto havia enganchado e não tínhamos nada para cortar, foi uma correria muito grande.

— O carro vai explodir! — gritou alguém de longe.

— Não vamos deixar ela aqui! — respondi enquanto puxava com mais força o cinto.

— Vai explodir — gritaram de novo.

Neste instante, senti as mãos de alguém me puxarem. Olhei para trás e vi Ian, eu resisti, não podia deixar Lidia ali, ele me puxou com mais força. Já fora do carro, ele continuou me segurando para que eu não voltasse a entrar. Estávamos brigando, eu o estapeava, mas mesmo usando todas as minhas forças não consegui me soltar. Então aconteceu o primeiro estouro, nos agachamos e veio um estouro maior. Vi um clarão iluminar o amanhecer.

— Lidiaaaaaa! — gritei.

Senti vontade de correr para ela, mas meu corpo pesou, e tudo se silenciou. As luzes foram apagadas.

***

Quando voltei em mim, estava em um quarto de hospital. Parecia que minha vida se resumia a isso. Abri os olhos devagar, senti o peso do meu corpo. Eu estava quebrada, todos os ossos do meu corpo doíam, minha cabeça pesava uma tonelada, havias escoriações em meus braços e pernas, e uma das minhas mãos estava enfaixada até o pulso. Lex estava parado perto a janela, os olhos distantes e os pensamentos ainda mais longe, foi então que o acidente e tudo o que havia acontecido vieram à tona, os estilhaços de vidro, os corpos, Lidia, o barulho, o fogo.

— Lidia — gritei.

Lex correu para perto de mim, suas mãos me seguraram.

— Calma, Sarah, por favor.

— A Lidia, ela está bem? Eu não consegui tirar ela, como está a Lidia? O João, meus amigos — eu gritava histericamente

— Você precisa ser forte agora, Sarah — disse Lex com aquela nota de tristeza na voz.

Meu coração acelerou a ponto de quase explodir, aquilo não podia estar acontecendo.

— Eu não quero mais ser forte, eu cansei de ser forte, me deixa ter medo, quero ver meus amigos, eu não consegui tirar a Lidia do carro, ela estava lá precisando de mim, e eu não consegui.

Eu estava gritando, Lex tentava me acalmar, mas ele percebeu que esconder as coisas e me privar das emoções seria perda de tempo.

— A Lidia e o Vicente estão bem, mas o João e a Carolina não sobreviveram.

Gritei como uma louca. Até então, eu nunca havia perdido nada de importante. Aquela dor era novidade, perder amigos que eu amava, o João que havia estado comigo desde o começo, que havia se ausentado por um tempo devido à sua sexualidade, que amava a dança e era muito bom nisso. João havia se reinventado quando parou de pensar que estava doente ou louco, quando se aceitou e partiu para uma nova etapa, uma etapa que ele não poderia mais seguir, a dança havia acabado para ele e isso era muito triste. Carolina era recém-chegada na escola, ela era uma ótima dançarina, Lidia a tinha chamado para se juntar a nós porque ela sabia que a menina tinha muita capacidade e ela havia feito um trabalho maravilhoso, mas aquilo também havia acabado.

Chorei por horas, Lex ficou ali ao meu lado, ele me abraçava e pedia para que eu não chorasse, era impossível, meus pais também estiveram lá.

Naquela mesma noite, eu fui nos quartos do Vicente e da Lidia.

Os dias seguintes foram ainda mais difíceis. Saímos do hospital para o enterro dos nossos amigos, o clima do lugar estava me fazendo muito mal, pessoas chorando, os pais deles estavam gritando e aqueles gritos entravam em minha alma, aquelas coisas que as pessoas liam me deixavam ainda pior. Eu não conseguia parar de chorar, ninguém conseguia.

“Eram dois jovens, ele com vinte, ela com dezoito, toda uma vida pela frente, interrompidos brutalmente por um acidente, um livro em branco que se encerra...”

