O Segredo de Sarah

Cláudia Sátiro · Capítulo 7 de 15

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O Segredo de Sarah

Capítulo Seis

 

Surpresa, Lidia me encarou. Foram muitas as vezes em que ela havia me chamado para ir em várias festas, mas eu nunca quis.

— Como? — Lidia perguntou assustada.

— Posso ir? Você nem me chamou, mas quero ir.

— Eu não chamo você porque você nunca quer ir.

— Hoje eu quero.

Lidia ainda estava parada, abismada, me olhando, já estava vencendo as onze horas da noite, e eu esperava que ela não me pedisse para implorar, afinal, eu sempre dizia que não iria nem implorando. As coisas mudam e temos que acompanhá-las, então eu quase ia implorar, quando ela disse animada:

— Eu tenho uma roupa que ficará linda em você.

Lidia trouxe um vestido preto de corpete com saia rodada, era mais curto do que o necessário, me maquiou e arrumou meus cabelos. De fato, eu não fiquei parecida comigo, era uma outra pessoa, eu estava quase mulherão. Não sei se chamaria tanta atenção quanto Allegra, mas eu não estava concorrendo com ela, estava? Lidia colocou os brincos enquanto eu a observava. Ela estava bonita. Usava vestido preto justo e curto, o cabelo descia até o meio das costas em ondas loiras, ela parecia combinar com aquilo; nela, toda aquela maquiagem se tornava normal, quanto a mim, eu me olhava no espelho e me sentia fantasiada. Talvez até estivesse bonita, mas não me sentia à vontade. Aprender a viver com o que você é evita muitos desgastes.

No caminho da festa, contei para Lidia sobre Lex e Allegra, ela não se surpreendeu. Na escola, eles já haviam sido vistos várias vezes juntos. Contei também para Lidia sobre o carro importado, e ela também não se surpreendeu, segundo ela, Lex e a família tinham muito dinheiro, Lex e a irmã tinham elevado os negócios da família às alturas.

— Um sedutor, lindo e rico — disse ela.

— Pena ele não ter tentado me seduzir — falei em tom de brincadeira.

— Ele foi a sua procura umas três vezes ou mais, pode ser algo ou ele está desconfiado de você, Sarah.

— Por que você não me disse isso antes? — perguntei.

— Esqueci...

Fiquei encucada com aquilo. Ele não tinha me falado que andava atrás de mim. Será que ele estava desconfiado que eu escondia algo? Só podia ser isso, ou ele poderia estar tentando me seduzir, mas eu não acreditava naquilo. Mesmo querendo ser boa com minha autoestima, mesmo sabendo que essa era a história que queria ouvir, eu tinha noção do abismo que existia entre Lex e eu. Então nem levantei essa segunda opção. Chegamos à festa e encontramos com o Vicente. Ele estava maravilhoso, usava jeans rasgado, polo branca e um casaco na cintura, um boné preto finalizava seu look. Andamos um pouco e, para minha surpresa, eu estava começando a me divertir. Era uma festa de dançarinos, então tinha muita dança, e eu sempre ficava feliz dançando. Acabei até por esquecer que eu estava procurando o Caíque. Eu ia pedir pra ele sair comigo. É, eu sei, uma baita loucura, mas eu não gostava de mentiras, portanto, se eu saísse com ele, oficialmente tudo o que eu havia dito para o Lex seria verdade.

Uma hora da manhã venceu no relógio, e o Caíque não deu sinal, eu não poderia esperar mais, além disso, estava cansada, e a maioria das pessoas ali estavam bêbadas, isso me deixava chata para eles, e eles estavam chatos para mim, com ou sem a mentira, eu precisava ir embora. Dei uma volta pelo salão para ver se encontrava Lidia, ela devia estar se esfregando ao Vicente em algum lugar do jardim. Para minha surpresa, tinha muita gente no jardim, a festa inteira parecia estar lá. Acho que fiquei muito tempo dançando, tentei passar pelos cantos, mas um rapaz loiro sem camisa esbarrou em mim e me cobriu de cerveja. Aquilo não podia ter acontecido. Como eu iria chegar no convento cheirando cerveja? Deixei de procurar por Lidia e fui atrás de um banheiro.

