O Segredo de Sarah

Cláudia Sátiro · Capítulo 11 de 15

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O Segredo de Sarah

Capítulo Dez

 

As emoções dos últimos dias me fizeram uma pessoa melhor, eu já não era a mesma menina de dias atrás, havia me tornado uma mulher forte e guerreira, não tinha mais medo do escuro nem do silêncio. O pânico, infelizmente, ainda estava em mim, e por vezes, eu me controlava para não me entregar a ele. Seria uma etapa até eu me livrar dele por completo, uma briga só minha, quanto ao futuro, eu o esperava com uma vontade nunca vista. Já tinha se passado quase três meses desde minha conversa exaustiva com meus pais, eu não estava achando ruim que tudo aquilo tivesse ficado no passado, da mesma forma que não me incomodava com os erros que eu poderia cometer no futuro. Eu tinha coisas boas no presente, e queria me agarrar a eles o máximo que eu pudesse, então todo aquele assunto de doenças e dias de vida iria ficar naquela prisão que me haviam jogado por uma semana.

Sei que na vida precisamos esclarecer as coisas, mas para mim já estava tudo bem claro: eu havia sido criada de uma maneira diferente, a base de fé e de fanatismo religioso, mas de alguma forma, por algum milagre, Deus me levou até onde eu estava. Não poderia voltar atrás e mudar tudo, mas existia uma nova etapa da minha vida que eu estava disposta a escrever. Muitos diriam que eu deveria me submeter a exames e me mudar para um hospital, mas exatamente por não saber o que me esperava no dia seguinte — assim como ninguém sabe —, eu escolhi viver, deixar o passado para trás e seguir. É assim que acontece na vida real. Quando eu me lembrava das coisas que a Irmã tinha me falado no convento, do medo ser o culpado de toda aquela dor, meus sentimentos mudavam. Eu sabia que tinha que fazer algo em relação àquilo, mas eu não tinha forças para ir. Logo, a ideia de me apegar a tudo que eu tinha se tornava muito mais viável e incrivelmente segura.

Então eu listei.

Eu tinha meus pais novamente, desde o dia que havíamos conversado, meus pais me ligavam com frequência no campus. Haviam me enviado dois cartões de banco e algum dinheiro em espécie, além de me dizer a todo momento o quanto a vida deles estava mudada por terem se livrado de todo aquele peso. Os visitei alguns dias depois, de fato, minha mãe estava sorrindo, e isso era algo que eu jamais havia imaginado ver, Ainda existia um clima de tensão no ar, aquele clima que pesa sobre os assuntos não resolvidos, mas de que adianta voltar sempre no mesmo assunto e saber detalhes de algo que não se pode mudar? Cada vez que o assunto surgia, eu sentia o rosto dos meus pais se retraírem, e a dor se expor, então eu sempre evitava voltar àquelas lembranças. Ter meus pais como meus amigos pela primeira vez, para mim era ter uma vida normal. Eles começaram a me incentivar a ir em frete com a dança, eles me viam dançar e me aplaudiam de pé, suas visitas eram sempre felizes, minha mãe estava radiante sem toda aquela atmosfera de segredo que acabava a cada novo encontro.

Eu também tinha a Lidia e a Linda, e elas me jogavam para cima todas as vezes que eu cismava em ficar triste assim do nada. Elas eram como um Rivotril, só que vinham sem receita medica, e a dosagem era sem medida. João entrou para a escola no segundo semestre, ele estava ainda mais gato, trazia com ele o namorado loiro, o que explicava sua ausência todos aqueles meses. Aceitação é um processo longo, João havia aprendido isso. Eu também tinha a Allegra, não havia como eu ser mulher do Lex sem ter a Allegra como filha, por mais que nossas idades fossem semelhantes, eu já estava anos luz à frente dela. Enquanto o Lex deu o mundo para ela, deixando-a mudar de escola e escolhendo o que queria ser para a vida, eu vinha de um mundo obscuro, onde ninguém ousava quebrar as regras, eu já era para lá de adulta aos dezenove anos. Não achava isso ruim, menos que isso, e eu seria a amiguinha chata da Allegra, e o Lex nunca me olharia da maneira que olhava.