Eu não conseguia mais ficar ali, cada palavra batia em mim como uma faca. Elas me cortavam, e por mais que eu chorasse, por mais que as lágrimas rolassem, a dor que me sufocava o peito continuava ali, intacta.

— Eu preciso sair daqui, Lex.

— Claro, Sarah, vou levar você pra casa.

Lex dirigiu em silêncio, eu estava presa em um mundo triste e sombrio, nem percebia por onde estava indo. Quando o carro parou, notei que estava na frente da casa dos meus pais.

— Você está bem? — perguntou ele me encarando.

— Não é meu melhor dia — respondi.

— Queria poder mudar isso — disse ele triste.

— Não quero ficar aqui, me leva de volta — protestei.

— Sarah, por favor, eu não posso te deixar sozinha naquele alojamento, a Lidia está com a família, o Vicente, você também precisa de ajuda, eu não posso te deixar lá e não posso ficar com você, estar perto de você me machuca muito. Não seja teimosa, fica com seus pais.

Por um tempo, ficamos em silêncio. Tínhamos tantas coisas para dizer um ao outro, mas faltava coragem e sobrava medo, então Lex resolveu acabar com aquela tortura, ele pegou um envelope no carro e me entregou, desse momento em diante seus olhos não encontraram mais os meus.

— O que é isso?

— O que me pediu.

— São meus exames? — perguntei.

— Não, Sarah, eu até pensei em fazer, você acordaria e saberíamos o que está acontecendo, mas eu não quero ficar fazendo essas coisas, não gosto desses jogos, eu amo você, Sarah, enlouquecidamente, mas é impossível para mim seguir suas regras. Eu nunca fui tão fraco em uma situação como estou sendo nesta, desculpa, eu não consigo, se você não consegue fazer o que peço, cuidar da sua saúde nos dando um futuro, nos dando a possibilidade de sonhar, eu também não posso viver esperando que você morra a qualquer momento, Deus deixou a medicina por algum motivo, não acha?

Fiquei olhando aquele envelope por um tempo, eu sabia o que estava lá dentro, mas queria ter certeza, só para sofrer.

— O que é isso? — perguntei.

— Os papéis de divórcio que você me mandou, eles estão assinados.

— Por que você veio e ficou do meu lado?

— Eu estava aqui, você precisava de um acompanhante, coincidência.

Então era isso, não havia mais o que falar, perguntar, era o fim do fim.

Peguei minha bolsa e saí do carro, não fiquei ali me martirizando, eu não queria nem chorar mais, minhas lágrimas já haviam acabado, meu estoque de sofrimento já estava no fim. Sentei-me na escadaria da minha casa e vi o Lex partir. Eu estava entorpecida, naquele momento, eu não sentia mais nada.

***

Ficar na casa dos meus pais era como voltar para uma prisão. Eu nunca mais havia tido a coragem de dormir lá. Mesmo estando vivendo um relacionamento bom com eles, eu tinha medo que eles resolvessem me prender a qualquer momento, como naqueles filmes loucos que a Lidia insistia em me obrigar a assistir.

Mas para minha surpresa, foi maravilhoso, energizante. Meu pai estava tão mais humano e gentil, minha mãe havia assumido o controle da casa e tudo ficou diferente, ela preparava os cardápios para as refeições com comidas gostosas e vinhos, havia flores pela casa e, no domingo, meu pai assava carne em frente à piscina, os empregados falavam mais que sim, senhora e sim, senhor, não era mais o lugar em que eu havia nascido, era um lar.

Já fazia quase quinze dias que eu estava na casa dos meus pais, eles me paparicavam e conversávamos o tempo todo sobre tudo. O acidente ainda estava muito recente em minha cabeça, mas eu já não tinha mais pesadelos. Ainda estava sentida com a partida dos meus amigos, e eu sabia que não era uma dor que se passaria assim de uma hora para outra, até hoje ainda sinto, ainda choro, nunca passa na verdade, você apenas vai aprendendo a lidar com esses sentimentos. O Lex estava em minha cabeça por todos os minutos, eu me pegava olhando aqueles papéis e ensaiando assiná-los, mas era algo que eu poderia fazer depois.