Os dois banheiros que ficavam dentro da casa estavam com filas quilométricas, encontrei um outro banheiro aos fundos, a luz estava acesa, mas empurrei a porta e entrei assim mesmo; perto do vaso sanitário, a Allegra estava sentada no chão, suas roupas estavam sujas de vômito, assim como seu cabelo. Ela estava acordada ou desacordada, não consegui ter certeza. Fechei a porta e fui para perto dela, ela abriu os olhos, parecia perdida, lutando para ficar acordada, e eu fiquei imaginando onde estaria o Lex que não cuidou dela. Será que eles tinham brigado, será que eles terminaram? Tentei não ficar feliz com aquele pensamento, então chamei Allegra segurando em seu rosto pálido e sujo.

— Allegra..., olha pra mim, você consegue sair daqui? Eu preciso que você se levante. — Eu já estava quase gritando, então ela conseguiu me notar. Com muito esforço, ela pegou a bolsa e me entregou.

— Liga pru meu namobado ... me buscar, a senha é uma espiral.

Ela perdeu a consciência, fiquei por um tempo olhando pra ela, mas não tinha alternativa. Eu não conseguiria levá-la, eu não tinha celular, Lidia estava sabia-se lá onde, e eu não podia deixá-la. Acertei a tal da espiral na terceira vez, aquele celular gigante mais parecia uma tela de computador, pensei que não seria difícil fazer uma ligação, mas foi. Quando encontrei a agenda do telefone, sem surpresa encontrei o nome do Alexandro como o primeiro da lista. Ele atendeu no terceiro toque.

— Allegra? — disse sonolento.

— Oi, sou eu, a Sarah. — Senti muita vergonha de dizer aquilo.

— Sarah? Mas e a Allegra?

— Ela está bêbada, quase inconsciente no banheiro da festa que eu estou, eu acho que você precisa vir buscá-la.

— Onde fica?

Passei o endereço e fiquei esperando ele chegar. Eu não podia sair do banheiro, se eu abrisse a porta, exporia Allegra, e isso não seria legal, então fiquei ali, entre o vômito, perguntando-me o que seria de mim se aquilo tudo não acabasse antes das cinco.

Uma batida na porta me deu novas esperanças. Para minha surpresa, era o Caíque. Ele estava embriagado também, mal parava em pé, mas em vista da Allegra, ele estava muito bem, exceto pela camisa branca desabotoada e o jeans molhado e sujo.

— Desculpa, eu achei que era outra pessoa — disse ele meio embolado.

— Eu precisava falar com você, mas acredito que não seja esse o melhor momento.

Acho que ele não me ouviu. Sem dizer nada, ele tentou entrar no banheiro, se desequilibrou e quase caiu. Segurei em seu braço para que ele não caísse e se machucasse, ele se agarrou em mim, quase fomos os dois para o chão, mas quem quase cai continua em pé, não é esse o poema? Não segurei o riso.

Quando me recuperei da crise de riso, soltei o Caíque e me recompus, então percebi que Lex estava parado perto da entrada do corredor. Usava calças de moletom e uma camisa polo preta, parecia nervoso. Ele me encarou, como se me analisasse, então passou por nós, feroz como um leão. Caíque ainda arriscou um sorriso envergonhado, Lex nem se importou, pegou Allegra nos braços, a moça descansou a cabeça em seus ombros, ele a beijou com ternura na testa e saiu. Eu não sei por quê, mas fui atrás deles, e o Caíque foi atrás de mim. Lex passou pelos fundos, chamando pouca atenção para si, o carro estava logo atrás. Não era aquele escândalo de carro, era um sedan prata. Lex pôs Allegra no banco de trás e fechou a porta, sem dizer uma palavra, abriu a porta do carona e fez sinal para que eu entrasse.

— Não, eu não posso ir — disse surpresa.

— Preciso de uma explicação sobre o que está acontecendo, não acha?

— Eu não sei o que está acontecendo, eu a encontrei assim e liguei para você. Eu tenho algo muito importante para fazer, acredite em mim, é muito importante.