Eu tinha também a dança, eu podia dançar todos os dias por quantas horas meu corpo aguentasse. Existia uma infinidade de coisas para aprender, e isso era espetacular, quanto mais eu dançava, mais eu queria dançar, não perdia uma aula, me empenhava em apreender tudo. A Linda se surpreendia com minha evolução gritante em tão poucos meses, não tinha fim para aquilo.

Eu tinha também a Madre Superiora do convento da cidade, ela me deixava conversar com as meninas e incentivá-las a achar seus caminhos de verdade, a Madre me dava carta branca para mostrar o quão grande o mundo era lá fora, e que Deus estaria com elas lá também, ou ajudar psicologicamente garotas que, assim como ela, já haviam sofrido algum tipo de abuso. Isso começou a me tomar um tempo muito grande, mas era gratificante.

E eu tinha o Lex. Ele estava presente em minha vida todos os minutos, seu sorriso me dava uma garra para seguir. Fora nossos compromissos, estávamos sempre juntos. Eu praticamente me mudei para sua casa, ele era como um imã que me puxava sempre para mais perto. Pelas manhãs, me sentia completa e segura quando despertava com seus braços em mim. Eu o admirava por horas e nunca me cansava disso, nossos planos eram parecidos, conversávamos muito sobre o futuro. Lex não havia sido criado como eu, mas teve responsabilidades que o tornaram muito duro ao longo daqueles anos. Ele também percebeu que sua vida havia sido corrompida por trabalho e responsabilidades e, apesar de isso tê-lo transformado em um homem maravilhoso, era preciso começar a viver. Lex tocou no assunto da doença uma única vez após todo o acontecido.

Já havia se passado alguns dias, estávamos organizando a vida, meus pais estavam tentando se aproximar, meus amigos tentavam me ver como um ser humano normal — isso demorou um pouco —, a Allegra tentava me aceitar como algo, ela não definiu o que era até hoje, e eu estava na etapa de escolher como seria dali por diante.

Foi a primeira noite que ousei dormir na casa do Lex, ele me buscou com seu supercarro, quase eu pedi para dirigir, mas deixei para uma outra época. A casa dele ficava na saída da cidade, era enorme, branca, com vidros fumês. A iluminação deixava a casa brilhando como cristais, era difícil não comparar o Lex a um príncipe e aquilo a um castelo. Um castelo bom. Ao longo do jardim da mansão, seguranças se espalhavam por toda a parte, o gramado dava espaço a esculturas de canteiros — um charme —, uma piscina olímpica pegava toda a parte de trás da casa, tudo que se pode pensar havia naquela mansão, até uma adolescente histérica que deixava a casa barulhenta e a despensa repleta de doces.

Os empregados da casa eram gentis e me tratavam como dona, eu não conseguia me encontrar direito dentro daqueles cômodos gigantes, volta e meia eu me perdia enquanto admirava uma obra de arte ou tocava algum tecido fino das muitas cortinas da casa. Eu achava que havia crescido no luxo, mas vendo aquela mansão, eu tive certeza de que não.

Lex estava distraído em uma ligação internacional, e não viu minha cara abobalhada. Foi bom. Quando ele me encontrou, eu estava na sacada do seu quarto olhando a imensidão da piscina. O quarto dele era bonito, mas muito impessoal, não existia coisas que o identificava como quarto do Lex, nada de fotos nas paredes ou bibelôs de recordação, tudo ali era decorado com requinte, e isso era um pouco frio.

Lex abriu um vinho e me estendeu uma taça. Saboreei o primeiro gole e notei que o Lex se distraiu novamente com outras coisas, era papeis, ligações. Um mero barulho, e ele depositava sua atenção, me deixando.

— Você vai ficar assim por quanto tempo? — perguntei.

— Assim como?