Então chegou o dia do resultado do concurso

Minha mãe desceu as escadas eufórica, eu estava vendo desenhos com meu pai, ele sempre se amarrou em ver Apenas um Show e Hora de Aventura. Ele gravava horas de episódios e os assistia em seu tempo livre e, com a nova vida, esse tempo livre ficou maior e as horas de desenhos também, então estávamos nos divertindo.

— Sarah, seus amigos estão chegando — disse minha mãe correndo para a cozinha. — Vou preparar um lanche para vocês, e alguns docinhos.

Olhei para meu pai assustada, eu não estava entendendo aquilo, ele sorriu para mim e me disse baixinho:

— Ela sempre quis receber seus amigos, você está realizando um sonho dela.

Ri muito daquilo e continuei ali vendo desenhos, enquanto o barulho na cozinha sinalizava que minha mãe estava cozinhando.

Lidia, Vicente e o Ian, chegaram umas duas horas depois. Eles estavam melhor que da última vez em que eu os havia visto. Lidia já estava quase sem machucados, e sua cor estava bem mais saudável; Vicente ainda usava um suporte no pescoço; Ian estava mais conformado apesar do olhar triste, mas pelo menos não chorava descontroladamente, eu sabia que precisava só de uma fagulha para isso acontecer. Eu os esperei na piscina. Estava muito calor, nos cumprimentamos e sentamos ali mesmo, minha mãe pôs uma mesa farta com doces, bolos, sobremesas e mais uma variedade de coisas, meus amigos me olharam sem saber o que estava acontecendo. Havia comida para cem pessoas.

— Ela está feliz em receber vocês — disse e dei de ombros.

Eles não estavam a fim de comer, estavam ali para outra coisa, eu até havia me esquecido do concurso.

— Nós passamos — disse Lidia direta.

— Eles precisam saber se vamos aceitar ir à final — disse Vicente.

Eu os olhei abismada, não era possível que eles ainda estivessem pensando no concurso.

— Vocês estão loucos? Sem o João e a Carol? Eles eram parte desse show, não posso sem eles — falei.

— Não! — disse o Ian em tom de autoridade. — O João queria isso mais que tudo na vida, a Carol também, não está sendo fácil para mim fazer isso, mas eu vou seguir, vou subir naquele palco e dar o melhor de mim, para o João, onde quer que ele esteja.

E a fagulha pegou fogo, Ian se acabou no choro e nós o acompanhamos.

— Eu quero — disse Lidia.

— Eu danço até com esse cone de cachorro — disse Vicente se ajeitando na cadeira para olhar para o Ian.

Então eu os olhei e notei que eles estavam certos, não fazer aquele show seria como jogar fora todo o trabalho do João, todos os anos que ele havia colocado na dança. Não era hora de jogar a toalha e dar o jogo por encerrado.

— Temos que ensaiar muito.

E mais uma vez estávamos comemorando. Não com a mesma alegria de sempre, os sentimentos haviam mudado, os objetivos também, mas se iríamos fazer aquilo, teria que ser feito da melhor forma.

— Vamos pra Lambertini hoje — disse Ian.

— Vamos brindar com suco — sugeriu Vicente levantando o copo.

— Melhor não — Alertei. -- Essas comidas aí foram feitas pela minha mãe, e é melhor vocês terem trazido uma bolsa grande para poder levar a metade, mas, por favor, não comam.

— Sarah... — reclamou Vicente.

— Vai lá! Beba! — desafiei.

Vicente deu uma golada no suco e cuspiu na grama.

— É! De fato, não é uma boa ideia.

Pegamos estrada às oito da noite com o porta-malas repleto de comida.