— Beber mais? — perguntou com raiva.

— Eu não bebo — resmunguei.

Ele deu de ombros, então me lembrei que estava cheirando cerveja.

Atrás de mim, com uma certa dificuldade, Caíque conseguiu nos alcançar. Ele parecia ter ficado pior, estava andando torto como se alguém o puxasse para o lado, só então me dei conta de que eu supostamente estava saindo com ele. Voltei a olhar para Lex com uma certa vergonha, ele parecia estar chateado, eu queria muito entrar naquele carro e ir com eles, mas eu não poderia, então devolvi o celular da Allegra e me pus a voltar para festa. Evitei olhar nos olhos dele novamente.

— Eu esperava mais de você, Sarah — disse ele.

— Eu nunca esperei nada de você.

Falei sem olhar para trás, passei e segurei Caíque, que cheirava a vômito, pelo braço, e entendi por que ele tinha demorado para nos alcançar. Ele me acompanhou com dificuldade, parecia que estava dormindo em pé. Deixei-o encostado em um dos sofás da sala e voltei a procurar por Lidia, a encontrei dançando com o Vicente e outros jovens na sala principal.

Voltei para buscar o Caíque e levá-lo para casa, mas ele não estava mais onde eu o havia deixado. Eu estava prestes a ser expulsa do convento, não havia como procurá-lo, já era quase quatro horas da manhã.

Entrei no carro e fui sozinha embora.

Com sorte, consegui voltar a tempo para o castelo. Faltava pouco para cinco quando entrei no quarto. Por um minuto, tive a impressão de que alguém estava me vigiando, mas só foi impressão; e com aqueles quadros, eu tinha essa impressão quase sempre. Evitei me deitar para não perder a hora de levantar. O toque para sair dos quartos se deu minutos depois, eu tentei ficar longe das irmãs, me sentia fedendo a cerveja e vômito, queria muito tomar banho, mas só poderia tomar banho se umas das irmãs me desse permissão, por isso deixei o banho em meus pensamentos. O dia rendeu pouco, fui designada para trabalhar na cozinha, mas me peguei cochilando algumas vezes, todas fingiam não ver, enfim com um pouco de companheirismo conseguir finalizar aquele dia, foi quase uma alegria voltar para o quarto; e saber que era sábado e eu não teria que sair me deixou ainda mais feliz. Eu estava cansada até para dançar e aquilo nunca havia acontecido. Pela primeira vez em meses, aquela cama foi relaxante.

Segunda-feira chegou, e eu me sentia muito bem. A rotina matinal já estava gravada em minha cabeça, assim como os sons e as cores do castelo. Eu, de certa forma, já me sentia em casa. Tomei meu café e esperei que a Irmã Gloria me mandasse para as hortas, no entanto, ela me mandou para o conforto da cozinha. Lá eu trabalhava sentada descascando ou picando verduras, assim a manhã passou sem que eu me desse conta; à tarde, depois do almoço, Irmã Gloria me levou para conversar com a Madre, aquilo não me parecia bom, e não era.

A Madre me esperava sentada em sua cadeira de rainha, a janela apontava uma tarde ensolarada, eu estava meio acanhada, sem saber direito o que me esperava. A Madre deu permissão para que eu entrasse e me sentasse em frente a ela, ela me analisou por alguns segundos.

— Temos planos para você, Sarah, achamos que você tem um espírito especial. Já estamos observando você há alguns dias, sua resistência a dias sem comer, sua disposição para horas de trabalho ao sol, você sempre sozinha em sua fé, sem choros ou arrependimentos, você está a fazer milagres...

— Não! — quase gritei quando interrompi a Madre. — Eu sou normal, não há nada de santo em mim, já expliquei que dormi enquanto rezava. Eu tenho tanta força quanto qualquer uma aqui, por vezes choro em minha cama, e só Deus sabe o quanto queria voltar pra perto dos meus pais. — Eu estava chorando e nem percebi.

— Calma, Sarah, estamos lhe dando a oportunidade de fazer uma história perante a igreja, ser mais que uma simples freira, você precisa pensar nisso.