— Quando você vai aceitar minha escolha? Ou quando vai desistir e partir para outra? Eu não nasci do seu lado, Lex, posso continuar perfeitamente sem você. Se você não consegue lidar com minhas escolhas, estamos perdendo tempo juntos.

— Não, Sarah...

Lex se aproximou, segurou minhas mãos, colocou a taça ainda cheia sobre a mesa da sacada, ajoelhou-se perto a cadeira que eu estava sentada, suas mãos estavam quentes e seu toque era suave, seu rosto estava sofrido, e seus olhos, cheios de dor.

— Eu não posso dizer que estou achando certo tudo isso, não paro de pensar na possibilidade de você estar doente e de que poderíamos estar tratando isso. Olho em minha volta, e todos agem como se nada disso fosse sério, vejo você perdida em pensamentos e me pergunto se está pensando em sua partida, isso me entristece, não consigo trabalhar direito, não consigo me concentrar nas coisas, passo horas pensando no que posso fazer para te fazer mudar de ideia.

— Não há nada, Lex, eu não vou fazer e não estou te obrigando a conviver com isso, não posso te fazer feliz indo contra o que acredito. Pra ser feliz, você precisa de confirmações; para ser feliz, preciso apenas acreditar e ter fé. Temos maneiras diferentes de pensar, assim como eu não posso aceitar o que me pede, você não precisa se submeter ao que te imponho, eu nunca fechei a porta, você só precisa ir.

Ele ficou a me olhar por um tempo, analisando as coisas que eu havia falado, suponho, ou apenas sem saber o que fazer. Muitos podem me chamar de egoísta, mas acreditem em mim, só se sabe lidar com uma situação quando se está nela.

— Só pra constar, eu não fico imaginado minha partida... — completei com ironia.

Lex esboçou um meio sorriso.

— Existe uma luz no fim do túnel para mim? — perguntou.

— Não entendi.

— Uma esperança para que, em um futuro não muito distante, você faça esses exames. Porque eu não pretendo deixar você sair da minha vida, se pra você é fácil viver sem mim, para mim, a ideia de te ver partir é assustadora, eu não penso em te deixar, Sarah, isso não deveria ser uma opção entre nós — disse ele triste.

— Eu te amo, sem você eu sofreria para o resto da vida, mas não tenho o direito de te obrigar a viver com alguém como eu, não foram românticos comigo quando direcionaram minha vida no que ela é hoje, não posso ser romântica com você pra te expor nossas opções, às vezes sofremos menos sendo práticos. Você quer saber se sofro com a alternativa que te dei?

— Talvez você não tenha parado para pensar nisso — disse ele baixinho.

— Existem coisas que nos levam a tomar decisões difíceis de se compreender, pode ser a obediência, sensatez ou medo, nem todas as escolhas são certas, mas se você não pode mudar o resultado da situação, dificilmente você mudará a escolha feita, é mais ou menos isso — tentei explicar. Lex me analisou, sua atenção era totalmente minha.

— Você tá longe de ser obediente, querida, e francamente, não existe mulher mais corajosa que você no mundo. — Lex sorriu e me entregou a taça. — A única coisa que pesa nesta história é sua teimosia, mas eu vou dar um jeito nela.

Lex se levantou e me beijou com muita paixão, uma ótima forma de amenizar o clima e deixar as coisas mais leves.

— Mas se algum dia eu estiver desacordada em um hospital, você tem minha autorização para fazer todos os exames que quiser, acho que eles permitem namorados fazerem isso, né?

— Eu espero que esse dia nunca chegue — disse ele me beijando ainda mais, então toda aquela conversa se perdeu e o tesão falou mais alto.

Lex acabou se conformando e a vida seguiu normalmente pelos meses seguintes. Ele me fazia sentir a pessoa mais feliz do mundo, e vivíamos cada dia como se fosse o último. Hoje, com mais sensatez, admito que fui egoísta, não só com o Lex e com meus amigos, mas comigo também, se tem uma coisa que aprendi com isso tudo, é que ignorar uma coisa não significa que ela não exista.