Voltar para a Lambertini era um novo começo, descobrir que a vida continuava era bom, nossos corações ainda estavam machucados, qualquer coisa que lembrasse o João e a Carol nos fazia cair no choro. Foi assim na primeira vez que nos reunimos com todos do grupo para discutir assuntos importantes, foi assim no primeiro ensaio, no segundo e, quando percebemos, as lágrimas já estavam escassas das nossas reuniões. Demorou, mas aprendemos que se lembrássemos deles e sorríssemos lembrando de algo que eles faziam, essas lembranças se espalhariam, e todos ficariam saudosos, mas felizes por terem os conhecidos.

Faltava pouco para o grande dia. Nossos figurinos ganharam mais brilho e melhorias incríveis, ganhamos as passagens e alguns benefícios dado pelo Grupo Lambertini, como uma bonificação por estarmos em uma final tão importante. Diferente dos ensaios que nós mesmos fazíamos e nos organizávamos para fazer o melhor, agora contávamos com todos os professores para nos ajudar a melhorar nossa apresentação. O tempo dos ensaios passou de algumas horas para o dia inteiro, e isso era magnífico. Nossos corpos chegavam ao extremo do cansaço, nossos pés sangravam ao longo de tanto esforço, tudo girava em torno daquilo, nossas forças, nossos sonhos, nossa vontade de viver.

Qualquer outro aspecto de nossas vidas ficou em segundo plano, isso foi bom, assim eu não pensava muito no Lex, mas sempre existia aquele pouquinho que me incomodava. E estar ali, onde tudo me lembrava dele, não me deixava fugir daquele sentimento de saudade que vinha com o fim da noite, mas Lidia estava lá, e juntas estávamos superando todas as dores.

Faltavam três dias para o grande show. Iríamos viajar no dia seguinte para o Rio de janeiro, estávamos ainda mais emocionados que antes, e um pouco mais confiantes, tudo que tínhamos feito até ali, estava com outra roupagem e estava bem melhor.

Era nosso último ensaio na Lambertini, estávamos no palco do auditório, havia mais quatro dos melhores professores nos assistindo. Tudo estava muito bem produzido.

Um dos professores dava a exata colocação de uma pegada importante para Vicente que cismava em fazer do jeito dele — ele era assim e é até hoje —, ele é bom e sabe disso, portanto, tudo o que ele acha que está fazendo certo, vai estar certo e dane-se quem quiser mudar.

— Se você não fizer dessa forma, ela vai correr o risco de cair — disse o professore já bravo.

— Do jeito que quero fazer terá mais brilho...

— Você não ouviu o professor dizer que assim é arriscado? — disse Erica Lambertini, entrando no auditório e interrompendo o Vicente.

Ela era incrivelmente bonita, tinha os cabelos longos e pretos, o corpo dela não era de bailarina, era uma mulher voluptuosa, com seios fartos e bunda avantajada, coxas grossas e cintura fina. Um mulherão. Eu fiquei observando-a por um tempo, porque eu estava acostumada com bailarinas magras sem nem um pouco de carne, finas como bambus. Ver aquela mulher grande e corpulenta foi como ver uma artista saindo da TV, mesmo que ela estivesse trajada simplesmente com jeans e camiseta.

Todos repararam nela.

Ela subiu ao palco e ficou de frente para o Vicente que, mesmo que sempre tivesse uma gracinha para dizer, se calou diante dela.

— Vicente, sempre dando trabalho, o que eu faço com você? Não se cansa de bater de frente comigo?

— Se vocês me ouvissem, poderíamos levar esse show ao extremo — disse Vicente.

— O pior é que escutamos — disse ela sorrindo. — Não começa a inventar, tá bem? Você está fazendo um ótimo trabalho, mas se você matar a Sarah, não será muito legal.

Eu nem sabia que ela sabia meu nome, então me lembrei que eu era a esposa do Lex, seu irmão, eu já havia feito parte daquela família, isso parecia ter sido em uma época bem distante, a depressão bateu em minha porta novamente.

Será que o Lex estava lá?