— Tá bem — disse, tentando controlar minha respiração.

A Madre continuou a falar:

— Existe um convento especial, mais confortável que esse. Nele, existem pessoas que vão ajudar você a usar esse seu dom, estamos esperançosas que eles aceitem você, já mandei uma carta contando tudo ao seu respeito, fica na Argentina.

Aquilo foi muito para mim. Meu chão pareceu desaparecer, me senti sendo engolida por uma onda de medo, as paredes andaram em minha direção, o ar que me mantinha calma estava me sufocando, eu precisava me acalmar, mas em minha cabeça só via muros grandes me prendendo, jaulas enormes me impedido de ver a luz do dia; eu estava tendo minha segunda crise de pânico, e a Madre não iria me ajudar. Eu precisava sair dali o mais rápido possível.

— Posso ir, Madre? — falei com dificuldade, pois minha boca estava seca.

A Madre me observava inquieta, talvez ela estivesse pensando que eu estava feliz com aquilo ou sei lá. Ela nunca foi alguém que se pudesse ler, talvez aquele fosse o dom dela.

— Você está bem?

— Estou, um pouco surpresa apenas...

— Isso é bom, vá e pense em tudo, sinta-se feliz por ser especial — ela disse animada.

— Com sua licença.

Deixei a sala me esforçando para andar normalmente, mas eu estava insegura quanto aos meus passos. Minha boca estava seca, e minhas pernas cambaleavam, eu me sentia sem ar, foi então que me lembrei de Lex e da crise no carro, entrei em uma daqueles quartos que, àquele horário estavam vazios, me agachei perto da cama, fechei bem os olhos e me pus a respirar fundo.

Em minha cabeça o Lex falava docemente “respira, Sarah”.

A crise durou pouco mais de vinte minutos. Quando percebi que o meu coração estava voltando a bater normalmente e que minha respiração se normalizava, senti uma vontade enorme de rezar, então eu o fiz. Quando me sentia insegura, eu rezava, era uma forma mais que eficiente de ficar bem. Sempre funciona, mesmo quando não se sabe rezar, o simples fato de pedir ajuda a Deus, muda toda a situação.

Mais forte e disposta, eu criei coragem e saí do quarto, Irmã Gloria estava à porta da Madre, seus olhos se animaram quando me viram, eles deveriam estar à minha procura.

— Procuramos você por toda a parte, porque se escondeu, menina?

— Não me senti bem, me perdoa

Irmã Gloria informou sobre mim às demais, pensei que seria chamada pela Madre novamente, mas ao invés disso, elas apenas me mandaram para o quarto, e aquele foi um castigo para mim. Deitada em meu leito, minha cabeça pensava apenas na hipótese de ir pra longe dali, me doía pensar em deixar a escola, a Lidia, a Linda, meus amigos novos, mas o nome que mais vinha em minha cabeça era Lex. Eu repetia para mim, “ele é um sedutor, namora uma garota que não tem nem dezessete anos, é arrogante e já deixou bem claro o que pensa sobre você, Sarah”, então eu pensava nele, nos olhos expressivos que por vezes me olhavam com raiva, na boca rosada, em como seria um beijo dele, nos braços fortes que me abraçavam mesmo sem vontade. Lex era mais do que poderia querer de um homem, então eu percebi que eu precisava mudar todos os meus conceitos e esquecer aquilo.

Ao cair da noite, depois que tudo silenciou, ao sair para as aulas, me peguei pensando se eu o veria aquela noite

Eu havia deixado o carro próximo ao castelo em um canto escondido, por ali era muito difícil a passagem de pessoas estranha, então o opalão estava seguro. Eu gostava de dirigir, eu gostava de correr, me imaginei dirigindo o carro do Lex e, no mesmo momento, me senti muito extravagante, aquilo não era o tipo de coisa que eu teria, e eu estava certa. Estacionei o carro no lugar de sempre. Lidia me esperava. Ela estava agitada, correu para perto de mim assim que me viu e começou a falar sem parar. Eu não estava entendo nada.

— Calma, fala devagar! — eu disse.

Ela se escorou no carro e respirou fundo.

— O Lex esteve atrás de você por todo o fim de semana, ele voltou à festa aquela a noite, a Paula, dona da festa, me ligou falando. Ele passou em nosso dormitório e percebeu que você não ia dormir lá, eu falei que você tinha ido pra casa dos seus pais.

— Dos meus pais? — Fiquei aflita

— Sim, eu esqueci a Linda. Ah, Sarah, o que você fez com ele? Será que é muito pra você passar despercebida? — choramingou

— Eu não fiz nada, apenas ajudei a namorada dele, eu não entendo, Lidia.

— Você tem que ir lá, ver o que aconteceu.

— Não eu não tenho não — interrompi. — Eu não lhe fiz mal algum, sou uma boa aluna, sigo todas as regras, fora desse campus ele não tem que se meter em minha vida, agora vamos dançar e esquece ele.

Por dentro, eu não estava tão confiante, mas Lidia não precisava saber disso, me troquei ali mesmo no carro que vivia cheio de roupas e apetrechos. Andamos apressadas para não entrarmos atrasadas na aula da Linda. Todos já estavam em sala, e ali todos pareciam felizes e despreocupados como se não houvesse problemas. Deixei toda aquela história do lado de fora da porta.

Linda fazia as aulas serem exaustivas, começava por longos exercícios na “barre” e “barra á terre”, depois disso, ela emendava e sempre nos surpreendia com um passo novo. Nos ajudava até nos biquinhos para caprichar no francês.

Eu não estava em uma posição muito confortável quando ele chegou, encontrava-me deitada tentando não sentir dor enquanto Linda excitava a musculatura dos meus pés. Lex pôs-se em pé sobre mim, ele estava sereno, usava terno, parecia um príncipe, fiquei ali por segundos admirando aquele monumento, esqueci até a dor nos pés.

— Preciso falar com você — disse e saiu da sala.

Com todos me olhando, eu me levantei e fui atrás dele. Avistei-o saindo no corredor principal. Quando o alcancei, já estava na rua, na praça que fica em frente ao campus.

Lex tirou a gravata e o paletó e jogou de qualquer jeito no banco. Seu humor tinha mudado drasticamente. Quanto a mim, estava tranquila e feliz por vê-lo.

— Você quase matou a Allegra? — falou, mantendo a calma.

— Eu? — falei assustada.

— Sim, você quando resolveu sair com um cara de dezessete anos, mas tudo bem pra você...

— E você que sai com uma garota de dezesseis, seu sedutor indecente.

— O quê?

— Todas aqui sabem que você namora a Allegra...

— A Allegra é minha filha — ele gritou. Eu me sentei sem saber o que falar, ele, no entanto continuou: — Ela é filha do meu irmão que morreu, mas eu que os criei.

— Eu não sabia, mas ainda assim não entendo por que que eu quase a matei.

— Ela ouviu você dizendo que sai com o Caíque, e ela é namorada dele, ou era, não sei mais — disse desanimado.

— Que merda! — quase gritei. — Olha a confusão que você fez, por sua culpa eu falei que saía com aquele garoto

— Minha culpa? — Ele estava muito bravo

— Sim, sua culpa. Se você não ficasse andando com aquela mulher perfeita e não falasse para mim coisas como “encontre alguém à sua altura”, eu nunca teria me sentido um lixo, e nunca teria inventado que estava saindo com o cara bonitão da sala — terminei a frase envergonhada.

— Você mentiu? Eu odeio mentiras, ela terminou com ele, ela bebeu porque você mentiu.

— Eu já sei, já estou me sentindo a pior pessoa do mundo, mas não posso mudar isso — interrompi. — Eu não sabia, tá bem? Eu nunca falei com esse cara até a festa. — Eu não aguentei e comecei a chorar. Lex mudou de bravo para preocupado, se aproximou e me abraçou. — Me solta!

Livrei-me de seus braços, não queria que ninguém tivesse pena de mim. Eu errei, fiz uma coisa que nunca imaginei que poderia fazer, magoei duas pessoas com uma mentira, não havia nada que eu pudesse fazer para mudar aquilo, mesmo se eu pedisse desculpa para os dois, aquela sexta-feira ficaria gravada em minha memória para sempre, seria parte do meu passado para sempre. Eu estava envergonhada e muito infeliz.