Vicente resolveu fazer o que o professor mandava, o ensaio então rendeu e todos que assistiam aplaudiram de pé. Erica ficou ali por um bom tempo assistindo, então se retirou. Do meu lado, Lidia me observava.

— Vai lá, Sarah, pergunte sobre ele, vocês se amam...

Fiquei por um tempo ali, apenas olhando, eu não pretendia ir atrás daquela mulher, mas me peguei levantando e indo em direção à diretoria.

Eu não sabia ao certo o que eu iria fazer lá, o que eu poderia falar, eu apenas fui.

A sala da diretoria estava aberta quando cheguei, Erica estava ao telefone, dei uma leve batida na porta e entrei, ela me pediu para sentar, eu a obedeci. Enquanto ela terminava a conversa do telefone, meu coração lembrava da minha primeira noite que eu tive com Lex ali, não exatamente naquele canto, mas bem próximo. Senti saudades dele.

— Em que posso te ajudar? — perguntou ela, interrompendo meus pensamentos.

— O Lex, eu queria saber dele, faz tempo que...

— Você veio saber do meu irmão? — perguntou ela com ironia.

Me senti uma tola. Da forma como ela falou, fez parecer algo tão estúpido, eu nunca tive problema de inferioridade, mas me senti muito inferior naquele minuto.

Por um momento, fiquei ali olhando, procurando um lugar por onde eu poderia sair sem ter que responder àquela pergunta, mas não havia escapatória, eu tinha que improvisar.

— Temos coisas pra resolver — disse, me referindo ao divórcio.

— Certo, eu posso te pedir uma coisa?

— Claro! — respondi.

Ela se sentou do meu lado.

— O Lex é um empresário muito importante, tem muitos negócios para resolver, ele veio ficar aqui porque meu pai insistiu muito, seriam seis meses o tempo de eu poder voltar a cuidar da menina dos olhos do meu pai, mas o Lex fixou moradia aqui, refez toda a vida pra ficar aqui com você. Ele se casou com você, cuidou de você e a única coisa que ele te pediu foi para se cuidar também, mas lógico que você não poderia fazer isso. Você é egoísta demais pra isso. Quem se importa com o que ele sente quando você tem que estar bem? Ele está magoado, Sarah, sofrendo, ele não para em lugar nenhum, só viaja. Compromisso em cima de compromisso. Quando você se acidentou, ele veio pra cá no mesmo segundo, ele estava no Japão. E o que ele ganhou cuidando de você no hospital? Seu pedido formal de divórcio. No dia que você saiu de casa, ele ficou dois dias trancado no escritório, eu nunca o tinha visto tão desesperado. Sarah, se você não pode fazer algo por ele, o deixe em paz, por favor.

Ela se levantou e caminhou até a porta, claramente me dizendo que nosso assunto estava acabado, eu não tinha muito a dizer, estava furiosa comigo mesma.

— Eu entendi, me desculpa, Erica.

Eu não tinha mais nada para falar e nem conseguiria, o choro já estava na garganta, e eu não queria chorar perto daquela mulher.

— Sarah — Erica me chamou, parei no meio do corredor. — Se concentre em sua apresentação no Rio, muita gente importante vai estar lá te vendo.

A porta se fechou e eu fiquei parada sem saber o que aquilo significava.

Encontrei Lidia me esperando na saída da escola, ela estava sentada na calçada massageado os pés machucados.

Ela ficou me olhando sem saber o que dizer, não sei o que se passava em meu rosto, mas meu coração estava destruído. Sentei-me junto a ela na calçada, por um tempo eu fiquei ali quieta, percebi que Lidia não parava de me olhar.

— O que foi? — ela, por fim, perguntou.

— Eu não consigo, eu até já tentei, mas não consigo.

As lágrimas molhavam meu rosto, eu sabia de tudo o que estava perdendo por estar com medo, o mais certo seria enfrentar, mas eu não tinha forças para fazer aquilo que Lex me pedia, não era uma regra, era algo que eu tinha medo de tocar.

— Do que você está falando? — perguntou.

Então eu a encarei. Ela estava séria, e havia muita compaixão em seus olhos.

— Eu tenho medo de fazer os exames que o Lex tanto quer, eu tenho muito medo. — Chorei.

— Calma, amiga.

— Não! Sempre foi medo, sabe, eu preferi deixar tudo do jeito que estava porque era mais cômodo para mim, mas, na verdade, eu estou e sempre estive com medo. Não posso imaginar ter exames que comprovem que eu estou doente, eu não me sinto doente, não posso fazer esses exames, mas não posso ficar sem o Lex. Eu o amo tanto, sinto tanta falta dele, não posso seguir sem ele.

Lidia me abraçou, ela sempre chorava junto comigo, mas aquele dia não, ela se manteve firme, seus olhos estavam vagando à procura de soluções.

Enquanto ela me abraçava, meu coração desistia de tudo aquilo.

— E se eu fizesse os exames por você? — disse ela me abraçando ainda mais forte.

— Mentir? — perguntei.

— Apenas um segredo, Sarah. O segredo de Sarah.

— E da Lidia — completei.

— Temos o dia de amanhã todo livre para descansar, podemos fazer isso.

Por um tempo eu fiquei ali pensando em toda aquela história, minha vida já era, há muito tempo, um mar de segredos, ter um que me fizesse ficar com Lex não deveria ser errado. Eu o amava tanto! Por outro lado, eu sentia tanto medo de encarar o que ele me pedia, e se com o passar do tempo eu tivesse coragem de fazer os exames, a mentira se tornaria verdade e tudo se acertaria. Eu poderia fazer aquilo, assim ele não sofreria, eu não sofreria, e tudo ficaria bem. Mas por quanto tempo eu conseguiria manter aquela mentira? Era difícil dizer, sobretudo sabendo que Lex era alguém extremamente inteligente e influente.

— O que você acha? — perguntou a Lidia. — Você dá os meus exames para ele, vocês voltam, e ficam felizes para sempre.

— Para sempre dura quanto tempo?

— Para sempre não tem duração, ele é um sorriso, um abraço, um beijo, ele é tudo o que você consegue lembrar muito tempo depois que aconteceu.

— Como eu, você e o João dançando no apartamento da Linda?

— Sim, aquilo é para sempre.

Por um tempo, eu pensei em tudo aquilo e, de fato, eu tinha uma ótima solução.

— Vamos, preciso falar com o Vicente.

***

A viagem para o Rio foi tranquila. Juntos, repassávamos os passos, os giros e até os saltos em todos os momentos vagos. Estávamos nervosos, a sensação era que o prêmio já era nosso e que só estávamos indo receber, mas sabíamos que existiam mais dois grupos que, assim como nós, estavam com a mesma sensação. Evitávamos ver qualquer coisa relacionada a outros grupos, isso nos impedia de ter medo e de fraquejar. Nos distanciamos de mídias e de pessoas que não faziam parte do grupo, nos fechamos apenas no show porque precisávamos ganhar. Vicente caminhava de um lado para o outro no salão do aeroporto enquanto esperávamos o motorista do hotel ir nos buscar. Ele estava preocupado, não havia muito a se fazer àquela altura do campeonato. A coreografia sofreu algumas mudanças, mas ficou perfeita, não tinha por que ele estar com tanto medo.

Fizemos teste de palco por quase toda a tarde, aproveitamos que nenhum dos outros dois grupos havia chegado, isso era bom, conhecer o lugar onde dançaríamos, ter noção de espaço. Enquanto passávamos os últimos passos, os organizadores arrumavam o local com flores, tapetes vermelhos, cortinas brancas e mais um mundo de coisas bonitas e sofisticadas.

Eu ainda não tinha certeza se eu havia escolhido o caminho certo, mas sabia que ao final daquela noite eu estaria nos braços do Lex. Claro, se os exames fossem o único empecilho e ele ainda me amasse.