Até hoje me sinto mal por aquilo. Falar a verdade pode evitar muito arrependimento, mesmo que, na hora, a verdade te envergonhe, lá na frente ela de honrará.

— Onde você estava todo o fim de semana? Não há registro dos seus pais em sua ficha, onde você trabalha que se ausenta durante todo o dia? Por que você não sai da minha cabeça?

A última pergunta saiu baixinha, quase num sussurro. Eu fiquei parada sem saber o que fazer com aquelas informações. Ele poderia estar até pensando em mim, mas junto com aquilo viria toda uma história, eu teria que contar coisas que ele talvez não conseguisse entender. Então me dei conta de que, por mais que eu tentasse maquiar minha realidade com frases bonitas, a verdade mesmo era que eu estava mentindo. Mentindo para meus pais, mentindo para as freiras, mentindo para mim mesma, para o Lex, para todos. Eu era uma grande mentira. Olhei para Lex; ele estava me olhando, esperando respostas que eu não podia dar.

— Minha vida fora daqui não lhe diz respeito.

Ele não esperava — ou esperava, não sei — por aquela resposta, e ficou lá parado, me olhando, enquanto eu me afastava.

Enquanto eu caminhava, as lágrimas escorriam em meu rosto. De repente, eu queria estar no castelo, me esconder de toda aquela vergonha e todas aquelas mentiras. Eu me senti intrusa na escola, como se eu estivesse roubando o lugar de alguém, talvez eu não devesse estar ali, então tomei a decisão mais difícil que eu poderia tomar: eu deixaria a escola naquela noite. Eu não estaria deixando a dança, afinal, meu pequeno quarto sempre me permitiu fazer lindas coreografias, eu poderia dançar em qualquer lugar, menos ali, porque vivendo duas vidas eu não tinha tempo para nenhuma, eu não conhecia as pessoas de verdade, não existiam laços que me unissem a ninguém. Eu tinha a Lidia, mas havia muito tempo que eu não tinha tempo pra ter longas conversas com ela, eu mal sabia o que ela fazia durante o dia, a mesma coisa se aplicava a Linda. Fazendo aquilo eu não estava fazendo ninguém feliz, nem a mim mesma.

Encontrei a Allegra no segundo andar na sala de interatividade, não foi surpresa o Caíque estava com ela, os dois trocavam carícias e se beijavam, eu estava disposta a pedir desculpas, mas não conseguia imaginar como eles iriam me receber. Tive medo e, com certeza, as minhas desculpas não fariam diferença na vida deles. Eles pareciam já ter acertado todo o estrago que minha mentira havia causado, deixar que me humilhassem não os faria mais felizes, e muito menos a mim.

Observei os dois por mais um tempo, então fui embora.

Lidia me deixou na frente do castelo, eu tentei ficar normal, contei sobre o mal-entendido que havia acontecido, mas não dei nenhuma importância à história, assim, Lidia se deu por satisfeita e mudou de assunto.

— Você está triste — ela falou.

— Tô envergonhada.

Ela segurou em minha mão e voltou a atenção para a estrada, quando o carro passou, eu a abracei forte, ela retribuiu. Se ela soubesse que eu estava me despedindo, se ela conseguisse imaginar o tamanho da tristeza que meu coração carregava...

Entrei no quarto e soube, naquele instante, que eu não dormiria, então desci para a capela e me pus a rezar. Eu chorava, pedia, agradecia, estava tudo tão difícil aquele dia. Só hoje percebo que, na verdade, tudo estava muito fácil. Senti uma presença entrar na capela, me virei e me deparei com a Irmã Gloria. Ela me encarava, não sei se brava ou se curiosa, me levantei fui até ela e segurei suas mãos.

— Eu quero ir pra Argentina, Irmã. — Irmã Gloria sorriu. — Antes, tenho que contar-lhe algumas coisas

Ali, na penumbra da capela, eu contei tudo o que eu havia feito durante todos aqueles meses.